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O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

O escritor francês, hoje esquecido, Alphonse Karr disse em algum lugar, querendo provar a impossibilidade da supressão da pena de morte: "Que os senhores assassinos comecem por nos dar o exemplo." Muitas vezes ouvi repetir esta sutileza por homens que pensavam exprimir com estas palavras um argumento convincente e perspicaz contra a supressão da pena de morte. Entretanto, não se pode encontrar melhor argumento contra a violência dos governos.

“Que os senhores assassinos comecem por nos dar o exemplo", dizem os defensores da violência governamental. Mas os assassinos dizem o mesmo, e com mais razão. Dizem eles: "Aqueles que aceitaram a missão de instruir-nos, de guiar-nos, mostrem-nos o exemplo, abolindo o assassinato legal, e nós o seguiremos." E assim dizem com grande seriedade, porque esta é a verdadeira situação.

"Não podemos deixar de recorrer à violência porque estamos cercados por violentos." Nada, além deste falso raciocínio, impede o progresso da humanidade e o advento do regime que corresponde a seu desenvolvimento moral atual.

Os que possuem o poder estão convencidos de que apenas a violência guia os homens; por isso a usam para a manutenção da ordem vigente. Ora, esta ordem é mantida não em virtude da violência, mas em virtude da opinião pública, cuja ação está comprometida pela violência. Por isso a ação da violência enfraquece exatamente aquilo que se quer manter.

No melhor dos casos, a violência, se não tem em mira o único objetivo pessoal dos homens que se encontram no poder, condena com a única forma imóvel da lei aquilo que de há muito e por muitas vezes foi condenado pela opinião pública, mas com a diferença que, enquanto a opinião pública reprova todas as ações contrárias à lei moral, a lei, mantida pela violência, não reprova e não condena senão uma catego- ria muito restrita de ações, parecendo assim justificar todas as ações da mesma ordem não englobadas em sua fórmula. Já desde os tempos de Moisés, a opinião pública considera a cobiça, a desonestidade e a crueldade como culpas e reprova-as. Reprova também qualquer gênero de manifestações de cobiça, não só a apropriação dos bens alheios pela violência ou pela astúcia, mas também o gozo cruel das riquezas; reprova toda espécie de depravação, seja cometida com a amante, com a escrava, com uma mulher divorciada ou com a própria esposa; reprova qualquer crueldade, pancadas, maus-tratos, matanças, não só de homens, mas também de animais. Ao contrário, a lei calcada na violência condena somente alguns casos de cobiça, como o furto, a fraude e certos casos de desonestidade e crueldade, como a traição conjugal, o assassinato e as sevícias, e parece até mesmo autorizar todos os casos de cobiça, desonestidade e crueldade que não entram em sua restrita definição. Mas, além de corromper a opinião pública, a violência faz ainda nascer nos homens a funesta convicção de que progridem, não sob o impulso da força espiritual que os impele para o conhecimento da verdade e sua realização na vida, mas por meio da violência, isto é, por meio daquilo que, ao invés de aproximá-los da verdade, afasta- os. Este erro é funesto pelo fato de que conduz os homens a desprezar o principal fator de sua vida — a ação espiritual — e fixa toda sua atenção e toda sua energia sobre a ação violenta externa, geralmente nociva.

Este erro é semelhante àquele que cometeriam os homens que, para movimentar uma locomotiva, girassem as rodas com a força dos braços, sem suspeitar que a causa fundamental de seu movimento é a dilatação do vapor e não o movimento das rodas. Os homens que quisessem girar as rodas pela força dos braços ou de'alavancas não produziriam senão uma aparência de movimento, estragando inclusive as rodas e impedindo, assim, a possibilidade do verdadeiro movimento.

Diz-se que a vida cristã não se pode estabelecer sem violência, porque existem povos selvagens na África, na Ásia (alguns apresentam também os chineses como uma ameaça a nossa civilização), e porque existem na sociedade, segundo a nova teoria de hereditariedade, delinqüentes natos, selvagens e corruptos.

Mas estes selvagens, que estão dentro e fora das sociedades cristãs, nunca foram submetidos à violência e não o são hoje. Os povos nunca submeteram os outros povos unicamente pela violência. Se o povo que submete outro fosse menos civilizado, não introduziria pela violência sua ordem social mas, ao contrário, submeter-se-ia ele próprio à ordem do povo conquistado.

