Prosseguindo no seu diário, eis o que ele escrevia por essa altura:
24 de Novembro.
Levantei-me às oito horas, li as Sagradas Escrituras, depois fui à minha reunião. [Pedro, a conselho do Benfeitor, consentira em fazer parte duma comissão.] Voltei para jantar. Comi só. A condessa tem muitos convidados que a mim me são desagradáveis. Comi e bebi moderadamente e depois da refeição copiei documentos para os irmãos. A noite desci aos salões da condessa; contei ali uma divertida história acerca de B, e tarde de mais é que reconheci, em virtude das grandes gargalhadas de toda a gente, que não devia ter contado a história.
Deito-me, sereno e feliz de espírito. Senhor Todo- Poderoso, ajuda-me a seguir pelas Tuas sendas, isto é: 1.o a dominar os meus ataques de cólera, graças à cordura e à paciência; 2.o a vencer a luxúria, graças à continência; 3.o a afastar-me das agitações mundanas, embora não abandonando: a) os negócios públicos; b) os interesses de família; c) as relações de amizade, e d) os assuntos económicos.
27 de Novembro.
Levantei-me tarde, e, uma vez acordado, fiquei muito tempo na cama, por preguiça. ó meu Deus! Ajuda-me e fortalece-me, para que eu possa caminhar pelas Tuas sendas. Li as Sagradas Escrituras, mas sem o recolhimento necessário. O irmão Urussov apareceu, falámos das vaidades deste mundo. Referiu-se aos novos projectos do imperador. Principiei por criticá-los, mas lembrei-me das regras e do que me disse o Benfeitor, que o verdadeiro irmão maçónico deve ser zeloso instrumento do Estado quando lhe pedem o seu concurso e espectador passivo do que lhe não diz respeito. A minha língua é a minha maior inimiga. Os irmãos G. V, e O, também apareceram. Tivemos uma conversa preambular sobre a admissão de um novo irmão. Confiaram-me as funções de »reitor. Sinto-me indigno e incapaz, de bem desempenhar esse cargo. Falámos depois da interpretação das sete colunas e dos degraus do templo, das sete ciências, das sete virtudes, dos sete vícios, dos sete dons do Espírito Santo. O irmão O, foi muito eloquente. A noite houve recepção. As novas instalações concorreram largamente para a magnificência do espectáculo. Foi Bóris Drubetskoi o irmão recebido. Coube-me ser seu padrinho e igualmente seu reitor. Um estranho sentimento me agitou durante todo o tempo em que estive com ele no templo obscuro. Surpreendi-me a sentir por ele um ódio que debalde procurei dominar. E, no entanto, sinceramente, desejaria salvá-lo do mal e conduzi-lo ao caminho da verdade, mas os maus pensamentos não me abandonavam. Para comigo dizia que, ao filiar-se, o seu objectivo não era outro senão aproximar-se de certas pessoas, de ganhar as boas graças daqueles que pertencem à nossa loja. Efectivamente, por mais de uma vez perguntou se Fulano ou Sicrano não faziam parte da loja, coisa que aliás eu lhe não pude confirmar. Como me foi dado observar, é com toda a certeza incapaz de ter respeito pela nossa santa ordem e está por de mais preocupado com a sua pessoa física e por de mais satisfeito consigo mesmo para aspirar a qualquer aperfeiçoamento moral. No entanto não tenho razões especiais para duvidar dele. Pareceu-me, todavia, pouco sincero e durante todo o tempo em que esteve sozinho comigo no templo obscuro afigurou-se-me que sorria com desdém dos meus discursos e não me faltaram desejos de lhe trespassar a valer o peito nu com a espada que nele apoiava. Não me pude mostrar eloquente, mas, sinceramente, não podia dar parte das minhas dúvidas aos irmãos e ao grão-mestre. ó Grande Arquitecto do Universo, ajuda-me a encontrar as verdadeiras sendas que me farão sair do labirinto da mentira.
Três páginas em branco se sucediam. Depois estava escrito o seguinte:
Tive uma longa e instrutiva conversa em segredo com o irmão V., que me aconselhou a que me acautelasse com o irmão A. Muitas coisas me foram reveladas, ainda que eu seja indigno delas. Adonais é o nome daquele que criou o mundo. Eloim é o nome do que dirige todas as coisas.
