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Guerra e Paz
(volume ii - segunda parte)

Leon Tolstoi

Capítulo I

Depois da explicação que tivera com a mulher. Pedro partira para Petersburgo. Na estação de posta em Torjok não havia cavalos, ou o dono da posta não lhos quis dar. Pedro viu-se obrigado a esperar. Deitou-se, sem se despir, num divã de cabedal, diante de uma mesa redonda sobre a qual estendeu os pés com as suas botas forradas e pôs-se a pensar.

- Quer que traga as malas? É preciso arranjar a cama, trago-lhe chá? - perguntou o criado de quarto.

Pedro não respondeu, pois não ouvia nada, não via nada. As suas reflexões duravam desde a última muda e nelas se mantinha tão absorvido que não prestava a mínima atenção ao que se passava à sua volta. Não só lhe não interessava saber se chegaria a Petersburgo mais cedo ou mais tarde, ou se poderia dispor ou não de uma cama na estação da posta, mas, em relação aos pensamentos em que cogitava, isso era-lhe indiferente: tanto se lhe dava passar algumas horas naquele local ou a vida inteira.

O dono da estação de posta, a mulher, o criado de quarto, uma vendedeira de bordados de Torjok, todos tinham vindo oferecer-lhe os seus préstimos. Pedro, sem alterar a posição das pernas, olhava para eles através dos cristais das suas lunetas sem chegar a compreender o que queriam e como é que eles todos poderiam viver sem terem resolvido os problemas que o preocupavam. E eram sempre os mesmos desde o dia em que ele regressara de Sokolniki, depois do duelo, e passara uma tão penosa noite de insónia; simplesmente, agora, no isolamento da viagem, esses problemas haviam-se tornado mais prementes. Fosse qual fosse o curso dos seus pensamentos, regressava sempre a estas mesmas perguntas, que não podia resolver e que não podia deixar de se formular. Afigurava-se-lhe estar falseada na sua cabeça a engrenagem de que dependia toda a sua vida. Certo parafuso não podia continuar a desempenhar as suas funções nem sair donde estava encaixado, e girava sempre, sem sentido, na sua ranhura, sendo impossível fazê-lo parar.

O dono da estação de posta entrou e rogou humildemente a Sua Excelência que se dignasse esperar duas horazinhas, comprometendo-se, depois disso, a arranjar a Sua Excelência, acontecesse o que acontecesse, os cavalos de posta de que ele precisava. Mentia, naturalmente, e apenas tinha em vista extorquir algum dinheiro ao viajante.

«Fará bem ou mal?», perguntava Pedro aos seus botões. «Para mim faz bem; mas para o viajante que se seguir faz mal, e também para ele próprio, isso é inevitável, pois não tem outra maneira de viver. Garantiu-me que um oficial lhe tinha batido por ter feito a mesma coisa; mas se o oficial lhe bateu é porque queria seguir depressa. Eu disparei contra Dolokov porque me considerava ofendido, e Luís XVI foi guilhotinado porque o consideravam um criminoso, e se um ano mais tarde mandaram matar aqueles que o tinham guilhotinado, é porque também havia razões para isso. O que é o mal? O que é o bem? Que devemos nós amar? Que devemos odiar? O que é a vida? O que é a morte? Que forças dirigem tudo isto?» E não havia resposta a qualquer destas perguntas, salvo uma resposta ilógica, que não explicava coisa alguma. Esta resposta era: «Um dia hás-de morrer e tudo acabará. Tu morrerás e saberás tudo ou deixarás de formular estas perguntas.» Mas morrer era uma coisa horrível.

A vendedeira de bordados de Torjok, na sua voz estridente, oferecia as suas mercadorias, e em especial chinelas de camurça. «Tenho centenas de rublos que não sei em que empregar, e ali está aquela mulher com a sua peliça esfarrapada a olhar para mim cheia de timidez», pensava Pedro. «E porque é que ela precisa de dinheiro? Poderá este dinheiro proporcionar-lhe, por pouco que seja, a felicidade e o sossego da alma? Haverá alguma coisa no mundo capaz de fazer com que ela ou eu estejamos menos expostos ao mal e à morte, essa morte que acabará com tudo e que chegará hoje ou amanhã, pouco importa o momento, pelo menos aos olhos da eternidade?» E de novo fez andar o parafuso que girava no vácuo e o mecanismo continuou a trabalhar sempre no mesmo sítio.

O criado apresentou-lhe um romance de Madame de Souza, meio aberto. Pôs-se a ler a história dos trabalhos e das lutas virtuosas de uma certa Amélie de Mansfeld. «E porque é que ela há-de lutar contra o seu sedutor», pensava ele, «visto gostar dele? Deus não lhe pode ter introduzido no coração tendências contrárias à Sua vontade. A minha ex-mulher, essa não lutou, e talvez ela tivesse tido razão.» E Pedro disse ainda para si mesmo: «Nada foi inventado. Apenas podemos saber que não sabemos nada. E este é o mais alto grau da sabedoria humana.» Em si próprio e em tomo de si tudo lhe parecia confuso, absurdo e repugnante. Mesmo nesse afastamento de tudo que o cercava. Pedro encontrava uma espécie de gozo e de excitação.

