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Guerra e Paz
(volume ii - segunda parte)

Leon Tolstoi

Capítulo XVIII

De novo no corredor, o oficial dos serviços de saúde encaminhou Rostov para a sala dos oficiais, a qual se compunha de três corpos, cujas portas tinham ficado abertas. Havia várias camas; os oficiais feridos ou doentes estavam uns sentados, outros deitados. Alguns deles, de capote hospitalar, passeavam de um lado para o outro. A primeira pessoa que Rostov encontrou foi um homenzinho magricela e manco, de barrete de algodão e capote, que chupava um cachimbo curto, andando para cá e para lá na sala. Procurava lembrar-se onde o teria visto.

- Tem graça, muito pequeno é o mundo - disse o homenzinho. - Tuchine, sou eu. Tuchine, lembra-se de mim? Aquele que o trouxe lá de diante, de Schöngraben! E, como vê, tiraram-me um pedacinho... - acrescentou, com um suspiro, mostrando a manga vazia do capote. - Anda à procura de Vassili Dmitrievitch Denissov, um camarada que está aqui? - disse ele, adivinhando quem Rostov procurava. - Por aqui, por aqui! - E Tuchine conduziu-o à dependência contígua, onde várias pessoas riam ao mesmo tempo.

«Como é que esta gente pode viver aqui, e ainda por cima com vontade de rir?», pensou Rostov, ainda de narinas impregnadas daquele cheiro a cadáver que respirara na dependência dos soldados. E os olhares invejosos que o haviam ali dardejado continuavam a persegui-lo. Diante dele estavam sempre os olhos em alvo do moço soldado.

Denissov, a cabeça enterrada na almofada, dormia a sono solto, embora já fosse meio-dia.

- Eh! Rostov? Como vai isso? Como vai isso?! - exclamou ele, acordando, com a voz que tinha no regimento. Rostov, porém, pesaroso, observou que nas suas maneiras desenfadadas, na sua animação habitual, se ocultava um sentimento novo - uma espécie de azedume - que, inclusivamente, se lhe pintava no rosto, lhe transparecia nas palavras e até na entoação da voz.

De pequena importância, o ferimento que recebera ainda não cicatrizara, embora seis semanas tivessem decorrido desde a data em que baixara ao hospital. Estava pálido e tinha o rosto inchado, como todos os demais hospitalizados. Mas não foi isso que mais impressionou Rostov. Impressionou-o sobretudo o amigo não parecer muito satisfeito de o ver e sorrir de modo contrafeito. Nada lhe perguntara sobre o regimento e a marcha geral das Operações. E quando o camarada aflorou o assunto, deixou cair a conversa.

Rostov teve até a impressão de que ele mostrava uma certa contrariedade quando se lhe fazia qualquer referência ao regimento e à vida ao ar livre lá de fora, para lá das paredes do hospital. Dir-se-ia fazer tudo para esquecer a sua vida passada e se não preocupar senão com o seu conflito com os funcionários dos abastecimentos. Como Rostov lhe perguntasse em que pé estavam as coisas, logo ele puxou de um papel, de debaixo da almofada, papel que recebera da comissão de inquérito, e o rascunho da respectiva contestação. Pôs-se a ler-lhe a resposta e nessa altura animou-se um pouco, chamando a atenção de Rostov para as ironias que dirigia aos inimigos. Os seus camaradas de hospital, que faziam círculo à volta de Rostov, alguns vindos de fora, dispersaram a pouco e pouco logo que Denissov principiou a ler esses papéis. Rostov percebeu que todos eles já tinham ouvido vezes sem conta aquela história, que principiava a cheirar-lhes mal. Apenas ficaram a ouvi-lo o vizinho de cama, um corpulento ulano, de cachimbo na boca, taciturno, e o pequ2nino maneta Tuchine, que abanava a cabeça, reprovador. No meio da leitura o ulano interrompeu-o: - Na minha opinião - disse ele, dirigindo-se a Rostov -, só uma coisa há a fazer: pedir a clemência do imperador. Ouvi dizer que vão distribuir muitas recompensas e que naturalmente também haverá indultos...

- Quê? Eu pedir clemência ao imperador? - exclamou Denissov num tom a que procurava imprimir o calor e a energia de outrora, mas em que não vibrava senão uma vã irritação. - E porquê? Se eu fosse um salteador pediria clemência, mas a verdade é que estou precisamente a ser perseguido por ter denunciado os ladres. Pois que me julguem! Não tenho medo de ninguém! Servi o czar e a pátria com honra e não sou ladrão. Arrancarem-me os galões, a mim, e... Escuta, digo-lhes isso claramente. Aqui tens o que eu escrevi: «Se eu fosse um ladrão dos dinheiros públicos...» - Tudo isso está bem, não há dúvida - interrompeu Tuchine. - Mas não é disso que se trata. Vassili Dmitritch - e prosseguiu, dirigindo-se sempre a Rostov. - Uma pessoa tem de se submeter e Vassili Dmitritch não está disposto. E o que é certo é, que o auditor lhe disse que o caso era grave.

