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Guerra e Paz
(volume ii - Terceira parte)

Leon Tolstoi

Capítulo XIV

No dia 31 de Dezembro, na véspera do Ano Novo de 181O, para festejar o reveillon, havia baile em casa de um grande fidalgo do tempo de Catarina. O corpo diplomático e o próprio czar deviam comparecer.

Uma brilhante iluminação fazia resplandecer a fachada do muito conhecido pa1!cio da grande personalidade, situado no Cais dos Ingleses. No átrio, atapetado de vermelho, estava a polícia, e não apenas guardas, mas o próprio chefe, com uma dúzia de oficiais. Carruagens partiam e chegavam incessantemente, com seus lacaios de farda vermelha ou chapéus emplumados, conduzindo senhores de uniformes agaloados, com grandes cordões e veneras. Senhoras, de vestidos de cetim e peliças de arminho, apeavam-se, com grandes precauções, por entre o ruído das ferragens que faziam os estribos ao fecharem-se, e lá iam, tapete fora, em passos apressados e silenciosos.

De cada vez que uma carruagem se aproximava era quase certo desprender-se um murmúrio da multidão. Havia chapéus no ar, «É o czar?... Não, é o ministro.., o príncipe.., o embaixador... Não vês as plumas?...», ouvia-se no meio da turba. Alguém, ao que parecia, mais bem vestido do que os outros, conhecia toda a gente e designava pelo nome os mais ilustres dignitários da, época.

Já um terço dos convidados tinha chegado e ainda em casa dos Rostov, que deviam assistir ao baile, se procedia aos últimos retoques febris nas toÍ1etteS.

Quantas conferências, quantos preparativos feitos já, que receios de não serem convidados, de os vestidos não estarem prontos a tempo, de as coisas se não arranjarem como convinha...

Maria Ignatievna Peronskaia, amiga e parente da condessa, dama de honor da antiga corte, criatura magra e amarelenta, acompanhava os Rostov, guiando aqueles provincianos nos meandros da alta sociedade de Petersburgo, As dez horas deviam os Rostov ir buscar a dama de honor ao Palácio de Tavritcheski. Já eram dez menos cinco e as meninas ainda não estavam vestidas.

Era o primeiro grande baile de Natacha. Levantara-se às oito horas e levara todo o dia numa febril agitação. Desde manhã que não fazia outra coisa senão empenhar-se em que todos, a mãe. Sónia e ela própria, se apresentassem o melhor possível.

Sónia e a condessa entregavam-se-lhe inteiramente. A condessa devia levar um vestido de veludo vermelho-escuro, as duas raparigas trajos brancos vaporosos, em cima de uma sombra de seda cor-de-rosa com rosas no corpinho. E iriam penteadas à grega. O essencial já estava feito. Já tinham lavado a cara, já se haviam perfumado, e o rosto, as mãos, o colo, as orelhas, tudo fora cuidadosamente polvilhado de pó-de-arroz, como convinha para um baile. Já estavam enfiadas as meias de seda de ponto aberto e calçados os sapatinhos de cetim com fitas. Os penteados estavam prontos. Sónia dava os últimos retoques na toilette, a condessa também. Mas Natacha, que ajudara toda a gente, ainda estava atrasada. Com o roupão pelos ombros magricelas, lá estava diante do espelho. Sónia, já pronta, no meio do quarto, espetava um alfinete, picando-se, com o dedo mínimo, procurando ajeitar a última fita, que repontava.

- Assim não, assim não. Sónia - dizia Natacha. De cabeça voltada, por causa da criada que a penteava, agarrara os cabelos, antes que a aia tivesse tempo de os largar. - O nó assim não. Vem cá.

Sónia sentou-se. Natacha pôs-lhe a fita de outra maneira.

- Desculpe, menina, assim nada posso fazer - protestou a criada de quarto, sem largar os cabelos de Natacha.

- Oh, meu Deus, bem, espera um pouco. Assim, Sónia.

- Vejam se se aviam - disse a condessa. - Estão a dar dez horas.

- É já, é já. E a mãe, já está pronta? - Só me falta pôr o toucado.

- Não ponha a touca sem eu a ajudar - gritou Natacha. - A mãe não sabe! - Mas são dez horas.

Resolvera estar no baile pelas dez e meia e Natacha ainda tinha de enfiar o vestido, e havia que passar ainda pelo Palácio de Tavritcheski.

Terminado que foi o penteado. Natacha, de saia de baixo, que lhe deixava à mostra os sapatinhos de baile, e vestida uma camisola trapalhona da mãe, aproximou-se de Sónia, examinou-a e depois correu para a condessa. Obrigou-a a voltar a cabeça, ajeitou-lhe o toucado, beijou-lhe os cabelos brancos e aí vem ela outra vez a correr para as criadas que lhe cosiam a bainha do vestido.

Procuravam encurtar a saia, comprida de mais. Duas criadas empenhavam-se nessa tarefa, na precipitação cortando as linhas com os dentes. Ainda outra criada, de alfinetes na boca, ia e vinha entre a condessa e Sónia. E outra ainda sustinha, de braço erguido, o vaporoso vestido.

- Mavrucha, despacha-te, minha querida! - Deixe ver o dedal, menina.

- Então, estamos finalmente prontos? - disse o conde, que apareceu no limiar da porta. - Aqui têm os vossos perfumes. Mademoiselle Peronskaia já deve estar à espera.

- Pronto, menina - disse a criada de quarto, erguendo, em dois dedos, o vaporoso vestido bordado. E soprou-lhe, agitando-o, gesto que punha em relevo a sua beleza e a sua brancura. Natacha começou a vesti-lo.

