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Guerra e Paz
(volume ii - Quinta parte)

Leon Tolstoi

Capítulo XV

Já tarde, ao regressar a casa. Sónia entrou no quarto de Natacha e com grande surpresa sua foi encontrá-la a dormir num canapé, toda vestida. Na mesa, a seu lado, estava a carta aberta de Anatole. Sónia pegou nela pôs-se a ler. Enquanto a lia ia olhando para Natacha adormecida, como que a procurar no seu rosto a explicação do que lia e sem conseguir encontrá-la. O rosto dela respirava serenidade, felicidade e doçura. Levando as mãos ao peito para não sufocar. Sónia, pálida e trémula de emoção e receio, deixou-se cair numa cadeira, rompendo em soluços.

«E eu não dei por coisa alguma. Como puderam as coisas chegar a este ponto? Teria ela deixado de gostar do príncipe André? E como pôde consentir isto a Kuraguine? Não há dúvida de que é um impostor e um miserável. Que dirá Nicolau, o nobre, o gentil Nicolau, quando vier a saber? Agora já compreendo o que queria dizer aquele rosto transtornado, decidido a tudo, nada natural, que ela tinha nestes últimos dias», dizia Sónia de si para consigo. «Mas não, não o pode amar. Naturalmente abriu a carta sem saber de quem vinha. É impossível que se não tivesse sentido ofendida. Não pode fazer uma coisa destas!» Sónia enxugou as lágrimas e aproximou-se de Natacha, examinando-a mais uma vez.

- Natacha - chamou muito baixo.

Natacha acordou e viu Sónia.

- Já voltaste? E, num destes acessos de ternura que se costumam ter ao acordar, lançou-se nos braços da amiga. Ao ver, porém, a emoção que se pintava no rosto de Sónia. Natacha perturbou-se também e mostrou-se desconfiada.

- Sónia, tu leste a carta? - perguntou ela.

- Li - murmurou Sónia.

Natacha sorriu vitoriosa.

- Oh! Sónia, não posso, não posso mais esconder-te... Sabes? Amamo-nos!... Sónia querida, escreve-me... Sónia... Sónia, como se não percebesse o que ouvia, olhou para ela com os olhos muito abertos.

- E Bolkonski? - interrogou.

- Oh!. Sónia, oh!, se tu pudesses saber como sou feliz! - exclamou Natacha. - Mas se tu não sabes o que é o amor...

- Mas, então, Natacha, tudo acabou com o outro? Natacha olhava para ela, com os olhos muito abertos, como se não compreendesse.

- Então rompeste com o príncipe André? - Oh!, nada percebes. Não digas tolices. Ouve... - respondeu Natacha, com impaciência.

- Não, não posso acreditar - repetiu Sónia. - Confesso que não compreendo. Quer dizer, tu, durante um ano inteiro, gostaste de um homem, e de repente... Um homem que tu mal viste por duas ou três vezes. Natacha, não acredito, tu estás a brincar. Em três dias esqueceres tudo e...

- Três dias... - exclamou Natacha. - Tenho a impressão de que o amo há cem anos. Parece-me que nunca amei alguém antes dele. Não podes compreender... Sónia, vem cá, senta-te ao pé de mim. - E estreitou-a nos braços, depondo-lho um beijo na cara. - Tinha ouvido dizer que estas - coisas acontecem, e com certeza também ouviste dizer o mesmo, mas só agora me foi dado sentir um amor assim. Oh!, é muito diferente do outro. Assim que o vi, senti ser aquele o meu senhor e eu a sua escrava, senti que não podia deixar de o amar. Sim, sou a sua escrava! Pode mandar o que quiser, que estou pronta a obedecer. Não podes compreender. Mas, diz-me, que posso eu fazer, que posso eu fazer. Sónia? - acrescentou com uma expressão de felicidade a que se misturava qualquer coisa de receoso.

- Pensa no que fazes - tornou Sónia. - Eu não posso deixar as coisas assim. Estas cartas recebidas a ocultas... Como pudeste consentir? - continuou com um horror e uma repulsa impossíveis de dissimular.

- Já te disse - replicou Natacha. - Deixei de ter vontade. Pois não compreendes? Amo-o! - Não consentirei, vou contar tudo! - exclamou Sónia, rompendo em soluços.

- Oh, meu Deus!, que estás a dizer?... Se contares alguma coisa considero-te minha inimiga. É que me queres mal, é que queres que nos separem...

Ao ver o pânico de que Natacha fora tomada. Sónia chorou lágrimas de vergonha e compaixão pela amiga.

- Que houve então entre vocês? - perguntou. - Que te disse ele? Porque não vem ele a nossa casa? Natacha não respondeu à pergunta.

- Por amor de Deus. Sónia, nada digas a ninguém, não me faças sofrer - implorou ela. - Lembra-te de que ninguém se deve meter nestas coisas. Confessei-te...

- Porquê todo esse mistério? Porque não vem ele a nossa casa? Porque não pede ele directamente a tua mão? Realmente, e príncipe André deu-te plena liberdade para decidires, caso esta oportunidade surgisse. Mas numa coisa eu não posso acreditar. Já pensaste. Natacha, no que podem ser essas «razões secretas»? Natacha fitou em Sónia uns olhos assombrados. Era, evidentemente, a primeira vez que esta pergunta lhe vinha ao espírito, e na verdade não sabia responder-lhe.

- Não sei que razões serão essas. Mas devemos crer que as haja! Sónia suspirou e abanou a cabeça com desconfiança.

- Se há razões... - principiou ela.

Natacha, adivinhando as dúvidas da amiga, interrompeu-a, assustada.

- Sónia, não devemos duvidar dele! Não devemos, não devemos, compreendes? - exclamou.

- Gosta de ti? - Se gosta de mim? - redarguiu Natacha com um sorriso de comiseração. - Não leste a carta dele, não a leste? - E se ele não fosse um homem digno? - Ele? Um homem indigno? Se tu o conhecesses! - Se é um homem digno - voltou Sónia com energia -, deve dizer quais as suas intenções ou então deixar de te ver. E se tu não lho quiseres dizer, eu me encarregarei disso. Escrever-lhe-ei e contarei tudo ao pai.

- Não posso viver sem ele! - exclamou Natacha.

- Natacha, não te compreendo. Que estás a dizer? Lembra-te de teu pai, do Nicolau.

- De ninguém preciso, não quero saber de mais ninguém senão dele. Atreves-te a dizer que ele não é um homem digno? Não sabes que o amo? Sónia, vai-te embora! Não me quero zangar contigo. Vai-te, vai-te, por amor de Deus! Vai-te! Não vês que me fazes sofrer! - Natacha falava com ira e numa voz cheia de desespero. Sónia, não podendo suster as lágrimas, retirou-se.

Natacha sentou-se à sua mesa e sem um momento de reflexão escreveu à princesa Maria a carta que não fora capaz de redigir durante a manhã inteira. Em poucas palavras dizia-lhe que o mal-entendido entre elas acabara, que o príncipe André, ao partir, lhe dera plena liberdade e que ela aproveitava a sua generosidade. Pedia-lhe esquecesse o que se passara e lhe perdoasse se em alguma coisa a magoara, declarando-lhe que não podia ser mulher de seu irmão. Naquele momento tudo lhe parecia fácil, simples e claro.

Na sexta-feira deviam os Rostov regressar à aldeia, e na quarta-feira o conde dirigiu-se à sua propriedade nas imediações de Moscovo na companhia de um comprador.

No dia da partida do conde. Sónia e Natacha estavam convidadas para um jantar em casa das Karaguine, e foi Maria Dmitrievna quem as acompanhou. Natacha voltou a encontrar-se com Anatole, e Sónia pôde ver que ela lhe falava de maneira a não ser ouvida por mais alguém e que durante o jantar ainda lhe pareceu mais agitada do que antes. No regresso a casa. Natacha foi a primeira a dar a explicação que Sónia esperava da amiga.

- Vês. Sónia, eu bem dizia que só tinhas dito tolices a respeito dele - principiou ela, nesse tom insinuante habitual nas crianças quando querem que as elogiem. - Tivemos uma explicação.

- E então? Que te disse ele? Ainda bem que não estás zangada comigo. Natacha. Conta-me toda a verdade. Que te disse? Natacha ficou um momento pensativa.

- Oh. Sónia, se tu o conhecesses como eu o conheço! Disse-me... Perguntou-me em que pé estava o meu noivado com Bolkonski. Ficou tão contente quando soube que de mim dependia acabar com tudo...

Sónia soltou um profundo suspiro.

- Mas não acabaste com o Bolkonski - disse ela.

- E se eu realmente tivesse acabado? Se, efectivamente, tudo tivesse acabado com ele? Porque pensas tu tão mal de mim? - Não penso mal de ti. Mas não percebo...

- Espera. Sónia, já vais compreender tudo. Já vais ver como ele é. Não penses mal nem dele nem de mim.