- Se é grave, tanto pior! - exclamou Denissov.

- O auditor já lhe redigiu um pedido de clemência - prosseguiu Tuchine. - Agora é preciso assiná-lo para que este senhor o leve consigo. - Apontou para Rostov. - Está bem relacionado no estado-maior. Boa oportunidade.

- Já disse, não me vergarei diante seja de quem for - interrompeu Denissov, retomando a leitura do papel.

Rostov não ousava aconselhar o amigo, embora, instintivamente, compreendesse que o caminho apontado por Tuchine e os outros era o mais seguro, e que grande satisfação teria se lhe pudesse prestar qualquer serviço. A verdade é que lhe conhecia muitíssimo bem o génio obstinado e estava a par da sua justíssima revolta.

Quando Denissov terminou a leitura do seu verrinoso arrazoado, que durara para cima de uma hora. Rostov ficou calado e levou o resto da tarde na mais triste das disposições, na companhia dos camaradas de Denissov, outra vez reunidos em volta da cama deste. Contou tudo quanto sabia e por sua vez ouviu o que lhe contaram os doentes. Durante toda a tarde. Denissov manteve-se num taciturno silêncio.

Já de noite, quando se dispunha a partir. Rostov perguntou ao amigo se nada queria lá de fora.

- Quero, espera - disse ele. Lançou um olhar ao grupo dos oficiais, e, retirando de debaixo da almofada todos os seus papéis, dirigiu-se à janela onde tinha o tinteiro e pôs-se a escrever.

- Para grandes males grandes remédios - murmurou, de volta da janela, entregando a Rostov um grande sobrescrito. Era o pedido de clemência endereçado ao imperador e redigido pelo auditor, no qual Denissov, sem a mais leve referência às suas queixas contra o intendente, se limitava a implorar um indulto.

- Transmite isto; está claro que...

Não pôde concluir. No rosto esboçou-se-lhe um sorriso doloroso e forçado,

Capítulo XIX

De regresso ao regimento, e depois de ter posto o comandante ao corrente das circunstâncias em que se encontrava o processo de Denissov. Rostov dirigiu-se a Tilsitt com a carta para o imperador, A 13 de Junho, os imperadores francês e russo haviam-se encontrado nessa cidade. Bóris Drubetskoi tinha pedido à alta personagem a que estava adido que o deixasse fazer parte da comitiva que devia ir a Tilsitt: - Eu gostava de ver esse grande homem - dissera ele, referindo-se deste modo a Napoleão, a quem sempre chamara, como toda a gente, Bonaparte.

- Está a falar de Bonaparte? - perguntara-lhe, sorrindo, o general.

Bóris relanceou um olhar interrogador ao superior e compreendeu imediatamente tratar-se de um gracejo para o experimentar.

- Meu Príncipe, refiro-me ao imperador Napoleão - replicou ele. O general bateu-lhe amistosamente no ombro.

- Hás-de ir longe - comentou, e incluiu-o na comitiva.

Bóris, com mais alguns privilegiados, estava no Niémen no dia da entrevista dos imperadores. Viu as jangadas com os monogramas imperiais, viu Napoleão, na margem oposta, passando diante do cordão da Guarda, viu o rosto pensativo de Alexandre aguardando, em silêncio, na estalagem à beira do rio, a chegada de Napoleão. Viu ainda os dois imperadores nas suas canoas e Napoleão, que fora o primeiro a chegar à jangada, avançando, em passos rápidos, e acolhendo Alexandre de mão estendida. E viu desaparecer os dois no pavilhão. Desde que frequentava as altas esferas. Bóris habituara-se a observar atentamente o que se passava à sua volta e a tomar notas por escrito. Durante a entrevista de Tilsitt teve o cuidado de perguntar os nomes das pessoas que acompanhavam Napoleão. Observou os uniformes que envergavam. Ouviu atentamente o que diziam as altas personalidades. Precisamente no momento em que os imperadores penetravam no pavilhão, viu as horas no relógio e não se esqueceu de fazer o mesmo quando Alexandre saiu. A entrevista durara uma hora e cinquenta e três minutos. Anotou este pormenor nessa mesma noite entre outros que ele pressentia de importância histórica. Como a comitiva do imperador fora pouco numerosa, era da maior importância, para uma pessoa empenhada em subir na sua carreira, ter assistido à entrevista dos dois monarcas, e Bóris, pelo facto de lá ter estado, desde logo percebeu que a sua posição se havia fortemente consolidado. A partir daí não só passou a ser conhecido, como a atrair os olhares, e desde então a sua presença tomou-se familiar. Duas vezes foi encarregado de missões junto do imperador, de sorte que o próprio monarca o conhecia de vista, e os cortesãos, em vez de procurarem evitá-lo, como até aí, puseram-se a considerá-lo como uma nova personagem e grande teria sido a sua surpresa se o não tornassem a ver.

