Uma manhã o coronel Adolfo Berg, que Pedro conhecia, como de resto conhecia toda a gente em Moscovo e Petersburgo, apresentou-se-lhe em casa com o seu vistoso uniforme novo, as ma- deixas penteadas para diante e lustrosas de cosméticos, à moda do imperador Alexandre Pavlovitch.
- Acabo de estar com a condessa sua mulher - disse ele, sorrindo - e não posso esconder o meu desgosto por não ter visto deferido o meu convite. Espero ser mais feliz consigo, conde.
- Que pretende, coronel? Estou às suas ordens.
- Conde, estou hoje completamente instalado na minha nova casa - disse Berg, persuadido de antemão de que esta notícia não podia deixar de ser acolhida com sumo prazer - e por isso desejava oferecer uma pequena festa às pessoas das minhas e das relações da minha mulher. - E um sorriso ainda mais gracioso lhe perpassou pelos lábios. - Queria pedir à condessa e a si, caro conde, que me dessem a honra de vir a nossa casa tomar uma chávena de chá e partilhar da nossa ceia.
Infelizmente, a condessa Helena Vassilievna, considerando a sociedade de Berg indigna dela, tivera a crueldade de declinar o seu convite. Tão claramente Berg explicou porque desejava reunir em sua casa um grupo de pessoas pouco numeroso, mas escolhido, pois isso a ele lhe daria grande prazer e seria o primeiro a lamentar fazer sacrifícios para outros fins, como jogar as cartas ou coisas igualmente prejudiciais, embora para receber gente de tom se não poupasse a sacrifícios, tanto insistiu, que Pedro não pôde recusar o convite e prometeu aparecer.
- Mas não venha muito tarde, conde, já que me permite, aí pelas oito horas menos dez, se faz favor. Jogaremos uma partida, também lá estará o nosso general. É, muito bom para mim. Depois cearemos. Fica então combinado.
Contrariamente ao seu costume, que era chegar sempre atrasado. Pedro nessa noite chegou a casa dos Berg às oito menos um quarto, e não às oito menos dez.
Os Berg, já com tudo a postos para a soirée, aguardavam os convidados de ponto em branco.
Berg e a mulher recebiam no seu gabinete, muito asseado, muito bem iluminado, decorado de bustos e de quadros e guarnecido de mobiliário novo. Ele, de uniforme, igualmente novo e rigorosamente abotoado, explicava à mulher ser de toda a conveniência ter relações entre as pessoas de uma situação mais elevada, visto dessa gente só poderem esperar-se coisas agradáveis. «Há sempre qualquer vantagem nisso, há sempre qualquer coisa que se lhes pode pedir. Observa, por exemplo, a minha carreira desde os mais baixos postos. - Não contava o tempo por anos, mas por promoções- Os meus camaradas nesta altura ainda nada são, e eu, como vês, estou em vésperas de ser nomeado comandante de regimento e tenho a grande dita de ser teu marido.» Levantou-se para beijar a mão de Vera, mas de passagem ajeitou um dos cantos do tapete, que estava dobrado. «E a quem devo eu tudo? Antes de mais nada à arte de escolher as minhas relações. Claro está que além disso é bom sermos virtuosos e cumpridores.» Berg sorriu com a consciência da sua superioridade sobre uma fraca mulher e calou-se, dizendo de si para consigo que, afinal de contas, aquela encantadora pessoa a quem chamava esposa era fraca como todas as mulheres e não podia aspirar ao que constitui a dignidade do homem, a dignidade de «se ser um homem» (Em alemão no texto original. (N, dos T.) Entretanto. Vera sorria também, consciente da sua superioridade sobre o virtuoso e excelente marido, o qual, no entanto, em sua opinião, compreendia mal a vida, como, aliás, todos os homens. Berg, que julgava as outras mulheres através da sua própria, considerava-as a todas seres fracos e estúpidos. Vera, julgando os homens através do marido e generalizando as suas observações, supunha que todos eles não faziam outra coisa senão considerar-se cheios de razão, embora na realidade nada compreendessem e não passassem de criaturas orgulhosas e egoístas.
Berg levantou-se e, enlaçando a mulher cautelosamente, para lhe não amarrotar a romeira, que lhe custara a ele muito cara, beijou-a nos lábios.
- Há uma coisa que temos de considerar: não devemos ter filhos por ora - ponderou, mercê de uma inconsciente associação de ideias.
- Tens razão - assentiu Vera. - Também é esse o meu desejo. Precisamos de viver para a sociedade.
- A princesa Iusupova tem uma muito parecida - disse Berg, apontando para a romeira com um sorriso bondoso e feliz.
Neste momento anunciaram o conde Bezukov. Os esposos trocaram um sorriso de satisfação, cada um deles chamando a si a honra daquela visita.
«A isto é que se chama saber cultivar relações», pensou Berg. «A isto é que se chama saber-se um homem conduzir na vida!» - Peço-te que não venhas interromper-me quando eu estiver a falar com os convidados - advertiu Vera.- Sei muitíssimo bem como me hei-de dirigir a cada um e o que é preciso dizer às pessoas com quem conversar.
Berg sorriu.
- Nem sempre: as vezes, com os homens, é preciso ter conversas de homens - observou ele.
Pedro foi recebido numa sala inteiramente mobilada de novo, onde era impossível urna pessoa sentar-se sem alterar a meticulosa simetria. Parecia compreensível e de modo algum insólito que Berg, generosamente, se tivesse proposto alterar a disposição das poltronas e do divã em atenção a tão querido visitante, mas a sua perplexidade era tanta que deixou o convidado decidir. Este, porém, não teve dúvidas em quebrar a simetria, puxando de uma cadeira. E imediatamente Berg e Vera deram início à soirée, interrompendo-se a cada momento um ao outro no decurso da conversa com o conde.
Vera, que, mulher sensata, decidira que devia falar a Pedro na Embaixada de França, principiou logo por abordar esse tema. Por sua vez. Berg, partindo do princípio de que uma conversa de homens se tornava igualmente necessária, interrompeu a mulher para abordar o caso da guerra com a Áustria e inconscientemente não tardou que tivesse transitado das considerações gerais para as circunstâncias pessoais acerca das propostas que lhe haviam sido feitas para tomar parte na campanha e das razões que o tinham levado a declinar o convite. Embora a conversa resultasse, por isto mesmo, assaz descosida e Vera estivesse furiosa com a intervenção do marido, foi com prazer que os esposos verificaram ter a soirée principiado muito bem, conquanto nessa altura apenas ainda com um só convidado, e parecer-se, como duas gotas de água se parecem, com todas as demais soirées em que se conversa, se bebe chá e há velas acesas.
Daí a pouco apareceu Bóris, velho camarada de Berg. E foi com um matiz de superioridade e certo ar protector que se dirigiu ao casal. Depois chegou a vez do coronel e de uma senhora, e do próprio general, e dos Rostov, e então a soirée tomou-se incontestavelmente igual a qualquer outra. Berg e Vera não podiam esconder a satisfação que lhes causava o bulício que reinava na sala, ao ouvirem aquelas conversas desirmanadas, o ruge-ruge dos vestidos e as saudações que se iam trocando. Tudo se estava a passar como em toda a parte. Sobretudo o general parecia-se com todos os outros generais, todo ele elogios à instalação, batendo amistosamente no ombro de Berg e organizando, com uma desenvoltura toda paternal, a mesa do boston. Depois sentou-se ao lado do conde Ilia Andreitch, considerando-o, depois de si, a pessoa de maior representação. Os velhos com os velhos, os jovens com os jovens, a dona da casa na mesa de chá com os seus bolos em cestinhos de prata, absolutamente como na soirée dos Panine, tudo decorreu sem tirar nem pôr como em qualquer outra soirée.