- Não penso mal de ninguém. Gosto de toda a gente e tenho piedade de todos. Mas que hei-de eu fazer? Sónia não se deixava levar pelas meigas palavras de Natacha. Quanto mais mimados e insinuantes os modos a amiga, mais sério e grave era o seu rosto.

- Natacha - disse ela -, pediste-me que te não falasse nisso, de nada te falei e és tu a primeira a referires-te ao caso. Natacha, eu não tenho confiança nele. Que significa este mistério? - Outra vez! Outra vez! - É que tenho medo por ti. Natacha.

- De que tens medo? - Tenho medo de que te percas - disse Sónia, num tom enérgico, como se ela própria se sentisse assustada com o que estava a dizer.

O rosto de Natacha de novo assumiu uma expressão de ira.

- Pois bem, perder-me-ei, perder-me-ei, e quanto antes! Nada tens com isso. O mal será para mim e não para vós. Deixa-me. Deixa-me. Odeio-te! - Natacha! - exclamou Sónia, assustada.

- Odeio-te! Odeio-te! És minha inimiga para sempre! E Natacha saiu a correr do quarto.

Não voltou a falar mais com Sónia e evitou tornar a encontrá-la. Natacha vagueava pela casa com o seu ar perturbado e a sua expressão de pessoa culpada, ora fazendo isto, ora aquilo e sem acabar coisa alguma.

Embora isso lhe fosse penoso. Sónia não perdia de vista Natacha. Na véspera do dia em que o conde devia regressar notou que ela estivera toda a manhã à janela do salão como se aguardasse fosse o que fosse e viu-a fazer sinais a um militar que passava pela rua e lhe pareceu Anatole.

Então pôs-se a observá-la com mais atenção e reparou que durante o jantar e à noite Natacha tinha uma atitude estranha e pouco natural: respondia às perguntas a trouxe-mouxe, principiava frases que não acabava e ria a propósito de tudo.

Depois do chá viu uma criada muito atrapalhada esperando à porta do quarto de Natacha. Aguardou que ela entrasse, e, escutando à porta, veio a saber que uma nova carta chegara.

E de súbito Sónia compreendeu que Natacha ocultava um projecto inconfessável para aquela mesma noite. Bateu à porta, mas não a deixaram entrar.

«Vai fugir com ele», disse Sónia para si mesma. «Capaz disso é ela! Pareceu-me hoje especialmente triste, mas decidida. Ao despedir-se do pai chorou. Sim, estou convencida de que vai fugir com ele; que hei-de eu fazer?», interrogou-se a si própria, recordando todos os pormenores que podiam revelar o terrível projecto de Natacha. «O conde não está. Que hei-de fazer? Escrever uma carta a Kuraguine a pedir-lhe uma explicação? Quem o obrigaria a responder-me? Escrever ao Pedro, como me recomendou o príncipe André se viesse a dar-se alguma desgraça...? Mas não acabou ela com Bolkonski? Efectivamente, foi ontem à noite que ela respondeu à princesa Maria. E o meu tio não está em casa... » Dirigir-se a Maria Dmitrievna, que tinha tanta confiança em Natacha, parecia-lhe horrível. «Seja como for», dizia ela, de si para consigo, no corredor sombrio, «chegou agora o momento de mostrar que não esqueço o bem que eles me têm feito e que gosto de Nicolau. Ainda que tenha de passar três noites sem dormir, deste corredor é que eu não arredo pé, e hei-de evitar que ela saia daqui, nem que seja à força. Não consinto que tal vergonha cubra esta família!»

Capítulo XVI

Ultimamente Anatole fora viver para casa de Dolokov. O plano de rapto de Mademoiselle Rostov fora combinado e preparado por este havia vários dias e devia ser posto em execução na noite em que Sónia, escutando atrás da porta de Natacha, decidira não a perder de vista. Natacha prometera ir ter com Kuraguine às dez horas da noite, saindo pela escada de serviço. Anatole metê-la-ia numa troika preparada de antemão e conduzi-la-ia a umas sessenta verstas de Moscovo, ao povoado de Kamenka, onde um pope interdito os devia consorciar. Em Kamenka estaria preparada uma muda, que os levaria para mais longe, pela estrada de Varsóvia, donde, na mala-posta, seguiriam para o estrangeiro.

Anatole arranjara um passaporte, um livre-trânsito, dez mil rublos, que a irmã lhe havia emprestado, e mais outros dez mil, que conseguira por intermédio de Dolokov.

As testemunhas. Kvostikov, um antigo amanuense que Dolokov utilizava nas suas operações de jogador, e Makarine, hússar na reserva, homem franco e ingénuo, de uma ilimitada dedicação por Kuraguine, estavam sentadas na sala de espera tomando chá.

No amplo gabinete de Dolokov, revestido de alto a baixo de tapetes persas, peles de urso e armas, o dono da casa, de bechemé de viagem e botas altas, estava sentado diante da secretária aberta, onde havia contas e maços de notas. Anatole, com o uniforme desabotoado, andava de um lado para o outro, entre a sala onde estavam as testemunhas, atravessando o gabinete e um quarto das traseiras, onde o seu criado francês, ajudado por outros, preparava as bagagens. Dolokov contava o dinheiro e anotava as somas.

- Bom, então é preciso dar dois mil rublos ao Kvostikov.

- Pois dá-lhos - replicava Anatole.

- Makarka - assim tratava Makarine - de nada precisa. Era capaz de se deitar a afogar por ti. Bom, as contas estão prontas - disse Dolokov, mostrando-lhe a nota. Está bem? - Com certeza - replicou Anatole, que evidentemente nada ouvira e olhava vago na sua frente, sempre com o mesmo sorriso.

Dolokov fechou a secretária e dirigiu-se em tom zombeteiro a Anatole: - Sabes o que te digo? Ainda estás a tempo, deixa-te disso! - Imbecil! - exclamou Anatole. - Não digas tolices. Se soubesses... Só o Diabo sabe o que isto é! - Falo sério; deixa-te disso - insistiu Dolokov. - Estou a falar-te a sério. Estarás convencido de que se trata de uma brincadeira? - Lá estás tu outra vez. Vai para o diabo que te carregue! - exclamou Anatole, franzindo o sobrolho.- Palavra, não estou com disposição de te ouvir dizer tolices. - E fez menção de sair do gabinete.

Dolokov sorriu, ao mesmo tempo formalizado e condescendente.

- Escuta, peço-te pela última vez. Para que havia eu de estar a brincar contigo? Porventura te levantei algum obstáculo? Quem preparou tudo, te arranjou um pope, te obteve um passaporte, te conseguiu dinheiro? Eu.

- Pois bem, e estou-te agradecido. Julgas talvez que te não estou reconhecido? - E Anatole, suspirando, abraçou Dolokov.

- Ajudei-te, mas, no entanto, devo dizer-te a verdade: a aventura é perigosa, e, se nos pomos a pensar nela, é mesmo estúpida. Bom, tu rapta-la, está bem. Mas julgas que vão deixar as coisas assim? Hão-de acabar por saber que és casado. Serás chamado aos tribunais...

- Tolices, tolices - contraveio Anatole, contrariado. - Pois não te expliquei eu já, hem? - E Anatole, com a obstinação própria das pessoas pouco inteligentes sempre que tomam uma resolução, repetiu o raciocínio que lhe expusera já centos Ge vezes. - Já te expliquei. Aqui tens o que eu resolvi. - E, contando pelos dedos: - primeiro, se este casamento não é válido, não tenho qualquer responsabilidade; segundo, se é válido, estou-me nas tintas: ninguém saberá disso no estrangeiro. Não é assim? E nem mais uma palavra, nem mais uma palavra, nem mais uma palavra! - Ouve o que te digo: deixa-te disso! Vais enterrar-te...

- Vai para o Diabo! - vociferou Anatole, e com as mãos na cabeça saiu do gabinete, para voltar em seguida a sentar-se, escarranchado numa poltrona, mesmo diante do amigo. - Só o Diabo sabe o que isto é! Olha, repara como - ele bate - pegou-lhe na mão e pousou-a sobre o coração - Ah, que pés, meu caro, que olhar! Uma deusa! Dolokov, sorrindo friamente, olhava para ele com os seus belos olhos insolentes e brilhantes, divertido, evidentemente, à custa do amigo.

- Acaba-se o dinheiro, e depois? - Depois? - repetiu Anatole, repentinamente embaraçado diante de tal perspectiva. - Depois? Sei lá! E depois, deixa-te de tolices. São horas! - acrescentou, consultando o relógio.

Entrou no quarto das traseiras.

- Então, esta pronto? Que estão para aí a fazer? - gritou para os criados.

Dolokov guardou o dinheiro, chamou um dos criados, para que ele lhes trouxesse qualquer coisa para comer antes da abalada, e entrou na sala onde estavam Kvostikov e Malcarine.

Anatole, estiraçado no divã do gabinete, sorria, pensativo, enquanto sua bela boca ia balbuciando palavras ternas.