Bóris coabitava com outro ajudante-de-campo, o conde Jilinski. Educado em Paris, este rico polaco gostava doidamente dos Franceses e quase todos os dias, enquanto se conservaram em Tilsitt, oficiais da Guarda e do grande estado-maior francês se reuniam para jantar e almoçar com Jilinski e Bóris.

No dia 24 de Junho, o conde Jilinski ofereceu uma ceia aos seus amigos franceses. Entre eles encontrava-se certo convidado de grande categoria, um ajudante-de-campo de Napoleão, vários oficiais franceses da Guarda e um jovem, de uma velha e aristocrática família, pagem do imperador. Nesse mesmo dia. Rostov, aproveitando a obscuridade, para não ser reconhecido, chegara a Tilsitt à paisana e dirigira-se a casa de Jilinski e de Bóris.

Tanto Rostov como o exército donde provinha estavam longe de ter mudado de sentimentos para com Napoleão e os seus súbditos, os quais, até ali inimigos, tinham passado a ser amigos. Esta reviravolta só se havia verificado, porém, no quartel-general de que Bóris fazia parte. No exército toda a gente continuava a sentir pelos Franceses, como até aí, um misto de cólera, de desdém e de terror. Ainda ultimamente. Rostov, tendo-se exaltado no decurso de uma discussão com um oficial dos cossacos de Platov, sustentara que se Napoleão viesse a ser capturado o tratariam como criminoso e não como imperador. E dias atrás, em presença de um coronel francês ferido, tanto se exasperara que dissera não poder falar-se em paz entre um imperador legítimo e um bandoleiro da espécie de Bonaparte. Eis porque fora grande o seu espanto ao depararem-se-lhe em casa de Bóris oficiais franceses e esses mesmos uniformes que ele estava habituado a ver, em circunstâncias muito diferentes, nos postos avançados. Assim que dera com um oficial francês à porta de Bóris apossara-se dele esse sentimento bélico, esse ódio ao inimigo perfeitamente naturais num soldado. Detendo-se no limiar da porta, perguntou, em russo, se era de facto ali que habitava Drubetskoi. Bóris, ao ouvir uma voz estranha no vestíbulo, saiu a informar-se de quem era. Assim que percebeu tratar-se de Rostov, não pôde ocultar uma certa contrariedade.

- Ah, és tu! Que grande prazer, que grande prazer em ver-te! - disse, no entanto, ao mesmo tempo que, sorrindo, caminhava para ele. Mas a Rostov não escapara a primeira reacção de Bóris.

- Não chego em boa hora, segundo creio. E realmente não teria vindo se não tivesse aqui que fazer - articulou friamente.

- Estou apenas admirado que tenhas podido deixar o teu regimento. - Um momento, volto já - respondeu a uma voz que o chamava.

- Veio perfeitamente que não cheguei em boa hora - repetiu Rostov.

A expressão contrariada de Bóris tinha-se desvanecido. Era de crer que, depois de reflectir, houvesse tomado uma atitude, e, com a maior tranquilidade deste mundo, pegou-lhe nas duas mãos e levou-o para uma dependência contígua. Bóris fitava Rostov com serenidade e firmeza. Dir-se-ia ter posto diante dos olhos qualquer coisa como as lunetas azuis peculiares a quem sabe viver. Pelo menos foi isso que Rostov pensou.

- Então, que ideia é essa? Como é que podes pensar que serias importuno?! - exclamou.

Conduziu-o à sala onde estava posta a mesa para a ceia, apresentou-o aos seus convidados, dizendo-lhes o nome e explicando não se tratar de um paisano, mas de um oficial de hússares seu velho amigo.

- O conde Jilinski, o conde N. N., o capitão S. S. - acrescentou, ao apresentar os seus convidados. Rostov lançou um olhar insulso aos franceses, saudou-os com rígido aprumo e remeteu-se ao silêncio.

Jilinski não pareceu acolher com grande satisfação no seu meio este russo desconhecido e não lhe dirigiu a palavra. Bóris fingia não perceber o constrangimento que sobreviera e fazia o possível por animar a conversa, mantendo a mesma serenidade e a mesma amabilidade mundana que mostrara ao receber Rostov. Um dos franceses, com a proverbial cortesia da sua raça, dirigiu a palavra a Rostov, sempre calado, e perguntou-lhe se não viera de propósito a Tilsitt para ver o imperador.

- Não, vim tratar de outro assunto - respondeu secamente o oficial russo.