- Atrevo-me a pedir a Sua Excelência permita que este senhor se sente aqui - disse o dono da estação de posta, entrando e trazendo consigo um segundo viajante, que ali parara por falta de cavalos.

Este viajante era um velho de pequena estatura, ossudo, de tez amarelenta, cheia de rugas, e sobrancelhas brancas proeminentes sobre uns olhos brilhantes, cinzento indeciso.

Pedro tirou as pernas de cima da mesa, levantou-se e estendeu-se na cama que lhe tinham preparado, lançando de tempos a tempos um olhar ao recém-chegado, o qual, de aspecto taciturno e fatigado, sem se dignar olhar para o seu companheiro, se ia despindo, com dificuldade, ajudado pelo criado. Tendo ficado apenas com uma tulupe surrada com forro de ganga e os pés magros e ossudos metidos numas botas de feltro, instalou-se no divã e deixou cair em cima do travesseiro a sua grande cabeça, de têmporas largas e cabelo rapado; depois pôs-se a fitar Bezukov. Pedro sentiu-se impressionado com a expressão severa, inteligente e penetrante desse olhar. Veio-lhe um grande desejo de entabular conversa com o viajante, mas quando se dispunha a interrogá-lo sobre a sua viagem reparou que ele já fechara os olhos e que ficara imóvel, com as velhas mãos rugosas encruzadas, numa das quais tinha um anel de metal com uma caveira. Dir-se-ia ora descansar ora reflectir tranquilamente em qualquer árduo problema. O seu criado também era um velhinho de tez amarelenta e todo enrugado, sem bigode nem barba, não por se ter barbeado, mas por ausência de pêlo. Este velhinho tirava das malas agilmente o necessário, preparava a mesa do chá e trouxera um samovar onde a água fervia. Quando tudo estava pronto, o amo abriu os olhos. Aproximando-se da mesa encheu de chá um copo para si, encheu outro para o velho e deu-lho. Pedro principiou a agitar-se e teve a impressão clara de que se tornava obrigatório e até mesmo inevitável meter conversa com o viajante.

O criado pousou o seu copo vazio, virado de fundo para o ar em cima do pires e sobre ele um cubo de açúcar que não utilizara, e perguntou ao amo se era precisa mais alguma coisa.

- Nada. Dá cá o meu livro - disse-lhe o amo.

Deu-lhe um livro, que Pedro julgou ser um livro de orações, e o desconhecido principiou a ler atentamente. Pedro continuou a olhar para ele. De súbito, viu-o fechar o livro e pô-lo de lado, e outra vez, de olhos cerrados, deitar-se para trás na almofada do divã, retomando a posição anterior. Pedro não teve tempo de afastar os olhos: o velho abriu os seus e fitou-o de maneira resoluta e severa.

Pedro sentiu-se perturbado e quis evitar aquele olhar, mas os olhos brilhantes do velho atraíam-no irresistivelmente.

Capítulo II

- É ao conde Bezukov que eu tenho o prazer de dirigir a palavra, se me não engano - disse o viajante, em voz alta e sem pressa.

Pedro, sem dizer palavra, interrogou o interlocutor olhando-o por detrás dos cristais das lunetas.

- Tenho ouvido falar de si - continuou o velho - e da desgraça de que é vítima. - Acentuou a palavra, como se quisesse dizer: «Sim, seja qual for o nome que lhe queira dar, é uma desgraça, eu sei que o que lhe aconteceu em Moscovo é uma desgraça.» - Creia que sinto muito.

Pedro corou, deu-se pressa em saltar da cama e inclinou-se para o velho com um sorriso forçado e tímido.

- Não foi por mera curiosidade que lhe falei disto, mas por mais graves razões.

Calou-se o velho sem deixar de fitar Pedro e convidou-o, dando-lhe lugar no divã, a que se sentasse a seu lado.

- Eu sei que é infeliz - prosseguiu ele. - É novo e eu sou velho. Na medida das minhas forças, muito gostava de o poder auxiliar.

- Ah!, sim - disse Pedro, com o seu sorriso forçado.- Ficar-lhe-ei muito reconhecido... Donde vem? O recém-chegado tinha uma expressão bem pouco cordial, mesmo fria e severa até. No entanto a sua palavra e a sua expressão atraíam irresistivelmente o conde Bezukov.

- Mas se a minha conversa, por esta ou aquela razão, lhe for desagradável - disse o velho -, peço-lhe que mo diga francamente.

No seu rosto perpassou, sem ser esperado, um sorriso paternal e afectuoso.

- Mas de maneira alguma, pelo contrário, gostei muito de o conhecer. - E lançando outro olhar ao anel do seu novo amigo, examinou-o de mais perto. Era urna caveira com dois ossos cruzados, insígnia da franco-maçonaria.