Pedro, na sua qualidade de convidado de marca, teve de tomar lugar à mesa do boston com Ilia Andreitch, o general e o coronel. E ali veio a encontrar-se sentado diante de Natacha e não pôde deixar de sentir-se impressionado com a estranha mudança que nela se operara desde a noite do baile. Conservava-se calada, e não só menos bonita que então, mas até mesmo pareceria feia se não fosse a expressão de doçura e a indiferença por tudo que se lhe espelhavam no rosto.
«Que terá ela?», dizia de si para consigo enquanto a olhava. Natacha, sentada ao lado da irmã na mesa de chá, desprendida e sem o fitar, ia respondendo a Bóris, que estava perto de ambas. Pedro, que acabava de jogar uma partida completa e fizera cinco vazas, ouvindo rumor de passos e troca de cumprimentos, lançou um olhar a Natacha.
«Que lhe terá acontecido?», repetiu, ainda mais admirado.
O príncipe André, com um ar atencioso e enternecido, estava diante de Natacha e dirigia-lhe a palavra. Ela erguia os olhos para ele, muito corada, procurando dissimular a emoção que a tomava. De novo lhe flamejava no rosto a labareda de um fogo interior. Parecia completamente transfigurada: de feia que ainda há momentos parecia, voltara a recuperar a beleza da noite do baile.
André aproximou-se de Pedro e este julgou ver também na cara do amigo uma expressão nova e um ar de juventude.
No decurso da partida Pedro mudou várias vezes de lugar, ora de costas para Natacha, ora de frente para ela, e durante o tempo dos seis robers nunca deixou de os observar, aos dois.
«Há entre eles qualquer coisa de muito importante», pensou, e um misto de alegria e de mágoa a tal ponto o emocionou que se esqueceu das suas próprias preocupações.
Findos os seis robers, o general levantou-se dizendo não ser possível jogar em condições tão adversas, e Pedro voltou a estar livre. A um canto. Natacha conversava com Sónia e Bóris; Vera dizia qualquer coisa ao príncipe André, sorrindo com finura. Pedro aproximou-se do amigo e sentou-se ao lado dos dois, tendo o cuidado de perguntar se não estaria a ser indiscreto. Vera, que percebera as atenções de André para com Natacha, julgara-se na obrigação de, numa festa em sua casa, uma autêntica soirée, fazer algumas finas alusões sentimentais, e, aproveitando uma oportunidade em que via o príncipe só, encetara com ele uma conversa sobre o amor em geral e a irmã em particular. Julgava ela necessário, perante um convidado inteligente, que assim aos seus olhos se apresentava o príncipe André, pôr em jogo toda a sua diplomacia.
Quando Pedro se aproximou, notou que Vera parecia muito exaltada e que o príncipe André, coisa que raramente lhe acontecia, estava comovido.
- Que acha? - perguntava ela, com um sorriso subtil- Diga-me, príncipe, já que é tão perspicaz e tão bem compreende o carácter das pessoas, que pensa de Natacha? Acha-a capaz de ser constante nos seus afectos, como qualquer outra mulher? (Queria, claro esta, referir-se a si própria.) E que será capaz de gostar de um homem e ficar-lhe fiel para sempre? Isto considero eu o verdadeiro amor. Que acha, príncipe? - Conheço muito pouco a sua irmã - replicou o príncipe André com um sorriso onde a ironia procurava ocultar uma certa perturbação -, conheço-a muito pouco para poder responder a uma pergunta tão delicada. E, de resto, devo confessar-lhe, a mulher é tanto mais fiel quanto menos atraente.- E, enquanto isto dizia, ia olhando para Pedro, que se aproximava.
- Sim, tem razão, príncipe - retomou Vera. - No nosso tempo... - Vera falava do seu tempo como em geral as pessoas de espírito acanhado, que supõem ter descoberto e julgado as particularidades do seu tempo e estão persuadidas de que os homens se transformam consoante as épocas- No nosso tempo as raparigas gozam de tanta liberdade que o prazer de ser cortejada asfixia nelas muitas vezes o verdadeiro sentimento. E Natália, há que o reconhecer, é muito sensível a isso. - Esta nova alusão a Natacha fez que André franzisse outra vez o sobrolho. Quis levantar-se, mas Vera continuou, sorrindo ainda com mais finura: - Creio que ninguém tem sido mais cortejada do que ela. Mas a verdade é que até à data ainda nenhum homem lhe agradou a sério. E o conde sabe isso muito bem - acrescentou dirigindo-se a Pedro. - Até mesmo o nosso primo Bóris, que chegou, aqui para nós, muito, muito longe na arte de seduzir...
Ao ouvir estas palavras, o príncipe André franziu as sobrancelhas e continuou calado.
- É amigo de Bóris? - perguntou-lhe Vera.
- Sim, conheço-o...
- Naturalmente ele já lhe falou no seu amor de infância por Natacha? - Ah! Houve um amor de infância? - perguntou o príncipe André, corando repentinamente.
- Sim. Sabe entre primos e primas a intimidade acaba muitas vezes em amor; quanto mais prima... Não acha? - Oh! Evidentemente - tornou o príncipe André, e, numa forçada animação, pôs-se a gracejar com Pedro, dizendo-lhe que ele precisava de ter muito cuidado com as primas quinquagenárias de Moscovo. E, sempre no mesmo tom de gracejo, levantou-se, travou-lhe do braço e levou-o consigo para um recanto.
- Que se passa? - perguntou Pedro, surpreendido com a estranha agitação do amigo, a quem não passara despercebido o olhar que André lançara a Natacha quando se erguera.
- Preciso.., preciso de falar contigo - respondeu ele. - Como sabes, as nossas luvas de mulher... - referia-se às luvas que era costume oferecer aos franco-mações recém-iniciados para que estes as ofertassem à mulher de quem viessem a gostar. Eu... Não, depois falarei contigo... - E com uma estranha chama no olhar e um extremo nervosismo aproximou-se de Natacha e sentou-se a seu lado. Pedro percebeu que ele lhe pedia qualquer coisa e que ela lhe respondia corando subitamente.
Mas nesse mesmo momento Berg aproximou-se de Pedro para lhe pedir encarecidamente que viesse tomar partido na disputa que se travara entre o general e o coronel acerca dos acontecimentos de Espanha.
Berg sentia-se contente e feliz. Havia no seu rosto um sorriso perene. A sua soirée era uma perfeita soirée e em tudo igual às demais soirées a que ele assistira. Tudo tal qual: as delicadas conversas das senhoras, os jogos, o general jogando as cartas e engrossando a voz, o samovar, os bolos. Só faltava uma coisa, uma coisa que ele observara em todas as soirées cujo modelo imitava: uma conversa ruidosa entre homens e uma discussão sobre um assunto grave e interessante. O general encetara uma conversa desse género e Berg deu-se pressa em chamar Pedro para que viesse tomar parte nela.
No dia seguinte, o príncipe André foi jantar a casa do conde Ilia Andreitch e passou a tarde inteira em casa dos Rostov. Toda a gente adivinhara a razão da sua visita e ele, sem se importar com os demais, todo o dia procurou não se afastar de Natacha. Esta, assustada no fundo, mas feliz e palpitante, pressentia, como toda a gente em casa, que um acontecimento solene se ia dar. A condessa lançava ao príncipe olhares sérios e tristes quando o via com Natacha, e timidamente, para disfarçar, punha-se a tagarelar disto e daquilo sempre que o olhar de André se dirigia para ela. Sónia receava afastar-se de Natacha e ao mesmo tempo tinha medo de ser importuna ficando ao pé deles. Natacha empalidecia de receio quando ficava por instantes sozinha com o príncipe André, cuja timidez a surpreendia. Sentia-o pronto a fazer-lhe uma confidência que não chegava.