O terceiro nome é aquele que se não pronuncia: significa o Todo. As minhas conversas com o irmão V, fortalecem-me, iluminam-me e consolidam-me no caminho da virtude. Nele a dúvida não existe. Vejo claramente a diferença que lia entre as pobres ciências que se ensinam no mundo e a nossa santa doutrina, que abarca tudo. As ciências humanas fragmentam tudo para compreenderem, matam tudo para examinarem. Na santa ciência da nossa ordem tudo é uno, tudo é inteligível na sua complexidade, na sua vida. A tríade, os três elementos das coisas, são o enxofre, o mercúrio e o sal. O enxofre tem ao mesmo tempo as propriedades do azeite e do fogo; junto ao sal excita nele, graças ao fogo que encerra, o desejo, por meio do qual atrai o mercúrio, o apanha, o retém e produz com ele corpos distintos.
O mercúrio é a essência espiritual no estado líquido e gasoso. É o Cristo, o Espírito Santo, o Ser.
3 de Dezembro, Acordei tarde, li as Sagradas Escrituras mas fiquei insensível. Em seguida saí do meu quarto e passeei de um lado para o outro no salão. Queria meditar, mas em vez disso a minha imaginação representou-me um facto ocorrido há quatro anos. Encontrando-me em Moscovo, depois do duelo. Dolokov disse-me que esperava que eu usufruísse agora de uma perfeita quietude da alma, apesar da ausência de minha mulher. Não lhe respondi então; mas agora lembro-me de todos os pormenores dessa conversa e mentalmente dirijo-lhe as diatribes mais malévolas e as palavras mais cáusticas. Refiz-me e sacudi de mim estes pensamentos, mas não me arrependi devidamente. Depois apareceu Bóris Drubetskoi e pôs-se a contar diversas anedotas. Não lhe mostrei boa cara e dirigi-lhe mesmo algumas palavras pouco amáveis. Respondeu-me. Exaltei-me e disse-lhe uma série de coisas desagradáveis e até mesmo descorteses. Calou-se; eu quis fazer esquecer as minhas palavras, mas já era tarde de mais. Meu Deus, não consigo saber comportar-me para com ele. A causa está no meu amor-próprio. Considero-me muito acima dele, de modo que a minha conduta é bem pior do que a sua. Ele mostra-se indulgente para com a minha grosseria, enquanto eu, pelo contrário, só mostro desdém para com ele. Meu Deus, permite que eu diante dele veja melhor a minha indignidade e que proceda de modo a ser útil, até mesmo a ele. Depois de jantar passei pelo sono, durante o qual ouvi distintamente uma voz que me dizia ao ouvido esquerdo: «Chegou a tua hora.» Sonhei que caminhava na escuridão e que de súbito me via rodeado de cães. Nem por isso caminhava com menos medo. De repente um cachorrinho deitou-me os dentes à barriga da perna esquerda e não me largava. Lancei-lhe as mãos ao pescoço e estrangulei-o. Mal me libertara de um, logo outro, muito maior, me ferra os dentes. Agarro-o, e quanto mais o levanto no ar mais pesado e maior ele se torna. De súbito aparece o irmão A., que me pega por debaixo dos braços, me leva consigo e me conduz a um edifício onde se não pode entrar senão depois de se atravessar uma prancha muito estreita. Quando principiei a andar por cima dela, a prancha oscilou e caiu e eu trepei por uma paliçada a que dificilmente me podia agarrar. Depois de grandes esforços consegui içar o corpo de tal sorte que fiquei com as pernas de um lado e o tronco do outro. Voltei-me e vi o irmão A., de pé em cima da paliçada, apontando-me uma grande avenida e um parque no qual havia uma bela e imponente construção. Acordei. Senhor. Grande Arquitecto do Universo, ajuda-me a ver-me livre destes cães, que, são as minhas paixões, e do último, de entre todos aquele que, em si concentra a potência de todos os demais. Ajuda-me a penetrar nesse templo da virtude cuja visão eu tive no meu sonho.
7 de Dezembro.