- Permita-me que lhe pergunte - disse ele.- É franco-mação? - Sim, pertenço à fraternidade dos franco-mações - disse o viajante, fixando Pedro com uma insistência cada vez maior. - E em meu nome e em nome deles aqui tem a minha mão fraternal.

- Tenho medo - balbuciou Pedro, sorrindo hesitante entre a confiança que lhe inspirava aquele indivíduo e o seu hábito de troçar das crenças maçónicas -, tenho medo de estar muito longe da compreensão.., como é que hei-de dizer? Tenho receio de que as minhas ideias relativamente ao universo em geral sejam tão opostas às suas que não nos possamos entender.

- Conheço as suas ideias - replicou o mação - e essas opiniões de que fala e que lhe parecem o resultado de um pensamento pessoal são as ideias da maioria das pessoas, são o fruto, sempre o mesmo, do orgulho, da indolência e da ignorância. Desculpe-me, meu caro senhor, mas se eu o não tivesse conhecido não teria entabulado conversa consigo. As suas opiniões são um erro lamentável.

- Exactamente como se, eu pretendesse afirmar que era o senhor quem estava em erro - disse Pedro, com um breve sorriso.

- Nunca me atreveria a afirmar que estou na posse da verdade - voltou o Mação, que cada vez impressionava mais o interlocutor com a nitidez e a firmeza das suas palavras - Ninguém só por si pode atingir a verdade. Só pedra a pedra, com o concurso de todos, graças a milhões de gerações, desde o nosso primeiro pai. Adão, até hoje, se vai erguendo o templo digno de ser habitado pelo Grande Deus - acrescentou, cerrando os olhos.

- Devo confessar-lhe que não creio, não creio.., em Deus - disse Pedro Com esforço e como penalizado, sentindo, no entanto, a necessidade de dizer toda a verdade.

O franco-mação observou-o atento, sorrindo como sorriria um homem rico, com as mãos cheias de dinheiro, dirigindo-se ao pobre que lhe dissesse que lhe faltavam cinco rublos para ser feliz.

- É certo que o senhor O não conhece - disse-lhe ele -, o senhor não O pode conhecer. O senhor não O conhece, e é por isso mesmo que é infeliz.

- Sim, é verdade, sou infeliz - corroborou Pedro - mas que hei-de eu fazer? - O senhor não o conhece, e é por isso que é infeliz. O senhor não O conhece e Ele está aqui. Está em mim. Está nas minhas palavras. Está em ti e até mesmo nas palavras sacrílegas que acabas de proferir! - disse o velho numa voz severa e trémula. Calou-se e suspirou, procurando, claramente, retomar a serenidade. - Se Ele não existisse - continuou em voz baixa - nós não estaríamos aqui, o senhor e eu, a falar d’Ele. De quê? De quê e de quem falamos então? Quem é que tu acabas de negar? - prosseguiu, com uma exaltação severa e autoridade na voz. - Quem é que O inventou então se Ele não existe? Donde é que te veio então a ideia de um ser tão incompreensível? Donde é que então o mundo inteiro e tu próprio tiraram a noção da existência de um ser inacessível, de um ser todo-poderoso, eterno e infinito em todos os seus atributos?...

Calou-se e ficou silencioso por muito tempo. Pedro não pode nem quis romper esse silêncio.

- Existe, mas é difícil compreendê-l’O - recomeçou, sem olhar de frente o interlocutor. Com os olhos fitos diante de si e com as suas mãos de velho, que não podia manter quedas, mercê da agitação interior que o tomava, ia virando as páginas do livro.- Se se tratasse de um homem de cuja existência tu duvidasses, eu trazer-te-ia esse homem, pegar-lhe-ia pela mão e mostrar-to-ia. Mas como é que eu, miserável mortal, saberia mostrar a Sua força todo-poderosa, a Sua eternidade, a Sua misericórdia infinita àquele que é cego, ou àquele que tapa os ouvidos, ou àquele que fecha os olhos para O não ver, para O não compreender e para não ver e para não compreender a sua própria miséria, a sua própria corrupção? - Ficou um momento calado. - Quem és tu? Que és tu? Julgas-te um sábio só porque és capaz de pronunciar essas palavras sacrílegas - prosseguiu ele, com um sorriso amargo e desdenhoso - e ainda és mais tolo o mais insensato do que o garoto que se entretém com o movimento artisticamente combinado de um relógio e que seria capaz de dizer que pelo facto de não compreender a finalidade de todas aquelas engrenagens também não acredita no artista que o fez. Conhecê-lo é difícil... Durante séculos, desde o nosso primeiro pai. Adão, até aos nossos dias, trabalhámos nessa ciência e ainda estamos muito longe do fim a alcançar: mas é nesta impossibilidade que se revelam a nossa fraqueza e a Sua grandeza, Pedro, com o coração angustiado, fitando no franco-mação os seus olhos brilhantes, escutava-o sem o interromper, sem lhe fazer qualquer pergunta e de todo o seu coração acreditava nas palavras desse homem, um estranho para ele. Seriam as deduções lógicas daqueles discursos que o tinham persuadido, ou, como acontece às crianças, a entoação, o acento de convicção e sinceridade do seu interlocutor? Estaria ele abalado por essa emoção que chegava a interromper a voz do orador ou por esses olhos cintilantes de um homem que envelhecera agarrado à sua fé, ou por essa serenidade, essa segurança, a consciência do apóstolo que se lia em todo aquele ser e que tanto mais o perturbava a ele. Pedro, quanto era certo ser ele próprio cobarde e sem energia rnoral? Fosse como fosse, o certo é que ele desejava de todo e seu coração adquirir fé e experimentava um alegre sentimento de serenidade, de renovação e como que de regresso à vida.

