O Reino De Deus Está Em Vós

O Reino De Deus Está Em Vós

Leon Tolstoi

O Cristianismo Apresentado Não Como Uma Doutrina Mística
Mas Como Uma Moral Nova

PREFÁCIO

Em 1844 escrevi um livro, intitulado Em que consiste a minha fé1, no qual, de fato, expus todas minhas crenças.

1Esta obra foi traduzida e publicada em francês com o título A minha religião.

Manifestando minha maneira de compreender a doutrina do Cristo, não disse por que considero como heresia aquela religião oficial chamada cristianismo.

Esta difere, em minha opinião, daquela de Cristo em muitos pontos, entre os quais constatei, antes de tudo, a supressão do mandamento que nos proíbe opormo-nos ao mal com a força. Mais do que qualquer outro, este desvio de doutrina é uma prova evidente do quanto a igreja oficial havia desnaturado os princípios de Cristo.

Eu, aliás, como tantas outras pessoas, era bem pouco informado sobre o que, nos tempos antigos, fora feito, dito ou escrito a respeito desta tão importante questão: a da não-resistência ao mal.

Sabia, porém, o que disto pensavam os padres da igreja, como Orígenes, Tertuliano e tantos outros. Não ignorava sequer que existiam e existem ainda certas seitas chamadas me-nonitas, hernutos, quakers, que rejeitam o serviço militar e não admitem que os cristãos portem armas. Mas eu sabia tudo isto de forma por demais imperfeita para poder aprofundar e esclarecer por completo este assunto.

Como esperava, meu livro não foi autorizado pela censura russa. Mas, graças talvez a minha fama, graças também, sem dúvida, ao interesse que despertavam estas questões, meu trabalho fez um grande sucesso na Rússia e inúmeras traduções foram feitas no exterior. Isto provocou, assim, interessantes comunicados em apoio a minha tese, além de uma longa série de críticas.

Esse choque de idéias, somado aos últimos acontecimentos históricos, esclareceu-me muitos pontos que haviam permanecido obscuros e me conduziu a novas conclusões, sobre as quais me estenderei dentro em pouco.

Antes de mais nada, direi poucas palavras sobre os comunicados que me foram feitos a respeito da não-resistência ao mal, alongar-me-ei então sobre os comentários que esta questão provocou por parte dos críticos eclesiásticos ou leigos e terminarei com as conclusões que me parecem derivar deste estudo e dos últimos acontecimentos históricos.

CAPÍTULO I

A doutrina da não-resistência ao mal com a violência tem sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do cristianismo

Os primeiros comentários provocados por meu livro foram-me endereçados por quakers americanos. Dando-me ciência de sua absoluta concordância de pontos de vista quanto à ilegitimidade, para o cristão, de qualquer guerra e de qualquer violência, os quakers me comunicaram detalhes interessantes sobre sua seita que, há mais de duzentos anos, pratica a doutrina de Cristo em relação à não-resistência ao mal com a violência. Simultaneamente, enviavam-me seus jornais, folhetos e livros que tratavam desta questão, para eles indiscutível desde há muito, e demonstravam o erro da doutrina da igreja que admite as penas capitais e a guerra.

Após provarem, com uma longa série de argumentos, fundamentados em experiências, que a religião, edificada sobre a concórdia e o amor ao próximo, não poderia admitir a guerra, isto é, a mutilação e o homicídio, os quakers afirmam que nada contribui tanto para obscurecer a verdade do Cristo e impedi-la de se difundir no mundo quanto o não reconhecimento deste princípio por parte dos homens que se dizem cristãos. E mais:

A doutrina de Cristo que penetrou na consciência dos homens não por meio dos ferros nem da violência, mas pela não-resistência ao mal, pela resignação, pela humildade e pelo amor, só pode ser difundida no mundo através do exemplo da concórdia e da paz entre seus seguidores.

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do cristianismo.

A regra da necessidade do Estado não pode obrigar à traição da lei de Deus, exceto para aqueles que, por interesse da vida material, procuram conciliar o inconciliável. Mas para o cristão que crê firmemente que a salvação reside na prática da doutrina de Cristo, esta necessidade não pode ter qualquer importância.

A história dos quakers e o estudo de suas obras, dos trabalhos de Fox e Penn e, sobretudo, dos livros de Dymond () demonstraram-me que a impossibilidade de conciliar o cristianismo com a guerra e a violência foi não apenas reconhecida desde há muito, mas também tão nítida e indiscutivelmente provada, que não se pode compreender esta união impossível da doutrina de Cristo com a violência, que foi e continua a ser pregada pelas igrejas.