Sonhei que José Alexeievitch estava em minha casa e eu me sentia feliz e muito desejava tratá-lo bem. Mas como eu tagarelava indefinidamente com estranhos e de âmbito me lembrei de que isso lhe era desagradável, tive vontade de me aproximar dele e de o apertar nos meus braços. Porém, ao aproximar-me, vi que o seu rosto se transfigurava, remoçando, e ouvi algumas palavra mas em voz muito baixa sobre a doutrina da ordem, e tão baixa que o não pude compreender. Em seguida saímos todos da sala e então aconteceu qualquer coisa muito curiosa. Estávamos sentados, uns, ou deitados no chão, outros. E ele falava-me. Mas eu, querendo mostrar-lhe a minha sensibilidade, sem prestar atenção às suas palavras, pus-me a evocar dentro de mim o estado do meu ser interior e a graça de Deus que me inunda. E então os olhos encheram-se-me de lágrimas e muito feliz me senti por ele ter visto que eu chorava. Mas lançou-me um olhar de descontentamento e afastou-se de mim, interrompendo a conversa. Senti-me intimidado e perguntei-lhe se era de mim que ele tinha querido falar. Não me respondeu, mostrou-me uma expressão amável e depois, repentinamente, surpreendemo-nos no meu quarto, onde há uma cama de casal. Deitou-se ele à beira da cama e eu, que senti desejos de por ele ser acariciado, estendi-me também a seu lado. E eis que ele me interroga: «Diga-me a verdade, qual é a sua maior paixão? Sabe qual é? Creio que já a conhece.» Perturbado com a pergunta, redargui-lhe que a preguiça era a minha maior paixão. Abanou a cabeça, incrédulo. Então respondi-lhe, cada vez mais perturbado, que, embora estivesse com minha mulher, como ele me aconselhara, não vivia com ela maritalmente. A isto ele objectou que eu não devia privar minha mulher das minhas carícias. Deu-me a entender ser essa a minha obrigação. Eu, porém, respondi-lhe que tinha vergonha, e de repente tudo desapareceu. Acordei e veio-me à memória este passo das Sagradas Escrituras: «E a vida era a luz dos homens. E a luz brilhou nas trevas e as trevas não a receberam.» O rosto de José Alexeievitch resplandecia de juventude. Nesse mesmo dia recebi uma carta do Benfeitor a propósito dos deveres conjugais.
9 de Dezembro.
Tive um sonho que me fez acordar com o coração febril. Sonhei que estava na minha casa de Moscovo, deitado num divã, e que José Alexeievitch saía do salão. Vi imediatamente que se havia operado nele como que uma ressurreição e corri ao seu encontro. Beijei-lhe a cara e as mãos e ele disse-me: «Notaste que a minha cara não é a mesma?» Olhei-o mantendo-o apertado nos meus braços, e vi que ele tinha cara de mulher, mas que lhe faltavam os cabelos e que mudara por completo de fisionomia. E disse-lhe então: «Tê-lo-ia reconhecido apesar de tudo se o tivesse encontrado por acaso.» E, entretanto, para mim mesmo murmurava: «Estarei a dizer a verdade?» E de súbito vi-o diante de mim estendido como um cadáver; depois, pouco a pouco, voltou a si, e entrou comigo no meu espaçoso gabinete tendo na mão um grande livro pintado, de folhas de papiro. E eu disse-lhe: «Fui eu quem o pintou.» E ele respondeu-me com um aceno de cabeça. Abri o livro; em todas as suas páginas havia lindos desenhos. E eu sabia que esses desenhos representavam as aventuras amorosas da alma com aquele a quem a alma ama. Numa das páginas vi uma linda imagem de uma virgem, com vestes transparentes, a erguer-se nas nuvens. E eu sabia que essa virgem mais não era que uma representação do Cântico dos Cânticos. E, ao contemplar esses desenhos, sentia perfeitamente que estava fazendo mal, mas não podia desprender deles os olhos. Senhor, ajudai-me! õ meu Deus! Se o abandono a que me votas é obra Tua, que seja feita a Vossa vontade. Mas, se sou eu a sua causa, ensina-me o que devo fazer. Morrerei vítima da minha depravação se me abandonas completamente.
A situação económica dos Rostov não melhorara no decurso dos dois anos que haviam passado no campo. Embora Nicolau, obstinado na sua resolução, continuasse a sua obscura carreira num regimento desconhecido, gastando relativamente pouco, o certo é que o género de vida que a família levava em Otradnoie era o que sempre fora. Além disso. Mitenka, tão bem ou tão mal conduzia os negócios que as dívidas aumentavam de ano para ano. O velho conde só via uma maneira de salvar a situação: aceitar um cargo, e ei-lo que vai para Petersburgo em cata de um lugar. Procurava um lugar, mas, assim o dizia, ao mesmo tempo fazia por divertir as pequenas pela última vez. Pouco depois de chegarem a Petersburgo. Berg pediu a mão de Vera e o pedido foi aceite.