- Não se chega lá pela inteligência, mas pela experiência da vida - disse o franco-mação.

- Não compreendo - interrompeu Pedro, sentindo, com angústia, erguerem-se nele as dúvidas. Tinha medo de verificar a obscuridade e a fraqueza dos argumentos do interlocutor, tinha receio de não acreditar nele. - Não compreendo como é que o espírito humano não pode alcançar esse conhecimento de que o senhor fala.

O velho sorriu, e o seu sorriso era benigno e paternal.

- A suprema sabedoria e a verdade são como um orvalho muito puro de que nós gostaríamos de nos sentir repassados. Poderei eu recolher este puro orvalho num vaso impuro e pensar que ele é a própria pureza? Só graças a uma redenção interior poderei fazer que este orvalho que eu venha a recolher em mim tinja um certo grau de pureza.

- Sim, é assim mesmo - exclamou Pedro com alegria.

- A sabedoria suprema não se baseia apenas na razão, nas ciências profanas como a física. É história, a química e outras em que o conhecimento intelectual está dividido. A sabedoria suprema é una. A sabedoria suprema só conhece uma ciência - a ciência do todo, a ciência que explica toda a criação e o lugar que o homem ocupa. Para instilar esta ciência em nós próprios temos de purificar e de renovar o nosso eu interior, e assim, antes de conhecermos, devemos crer e tornarmo-nos perfeitos. E para atingirmos esta finalidade há no interior da nossa alma luz divina, que é a consciência.

- Sim, sim - aprovou Pedro.

- Contempla com os olhos da alma o teu ser interior e pergunta a ti mesmo se estás contente contigo. Onde é que chegaste guiado apenas pela inteligência? Quem és tu? É novo, rico, inteligente, cultivado, meu caro senhor. Que fez de todos estes bens que lhe foram concedidos? Está contente consigo e com a sua existência? - Não, odeio-a - exclamou Pedro, franzindo as sobrancelhas.

- Odeia-la? Então transforma-a, purifica-te, e, à medida, que te fores purificando, conhecerás a sabedoria. Lance um olhar à sua existência, meu caro senhor. Como é que a passou? Em orgias e no deboche. Tendo recebido tudo da sociedade e sem nada lhe restituir, adquiriu a riqueza. Que uso fez dela? Que fez pelo próximo? Já pensou nas dezenas de milhares dos seus escravos? Ajudou-os, porventura, física e moralmente? Não. Tirou beneficio do seu trabalho para levar uma vida desregrada. Eis o que o senhor fez. Escolheu porventura uma profissão em que fosse útil ao próximo? Não. Tem passado a vida inteira ocioso. Em seguida, veio o casamento, meu caro senhor, e o senhor assumiu a responsabilidade da conduta de uma mulher. E que fez? Não a ajudou a procurar o caminho da verdade e arrastou-a para o abismo da mentira e da infelicidade. Um homem ultrajou-o e o senhor procurou matá-lo, e é o senhor quem diz agora que não acredita em Deus e que odeia a, sua própria existência. Não há nada de estranho em tudo isso, meu caro senhor! Tendo assim falado, o franco-mação, como se se sentisse, fatigado por uma longa conversa, de novo voltou a recostar-se na almofada do divã, fechando os olhos. Pedro pôs-se a contemplar aquele rosto de velho, severo e imóvel, que parecia quase sem vida, e remexeu os lábios sem dizer uma palavra. Teria querido dizer: «Sim, que miserável vida de ociosidade e deboche!», mas não ousou romper o silêncio.

O franco-mação teve uma tosse rouca, como é próprio dos velhos, e chamou o criado.

- E então, os cavalos? - perguntou, sem olhar para Pedro.

- Trouxeram-nos agora mesmo. Não descansa um bocadinho? - Não, manda atrelar.