- Um momento, um momento, não entres, pai - gritou ao conde, que entreabrira a porta. A voz de Natacha emergia da nuvem de tecido que a escondia por completo.

Sónia foi fechar a porta. Um minuto depois deixaram entrar o conde. Vestia um fraque azul, meias de seda e escarpins. Todo ele era perfume e pomadas.

- Ah!, pai querido, que lindo que estás, que encanto! - disse Natacha, de pé, no meio do quarto, ajeitando as pregas da saia.

- Espere, menina, espere - dizia uma das criadas, que, de joelhos, segurava o vestido e com a língua movia os alfinetes que tinha na boca.

- Digam o que quiserem - exclamou Sónia, excitadíssima, examinando o vestido de Natacha. - Digam o que disserem, ainda está muito comprido! Natacha afastou-se para se mirar no espelho do trenó. Efectivamente Sónia tinha razão.

- Meu Deus, não, menina, não está comprido - protestou Mavrucha, de gatas, no chão, atrás da ama.

- Se está muito comprido faz-se mais curto. É um instante enquanto se arranja - disse, num tom decidido. Duniacha, tirando uma agulha do corpete e metendo mãos à obra.

Nesse mesmo instante, a condessa, com um ar tímido e em passinhos miúdos, penetrou no quarto, de toucado e vestido de veludo.

- Eh! Eh!, minha linda! - exclamou o conde.- É a mais linda de todas!...

Quis abraçá-la, mas ela, corando, afastou-o, para que ele lhe não amarrotasse o vestido.

- Mãezinha, o toucado um pouco mais descaído para o lado - disse Natacha. - Eu vou espetar-lhe um alfinete. - E precipitou-se para a mãe, mas as criadas que lhe cosiam a bainha do vestido não tiveram tempo de a seguir no seu movimento c um pedaço da musselina rasgou-se.

- Oh, meu Deus! Que aconteceu? Francamente, a culpa não foi minha...

- Não tem importância, eu vou arranjar tudo, nada se vê - acorreu Duniacha.

- Minha linda, minha rainha! - exclamou a ama, que acabava de entrar. - E a Soniuchka, então! Ah!, minhas lindas!...

Às dez horas e um quarto, finalmente, toda a família subia para a carruagem e abalava. Mas ainda era preciso passar pelo Jardim de Tavritcheski.

Mademoiselle Peronskaia estava pronta. Apesar da sua idade de ser feia, tudo se havia passado em casa dela como na dos Rostov, só com menos precipitação, atendendo a que estava muito habituada a situações idênticas. Sua velha carcaça fora perfumada, frisada, empoada, não havia pormenor na sua cara que não tivesse sido cuidadosamente inspeccionado e até o vestido que levava provocou a admiração entusiástica da criada de quarto quando ela apareceu de vestido amarelo ornado com o emblema imperial. Mademoiselle Peronskaia admirou as toilettes das senhoras Rostov.

Estas, por sua vez, louvaram o gosto da velha, senhora e os seus enfeites e, com mil cautelas no penteado e nos vestidos, cerca das onze horas todas se meteram nas suas carruagens e partiram.

Capítulo XV

Durante todo o dia Natacha não tivera, por assim dizer, um minuto de descanso e por isso não lhe fora possível pensar um instante que fosse no que a aguardava.

No ar húmido e frio da noite, comprimida nos assentos da carruagem, aos solavancos, no meio de uma profunda escuridão, pela primeira vez se representou na imaginação o espectáculo que ia contemplar: o baile, as salas iluminadas, a música, as flores, as danças, o imperador, toda a brilhante juventude de Petersburgo. Era tão belo o que a esperava que não queria acreditar, ali com aquela sensação de frio, de incómodo e de obscuridade dentro da carruagem. Só no momento em que, depois de ter pisado o tapete vermelho do átrio, penetrou no vestíbulo, tirou a peliça e se engolfou, ao lado de Sónia, à frente da mãe, por entre as flores da grande escadaria iluminada pôde avaliar o que isso era. Só então pensou na compostura que devia mostrar no baile e procurou assumir esse porte solene que julgava indispensável a toda a rapariguinha em tais circunstâncias. Porém, felizmente para ela, teve a sensação de que os olhos lhe giravam nas órbitas: nada podia ver com nitidez, o pulso batia-lhe desordenadamente e o sangue afluía-lhe ao coração. Não lhe foi possível assim afectar aqueles ares que a teriam ridicularizado, e avançou, num desfalecimento de emoção, procurando por todos os modos dissimular a perturbação que a tomava. E era exactamente essa a compostura que mais lhe convinha. Por todos os lados caminhavam convidados também com trajes de baile e trocando palavras em voz baixa. Os espelhos da escadaria iam devolvendo imagens de senhoras nos seus vestidos brancos, azuis, cor-de-rosa, carregados de pérolas e diamantes, os braços e ombros nus.

Natacha via-se nos espelhos e não era capaz de se reconhecer, confundida com as outras. Tudo se misturava, fundindo-se num desfile brilhante. Quando entrou no primeiro salão, o murmúrio das vozes, dos passos, dos cumprimentos que se trocavam, ensurdeceu-a e a refulgência da luz ainda mais a cegou. Os donos da casa, que se encontravam havia meia hora, de pé, à porta, repetindo a cada um dos seus convidados a eterna frase: «Muito prazer em vê-lo», acolheram amavelmente os Rostov e Mademoiselle Peronskaia.