Em Moscovo os Rostov faziam parte da alta sociedade sem darem por isso e sem perguntarem a si próprios de que sociedade faziam parte. Em Petersburgo, porém, a sua situação era incerta e pouco definida. Provincianos, não eram visitados pela mesma gente que em Moscovo teria jantado à custa dos Rostov nem eles previamente perguntaram a que sociedade pertenciam. Viviam em Petersburgo tão faustosamente como em Moscovo e os seus jantares reuniam as mais variadas personagens: vizinhos do campo, velhos proprietários rurais pouco abastados com suas filhas, a dama de honor Peronskaia. Pedro Bezukov e o filho de um mestre-escola do distrito empregado na capital. Não tardou que os íntimos dos Rostov fossem Bóris. Pedro, a quem o velho conde trouxera consigo certa vez que o encontrara na rua, e Berg, que passava dias inteiros lá em casa prestando à filha mais velha dos Rostov, a condessa Vera, as homenagens que habitual- mente presta à noiva o rapaz com intenções matrimoniais.
Berg mostrava com orgulho a toda a gente o braço direito ferido em Austerlitz. A mão esquerda apoiava-a num sabre que para nada lhe servia. Tão obstinadamente decidira contar o seu feito a qualquer que lhe aparecia, e tão grande era a importância que lhe atribuía, que acabara por fazer que os outros acreditassem na autenticidade e no valor do seu acto, e o certo é que, graças a essa proeza, obtivera duas condecorações.
Tivera igualmente ocasião de se distinguir na guerra da Finlândia. Apanhara um estilhaço de obus que acabava de matar um ajudante-de-campo junto do general-chefe e entregara-o ao comandante. E exactamente como acontecera com o caso de Austerlitz, com tantos pormenores e tão insistentemente relatara o facto que toda a gente acabou por acreditar tratar-se de um acto exemplar e, finda que foi a guerra da Finlândia, lá lhe foram concedidas mais duas condecorações. Em 1809 era capitão da Guarda, com o peito constelado de veneras, e em Petersburgo desempenhava um cargo bem remunerado.
Havia cépticos que costumavam sorrir sempre que diante deles se falava dos méritos de Berg, mas ninguém se atrevia a dizer que ele não era um soldado pontual e corajoso, muito bem visto pelos seus superiores, moço de óptima moralidade, com uma carreira brilhante diante de si e até mesmo uma sólida situação na sociedade.
Quatro anos antes, ao encontrar na plateia de um teatro de Moscovo um dos seus camaradas alemães, apontara-lhe Vera Rostov, dizendo-lhe, em alemão: «Aquela será minha mulher.» E a partir desse momento a sua resolução estava tomada. Actualmente, em Petersburgo, comparando a posição dos Rostov com ,, sua própria, decidira que o momento tinha chegado e fizera o seu pedido.
A proposta de Berg principiara por ser acolhida com um espanto pouco lisonjeiro para ele. Considerava-se um pouco estranho que o filho dum obscuro fidalgo da Livónia pedisse em casamento uma condessa Rostov, mas o traço principal do carácter de Berg era o egoísmo, um egoísmo tão ingénuo e inofensivo que os Rostov, inconscientemente, concluíram tudo estar certo, visto ele próprio disso se mostrar firmemente convencido. Para mais, tão abalada estava a fortuna da família que o noivo não podia ignorar a situação. E a verdade é que Vera tinha vinte e quatro anos, aparecia muito em sociedade, e, embora bonita e sensata, ainda ninguém se lembrara de lhe fazer a corte. A proposta foi aceite.
«Estás a ver», dizia Berg ao camarada, a quem só dava o nome de amigo pela simples razão de que era natural que tivesse pelo menos um. «Estás a ver, examinei o caso por todos os lados. Não me teria casado se não tivesse feito convenientemente todos os meus cálculos e se não chegasse à conclusão de que o passo não tinha desvantagens para mim. Pelo contrário. Actualmente meus pais gozam de uma situação desafogada, desde que eu lhes arranjei uma quinta nos países bálticos. Ora eu posso viver perfeitamente em Petersburgo com o meu soldo, a fortuna dela e o meu espírito de economia. Podemos viver mesmo muito bem. Não me caso por causa do dinheiro: acho isso pouco nobre. Mas é bom que a mulher contribua com a sua quota-parte e o marido com a dele. Eu tenho as minhas funções a desempenhar, ela as suas relações e uma pequena fortuna. Nos tempos que correm isto não é coisa para desdenhar, não é verdade? E o principal é uma pessoa casar com uma linda e honesta rapariga, e ela gostar de nós...» Berg, ao dizer isto, sorriu, corando.
«E eu também gosto dela, pois acho-lhe um carácter sério e excelente. E aí tens, por exemplo, a irmã: essa é muito diferente, tem um carácter desagradável, falta-lhe bom senso e não sei que há nela, não atrai... Enquanto que a minha noiva... Espero que venhas a nossa casa...», ia a dizer «jantar», mas conteve-se, «...tomar chá», e, graças a um especial movimento da língua, emitiu um pequeno arco de fumo de tabaco, emblema perfeito de todos os seus sonhos de felicidade.