Além das informações recebidas dos quakers, obtive na mesma época, e também vindos da América, pormenores de uma fonte, para mim absolutamente desconhecida, a respeito do mesmo assunto. O filho de William Lloyd Harrison, o fa- moso defensor da liberdade dos negros, escreveu-me afirmando que encontrara, em meu livro, as idéias expressas por seu pai em e, supondo que me interessaria constatá-lo, enviou-me o texto de um manifesto ou declaração intitulada "Não- Resistência", escrita por seu pai há mais de cinquenta anos.

Esta declaração originou-se das seguintes circunstâncias: William Lloyd Harrison, em , ao examinar, numa associação americana para o restabelecimento da paz entre os homens, os meios adequados para fazer cessar a guerra, chega à conclusão que a paz universal não se pode erigir senão sobre o reconhecimento público do mandamento da não-resistência ao mal com a violência (Mt ,) em toda sua amplitude, como o praticam os quakers com os quais Harrison mantinha relações de amizade. Chegando a esta conclusão, ele redige e propõe a esta associação a declaração abaixo, que foi subscrita, em , por vários de seus membros:

Declaração de princípios, aceita pelos membros da Sociedade criada para o restabelecimento da paz universal entre os homens.

Boston, .

Nós, abaixo assinados, acreditamos ter o dever, para cono^-co e para com a causa tão cara a nossos corações, para com país em que vivemos e para com o mundo inteiro, de proclamar a nossa fé, expressando os princípios que professamos, a finalidade por nós buscada e os meios que temos intenção de

usar para chegar a uma revolução benéfica, pacífica e geral. Eis os nossos princípios: Não reconhecemos qualquer autoridade humana. Não reconhecemos senão um só rei e legislador, um juiz e líder da humanidade. Nossa pátria é o mundo inteiro; nossos compatriotas são todos os homens. Amamos todos os países como nosso próprio país, e os direitos de nossos compatriotas não nos são mais caros do que os de toda a humanidade. Por isto, não admitimos que o sentimento de patriotismo possa justificar a vingança de uma ofensa ou de um mal feito ao nosso país.

Reconhecemos que o povo não tem o direito de se defender dos inimigos externos, nem de atacá-los. Reconhecemos ainda que os indivíduos isolados não podem ter este direito em suas relações recíprocas, não podendo a unidade ter direitos maiores do que os da coletividade. Se o governo não deve se opor aos conquistadores estrangeiros que visam à ruína de nossa pátria e à des- truição de nossos concidadãos, da mesma forma não pode opor a violência aos indivíduos que ameaçam a tranqüilidade e a segurança públicas. Â" doutrina, ensinada pelas igrejas, de que todos os países da terra são criados e aprovados por Deus, e de que as autoridades, que existem nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia etc. emanam de Sua vontade, não é apenas estúpida.», como. também blasfematória. Esta doutrina representa nosso Criador como um ser parcial, que estabelece e encoraja o mal. Ninguém pode afirmar que as autoridades existentes, em qualquer país que seja, ajam com seus inimigos segundo a doutrina e o exemplo de Cristo. Nem mesmo seus atos podem ser agradáveis a Deus. Não podem, portanto, ter sido estabelecidos por Ele, e devem ser derrubados, não pela força, mas pela regeneração moral dos homens. Não reconhecemos como cristãs e legais não apenas as guerras  ofensivas ou defensivas  mas também as organizações militares, quaisquer que sejam: arsenais, fortalezas, navios de guerra, exercícios permanentes, monumentos comemorativos de vitórias, trofeus, solenidades de guerra, conquistas através da força, enfim, reprovamos igualmente como anticristã qualquer lei que nos obrigue ao serviço militar.

Em conseqüência, consideramos impossível para nós não apenas qualquer serviço ativo no Exército, mas também qualquer função que nos dê a missão de manter os homens no bem pela ameaça de prisão ou de condenação à morte. Excluímo-nos, então, de todas as instituições governamentais, repelimos qualquer política e recusamos todas as honrarias e todos os cargos humanos.

Não nos reconhecendo o direito de exercer funções nas instituições governamentais, recusamos também o direito de eleger para estes cargos outras pessoas. Consideramos que não temos o direito de recorrer à justiça para nos fazer ser restituído o que nos foi tirado e acreditamos que, ao invés de fazer uso da violência, estamos obrigados a "deixar também o manto àquele que nos roubou a veste" (Mt ,).

Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento  olho por olho, dente por dente  foi anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo Testamento, todos os fiéis devem perdoar seus inimigos em todos os casos, sem exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender, mandar para a cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim em vingança.

A história da humanidade está cheia de provas de que a violência física não contribui para o reerguimento moral e de que as más inclinações do homem somente podem ser corrigidas através do amor; de que o mal não pode desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve contar com a força do próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do homem está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a terra e de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.