Quando povos inteiros se submetiam a uma nova religião, tornavam-se cristãos ou maometanos, esta transformação realizava-se não porque era dita obrigatória pelos homens que tinham o poder (a violência agia muitas vezes num sentido completamente oposto), mas porque esta era a conseqüência da opinião pública; pois, ao contrário, os povos que foram forçados a abraçar a religião dos vencedores tornaram-se-lhe refratários.

O mesmo fato repete-se com os elementos selvagens que vivem entre nós: nem o aumento nem a diminuição das severidades penais, nem as modificações originadas do aprisionamento, nem o reforço da polícia diminuem ou aumentam o número de delitos; ele apenas decresce como conseqüência da evolução dos costumes. Nenhuma severidade fez desaparecer os duelos e as vinganças. Apesar do grande número de cossacos condenados à morte por furto, estes continuavam a roubar para vangloriar- se, porque nenhuma jovem desposaria um cossaco que não tivesse dado provas de audácia roubando um cavalo ou ao menos um carneiro. Se os homens de nossa so- ciedade deixarem de duelar e os cossacos de roubar, não será por temor ao castigo, mas porque os costumes estarão modificados. O mesmo pode ser dito dos outros delitos. A violência nunca poderá fazer desaparecer o que faz parte dos costumes. Pelo contrário, bastaria que a opinião pública se opusesse francamente à violência para torná-la impossível. O que aconteceria se a violência não fosse empregada contra os inimigos externos e contra os elementos criminosos da sociedade? Não o sabemos. Mas sabemos, por longa experiência, que o uso da violência não serviu para domar uns aos outros. Como, de fato, sujeitar pela força os povos cuja educação, tradições, a própria religião conduzem a ver a virtude mais alta na luta contra os opressores e no amor à liberdade? E como suprir pela violência, em nossa sociedade, atos considera- dos como delitos pelos governos e como atos louváveis pela opinião pública? A única força que tudo dirige e à qual obedecem os indivíduos e os povos foi sempre a da opinião pública, essa potência impalpável, que é o resultado de todas as forças morais de um povo ou de toda a humanidade.

A violência só enfraquece essa potência, a diminui, a desvirtua e a substitui por outra, absolutamente nociva ao progresso da humanidade.

Para submeter ao cristianismo os selvagens do mundo não-cristão — todos os zulus, os manchus, os chineses, que muitos consideram selvagens — e os selvagens que vivem entre nós, só existe um método: a propagação, entre estes e aqueles, dos costumes cristãos que não podem ser difundidos a não ser pelo exemplo. Ora, para que o cristianismo se imponha àqueles que lhe são rebeldes, os homens de nosso tempo fazem exatamente o contrário do que deveriam.

Para converter ao cristianismo os povos selvagens que nos atacam e que não temos motivo algum para oprimir, deveremos, antes de tudo, deixá-los tranquilos e não agir sobre eles senão com o exemplo das virtudes cristãs: a paciência, a doçura, a abstinência, a pureza, a fraternidade, o amor. Em vez disso, apressamo-nos a estabelecer em seu território novos mercados para o nosso comércio; espoliamo-los, apoderando-nos de suas terras; corrompemo-los, vendendo-lhes álcool, taba-ópio, e exportamos para seu meio nossos costumes, ensinando-lhes a violência e novos meios de destruição. Numa palavra, a eles ensinamos somente a lei da luta animal, abai-o da qual o homem não pode descer, e cuidamos de ocultar e seus olhos tudo o que pode haver de cristão em nós. Depois, mandamo-lhes duas dúzias de missionários, que lhes vão dizer idiotices hipócritas, e damos, como prova irrefutável da impossibilidade de adaptar as verdades cristãs à vida prática estas experiências de conversão.

O mesmo acontece em relação àqueles que chamamos de delinqüentes e que vivem entre nós. Para que o cristianismo se imponha a estes homens, existe uma só maneira: a opinião pública cristã que não se pode propagar entre eles senão com a única doutrina verdadeira confirmada pelo exemplo. E, para pregar esta doutrina cristã e afirmá-la por meio de um exemplo cristão, temos as prisões, as guilhotinas, as forcas, os suplícios; degradamos o povo com religiões idólatras; embrutecemo-lo com a venda governamental do veneno — álcool, tabaco, ópio; organizamos até a prostituição; damos terra aos que dela não necessitam; ostentamos um luxo insensato em meio à mais cruel miséria; tornando assim impossível qualquer aparência de costumes cristãos, dedicamo-nos com zelo a destruir as idéias cristãs já estabelecidas, então, quando houvermos corrompido os homens, encerrá-los-emos como animais ferozes em locais dos quais não poderão fugir e onde se tornarão mais selvagens, ou os matamos. E servimo-nos deles como exemplos para provar que não se pode agir sobre os homens senão com a violência brutal.