- Vem comer qualquer coisa! - gritou-lhe Dolokov da outra sala.

- Não tenho fome - replicou Anatole, sem deixar de sorrir.

- Anda, já aí está o Bálaga.

Anatole levantou-se do divã e entrou na sala de jantar. Bálaga era um afamado postilhão de troika, que havia cinco ou seis anos servia os dois amigos; recorriam frequentes vezes aos seus serviços. Mais de uma vez, quando o regimento de Anatole estava em Tvier, o trouxera de noite daquela cidade: chegava a Moscovo de madrugada e voltava a levá-lo na noite no dia seguinte. Por várias vezes conseguira livrar Dolokov dos apuros que o perseguiam. Passeara os dois pela cidade na companhia de ciganos e «senhoritas», como costumava dizer. E até, ao bater as ruas com eles, atropelara pessoas e sempre aqueles «senhores», como ele dizia, o tinham livrado de complicações. Que de cavalos ele rebentara já ao seu serviço! Muitas vezes o tinham emborrachado, enfrascando-o de champanhe e madeira, o seu vinho predilecto, e a verdade era estar no segredo de aventuras que a outros, que não a eles, de há muito os teriam atirado para a Sibéria. Convidavam frequentes vezes Bálaga para as suas orgias, obrigavam-no a dançar e a beber em casa dos ciganos e já lhe tinham passado pelas mãos muitos milhares de rublos. Arriscava a vida e a pele mais de vinte vezes por ano para lhes ser agradável e já rebentara cavalos que o dinheiro que eles lho haviam dado, a ganhar não pagava de modo algum. Mas gostava deles à sua maneira; morria por aquelas corridas loucas, a dezoito verstas à hora, adorava fazer os cocheiros de praça virarem os pés por cima da cabeça e esmagar os peões nas ruas de Moscovo, lançando-se depois à desfilada. Gostava de ouvir vozes avinhadas gritar-lhe, frenéticas: «Mais depressa! Mais depressa!», quando já lhe não era possível ir mais veloz. O que ele gostava de chicotear a nuca dos camponeses que, mais mortos do que vivos, se não voltavam a tempo! «São uns senhores às direitas», dizia de si para consigo.

Por seu lado, tanto Dolokov como Anatole tinham Bálaga em alta conta, grande mão de rédea, que era, e em matéria de gosto afinavam uns pelos outros. Quando se tratava de outras pessoas, fazia os seus preços, pedia vinte e cinco rublos por uma corrida de duas horas, sendo raro também ser ele a conduzir quando eram outros os fregueses, e nesse caso mandava um dos seus moços. Com «aqueles senhores», porém, como costumava dizer, era ele quem aparecia em carne e osso e nunca pedia fosse o que fosse. Quando sabia pelos criados que eles tinham dinheiro, coisa que acontecia urna vez de dois em dois ou de três em três meses, aparecia pela manhã, sem ter bebido, e pedia-lhes que o livrassem de apuros. Então «aqueles senhores» mandavam-no sempre sentar.

«Acuda-me, meu paizinho Fiodor Ivanovitch», ou então: «Excelências, estou sem cavalos. Tenho de ir à feira: emprestem-me o dinheiro que puderem.» Anatole e Dolokov, quando abonados, davam-lhe sempre mil ou dois mil rublos.

Bálaga era um camponês dos seus vinte e seis anos, louro, corado, de pescoço vermelho e cheio, membrudo, de nariz arregaçado, olhos vivos e uma barbicha curta. Usava cafetã azul com forro de seda por cima da peliça, Benzeu-se ao passar pelo recanto dos ícones e aproximou-se de Dolokov, estendendo-lhe a mão negra.

- Boas noites. Fiodor Ivanovitch! - disse, inclinando-se.

- Boas noites, irmão! Ora aqui está ele! - Boas noites. Excelência - repetiu, para Anatole, que acabava de entrar, estendendo-lhe igualmente a mão.

- Ouve. Bálaga - disse-lhe Anatole, batendo-lhe no ombro. És realmente meu amigo? Então, presta-me um serviço... Que cavalos tens tu? Hem? - Aqueles que me mandou trazer, os seus, os fogosos.

- Então, ouve. Bálaga! Arrebenta a tua troika, mas quero que me ponhas lá em três horas, hem! - Se arrebento os cavalos, como havemos de lá chegar? - observou Bálaga, malicioso.

- Deixa-te de graças ou apanhas dois estalos! - gritou Anatole, subitamente, com os olhos fora das órbitas.

- Porque não hei-de brincar? - volveu o cocheiro, sorrindo. - Já alguma vez disse que não a estes senhores? Enquanto os cavalos puderem, está visto.

- Bom! - exclamou Anatole - Vamos, senta-te.

- Senta-te, não ouves? - insistiu Dolokov.

- Estou bem de pé, Fiodor Ivanovitch.

- Tolice! Senta-te e bebe - voltou Anatole, enchendo-lhe um copázio de madeira.

Ao ver o vinho os olhos do cocheiro coriscaram. Primeiro recusou, por cortesia, e depois bebeu de um trago, limpando os beiços com um tabaqueiro de seda vermelha que trazia no fundo do boné.

- Então quando abalamos, Excelência? - Pois - imediatamente - disse Anatole, consultando o relógio. - E toma tento. Bálaga, hem! É preciso chegar a horas.

- Depende da partida. Se estivermos com sorte... E porque não havemos nós de chegar a horas? - tomou Bálaga. - Pois não viemos uma vez de Tvier em sete horas? Lembras-te. Excelência? - Sim, é verdade, uma vez, pelo Natal, viemos de Tvicr - disse Anatole sorrindo. Lembrava-se muito bem. E, voltando-se para Makarine, que o olhava cheio de devoção, de olhos muito abertos. - Não calculas. Makarka, até nos cortava a respiração, tão depressa vínhamos. A certa altura deparou-se-nos um comboio de carros: passámos por cima de duas galeras. Que te parece? - Também aquilo é que eram cavalos! - prosseguiu Bálaga, e, dirigindo-se a Dolokov: - Tinha atrelado dois animais novos ao meu alazão claro. Acredita. Fiodor Ivanovitch, aqueles diabos fizeram de uma tirada sessenta verstas. Não havia quem os segurasse. Tinha as mãos dormentes. Gelava que era um louvar a Deus! Acabei por abandonar as rédeas. Pegue nelas. Excelência. Não podia mais e deixei-me cair no fundo do trenó. Não só não era preciso tocá-los, como custava a ter mão neles. Aqueles diabos fizeram o percurso em três horas! Só o da esquerda se foi abaixo.

Capítulo XVII

Anatole desapareceu, voltando daí a pouco com uma peliça cingida à cintura por uma correia com fivela de prata, um gorro de zibelina posto gaiatamente à banda e que muito bem lhe ficava ao rosto. Depois de passar os olhos pelo espelho e na postura em que se mirara postou-se diante de Dolokov e bebeu de um trago um copo de vinho.

- Bom. Fédia, adeus! Obrigado por tudo. Adeus! - exclamou. - Camaradas, amigos da minha mocidade, vamos - acrescentou, pensativo, dirigindo-se a Makarine e aos outros- Adeus! Embora todos o acompanhassem. Anatole queria dar um tom solene e comovido àquela despedida. Falava alto e devagar, enchendo o peito e abanando uma perna.

- Vamos beber todos, tu também. Bálaga. Camaradas, amigos da minha mocidade, passámos juntos muitos anos e muita loucura fizemos. Quando nos tornaremos a ver? Vou para o estrangeiro. Adeus, rapazes! Levámo-la direita! A vossa saúde! Bebeu de um trago e jogou o copo ao chão.

- A sua saúde! - disse Bálaga, virando também o seu copo e limpando a boca com o tabaqueiro.

Makarine, os olhos rasos de lágrimas, abraçou-se a Anatole.

- Oh, príncipe! Custa-me tanto separar de ti - murmurou.

- Vamos! A caminho! - comandou Anatole.

Bálaga ia sair.

- Espera! Um momento! - interrompeu Anatole. - Fecha a porta, sentemo-nos todos. Ali, assim.

Fecharam a porta e toda a gente se sentou.

- E agora, a caminho, rapazes! - exclamou Anatole, erguendo-se.

Joseph, o criado, entregou-lhe uma maleta e o sabre e todos saíram para o vestíbulo.

- Onde está a peliça? - perguntou Dolokov. - Eh! Ignatka! Vai num rufo pedir a peliça a Matriona Matvievna, uma rica zibelina. Sim, eu sei como estas coisas se fazem, os raptos - acrescentou, piscando o olho- A pequena vai sair de casa, mais morta do que viva, tal como está. Basta um pequeno atraso e lá vêm as lágrimas, o papá e a mamã e ela toda a tremer de frio e a querer voltar para casa... Mas tu embrulha-la logo ali na peliça e mete-la no trenó.