Quando, à noite, o príncipe abalou, a condessa foi ter com Natacha e disse-lhe em voz baixa: - Então? - Mãe, por Deus, peço-lhe, nada me pergunte neste momento. Não posso falar nisso - replicou ela.
Isto não a impediu, contudo, de permanecer nessa mesma noite, por muito tempo, na cama da mãe, ora num sobressalto de emoção, ora palpitante de receio, o olhar imóvel num ponto qualquer. Contava que ele lhe dissera muitas coisas amáveis e que falara numa viagem ao estrangeiro e que lhe perguntara onde pensavam passar o Verão, e que também falara de Bóris.
- Mas nunca, nunca me aconteceu uma coisa assim! - murmurou. - Diante dele tenho medo, tenho sempre medo. Que quer isto dizer? Quer dizer que desta vez é verdade, não é? Está a dormir, mãe? - Não, minha querida, também estou cheia de medo. Bom, vai para a tua cama.
- Já sei que não poderei dormir. Que absurdo dormir! Mãezinha, mãezinha, nunca senti nada parecido com isto! - exclamou, assustada e surpreendida com o sentimento que descobria na alma. - Quem havia de dizer!...
Natacha julgava-se enamorada de André desde a primeira vez que o vira, em Otradnoie. E estava assustada, como perante uma felicidade estranha e inesperada, com o facto de aquele homem em que ela reparara então - estava firmemente persuadida disso - ter surgido de novo no seu caminho e ela lhe não parecer indiferente.
- E havia de vir precisamente nesta ocasião a Petersburgo, agora que nós aqui estamos. E havíamos de nos encontrar naquele baile. O destino é que é o culpado. Sim, o destino: tudo isto tinha de acontecer. Já então, quando o vi, senti qualquer coisa de extraordinário.
- Que mais te disse ele? Que versos são esses? Lê-os, filha... - perguntou a mãe, que estivera cismando e a interrogava agora sobre uns versos que André escrevera no álbum de Natacha.
- Mãe, acha que parece mal casar com um viúvo? - Cala-te. Natacha. Reza a Deus. No céu se casa.
- Querida mãezinha adorada, gosto tanto de si, e que feliz eu sou! - exclamou Natacha, lançando-se nos braços da mãe, os olhos cheios de lágrimas repassadas de felicidade e emoção.
A essa mesma hora. André, em casa de Pedro, falava do seu amor por Natacha e da firme resolução de casar com ela.
Nesse mesmo dia, a condessa Helena Vassilievna dava uma recepção em sua casa. Estavam presentes o embaixador de França, e príncipe imperial, havia pouco visita íntima da condessa, muitas senhoras e personalidades de distinção. Pedro desceu ao rés-do-chão, deu uma volta pelos salões e toda a gente reparou no seu aspecto alheio e taciturno.
Desde a noite do baile que Pedro, pressentindo a aproximação de um ataque de hipocondria, fazia o possível por reagir. Desde que o príncipe era íntimo de sua mulher vira-se inopinadamente nomeado camarista, e a partir desse momento passara a sentir na alta sociedade uma impressão desagradável, misto de vergonha e de embaraço, e de novo principiavam a assaltá-lo os seus tristes pensamentos sobre a vaidade de todas as coisas humanas. E a disposição melancólica ainda mais realçava a comparação que a cada passo estabelecia entre a sua situação e a de André, depois que assistia à marcha dos sentimentos que de dia para dia aproximavam o seu amigo e a sua protegida. Procurava não pensar igualmente nem na mulher, nem em Natacha, nem em André. De novo tudo se lhe afigurou sem importância ao pé do sentimento de eternidade, e de novo se lhe formulou no espírito este pensamento: «Para quê?» E dia e noite, ocupado com os trabalhos de maçonaria, tentava afastar do seu espírito os maus pensamentos. Era meia-noite, saíra há pouco dos aposentos da condessa, e estava instalado nas suas dependências do andar inferior, numa sala de tecto baixo, cheia de fumo, com um roupão enxovalhado pelas costas, sentado à mesa, copiando as actas autênticas das lojas escocesas, quando alguém penetrou no aposento. Era o príncipe André.
- Ah! É o príncipe? - exclamou Pedro, distraído e enfadado. - Eu, como vê, estou a trabalhar - acrescentou, mostrando o caderno em que escrevia, num gesto de pessoa infeliz que trabalhando procura esquecer os aborrecimentos da vida.
André deteve-se diante dele, o rosto radiante e como que transfigurado pela alegria, e sorriu-lhe, num egoísmo de felicidade, sem reparar no aspecto infeliz do amigo.
- É verdade. Pedro, quis falar-te ontem, e aqui estou hoje pronto a fazê-lo. Nunca senti nada que se pareça com isto. Estou enamorado, meu amigo.
Pedro, de súbito, soltou um grande suspiro, e deixou-se cair .sobre o divã, ao lado de André, com todo o peso do corpo.
- De Natacha Rostov, não é verdade? - Sim, sim, de quem havia de ser? Nunca pensei, mas este amor é mais forte do que eu. Ontem atormentei-me e sofri, e, no entanto, por nada desta vida desejaria não ter sofrido assim. Não vivia. Agora, sim, agora vivo, e não posso viver sem ela. E ela, gostará ela de mim?... Para Natacha já sou um velho... Então, nada me dizes? - Eu, eu? Que hei-de eu dizer - exclamou Pedro, de repente, erguendo-se e principiando a andar de um lado para o outro. - Sempre pensei que... Esta rapariga é um verdadeiro tesouro, um tesouro tal.., sim, uma pérola! Meu querido amigo, não pense mais. Deixe-se de hesitações, case-se, case-se, case-se... Estou convencido que não haverá homem mais feliz no mundo.
- E ela? - Gosta de si.
- Não digas tolices... - replicou André sorrindo e olhando para Pedro bem nos olhos.
- Gosta, tenho a certeza - insistiu Pedro enfadado.
- Então ouve - tornou o príncipe, travando-lhe do braço.- Sabes em que situação moral me encontro? Preciso de abrir o coração seja a quem for.
- Bom, bom, diga. Sentir-me-ei muito feliz - replicou Pedro, e com efeito a expressão modificou-se-lhe subitamente; as rugas da testa desapareceram-lhe, e, sorrindo, pôs-se a ouvir o príncipe André, que parecia outro homem. Onde o seu tédio, o seu desprezo pela vida, o seu desencanto? Pedro era a única pessoa diante de quem ele se atrevia a desabafar. E disse-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Descreveu-lhe os seus planos fáceis e audaciosos para o futuro, declarou-lhe que não podia sacrificar a sua felicidade a um capricho do pai, que estava disposto a obrigá-lo a dar o seu consentimento para a boda e a fazê-lo gostar da sua noiva, ou que então passaria sem isso. E por outro lado mostrou-lhe o assombro que sentia perante aquele sentimento desconhecido que o dominava por completo, como se fosse qualquer coisa estranha e independente dele.
- Se alguém me tivesse dito que eu viria a gostar assim de uma mulher, não teria acreditado - acrescentou. - O que sinto agora é completamente diferente do que outrora experimentei. Actualmente o universo divide-se para mim em duas partes: uma, em que ela está presente, e onde tudo é felicidade, esperança, luz; a outra, em que ela não figura, e onde tudo são trevas e dores...
