Logo nos primeiros tempos da sua permanência em Petersburgo. André apercebeu-se de que toda a construção de ideias que nele se elaborara no decurso da sua vida solitária fora relegada para um canto, preterida pelas inúmeras pequeninas preocupações que o absorviam.
Ao fim da tarde, de regresso a casa, registava no seu livro de notas quatro ou cinco visitas indispensáveis, ou um encontro marcado para determinada hora. As ocupações quotidianas, o emprego do tempo fixado de maneira a chegar pontualmente onde era mister, absorviam-lhe o melhor da sua capacidade de trabalho. Nada fazia, não pensava mesmo em coisa alguma, não tinha tempo, e as opiniões que emitia - com razoável êxito - eram apenas o resultado do muito que meditara enquanto estivera no campo.
Às vezes observava, desgostoso, que repetira no mesmo dia as mesmas coisas em locais diferentes. Tão ocupado andava o dia inteiro que nem mesmo tinha tempo de reconhecer que não pensava em coisa alguma.
À semelhança do que acontecera aquando do seu primeiro encontro em casa de Kotchubei, foi grande a impressão que lhe fez Speranski ao recebê-lo, quarta-feira, em sua casa e ao manter com ele um longo e confiado colóquio.
Tanta era a gente que o príncipe André julgava desprezível ou nula e tão grande o seu desejo de encontrar em quem quer que fosse o ideal vivo da perfeição a que aspirava que lhe não foi difícil acreditar que Speranski representava efectivamente esse padrão ideal de inteligência e de virtude.
Se Speranski pertencesse ao mesmo meio que André, se tivesse a mesma educação, a mesma formação moral, cedo este teria descoberto as fraquezas humanas desse homem, a sua carência de qualquer espécie de heroísmo. Mas a verdade é que esse espírito lógico que o surpreendia nele lhe inspirava tanto mais respeito quanto era certo não o apreender em toda a sua extensão. Além disso, ou porque apreciasse a capacidade de André ou porque julgasse conveniente conquistá-lo. Speranski, na presença do príncipe, exibia um juízo sereno, isento de parcialismo, e mostrava-lhe essa lisonja subtil, à mistura com uma certa presunção, que consiste em um homem reconhecer tacitamente que o seu interlocutor e ele próprio são as únicas pessoas capazes de compreender quão néscios são os demais e sensatas e profundas as suas próprias ideias, as ideias só deles os dois.
No decurso da longa conversa que mantiveram quarta-feira à noite. Speranski repetira muitas vezes frases deste jaez: «Entre nós considera-se tudo quanto ultrapassa o nível dos hábitos inveterados...», ou então, sorrindo: «Mas nós outros queremos ao mesmo tempo que os lobos se saciem e os cordeiros fiquem intactos... », ou ainda: «Eles não podem compreender isto...» E falava num tom que queria dizer: «Nós, isto é, tu e eu, sabemos muito bem o que eles valem e quem nós somos, nós.» Esta demorada conversa havia consolidado em André a impressão que Speranski lhe causara no primeiro dia em que lhe falara. Tinha-o por um espírito poderosamente lógico e pensante, um homem de alta inteligência, que conseguira conquistar o poder à força de energia e de vontade e que se não servia dessas qualidades senão para maior glória da Rússia. A seus olhos Speranski era precisamente o homem que ele próprio teria desejado ser, aquele que sabe joeirar na peneira da razão todas as manifestações da viria, o homem que só considera digno de interesse o que é razoável e que a tudo aplica o mesmo metro-padrão racional. Nas deduções de Speranski tudo se lhe apresentava tão simples e claro que, sem dar por isso, estava sempre de acordo com ele. O facto de lhe fazer algumas objecções e de o discutir obedecia apenas ao desejo de se mostrar independente e de lhe fazer compreender que se não submetia a todas as suas opiniões. Nele tudo estava certo, tudo era perfeito. Duas coisas, porém, perturbavam André: aquele olhar frio, glacial como o cristal de um espelho, que impedia que se lhe penetrasse na alma, e aquelas mãos brancas e macias, que ele não podia deixar de contemplar como se contemplam as mãos dos detentores do poder. Esse olhar com reflexos de cristal e essas mãos macias exasperavam André. Desagradável lhe era também o desprezo pelos homens que notara em Speranski e a variedade de argumentos de que lançava mão para apoiar as suas opiniões. Utilizava todas as armas do raciocínio ao seu alcance, salvo a analogia, e essas suas transições de uma para outra linha de defesa afiguravam-se ao príncipe André demasiado violentas. Ora se instalava no plano prático e censurava sonhadores, ora lançava mão da sátira e varava, sarcástico, os adversários, ora ainda se mostrava severamente lógico quando não ascendia repentinamente ao plano metafísico. E este processo de raciocínio era a sua arma favorita. Conduzia os problemas até aos altos paramos da metafísica, dava definições do espaço, do tempo, do pensamento e, extraindo daí argumentos polémicos, regressava ao terreno da discussão.