Por isso, tanto para garantir com mais segurança a vida, a propriedade, a liberdade e a felicidade dos homens, quanto para seguir a vontade d'Aquele que é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, aceitamos de todo o coração o princípio fundamental da não-resistência ao mal por meio do mal, porque acreditamos firmemente que este princípio, que atende a todas as circunstân- cias possíveis da nossa existência e ao mesmo tempo exprime a vontade de Deus, deve finalmente triunfar. Não pregamos uma doutrina revolucionária. O espírito da doutrina revolucionária é um espírito de vingança, de violência e de morte, sem temor a Deus e sem respeito pela personalidade humana, e não queremos nos deixar penetrar senão pelo espírito do Cristo. Nosso princípio

fun-z damental de não-resistência ao mal por meio do mal não nos permite insurreições, nem rebeliões, nem violências. Submetemo-nos a todas as regras e a todas as exigências do governo, exceto àquelas que sejam contrárias aos mandamentos do Evangelho. Não resistiremos de outra forma a não ser submetendo-nos passivamente às punições que poderão ser infligidas devido à nossa doutrina. Suportaremos todas as agressões sem deixar de, pelo nosso lado, combater o mal onde quer que o encontremos, no alto ou embaixo, no terreno político, administrativo ou religioso, e procuraremos atingir, servindo- nos de todos os meios possíveis, a fusão de todos os reinos terrestres num só reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como verdade indiscutível que tudo aquilo que seja contrário ao Evangelho deve ser definitivamente destruído. Acreditamos, como o profeta, que virá um tempo em que as espadas serão transformadas em relhas e as lanças em foices, e que devemos trabalhar sem demora, na medida de nossas forças, para a concretização dessa profecia. Em conseqüência, aqueles que fabricam, vendem ou se servem de armas contribuem para os preparativos da guerra e se opõem pela mesma razão ao poder pacífico do Filho de Deus na Terra.

Após a exposição de nossos princípios, dizemos agora de que modo esperamos alcançar nosso objetivo. Esperamos vencer "por meio da loucura da pregação".

Procuraremos difundir nossas idéias entre todos os homens, pertençam eles a qualquer nação, religião ou classe social. Para tanto, organizaremos palestras públicas, difundiremos programas e opúsculos, constituiremos sociedades e enviaremos petições a todas as autoridades públicas.

Em suma, empenhar-nos-emos, com todos os meios de que dispusermos, para produzir uma revolução radical nas opiniões, nos sentimentos e nos costumes da nossa sociedade, em tudo o que concerne à ilegitimidade da violência contra os inimigos internos ou externos. Empreendendo esta grande obra, compreendemos perfeitamente que nossa sinceridade talvez nos prepare cruéis provações.

Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos, e também à morte. Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados. Uma tempestade se erguerá contra nós. O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode se voltar contra nós. Não foi de outro modo tratado o Messias que procuramos imitar na medida de nossas forças. Mas tudo isto não nos amedronta. Não colocamos nossa esperança nos homens, mas no Nosso Senhor Onipotente. Se recusamos qualquer proteção humana, é porque temos para nos sustentar apenas a nossa fé, mais poderosa do que tudo. Não nos maravilharemos com as provações e ficaremos felizes por haver merecido poder compartilhar dos sofrimentos de Cristo.

Assim, então, entregamos nossas armas a Deus, confiantes em Sua palavra de que aquele que abandonar campos e casas, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos, para seguir Cristo, receberá cem vezes mais e herdará a vida eterna.

Acreditando firmemente, apesar de tudo o que poderia cair sobre nós, no indubitável triunfo, em todo o mundo, dos princípios expostos nesta declaração, aqui pomos nossas assinaturas, confiando no bom senso e na consciência dos homens, mas ainda mais no poder divino, ao qual nos reportamos.

Posteriormente a esta declaração, Harrison fundou a Sociedade da Não- Resistência e uma revista intitulada Não-Resistente, na qual expunha a própria doutrina em toda sua importância e com todas suas conseqüências, tal como for- mulada em sua declaração.

Informações quanto ao destino desta sociedade e desta revista me foram fornecidas pela excelente biografia de W. L. Harrison, em quatro volumes, escrita por seu filho. Nem a sociedade nem a revista tiveram grande duração. A maior parte dos colaboradores de Harrison no trabalho de libertação dos negros renunciou a prosseguir nessa campanha, receando indispor os adeptos da mesma com os princípios radicais da revista; assim, sociedade e revista não tardaram a desaparecer.

Poder-se-ia crer que a profissão de fé de Harrison, de tão grande eloquência, tivesse forçosamente impressionado fortemente o público e, tornando-se conhecida no mundo inteiro, fosse objeto de um profundo exame. Nada de parecido aconteceu. Ela não só é desconhecida na Europa, mas também quase que ignorada pelos americanos

que, entretanto, professam um culto profundo à memória de Harrison.