- Trevas e obscuridade - repetiu Pedro -, sim, sim, compreendo, compreendo.
- Não posso deixar de amar a luz, não tenho culpa de que assim seja. E sinto-me muito feliz. Compreendes? Sei que compartilhas da minha alegria.
- Sim, sim confessou Pedro, observando o amigo com um olhar enternecido e tristonho. Quanto mais o destino do príncipe se iluminava, mais lúgubre se lhe afigurava o seu.
Para casar. André precisava do consentimento paterno, e por isso no dia seguinte partiu para a aldeia.
O velho encarou a comunicação do filho com uma serenidade aparente e uma cólera secreta. Não podia compreender que alguém quisesse modificar a sua vida e nela introduzir qualquer coisa de novo quando a sua própria chegava ao fim. «Que, ao menos, me deixem acabar os meus dias a meu gosto, depois poderão fazer o que quiserem», dizia de si para consigo o ancião. Para com o filho, contudo, procedeu com a diplomacia das grandes ocasiões. Foi com um ar sereno que discutiu com ele.
Em primeiro lugar, aquele casamento, do ponto de vista do parentesco, da fortuna e da fidalguia, não era uma aliança brilhante. Em segundo lugar. André não estava na primeira juventude e tinha pouca saúde, e o velho insistia principalmente neste ponto, porquanto ela era muito jovem. Em terceiro lugar, havia uma criança, que não podia ser confiada aos cuidados de uma garota. E por fim, acrescentou, fitando o filho com um ar trocista: - Eis o que te peço, espera um ano, vai viajar pelo estrangeiro, cuida de ti, trata de arranjar um alemão para dirigir a educação do príncipe Nicolau, como é teu desejo, e depois, se o teu amor, a tua paixão, a tua obstinação, tudo o que tu quiseres, continuarem os mesmos, então casa-te. E aqui tens a minha última palavra, fica sabendo, a minha última palavra... - E concluiu num tom que significava nada haver no mundo que o fizesse mudar de opinião.
O príncipe André percebeu que o pai esperava que os sentimentos dele, seu filho, ou os de sua noiva não resistiriam à prova de um ano, ou então que, tendo em vista a sua avançada idade, ele próprio viria a morrer entretanto. E decidiu acatar a sua vontade, adiando o casamento para daí a um ano. Três semanas depois da última noite em casa dos Rostov. André estava de regresso a Petersburgo.
No dia que se seguiu à explicação que tivera com a mãe. Natacha, de manhã à noite, esperou a visita de Bolkonski, mas este não apareceu. No segundo e no terceiro dia, a mesma coisa. Pedro também não apareceu, e Natacha, que ignorava que André partira para a aldeia, não podia compreender aquela ausência.
E assim decorreram três semanas. Natacha recusava-se a aparecer em parte alguma e andava de um lado para o outro, de sala para sala, como uma sombra, ociosa e desolada. A noite, a ocultas de toda a gente, chorava, e já não procurava a mãe na sua cama. A cada momento corava e irritava-se. Imaginava que todos sabiam das suas decepções, todos a troçavam ou deploravam. E estas mordeduras no seu amor-próprío, acrescidas do seu grande desgosto, ainda a tornavam mas infeliz.
Certo dia foi ter com a mãe, quis dizer-lhe fosse o que fosse e rompeu a chorar. As suas lágrimas eram como as de uma criança castigada que não sabe porque a puniram.
A condessa procurou consolá-la. Natacha principiou por ouvir o que a mãe dizia, depois, subitamente, interrompeu-a: - Não diga mais, mãe, não penso e não quero voltar a pensar mais nisso! A verdade é que apareceu e depois ninguém o tomou a ver, nunca mais... - Tremia-lhe a voz, ia chorar de novo, mas conteve-se e prosseguiu tranquilamente: - Não me quero casar. Além disso, tinha medo dele. Agora estou completamente sossegada, completamente.
No dia seguinte. Natacha enfiou um vestido velho de que muito gostava, porque se lembrava das manhãs alegres em que o vestira, e voltou à vida antiga, que havia abandonado em seguida à noite do baile. Depois do chá, dirigiu-se ao salão mais espaçoso, seu preferido por causa da boa acústica, e recomeçou o solfejo. Assim que terminou a primeira lição, postou-se no meio da sala e entoou uma frase musical de que muito gostava. Entretinha-se a ouvir o efeito maravilhoso e inesperado para ela daquelas notas soltas derramando-se pelo vazio da sala e lentamente morrendo. E de repente sentiu-se alegre. «Para que hei-de eu pensar em tudo isto? Assim também estou bem», dizia de si para consigo. E começou a passear de um lado para o outro do grande salão, caminhando pelo sonoro pavimento, não em passo natural, mas apoiando primeiro o tacão e depois a biqueira dos sapatos novos, seus preferidos. E ao ouvir o martelar cadenciado do tacão e da biqueira dos sapatos, rangendo, experimentava um prazer tão grande como o que sentira ao escutar o eco da sua própria voz. Passando por diante de um espelho, relanceou-lhe um olhar. «Aquela sou eu!», parecia dizer a expressão que se lhe pintara no rosto. «óptimo! Não preciso de ninguém.» Um criado quis entrar na sala para proceder à limpeza, mas ela mandou-o embora, fechou a porta e prosseguiu no seu passeio. Naquela manhã regressara ao profundo amor de si própria e à admiração pela sua própria pessoa. «Que encanto esta Natacha!», exclamava, dando a palavra a uma terceira pessoa, ser colectivo e do sexo forte. «É bonita, nova, tem uma linda voz, não incomoda ninguém. Deixem-na então em paz.» Mas, ainda mesmo que a deixassem em paz, não mais saberia recuperar a tranquilidade antiga, isso mesmo teve ocasião de verificar não tardou muito.
A porta do vestíbulo que abria para a rua abriu-se e alguém perguntou: «Estão em casa?» E uns passos se ouviram. Natacha lançou um olhar ao espelho, mas já lá não estava. Ouvia ruído no vestíbulo. Porém, quando conseguiu tornar a ver-se no espelho empalideceu. Era ele. Tinha a certeza, embora a custo lhe percebesse a voz para além da porta fechada.
Muito pálida e assustada, correu para o salão.
- Mãe, está ali Bolkonski! - exclamou. - Não posso, mãe, é insuportável. Não quero sofrer. Que hei-de fazer?...
Ainda a condessa não tivera tempo de responder, já o príncipe entrava na sala, com um aspecto preocupado e sério. Assim que seus olhos encontraram Natacha, o rosto iluminou-se-lhe. Beijou a mão da condessa e da filha e sentou-se.
- Há muito tempo não tínhamos o prazer... - principiou a condessa, mas o príncipe André cortou-lhe a palavra, para lhe responder imediatamente, tanta pressa tinha de dizer o que queria: - Não tornei a aparecer porque estive em casa de meu pai: precisava de conversar com ele sobre um assunto muito grave. Cheguei esta noite - disse, fitando Natacha. - Preciso de lhe falar, condessa - acrescentou, depois de um momento de silêncio.
A condessa baixou os olhos, suspirando.
- Estou às suas ordens - disse ela.
Natacha percebia que devia retirar-se, mas não era capaz de se decidir a fazê-lo. Tinha um nó na garganta e olhava para André de uma forma quase descortês, bem de frente, com os olhos muito abertos. «Vai ser agora? Já?... Não, não pode ser», dizia para si mesma.