Em suma, o traço principal desta inteligência, aquele que mais vivamente impressionara o príncipe André, era a sua fé incontestável, inabalável, no poder e nos direitos do espírito. Via-se perfeitamente que nunca lhe aflorara ao pensamento esta ideia, tão familiar a André, segundo a qual nem sempre é possível ao homem exprimir o que ele próprio pensa, nem jamais perguntara a si próprio se porventura tudo aquilo em que pensava, tudo aquilo em que acreditava não seriam, no fim de contas, puras tolices. E o certo é que esta forma particular do espírito de Speranski era a que mais seduzia o príncipe André.
Nos primeiros tempos das suas relações com este homem, o príncipe sentira por ele uma exaltação apaixonada muito parecida com a que alimentara outrora por Bonaparte. O facto de ser filho de um padre, circunstância que levava muito tolo a olhá-lo com desprezo, considerando-o membro de uma classe inferior, fazia que André se mostrasse circunspecto no seu entusiasmo, reforçando-lhe inconscientemente os sentimentos que por ele nutria. Naquela primeira noite que estiveram juntos. Speranski, a, propósito da comissão encarregada da revisão das leis, contou-lhe que essa comissão existia há cento e cinquenta anos, que já custara milhões de rublos, nada tendo feito ainda, e que Rosenkampfse limitara a colar etiquetas em todos os artigos de legislação comparada.
- E aqui tem para o que o Estado despendeu todos estes milhões! - disse ele, - Queremos dar ao Senado um poder judiciário novo e não temos leis. E é por isso mesmo que considero um crime ver afastadas do poder pessoas como o príncipe.
Bolkonski respondeu que para tanto carecia de uma formação jurídica que não tinha.
- Mas se ninguém a tem, como queria tê-la o príncipe? É um círculo vicioso, de que só à força poderemos sair.
Oito dias depois André era membro da comissão do Código Militar, e - coisa com que não contava - chefe da secção da comissão de legislação. A pedido de Speranski consentiu em encarregar-se da primeira parte do Código Civil. E, socorrendo-se do código de Napoleão e das leis de Justiniano, meteu ombros à revisão do capítulo respeitante aos direitos do homem.
Dois anos antes, em 18O8. Pedro, no regresso da viagem que fizera aos seus domínios, vira-se, sem o pretender, à testa da franco-maçonaria de Petersburgo. Organizou lojas capitulares e lojas funerárias, recrutou novos membros, tratou da unificação das diversas lojas e das actas que lhes competiam. Distribuiu donativos para a construção de templos e tanto quanto lhe foi possível completou o produto de colectas, coisa em que geralmente os membros davam provas de avareza e pouca diligência Quase só com dinheiro seu manteve a casa dos pobres fundada pela ordem em Petersburgo.