Rostov ficara mal disposto desde que vira a expressão contrariada que aflorara ao rosto de Bóris e, como sempre acontece às pessoas em tal estado de espírito, desde logo se lhe afigurou que toda a gente lhe era hostil e que estava ali a servir de estorvo. E efectivamente assim era: todos se sentiam constrangidos, e só ele não tomava parte na conversa geral que desde logo se travara.

«Que diabo vem este aqui fazer?», pareciam dizer-lhe todos os olhos fitos nele. Levantou-se e aproximou-se de Bóris.

- Vejo muito bem que te estou a incomodar - disse-lhe, em voz baixa. - Permite que te fale no que aqui me traz, e ir-me-ei imediatamente embora.

- De maneira alguma - replicou Bóris. - Aliás, se te sentes fatigado, vamos até ao meu quarto e descansarás um pouco.

- Como tu quiseres...

Penetraram no pequeno quarto onde Bóris dormia. Rostov, sem mesmo se sentar, pôs-se imediatamente a contar-lhe o que o trazia ali, num tom irritado, como se Bóris o tivesse contrariado em qualquer coisa, perguntando-lhe se ele, por intermédio do general de quem era ajudante-de-campo, queria ou podia interceder por Denissov junto do imperador, informando-se, inclusivamente, por quem seria mais conveniente transmitir-lhe a carta. Rostov, só depois de a sós com Bóris, se deu conta, pela primeira vez, de que não estava à vontade diante do amigo de infância. Este, sentado, de pernas cruzadas, e esfregando as mãos uma na outra, ouvia Rostov como um general costuma ouvir a exposição de um subordinado. Ora o olhava de lado ora de frente, mas sempre com o mesmo ar de quem sabe viver que momentos antes lhe mostrara. E o certo é que de cada vez que Rostov sentia esse olhar pousado nele, embaraçado, baixava a vista.

- Já ouvi falar de histórias desse género e estou informado de que o imperador é muito severo em casos destes. Em minha opinião, acho que não se deve pensar em apelar para Sua Majestade. Sou de parecer que seria melhor recorrer directamente para o comandante do corpo... Creio, de resto...

- Se não estás disposto a fazer qualquer coisa, é melhor que o digas desde já! - gritou Rostov, num tom irritado, sem olhar para o interlocutor.

- Pelo contrário, farei tudo que estiver nas minhas mãos; simplesmente sou de opinião de que...

No mesmo instante ouviu-se à porta a voz de Jilinski chamando Bóris.

- Bom, vai-te embora, vai-te embora... - disse Rostov, que, recusando-se a tomar parte na ceia, ficou só na pequenina dependência e se pós a passear de um lado para o outro, enquanto na sala vizinha se ouvia o estrépito jovial de vozes que falavam francês.

Capítulo XX

Rostov chegara a Tilsitt num dia muito mal escolhido para intervir a favor de Denissov. Como estava de fraque e deixara o regimento sem a devida autorização, nem ele próprio podia pensar em procurar o general. Quanto a Bóris, mesmo que quisesse, era-lhe impossível fazer fosse o que fosse no dia seguinte ao da chegada de Rostov. Nesse dia, 27 de Junho, deviam assinar-se os preliminares da paz. Os imperadores tinham trocado entre si as respectivas condecorações. Alexandre fora galardoado com a Legião de Honra e Napoleão com a grã-cruz de Santo André, e nesse mesmo dia estava aprazado um banquete oferecido pela Guarda francesa ao batalhão de Preobrajenski. Deviam estar presentes os dois imperadores.

Rostov, tão irritado e contrariado estava com Bóris que, quando este o veio procurar depois da ceia, fingiu dormir e na manhã seguinte, ainda de madrugada, levantou-se e partiu, evitando encontrá-lo. De fraque e chapéu de coco, pôs-se a vaguear pela cidade, observando os franceses e os seus uniformes, inspeccionando as ruas e as casas onde se tinham instalado os dois imperadores. Viu as mesas postas e os preparativos do banquete em plena praça. As ruas estavam engalanadas de colgaduras e bandeiras russas e francesas com enormes monogramas: A e N. Nas janelas também havia bandeiras com os mesmos monogramas.

«Já que Bóris nada está disposto a fazer por mim, não voltarei a dirigir-me a ele. Decidido de uma vez para sempre», dizia Rostov com os seus botões. «Tudo acabou entre nós, mas não me irei embora daqui sem tudo ter tentado para salvar Denissov, sobretudo sem ter feito chegar a carta às mãos do imperador... O imperador?... E o imperador ali!?» E, sem dar por isso, ia-se aproximando da residência imperial.