André voltou a fitá-la, e então Natacha convenceu-se de que se não enganava. Sim, agora, já, ia decidir-se o seu destino. - Vai Natacha, eu te chamarei- segredou-lhe a condessa. Natacha lançou a André e à mãe um derradeiro olhar, súplice e consternado, e saiu.
- Condessa, vim pedir-lhe a mão de sua filha - principiou André.
Um grande rubor subiu à cara da condessa, mas não respondeu logo.
- O seu pedido... - disse, pausadamente, enquanto ele se calava e a fitava nos olhos. - O seu pedido... - estava perturbada - é-nos agradável, e por mim aceito-o, estou muito contente. E meu marido.., espero.., mas tudo depende dela.
- Falarei a Natacha quando tiver o seu consentimento... Concede-mo? - inquiriu o príncipe André.
- Com certeza - replicou ela, e estendeu-lhe a mão. E depois, num misto de embaraço e de ternura, poisou-lhe os lábios na testa no momento em que ele se inclinava para lhe beijar a mão. Desejaria querer-lhe como a um filho, mas sentia-o por de mais distante. Intimidava-a. - Estou convencida de que meu marido não se oporá - acrescentou ela. - Mas seu pai...
- Meu pai, a quem comuniquei os meus projectos, pôs-me como condição do seu consentimento que o casamento se não realize antes de um ano. E era isto precisamente o que eu lhe queria dizer.
- É verdade que Natacha ainda é muito nova, mas tanto tempo...
- Não pode ser de outra maneira - volveu André, suspirando. - Vou chamar Natacha. - disse a condessa, saindo da sala. - Senhor, tende piedade de nós! - ia implorando ao afastar-se.
Sónia disse-lhe que Natacha estava no quarto. Sentada na cama, pálida, os olhos secos cravados nos ícones, os lábios balbuciantes, persignando-se rapidamente, murmurava fosse o que fosse. Ao ver entrar a mãe, saltou da cama, correu para ela e caiu-lhe nos braços.
- Que é, mãe? Que é? - Vai, vai, está à tua espera. Pediu-me a tua mão - disse a condessa friamente, pelo menos assim pareceu a Natacha. - Vai.., vai- prosseguiu ela com tristeza e reprovação, ao vê-la despedir numa carreira, e soltou um profundo suspiro.
Mais tarde Natacha quis lembrar-se de como entrara no salão e não podia. Ao chegar ao limiar da porta, ao vê-lo, estacou. «Será possível que este estranho se haja tornado agora tudo para mim?», perguntou a si própria, e imediatamente ouviu a resposta: «Sim, tudo, ele e só ele, é agora para mim a pessoa mais querida do mundo.» O príncipe André aproximou-se dela de olhos baixos.
- Enamorei-me de si desde o primeiro instante em que a vi. Posso ter esperanças?...
Ergueu os olhos para ela, e a expressão grave e apaixonada de Natacha impressionou-o. Aquele rosto parecia dizer-lhe: «Perguntar para quê? Para que duvidar do que é evidente? Para que falar quando as palavras não podem exprimir o que uma pessoa sente?» Aproximou-se, e de novo parou. André pegou-lhe na mão e beijou-a.
- Gosta de mim? - Gosto, gosto! - exclamou Natacha, como se lhe estivessem a arrancar uma confissão. E por várias vezes respirou fundo, como se sufocasse, e rompeu em soluços.
- Que foi? Que tem? - Oh, sou tão feliz! - balbuciou ela, suspirando, os olhos cheios de lágrimas. Inclinou-se para ele e, hesitando um momento, como a perguntar-se a si própria se o poderia fazer, beijou-o.
O príncipe André apertava-lhe as suas mãos nas dele, olhava-a nos olhos, e já não conseguia encontrar no fundo do seu coração o mesmo amor que sentira por ela. Produzira-se nele subitamente como que uma revolução. A misteriosa e poética atracção do desejo desaparecera, e em seu lugar surgia agora uma espécie de compaixão por aquela fragilidade de criança e de mulher, agora havia nele uma espécie de susto diante daquele abandono e daquela entrega. Era a consciência, misto de alegria e de tristeza, do dever que para sempre o ligava a ela. Conquanto não tão poéticos e luminosos como outrora, os sentimentos que ela agora lhe inspirava eram mais sérios e mais fortes.
- Sua mãe disse-lhe que só nos poderemos casar daqui a um ano? - articulou André, sem deixar de a olhar nos olhos.
«Será possível que eu, a garota que sou para toda a gente», dizia Natacha de si para consigo, «será possível que eu seja agora a mulher deste homem amável, uma igual deste homem inteligente, um estranho ainda para mim, e a quem o meu próprio pai respeita? Será isto verdade? Será verdade que a vida tenha deixado de ser para mim uma brincadeira, que eu seja agora uma pessoa crescida, que tenha de prestar contas de todos os meus actos e de todas as minhas palavras? Mas que me estava ele a dizer?» - Não - replicou ela, sem perceber o que André lhe perguntava.
- Perdoe-me - disse ele -, a Natacha é tão nova e eu já passei por tantas coisas na vida. Tenho medo por si. Ainda se não conhece a si mesma.
Natacha escutava-o com toda a atenção, fazendo esforços para compreender o sentido das palavras que ele lhe dizia, mas sem o conseguir.
- Por mais penoso que seja para mim este ano que me separa da felicidade - prosseguiu André - dar-lhe-à tempo de avaliar os seus sentimentos. Peço-lhe que me faça feliz dentro de um ano. Até lá considere-se sem compromissos. O nosso noivado manter-se-á secreto e se entretanto se convencer de que me não ama ou, pelo contrário, se continuar a gostar de mim... - acrescentou com um sorriso forçado.
- Porque é que me fala assim? - interrompeu Natacha.- Bem sabe que principiei a gostar de si desde que o vi pela primeira vez, em Otradnoie - acentuou com o firme acento da verdade.
- Tem um ano para bem se conhecer...
- Um ano inteiro! - disse, de súbito. Natacha, compreendendo finalmente que o casamento só se realizaria daí a doze meses. - Mas um ano, porquê? Porquê um ano?... - O príncipe André pôs-se a explicar-lhe os motivos. Natacha, porém, não o ouvia já.
- Mas não pode ser de outra maneira? - perguntou.
André não respondeu, e Natacha percebeu pela sua fisionomia que a decisão era irrevogável.
- É horrível! Oh!, é horrível, horrível! - exclamou de súbito Natacha, rompendo a chorar. - Se tiver de esperar um ano, morro. Não pode ser, é horrível! - Ergueu os olhos para o noivo e viu que a perplexidade e a dor o alanceavam.
- Bom, bom! Farei tudo que for preciso - disse ela, enxugando rapidamente as lágrimas. - Sou tão feliz! Então os pais de Natacha entraram na sala e deram a sua bênção aos noivos.
A partir desse dia, o príncipe André passou a frequentar a casa dos Rostov na qualidade de noivo de Natacha.