As duas rapariguinhas, de vestidos brancos iguais, com rosas rios cabelos pretos, fizeram a mesma reverência, mas o olhar da dona da casa demorou-se mais na cintura fina de Natacha. Ao olhá-la teve para ela um sorriso especial, diferente dos que consagrava a toda a gente. Lembrava-se, sem dúvida, ao vê-la, do seu passado brilhante de donzela, para sempre perdido, e do seu primeiro baile. O dono da casa seguiu-a igualmente com os olhos e perguntou ao conde se era sua filha.

- Encantadora! - disse ele, enviando-lhe um beijo na ponta dos dedos.

O grande salão regurgitava de convidados, que se acumulavam à porta de entrada aguardando o imperador. A condessa foi colocar-se nas primeiras filas. Natacha apurava o ouvido e tinha a impressão de que falavam dela e que a miravam. Adivinhava agradar a todos quantos a notavam e isso apaziguou-lhe um pouco a emoção que a tomara.

«Há idênticas a nós, mas há quem se apresente muito pior», dizia de si para consigo.

Mademoiselle Peronskaia segredava à condessa o nome das pessoas mais conhecidas.

- Lá está o embaixador da Holanda, vê, aquele, ali, o de cabelos brancos - dizia, indicando um velhinho de cabeleira de prata muito anelada, rodeado de senhoras a quem fazia rir. E ali tem a rainha de Petersburgo, a condessa Bezukov - acrescentou, mostrando Helena, que dava entrada no salão. - Linda mulher! Nada fica a dever a Maria Antonovna. Repare como novos e velhos a rodeiam. É linda e tem espírito... Dizem que o príncipe imperial.., está doido por ela. E estas duas, embora nada bonitas, ainda têm uma corte mais numerosa.

Indicou duas senhoras que entravam, mãe e filha, realmente muito feias.

- Um partido que vale milhões - disse Mademoiselle Peronskaia. - E ali tem os amadores.

- Aquele é o irmão da condessa Bezukov. Anatole Kuraguine - prosseguiu ela, mostrando um belo oficial, de uniforme da Guarda, que ia passando, de cabeça erguida, diante delas, o olhar distante.

- Que belo moço! Não é verdade? Vão casá-lo com uma noiva riquíssima. Mas o vosso primo Drubetskoi também lhe faz a corte. Fala-se em milhões. Mas, que vejo? O embaixador da França em carne e osso - observou, mostrando Caulaincourt, enquanto respondia a uma pergunta da condessa. - Repare. Parece um rei. Apesar de tudo, são amáveis, muito amáveis, estes franceses. Não há pessoas mais amáveis em sociedade. Ah!, lá está ela finalmente. Esta, sim, leva a palma a todas, a nossa Maria Antonovna! E a simplicidade com que ela se veste! Que mulher encantadora! E aquele gordo, de lunetas, pedreiro-livre universal - disse, designando Bezukov. - Ponha-o ao lado da mulher. Um autêntico fantoche! Pedro caminhava, rebolando o seu espesso corpo, atropelando as pessoas, acenando com a cabeça para a direita e para a esquerda, com tanta franqueza e despreocupação como se circulasse na praça do mercado. Abria caminho, dir-se-ia procurar alguém.

Natacha descobriu com satisfação a figura de Pedro, tão sua conhecida, esse «fantoche», como lhe chamava Mademoiselle Peronskaia. Sabia que eram eles, e ela particularmente, quem ele procurava entre a multidão. Pedro prometera-lhe que viria àquele baile e que lhe apresentaria rapazes para dançar.

No entanto, antes de se aproximar. Bezukov deteve-se ao pé de um homem moreno, de estatura mediana, bonito rapaz, de uniforme branco, que conversava com um outro, de grande estatura, carregado de condecorações, no vão de uma janela. Natacha reconheceu imediatamente o jovem de uniforme branco: era Bolkonski, que se lhe afigurou remoçado, mais alegre e bonito.

- Ali está outra pessoa conhecida, mãe: Bolkonski, vê? - disse Natacha. - Lembra-se? Passou a noite em nossa casa, em Otradnoie.

- Ah!, conhecem-no? - perguntou Mademoiselle Peronskaia. - Eu não posso com ele. Põe e dispõe de tudo. E é de um orgulho sem limites! Sai ao pai. É todo do Speranski. Passam a vida a fazer projectos. Repare como ele trata as senhoras! Olhem aquela que se lhe dirige, e ele a voltar-lhe as costas. Eu lhe diria se se atrevesse a portar-se assim comigo.

Capítulo XVI

De súbito, um frémito percorreu os salões, a multidão segredou qualquer coisa, afastou-se, e por uma ala aberta no meio dos espectadores, ao som das fanfarras, entrou o imperador. Os donos da casa seguiam-no. O czar caminhava, saudando ligeiramente à esquerda e à direita, como se tivesse pressa de acabar com aquela estopada. A orquestra tocava uma polaca, então em voga, de cuja letra constava: «Alexandre. Isabel, como o nosso coração rejubila...» O imperador dirigiu-se para o salão mais pequeno. Toda a gente velo espreitar à porta. Pessoas com ar circunspecto principiaram a andar de um lado para o outro. Então os convidados desimpediram a porta do salão onde o czar conversava com a dona da casa. Um jovem de expressão perturbada veio pedir às senhoras que recuassem. Algumas, esquecendo todas as conveniências mundanas, sem receio de descompor as toilettes, fizeram parede na primeira fila. Os cavalheiros aproximaram-se das damas e formaram-se os pares para a polaca.