À porta estavam parados cavalos de sela, e a comitiva ia montando, naturalmente para acompanhar o imperador, «De um momento para o outro tenho-o diante dos olhos», dizia Rostov de si para consigo. «Desde que eu possa entregar-lhe directamente o apelo, desde que eu tenha tempo de lhe explicar tudo... Serão eles capazes de me prender por eu estar à paisana? Não. Não é possível. O imperador há-de saber compreender de que lado está a justiça. Compreende tudo, sabe tudo. Quem haverá aí mais equitativo e mais magnânimo do que ele? R, de resto, mesmo que me prendessem por eu estar aqui, que mal havia nisso?...» Rostov assim pensava enquanto seguia com os olhos um oficial que entrava na residência do imperador. «Ah! Estou a ver. Então as pessoas podem entrar... Que estupidez! Eu me encarregarei então de lhe entregar a carta em mão própria. Tanto pior para o Drubetskoi, que me obriga a dar este passo.» E, de súbito, numa decisão de que ele próprio se não julgava capaz, tacteando o papel na algibeira, avançou direito à porta da residência imperial.

«Desta vez não vou perder a oportunidade, como depois de Austerlitz», dizia de si para consigo, esperando ver-se, de um momento para o outro, diante do imperador. E só o pensar em tal trazia-lhe o sangue todo ao coração, «Deixar-me-ei cair a seus pés, implorar-lhe-ei. Ele há-de ajudar-me a levantar do chão, ouvir-me-á, agradecer- me- a. » «Sinto-me sempre feliz quando posso fazer bem, mas não há maior felicidade para mim do que reparar uma injustiça.» Eram estas as palavras que, em sua opinião, o imperador lhe dirigiria. E ei-lo que avança, ante os olhares curiosos dos presentes, pela escadaria da residência.

Depois da escadaria de acesso, outra, grande escada conduzia directamente ao andar nobre. A direita havia uma porta, que estava fechada. Ao fundo da escada, outra porta abria para o rés-do-chão.

- Quem procura? - perguntou alguém.

- Quero entregar uma carta, um apelo a Sua Majestade - respondeu Nicolau em voz trémula.

- Um apelo? Ao oficial de serviço. Por aqui, se faz favor. - Indicaram-lhe a porta ao fundo da escada. - O pior é que ele o não recebe.

Ao ouvir esta voz indiferente. Rostov foi tomado de pavor. A ideia de vir a encontrar-se subitamente na presença do monarca era-lhe ao mesmo tempo tão fascinante e tão temerosa que só desejou desaparecer, mas o furriel que o tinha recebido abriu-lhe a porta do oficial de serviço e não teve remédio senão entrar.

No meio da dependência, de pé, estava um homenzinho cheio, dos seus trinta anos de idade, de calças brancas e botas de canhão, que naquele mesmo momento acabava de enfiar uma camisa de fina cambraia. De costas, o criado abotoava-lhe os suspensórios novinhos em folha, todos bordados a seda, que logo saltaram à vista de Rostov. Entretanto, ia conversando com alguém que devia estar no quarto pegado.

- Bem feita, e de uma beleza diabólica - dizia ele, mas, lobrigando Rostov, calou-se e franziu o sobrolho.

- Que deseja? Um apelo?...

- Que é? - perguntaram do outro quarto.

- Mais um peticionário - replicou o homem dos suspensórios.

- Diga-lhe que volte outro dia. Ele vai sair, tem de montar a cavalo.

- Outro dia, outro dia, amanhã. É muito tarde...

Rostov deu meia volta e dispôs-se a partir, mas o indivíduo dos suspensórios deteve-o, - Da parte de quem? E o senhor quem é? - Da parte do maior Denissov - respondeu Rostov.

- E o senhor, quem é o senhor? Oficial? - Tenente conde Rostov.

- Que audácia, hem! Transmita pelas vias competentes. E o senhor desapareça, desapareça sem perda de tempo... - Dizendo o que enfiou o uniforme que o criado de quarto lhe estendia.

Rostov saiu para o vestíbulo e viu na escadaria da entrada muitos oficiais e alguns generais, em grupo, todos de grande uniforme, através dos quais forçosamente tinha de abrir caminho.

Amaldiçoando a audácia que tivera, tomado de grande pânico ao lembrar-se de que de um momento para o outro podia vir a achar-se diante do próprio imperador, vergonha que o levaria à cadeia, e só agora medindo a imprudência do seu comportamento, que muito sinceramente lamentava, ia-se esgueirando, de cabeça baixa, daquela casa à porta da qual estacionava tão brilhante comitiva, quando ouviu uma voz conhecida pronunciar-lhe o nome e sentiu uma mão que o detinha.

- Eh!, meu rapaz, que anda por aqui a fazer, e ainda por cima de fraque? - perguntou-lhe uma voz de baixo.

Era um general de cavalaria que durante a campanha soubera conquistar as boas graças do imperador e em tempo fora comandante da divisão a que Rostov pertencia.