Um lacaio veio com um casaco de mulher de pele de raposa.

- Imbecil! Eu não te disse que era de zibelina? Eh. Matrioshka! A capa de zibelina! - gritou numa voz tão forte que ressoou por toda a casa.

Uma linda cigana, magra e pálida, de olhos pretos, muito brilhantes, e caracóis negros cheios de reflexos, como a asa de um corvo, um xale vermelho pelas costas, apareceu com a capa de zibelina.

- Julgas que tenho pena dela? Toma-a, leva-a - disse, visivelmente intimidada diante do amo e cheia de pena pela perda da peliça.

Dolokov, sem lhe responder, pegou na capa, assentou-a nas costas de Matrioshka, e embrulhou-a nela.

- Assim, e depois assim - disse, levantando a gola de sorte que só lhe ficava de fora parte da cara. - E depois assim, vês? - E obrigou Anatole a espreitar pela abertura através da qual se via brilhar o sorriso da cigana.

- Bom, adeus. Matrioshka - disse Anatole, beijando-a. Acabaram-se todas as minhas loucuras aqui! Diz adeus por mim a Stiochka. Vamos, adeus, adeus. Matrioshka. Deseja-me sorte! - Que Deus lhe dê todas as venturas, príncipe! - murmurou Matrioshka, com o seu sotaque cigano.

A porta estavam duas troikas com dois postilhões a postos. Bálaga subiu para a primeira e, erguendo os cotovelos, apanhou as rédeas sem pressas. Anatole e Dolokov sentaram-se na sua troika. Makarine. Kvostikov e os criados tomaram lugar na outra.

- Tudo pronto? - perguntou Bálaga. - Avante! - gritou enrolando as rédeas em volta do braço, e o trenó despediu a galope pela Avenida Nikitski.

- Oh! Oh!... Avante!... Oh! Oh!... - gritavam Bálaga e o rapaz sentado a seu lado.

Na Praça Arbatskaia a troika abalroou outro carro. Ouviu-se um estampido, depois um grito e ela aí vai direita ao seu destino. Depois de ter percorrido de ponta a ponta Podnovinski. Bálaga refreou os cavalos e, voltando para trás, foi parar na encruzilhada da Rua Staraia Koniushina.

O moço saltou do assento para pegar no bridão dos cavalos. Anatole e Dolokov meteram pelo passeio. Ao chegar junto do portão. Dolokov assobiou. Respondeu-lhe outro assobio e à porta apareceu uma criada.

- Entre para o pátio. Aqui podem vê-lo. A menina já aí vem - disse ela.

Dolokov ficou junto do portão. Anatole seguiu a criada, contornou o recanto do pátio e galgou os degraus da escada. Gavrila, um homenzarrão que tratava dos cavalos de Maria Dmitrievna, saiu ao encontro de Anatole.

- A senhora quer falar consigo, faça favor - disse, numa voz de baixo, cortando-lhe o caminho.

- Que senhora? Quem és tu? - perguntou Anatole, numa voz entrecortada.

- Faça favor, tenho ordens para isso.

- Kuraguine! Para trás! - gritou Dolokov. - Fomos traídos! Raspa-te! Dolokov, que ficara no portão, lutava com o porteiro, que tentava fechar a porta para não deixar sair Anatole. Apelando para todas as suas forças, conseguiu empurrar o porteiro. Depois, agarrando um braço de Anatole, que aparecera, correndo, puxou-o para a rua e ambos deram às de vila-diogo em direcção à troika que os esperava.

Capítulo XVIII

Maria Dmitrievna encontrara Sónia a chorar no corredor e obrigara-a a contar-lhe tudo. Depois de apanhar a carta de Natacha e de a ter lido, apresentou-se no quarto dela com o papel na mão.

- Miserável! Desavergonhada! - gritou-lhe. - Não quero ouvir nem uma palavra.

Empurrando Natacha, que, assustada, olhava para ela com os olhos enxutos, fechou-a à chave, e depois de ter dado ordens ao porteiro para deixar entrar as pessoas que aparecessem naquela noite, não as deixando, porém, sair, disse ao criado que lhas trouxesse à sua presença e sentou-se no salão à espera dos raptores.

Quando Gavrila lhe veio anunciar que eles tinham fugido, levantou-se; de sobrolho carregado e de mãos atrás das costas pôs-se a passear na sala, reflectindo sobre o que devia fazer.

À meia-noite, apalpando a chave na algibeira, apresentou-se no quarto de Natacha. Sónia estava no corredor, a soluçar.

- Maria Dmitrievna, deixe-me entrar consigo, peço-lhe! - suplicou.

Maria Dmitrievna abriu a porta sem lhe responder e entrou. «Que vergonha!... Que porcaria!... Debaixo do meu tecto... Miserável! Má filha!... Só tenho pena do pai! », dizia de si para consigo, procurando refrear a cólera que a tomava. «Embora não seja fácil, farei com que todos se calem e o conde nada há-de saber.» Entrou no quarto de Natacha num passo decidido.

Esta, estiraçada no divã, com a cabeça nas mãos, sem se mexer, continuava na posição em que Maria Dmitrievna a deixara.

- Muito bem, muito bonito! - exclamou ela. - Na minha casa, receber amantes na minha casa! Escusas de esconder! Ouve quando te falam! - Maria Dmitrievna tocou-lhe no braço. Ouve quando te falam. Portaste-te como uma desavergonhada! Eu bem sei o que devia fazer.., mas tenho pena de teu pai. Nada lhe direi.

Natacha não se mexeu, mas todo o seu corpo estremeceu. Soluços secos e convulsivos a sufocavam. Maria Dmitrievna trocou um olhar com Sónia e veio sentar-se ao lado dela.

- Ele teve sorte em escapar. Mas hei-de apanhá-lo - disse ela, na sua voz rude. - Ouves o que estou a dizer-te? Passou a grande mão pelo queixo de Natacha e obrigou-a a virar-se para ela. Maria Dmitrivena e Sónia ficaram aterradas com a expressão que lhe viram. Seus olhos estavam brilhantes e sem uma lágrima, os seus lábios cerrados, as suas faces cavadas.

- Deixem-me... Quero lá saber... Vou morrer... - murmurou, libertando-se, com um sacão, de Maria Dmitrievna e retomando a sua primeira postura.

- Natália!... - disse Maria Dmitrievna - Só quero o teu bem. Deixa-te estar deitada, deixa-te estar assim, não te tocarei, mas ouve... Não preciso de te dizer da culpabilidade que te cabe. Tu bem sabes. Mas o teu pai chega amanhã. Que lhe hei-de dizer? Hem! De novo estremeceu, abalada pelos soluços.

- Há-de sabê-lo, sim, e teu irmão, e teu noivo também! - Já não tenho noivo, acabei - gritou Natacha bruscamente.

- Tanto faz - prosseguiu Maria Dmitrievna.- Seja como for, hão-de saber tudo. Julgas que deixarão as coisas assim? E o teu pai, conheço-o muito bem... E se o desafiar para um duelo, vai ser bonito, hem? - Oh, deixe-me. Porque estragou tudo? Porquê? Quem lhe pediu? - gritou Natacha, soerguendo-se e olhando para Maria Dmitrievna com uns olhos irados.

- E tu, que querias tu fazer? - exclamou a pobre senhora, exaltando-se. - Tínhamos-te fechada, porventura? Quem o impedia de vir a nossa casa? Porque havia ele de te raptar como se fosses uma boémia? E se te tivesse raptado, julgas que o não encontrariam? Ou o teu pai, ou o teu irmão, ou o teu noivo... Um desavergonhado, um valdevinos, é o que ele é! - Vale mais que todos vós! - gritou Natacha, empertigando-se. - Se me não tivessem impedido... Oh, meu Deus! Porquê? Porquê? Sónia, porquê? Deixem-me! E rompeu a chorar com tanto desespero como só choram aqueles que se sentem a causa das suas próprias infelicidades. Maria Dmitrievna quis ainda dizer qualquer coisa, mas Natacha pôs-se a gritar: - Vão-se embora! Vão-se embora! Todos me odeiam, todos me detestam! - E voltou a deixar-se cair sobre o divã.

Maria Dmitrievna ainda esteve algum tempo a exortá-la, dizendo-lhe ser preciso ocultar tudo do conde e que ninguém saberia coisa alguma desde que Natacha prometesse esquecer e evitasse que qualquer coisa chegasse aos ouvidos fosse de quem fosse. Natacha não respondeu. Deixara de chorar, mas agora arrepios de febre a faziam estremecer. Maria Dmitrievna pôs-lhe uma almofada debaixo da cabeça, cobriu-a com dois cobertores e trouxe-lhe uma chávena de tília. Natacha, porém, continuava calada.

- Bom, deixemo-la dormir! - disse Maria Dmitrievna, retirando-se, persuadida de que Natacha adormecera.