Toda a gente se afastou, e o imperador, sorridente, dando a mão à dona da casa, saiu do salão. Caminhava a compasso. Atrás dele vinha o anfitrião com Maria Antonovna Narishkina, em seguida os embaixadores, os ministros, os generais. Mademoiselle Peronskaia ia recitando os seus nomes sem interrupção. Mais de metade das senhoras, convidadas para dançar, dispunham-se para a polaca. Foi então que Natacha percebeu que tanto Sónia, como a mãe, como ela própria, faziam parte do pequeno número condenado a servir de pano de fundo. Natacha ali estava, de pé, os braços finos balançando, os pequeninos seios, ainda adolescentes em alvoroço, retendo a respiração. Olhava em frente, com os olhos brilhantes e inquietos, uma expressão indecisa, agitada entre urna grande alegria e um imenso desgosto. Não a preocupavam nem o imperador nem qualquer das outras altas personagens que Mademoiselle Peronskaia havia apontado. Só pensava numa coisa: «Será realmente verdade que ninguém me convidará para dançar? Não figurarei entre os primeiros pares? Não serei notada por algum destes homens que parecem não me ver agora, ou, se porventura olham para mim, é como se dissessem: ‘Ah!, não é ela! Então escusamos de a olhar.’ Não, isto não pode ser! É preciso que eles saibam que quero dançar, que danço muitíssimo bem e que grande seria o prazer que eu lhes daria se dançassem comigo.» Os compassos da polaca que por muito tempo ressoavam não tardaram que chegassem aos ouvidos de Natacha com uma cadência lúgubre. Davam-lhe vontade de chorar. Mademoiselle Peronskaia afastara-se. O conde estava no outro extremo do salão. E ela, a condessa e Sónia ali estavam, sozinhas, como que perdidas no meio de uma floresta, entre toda aquela gente que lhes era estranha, sem despertarem o interesse de ninguém, sem que alguém se preocupasse com elas. Passou o príncipe André, com uma senhora pelo braço, sem dar sinais de as ter reconhecido.

O belo Anatole, sorridente, trocava algumas palavras com o par, relanceando a Natacha o olhar indiferente com que se olha para uma tapeçaria. Por duas vezes Bóris passou perto delas, voltando disfarçadamente a cara. Só Berg e a mulher, que não dançavam, vieram juntar-se-lhes.

Natacha sentiu-se mortificada com aquela cena de família, ali, em pleno baile, como se um baile fosse o local mais indicado para semelhantes confraternizações. Não prestava a mais pequena atenção a Verá, que lhe falava do seu vestido verde. Por fim o imperador reconduziu o seu terceiro par; já dançara com três senhoras e a orquestra deixara de tocar. Um ajudante-de-campo, com um ar preocupado, aproximou-se das senhoras Rostov pedindo-lhes que recuassem um pouco mais, embora já estivessem encostadas à parede, e a orquestra encetou os primeiros acordes de uma valsa, lentos e suaves, arrebatadores e bem ritmados. O imperador percorreu a sala com os olhos, sorrindo. Decorreram segundos sem que qualquer par se mexesse. Outro ajudante-de-campo com funções protocolares aproximou-se da condessa Bezukov e convidou-a para dançar. Esta, sorrindo e sem para ele olhar, pousou-lhe a mão no ombro. O ajudante-de-campo, com mestria, seguro de si, sem se apressar, enlaçou-a vigorosamente e levou-a consigo, primeiro deslizando até à extremidade da pista, depois, pegando-lhe na mão esquerda, fazendo-a rodopiar ao ritmo cada vez mais célere da música. Só se ouvia o retinir cadenciado das esporas nos pés ágeis do dançarino, enquanto o vestido de veludo da senhora que rodopiava fazia balão naquelas evoluções, acompanhando o compasso a três tempos. Natacha ao vê-los quase chorava, por não ter sido convidada para aquela primeira valsa.

O príncipe André, de uniforme branco de coronel de cavalaria, meias de seda e escarpins, ar alegre e animado, estava na primeira fila, não longe dos Rostov. Conversava com ele, acerca da primeira sessão do Conselho do Império, que devia realizar-se no dia seguinte, o barão Vierov. André, íntimo de Speranski e membro da comissão de legislação, podia proporcionar seguros esclarecimentos a respeito da sessão anunciada, a qual estava provocando uma série de comentários. A verdade, porém, é que não ouvia o que Vierov ia dizendo e ora olhava para o imperador ora para os pares que se preparavam para dançar a valsa sem se decidirem a fazê-lo.

Examinava os cavalheiros, intimidados pela presença do imperador, e as senhoras, mortas por serem convidadas para dançar.

Pedro aproximou-se e tomou-lhe o braço.

- O príncipe, que está sempre pronto para dançar, porque não convida a minha protegida, a menina Rostov? Ali a tem - disse ele.

- Onde? - perguntou Bolkonski. - Queira desculpar-me disse para o barão. - Falaremos depois neste assunto; num baile é preciso dançar. - Avançou na direcção que Pedro lhe apontara. A figurinha ansiosa e desolada de Natacha impressionou-o imediatamente. Reconheceu-a, adivinhando-lhe os desejos, percebeu que era a primeira vez que vinha a um baile, lembrou-se da conversa que surpreendera à janela e com uma expressão jovial aproximou-se da condessa Rostov.

- Dê-me licença que lhe apresente minha filha - disse a condessa, corando.

- Já tenho o prazer de a conhecer, se a condessa bem se recorda - volveu o príncipe, inclinando-se profundamente com uma cortesia que desmentia por completo a rudeza que lhe atribuíra Mademoiselle Peronskaia. Aproximou-se de Natacha e estendeu o braço para lhe enlaçar a cintura, antes mesmo de ter formulado qualquer convite. A carinha desolada de Natacha, tão pronta a reflectir o desespero como a suprema alegria, iluminou-se subitamente com um sorriso infantil, cheio de felicidade e reconhecimento.