Entretanto continuava a viver da mesma maneira, entre as mesmas tentações e as mesmas manifestações de libertinagem. Gostava de comer bem e de beber melhor e, conquanto considerasse o facto degradante e imoral, não podia abster-se de compartilhar dos prazeres dos celibatários com quem se associava.
Apesar do entusiasmo que punha no desempenho das suas múltiplas ocupações. Pedro começou a compreender, um ano decorrido, que o terreno da franco-maçonaria em que assentava pés se lhe tornava menos firme quanto mais firmemente nele se procurava apoiar. Apercebia-se ainda de que, com o volver do tempo, mais difícil se tornava libertar-se. Ao entrar para a franco-maçonaria tivera a impressão de pousar o pé confiante na superfície lisa de um pântano. E, mal o pousara, logo se sentira afundar. Para melhor experimentar a solidez do terreno, avançara o outro pé e enterrara-se ainda mais, atolara-se, e agora patinhava, mergulhado até aos joelhos na lama do pântano.
José Alexeievitch não estava em Petersburgo, ultimamente havia-se desinteressado das lojas da capital e nunca deixava Moscovo. Todos os membros das lojas eram indivíduos com quem Pedro privava na sociedade e era-lhe difícil ver neles só irmãos maçónicos, esquecendo serem também o príncipe B, ou Ivan Vassilievitch D., criaturas que ele geralmente conhecia por fracos caracteres e pessoas sem valor moral. Por debaixo dos aventais e das insígnias maçónicas via aparecer os uniformes e as condecorações, a maior aspiração de tais criaturas. Muitas vezes, ao recolher as esmolas e ao completá-las com os vinte ou trinta rublos solicitados - era frequente uma dezena de membros, metade dos quais tão ricos como ele próprio, deixarem a colecta em débito -. Pedro lembrava-se do juramento maçónico em que cada irmão se compromete a dar todos os seus bens ao próximo, e na sua alma nasciam dúvidas, que procurava desvanecer.
Os irmãos seus conhecidos dividiam-se, para ele, em quatro categorias. Da primeira faziam parte os que não participavam activamente quer nos assuntos das lojas, quer nos problemas da humanidade, exclusivamente ocupados no estudo dos mistérios da ordem, nos problemas relativos à Trindade Divina ou ao tríplice princípio de todas as coisas - o enxofre, o mercúrio e o sal - ou ainda ao significado do quadrado e das figuras simbólicas do templo de Salomão. Pedro venerava esta categoria de irmãos, a que pertenciam os mais antigos, e na qual, pensava, se incluía o próprio José Alexeievitch, embora não partilhasse das suas preocupações. O lado místico da franco-maçonaria não lhe cativava as preferências.
Na segunda categoria considerava, consigo próprio, aqueles que se lhe assemelhavam, os que procuravam, que hesitavam, e que, sem terem achado na franco- maçonaria um caminho direito e límpido, persistiam na esperança de o vir a encontrar.
No terceiro grupo incluía aqueles - e eram os mais numerosos - que não viam na ordem mais que as suas manifestações exteriores e as cerimónias e que se consagravam ao cumprimento desses ritos sem se preocuparem com o seu conteúdo e o seu sentido oculto. Era o caso de Villarski e até do grão-mestre da loja principal.
O quarto, por fim, abrangia igualmente grande número de irmãos, neófitos sobretudo. Nele figuravam, consoante lhe fora dado observar, os que em nada acreditavam, nada desejavam, e que apenas se haviam filiado para conhecer os irmãos ricos e poderosos, graças às suas relações e à sua fidalguia, espécie muito abundante.
Pedro começava a sentir-se pouco contente com a actividade que desenvolvia. A maçonaria, pelo menos a maçonaria que tinha diante dos olhos, na maior parte dos casos afigurava-se-lhe não passar de um puro formalismo. Claro está que não pensava em atacar os fundamentos da própria instituição, mas estava persuadido de que a maçonaria russa ia por caminho errado e se afastava dos seus objectivos. Ris porque no fim do ano abalou para o estrangeiro na intenção de se iniciar nos altos mistérios da ordem.