Natacha não dormia porém, e os seus olhos, muito abertos, no rosto pálido, olhavam fixamente diante de si. Toda a noite esteve sem dormir, sem chorar, sem dizer nada a Sónia, que várias vezes se levantou para vigiá-la.

No dia seguinte, à hora do almoço, como prometera, chegou o conde Ilia Andreitch, de regresso das suas propriedades nas imediações de Moscovo. Vinha muito contente. Tudo ficara resolvido com o comprador e já nada o retinha em Moscovo e longe da condessa, de quem se sentia muito saudoso.

Maria Dmitrievna foi ao seu encontro e contou-lhe que a filha estivera muito doente na véspera, que mandara chamar o médico, mas que estava agora muito melhor. Natacha nessa manhã ficou no quarto. De lábios fechados e a tremer de frio, os olhos secos e fixos, permaneceu à janela, observando ansiosamente o vaivém dos transeuntes, e voltando-se, de súbito, sempre que alguém entrava no seu quarto. Aguardava, evidentemente, notícias de Anatole, esperava que ele se apresentasse pessoalmente ou lhe escrevesse.

Quando o conde entrou. Natacha estremeceu ao ouvir passos de homem, mas assim que o reconheceu a expressão tomou-se--lhe fria e teve mesmo um movimento de irritação. Nem sequer se levantou.

- Que tens, meu anjo, estás doente? - perguntou-lhe o pai.

Natacha ficou calada.

- Sim, estou doente - acabou por dizer.

Inquieto, o conde quis saber porque estava ela tão abatida e se acontecera alguma coisa entre ela e o noivo. Natacha garantira-lhe que nada acontecera, pedindo-lhe que se não atormentasse, e Maria Dmitrievna confirmou junto do conde as palavras de Natacha. Apesar de tudo, o conde, diante da doença simulada de Natacha e da expressão embaraçada de Sónia e Maria Dmitrievna, percebeu que alguma coisa de grave ocorrera durante a sua ausência. A verdade, porém, é que a, ideia de que poderia ter acontecido alguma coisa capaz de afectar a dignidade da sua filha preferida o assustava de tal modo, e tão amigo era da sua tranquilidade, que tratou de não fazer perguntas, persuadindo-se de que nada de anormal tinha ocorrido e limitando-se a lastimar que a doença de Natacha viesse retardar o seu regresso à aldeia.

Capítulo XIX

Pedro, desde que a mulher chegara a Moscovo, passava a vida a arranjar pretextos para sair de casa, a fim de não se ver obrigado a encontrar-se com ela. A impressão que lhe fizera Natacha, aquando da sua viagem, ainda mais concorrera para acelerar a realização dos seus propósitos. Dirigiu-se a Tvier, a casa da viúva de Osip Alexeievitch, que há muito lhe prometera confiar-lhe os papéis de seu defunto marido.

De regresso a Moscovo, entregaram-lhe uma carta de Maria Dmitrievna, que lhe pedia viesse a sua casa por causa de um assunto muito importante que dizia respeito a André Bolkonski e à noiva. Pedro procurava não ver Natacha. Para si mesmo dizia que ela lhe inspirava um sentimento mais vivo do que aquele que seria razoável na sua qualidade de homem casado e amigo do noivo. No entanto, o destino parecia comprazer-se em reuni-los a cada passo.

«Que terá acontecido? E que tenho eu a ver com isso?», cogitava ele enquanto se preparava para dirigir-se a casa de Maria Dmitrievna. «O que é preciso é que o André venha quanto mais depressa melhor e que eles tratem de se casar», pensou, já a caminho.

Ao passar pela Avenida de Tvier, alguém chamou-o.

- Pedro, já chegaste há muito tempo? - gritou-lhe uma voz conhecida. Levantou a cabeça. Num trenó tirado por dois cavalos cinzentos que levantavam nuvens de neve passaram junto dele Anatole e o seu inseparável camarada. Makarine. Anatole aprumava-se no assento, na clássica postura dos militares elegantes, o mento enterrado na gola de castor, a cabeça ligeiramente inclinada. Tinha a pele rosada e fresca, e o chapéu, com uma pluma branca, posto ao lado, deixava ver os cabelos frisados e cheios de brilhantina, salpicados de uma poeira de neve muito fina.

«Ora ali está um homem com juízo!», exclamou Pedro. «Não tem olhos para ver mais longe que o prazer do momento. Nada o preocupa e por isso passa a vida alegre, contente e tranquilo!» E olhou-o com inveja. «Que não daria eu para me parecer com ele?» No vestíbulo de Madame Akrosiuova, o criado, enquanto o ajudava a despir a peliça, disse-lhe que Maria Dmitrievna lhe pedia que subisse ao seu quarto.

Ao abrir a porta do salão viu Natacha sentada à, janela, de rosto afilado e pálido, com uma expressão dura e má. Olhou para ele, franzindo as sobrancelhas, e desapareceu, afectando uma reserva fria.

- Que aconteceu? - perguntou Pedro, ao entrar no quarto de Maria Dmitrievna.

- Lindas coisas! - exclamou ela. - Há cinquenta e oito anos que ando cá por este mundo e nunca tive ocasião de presenciar uma vergonha assim.

E depois de ter exigido de Pedro a sua palavra de honra de que não abriria a boca acerca do que ela lhe diria, contou-lhe que Natacha desfizera o casamento sem nada dizer à família e que a culpa era de Anatole Kuraguine, que a mulher de Pedro lhe apresentara e com quem Natacha pensava fugir, na ausência do pai, para com ele casar secretamente.

Pedro, de ombros encolhidos e a boca aberta, ouvia toda aquela história sem poder acreditar nos seus ouvidos. Pois quê, a noiva bem-amada do príncipe André, a encantadora Natacha Rostov, preferia a Bolkonski o imbecil do Anatole, homem casado aliás (Pedro estava a par do seu casamento secreto), e a tal ponto gostava dele que consentia que a raptasse? Eis o que Pedro não podia compreender nem admitir.

Não lhe era possível consentir que no seu espírito se associasse a simpática e encantadora figura de Natacha, que ele conhecia desde pequena, a tanta baixeza, a tanta estupidez, a tanta crueldade. Lembrou-se da sua própria mulher. «São todas iguais», dizia de si para consigo, pensando que, no fim de contas, nem só a ele cabia o triste privilégio de estar ligado a uma mulher desprezível. E no entanto vieram-lhe as lágrimas aos olhos ao lembrar-se do príncipe André, sofrendo pelo seu ferido orgulho. E quanto mais lastimava o amigo maior era o seu desprezo pela Natacha que havia momentos passara por ele afectando um ar de fria dignidade. Mal sabia ele que a alma de Natacha transbordava então de desespero, de vergonha, de humilhação, não sendo culpada de trazer afivelada aquela máscara fria e severa.

- Quê? Casar? - balbuciou Pedro. - Ele não pode casar-se, já é casado.

- Era o que faltava - suspirou Maria Dmitrievna. - É fresco, o menino! Que canalha! E aí está ela à espera, há dois dias que espera. Que ao menos deixe de esperar. É preciso que saiba.

Depois de tomar conhecimento dos pormenores do casamento de Anatole. Maria Dmitrievna aliviou a sua cólera, soltando violentas injúrias, e explicou a Pedro porque mandara chamá-lo. Receava que o conde ou mesmo Bolkonski, capaz de chegar de um momento para o outro, viessem a saber do caso, que ela, pela sua parte, estava disposta a esconder-lhes, e desafiassem Kuraguine para um duelo. Eis porque lhe rogava que pedisse em seu nome ao cunhado que saísse de Moscovo e que nunca mais ali aparecesse. Pedro prometeu-lhe que o faria, e só então se apercebeu do perigo que ameaçava ao mesmo tempo o velho conde. Nicolau e o príncipe André. Expôs-lhe, pois, em poucas palavras e com clareza o que queria dele e acompanhou-o ao salão.

- Cuidado, o conde de nada sabe. Finja nada saber - pediu-lhe ela. - Por mim, vou dizer a Natacha que escusa de esperar. E fica para jantar, se te apetece - acrescentou na sua grossa voz.

Pedro dirigiu-se ao velho conde, que parecia profundamente perturbado. Nessa mesma manhã Natacha dissera-lhe que desfizera o noivado com Bolkonski.

- Que desgraça, que desgraça, meu caro! - exclamou ele -, quando lhes falta a mãe. Não calcula a pena que tenho de ter feito esta viagem. Vou ser franco consigo. Pois não sabe? Despediu o noivo sem dizer coisa alguma a ninguém. Realmente nunca me entusiasmou muito este casamento. Sim, bem sei, é um homem às direitas, mas, pois não é verdade?, uma pessoa não pode ser feliz quando age contra a vontade de seu pai, e a Natacha não faltam pretendentes. Mas o que é certo é que isto já durava há muito, e dar semelhante passo sem consultar nem o pai nem a mãe!... E para aí está doente, só Deus sabe com quê! Ah, conde, tudo corre mal, tudo corre mal quando falta a mãe a uma filha...