Assustado. Rostov procurou, de princípio, justificar-se, mas, ao ver a expressão de zombadora bonomia que se pintava no rosto do general, chamou-o de parte e numa voz comovida expôs-lhe toda a história de Denissov, pedindo-lhe que intercedesse a favor do seu amigo, que ele tão bem conhecia. O general, depois de o ter ouvido, abanou a cabeça, preocupado.

- É triste, é triste a situação desse bravo. Deixa ver o apelo- Ainda Rostov não tinha acabado a sua narrativa e entregado a carta quando na escada ressoou um precipitado retinir de esporas. O general, afastando-se dele, aproximou-se da escadaria. Eram os membros da comitiva que desciam para montar a cavalo. O escudeiro Eneux, aquele mesmo que estivera em Austerlitz, aproximou-se com o cavalo do imperador, enquanto na escada se, ouvia um ligeiro ranger de botas, que Rostov imediatamente compreendeu de quem era. Esquecendo por completo o perigo que corria, precipitou-se, com outros civis curiosos, para o parapeito da escadaria, e, como dois anos antes, tomou a ver aqueles mesmos traços adorados, aquele rosto, aquele olhar, aquele porte, aquele mesmo misto de doçura e majestade... E a sua alma de novo se sentiu repassada, mais ainda do que da última vez, de entusiasmo e amor pelo seu monarca. O imperador, com o uniforme do Preobrajenski, de calções de pele branca e botas de cano, no peito uma condecoração que Rostov nunca vira - a Legião de Honra -, surgiu no alto da escadaria, de chapéu debaixo do braço, calçando as luvas. Deteve-se, olhou em tomo de si e tudo pareceu iluminado pela cintilação do seu olhar. Disse qualquer coisa a um dos seus generais. Reconheceu igualmente o comandante da divisão de Rostov, sorriu-lhe e chamou-o para junto de si.

Toda a comitiva se afastou, e Rostov viu que o general dirigia ao imperador um discurso assaz longo. Este respondeu-lhe qualquer coisa e deu um passo para o cavalo que o aguardava. De novo as personalidades da comitiva e o público, de que Rostov fazia parte, voltaram a aproximar-se. Parado junto do cavalo, com a mão na sela, o imperador disse, em voz alta, ao general de cavalaria, evidentemente na intenção de que todos o ouvissem: - Não posso, general, e não posso porque a lei está acima de mim - e assentou o pé no estribo.

O general inclinou-se respeitosamente. O imperador montou a cavalo e despediu a galope. Rostov, arrebatado pelo entusiasmo, precipitou-se, com a multidão, atrás dele.

Capítulo XXI

Na praça para onde se dirigia o imperador alinhavam, à direita, um batalhão do regimento de Preobajenski, à esquerda, outro, da Guarda, com as suas barretinas de pele de urso.

Enquanto o imperador cavalgava por um dos flancos dos batalhões, que apresentavam armas, pelo outro galopava um idêntico grupo de cavaleiros, à frente dos quais Rostov julgou ver Napoleão. Não podia ser outra pessoa. Galopava, com o seu pequeno bicórnio na cabeça, a grã-cruz de Santo André ao pescoço, o uniforme azul desabotoado, deixando ver o colete branco, no seu puro-sangue árabe, cinzento, coberto por uma gualdrapa bordada a ouro. Ao chegar ao pé de Alexandre soergueu o bicórnio e Rostov, num golpe de vista de cavaleiro experimentado, logo percebeu por esse gesto que Napoleão não era um bom selim. Os batalhões gritavam: «Hurra!» e «Viva o imperador». Napoleão disse qualquer coisa a Alexandre. Desmontaram e apertaram as mãos. Bonaparte tinha um sorriso falso e forçado. Alexandre pronunciou algumas palavras muito corteses, Sem perder de vista os dois imperadores, não obstante o tropear das montadas dos gendarmes franceses, que mantinham a multidão a distância. Rostov seguia-lhes todos os movimentos. O que mais o impressionou, pois o não esperava, foi ver Alexandre tratar Bonaparte de igual para igual e verificar o à-vontade deste na presença do czar da Rússia, como se essa familiaridade lhe fosse tão íntima como habitual.

Alexandre e Napoleão, seguidos do longo cortejo da sua comitiva, aproximaram-se do flanco direito do batalhão do regimento de Preobrajenski, caminhando de frente para a multidão que estava desse lado. O público tão perto se viu subitamente do imperador que Rostov, na primeira fila de povo, teve medo de ser reconhecido.

- Sire, peço licença para conferir a Legião de Honra ao mais valente dos seus soldados - disse uma voz cortante e clara, destacando cada sílaba.

Era o miúdo Bonaparte quem falava, fitando Alexandre nos olhos. Este prestou grande atenção às suas palavras e, aprovando com um movimento de cabeça, sorriu, numa expressão amável.