No Verão de 1809. Pedro estava de regresso a Petersburgo. Os pedreiros-livres russos haviam sabido, através dos seus correspondentes no estrangeiro, que Bezukov conquistara a confiança de vários altos dignitários, fora iniciado num grande número de mistérios e tinha sido promovido aos graus mais elevados, regressando cheio de projectos úteis à maçonaria russa. Os irmãos de Petersburgo todos se apressaram em visitá-lo, procurando conquistar-lhe a simpatia e ficaram persuadidos de que ele lhes reservava qualquer surpresa.
Convocou-se a reunião solene de uma loja do segundo grau, onde Pedro prometera comunicar a mensagem, de que era portador, destinada aos irmãos de Petersburgo, da parte dos altos dignitários da ordem. A sessão era plenária. Após as cerimónias habituais. Pedro levantou-se e principiou: «Queridos irmãos!», disse, corando e gaguejando, com o discurso escrito na mão, «não basta cumprir os nossos mistérios no segredo da loja, é preciso agir.., sim, agir. Estamos neste momento adormecidos e precisamos de agir.» Pegou nas folhas e pôs-se a ler: «A fim de espalhar a verdade pura e de conseguir o triunfo da virtude, devemos libertar os nossos semelhantes dos preconceitos, difundir regras de acordo com o espírito do nosso tempo, darmo-nos à tarefa de instruir a mocidade, unirmo-nos por laços indissolúveis aos espíritos mais esclarecidos, vencer, ao mesmo tempo corajosos e prudentes, a superstição, a incredulidade e a estultícia, formando, entre aqueles que nos são dedicados, pessoas ligadas entre si pela unidade do objectivo e dispondo do poder e da força. Para alcançar esta finalidade é Preciso que a virtude prevaleça sobre o vício e que o homem de bem receba já neste mundo recompensa eterna das suas virtudes. Mas a verdade é que a estes altos desígnios se opõe um grande número de instituições políticas externas. Que fazer em tal estado de coisas? Favorecer as revoluções, arrasar tudo, usar da força contra a força?... Não, isso não está nos nossos desígnios. Todas as reformas impostas pela violência são censuráveis, pois nunca corrigirão o mal enquanto os homens continuarem a ser o que são e visto que a prudência dispensa perfeitamente a violência. A nossa ordem deve procurar formar homens decididos, virtuosos e unidos pela identidade de convicção, a qual consiste em querer, por toda a parte e com todas as suas forças, castigar o vício e a estultícia e proteger o talento e a virtude, numa palavra, arrancar da lama os que disso são dignos, para os associarmos â nossa ordem. Só então a nossa instituição terá o poder de amarrar insensivelmente as mãos dos fautores da desordem e de os dirigir sem que eles próprios dêem por isso. Em resumo, seria preciso estabelecer uma forma de governo universal e dirigente capaz de se propagar pelo mundo inteiro, sem no entanto romper os laços civis dos vários Estados, e sob cuja égide todos os demais governos continuariam a existir de acordo com a sua lei habitual, em tudo livres na sua acção, excepto em oporem-se ao fim supremo da nossa ordem, o qual é o de procurar que a virtude triunfe do vício. Esse o objectivo do próprio cristianismo. Foi ele que ensinou os homens a ser prudentes e bons e a seguirem, para seu bem, o exemplo e as lições dos melhores e dos mais prudentes.
No tempo em que tudo estava mergulhado nas trevas bastava exortação só por si. O ineditismo da verdade proclamada dava-lhe uma força especial; mas hoje precisamos de meios muito mais poderosos. Actualmente é necessário que o homem, guiado pela sua própria sensibilidade, encontre na virtude como que um encanto sensual. Não é possível extirpar as paixões. Temos de limitar-nos a dirigi-las para uma finalidade nobre e é por isso que cada um de nós deve poder dar-lhes satisfação nos limites da virtude e a nossa ordem estar pronta a proporcionar-nos os meios.