Da mesma forma os médicos ignorantes, após haver colocado o doente num Estado de total anti-higiene, ou haver-lhe administrado remédios que o matam, afirmam que morreu devido à doença, enquanto ter-se-ia curado se o tivessem deixado em paz.

A violência, que nos é mostrada como sustentáculo da ordem da vida cristã, impede, ao contrário, que a ordem social seja a que deveria ou poderia ser. Esta é da forma como a vemos não graças às violências, mas apesar das violências.

Por isso os defensores da ordem atual estão errados ao dizer que, se a violência é suficiente para nos preservar dos maus elementos e dos não-cristãos da humanidade, sua substituição pela influência moral da opinião pública deixar-nos-ia sem defesa contra seus ataques.

Isto não é exato, porque a violência não protege a humanidade, aliás, priva-a da única proteção possível: a difusão do princípio cristão.

Mas como suprimir a proteção visível do guarda armado, para confiar em algo impalpável: a opinião pública? Acaso ela existe? E a ordem atual nos é conhecida; boa ou má, conhecemos seus defeitos e a eles estamos habituados. Sabemos como nos comportar e o que devemos fazer nas circunstâncias atuais; mas, o que acontecerá quando renunciarmos a esta ordem e nos entregarmos a algo totalmente desconhecido? Os homens temem este desconhecido no qual entrariam se renunciassem à atual ordem de vida conhecida. Sem dúvida, é bom temer o desconhecido, quando nossa situação conhecida é boa e segura; mas este não é o caso e sabemos, sem margem de dúvida, que estamos à beira do abismo.

Se é preciso ter medo, temos medo daquilo que é verdadeiramente temível e não daquilo que suspeitamos o ser.

Receando fazer esforços para sair de uma ordem que nos é prejudicial — unicamente porque o futuro nos parece duvidoso — parecemo-nos com os passageiros de um navio prestes a afundar que tivessem medo de descer para o barco salva-vidas e se trancassem em suas cabines, delas não querendo sair; ou com um rebanho de carneiros que, atemorizados com o incêndio no estábulo, amontoam-se num canto e se recusam a sair pela porta aberta.

Podemos, talvez, às vésperas da guerra social espantosa e letal, em comparação com a qual, como dizem os que a estão preparando, os horrores da guerra de 1893* serão brincadeiras infantis, falar do perigo que nos ameaça por parte dos daomea-nos, dos zulus etc, tão distantes de nós e que sequer pensam em atacar-nos, ou do que representam para a sociedade alguns milhares de homens por nós mesmos corrompidos, malfeitores, ladrões, assassinos, que nossos tribunais, nossas prisões e nossos suplícios não tornarão menos numerosos? *Tolstoi refere-se à Guerra Franco-tailandesa. (TV. do E.)

Ademais, o medo de suprimir a defesa visível do guarda é um medo próprio dos citadinos, ou seja, de gente que vive em condições anormais e artificiais. Aquele que vive em condições normais, não nas cidades, mas em meio à natureza, e que com ela lutam, não precisam desta proteção e sabem quão pouco a violência nos protege contra os perigos reais que nos rodeiam. Existe, neste temor, algo mórbido que provém sobretudo das condições artificiais nas quais vive e cresce a maioria de nós.

Um médico alienista contava que, num dia de verão, saindo do hospício, os loucos acompanharam-no até a porta da rua. Então, disse-lhes: "Venham à cidade comigo!" Os doentes concordaram e uma pequena comitiva o seguiu. Porém, quanto mais avançavam, em meio ao livre movimento dos homens sãos, mais se intimidavam e se agrupavam ao redor do médico. Finalmente, pediram todos para retornar ao hospício, a seu modo de viver insensato, mas habitual, a seu vigia, às surras, à camisa-de-força, às celas.