A mesma indiferença estaria reservada a um outro defensor do princípio da não-resistência ao mal com a violência, o americano Adin Bailou, morto recentemente e que, durante cinquenta anos, lutou por esta doutrina.

Para demonstrar o quanto tudo o que se refere a esta questão é ignorado, citarei o filho de Harrison. À minha pergunta relativa aos adeptos sobreviventes da Sociedade "Não-Resistente", respondeu-me que esta sociedade se havia dissolvido e que não mais existia partidário algum desta doutrina, quanto lhe constava. Ora, no momento em que me escrevia, vivia ainda em Hopedale, Massachusetts, Adin Bailou, que havia colaborado com a obra de Harrison e dedicado cinquenta anos de sua vida à propaganda falada e escrita da doutrina da não-resistência.

Mais tarde, recebi uma carta de Wilson, discípulo e colaborador de Bailou, e entrei em contato com o próprio Bailou. Escrevi; respondeu-me e enviou-me suas obras. Eis um trecho:

Jesus Cristo é meu senhor e meu patrão (disse Bailou em um de seus estudos que demonstra a inconseqüência dos cristãos que admitem o direito de defesa e da guerra).

Prometi abandonar tudo e a Ele seguir até à morte, na alegria ou na dor. Mas sou cidadão da República Democrática dos Estados Unidos, à qual prometi ser fiel e sacrificar minha vida, se for o caso, pela defesa de sua constituição. O Cristo me ordena que faça aos outros aquilo que desejo que seja feito a mim mesmo. A constituição dos Estados Unidos exige de mim que faça a dois milhões de escravos (na época havia escravos, hoje pode-se francamente colocar em seu lugar os operários) exatamente o rnntrárin Ho nne eu costaria aue fosse feito comigo mesmo, isto é, ajudar a mantê-los na escravidão. E isto não me perturba! Continuo a eleger ou a me fazer eleger, ajudo a gerir os negócios do Estado, estou também inteiramente pronto para aceitar qualquer cargo governamental. E isto não me impede de ser cristão! Continuo a praticar a minha religião, não encontro a menor dificuldade de cumprir ao mesmo tempo com meus deveres para com Cristo e o Estado! Jesus Cristo me proíbe resistir àqueles que cometem o mal e arrancar- lhes olho por olho, dente por dente, sangue por sangue, vida por vida.

O Estado exige de mim exatamente o contrário e constrói sua defesa contra os inimigos internos e externos sobre o patíbulo, sobre o fuzil e sobre a espada, e o país é amplamente provido de forças, arsenais, navios de guerra e soldados.

Não existe meio de destruição que pareça caro demais! E achamos muito fácil praticar o perdão das ofensas» amar nossos inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e fazer o bem àqueles que nos odeiam! Temos para isto um clero permanente que reza por nós e invoca as bênçãos de Deus sobre nossas santas carnificinas.

Vejo perfeitamente tudo isto (a contradição entre a doutrina e os atos) e continuo a praticar a minha religião e servir o país, e me glorifico por ser ao mesmo tempo um cristão e um servo devoto e fiel do governo. Não quero admitir esse louco conceito de não-resistência ao mal, não posso renunciar à minha parcela de influência e abandonar o poder apenas aos homens imorais. A constituição diz: "O governo tem o direito de declarar a guerra", e disto estou convencido, e aprovo, e juro ajudá-lo, e nem por isto deixo de ser cristão! Também a guerra é um dever cristão! Não será talvez praticar um ato cristão matar centenas de milhares dos próprios semelhantes, violentar mulheres, destruir e incendiar cidades e cometer toda espécie de crueldade? É tempo de abandonar todo este sentimentalismo pueril! Eis o verdadeiro meio de perdoar as ofensas e amar os nossos inimigos. Porque, sendo feitos em nome do amor, nada é mais cristão do que estes massacres.

Em outro opúsculo, intitulado Quantos homens sâo necessários para transformar um crime num ato justo, diz:

Um homem sozinho não deve matar: se ele matou, é um réu, um homicida. Dois, dez, cem homens, se matarem, serão também homicidas. Mas o Estado ou o povo podem matar, quanto queiram, e seu ato não será um homicídio, e sim uma ação gloriosa. Trata-se somente de reunir o maior número possível de pessoas e a matança de dezenas de homens se transforma numa ocupação inocente. E quantos homens são necessários para isto? Eis a questão. Um indivíduo não pode roubar e saquear, mas um povo inteiro pode.

Por que um, dez, cem homens não devem infringir as leis de Deus, enquanto uma grande quantidade pode? Eis, agora, o catecismo de Bailou, composto para seus fiéis:

CATECISMO DA NÃO-RESISTÊNCIA1

1A tradução [para o russo] foi livre, com algumas omissões.