Logo que haja em cada Estado um certo número de homens dignos de nós, cada um deles se encarregará de formar outros iguais a si: todos acabarão por estar estreitamente unidos e então tudo será possível na nossa ordem, a qual, em segredo, já tanto conseguiu para bem da humanidade.» O discurso provocou na loja não só uma forte impressão, mas também uma certa emoção. Reconhecendo nas doutrinas expostas as perigosas teorias do iluminismo, a maioria acolheu-o com uma frieza que surpreendeu Pedro. O grão-mestre procurou refutá-lo. Pedro, cada vez mais caloroso, pôs-se a desenvolver as suas ideias. Havia muito que se não assistia a uma sessão tão tempestuosa. Formaram-se partidos: uns atacavam Pedro, acusando-o de iluminismo; outros defendiam-no. Foi a primeira vez que este se deu conta da diversidade infinita dos espíritos, razão pela qual nenhuma verdade é vista do mesmo aspecto por duas pessoas. Até mesmo aqueles que pareciam seus partidários o compreendiam à sua maneira, sugerindo-lhe restrições, modificações com que ele não podia estar de acordo, uma vez que o seu objectivo principal era precisamente o de transmitir as suas ideias tal qual ele próprio as concebera.
No fim da sessão o grão-mestre deu-lhe a entender, com alguma malevolência e num toro irónico, que ele se exaltara de mais e que fora antes o entusiasmo da discussão que o amor da virtude que o determinara. Pedro não respondeu e em poucas palavras perguntou se a sua proposta era aceite. Como lhe respondessem negativamente, saiu sem aguardar as formalidades ordinárias e voltou para casa.
Pedro viu-se de novo assaltado pelo tédio que tanto receava. Nos três dias que se seguiram ao discurso que proferira na loja esteve estendido num divã sem receber ninguém e sem ir a parte alguma.
Foi nessa altura que recebeu uma carta da mulher pedindo-lhe uma entrevista. Queixava-se da mágoa que aquele apartamento lhe causava e dizia-se disposta a consagrar-lhe, daí para o futuro, toda a sua existência.
No fecho da carta anunciava-lhe chegar dentro de dias a Petersburgo, de regresso do estrangeiro.
Pouco depois, um dos menos estimados entre os irmãos maçónicos de Pedro forçava-lhe o isolamento, e, conduzindo a conversa para o capítulo da sua vida conjugal, insinuava-lhe, como se fosse um irmão que lhe falasse, quanto era injusta a sua dureza para com a esposa e que procedendo desse modo se mostrava em contradição com a regra essencial da maçonaria segundo a qual devíamos perdoar a quem se arrepende.
Por essa altura também a sogra, a mulher do príncipe Vassili, lhe mandara recado a pedir-lhe que a visitasse, por pouco tempo que fosse, pois queria falar-lhe de coisas muito importantes. Pedro percebeu existir uma conjura e que o queriam reconciliar com a mulher e a verdade é que no estado moral em que se encontrava nem sequer achou o caso desagradável. Tudo lhe era indiferente. Nada lhe parecia de grande importância na vida, e sob a influência do tédio que o atormentava não procurava defender a sua independência nem sequer já pensava na resolução que tomara de castigar a mulher.
«Ninguém tem razão, ninguém é culpado; talvez que ela própria não seja culpada», dizia de si para consigo.
Se não cedeu imediatamente, aceitando desde logo uma reconciliação, foi apenas porque no estado de apatia moral em que se encontrava não tinha forças para fazer fosse o que fosse. Se a mulher viesse naquele momento ao seu encontro, seria certo que a não afastaria de si. Pois não lhe era indiferente, perante as preocupações que o absorviam, viver ou não com ela? Sem responder nem à mulher nem à sogra, um dia, já noite fechada, meteu-se a caminho de Moscovo ria intenção de consultar José Alexeievitch. Eis o que anotou no seu diário:
Moscovo, 17 de Novembro.