Pedro, ao ver o conde tão comovido, procurou mudar de assunto, mas ele voltava sempre à sua preocupação.

- Natacha não passa bem de saúde. Está nos seus aposentos e queria falar consigo. Maria Dmitrievna está ao pé dela e também lhe queria falar. É verdade, como é amigo de Bolkonski, naturalmente quererá mandar-lhe algum recado - acrescentou o conde. - Meu Deus, meu Deus, e ia tudo tão bem! E, levando as mãos aos escassos cabelos que tinha ainda na cabeça, saiu do salão.

Maria Dmitrievna dissera a Natacha que Anatole já era casado. Esta não quisera acreditar em tal e pedira a Pedro que viesse junto dela confirmar o facto. Eis o que Sónia explicou a Pedro enquanto o acompanhava ao quarto de Natacha.

Natacha, pálida e de severa expressão, ao lado de Maria Dmitrievna, assim que o viu surgir no limiar da porta pousou nele uns olhos interrogativos em que se sentia brilhar a febre. Não teve um sorriso nem um movimento de cabeça. Limitou-se a fita-lo obstinadamente e no seu olhar apenas se lia uma pergunta: estava diante de um amigo ou de um inimigo, como todos os outros, no que dizia respeito a Anatole? Era evidente que Pedro, em si próprio, naquele momento, não existia para ela.

- Pedro sabe tudo - disse Maria Dmitrievna, apontando para ele. - Ele que diga se faltei à verdade.

Natacha, tal um animal perseguido, e já ferido, que vê aproximar cães e caçadores, olhava com uns olhos vagos e errantes.

- Natália Ilinitchna - principiou Pedro, baixando os, olhos, tomado de uma profunda piedade por ela e de um invencível desgosto pelo que se via obrigado a dizer. - Verdade ou mentira, isso deve-lhe ser indiferente, porque...

- Então não é verdade que está casado? - Sim, é verdade.

- Está casado, e há muito tempo? - insistiu ela. - Palavra de honra? Pedro deu-lhe a sua palavra de honra.

- Ainda cá está? - perguntou Natacha vivamente.

- Está. Acabo de o encontrar.

Natacha não teve forças para dizer mais e fez com a mão um gesto a suplicar que a deixassem.

Capítulo XX

Pedro não ficou para jantar; depois disto saiu do aposento e abalou. Andou por toda a cidade à procura de Anatole Kuraguine. Só pensar nele lhe fazia afluir o sangue ao coração e o deixava sem fôlego. Não estava nas montanhas, nem com os ciganos, nem em casa de Coraneno. Dirigiu-se ao clube. Ali tudo na mesma: os sócios que vinham jantar formavam vários grupos. Cumprimentaram Pedro e puseram-se a falar dos casos do dia.

Um criado, familiarizado com os hábitos de Bezukov, depois de lhe ter feito uma vénia, disse-lhe que a sua mesa estava reservada na salinha de jantar, que o príncipe Fulano se encontrava na biblioteca e que Sicrano ainda não chegara.

Um dos seus conhecidos, entre outras coisas triviais, perguntou-lhe se ouvira dizer que Mademoiselle Rostov fora raptada por Kuraguine, caso de que muito se falava em Moscovo, e se era verdade. Pedro replicou-lhe, rindo, ser um absurdo, pois acabava de sair de casa dos Rostov. A toda a gente perguntou por Anatole. Alguém disse-lhe que ele ainda não chegara, e houve também quem o informasse de que viria jantar com toda a certeza. Pedro observava com um estranho sentimento aquele agregado de pessoas tranquilas e indiferentes completamente alheias ao que se estava a passar na sua alma. Andou a vaguear pelos salões, aguardando que toda a gente chegasse, e, vendo que Anatole não aparecia, decidiu não jantar e voltar para casa.

Anatole naquele dia jantara em casa de Dolokov e conferenciara com ele acerca da maneira de reparar o que falhara. Parecia-lhe indispensável tornar a ver Mademoiselle Rostov. A noite dirigiu-se a casa da irmã para lhe falar na maneira de conseguir um encontro com Natacha. Quando Pedro, depois de ter percorrido debalde toda a cidade, voltou para casa, soube pelo criado que o príncipe Anatole Vassilievitch se encontrava com a condessa. O salão de Helena estava cheio.

Sem cumprimentar a mulher, a quem não via desde que voltara a Moscovo - mais do que nunca a odiava naquele momento -, Pedro penetrou no salão da condessa, viu Anatole e foi direito a ele.

- Ah. Pedro!... - exclamou a condessa, aproximando-se. Não imaginas o estado em que está Anatole...

Calou-se ao ver na atitude do marido, na sua cabeça baixa, nos seus olhos brilhantes, no seu passo enérgico, aqueles terríveis sinais de ira e violência que ela tão bem conhecia e cujos efeitos experimentara aquando do duelo com Dolokov.

- Onde a senhora estiver só há depravação e maldade - pronunciou Pedro. - Anatole, venha cá, preciso de lhe falar - acrescentou em francês.

Anatole olhou a irmã e levantou-se docilmente, disposto a seguir Pedro. Este, pegando-lhe por um braço, arrastou-o consigo para fora do salão.

- Como se atreve, na minha sala... - ia a dizer Helena, em voz baixa, mas Pedro saiu da sala sem lhe responder.

Anatole seguiu o cunhado com a sua arrogância habitual, embora houvesse inquietação nos traços do seu rosto.

Assim que entrou no gabinete. Pedro fechou a porta e dirigiu-se a Anatole sem olhar para ele.

- É verdade que prometeu casar com a condessa Rostov e que a quis raptar? - Mon cher - replicou Anatole em francês (foi em francês, de resto, que se travou todo o diálogo) - não me julgo obrigado a responder a perguntas formuladas nesse tom.

O rosto de Pedro, pálido até então, surgiu descomposto pelo furor. Agarrando Anatole, com as suas grossas mãos, pela gola do uniforme, pôs-se a sacudi-lo de um lado para o outro de tal maneira que um indizível terror se pintou na cara do rapaz.

- Se eu lhe disse que precisava de falar consigo... - repetia Pedro.

- Que é isto? Está doido! - exclamou Anatole, apalpando a gola, em que o botão arrancado pendia juntamente com um pedaço de pano.

- O senhor é um canalha, um bandido, não sei porque lhe não rebento a cabeça com isto - exclamou Pedro, exprimindo-se um pouco artificiosamente, pois falava em francês.

Pegara num bojudo pesa-papéis, erguera-o num gesto de ameaça e voltara a depô-lo sobre a mesa.

- Prometeu casar com ela? - Eu, eu, acho que não. De resto, não lhe prometi coisa alguma, visto que...

Pedro cortou-lhe a palavra: - Tem cartas dela? Tem cartas dela? - repetiu, aproximando-se dele.

Anatole fitou-o, e imediatamente, metendo a mão ao bolso, tirou a carteira.

Pedro pegou na carta que Anatole lhe estendia e, afastando a mesa, que o estorvava, deixou-se cair no divã.

- Não serei violento, por isso não tem nada a recear - disse, em resposta a um gesto receoso de Anatole. - Primeiro as cartas... - continuou como se repetisse de cor uma lição. - Depois... - acrescentou, após uma pausa, em seguida à qual se ergueu e se pôs a andar de um lado para o outro. - Em segundo lugar amanhã vai sair de Moscovo.

- Mas como hei-de poder...

- Em terceiro lugar - continuou Pedro sem lhe dar ouvidos -, a ninguém deve dizer uma palavra acerca do que se passou entre o senhor e a condessa. Bem sei que não o posso proibir, mas se ainda lhe resta um vislumbre de consciência...

Pedro continuou, em silêncio, a sua caminhada.

Anatole estava sentado à mesa, de sobrancelhas carregadas e mordendo os lábios.

- É impossível que o senhor não compreenda que independentemente dos seus prazeres pessoais há a felicidade e a tranquilidade das outras pessoas; é impossível que não compreenda que deita a perder uma vida inteira apenas porque lhe apetece divertir-se. Se isso lhe agrada, divirta-se com mulheres no género da minha, tem direito a isso: essas sabem perfeitamente o que o senhor pretende delas. Estão armadas contra o senhor pela mesma experiência da devassidão. Mas prometer casamento a uma donzela.., enganá-la.., raptá-la... Será possível que não compreenda que é vilania tão grande como bater num velho ou numa criança?! Pedro calou-se e fitou Anatole, já não com ira, mas interrogativamente.

- Não sei - disse Anatole, ganhando audácia à medida que Pedro dominava a sua cólera. - Não sei nem quero saber - prosseguiu, olhando-o e com um nervoso movimento do queixo -, mas o senhor disse-me coisas.., o senhor pronunciou a palavra covarde e ainda outras, palavras que eu, como um homem de honra, a ninguém posso admitir.