Pergunta — De onde foi tirada a expressão "Não-Resistência"? Resposta — Da frase: Não resistais ao homem mal. (Mt 5,39) P — O que exprime esta expressão? R — Exprime uma alta virtude cristã ensinada por Cristo.

P — Devemos aceitar a expressão da não-resistência em seu sentido mais amplo, ou seja, que ela significa que não devemos opor qualquer resistência ao mal? R — Não. Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do mal.

P — De onde se deduz que o Cristo tenha ordenado a não-resistência neste sentido? R — Das palavras que ele pronunciou a este respeito: "Ouvistes o que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. E eu vos digo: Não te oporás ao malvado; assim, se alguém te bate na face direita, oferece-lhe a esquerda. Ese alguém quer brigar contigo, e tirar-te o manto, deixa-lhe também a veste." P — De que fala o Cristo ao dizer: "Ouvistes o que foi dito?" R — Dos patriarcas e dos profetas e do que eles disseram e que está escrito no Antigo Testamento que os israelitas chamam geralmente de a Lei e os Profetas.

P — A que mandamento o Cristo faz alusão com as palavras "Vos foi dito"? R — Ao mandamento com o qual Noé, Moisés e outros profetas dão o direito de fazer um mal pessoal àqueles que vos fizeram mal para punir e para suprimir as más ações.

P — Cite estes mandamentos.

R — Quem versa o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue versado (Gn 9,6).

— Quem ferir a outro e causar sua morte será morto.

— Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe (Ex 21,12.23.24.25).

— Se um homem golpear um ser humano, quem quer que seja, deverá morrer.

— Se um homem ferir o próximo, desfigurando-o, como ele fez assim se lhe fará.

— Fratura por fratura, olho por olho, dente por dente (Lv 24,17.19.20).

— Juizes investigarão cuidadosamente. Se a testemunha for uma testemunha falsa, e tiver caluniado seu irmão, então vós a tratareis conforme ela própria maquinava tratar seu próximo.

— Que teu olho não tenha piedade; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé (Dt 19, 18.19 e 21).

Eis os mandamentos de que fala Jesus.

Noé, Moisés e os profetas ensinam que aquele que mata, mutila ou martiriza seu semelhante pratica o mal.

Para se opor a este mal e para suprimi-lo, querem que aquele que o praticou seja punido com a morte, com a mutilação ou com qualquer outro castigo. Querem pagar ofensa com ofensa, homicídio com homicídio, sofrimento com so- frimento, o mal com o mal. Mas Cristo desaprova tudo isto. "Eu vos digo não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se deveis suportá- la novamente" — escreve ele no Evangelho. O que era lícito está proibido. Tendo compreendido que gênero de resistência ensinavam Noé, Moisés e os profetas, sabemos igualmente o que significa não-resistência ensinada por Cristo.

P — Admitiam os antigos a resistência à ofensa com a ofensa? R — Sim, mas Jesus a proibiu. O cristão não tem em caso algum o direito de tirar a vida ou de atingir com um castigo aquele que lhe fez mal. P — Pode ele matar ou ferir para se defender? R — Não.

P — Pode ele levar acusações diante dos tribunais para obter a punição do ofensor? R — Não, porque o que ele faz por intermédio dos outros é o que realmente faz.

P — Pode ele combater um exército contra os inimigos de fora ou contra os rebeldes internos? R — Não, é claro. Ele não pode tomar qualquer parte na guerra, nem mesmo na

organização da guerra. Não pode usar armas mortais, não pode resistir à ofensa com a ofensa, seja sozinho ou unido a outros, aja por si ou por intermédio dos outros.

P — Pode ele, voluntariamente, reunir e armar soldados para o serviço do Estado? R — Ele não pode fazer nada disto, se quiser ser fiel às leis do Cristo.

P — Pode ele, com benevolência, dar dinheiro ao governo que ésustentado pelas forças armadas, pela pena de morte e pela violência? R — Não, a menos que este dinheiro não se destine a um objetivo em especial, justo por si mesmo e cujos fins e meios sejam bons.

P — Pode ele pagar impostos a tal governo? R — Não, ele não deve voluntariamente pagar impostos; mas não deve resistir ao recolhimento de impostos. O imposto decretado pelo governo é recolhido independentemente da vontade de contribuintes. O homem não pode escapar dele sem recorrer à violência, e o cristão, não podendo usar de violência, deve abandonar a sua propriedade às arrecadações do poder.

P — Pode um cristão ser eleitor, juiz ou agente do governo? R — Não, a participação nas eleições, na justiça, na administração, nos faz participar da violência governamental.