- Àquele que mais galhardamente se bateu nesta última guerra - acrescentou Napoleão, martelando palavra por palavra e percorrendo com os olhos, numa serenidade e numa segurança que revoltaram Rostov, as fileiras dos russos que, diante dele, numa atitude militar, se mantinham em sentido, fixando os olhos no seu imperador, sem um movimento.

- Consente Vossa Majestade que eu peça a opinião do coronel? - disse Alexandre, e deu alguns passos precipitados para o príncipe Kozlovski, comandante do batalhão.

Bonaparte, entretanto, descalçava de uma das suas mãos brancas uma luva que se rasgou e ele deitou fora. Um ajudante-de-campo precipitou-se a apanhá-la.

- Quem escolheremos? - perguntou Alexandre, em russo, e em voz baixa, ao príncipe Kozlovski.

- Quem Vossa Majestade haja por bem ordenar.

O imperador franziu ligeiramente as sobrancelhas e disse, circunvagando a vista: - Mas temos de lhe responder seja o que for.

Kozlovski, tomando urna decisão, percorreu as fileiras com os olhos, e Rostov sentiu-se abrangido por esse olhar.

«Serei eu, porventura?», disse de si para consigo.

Lazarev! - gritou o coronel, num tom severo, e Lazarev, o primeiro soldado da fileira, galhardamente, avançou na forma.

- Aonde vais? Deixa-te estar aqui! - murmuravam algumas vozes àquele homem, que não sabia para onde ir. Lazarev estacou, olhando de viés, receoso, para o seu coronel. Movimentos nervosos faziam-lhe estremecer as linhas do rosto, como costuma acontecer aos soldados chamados rias fileiras.

Napoleão voltou a cabeça imperceptivelmente e fez um gesto com a sua pequena mão rechonchuda como se fosse pegar em qualquer coisa. Os membros da comitiva, adivinhando imediatamente de que se tratava, agitaram-se, segredaram entre si fosse que fosse, fizeram circular ordens, e um pagem, o mesmo que Rostov vira na véspera em casa de Bóris, acorreu, e, inclinando-se respeitosamente para a mão estendida, e sem delongas, depôs nela uma condecoração com uma fita vermelha. Napoleão, sem olhar, apertou-a entre dois dedos. Avançou para Lazarev, e qual, de olhos arregalados, obstinadamente, continuava a não ver senão o seu imperador, e relanceou a vista ao czar Alexandre como a mostrar-lhe que o que naquele momento estava a fazer era por ele e não pelo seu aliado. A pequena mão branca que sustinha a cruz aflorou os botões do uniforme do soldado Lazarev. Dir-se-ia que Napoleão sabia que para fazer perpetuamente feliz aquele soldado, para que ele se tornasse alvo de recompensas e de atenções de toda a gente, era quanto bastava a sua mão dignar-se tocar-lhe na arca do peito. Napoleão limitou-se a aproximar a cruz do arcabouço de Lazarev e, retirando a mão, voltou-se para Alexandre, como se estivesse ciente de que a cruz lá ficaria dependurada. E a verdade é que ficou.

Mãos solícitas, tanto de russos como de franceses, apanharam-na instantaneamente e fixaram-na no uniforme. Lazarev fitou, taciturno, o homenzinho das mãos brancas que sobre ele fizera certos gestos, e continuando, imóvel, a apresentar armas, pôs-se a olhar para Alexandre, firme nos olhos, como a perguntar-lhe se devia continuar ali, se devia afastar-se ou, talvez, fazer qualquer outra coisa. Mas, como lhe não davam qualquer ordem, assim ficou, imóvel, por muito tempo.

Os imperadores montaram, de novo, rios seus cavalos e afastaram-se. Os soldados do regimento Preobrajenski destroçaram, misturando-se aos da Guarda, depois foram sentar-se às mesas do banquete preparado para eles.

Lazarev ocupou o lugar de honra. Oficiais russos e franceses abraçavam-no, felicitavam-no, apertavam-lhe as mãos. Muito povo e grande número de oficiais se aproximaram para o ver de perto. Ia um burburinho de risos e conversas, em russo e em francês, por toda a praça, em volta das mesas. Dois oficiais, de rosto iluminado, alegres e contentes, passaram ao pé de Rostov.

- Ora aí tens, amigo, um mimo! Até nos servem em tachos de prata - disse um deles. - Viste o Lazarev? - Vi.

- Segundo ouvi dizer, amanhã os do Preobrajenski vão dedicar-lhe uma festa, - Imagina! Que sorte que teve aquele Lazarev! Uma pensão de doze mil francos por ano, hem! - Eh! Isto é que é uma barretina, rapazes! - exclamou um soldado, enterrando na cabeça a barretina de pêlo de urso de um camarada francês.