Pedro olhou-o com espanto, sem perceber onde ele queria chegar.

- Embora isto se tenha passado só entre nós - prosseguiu eu não posso...

- Quê? Está a exigir de mim uma reparação? - murmurou Pedro, em tom sarcástico.

- Pelo menos podia retirar as suas expressões! Se quer que cumpra as suas condições, hem? - Retiro-as, retiro-as - disse Pedro - e peço-lhe desculpa - acrescentou, lançando um olhar ao botão arrancado de Anatole. - E se tiver necessidade de dinheiro para a viagem...

Anatole sorriu. Este sorriso tímido e covarde, que Pedro conhecia por tê-lo visto na mulher, exasperou-o.

- Oh, raça vil e sem coração! - exclamou, saindo do gabinete.

No dia seguinte Anatole partia para Petersburgo.

Capítulo XXI

Pedro dirigiu-se a casa de Maria Dmitrievna para lhe comunicar que o seu desejo fora satisfeito, que Kuraguine saíra de Moscovo. Toda a gente lá em casa estava consternada e abatida. Natacha adoecera gravemente e Maria Dmitrievna contou em segredo a Pedro que naquela noite, quando ela soubera que Anatole era casado, tomara arsénico, que conseguira arranjar às escondidas. Depois de ter ingerido uma pequena dose, tão assustada ficou que foi acordar Sónia, a quem revelou o que fizera. Como haviam empregado a tempo os meios mais enérgicos, estava livre de perigo, mas tão fraca que era impossível pensar em levá-la para a aldeia e que tinham mandado vir a condessa. Pedro foi encontrar o conde compungido e Sónia desfeita em lágrimas, mas não pôde ver Natacha. Nesse dia jantou no clube. Por toda a parte se falava na tentativa de rapto de Mademoiselle Rostov, empenhando-se ele opiniosamente em refutar essa atoarda, garantindo a toda a gente que nada mais houvera além de um pedido de casamento da parte de seu cunhado, pedido que fora mal sucedido. Pedro pensava ser obrigação sua esconder a verdade, salvando, assim, a reputação de Natacha.

Esperava aterrorizado o regresso do príncipe André e todos os dias ia saber dele a casa do velho príncipe.

O príncipe Nicolau Andreievitch fora informado por Mademoiselle Bourienne do que se dizia na cidade e lera a carta que Natacha escrevera à princesa Maria considerando o noivo desobrigado da palavra dada. Parecia mais alegre do que habitualmente e aguardava, impaciente, a chegada do filho.

Alguns dias depois da partida de Anatole. Pedro recebeu um bilhete do príncipe André comunicando-lhe que regressara a Moscovo e pedindo-lhe que passasse por sua casa.

Assim que chegara fora o príncipe André informado pelo pai do teor da carta de Natacha à irmã, carta esta furtada à princesa Maria por Mademoiselle Bourienne e por ela entregue ao príncipe. Além disso o pai tivera o cuidado de lhe contar, consideravelmente ampliado, o que se dizia sobre o rapto de Natacha.

Pedro foi a casa do príncipe André na manhã seguinte ao dia da sua chegada. Julgando encontrá-lo num estado semelhante ao de Natacha, grande foi o seu espanto ao ouvir, no momento em que entrava no salão, a bem timbrada voz de André, que no seu gabinete contava, animado, uma intriga recente de Petersburgo. O velho príncipe e uma pessoa desconhecida interrompiam-no de quando em quando. Ao encontro de Pedro veio a princesa Maria. Num suspiro, apontou-lhe com os olhos a porta do quarto do irmão, procurando deste modo mostrar quanto sentia o desgosto de André, mas Pedro viu claramente na sua expressão que ela estava satisfeita com o que acontecera e com a maneira como ele recebera a notícia da traição da noiva.

- Disse que já contava com isso - observou ela. - Compreendo que o orgulho lhe não deixe exprimir o que sente, mas a verdade é que recebeu a notícia melhor do que eu esperava. Evidentemente que assim tinha de ser...

- Será possível que tudo tenha acabado? - perguntou Pedro.

A princesa Maria olhou-o surpreendida. Nem sequer compreendia que se pusesse o problema. Pedro penetrou no gabinete.

O príncipe André, à paisana, muito mudado, e naturalmente com melhor aspecto, mas com uma nova ruga entre as sobrancelhas, estava de pé diante do pai e do príncipe Mechtcherski e discutia acaloradamente, gesticulando com energia. Falava-se de Speianski, da notícia do seu repentino exílio e da sua pretensa traição, que acabava de se espalhar em Moscovo.

- Agora, todos os que há um mês se entusiasmavam com ele estão prontos a acusá-lo e a condená-lo - dizia o príncipe André -, gente incapaz de compreender o alcance das suas medidas. É muito fácil julgar um homem quando cai em desgraça e atribuir-lhe então todos os erros alheios. Pois bem, na minha opinião, entendo que se alguma coisa de bom se fez no actual reinado a ele e só a ele se deve.

Calou-se ao ver entrar Pedro. Um estremecimento nervoso lhe perpassou pelo rosto, denotando de súbito uma violenta irritação.

- A posteridade se encarregará de lhe fazer justiça - concluiu. E depois, voltando-se para Pedro: - Ah!, és tu? Continuas a engordar - disse com vivacidade, enquanto se lhe cavava mais funda a nova ruga da testa. - Sim, isto vai melhor! - replicou ele, sorrindo, em resposta a uma pergunta de Pedro acerca da sua saúde.

Este sorriso queria dizer, e assim o compreendeu Pedro: «Sim, bem sei, mas ninguém precisa de saber se estou bom de saúde.» Depois de ter trocado algumas palavras com Pedro sobre o medonho estado das estradas entre a fronteira da Polónia e Moscovo, de lhe ter falado de umas pessoas que encontrara na Suíça, e que eram das relações do amigo, e de ter aludido a Monsieur Dessalles, que consigo trouxera do estrangeiro para dirigir a educação do filho. André enfronhou-se de novo com entusiasmo na discussão sobre Speranski, que prosseguia entre os dois velhos.

- Se houvesse traição e se existissem provas da sua conivência secreta com Napoleão, já a esta hora seriam conhecidas - disse ele com uma apaixonada vivacidade - Pessoalmente não gosto de Speranski, mas sou pela equidade.

Pedro via que o amigo sentia a necessidade - necessidade que tão bem lhe conhecia - de entusiasmar-se e discutir qualquer assunto estranho para assim mais facilmente esquecer pensamentos íntimos demasiado penosos.

Quando o príncipe Mechtcherski se retirou. André travou do braço de Pedro e conduziu-o ao quarto expressamente preparado para si. Estava ali uma cama armada e no chão havia malas e baús abertos.

O príncipe André aproximou-se de um deles e pegou numa caixa. Dentro estava um pacote embrulhado em papel. Tudo isto ele fez muito depressa e sem dizer palavra. Depois soergueu-se, tossicando. A expressão era taciturna e tinha os lábios cerrados.

- Desculpa se te incomodo...

Pedro compreendeu que ele lhe queria falar de Natacha e no seu cheio rosto pintaram-se-lhe compaixão e simpatia. A irritação de André foi maior ainda. Prosseguiu, num tom cortante e resoluto, mas que soava a falso: - A condessa Rostov repudiou-me e ouvi falar de um pedido de casamento do teu cunhado ou de qualquer coisa no mesmo género. É verdade? - É verdade e não é - principiou Pedro, mas André interrompeu-o: - Aqui tens as cartas dela e o seu retrato - articulou.

Pegou no maço de papéis e entregou-o a Pedro.

- Entrega isto à condessa.., quando a vires.

- Está muito doente - disse Pedro.

- Ah! Ainda está em Moscovo? E o príncipe Kuraguine? - perguntou, precipitadamente.

- Abalou há dias. Ela esteve à morte...

- Tenho muita pena - replicou, sorrindo com uma expressão fria, má, desagradável, muito parecida com a do pai.

- Pelo que veio, o Sr. Kuraguine não se dignou conceder a sua mão à condessa Rostov? - disse ele.

Por várias vezes pareceu fungar.

- Não podia casar com ela; já é casado - observou Pedro.

O príncipe André pôs-se a rir, exactamente como o pai.

- E onde está ele neste momento, o teu cunhado, pode saber-se? - Foi para Peters... Isto é, não tenho a certeza.

- Sim, pouco importa - comentou André. - Peço que digas, da minha parte, à condessa Rostov que ela sempre foi e continua a ser completamente livre e que lhe desejo muitas felicidades.

Pedro pegou no maço das cartas. O príncipe André, como se a si próprio perguntasse se não estaria a esquecer-se ainda de qualquer coisa ou como se aguardasse que Pedro dissesse fosse o que fosse, interrogou-o com os olhos.

- Escute; lembra-se da nossa discussão em Petersburgo? - murmurou Pedro. - Lembra-se...