P — Qual a principal virtude da doutrina da não-resistência? R — A possibilidade de cortar o mal pela raiz em nosso próprio coração, assim como no de nossos semelhantes. Esta doutrina reprova o que perpetua e multiplica o mal no mundo. Aquele que ataca seu próximo ou que o ofende provoca sentimentos de ódio, origem de todo o mal. Ofender o próximo porque ele nos ofendeu, com o propósito de repelir o mal, é reprovar uma má ação, é despertar ou pelo menos liberar, encorajar o demónio que pretendemos repelir. Satanás não pode ser expulso por Satanás, a mentira não pode ser purificada pela mentira, e o mal não pode ser vencido pelo mal.

A verdadeira não-resistência é a única resistência ao mal. Ela degola o dragão. Destrói efaz desaparecer por completo os maus sentimentos.

P — Mas, se a idéia da doutrina é justa, ela é, afinal, exequível? R — Tão exequível como todo bem ordenado pela Sagrada Escritura. O bem, para ser feito em qualquer circunstância, exige renúncia, privações, sofrimentos e, em casos extremos, o sacrifício da própria vida. Mas aquele que preza mais sua vida do que o cumprimento da vontade de Deus já está morto para a única vida verdadeira. Tal homem, querendo salvar sua vida, perdê-la-á. Ademais, em geral, onde a não-resistência requer o sacrifício de uma só vida ou de alguma felicidade essencial à vida, a resistência requer milhares de sacrifícios semelhantes. A não- resistência conserva, a resistência destrói. ___ É muito menos perigoso agir com igualdade do que com injustiça, suportar a ofensa do que resistir a ela com violên-i cia. Em nossa vida atual, isto é também mais seguro. Se toJ dos os homens se abstivessem de resistir ao mal com o mah a felicidade reinaria sobre a terra.

P — Mas, se somente alguns agissem deste modo, o que seria deles? R — Ainda que um só homem agisse assim e que todos os outros concordassem em crucificá-lo, não seria mais glorioso para ele morrer pelo triunfo do amor do que viver e carregar a coroa dos Césares encharcada com o sangue dos imolados? Mas, fosse um só homem ou fossem mil homens a haver decidido não resistir ao mal com o mal, estivesse ele entre os bárbaros ou entre os selvagens, estaria muito mais livre da violência do que com aqueles que se apoiam na vio- lência. O bandido, o assassino, o ladino deixá-lo-iam em paz, dando preferência aos que resistem com armas.

Aquele que golpeia com a espada perecerá pela espada, enquanto aqueles que buscam a paz, que vivem irmãmente, que perdoam e esquecem as ofensas desfrutam habitualmente de paz durante a vida e são abençoados após a morte.

Se, então, todos os homens observassem o mandamento da não- resistência, não haveria mais ofensa, nem delito. Se, por pouco que fosse, eles fossem a maioria, estabeleceriam logo o poder do amor e da benevolência também sobre os ofenso-res, sem nunca usar de violência. Se fossem apenas uma minoria importante, sempre exercitariam uma tal ação mora-lizadora e regeneradora sobre a humanidade que todos os castigos cruéis seriam anulados; a violência e o ódio cederiam lugar à paz e ao amor. E ainda que não fossem senão uma pequena minoria, raramente teriam que sofrer algo pior do que o desprezo do mundo, e entretanto o mundo, sem se aperceber e sem ser agradecido, tornar-se-ia progressivamente melhor e mais sábio, em conseqüência

da influência dessa pequena minoria oculta. Mesmo admitindo que alguns membros dessa minoria fossem perseguidos até a morte, estas vítimas da ver- dade deixariam atrás de si a sua doutrina já consagrada pelo sangue do martírio.

A paz esteja com aqueles que procuram a paz, e que o amor vencedor permaneça a herança imorredoura de todas as almas que se submetem livremente à lei de Cristo! Não resistir ao mal com a violência.

ADIN BALLOU

Durante cinquenta anos, Bailou escreveu e publicou livros que se referiam sobretudo à não-resistência. Nessas obras, notáveis pela lucidez de pensamento e pela beleza do estilo, a questão é examinada sob todos os ângulos possíveis. Ele faz da observância deste mandamento um dever para todo o cristão que crê na Bíblia como em uma revelação divina. Passa em revista todas as objeções... tanto as tratadas no Antigo e no Novo Testamentos — como, por exemplo, a expulsão dos mercadores do Templo — quanto as independentes da Escritura, e as refuta vitoriosamente, mostrando o sentido prático da não-resistência. Assim, um capítulo inteiro de sua obra é dedicado ao exame de casos especiais. Reconhece que só um caso, no qual a não-resistência não pudesse ser admitida, bastaria para provar a falsidade desta regra. Mas, examinando essas ocasiões excepcionais, demonstra que exatamente então é útil e sábio conformar-se a este preceito. Digo tudo isto para melhor mostrar o interesse evidente que têm esses trabalhos para os cristãos. Pareceria que devessem conhecer a missão de Bailou e ter admitido ou refutado os princípios. Mas não é assim.