Acabo de sair de casa do Benfeitor e dou-me pressa em registar as minhas impressões a esse respeito. José Alexeievitch vive pobremente e há já três anos que sofre muito com uma doença de bexiga. Ninguém lhe ouviu ainda uma queixa ou um murmúrio. Desde manhã até noite alta, exceptuando as horas em que toma os seus mais que frugais repastos, está todo entregue a trabalhos científicos. Recebeu-me afectuosamente e mandou-me sentar na cama em que ele próprio estava estendido. Fiz-lhe o sinal dos cavaleiros do Oriente e de Jerusalém, a que ele me respondeu no mesmo estilo e com o seu meigo sorriso perguntou-me o que tinha eu aprendido nas lojas da Prússia e da Holanda. Contei-lhe tudo quanto sabia, expus-lhe as ideias que desenvolvera na nossa loja de Petersburgo e contei-lhe o mau acolhimento que aí encontrara e o meu rompimento com os irmãos. José Alexeievitch, depois de muito ter reflectido em silêncio, expôs-me o seu ponto de vista, o qual iluminou instantaneamente todo o meu passado e o caminho que doravante se abria diante de mim. Fiquei surpreendido ao perguntar-me se eu me lembrava do tríplice objectivo da ordem: 1º a conservação e o estudo dos mistérios; 2º a purificação e a regeneração de nós próprios com vista a podermos participar desses mistérios, e 3º o aperfeiçoamento do género humano graças aos esforços feitos em vista desta purificação. Qual destes objectivos é o mais importante e o primeiro deles? Claro está que a emenda e a purificação de nós próprios. É este o único que nós sempre nos podemos esforçar por conseguir, independentemente de todas as circunstâncias. Ao mesmo tempo, porém, é ele que exige de nós os maiores esforços: eis porque, desorientados pelo orgulho, deixamos de lado este objectivo essencial e nos consagramos quer ao conhecimento dos mistérios que no nosso estado de impureza não somos dignos de compreender, quer ao aperfeiçoamento do género humano, quando o certo é que nós próprios estamos a ser exemplo de indignidade e de perversão. O iluminismo não é boa doutrina precisamente porque os seus adeptos se deixaram levar pelo desejo de desempenhar um papel social e é o orgulho que os domina. Desse ponto de vista José Alexeievitch censurou o meu discurso e tudo quanto eu fizera. No fundo da minha alma senti-me de acordo com ele.
A respeito da minha vida familiar, eis o que ele me disse: «O principal dever do franco-mação, como acabo de lhe dizer, está no aperfeiçoamento de si próprio. Muitas vezes, porém, julgamos poder alcançar mais depressa este objectivo afastando de nós todas as dificuldades da vida. É o contrário, meu caro senhor», afirmou, «é no meio da agitação do mundo que nós podemos alcançar os nossos três objectivos: 1º o conhecimento de nós mesmos, pois o homem não pode conhecer-se verdadeiramente senão por comparação; 2º o aperfeiçoamento, que se não alcança senão na luta; 3º a virtude suprema, que é o amor da morte. Só as vicissitudes da vida nos podem mostrar toda a vaidade desta, contribuindo para nos inspirar o amor da morte, isto é, o desejo da ressurreição numa nova vida.» Estas palavras eram tanto mais extraordinárias quanto é certo José Alexeievitch, apesar de todos os seus sofrimentos físicos, nunca sentir o peso da existência, mas amar a morte, para a qual, apesar de toda a sua pureza e toda a sua sublimidade, ainda se não sentia suficientemente preparado. Em seguida o Benfeitor explicou-me por completo o significado do grande quadrado da criação e demonstrou-me que os algarismos 3 e 7 são o fundamento de tudo quanto existe. Aconselhou-me a que não renunciasse a todas as relações com os meus irmãos de Petersburgo e, conquanto me limitasse a desempenhar na loja funções de segunda ordem, que me devia esforçar por desvid-1os dos caminhos do orgulho, trazendo-os para a verdadeira senda do conhecimento e do aperfeiçoamento de nós próprios.