Uma vez passado o primeiro momento de embaraço provocado pelo pedido de Berg, a família, como é costume em casos tais, entrou numa quadra de festas e alegria, embora de alegria pouco sincera e toda exterior. Os pais pareciam constrangidos e um pouco envergonhados. Receavam deixar transparecer que gostavam pouco de Vera e que lhes não era desagradável verem-se livres dela. Mais do que ninguém na família, o conde era a pessoa mais contrariada. É certo que ele próprio não poderia claramente explicar a causa da contrariedade que sentia, mas eram os embaraços de dinheiro que o atormentavam. Ignorava por completo o que possuía, qual o montante das dívidas e o que estava em condições de dar a Vera como dote. Quando nasceram, a cada uma das filhas atribuíra-lhes, respectivamente, trezentas almas em dote. Mas uma das aldeias abrangidas já fora vendida, a outra estava hipotecada e tão atrasada no pagamento dos juros que era mister vendê-la, e assim não havia mais remédio que renunciar às propriedades base. Quanto a dinheiro de contado, era coisa que também não existia.
Havia já mais de um mês que Berg estava noivo, só faltavam oito dias para o casamento e o conde ainda não resolvera, pela sua parte, o caso do dote nem falara ainda no assunto à mulher. Ora queria atribuir à filha o domínio de Riazan, ora vender uma floresta, ora ainda pedir dinheiro emprestado sobre letra. Alguns dias antes da cerimónia. Berg apresentou-se de manhã cedo no gabinete do conde e, sorridente, perguntou, respeitosamente, ao futuro sogro em que consistia o dote da condessa Vera. O conde tão embaraçado ficou com a pergunta, a qual, aliás, há muito previa, que respondeu ao acaso a primeira coisa que lhe veio à cabeça.
- Acho muito bem que te preocupes com isso, estou muito contente. Vais ver que não terás razão de queixa.
E, dando algumas pancadinhas no ombro de Berg, levantou-se como que disposto a dar por finda a conversa. Mas Berg, sempre sorridente, declarou que continuava sem saber em que consistia precisamente o dote de Vera e que se lhe não fosse dado tomar conta imediatamente, pelo menos, de parte dele ver-se-ia obrigado a retirar o seu pedido.
- Reflicta, conde, que se eu consentisse em casar sem dispor dos meios necessários para manter minha mulher o meu procedimento seria desonesto.
O conde, desejoso de se mostrar mãos-largas e não querendo expor-se a novos pedidos, deu por finda a conversa pondo a sua assinatura numa letra no valor de oitenta mil rublos. Berg teve um sorriso benigno, beijou o ombro do conde e disse estar-lhe muito agradecido, mas que lhe era impossível organizar a sua nova vida sem dispor de trinta mil rublos em dinheiro, - Ao menos vinte mil, conde - acrescentou -, e nesse caso a letra seria apenas de sessenta mil.
- Bem, bem, muito bem - acorreu o conde -, desculpa-me, meu amigo, podes contar com os teus vinte mil rublos em dinheiro e a letra não será de menos de oitenta mil. Bem, dá cá um abraço.
Estava-se em 1809 e Natacha acabara de fazer dezasseis anos, o termo por ela assinalado no dia em que se tinham beijado, quatro anos antes. Desde então nunca mais tornara a vê-lo, uma vez que fosse. Quando se falava de Bóris diante de Sónia e da mãe. Natacha dizia, com o maior desembaraço, ser evidente que todas essas velhas histórias não passavam de infantilidades de que não valia a pena falar, completamente esquecidas há muito. Mas no fundo do seu coração perguntava-se a si mesma com ansiedade se, em verdade, o laço que a prendia a Bóris seria uma brincadeira ou uma promessa séria a que estivesse realmente ligada.
Desde a época em que Bóris, em 1805, deixara Moscovo para ingressar no exército, nunca mais tornara a ver os Rostov. Várias vezes estivera em Moscovo, passara a pequena distância de Otradnoie, mas nunca se decidira a visitá-los.
Natacha pensava às vezes que ele não queria tornar a vê-la e as suas suspeitas vieram a confirmar-se graças ao tom contristado que assumiam as pessoas idosas da família ao falarem no caso.
- Nos tempos de hoje esquecem-se facilmente os amigos - dizia a condessa sempre que alguém aludia a Bóris.
Também Ana Mikailovna aparecia ultimamente muito pouco, adoptara uma espécie de atitude de dignidade, e sempre que falava dos méritos do filho e da brilhante carreira que encetara fazia-o com um acento de entusiasmo e compenetração. Quando os Rostov chegaram a Petersburgo. Bóris foi visitá-los.