«Há quanto tempo eu te esperava», parecia dizer, ao mesmo tempo assustada e feliz, no seu sorriso, que desabrochava no meio das lágrimas prontas a correr, mal apoiou a mão no ombro do príncipe André. Era o segundo par que entrava na pista. Bolkonski era um dos melhores dançarinos da época. Por sua vez. Natacha acompanhava-o maravilhosamente. Os seus pés, nos sapatinhos de cetim, rápidos e ligeiros, pareciam não tocar o solo. No rosto fulgia-lhe uma venturosa animação. Seu colo nu e seus braços eram magros e não muito bonitos, comparados com os de Helena. Não tinha os ombros cheios, nem os seios formados, os braços eram delgados, mas a verdade é que Helena parecia já poluída pelo fogo dos milhares de olhos que lhe deslizavam pelo corpo, enquanto Natacha era a perfeita imagem da donzela que pela primeira vez enverga um vestido decotado e que naturalmente por isso se teria sentido envergonhada caso lhe não tivessem dito ser indispensável.

O príncipe André gostava de dançar e como antes de mais nada queria subtrair-se às conversas políticas e sérias com que o atormentavam, como queria afastar de si quanto mais depressa melhor a atmosfera de embaraço provocada pela presença do imperador, pusera-se a valsar e escolhera Natacha, primeiro para ser agradável a Pedro, depois por ser ela a primeira rapariga bonita que lhe chamara a atenção. Quando, porém, lhe passou o braço pela cintura fina e flexível e a sentiu tão perto de si agitada pelo ritmo da dança e a viu sorrir-lhe de tão perto, dir-se-ia que uma embriaguez o tomara. Quando, anelante, voltou i conduzi-la para junto da condessa e por alguns instantes, em repouso, fitou os pares que continuavam a dançar, uma onda de mocidade e de vida se ergueu dentro dele.

Capítulo XVII

Depois de André veio Bóris convidar Natacha e em seguida o ajudante-de-campo que organizava as danças e inaugurara o baile, e ainda outros, de tal modo que Natacha transferia para Sónia o excedente dos seus pares. Muito animada e feliz, dançou toda a noite. Não viu nem deu por nada à sua volta. Não reparou que o imperador conversava demoradamente com o embaixador de França, que falava a esta ou àquela senhora com uma amabilidade especial, que o príncipe Fulano ou Sicrano fizera isto ou aquilo, que Helena tivera um grande êxito e que determinado cavalheiro lhe prestara uma atenção particular. Nem sequer deu pela partida do imperador, a não ser porque depois dela o baile recrudescera de animação. O príncipe André voltou a dançar com ela um dos mais alegres cotillons antes da ceia. Lembrou-lhe que a vira pela primeira vez na avenida de Otradnoie e recordou-lhe aquela noite de luar em que ela não podia dormir e a conversa que involuntariamente ouvira. Estas recordações fizeram corar Natacha; procurou justificar-se, como se tivesse vergonha dos sentimentos que o príncipe André nela surpreendera.

Bolkonski, como toda a gente de sociedade, adorava encontrar-se com pessoas isentas do banal selo mundano. Era o caso de Natacha, com os seus deslumbramentos, a sua alegria, a sua timidez. Até os seus erros de francês tinham encanto. Conversando com ela, tratava-a com suave e afectuosa delicadeza. Sentado a seu lado, falando-lhe das coisas mais vulgares e insignificantes, admirava-lhe o fulgor do olhar e o sorriso, que não traduzia respostas a palavras trocadas, mas uma espécie de alegria interior. Enquanto dançava com outros, admirava-lhe especial- mente a graça ingénua. No meio do cotillon. Natacha, depois de uma figura, voltou, anelante, para o seu lugar. Um novo par a convidou. Sem fôlego, sem poder mais, estava prestes a recusar, mas, de súbito, apoiou-se no ombro do par, sorrindo para o príncipe André.

«Gostaria muito de descansar e de ficar ao pé de si; estou cansada, mas, bem vê, procuram-me... Sinto-me alegre, sou feliz; esta noite gosto de toda a gente; e nós entendemo-nos tão bem!» Eis o que o seu sorriso dizia, isto e muito mais ainda. Quando o par a reconduziu. Natacha pôs-se a correr pela sala para arranjar duas senhoras para a figura.

«Se for a prima a primeira pessoa a quem se dirigir, e só depois procurar outra, será minha mulher», disse o príncipe André, de si para consigo, de maneira absolutamente inesperada, enquanto a seguia com os olhos. Foi à prima que Natacha se dirigiu primeiro.

«Que tolices nos passam às vezes pela cabeça», pensou ele. «Mas a verdade é que esta rapariguinha é tão gentil e tão original que lhe não dou um mês para ir a bailes antes de estar casada... Ninguém aqui se lhe compara.» Bis em que pensava quando Natacha, compondo a rosa do corpete, voltou a sentar-se junto dele.

No fim do cotillon, o velho conde, de fraque azul, aproximou-se. Convidou o príncipe André a visitá-los e perguntou à filha se se divertira. Natacha não respondeu logo e sorriu, como se dissesse: «E pode perguntar-se uma coisa destas?» - Diverti-me como nunca na minha vida! - disse ela, e André viu-a, num gesto espontâneo, erguer os braços delgados para estreitar o pai e depois tornar a deixá-los cair. Sim, sentia-se feliz como nunca. Atingira esse supremo instante de felicidade em que tudo é perfeição e bondade e em que se não pode acreditar nem no mal, nem na desgraça, nem na dor.