Mais ainda do que meu relacionamento com os quakers, a obra de Harrison, a Sociedade da Não-Resistência por ele fundada e sua declaração provaram-me que desde há muito foi constatada a derrogação do cristianismo do Estado à lei de Cristo sobre a questão de não se opor ao mal com a violência e que muitas pessoas trabalharam e trabalham ainda para demonstrar esta evidência. Bailou confirmou-me ainda mais esta opinião. Mas o destino de Harrison e sobretudo o destino de Bailou, desconhecido por todos, apesar dos cinquenta anos de trabalho obstinado e incessante, convenceram-me de que existe uma espécie de conspiração do silêncio, tácita, mas formal, contra todas estas tentativas.

Bailou morreu em agosto de 1890, e um jornal americano que traz um título cristão (Religio-philosophical Journal — August 23) dedicou-lhe um artigo necrológico. Nessa oração fúnebre laudatória foi dito que Bailou era o chefe espiritual da comunidade, que pronunciou de oito a nove mil sermões, uniu em matrimónio mil casais e escreveu cerca de quinhentas artigos e estudos, mas nem uma só pala- vra foi pronunciada a respeito da missão à qual dedicou sua vida. Nem a palavra não- resistência foi mencionada.

Como tudo o que pregam os quakers há duzentos anos, como a obra de Harrison, sua declaração, a fundação de sua sociedade e de sua revista, parece que também os trabalhos de Bailou nunca existiram.

Como exemplo admirável desta ignorância das obras que visam explicar a não- resistência e confundir aqueles que não reconhecem este mandamento, pode-se citar o destino do livro do tcheco Kheltchitsky, que só recentemente foi conhecido e ainda não publicado.

Pouco depois da publicação da tradução alemã de meu livro, recebi uma carta de um professor da Universidade de Praga, que me dava a conhecer a existência de uma obra inédita do tcheco Kheltchitsky, do século XV, intitulada^ rede da fé. Nessa obra, dizia-me o professor, Kheltchitsky expressou, há quatro séculos, a propósito do cristianismo verdadeiro ou falso, as idéias expressas em meu livro A minha religião. Acrescentava meu correspondente que a obra de Kheltchitsky estava prestes a ser pu- blicada pela primeira vez, em língua tcheca, nas memórias da Academia de Ciências de Pittsburg. Não conseguindo obter esta obra, procurei tudo o que era sabido a respeito de Kheltchitsky e recolhi algumas informações em um livro alemão, que me foi aconselhado pelo mesmo professor de Praga, a História da literatura tcheca, de Pypine. Eis o que diz este último:

A rede da fé é a doutrina do Cristo que deve tirar o homem das obscuras profundezas do oceano da vida e de suas mentiras. A verdadeira fé está na crença das palavras de Deus, mas houve um tempo em que os homens consideravam a verdadeira fé uma heresia. É por este motivo que a razão deve mostrar em que consiste a verdade, se alguém a ignora. A noite a ocultou dos homens. Estes não mais reconhecem a verdadeira lei do Cristo.

Para explicar esta lei, Kheltchitsky lembra a organização primitiva da sociedade cristã, organização que hoje seria, diz ele, considerada pela igreja romana como uma terrível heresia.

Esta igreja primitiva foi o ideal da organização social baseada na liberdade, na igualdade e na fraternidade, que são até hoje, segundo Kheltchitsky, os fundamentos do cristianismo. Se a sociedade voltasse à sua doutrina pura, a existência dos reis e dos papas tornar-se-ia inútil: a lei única do amor bastaria para a ordem social.

Historicamente, Kheltchitsky faz começar a decadência do cristianismo no tempo de Constantino Magno, que o papa Silvestre induziu a abraçar o cristianismo sem fazê-lo renunciar aos princípios e costumes pagãos. Constantino, por sua vez, deu ao papa a riqueza e o poder temporal. Desde aquele tempo os dois poderes reuniram seus esforços e visaram somente ao desenvolvimento de sua grandeza material.

Os doutores, os sábios e os padres não mais pensaram em outra coisa senão em subjugar o mundo e em armar os homens uns contra os outros, para a matança e o roubo. Eles fizeram desaparecer para sempre a doutrina evangélica da religião e da vida.

Kheltchitsky repele totalmente o direito da guerra e das execuções capitais; todo guerreiro, ainda que "cavalheiro", nada mais é do que um assassino e um bandido.