«Ir-se-á ele embora, deixando-me só, sem ter dito tudo que queria dizer e sem me prometer o seu apoio?», dizia Pedro de si para consigo, e, erguendo-se, pôs-se a andar de um lado para o outro através do quarto, de cabeça baixa, lançando olhares furtivos para onde estava o franco-mação. «Sim, nunca tinha pensado nisso, mas a verdade é que tenho levado urna vida desprezível de deboche. É certo que a detestava e que não era o meu ideal. Este homem conhece a verdade, e, se estivesse disposto, podia revelar-ma.» Era isto mesmo que Pedro lhe queria dizer, mas não o ousava. Tendo o viajante acabado de arranjar as bagagens com suas velhas mãos assaz diligentes, pôs-se a abotoar a tulupa. Assim que acabou voltou-se para Bezukov e disse-lhe, em tom indiferente e cortês, - Aonde se dirige, meu caro senhor? - Eu?... Eu vou para Petersburgo - replicou Pedro numa voz hesitante de criança. - Estou-lhe muito reconhecido. Estou inteir3mente de acordo consigo. E não vá julgar que sou uma pessoa tão pervertida como pensa. De todo o coração gostaria de poder vir a ser o homem que o senhor quereria que eu fosse. Mas nunca encontrei ninguém que me ajudasse... De resto, sou eu, claro está, o maior culpado. Ajude-me, instrua-me, e talvez eu venha a ser...

Pedro nada mais pôde dizer. A emoção estrangulou-o, e afastou-se.

O franco-mação ficou calado por muito tempo, como quem reflecte.

- A ajuda só Deus a pode dar - disse ele -, mas aquela que , nossa ordem está em condições de lhe prestar, essa prestar-lha-á, meu caro senhor. Como vai para Petersburgo, entregue isto ao conde Villarski. - Abriu a pasta e escreveu qualquer coisa numa grande folha de papel que dobrou em quatro. - Permita que lhe dê ainda mais um conselho. Assim que chegar à capital consagre os primeiros dias à solidão, faça o seu exame de consciência e não volte à sua vida antiga. Agora desejo que faça boa viagem, meu caro senhor - acrescentou ao ver entrar o criado e que seja feliz - Este viajante chamava-se Osip Alexeievitch Bazdeiev, como Pedro veio a saber pelo livro da posta. Era, franco-mação e martinista dos mais conhecidos desde os tempos de Novikovki. Muito tempo depois da sua partida ainda Pedro, sem se deitar nem dar ordem para que atrelassem, continuava a ir e vir na sala da posta, pensando no seu passado corrupto e figurando-se, com o entusiasmo da renovação, um futuro venturoso para ele e irrepreensível na sua virtude, coisa que lhe parecia agora muito fácil de realizar. Pelo que imaginava, apenas era um homem corrompido por haver esquecido sem querer quanto era belo ser virtuoso. Na sua alma não havia vestígios das suas antigas dúvidas. Acreditava firmemente na possibilidade de uma união fraternal dos homens com vista a auxiliarem-se mutuamente no caminho da virtude e era assim que imaginava a franco-maçonaria.

Capítulo III

Uma vez em Petersburgo. Pedro não comunicou a ninguém que tinha chegado, não foi a parte alguma e passou os seus dias a ler um livro de Tomás A. Kempis, obra que lhe viera já não sabia donde. E o único proveito que extraía desta leitura era a satisfação, para ele desconhecida até esse momento, de poder acreditar na possibilidade de atingir a perfeição e de realizar entre os homens esse amor fraternal e actuante que lhe havia revelado Osip Alexeievitch. Oito dias depois da sua chegada, o jovem conde polaco Villarski, que Pedro conhecia de vista da sociedade petersburguesa, apresentou-se uma tarde em sua casa, com esse ar oficial e solene que havia assumido para se lhe apresentar a testemunha de Dolokov. Fechou a porta assim que entrou, e depois de se certificar de que não havia mais ninguém na sala além de Pedro dirigiu-se-lhe nestes termos: - Vim visitá-lo, conde - disse-lhe sem se sentar -, a fim de cumprir uma missão e fazer-lhe uma proposta. Uma pessoa altamente colocada na nossa ordem intercedeu para que o senhor seja admitido entre nós antes do prazo habitual e pediu-me que fosse seu Padrinho. Considero um dever sagrado dar cumprimento às suas disposições. Está o senhor disposto, sob o meu patrocínio, a entrar na fraternidade dos irmãos franco-mações? O tom frio e severo deste homem, que Pedro se habituara a ver quase sempre nos bailes sorrindo amavelmente no meio dos mais brilhantes ornamentos da sociedade elegante, impressionou-o.

- Sim, é esse o meu desejo - respondeu. Villarski aprovou com um aceno de cabeça.

- Uma pergunta, conde, à qual eu peço que me responda com toda a sinceridade, não como futuro mação, mas como homem de bem. Renegou as suas opiniões antigas, acredita em Deus? Pedro reflectiu um momento.

- Sim.., sim, creio em Deus - disse ele.

- Nesse caso - continuou Villarski, mas Pedro interrompeu-o.

- Sim, acredito em Deus - repetiu mais uma vez.

- Nesse caso, podemos seguir - voltou Villarski. - A minha carruagem está à sua disposição.