- Soberbo! Magnífico! - Sabes qual é o santo e a senha? - disse um oficial do Preobrajenski ao camarada. - Antes de ontem era: Napoleão. França, bravura. Ontem: Alexandre. Rússia, grandeza. Hoje é o imperador que os dá; amanhã Napoleão. O imperador vai dar amanhã a cruz de S. Jorge ao mais valente dos soldados da Guarda francesa. Não pode deixar de ser. Tem de pagar-lhe na mesma moeda.

Bóris, com o amigo Jilinski, veio também fazer uma visita ao local do banquete aos soldados do Preobrajenski. Ao voltar-se, descobriu Rostov parado rio recanto de uma casa.

- Eh! Rostov, viva Mal nos chegámos a ver - disse-lhe ele, e não pôde deixar de perguntar-lhe o que tinha ele, tão sombria e perturbada lhe viu a expressão.

- Nada, absolutamente nada - replicou Rostov.

- Passas lá por casa? - Naturalmente, sem falta.

Ficou muito tempo, de pé, no seu recanto, olhando de longe os convivas. Operava-se nele um doloroso trabalho que não conseguia levar ,a bom fim. Dúvidas terríveis lhe invadiam o espírito. Recordava-se de Denissov e da mudança que nele se dera, da sua inesperada submissão, e do hospital, com os seus amputados de braços ou de pernas, da sua imundície, dos seus doentes. Tão viva fora a impressão que tudo aquilo lhe produzira que continuava a sentir nas narinas o cheiro cadavérico do hospital, e chegava a voltar-se para ver donde é que lhe viria tamanha pestilência. Diante dos seus olhos representavam-se-lhe Bonaparte, bem disposto, e a sua mão branca, esse homem agora nada mais nada menos que imperador e a quem Alexandre cumulava de afeição e respeito. Mas então porquê aquelas pernas e aqueles braços mutilados, porquê aqueles mortos? E vinha-lhe à memória Lazarev, condecorado, e Denissov, castigado, sem esperança de perdão. Tão estranhos eram os pensamentos que o assaltavam que teve medo.

De um lado os aromas que se evolavam das mesas do banquete, de outro a fome que o devorava arrancaram-no àquela perplexidade. Não tinha remédio senão comer alguma coisa antes de meter-se a caminho. Encaminhou-se para o hotel que vira nessa manhã. Transbordava de gente. Eram muitos os oficiais à paisana como ele; dificilmente conseguiu que o servissem. Dois camaradas da mesma divisão a que ele pertencia vieram juntar-se-lhe. A conversa que se entabulou veio abordar naturalmente o tema da paz. Estes oficiais, como quase todos os seus camaradas em armas, mostravam-se descontentes com a paz depois de Friedland Eram de opinião de que se tivessem resistido mais tempo Napoleão estaria perdido, pois as tropas francesas já não tinham nem biscoitos nem munições. Nicolau comia sem dizer palavra, e ainda bebia mais do que comia. Só à sua conta emborcou duas garrafas. As preocupações que o trabalhavam interiormente, sem que ele lhes visse solução, não deixavam de o atormentar. Tinha medo de se lhes abandonar, sem, de resto, lhes poder fugir. De súbito, ao ouvir a um dos oficiais que era uma humilhação aquele encontro com os Franceses, pôs-se aos gritos, com uma veemência que nada parecia justificar e que muito surpreendeu os camaradas presentes. Estava muito corado.

- Com que autoridade é que se atrevem a julgar o que está feito? Como se atrevem a julgar os actos do imperador?! Não está ao nosso alcance compreender nem as suas intenções nem os seus actos! - Mas eu não mencionei o imperador - protestou o oficial, não sem deixar de atribuir à embriaguez aquela súbita diatribe. Rostov, porém, não se calava: - Nós não somos diplomatas, somos soldados, e nada mais do que isso – prosseguiu. - Mandam-nos dar a vida, e não temos outra coisa a fazer senão dar a nossa vida. Se nos castigarem é porque somos culpados. Não nos compete julgar. Se apraz ao nosso monarca reconhecer Bonaparte como imperador e se entende que deve estabelecer com ele uma aliança, isso mesmo é que é necessário. Se nos puséssemos a julgar e a discutir tudo, nada seria sagrado. Podíamos dizer que Deus não existe, que nada existe! - Enquanto falava. Nicolau batia com o punho fechado em cima da mesa, e por mais intempestivos que os seus discursos se apresentassem aos seus interlocutores, o certo é que obedeciam exactamente ao curso dos pensamentos que o atormentavam- A nossa obrigação é cumprir o nosso dever, bater-mo-nos, não pensar, e é tudo - concluiu.

- E beber também! - exclamou um dos oficiais, pouco disposto a discussões.

- Isso mesmo, e beber - confirmou Nicolau. - Eh, tu, tu aí, venha de lá mais uma garrafa - clamou.

Fonte: www.portaldetonando.com.br

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