Além disso, a mim, pessoalmente, aconselhou-me a que antes de mais nada me observasse a mim mesmo e nessa intenção ofereceu-me um caderno - este mesmo em que neste momento escrevo -, onde de futuro registarei todos os meus actos.
Petersburgo, 23 de Novembro.
Voltei a viver com minha mulher. Minha sogra, toda chorosa, veio a minha casa e disse-me que a Helena se encontrava em Petersburgo e me implorava que a ouvisse, que estava inocente, que era infeliz abandonada por mim e mais muitas outras coisas. Eu sabia que desde que consentisse em tornar a vê-la não teria coragem para resistir às súplicas que me fizesse. Sem saber que fazer, perguntava a mim mesmo a quem pediria socorro e conselho. Se o Benfeitor aqui estivesse, ter-me-ia guiado. Recolhi-me em mim mesmo, reli as cartas de José Alexeievitch, recordei as nossas conversas e concluí que se não me devia negar a quem pede, antes estender a todos mão caritativa, com mais razão o devia fazer a uma pessoa que me estava ligada por laços tão estreitos, não me furtando à minha cruz. Mas já que é em nome do triunfo da virtude que eu lhe perdoo, ao menos que a minha união com ela tenha apenas finalidade espiritual. Tomei esta resolução e dei parte dela a José Alexeievitch. Pedi a minha mulher que esquecesse todo o passado, que me perdoasse aquilo em que eu tivesse andado mal para com ela e que pela minha parte nada tinha a perdoar-lhe. Sentia-me feliz por lhe falar nestes termos. Que ela não saiba quanto me foi penoso tornar a vê-la. Instalei-me nos andares superiores da nossa casa e a felicidade que sinto neste momento é a de alguém que de novo recomeçou a vida.
A alta sociedade que se reunia quer na corte, quer nos grandes bailes dividia-se então, como sempre, de resto, em vários círculos, cada um com a sua fisionomia própria. O mais numeroso era o francês - partidário da aliança com Napoleão -, o do conde Rumiantsov e Caulaincourt. Helena passou a ocupar neste círculo um dos lugares mais em evidência assim que veio reinstalar-se em Petersburgo com o marido. A gente da Embaixada de França, e grande número de pessoas, notáveis pelo seu espírito e pela sua polidez, que faziam parte da mesma sociedade, frequentaram os salões da condessa, Helena encontrava-se em Erfurth aquando da famosa entrevista dos imperadores e foi aí que encetou as suas relações com todos os nomes ilustres da Europa e do meio napoleónico. Brilhante fora o seu êxito. Napoleão, que a vira no teatro, dissera dela: «É um soberbo animal.» Estes êxitos de mulher bela e elegante não surpreenderam Pedro, pois, com os anos, tornara-se ainda mais formosa. Grande foi, porém, a sua surpresa ao verificar que naqueles dois anos ela arranjara maneira de gozar da reputação «de uma mulher encantadora, tão espiritual quão bela». O famoso príncipe de Ligne escrevia-lhe cartas de oito páginas. Bilibine reservava as primícias dos seus ditos de espírito para a condessa Bezukov. O ser-se admitido nos seus salões equivalia a receber diploma de pessoa de espírito. Os jovens liam livros de propósito antes de se apresentarem nas suas recepções, para assim disporem de um assunto de conversa, e os secretários de embaixada, e por vezes os próprios embaixadores, confiavam-lhe segredos diplomáticos, de tal sorte que Helena, no seu género, era um verdadeiro potentado. Pedro, que a tinha por muito estúpida, assistia por vezes, num estranho misto de perplexidade e de receio, às recepções e aos jantares que ela dava e em que se falava de política, de poesia ou de filosofia. Experimentava um sentimento semelhante ao do prestidigitador que espera a todo o instante ver descoberto o truque de que usa. Ou porque a estupidez fosse precisamente o que convinha para dirigir um salão deste género ou porque os logrados sentissem prazer em se deixar iludir, o certo é que o truque não era descoberto e a reputação de mulher encantadora e espiritual tão solidamente se arreigara à personalidade de Helena Vassilievna Bezukov que ela podia pronunciar as maiores necedades e as mais rotundas tolices que nem por isso os seus admiradores deixavam de se extasiar perante o que ela dizia, dando-se ao cuidado de atribuir a cada uma das suas palavras um sentido profundo, sentido que ela própria estava longe de suspeitar.