Não se festejou o noivado e a ninguém foi participado que Bolkonski e Natacha eram noivos. O príncipe André assim o quis. Dizia que já que era ele o causador daquele contratempo sobre ele deviam pesar todos os seus inconvenientes. E acrescentou que a palavra dada era para ele um compromisso eterno, mas que Natacha continuaria senhora da sua inteira liberdade. Se dentro de seis meses verificasse que o não amava, teria pleno direito de se desligar do compromisso. Escusado dizer que nem Natacha nem os pais queriam ouvir falar nisto, mas André era inabalável nesse ponto. Ia todos os dias a casa dos Rostov, mas não tratava Natacha como noiva: não a tuteava e limitava-se a beijar-lhe a mão. Entre os dois, após o pedido de casamento, as relações passaram a ser muito diferentes do que até então - mais íntimas, mais simples. Até aí haviam sido como estranhos um ao outro. Achavam graça lembrarem-se da maneira como mutuamente se encaravam naquele tempo em que ainda não eram nada um para o outro. E agora era como se se sentissem outras pessoas: antigamente dissimulavam, agora eram simples e sinceros. De princípio, a família experimentava certo embaraço na presença de André. Consideravam-no como que pertencendo a outro mundo, e Natacha levou muito tempo antes de conseguir familiarizar a sua gente com o noivo: dizia-lhes, orgulhosa, que só na aparência ele era assim uma pessoa especial, mas que no fundo era igual aos demais, que a não intimidava e que ninguém devia intimidar-se dele. Depois de algum tempo, habituaram- se, e naturalmente voltaram aos seus hábitos de vida antigos, hábitos com que o próprio príncipe, de resto, se identificava. Sabia falar de assuntos agrícolas com o conde, de vestidos com a condessa e Natacha, e de bordados e álbuns com Sónia. Por vezes, a família Rostov, na intimidade ou na presença de André, referia-se à surpresa que lhe causava o que acontecera, vendo sinais de destino em tudo: na chegada do príncipe a Otradnoie, na vinda deles para Petersburgo, as semelhanças de Natacha e do noivo assinaladas pela velha criada aquando da primeira visita deste, a altercação em 1805 entre André e Nicolau e ainda muitas outras coisas.
Na casa respirava-se esse tédio poético e silencioso que costuma envolver os noivos. Às vezes, sentados à mesma mesa. Todos se calavam. E acontecia as outras pessoas levantarem-se e irem-se embora, e os noivos, que ficavam sós, continuarem calados. Raramente falavam do futuro. O príncipe André receava esse tema e tinha escrúpulos em abordá-lo. Natacha partilhava do mesmo sentimento, como, aliás, de todos os seus pensamentos secretos, que sempre adivinhava. Só uma vez se lembrou de lhe falar do filho. André sorriu, o que muitas vezes acontecia agora, e o que muito agradava a Natacha, e replicou que o filho não viveria com eles.
- E porquê? - interrogou Natacha, assustada.
- Não posso tirá-lo ao avô, e além disso...
- Ia gostar tanto dele! - exclamou Natacha, que logo lhe adivinhou o pensamento. - Já sei, não quer que tenham alguma coisa a dizer de nós.
O velho conde costumava abeirar-se às vezes do príncipe André, beijava-o, pedia-lhe conselhos sobre a educação do Pétia ou a respeito da vida militar de Nicolau. Quanto à velha condessa, essa suspirava olhando para os noivos. Sónia, receosa a todo o momento de ser Indiscreta, estava sempre a arranjar pretextos para os deixar sós, mesmo quando não era necessário. Quando André falava - tinha um verdadeiro talento de narrador. - Natacha ouvia-o cheia de orgulho, e quando era ela quem falava podia ver, num misto de alegria e de receio, como ele a olhava, atento e escrutador. E perguntava-se, inquieta: «Que procura ele de mim? Que quer ele dizer com este olhar? Que acontecerá se não encontrar em mim o que procura?» As vezes apoderava-se de Natacha aquela louca alegria tão própria do seu temperamento, e era com grande satisfação que via e ouvia rir o príncipe André. Este raramente ria, mas, quando o fazia, era sem reservas, e então mais ela se sentia, graças a esse riso, identificada com ele. Se não fosse a ideia da separação que se aproximava, enchendo-a a ela de pavor e a ele, quando nisso pensava, fazendo-o empalidecer. Natacha ter-se-ia sentido plenamente feliz.
Na véspera da sua partida para Petersburgo o príncipe André apareceu na companhia de Pedro, que não voltara a casa dos Rostov desde a noite do baile. Pedro parecia confuso e perturbado. Pôs-se a conversar com a condessa. Natacha e Sónia foram jogar o xadrez e convidaram André, que se abeirou delas.
- Há muito que conhecem Bezukov? - perguntou. - Gostam dele? - Gostamos. É muito bom rapaz. Mas um pouco ridículo.
E, como sempre que Natacha falava de Pedro, contou histórias a propósito das suas distracções, algumas das quais eram inventadas.
- Sabe que lhe falei no nosso segredo? - disse André. - Conheço-o desde criança. É um coração de ouro. Peço-lhe uma coisa. Natacha - acrescentou, de súbito, muito sério. - Vou partir e só Deus sabe o que pode vir a acontecer. Pode deixar de gostar de mim... Sim, bem sei que não devo falar assim. Mas, enfim, aconteça o que acontecer, durante a minha ausência...
- Que poderá acontecer? - Se acontecesse alguma desgraça - prosseguiu ele -, peço-lhe. Mademoiselle Sophie, suceda o que suceder, só a ele peçam conselho e amparo. É uma pessoa distraída, um pouco ridícula, mas um coração de ouro.
Nem o pai, nem a mãe, nem Sónia, nem o próprio André puderam prever o efeito que a partida deste produziria em Natacha. Agitada, muito vermelha, os olhos sem uma lágrima, ia e vinha pela casa, ocupada nas coisas mais insignificantes, como se não compreendesse o que a esperava. Não chorou sequer no momento em que ele, ao despedir-se, lhe beijou pela última vez a mão. «Não se vá embora! », disse ela apenas, numa tal voz que ele se perguntou a si próprio se não deveria ficar realmente, e por muito tempo havia de lembrar-se daquele instante. Depois de ele partir, também não chorou, mas durante alguns dias deixou-se ficar sentada nos seus aposentos, sem se interessar por coisa alguma, repetindo de quando em quando: «Ai!, porque se foi ele embora?» No entanto, quinze dias depois, inesperadamente, ante a surpresa de todos, despertou daquele torpor, voltou a ser como era antes, embora com outra expressão mental, como costuma acontecer às crianças quando se levantam depois de uma prolongada doença.
A saúde e o carácter do velho príncipe Nicolau Andreievitch Bolkonski no ano que se seguiu à partida do filho pioraram muito. Tomou-se ainda mais irritável e todos os seus arrebatamentos de cólera imotivada caíam geralmente sobre a princesa Maria. Dir-se-ia escolher adrede todos os recantos sensíveis do coração desta para a fazer sofrer moralmente com a maior crueldade que podia. Maria tinha duas paixões, e portanto duas alegrias: o sobrinho Nikoluchka e a religião, e esses os dois objectivos favoritos dos ataques e - das ironias do príncipe. Falasse-se do que se falasse, logo ele conduzia a conversa para as superstições das solteironas e a indulgência e os mimos excessivos destas para com as crianças. «O que querias era fazer dele uma menina como tu. Fazes mal. O príncipe André precisa de um filho, não de uma filha», dizia-lhe ele. Ou então, dirigindo-se a Mademoiselle Bourienne, perguntava-lhe, na presença de Maria, que pensava ela dos popes e dos ícones russos, e lá vinham de novo os seus sarcasmos...
Feria a cada passo e a qualquer pretexto a princesa Maria, mas a filha, para lhe perdoar, nem por isso tinha de fazer um grande esforço. Como poderia ele ser culpado a seus olhos? E como é que ele, que no fundo tanto lhe queria, podia ser injusto para com ela? E, de resto, em que consistia realmente a equidade? A princesa não tinha a mais pequena noção dessa palavra grandiloquente. Para ela todas as complicadas leis da humanidade se resumiam numa só, simples e clara, a lei do amor e do sacrifício, a lei ensinada aos homens por Aquele que, sendo Deus, muito padeceu por amor da humanidade. Que lhe importava a ela a justiça ou a injustiça de outrem? A sua condição era sofrer e amar e isso mesmo estava ela fazendo.