Não o fez sem emoção. A lembrança de Natacha era uma das suas mais poéticas reminiscências. No entanto dava este passo na firme resolução de fazer compreender, tanto a ela pessoalmente como aos pais, que as suas relações de infância não implicavam qualquer espécie de compromisso, quer da parte dela. Natacha, quer da parte dele. Bóris. Gozava de brilhantíssima situação na sociedade, graças à sua intimidade com a condessa Bezukov. E também estava fazendo brilhante carreira, mercê da protecção de certa importante personagem junto de quem gozava de inteira confiança, nutrindo, além disso, um projecto de casamento com um dos mais ricos partidos de Petersburgo, projecto facilmente realizável. Quando Bóris entrou no salão dos Rostov. Natacha estava nos seus aposentos. Ao saber que ele chegara, apareceu, muito corada, nos lábios um sorriso onde havia mais alguma coisa que amabilidade.
Bóris lembrava-se da Natacha de vestidos curtos, olhos negros faiscando sob os caracóis do cabelo, o riso infantil em catadupa, que ele conhecera quatro anos antes. Por isso, quando viu entrar no salão uma Natacha completamente diferente, grande perturbação o tomou e também uma profunda admiração. Natacha deu por isso e regozijou-se.
- Então, já não conheces a tua amiguinha azougada? - disse-lhe a condessa.
Bóris beijou a mão de Natacha, dizendo não estar em si com a modificação que nela se operara.
- Como esta linda! - Assim parece! - replicaram-lhe os olhos risonhos da mocinha. - E o pai, acha que envelheceu? - perguntou ela.
Natacha sentou-se, e, sem tomar parte na conversa de Bóris e da condessa, pôs-se a examinar, concentrada, o noivo da sua infância nos mais pequeninos pormenores. Por sua vez. Bóris sentia aflorá-lo esse olhar afectuoso, mas obstinado, e de tempos a tempos olhava também para ela.
O uniforme, as esporas, a faixa, o penteado de Bóris, era tudo à última moda e muito comme il faut... Foi o que ela notou imediatamente. Bóris estava sentado, a três quartos, numa poltrona ao pé da condessa e ia afagando com a mão direita a luva imaculada que lhe moldava a mão esquerda. Falava, com uma prega especial dos lábios, um pouco afectada, da alta sociedade petersburguesa, e com ligeira ironia do tempo de Moscovo e das pessoas conhecidas de então. Não foi por acaso, como Natacha teve ocasião de notar, que aludiu, a propósito da alta aristocracia, ao baile da embaixada onde estivera, dos convites para casa de Fulano e de Sicrano.
Natacha conservou-se calada todo esse tempo, relanceando os olhos a furto. Estes seus olhares acabaram por inquietar e perturbar Bóris. A cada passo se voltava para ela, interrompendo o que estava a dizer. Não se demorou mais de dez minutos, erguendo-se e pedindo licença para se retirar. E sempre os mesmos olhos curiosos, um pouco provocantes e zombeteiros, seguindo-lhe os movimentos. Depois desta primeira visita. Bóris, reconhecendo que achava Natacha tão atraente como outrora, entendeu não dever abandonar-se a esse sentimento’, uma vez que um casamento com ela, menina quase desprovida de fortuna, acarretaria a ruína da sua carreira, e renovar as antigas relações sem pensar em casar seria proceder com pouca correcção. Decidiu de si para consigo evitar encontrá-la. No entanto, apesar desta resolução, voltou a aparecer em casa dos Rostov alguns dias mais tarde, renovando depois essas visitas com frequência e lá ficando dias inteiros. Passava o tempo a dizer a si próprio que se tornava necessária urna explicação entre ele e Natacha, que lhe devia fazer compreender que era preciso esquecerem o passado, que apesar de tudo.., ela não podia vir a ser sua mulher, que ele não tinha fortuna e que nunca lhe concederiam a sua .mão. Mas nunca conseguia falar, e sentia-se embaraçado de mais para abordar semelhante explicação. A medida que os dias passavam mais difícil a situação se tornava. Natacha, assim o observava a mãe e Sónia, parecia de novo enamorada de Bóris como antigamente. Cantava-lhe as melodias preferidas, mostrava-lhe o álbum de recordações, pedia-lhe que escrevesse qualquer coisa e impedia-o de pensar nos tempos antigos, tão belos lhe tornava os momentos presentes. De dia para dia ele se ia perdendo no meio da neblina, sem lhe comunicar as suas intenções, não sabia o que fazia, nem porque voltava a vê-la, nem como tudo aquilo iria acabar. Bóris deixara de aparecer em casa de Helena, de quem recebia todos os dias bilhetinhos cheios de queixas. Nem por isso, contudo, as suas visitas a casa dos Rostov, onde passava dias inteiros, mostravam rarear.