No decurso deste baile. Pedro sentiu-se pela primeira vez humilhado pelo prestígio de que gozava a mulher nas altas esferas da sociedade. Estava taciturno e distraído. Uma grande ruga lhe sulcava a fronte, e, de pé, junto duma janela, olhava, sem ver, através dos vidros das lunetas.

Natacha, que ia cear, passou pela sua frente. Impressionou-a a sua expressão triste e infeliz. Parou junto dele. Teria desejado socorrê-lo, comunicar-lhe a felicidade a mais que sentia, - Que divertidos que todos estão, não acha, conde? - disse ela.

Pedro sorriu com um ar distraído, sem perceber o que a jovem lhe dizia.

- Sim, muito feliz - tornou ele.

«Como é que uma pessoa pode estar descontente?», dizia Natacha de si para, consigo. «E tratando-se de um homem tão bom como este Bezukov!» A seus olhos, todos os que estavam no baile eram igualmente bons, gentis, belos e amavam-se uns aos outros. Ninguém seria capaz de ofender o semelhante, e eis porque toda a gente devia sentir-se feliz.

Capítulo XVIII

No dia seguinte. André lembrou-se do baile da véspera, mas não se demorou muito tempo a pensar nisso. «Sim, um baile brilhantíssimo. E então.., sim, aquela Rostov, que gentil! Há nela qualquer coisa de fresco, de especial, que não é de Petersburgo e que a distingue de todas as demais.» E a isso se limitaram os seus pensamentos. E depois do chá pôs-se a trabalhar.

No entanto, ou por fadiga ou insónia, o certo é que não estava nos seus melhores dias, e era-lhe impossível fazer fosse o que fosse. Achava pouco interesse no trabalho entre mãos, e, como muitas vezes acontece, foi grande o seu contentamento quando lhe vieram anunciar uma visita, um tal Bitski, membro de diversas comissões, assíduo nos círculos de Petersburgo, encarniçado partidário de Speranski e das suas reformas e zeloso alvissareiro dos escândalos da capital, um desses homens prontos a acompanhar as opiniões em voga como quem se adapta à moda no vestir e que assim gozam da fama de partidários das ideias novas. De aspecto preocupado, mal se desembaraçou do chapéu, precipitou-se para André e inopinadamente pôs-se a falar. Acabava de ser informado do que se passara essa manhã na sessão do Conselho do Império, inaugurado pelo imperador, e foi com grande entusiasmo que se lhe referiu. O discurso do czar fora a todos os títulos notável. Falara como só o costumam fazer os monarcas constitucionais, «O imperador disse sem rodeios que o Conselho e o Senado constituíam corpos do Estado, que o Governo devia basear-se não na arbitrariedade, mas em princípios sólidos. Afirmou que as finanças e os orçamentos públicos deviam ser reorganizados.» Bitski relatava tudo isto, frisando certas palavras e esbugalhando muito os olhos.

- É um facto, estamos perante um acontecimento que representa o início de uma era nova, a era mais grandiosa da nossa história - concluiu.

O príncipe André ouvia aquele relato sobre a inauguração do Conselho do Império, que com tanta impaciência aguardara e a que atribuía tamanha importância, e surpreendia-se que um tal acontecimento, agora que se realizara, não só lhe não causasse a mais pequena emoção, mas se lhe afigurasse até insignificante. Ouvia com serena ironia o relato entusiasta de Bitski. Uma ideia muito simples lhe vinha ao espírito: «Que tenho eu e que tem este Bitski que ver com isto? Que nos importa que o imperador se tenha dignado falar assim no Conselho? Tornar-me-á isto mais feliz ou melhor?» E esta pequenina reflexão reduziu a nada subitamente todo o interesse que ele poderia ter nas reformas realizadas. Nesse mesmo dia jantaria em casa de Speranski «na intimidade», como dissera o anfitrião. Este jantar, na roda da família e dos amigos de um homem por quem ele tinha tão grande entusiasmo, despertara-lhe tanto maior interesse quanto é certo nunca haver surpreendido Speranski na intimidade. Mas agora perdera todo o interesse em assistir ao jantar. No entanto, à hora marcada, batia à porta da pequena moradia de Speranski, no Jardim de Tavritcheski. Na sala de jantar da residência de Speranski, de um meticuloso asseio, que fazia lembra- lima cela de convento. André, um pouco atrasado, às cinco horas, veio encontrar já reunidos todos os componentes dessa reunião de amigos, pessoas íntimas apenas. Não havia outra senhora além da filha do ministro, com a mesma esguia figura do pai, e a preceptora. Os convidados eram Gervais. Magnitski e Stolipine. Já no vestíbulo André ouvia o estridor das vozes e um riso sonoro e claro semelhante ao que se costuma ouvir no palco. Alguém - dir-se-ia Speranski - espaçava os ah, ah!, ah! E como o príncipe André nunca ouvira rir Speranski, sentiu-se desagradavelmente impressionado por aquele riso vibrante e agudo.