Durante todo o trajecto. Villarski conservou-se calado. Quando Pedro lhe perguntou o que tinha a fazer e que devia responder, contentou-se em afirmar que irmãos mais dignos do que ele iriam experimentá-lo e que ele não tinha a dizer senão a verdade.

Assim que chegaram à porta do edifício onde estava instalada a loja, subiram uma escada escura e penetraram numa pequena antecâmara iluminada onde, sem que qualquer criado os ajudasse, despiram as peliças. Dali passaram para outra de- pendência. Um homem de estranhas roupagens surgiu no limiar da porta. Villarski, indo ao seu encontro, disse-lhe algumas palavras em francês em voz baixa e aproximou-se de um pequeno armário em que Pedro viu umas vestes como nunca vira. O seu companheiro pegou num lenço, vendou-lhe os olhos e atou-o com um nó na nuca, deixando uma madeixa de cabelo desastradamente metida no nó. Depois puxou-o para si, abraçou-o e conduziu-o, levando-o pela mão. Pedro, incomodado com a venda que lhe repuxava os cabelos, fazia caretas e ao mesmo tempo sorria com um ar embaraçado. A sua espessa figura, os braços balouçando, com o rosto todo contraído e sorridente, ia seguindo Villarski com passos tímidos e hesitantes.

Depois de ter dado uns dez passos, o guia deteve-o.

- Aconteça o que acontecer - disse-lhe ele- tudo deve suportar com coragem, caso esteja firmemente resolvido a dar entrada na nossa instituição. - Pedro acenou afirmativamente com a cabeça. - Quando ouvir bater à porta - acrescentou Villarski - tire a venda. Coragem e que seja bem sucedido.- E saiu, depois de lhe ter apertado a mão.

Uma vez só. Pedro continuou a sorrir. Por duas ou três vezes encolheu os ombros, impaciente, levou a mão à venda, como a querer arrancá-la, e voltou a deixá-la cair. Os cinco minutos decorridos depois que lhe haviam vendado os olhos afiguravam-se-lhe uma longa hora. Tinha as mãos dormentes, as pernas vergavam-se-lhe. Parecia extraordinariamente cansado. As impressões que sentia eram das mais complexas e das mais variadas. Tinha medo do que se estava a passar com ele, e ainda receava mais mostrar que o tinha. Estava curiosíssimo por saber o que lhe iriam fazer e o que lhe iam revelar; mas nele dominava a alegria de ver chegar o momento em que finalmente entrasse no caminho da renovação e da vida activa e virtuosa com que sonhava desde o seu encontro com Osip Alexeievitch. Na porta ressoaram umas pancadas violentas. Pedro desatou a venda e olhou em volta de si. A dependência estava às escuras. Havia apenas um recanto iluminado em que bruxuleava uma lamparina sobre qualquer coisa branca. Pedro aproximou-se e verificou que a lamparina estava pousada em cima de uma mesa preta onde havia um livro aberto. O livro era os Evangelhos e o objecto branco em que ardia, a lamparina urna caveira. Leu as conhecidas palavras «Ao princípio era o Verbo e o Verbo era Deus», em seguida deu a volta à mesa e viu uma grande caixa aberta a transbordar. Era um caixão cheio de ossos. Pedro não sentiu a mínima surpresa perante o que via. No seu desejo de principiar uma vida completamente nova, totalmente diferente da anterior, contava com coisas extraordinárias, muito mais extraordinárias ainda do que aquelas que estava a ver. A caveira, o caixão, o Evangelho, por isso esperava ele, e afigurava-se-lhe que devia esperar ainda muito mais. Esforçou-se por sentir qualquer emoção como um sentimento devoto. «Deus, a morte, o amor, a fraternidade humana», dizia dentro de si mesmo, procurando que estas palavras encerrassem não emoções obscuras, mas símbolos de felicidade. A porta abriu-se e alguém entrou.

A pálida luz que, apesar de tudo, permitia que Pedro distinguisse os objectos, apareceu um homem de pequena estatura. Ao passar da luz para a obscuridade, parou; depois, em passos prudentes, aproximou-se da mesa, na qual pousou as suas pequenas mãos enluvadas.

O recém-chegado trazia um avental de pele branca que lhe cobria o peito e parte das pernas; no pescoço tinha uma espécie de colar debaixo do qual apareciam uns altos bofes brancos que lhe encaixilhavam o rosto alongado, iluminado pela parte inferior.