No Inverno, o príncipe André apareceu em Lissia Gori. Mostrara-se alegre, compassivo e terno como ainda a irmã o não vira. E previu que alguma coisa acontecera, mas André nada lhe disse a respeito dos seus amores. Antes de tornar a partir, teve uma longa conversa com o pai e a princesa Maria pôde observar que a entrevista os deixara a ambos descontentes.
Pouco depois da partida do irmão, a princesa escreveu de Lissia Gori para Petersburgo à sua amiga Júlia Karaguine, a noiva que ela sonhava - sonho sempre na mente das raparigas solteiras - para o príncipe André. Júlia estava de luto pelo irmão, que morrera na guerra da Turquia:
Está escrito que a nossa sina seja o sofrimento, minha querida e boa amiga Júlia.
Tão cruel é a perda que acabas de sofrer que eu a não posso explicar senão como uma mercê particular de Deus, que assim quer, por muito vos amar, pôr-te à prova a ti e à tua boa mãe. Ah!, minha amiga, só a religião, só ela, pode, não digo consolar-nos, mas salvar-nos de cairmos no desespero. Só a religião nos pode explicar tudo quanto, sem a sua ajuda, o homem é incapaz de compreender, ou seja, porque chama Deus a Si as criaturas de bom coração, de nobres sentimentos, que sabem dar felicidade aos outros na vida, não fazem mal a ninguém e são mesmo precisas para a felicidade alheia, enquanto deixa viver criaturas más, inúteis, prejudiciais, e um fardo para elas próprias e para os outros. A primeira morte a que assisti e que não mais poderei esquecer - a da minha cunhada - obrigou-me a pensar muito. Assim como tu perguntas ao destino porque foi o teu bom irmão chamado para o seio de Deus, também eu lhe perguntei porque Lisa, aquele anjo, tinha de morrer, ela, que não só nunca fizera mal a alguém, mas em cuja alma só houvera bons sentimentos. E que queres que te diga, minha amiga? Cinco anos são passados e só agora na minha fraca inteligência começo a compreender porque é que ela devia morrer e como esta morte não era senão um sinal da misericórdia infinita do Criador, cujas acções, ainda mesmo quando nós as não compreendemos, são sempre a prova do amor sem limites que Ele dedica à criatura humana. Muitas vezes penso que ela era, naturalmente, de uma inocência angélica de mais para dispor de energias que a deixassem cumprir os seus deveres de mãe. Se como rapariga era irrepreensível, talvez o não tivesse sido como mãe. Agora não só nos deixou a todos, e muito especialmente a André, as saudades mais preciosas, como o certo é que a esta hora já deve ter alcançado lá em cima um lugar que eu não ouso esperar para mim própria. Sem falar da recompensa que terá obtido, esta morte prematura e terrível teve sobre meu irmão e sobre mim o efeito mais benéfico, apesar da nossa dor. Quando passámos por este desgosto, se tais pensamentos me tivessem ocorrido, tê-los-ia afastado de mim com horror; agora, porém, tudo isto se tomou tão claro e incontestável! Se te digo estas coisas, minha amiga, é apenas para te convencer da verdade evangélica, que se tomou a regra da minha vida! «Nem um só cabelo nos cai da cabeça sem a Sua vontade.» E a vontade do Senhor só o Seu ilimitado amor por nós a conduz e é por isso que tudo quanto nos sucede só para nosso bem acontece. Perguntas-me se passaremos o Inverno em Moscovo? Apesar do meu desejo de tornar a ver-te, não o creio nem o desejo. Estranharás, talvez, que a culpa seja de Bonaparte. Já verás como. A saúde de meu pai está a decair muito; não suporta a menor contradição e está muito irritável. Esta irascibilidade, como sabes, é provocada especialmente pela política. Não pode tolerar a ideia de Bonaparte tratar de igual para igual todos os soberanos da Europa e em particular o nosso, o neto da grande Catarina! Como deves calcular, a política não me interessa, mas, através do que diz meu pai e das suas conversas com Mikail Ivanovitch, estou ao par de tudo quanto sucede no mundo, e sobretudo de todas as honras que prestam a Bonaparte, e, ao que parece, no mundo inteiro; só em Lissia Gori lhe recusam o título de grande homem e de imperador dos Franceses. Realmente, meu pai não pode tolerar que assim seja. Calculo que, principalmente em virtude das suas ideias políticas e na previsão de todos os aborrecimentos que lhe poderia vir a causar a sua maneira de proceder e os hábitos em que está de exprimir as suas opiniões sem querer saber do que os outros pensam, não vê com bons olhos a ida para Moscovo. Tudo quanto ganha no tratamento que está a seguir perder-se-ia mercê das inevitáveis discussões sobre Bonaparte. De qualquer maneira, muito em breve saberei o que se resolve. A nossa vida familiar segue o seu curso habitual, a não ser no que diz respeito a meu irmão André, que continua ausente. Como já te disse, mudou muito nestes últimos tempos. É este o primeiro ano depois da infelicidade de que foi vítima em que parece em verdade ter renascido moralmente para a vida. Voltou a ser o que era quando criança: bom, terno, um coração de ouro, como outro melhor não conheço. Compreendeu por fim, ao que parece, que a vida ainda não acabou para ele. Mas, se mudou do ponto de vista moral, fisicamente decaiu muito. Está mais magro e mais nervoso. Estou inquieta por ele e sinto-me muito contente que ele tenha resolvido fazer esta viagem ao estrangeiro, há muito prescrita pelos médicos. Tenho esperanças nos seus resultados salutares. Disseste-me que em Petersburgo se fala dele como um dos jovens mais activos, mais cultos e mais inteligentes. Perdoa-me este orgulho de irmã, mas sempre assim pensei. Não podes calcular o bem que ele tem feito aqui tanto aos seus mujiques como à nobreza da região. Em Petersburgo só encontrou o que merecia. Estou muito surpreendida com os boatos que correm e que chegaram até aí, a Moscovo, especialmente com as atoardas como essa de que me falas sobre um suposto casamento de meu irmão com a pequena Rostov. Não acredito que ele volte a casar seja com quem for e com muito mais forte razão com essa pequena. E aqui tens porquê: primeiro, embora ele fale raramente da sua falecida mulher, o desgosto que sofreu foi tão profundo que não creio pense em substituí-la e em dar uma madrasta ao nosso anjinho; em segundo lugar, pelo menos quanto me é dado sabê-lo, essa rapariga não pertence à categoria das mulheres que lhe podem agradar. Não creio que o príncipe André case com ela e francamente te digo que o não desejo. Mas já vai longa esta carta e estou a terminar a minha segunda folha de papel. Adeus, minha querida amiga, que Deus te tenha na Sua santa guarda. A minha querida companheira. Mademoiselle Bourienne, envia-te um beijo.