Certa noite em que a condessa velha, de camisa de dormir, sem os caracóis postiços e com as guedelhas a aparecer por debaixo da touca de algodão, fazia, ajoelhada no tapete, as profundas genuflexões das suas orações da noite, gemendo e tossicando, a porta abriu-se e Natacha apareceu a correr, os pés, sem meias, dentro das chinelas de quarto, também de camisa de dormir e com papelotes. A condessa voltou-se e franziu o sobrolho. Terminava a última oração: «Será este leito o meu túmulo?» De súbito todo o seu recolhimento se desvaneceu. Natacha, muito corada e em grande excitação, ao ver que a mãe rezava, estacou, de súbito, meio acocorada, e deitou a língua de fora, como se acabasse de ser surpreendida em qualquer maldade. Como a mãe continuava a rezar, correu para a cama, a pé-coxinho, tirou as chinelas e deu um pulo para cima do leito que a condessa receava viesse a ser o seu túmulo. Era urna grande cama de penas, com cinco almofadas, de tamanho decrescente.
Natacha, uma vez em cima da cama, meteu a cabeça no edredão, deixou-se descair até junto da parede e pôs-se a encolher-se, a aninhar-se, puxando os joelhos para o queixo, agitando as pernas e com um riso abafado, ora escondendo a cabeça, ora lançando um olhar de viés para o lado onde estava a mãe. A condessa, findas as suas orações, aproximou-se da cama com uma expressão severa. Ao ver, porém, que Natacha escondia a cabeça debaixo das cobertas, um sorriso meigo e bom lhe veio aos lábios.
- Então, que é isso? - disse ela.
- Mãe, podemos conversar as duas um bocadinho? - Perguntou Natacha.- Deixa-me beijar-te aqui, no pescoço, uma só vez.- Abraçou-se à condessa e beijou-a debaixo do queixo. Nestes seus modos havia uma certa brusquidão, mas era tão ligeira e hábil que quando abraçava a mãe conseguia sempre não lhe fazer mal algum, nem aborrecê-la ou maçá-la.
- Bom, que aconteceu hoje? - disse a mãe, ajeitando-se nas almofadas e esperando que a filha, depois de dar duas voltas sobre si mesma, viesse instalar-se a seu lado, debaixo da mesma coberta, as mãos fora dos lençóis e a cara muito séria.
Estas visitas nocturnas que Natacha fazia à mãe antes de o conde regressar do clube eram os momentos mais felizes das duas - mãe e filha! - Que aconteceu hoje? Eu também queria falar contigo...
Natacha pôs-lhe a mão na boca.
- De Bóris... Bem sei - disse ela, num tom muito sério foi por isso que vim até aqui. Não diga, eu sei. Agora, fale - tirou a mão. - Diga, mãe. Acha-o gentil? - Natacha, já fizeste dezasseis anos. Na tua idade já eu estava casada. Dizes que Bóris é gentil. Sim, é muito gentil rapaz, gosto dele como se fosse meu filho, mas, que queres fazer?... Que intenções são as tuas? Deste-lhe volta ao miolo, é o que eu tenho visto...
Dizendo estas palavras, a condessa voltou-se para a filha. Natacha continuava estendida, sem se mexer, de olhos fixos numa das esfinges de acaju esculpidas a cada canto da cama, de modo que a mãe apenas podia vê-la de perfil. A condessa sentiu-se impressionada pela expressão séria e concentrada que se lhe lia no rosto.
Natacha estava cismadora.
- Bom, então o que aconteceu? - disse ela.
- Deste-lhe volta ao miolo, é um facto, e que quer isso dizer? Que lhe queres? Bem sabes que não podes casar com ele.
- Porquê? - perguntou Natacha, sem alterar a posição.
- Porque ele ainda é muito novo, porque é pobre, porque é teu parente.., porque tu própria não gostas dele.
- Quem lhe disse? - Tenho a certeza, e isso não é bonito, minha filha.
- E eu.., se eu quisesse...- balbuciou Natacha.
- Não digas tolices.
- E se eu quiser...
- Natacha, sério, sério...