- Porque veio aqui? - disse ele, voltando-se para o lado donde vinha o ruído que Pedro estava a fazer. - Porquê, se não acredita na verdadeira luz, se a não vê, porque veio aqui, que quer de nós? A sabedoria, a virtude, a cultura? Logo que a porta se abrira e que o desconhecido entrara. Pedro sentira-se tomado por um sentimento de temor e de respeito semelhante ao que costumava experimentar na infância quando se confessava: encontrava-se frente a frente com um homem muito afastado pela sua condição e muito perto do ponto de vista da fraternidade humana. Com palpitações que lhe cortavam a respiração, aproximou-se do reitor - o nome que se dá na franco-maçonaria ao irmão encarregado de preparar o recipiendário que aspira a entrar na organização. Mais de perto reconheceu tratar-se de, um dos seus amigos, um certo Smolianinov, e impressionou-o pensar que aquele homem seu conhecido para ele devia ser apenas um irmão e um iniciador virtuoso. Esteve muito tempo sem poder encontrar palavras, obrigando o reitor a repetir as perguntas.

- Sim, eu.., eu - quero regenerar-me - acabou por articular.

- Bom - disse Smolianinov, que prosseguiu: - Tem alguma noção dos meios de que a nossa santa ordem dispõe para o fazer alcançar o seu objectivo? - A sua palavra era calma e pronta.

- Sim.., espero.., ser guiado - socorrido.., na minha regeneração - disse Pedro, a voz trémula e as palavras difíceis, ao mesmo tempo o resultado da emoção e do pouco hábito de exprimir em russo ideias abstractas.

- Que noção tem da franco-maçonaria? - Penso que a franco-maçonaria é a fraternidade e a igualdade dos homens que têm a virtude por objectivo - replicou Pedro, que, à medida que ia falando, sentia vergonha de empregar palavras por de mais vulgares para a solenidade de momento.- Eu julgo...

- Bom - deu-se pressa em responder o reitor, visivelmente satisfeito cem a resposta. - Procurou na religião os meios de alcançar esse fim? - Não, sempre a considerei contrária à verdade, e não a segui - disse Pedro tão baixo que o mação não ouviu e pediu-lhe que repetisse. - Eu era ateu - acrescentou.

- Procura a verdade a fim de se conformar com as suas leis na vida; por conseguinte, procura a sabedoria e a virtude, não é assim? - prosseguiu o reitor, depois de um instante de silêncio.

- Procuro, procuro - afirmou Pedro.

O franco-mação tossicou, cruzou sobre o peito as mãos enluvadas e retomou a palavra.

- Devo agora revelar-lhe os principais objectivos da nossa ordem, se essa finalidade concordar com a sua, terá vantagem em fazer parte da nossa agremiação. O essencial, e por conseguinte a base sobre a qual assenta, a ordem e que nenhuma torça humana pode destruir, é a conservação e a transmissão à posteridade dos importantes mistérios que chegaram até nós vindos dos séculos mais recuados e até mesmo do primeiro homem, mistérios de que depende talvez o destino do género humano. Mas como estes mistérios são de tal ordem que ninguém os pode conhecer e tirar deles partido desde que se não tenha preparado por uma longa e cautelosa purificação de si próprio, nem toda a gente se pode vangloriar de os possuir facilmente. Eis porque o nosso segundo objectivo consiste em predispor os nossos irmãos tanto quanto possível para purificar os seus corações e para elevar e esclarecer a sua razão, graças aos meios que a tradição nos desvendou, em nome daqueles que se esforçaram por esclarecer esses mistérios, e torná-los assim capazes de os receber. Pela purificação e regeneração dos nossos adeptos esforçamo-nos, em terceiro lugar, por corrigir igualmente o humanidade inteira, oferecendo-lhe modelos de honestidade e de virtude e assim procuramos com todas as nossas forças combater o mal que reina no mundo. Reflicta nisto, que eu voltarei a visitá-lo - acrescentou e saiu.

«Lutar contra o mal que reina no mundo...», repetiu Pedro de si para consigo, e diante dos seus olhos perpassou a sua acção futura nesse sentido. Afigurou-se-lhe estar perante homens tal como ele próprio quinze dias antes e mentalmente dirigia-lhes uma alocução. Representavam-se-lhe esses homens corruptos e infelizes, a quem ele levaria auxílio nas suas palavras e nos seus actos. Representavam-se-lhe os opressores a quem ele arrancaria as suas vítimas. Dos três objectivos enumerados pelo reitor, este último, a regeneração do género humano, era o que mais lhe agradava. Os graves mistérios de que aquele homem falara, ainda que excitassem a sua curiosidade, não se lhe afiguravam essenciais. Quanto ao segundo objectivo, a purificação e a regeneração próprias, interessava-lhe pouco, desde que naquele mesmo momento experimentava a grande satisfação de se encontrar já totalmente liberto dos seus vícios de outrora e unicamente preparado para o bem. Meia hora depois o reitor voltou para comunicar ao recipiendário as sete virtudes, correspondentes aos sete degraus do templo de Salomão, que cada mação deve cultivar em si próprio. Estas virtudes eram as seguintes: 1ª A modéstia, que guarda os segredos da ordem; 2ª A obediência aos seus superiores; 3ª Os bons costumes; 4ª O amor da humanidade: 5ª A coragem; 6ª A generosidade, e 7ª O amor da morte.