Entrou na sala de jantar. Toda a gente estava de pé, entre duas janelas, junto da mesinha dos hors-d’oeuvre. Speranski, de fraque cinzento e condecorações, ainda, evidentemente, com o mesmo colete branco e a mesma alta gravata clara que levara a famosa sessão do Conselho do Império, estava, diante da mesa, com uma expressão jovial. Os convidados faziam roda em tomo dele. Magnitski, voltado para Mikail Mikailovitch, contava uma anedota. Speranski ouvia, rindo antecipadamente do que ele diria. Quando o príncipe André entrou, as gargalhadas abafavam de novo as palavras de Magnitski. Stolipine ria num tom de baixo, mastigando um pedaço de pão com queijo. Gervais, com um riso sibilante. Speranski, com o seu riso agudo e desbagulhado.

Sem deixar de rir, estendeu ao príncipe André a mão branca e macia.

- Muito prazer em vê-lo, príncipe - disse - Um instante - acrescentou, dirigindo-se a Magnitski e interrompendo a sua história. - Fizemos um acordo: hoje é jantar de amigos, estão proibidos os assuntos sérios. - E, voltando-se para o narrador, pôs-se novamente a rir.

André, ao ouvi-lo rir assim, sentiu-se ao mesmo tempo surpreendido e desapontado. Afigurava-se-lhe estar diante de outro homem. Tudo que até aí ele representara para si de misterioso e de sedutor se desvanecera subitamente e nada de cativante via nele já.

A alegre conversa continuou. Era um rosário de anedotas. Assim que Magnitski se calou, logo outro convidado mostrou desejos de contar qualquer coisa ainda mais jocosa.

Em geral eram anedotas relativas, senão ao meio dos burocratas, pelo menos a alguns deles. Naquela roda todos pareciam tão convencidos da nulidade de tal gente que o partido que tomavam a seu respeito era o de uma sátira indulgente. Speranski contou que na sessão do Conselho dessa manhã, como alguém perguntasse a um dignitário duro de ouvido qual a sua opinião, este respondera que era da mesma. Gerais contou pormenorizadamente um caso de inspecção particularmente notável pela estupidez de todos os comparsas que nele intervinham. Por sua vez. Stolipine, gaguejando, associou-se ao colóquio e pôs-se a falar calorosamente dos abusos do regime anterior, o que fazia que a conversa corresse o perigo de assumir um tom sério. Magnitski troçou do entusiasmo de Stolipine. Gervais disse um gracejo e a conversa retomou o tom frívolo desejado.

Era um facto que Speranski gostava de descansar dos seus trabalhos e desopilar com os amigos, e os seus convidados, cientes desse seu desejo, procuravam distraí-lo, divertindo-se a si próprios. Mas esta alegria produziu em André um efeito penoso.

O timbre agudo da voz de Speranski era-lhe desagradável, o seu riso constante parecia soar-lhe a falso e irritava-lhe os nervos. E ele, o único que não ria, teve receio de parecer enfadonho, embora, em verdade, ninguém houvesse reparado que ele não estava no diapasão da roda. Todos pareciam alegríssimos.

Por várias vezes tentou André entrar na conversa, mas de todas elas as suas palavras pulavam como uma rolha na água. Era-lhe impossível afinar pelo tom dos gracejos.

Nada havia de mal ou de inconveniente no que eles diziam, tudo era espirituoso e podia até ser divertido; mas a verdade é que lhe faltava fosse o que fosse, o sal de toda a verdadeira, alegria. E o certo é, que os convivas nem sequer pareciam suspeitar de que esse sal existisse.

Findo que foi o repasto, a filha de Speranski e a preceptora levantaram-se. Speranski acariciou com a sua branca mão o rosto da filha e beijou-a. E também este gesto pareceu pouco natural ao príncipe André.

A moda inglesa, os homens ficaram sentados à mesa e beberam vinho de) Porto. No meio da conversa que se entabulou a propósito da guerra de Espanha, em que todos estavam de acordo para aprovar Napoleão. André pôs-se a defender um ponto de vista contrário. Speranski sorriu, e no desejo evidente de mudar de conversa contou uma anedota sem a mais pequena relação com o que se estava a dizer. Todos se calaram durante alguns instantes.

Tendo ficado mais algum tempo a mesa. Speranski rolhou a garrafa do vinho, dizendo: - Hoje este vinho anda por mesas altas. - E entregou-a a um criado, levantando-se. Todos o imitaram, e em ruidosa conversa entraram no salão. Vieram entregar a Speranski duas cartas que um correio acabava de trazer. Pegando nelas, o dono da casa retirou-se para o seu gabinete. Mal ele saiu da sala a alegria geral desapareceu e os convidados puseram-se a conversar entre si ‘em voz baixa e num tom sensato.

- Bom, agora são horas de recitar! - disse Speranski, ao voltar do gabinete. - Tem um talento extraordinário! - acrescentou, para o príncipe André, apontando-lhe Magnitski. Imediatamente este se empertigou, principiando a declamar versos humorísticos em francês, inspirados em personagens célebres de Petersburgo. E por várias vezes os aplausos o obrigaram a calar-se.

Finda a recitação. André aproximou-se de Speranski e pediu-lhe licença para retirar-se.

- Onde é que vai tão cedo? - perguntou-lhe ele.

- Prometi ir a casa de uns amigos...

Ambos se calaram. O príncipe André fitou de perto aqueles olhos de reflexos metálicos que impediam qualquer penetração e sentiu-se ridículo por ter pensado poder esperar alguma coisa daquele homem e dos empreendimentos em que andava envolvido. E perguntou a si mesmo como pudera tomar a sério tudo quanto ele fazia. Aquele riso forçado, sem verdadeira alegria, por muito tempo ficou a ressoar-lhe rios ouvidos depois que deixou a casa de Speranski.