Natacha não a deixou concluir, puxou para si a grossa mão da condessa, beijou-a por cima e por baixo, em seguida voltou-a e beijou-lhe os nós dos dedos, depois o intervalo entre cada um deles, ainda os outros nós, contando: - Janeiro. Fevereiro. Março. Abril. Maio. Então, fale, mãe, porque está calada? Fale! Fitava a mãe, que a envolvia num olhar terno, e na contemplação em que estava parecia ter esquecido tudo que tinha para dizer.
- Isso não é decente, minha querida. Nem toda a gente conhece a vossa familiaridade de criança, e o verem-te em tal intimidade pode prejudicar-te aos olhos dos outros rapazes que frequentam a nossa casa. E sobretudo só serve para o atormentar inutilmente. É natural que a esta hora já tenha encontrado um partido rico que mais lhe convenha. E o certo é que anda de cabeça perdida.
- Acha? - disse Natacha.
- Vou falar-te com juízo. Também eu tive em tempos um primo...
- Sim, bem sei... Kirilo Matveitich, mas esse é velho. - Nem sempre foi velho. Por isso, olha. Natacha, é bom que eu fale com o Bóris. Não convém que venha cá tantas vezes...
- E porque não, se lhe da prazer? - Porque eu sei que isto não tem pés nem cabeça... - Quem lhe disse? Não, mãe, não fales com ele. São tolices! - exclamou a rapariguinha assumindo o tom de alguém a quem querem tirar o que lhe pertence, - Está descansada. Não caso com ele. Então, porque não há-de ele aparecer, se isso nos diverte tanto a ele como a mim? - Natacha pôs-se a sorrir a olhar para a mãe. - Não caso com ele, e tudo ficará como estava.
- Que dizes tu, minha filha? - Sim, como estava. É absolutamente necessário que eu não case com ele? Então tudo ficará como está.
- Como está, como está - repetiu a condessa enquanto uma grande gargalhada a agitava dos pés à cabeça, uma grande gargalhada de velha.
- Oh, não se ria assim, cale-se! - exclamou Natacha. - A cama está toda a tremer. É tão parecida comigo, é tão alegre... Espere... - Pegou-lhe nas duas mãos e continuou a contar, beijando-as a partir do dedo mínimo: - Junho. Julho. - E passando para a outra mão: - Agosto... Diga, mãe, acha que ele gosta muito de mim? Que lhe parece? Também gostaram assim tanto de si? Sim, é muito gentil, muito, muito gentil! Mas para meu gosto é um bocadinho estreito, assim como a caixa do relógio... Não percebe?... Sim, estreito, e cinzento-claro...
- Que estas tu para ai a dizer? - Não me diga que não compreende - prosseguiu ela - o Nikolenka, esse, compreenderia tudo... Bezukov, por exemplo, é azul, azul-forte, com vermelho à mistura.., e é quadrado.
- Querer-me parecer que também tu fazes um bocadinho coquette com esse, não é verdade? - disse a condessa a rir.
- Não. Disseram-me que era pedreiro-livre. É bom rapaz, mas vermelho e azul-carregado... Como é que lhe hei-de explicar? - Condessinha - disse a voz do conde atrás da porta. - Estás acordada? - Natacha deu um pulo para o chão, procurou as chinelas e fugiu para o quarto.
Custou-lhe a adormecer. Não se cansava de dizer a si própria que ninguém podia compreender tudo quanto ela sentia, tudo quanto ela tinha na cabeça.
«Sónia!» dizia de si para consigo, olhando para a prima, que dormia toda enrolada como uma galinha felpuda. «Ah, sim, é verdade, esta sim, é virtuosa a valer. Está apaixonada pelo Nikolenka e de nada mais quer saber. A mãe também me não compreende. Ninguém é capaz de perceber a menina inteligente que eu sou e como a menina Natacha é bonita», prosseguiu, falando de si mesma na terceira pessoa, como se fosse alguém muito inteligente, urna jóia de homem, que dela estivesse falando. «Tem tudo, tudo por si. É espirituosa, extraordinariamente gentil, e boa, extraordinariamente boa, e habilidosa... Nada, monta muito bem a cavalo e tem uma voz! É o que lhe digo: uma voz surpreendente!» Trauteou a sua frase favorita de uma ópera de Cherubini, deitou-se em cima da cama, pôs-se a rir ao pensar que ia adormecer repentinamente, chamou Duniacha para apagar a vela, e ainda Duniacha não saíra do quarto já ela abalara para o venturoso mundo dos sonhos, onde tudo é tão fácil e tão belo como na realidade, e até mesmo muito mais belo, pois e de outra maneira.
No dia seguinte a condessa mandou chamar Bóris, com quem teve uma conversa, e desse dia em diante Bóris deixou de frequentar a casa.