O mesmo é dito no livro alemão, que contém além disso algumas particularidades biográficas e muitas citações da correspondência de Kheltchitsky. Ciente, então, em que consistia a doutrina de Kheltchitsky, esperei com ansiedade a publicação de A Rede da fé nas memórias da Academia. Mas, passou-se um ano, depois dois, e três, sem que a obra viesse a público. Só em 1888 soube que a edição, já iniciada, havia sido suspensa. Obtive as provas de tudo o que já havia sido composto e encontrei uma obra estupenda em cada parágrafo.

Essa obra foi muito bem resumida por Pypine. A idéia fundamental de Kheltchitsky é que o cristianismo, unindo-se ao poder sob Constantino e continuando a desenvolver-se nessas condições, corrompeu-se por completo e deixou de ser o cristianismo. O título de A Rede da fé foi dado por Kheltchitsky a seu livro porque, havendo usado como epígrafe o versículo do Evangelho que conclamava os discípulos a se tornarem pescadores de homens, ele dá sequência a esse paralelo e diz: "Cristo, por meio de seus discípulos, envolveu o mundo inteiro na 'Rede da fé'; mas os peixes grandes, tendo rasgado as malhas da rede, escaparam, e pelo buraco que fizeram pas- saram também os peixes pequenos, de modo que a rede ficou quase vazia." Os peixes grandes que rasgaram a rede são os governantes: imperadores, papas, reis, que, sem abandonar o poder, aceitaram não o cristianismo, mas sua aparência.

Kheltchitsky ensina a doutrina que foi e é até hoje pregada pelos "não- resistentes", pelos menonitas, pelos quakers e, no tempo antigo, pelos bogomilos, pelos paulicianos e por tantos outros. Ele ensina que o cristianismo, que exige de seus adeptos a resignação, a submissão, a doçura, o perdão das ofensas, que se ofereça a face direita àquele que bateu na esquerda e o amor aos inimigos, não pode se conciliar com a violência, a condição essencial do poder. *»* O cristão, segundo Kheltchitsky, não só não pode ser comandante ou soldado, mas não pode sequer fazer parte de qualquer administração; não pode ser comerciante nem proprietário de terras: não pode ser senão um artesão ou agricultor.

Esse livro é uma das raras obras que escaparam aos autos-de-fé, entre as que fustigaram o cristianismo oficial, e é isto que o torna tão interessante.

Mas, além de seu interesse, esse livro, de qualquer ponto de vista que o examinemos, é um dos mais notáveis produtos do pensamento, tanto pela profundidade das opiniões, como pela extraordinária energia e pela beleza da linguagem popular na qual é escrito. E, no entanto, esse livro permanece como manuscrito há mais de quatro séculos e continua a ser ignorado por todos, exceto pelos especialistas.

Seria de esperar-se que esse tipo de obra — a dos quakers, de Harrison, de Bailou, de Kheltchitsky — que afirmam e demonstram, tomando por base o Evangelho, que o mundo entende mal a doutrina do Cristo, provocasse o interesse, a agitação, o murmúrio, as discussões, tanto entre os pastores quanto entre as ovelhas. Referindo-se à própria essência da doutrina cristã, essas obras deveriam ser examinadas e reconhecidas como justas, ou então refutadas e rechaçadas. Mas isto não acontece.

O mesmo fato se repete em relação a todas essas obras. Pessoas com as mais diversas opiniões, tanto os fiéis como — e isto é surpreendente — os livres- pensadores, todos parecem haver-se passado uma palavra de ordem de silenciar a seu respeito, e tudo aquilo que os homens fazem para explicar o verdadeiro sentido da doutrina do Cristo permanece oculto ou esquecido.

Entretanto, ainda mais surpreendente é a obscuridade na qual permaneceram duas obras, de cuja existência só tomei conhecimento quando da publicação de meu livro. São elas a obra de Dymond, On War (Sobre a guerra), publicada pela primeira vez em Londres em 1824, e a obra de Daniel Musser, Sobre a não-resistência, escrita em 1864. É verdadeiramente estranho que estas obras tenham permanecido desconhecidas, porque, sem falar de seu valor, tratam tanto de teoria da não- resistência, quanto de sua aplicação prática na vida e do cristianismo em suas relações com o serviço militar; o que, hoje, é sobremaneira importante devido ao serviço militar obrigatório.

Perguntar-se-á, talvez, qual deva ser a atitude daquele cuja religião é inconciliável com a guerra, mas de quem o governo exige o serviço militar? Esta pergunta parece essencial, e o serviço militar obrigatório confere à resposta uma importância especial. Todos ou quase todos os homens cristãos e todos os homens adultos são chamados às armas. Como pode então um homem, na qua- lidade de cristão, responder a essa exigência? Eis o que responde Dymond:

Seu dever é recusar, com doçura, mas firmemente, o serviço militar