De regresso a casa, entregou-se a recordar toda a sua existência em Petersburgo durante aqueles últimos quatro meses, como se se tratasse de qualquer coisa nova. Lembrou-se das suas diligências, das suas iniciativas, da história do seu projecto de código militar aceite para exame e sobre o qual todos se empenhavam em guardar silêncio unicamente porque outro trabalho, muito inferior, já estava preparado e havia sido apresentado ao imperador. Vieram-lhe ao espírito as sessões da comissão de que Berg fazia parte. Recordou-se como nessas sessões se haviam discutido, cuidadosa e longamente, todas as questões de forma e de processo e como houvera o cuidado de pôr de lado o essencial. E lembrou-se também dos seus próprios trabalhos legislativos, de como traduzira cuidadosamente em russo os artigos do direito romano e do código francês, deplorando o tempo que perdera com isso. Depois o pensamento levou-o até Bogutcharovo, lembrou-se das suas ocupações na aldeia, da sua viagem a Riazan, dos seus mujiques, do estaroste Drene e, olhando os artigos do direito das gentes que cuidadosamente distribuíra por artigos, sentiu-se admirado como pudera consagrar tanto tempo a um trabalho tão estéril.

Capítulo XIX

No dia seguinte o príncipe André foi visitar algumas pessoas a quem ainda não vira, e entre elas os Rostov, com quem reatara relações no último baile. Não era só a cortesia que o levava a fazer esta visita, também se sentia arrastado a fazê-la pelo desejo de rever aquela rapariguinha, cheia de vivacidade e carácter, que lhe deixara uma impressão tão agradável.

Natacha foi a primeira pessoa a aparecer-lhe. Trazia um vestido azul, caseiro, e assim vestida ainda pareceu mais bonita ao príncipe André que na toilette de baile. Tanto ela como toda a demais família Rostov o acolheram como a um velho amigo, simples e cordialmente. Aquela gente, que ele severamente julgara outrora, afigurava-se-lhe agora composta de pessoas excelentes, simples e boas. Tais eram a hospitalidade e a bonomia do velho conde, qualidades particularmente encantadoras em Petersburgo, que ele não pôde recusar o convite para jantar.

«Sim, é gente boa e simpática», dizia para consigo mesmo. «E nem sabem o tesouro que têm em Natacha. Boas pessoas e óptimo fundo para fazer sobressair uma rapariga tão poética, tão cheia de vida.» Ao pé de Natacha sentia-se abeirar de um mundo que ignorava completamente, um mundo especial, pleno de alegrias de que nunca compartilhara, um mundo que muito o intrigara já na alameda de Otradnoie e à janela banhada pelo luar. E agora já esse fundo o não intrigava, já lhe não era estranho. Abeirando-se dele, novas alegrias viera encontrar.

Depois de jantar, e a seu pedido. Natacha sentou-se ao cravo e cantou. O príncipe André, de pé junto da janela, conversando com as senhoras, escutava-a. No meio de uma frase calou-se, e, sem que ele próprio soubesse como, sentiu que uma comoção lhe subia à garganta, coisa de que se não julgava capaz. Fitou Natacha, que continuava a cantar, e uma vaga de felicidade como jamais sentira lhe inundou a alma. Parecia feliz e ao mesmo tempo tristíssimo. Não tinha razão para chorar, e no entanto estivera a ponto disso. Chorar porquê? Pelo seu primeiro amor? Pela defunta princesinha? Pelas suas ilusões perdidas? Pelas suas esperanças de futuro?... Por tudo isso e também por outra coisa.

O que antes de mais nada lhe provocava aquela comoção era a súbita revelação que nele se operava de uma assustadora contradição entre o que sentia de infinitamente grande e de inacessível no fundo de si próprio e o ser estreito e corpóreo que ele também era e que ela era também. Tal contradição era todo o seu tormento e toda a sua alegria enquanto Natacha cantava.

Quando ela acabou, aproximou-se de André e perguntou-lhe se gostara de a ouvir. Feita a pergunta, logo uma grande perturbação a tomou, compreendendo que a não devia ter feito. André olhou-a sorrindo e disse-lhe que o seu canto lhe agradara como lhe agradava tudo quanto ela fazia.

O príncipe André só tarde, pela noite dentro, se retirou de casa dos Rostov. Deitou-se maquinalmente, mas não tardou que verificasse não poder conciliar o sono. Ora se deixava estar deitado na cama, de vela acesa, ora se erguia, para voltar a deitar-se, sem que aquela insónia o fatigasse, tais os sentimentos novos e alegres que sentia. Era como se saísse da atmosfera asfixiante de um quarto fechado para o ar livre da natureza. Não lhe passava pela cabeça a ideia de estar enamorado de Natacha. Não pensava nela sequer, embora a tivesse diante dos olhos, e por isso mesmo a vida se lhe apresentava agora sob uma luz completamente nova. «Que receio eu? Porque é que me aflijo, porque é que me preocupo dentro deste quadro estreito, quando o certo é que a vida, toda a vida, com todas as suas alegrias, está diante de mim?», dizia consigo mesmo. E pela primeira vez de há muito tempo para cá se pôs a fazer alegres planos para o futuro. Decidiu chamar a si a educação do filho, que precisava de arranjar um preceptor a quem o confiar, e depois que deve- ria pedir a demissão e viajar pelo estrangeiro, visitar a Inglaterra, a Suíça, a Itália. «Tenho de aproveitar a minha liberdade enquanto me sinto com juventude e força», pensava. «Pedro tinha razão quando dizia ser preciso acreditar na felicidade para sermos realmente felizes, e eu agora também o creio. Que os mortos enterrem os mortos. Enquanto estamos vivos precisamos de viver e de ser felizes.»

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