- Em sétimo lugar - disse-lhe o reitor - esforçai-vos, pensando muitas vezes na morte, por chegar a encará-la não como uma inimiga terrível, mas como uma amiga.., que liberta desta vida de misérias a alma atormentada pelos trabalhos da virtude para a introduzir na mansão da recompensa e do repouso.

«Sim, deve ser assim», dizia Pedro quando, depois de ter pronunciado estas palavras, o reitor desapareceu outra vez, deixando-o entregue às suas reflexões solitárias. «Deve ser assim, mas eu sinto-me ainda tão fraco que amo a minha existência, cujo sentido só agora se vai descobrindo pouco a pouco aos meus olhos.» Mas as cinco outras virtudes que Pedro enumerava, contando pelos dedos, essas sentia-as na sua alma: a coragem, a ,generosidade, os bons costumes, o amor da humanidade e particularmente a obediência aos superiores, que até para ele não era uma virtude, mas antes uma venturosa sorte, de tal modo, com efeito, ele se sentia feliz por poder agora escapar ao seu livre arbítrio e submeter a sua vontade àquele e àqueles que possuíam a incontestável verdade. Quanto à sétima virtude. Pedro tinha-a esquecido e não foi capaz de se lembrar dela.

Pouco depois, pela terceira vez, voltou a aparecer o reitor, e perguntou-lhe se ele continuava decidido na sua resolução e se estava disposto a submeter-se a tudo quanto dele exigissem.

- Estou pronto para tudo - disse Pedro.

- Devo fazer-lhe saber ainda - voltou ele - que a nossa ordem ensina a sua doutrina não só pela palavra, mas por outros meios, que agem sobre aquele que procura verdadeiramente a sabedoria e a virtude talvez mais poderosamente ainda do que as explicações orais. Esta sala, com a decoração que tem diante dos olhos, já deve estar a agir sobre o seu coração, se o seu coração é sincero, mais fortemente que as palavras. É natural que à medida que for sendo iniciado venha a tomar contacto com outros meios de ensino do mesmo genero. A nossa ordem imita as sociedades antigas, que desvendavam a sua doutrina através dos hieróglifos. O hieróglifo - acrescentou ele - é o símbolo das coisas que não impressionam os nossos sentidos e que possuem qualidades semelhantes àquelas que ele representa.

Pedro sabia perfeitamente o que era um hieróglifo, mas não tinha coragem de abrir a boca. Ouvia em silêncio, pressentindo, por tudo quanto escutava, irem principiar as provas.

- Se está decidido, devo proceder à sua iniciação - disse então o reitor, aproximando-se dele - Em testemunho da sua generosidade, peço-lhe que me entregue tudo quanto possui de precioso.

- Mas eu nada trouxe comigo - disse Pedro, que supunha estarem a pedir-lhe tudo o que ele possuía.

- O que traz consigo: relógio, dinheiro, anéis...

Pedro apressou-se a entregar a bolsa do dinheiro, o relógio, e levou muito tempo para tirar do grosso dedo o anel de casamento. Quando acabou, o franco-mação disse: - Em sinal de obediência, peço-lhe que dispa o seu fato. Pedro tirou o fraque, o colete e a bota do pé esquerdo, consoante a indicação do reitor. Este levantou a camisa do lado esquecido do peito e, baixando-se, dobrou o canhão da calça, na perna esquerda, à altura do joelho. Pedro preparava-se para descalçar também a bota do pé direito e dobrar a outra perna da calça, para assim poupar esse trabalho àquele homem, mas o franco-mação disse-lhe não ser preciso e deu-lhe um chinelo para calçar no pé esquerdo. Com um sorriso infantil em que havia embaraço, hesitação e troça de si mesmo, sorriso que, sem querer, se lhe espalhava pelo rosto. Pedro continuava de pé, os braços balouçando e as pernas afastadas, diante do seu iniciador, aguardando novas ordens.

- E por fim, em sinal de sinceridade, queira confessar-me qual é a sua principal fraqueza - disse-lhe este.

- A minha fraqueza! - exclamo u Pedro. - Eu tenho tantas...

- A fraqueza que de entre todas mais o faz hesitar no caminho da virtude, Pedro ficou calado, reflectindo.

«O vinho? A carne? A ociosidade? A preguiça? A exaltação? A cólera? As mulheres?» Mentalmente ia enumerando os seus vícios, pesando um por um, sem saber a qual deles dar preferência.

- As mulheres! - disse, em voz baixa, quase imperceptível.

O mação não pestanejou e ficou por muito tempo silencioso depois desta resposta. Por fim caminhou para Pedro, pegou no lenço que estava em cima da mesa e de novo lhe vendou os olhos.

- Pela última vez, digo-lhe: entre em si próprio, ponha um freio às suas paixões e procure a felicidade, não nessas paixões, mas no seu próprio coração. A fonte da felicidade não está fora de nós, mas em nos mesmos...

Pedro sentia-se já penetrado por um manancial refrigerante de felicidade que naquele momento lhe enchia o coração de alegria e de enternecimento.

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