Da mesma forma, agrupam-se e desejam voltar a seu antigo modo de vida, às suas fábricas, aos tribunais, às prisões, aos suplícios, às guerras os homens que o cristianismo conclama à liberdade, à vida do futuro, livre e racional.

Pergunta-se: qual será a garantia de nossa segurança quando a ordem social vigente houver desaparecido? Por que nova ordem será ela substituída? Enquanto não o soubermos, não iremos adiante.

Dir-se-ia a declaração de um explorador de um país desconhecido, solicitando uma descrição pormenorizada da região a percorrer.

Se o futuro de um indivíduo isolado, no momento de sua passagem de uma idade para outra, lhe fosse inteiramente conhecido, ele não mais teria razão para viver; assim é para a humanidade: ter um programa de vida que a espera à entrada de uma nova era seria o mais seguro indício de que não vive, não se move, mas agita-se sempre no mesmo lugar.

As condições da nova ordem não podem ser conhecidas, porque devem ser, exatamente, criadas por nós mesmos. A vida reside, precisamente, na busca do desconhecido e na subordinação da ação aos conhecimentos recentemente adquiridos.

Esta é a vida de cada indivíduo, e a vida de toda a humanidade.

CAPÍTULO XI

O conceito cristão da vida nasce em nossa sociedade e infalivelmente destrói a ordem de nossa vida calcada na violência

A situação da humanidade cristã, com suas prisões, trabalhos forçados, patíbulos, oficinas, concentração das riquezas, impostos, igrejas, tabernas, casas públicas, armamentos sempre crescentes e os milhões de homens embrutecidos, prontos, como cães, a se lançarem sobre aqueles contra os quais o patrão os incita, seria terrível se fosse só produto da violência; mas esta situação é, também, e sobretudo, produto da opinião pública. Ora, aquilo que é estabelecido pela opinião pública pode ser por ela destruído.

Números que somam centenas de milhares, dezenas de milhões de homens disciplinados, armas de destruição de uma força inaudita, uma organização levada ao mais alto grau de perfeição, uma legião de homens encarregados de enganar e hipnotizar o povo, e tudo isto sujeito, graças à eletricidade que suprime a distância, a homens que consideram esta organização vantajosa para eles e sabem que, sem ela, desapareceriam: que força invencível parece! Bastaria, entretanto, ver para onde fatalmente vamos, bastaria que os homens tivessem vergonha de participar da violência e aproveitar-se dela, como têm vergonha das fraudes, do furto, da mendicância, da covardia, para que, de repente, por si só, sem luta alguma, desaparecesse esta ordem que parece tão complicada e poderosa. E, por isto, é inútil que algo de novo penetre na consciência humana, é preciso apenas que se disperse a névoa que oculta dos homens o verdadeiro significado de certos atos de violência; a opinião pública e os costumes cristãos que se desenvolvem, absorvem os costumes pagãos que permitiam e justificavam a violência, mas cujo tempo chega ao fim. E este progresso se faz lentamente. Mas nós não o vemos, como não vemos o movimento quando giramos, e com nós, tudo o que nos rodeia.

É verdade que a ordem social, em seus aspectos principais, traz ainda o mesmo caráter de violência que possuía há mil anos e até pior, sob certos aspectos, como os armamentos e as guerras, mas a opinião pública cristã, expandindo-se, já principia sua ação. A árvore seca parece sólida como antes, aliás parece ainda mais sólida porque endureceu, mas seu tronco torna-se oco e sua queda está próxima. Assim ocorre com a atual ordem social, calcada na violência. O aspecto externo permanece o mesmo — os mesmos opressores, os mesmos oprimidos — mas mudaram seus pontos de vista sobre suas respectivas situações.

Os homens que oprimem, aqueles que participam da administração, e os homens que se aproveitam da opressão, isto é, os ricos, não mais constituem a flor da sociedade e não mais oferecem o ideal de felicidade e grandeza para o qual se inclinavam antes todos os oprimidos.

Hoje, são os opressores que, muitas vezes, abandonam voluntariamente as vantagens de sua situação pela dos oprimidos e procuram igualá-los quanto à simplicidade de sua vida.