Maria
Em meados do Estio. Maria recebeu da Suíça uma carta inesperada do irmão em que este lhe dava parte de um caso imprevisto e surpreendente. Participava-lhe estar noivo de Mademoiselle Rostov. Esta carta vinha banhada do mais exaltado amor pela noiva e da maior ternura e de uma completa confiança pela irmã. Dizia-lhe nunca ter amado como agora e que só também agora compreendia a vida; pedia-lhe que lhe perdoasse nada lhe ter dito, aquando da sua visita a Lissia Gori, a respeito das suas intenções, embora houvesse falado disso ao pai. Não lhe falara no caso porque Maria teria intercedido junto do velho príncipe para ele dar o seu consentimento e com isso só teria concorrido para o exasperar, sem nada obter, ficando depois a suportar o peso inteiro do descontentamento paterno, «Aliás», escrevia ele, «as coisas ainda não estavam definitivamente resolvidas nessa altura, mas agora sim. O pai, então, impôs-me que esperasse um ano; já lá vão seis meses, metade do prazo, e a verdade é que nunca estive mais decidido na minha resolução. Se os médicos me não obrigassem a conservar-me aqui, nas águas, já eu estaria na Rússia, mas ainda tenho de esperar três meses. Tu conheces-me bem e sabes quais as minhas relações com o pai. Não preciso de lhe pedir seja o que for e sempre serei independente, mas agir contra sua vontade, despertar-lhe a cólera, talvez quando já tão pouco tempo tem para viver connosco, seria tornar incompleta a minha felicidade. Escrevo-lhe sobre o mesmo assunto e peço-te que escolhas o momento que te parecer mais favorável para lhe entregares a carta que te remeto, informando-me, depois, da, maneira como ele encarou a situação e se achas que há alguma esperança em consentir que antecipe de quatro meses o prazo fixado! » Depois de largas vacilações, de muitos escrúpulos e fervorosas preces. Maria entregou a carta ao pai. No dia seguinte o velho príncipe disse-lhe com a maior tranquilidade: - Escreve a teu irmão e diz-lhe que espere que eu morra... Não tardará muito... Dentro de pouco tempo estará livre de mim...
Maria quis objectar qualquer coisa, mas o pai não lho consentiu, e foi levantando a voz.
- Casa-te, casa-te, querido amigo... Soberba parentela!... Pessoas de mérito, não haja dúvida! E ricas, não é verdade? Ah! Claro, que linda madrasta para o Nikoluchka! Diz-lhe que se case amanhã mesmo. Eh! Eh! Eh! Nikoluchka terá uma madrasta, e eu, eu, por mim, caso com a Burienka!... Eh! Eh! Eh! Assim também eu lhe darei a ele uma madrasta! O pior é que não quero mais mulheres cá em casa. Que se case, mas que vá viver para outra parte. Talvez tu queiras ir viver para casa dele. Pois muito boa viagem! E que passes por lá muito bem! Muito bem!...
Depois deste desabafo, o príncipe não voltou a falar no assunto. Mas o desagrado que lhe causava a fraqueza de André transparecia a cada passo nas relações entre o velho príncipe e a filha. Um novo motivo de ironia veio juntar-se aos anteriores - o da madrasta e o do seu namoro em perspectiva com Mademoiselle Bourienne.
- Por que diabo não hei-de eu casar com ela? - dizia ele para a filha. - Fazia-se dali uma óptima princesa! E, com efeito, naqueles últimos tempos Maria notara, com grande pasmo, que o pai, de dia para dia se mostrava mais íntimo com a francesa. Escreveu a André sobre a forma como o pai acolhera a carta que ele lhe escrevera, dando-lhe, no entanto, algumas esperanças, pois talvez conseguisse levá-lo a dar o seu consentimento.
Nikoluchka e a sua educação. André e a religião, eis as únicas alegrias e os únicos motivos de satisfação da princesa Maria. Mas, além disso, como todos precisamos de aspirações pessoais, no mais fundo do seu coração. Maria ocultava um sonho e uma esperança, todo o lenitivo da sua vida. Essa ilusão consoladora e essa esperança devia-as aos homens de Deus, os inocentes e os peregrinos que frequentavam a casa às escondidas do príncipe. Quanto mais vivia, quanto mais experiência adquiria, quanto mais observava a vida tanto mais se surpreendia com a cegueira dos homens que procuram na terra a felicidade e os gozos, que lutam, que sofrem e que mutuamente se querem mal para alcançar essa miragem impossível e vã a que chamam felicidade. O príncipe André tinha amado uma mulher, que morrera; e isso não lhe bastava, queria procurar de novo a felicidade junto de outra mulher. O pai opunha-se a esse casamento porque desejava para ele uma mulher de sangue mais nobre e de família mais rica. E ei-los lutando e sofrendo e atormentando o semelhante e perdendo a sua alma, a sua alma imortal, para alcançarem prazeres que não duram mais do que uma hora. Não só o sabemos por nós próprios, mas também por Cristo, o filho de Deus, que desceu à Terra e nos disse que esta vida não é mais do que um breve espaço de tempo e uma prova. E, no entanto, aí estamos nós, que nos agarramos a ela, pensando encontrar a felicidade cá em baixo. «Como é que ninguém ainda percebeu isto?», interrogava-se Maria. «Ninguém, a não ser os homens de Deus, escárnio de toda a gente. E eles, de sacola ao ombro, aí vêm, pela escada de serviço, com medo de que o príncipe os veja, não com receio de serem maltratados, mas apenas para que ele não caia em pecado. Abandonarem a família, a terra natal, todas as preocupações deste mundo, não se prenderem a seja o que for e errarem de um lado para o outro, cobertos de andrajos, sob um nome suposto, sem nunca fazerem mal a outrem e rezando tanto pelos que os protegem como pelos que os maltratam, não, não há vida, não há verdade superiores à sua!» Maria conhecia uma peregrina, uma tal Fiedossiuschka, mulher dos seus cinquenta anos, pequenina, picada das bexigas, sossegada, que havia trinta anos andava descalça e carregada de cadeias. Tinha por ela uma especial afeição. Certo dia em que Fiedossiuschka lhe falava da sua vida, no seu obscuro quarto apenas iluminado pela lamparina do ícone, a princesa Maria pensou de súbito tão intensamente que só aquela mulher encontrara o verdadeiro caminho da vida que ela própria decidiu fazer-se peregrina. Quando Fiedossiuschka se retirou, a princesa meditou muito tempo e por fim chegou à conclusão de que, por mais estranho que isso fosse, o devia fazer. Confiou esta decisão ao seu confessor, o monge Akinfii, que aprovou as suas intenções. A pretexto de dar um presente a uma das peregrinas. Maria tratou de arranjar um trajo completo: bata, cafetã, uns lapti e um lenço preto. Por vezes, ao abeirar-se da cómoda onde escondera essas coisas, detinha-se, irresoluta, perguntando a si própria se não chegara o momento de pôr em prática o seu projecto.
Escutando as histórias dos peregrinos, essas histórias simples e mecânicas para eles, mas cheias de profundo sentido para ela, a princesa Maria, por várias vezes, esteve a ponto de tudo abandonar e de fugir de casa. Em sua imaginação, via-se já com Fiedossiuschka, vestida como ela, de grosseiros andrajos, de bordão em punho e sacola ao ombro, por essas estradas pedregosas, de um lado para o outro, sem ódios nem amores humanos, sem desejos nem invejas, chegando definitivamente onde não há mais dores nem mais suspiros, mas sim a alegria e a beatitude eternas.
«Chegarei a qualquer parte, rezarei, e antes que ganhe amor a esse lugar partirei para outro. Continuarei a andar até que chegue finalmente a esse asilo eterno e sereno onde não há mais tristeza nem dores... », dizia Maria de si para consigo.
Mas mal via o pai, e sobretudo o pequeno Koko, vacilava na sua resolução, chorava às escondidas e reconhecia ser uma pecadora: queria mais ao pai e ao sobrinho do que a Deus.