- Lembro-me - apressou-se André a responder - Dizia-te que era preciso perdoar à mulher que cai, mas eu não disse que lhe podia perdoar. Eu não posso.

- Podem comparar-se as duas situações? - observou Pedro.

André interrompeu-o. Em tom sarcástico exclamou: - Sim, pedir de novo a sua mão, ser magnânimo e outras coisas do mesmo teor?... Sim, é muito nobre, mas não me sinto capaz de ficar reduzido a apanhar-lhe as migalhas. Se queres que eu continue a ser teu amigo nunca mais me fales no caso. Bom, então adeus! Está combinado, tu entregas-lhe...

Pedro foi dali aos aposentos do velho príncipe e da princesa Maria.

O velho parecia mais animado do que de costume. Maria continuava a mesma, mas Pedro via claramente que na compaixão que ela mostrava pela infelicidade de André se traía a alegria que lhe causava o desmanchar daquele casamento. Observando-os, pôde compreender o desdém e a inimizade que ambos nutriam pelos Rostov, e percebeu que não seria possível sequer pronunciar na sua presença o nome daquela que fora capaz de trocar o príncipe André por um homem qualquer.

A mesa falou-se da guerra, que parecia iminente. O príncipe André não parava de falar e de discutir, ora com o pai ora com Dessalles, o preceptor suíço, e mais do que nunca dir-se-ia dominado por uma excitação cuja causa Pedro conhecia muitíssimo bem.

Capítulo XXII

Nessa mesma noite. Pedro foi ter com os Rostov a fim de dar cumprimento à sua missão. Natacha estava de cama, o conde fora para o clube e Pedro, depois de entregar as cartas a Sónia, procurou Maria Dmitrievna, ansiosa por saber como o príncipe André acolhera o caso. Passados uns dez minutos. Sónia apareceu também nos aposentos de Maria Dmitrievna.

- Natacha quer ver sem falta o conde Pedro Kirillovitch - disse ela.

- Como assim? Há-de ir ao quarto dela, onde está tudo desarrumado? - disse Maria Dmitrievna.

- Arranjou-se e espera por ele no salão - voltou Sónia.

Maria Dmitrievna limitou-se a encolher os ombros.

- Quando chegará a condessa? Já não posso mais. Tem cuidado não lhe digas tudo - recomendou a Pedro. - Não há coragem para a censurar: é tão infeliz, tão infeliz! Natacha, magra, pálida e com uma expressão severa, mas sem de modo nenhum denunciar a mais pequena humildade, como Pedro esperava, recebeu-o de pé no meio do salão. Ao vê-lo aparecer no limiar da porta teve um movimento de hesitação, como que indecisa, sem saber se devia aproximar-se ou aguardar que ele viesse para ela.

Pedro apressou o passo. Julgou que ela lhe ia estender a mão como de costume, mas, ao aproximar-se viu-a imóvel, a respiração opressa e os braços caídos, numa atitude exactamente igual à que costumava tomar outrora quando cantava, embora fosse muito diferente a sua expressão.

- Pedro Kirillovitch - principiou ela numa voz precipitada -, o príncipe Bolkonski era seu amigo; é seu amigo - rectificou. Dir-se-ia que para ela nada havia do que existira e que tudo era diferente agora. - Disse-me então que me dirigisse a si...

Pedro fitava calado, a respiração opressa. Até àquele momento não fizera outra coisa senão censurá-la no fundo do seu coração, esforçando-se por desprezá-la. Naquele momento, porém, tamanha era a piedade que ela lhe inspirava que não lhe passava pela cabeça dirigir-lhe qualquer censura.

- Ele está cá... Diga-lhe.., que me per.., que me perdoe.

Natacha calou-se, o peito a arfar, mas sem uma lágrima.

- Sim.., dir-lhe-ei - replicou Pedro -, mas...

Não sabia que dizer.

Natacha, assustada com a ideia que poderia ter acorrido a Pedro, disse-lhe vivamente: - Não, sei muito bem que tudo acabou. Nunca mais poderá recompor-se. A única coisa que me atormenta é o mal que lhe causei. Mas diga-lhe que lhe peço me perdoe, me perdoe, me perdoe...

Um estremecimento nervoso lhe percorreu todo o corpo. Sentou-se numa cadeira.

Um sentimento de piedade como nunca experimentara até então inundou a alma de Pedro.

- Dir-lhe-ei, dir-lhe-ei tudo.., mas desejaria saber uma coisa...

«Saber o quê?», perguntavam os olhos de Natacha.

- Desejaria saber se amou...- Pedro perguntou-se a si mesmo se devia pronunciar o nome de Anatole, e este pensamento fê-lo corar... - se amou esse malvado? - Não lhe chame malvado - disse Natacha. - Não sei, já nada sei...

Rompeu a chorar. Um sentimento de piedade, de ternura e de amor mais veemente ainda inundou a alma de Pedro. Sentia as lágrimas a escorrerem pelos vidros das lunetas e desejava que ela se não apercebesse disso.

- Não falemos mais nisso, minha amiga - disse ele.

Esta voz doce, terna, em que vibrava uma nota profunda, surpreendeu Natacha.

- Deixemos isso minha amiga, dir-lhe-ei tudo, mas só uma coisa lhe peço; é que de hoje para o futuro me considere seu amigo. Se precisar de auxílio, de conselho, se algum dia sentir a necessidade de abrir o seu coração a alguém, agora não, quando puder olhar com clareza para dentro de si mesma, lembre-se de mim. - Pegou-lhe na mão e beijou-a. - Sentir-me-ei muito feliz, se for capaz...

Pedro perturbou-se.

- Não me fale assim, eu não o mereço! - exclamou Natacha, fazendo menção de retirar-se. Pedro, contudo, reteve-a. Sabia haver ainda qualquer coisa para lhe dizer. Pronunciadas que foram porém as suas palavras, ele próprio se surpreendeu.

- Não, não, não diga isso: tem a vida toda diante de si murmurou ele.

- Eu? Não, para mim tudo acabou - replicou ela num sentimento em que havia vergonha e humildade.

- Tudo acabou! - repetiu ele.- Se eu não fosse quem sou, se fosse o mais belo e o mais inteligente dos homens sobre a Terra, e se fosse livre, pedir-lhe-ia, neste mesmo momento, de joelhos, a sua mão e o seu amor.

Natacha, pela primeira vez de há muito tempo para cá, foi acometida de um ataque de choro, choro de reconhecimento e de emoção, abandonando a sala com um olhar de agradecimento.

Pedro saiu logo atrás dela, refugiando-se, por assim dizer, no vestíbulo, enquanto sufocava as lágrimas de felicidade que lhe haviam subido aos olhos. E, enfiando a peliça ao acaso, subiu para o trenó que o aguardava.

- Aonde vamos agora? - perguntou o cocheiro.

«Aonde vamos?», repetiu Pedro de si para consigo. «Aonde poderemos ir agora? Ao clube ou fazer visitas?» Tudo se lhe afigurava tão miserável, tão pobre, em comparação com os sentimentos de amor e doçura que o tinham invadido com aquele olhar comovido e cheio de reconhecimento, velado de lágrimas, que Natacha pousara nele.

- Para casa - gritou Pedro, que, apesar de dez graus abaixo de zero, abrira a peliça de urso e deixava dilatar de felicidade o seu largo peito.

Nevava, mas o tempo estava muito claro. Ao alto das ruas sujas e quase em trevas, por cima dos telhados negros, alastrava um céu escuro salpicado de estrelas. Só a contemplação dessas altas esferas permitia a Pedro evadir-se do aflitivo contraste entre a baixeza do que é humano e os nobres sentimentos que lhe enchiam a alma. Ao chegar à Praça de Arbate, viu, por cima da cabeça, uma vasta toalha de céu estrelado. Quase no centro deste horizonte, ao alto da Avenida Pretchistenski, cercado de estrelas por todos os lados, mas avultando no meio de todas elas, muito mais próximo, com a sua branca luminosidade e a sua longa cabeleira arqueada na ponta, surgia o brilhante e enorme cometa de 1812, esse mesmo cometa, dizia-se, presságio de grandes desgraças e do fim do mundo. A verdade, porém, é que esta luminosa estrela, com a sua longa cabeleira cintilante, não despertou o mais pequeno terror em Pedro. Muito pelo contrário: olhava-a com os olhos cheios de lágrimas. Dir-se-ia que depois de haver percorrido, a uma velocidade incalculável, espaços incomensuráveis, seguindo uma curva parabólica, se imobilizara, de súbito, como uma flecha que se crava na terra, no ponto que escolhera naquele negro céu e ali estava plantada, a cabeleira hirsuta, espelhando as cintilações da sua branca claridade no meio de um sem-número de outras cintilantes estrelas. Pedro sentia que aquele astro vinha acordar na sua alma, toda aberta, uma vida nova, comovida e reconfortada.

FIM DO VOLUME PRIMEIRO

Fonte: www.portaldetonando.com.br

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