Pedro, eis o marido talhado para esta brilhante mundana. Era o original distraído, o esposo fidalgo, que não incomodava ninguém, e não só não estragava a impressão geral do alto tom do salão, mas, antes pelo contrário, mercê do contraste que estabelecia com a distinção e o tacto da mulher, lhe servia de vantajoso pano de fundo. No decorrer desses dois anos, a contínua contenção de espírito a que se obrigara na familiaridade com as coisas abstractas, o seu perfeito desdém por tudo o mais levara-o a assumir nesta sociedade bem pouco interessante para ele um certo tom de indiferença, de desprendimento e de indulgência para com tudo - coisa que se não adquire artificialmente - que não deixava de inspirar respeito. Entrava no salão da mulher como um actor que entra no palco, conhecia toda a gente, a todos acolhia bem, mantendo-se a igual distância de todos. Por vezes participava numa conversa que o interessava, e então, sem se preocupar em saber se os cavalheiros da Embaixada estavam ou não presentes, exprimia, tartamudeando, ideias que frequentemente eram muitíssimo contrárias ao tom da ocasião. Porém a opinião acerca do original marido de a mulher mais distinta de Petersburgo tão radicada estava que ninguém tomava a sério as suas inconveniências.
Entre os numerosos jovens que frequentavam assiduamente os salões de Helena um dos mais íntimos, após o regresso de Erfurth, era Bóris Drubetskoi, que já então fizera uma brilhante carreira. Helena chamava-lhe o meu pagem e tratava-o como se ele fosse uma criança. Os sorrisos que lhe dirigia eram iguais aos que dirigia a todos os outros, e no entanto Pedro por vezes sentia-se perante eles desagradavelmente impressionado. Bóris testemunhava ao marido de Helena uma deferência especial, cheia de dignidade e como que de compaixão, e punha nisso uma nuance que ainda mais inquietava Pedro. Este sofrera tanto, três anos antes, com a ofensa que recebera da esposa que procurava agora evitar um ultraje semelhante, em primeiro lugar mantendo-se como se não fosse marido da mulher e em seguida não se permitindo a si próprio suspeitar da sua conduta.
«Sim, agora que ela armou em bas-bleu, é porque renunciou para sempre aos desvarios de outrora», dizia para si mesmo. «Não há exemplo de uma bas-bleu se abandonar a desvarios do coração», repetia, desenterrando, nem ele sabia donde, este axioma a que se agarrava com unhas e dentes. No entanto, coisa estranha, a presença de Bóris no salão da mulher, onde era visto a todo o instante, exercia sobre ele um efeito quase físico: paralisava-o de braços e pernas, suprimia-lhe o automatismo dos movimentos e dos gestos.
«Que curiosa antipatia», dizia consigo mesmo; «no entanto, antigamente até gostava dele, e mesmo muito.» Eis como, aos olhos do mundo. Pedro passava por um grande senhor, marido, um pouco míope e ridículo, de uma mulher célebre, um original espiritual que nada fazia, mas que, por isso mesmo, não fazia mal a ninguém, um fraco e pobre diabo. Contudo na alma de Pedro ia-se realizando, entretanto, um trabalho complicado e difícil de desenvolvimento interior, que lhe abria largos horizontes e o conduzia, ao mesmo tempo que a não poucas dúvidas, a muitas alegrias morais.