Sem falar das profissões já desprezadas como de espião, agente da polícia secreta, usurário, taverneiro, há ainda um grande número delas, antes levadas em consideração, como as de policiais, de cortesãos, de juizes, de funcionários administrativos, eclesiásticos ou militares, de empreiteiros, de banqueiros, que são hoje consideradas pouco invejáveis e até reprovadas por pessoas mais respeitáveis. Existem homens que abandonam voluntariamente estas funções outrora invejadas, por postos menos lucrativos, mas não ligados à violência.

Não são apenas as autoridades que renunciam a seus privilégios, mas também as não-autoridades ricas. Vêem-se algumas que, já obedecendo à influência da opinião pública nascente e não, como antes, a um sentimento religioso, abandonam os bens havidos como herança, considerando justos apenas os conquistados com o trabalho.

Os jovens mais dotados, na idade em que, ainda não tendo sido corrompidos pela vida, escolhem uma carreira, preferem as trabalhosas profissões de médico, engenheiro, professor, artista, escritor ou até, simplesmente, de proprietário rural que vive do próprio trabalho, às posições de juiz, administrador, padre, militar, pagas pelo governo, ou às dos homens que vivem de renda. A maioria dos monumentos é hoje erguida não mais a homens de Estado, a generais e muito menos a homens ricos, mas a artistas, sábios, inventores, homens que, longe de ter algo em comum com o governo, muitas vezes lutaram contra ele. A poesia e as artes glorificam sobretudo estes últimos.

Assim, a classe dos homens de governo, e dos ricos, torna-se cada dia menos numerosa e de nível moral bem mais baixo. De tal modo que, a julgar pela inteligência, pela instrução e sobretudo pela moralidade, não são mais, como outrora, a flor da sociedade, muito pelo contrário.

Na Rússia e na Turquia, como na América e na França, apesar das frequentes mudanças de autoridades, a maior parte destas é ávida, venal, e tão pouco recomendável do ponto de vista moral, que não satisfaz às mais elementares exigências de honestidade exigidas pelo povo. Assim, ouvem-se várias vezes as ingénuas lamúrias dos governos que se maravilham de ver os melhores dentre nós, por razões que lhes parecem estranhas, sempre no campo da oposição. Seria como lamentar que, por estranhas razões, a profissão de carrasco não seja aceita por gente civil e boa.

Tampouco, entre os ricos, encontra-se hoje a maioria dos homens superiores da sociedade.

Os ricos não são senão grosseiros especuladores de dinheiro, que não têm outra preocupação além de aumentar as próprias riquezas, em geral por expedientes impuros, ou os herdeiros degenerados destes especuladores que, longe de representar um papel importante na sociedade, inspiram o desprezo geral.

Muitas situações perderam sua antiga importância. Reis e imperadores nada mais dirigem; estes quase nunca se decidem a introduzir modificações internas ou a mudar a política externa. Ademais, abandonam a solução destas questões a alguma instituição governamental e à opinião pública. Todos seus deveres reduzem-se a ser os representantes da unidade e de sua potência. E cumprem este dever sempre de forma pior do que antes. A maioria dos chefes de Estado não só não conserva sua antiga majestade inacessível, como até se democratiza cada vez mais e também se envilece, destruindo seu último prestígio, ou seja, exatamente o que se espera que mantenha.

O mesmo acontece com os militares. O alto funcionário militar, ao invés de encorajar, entre os soldados, a rudeza e a ferocidade necessárias a sua obra, propaga ele próprio a instrução no exército, prega a humanidade e, frequentemente, participando das convicções socialistas das massas, nega a utilidade da guerra. Na última conspiração contra o governo russo, muitos dentre os participantes eram militares.

Acontece com frequência (aconteceu recentemente) que o exército, chamado a restabelecer a ordem, se recuse a abrir fogo contra a população. Os hábitos da caserna são francamente reprovados pelos próprios militares, que muitas vezes deles fazem motivo de zombaria.

O mesmo acontece com os juizes: obrigados a julgar e condenar os delinquentes, conduzem os debates de modo a fazê-los parecer inocentes até onde seja possível, de maneira que o governo russo, para obter a condenação daqueles que deseja punir, confia sempre estes casos não aos tribunais ordinários, mas à corte marcial, que nada mais é do que uma paródia da justiça. Até mesmo os promotores renunciam, muitas vezes, a pedir uma condenação e, contornando a lei, amiúde defendem aqueles a quem têm o dever de mostrar como culpados.

Doutos jurisconsultos, cuja missão é justificar a violência do poder, negam cada vez mais o direito de punir e, em seu lugar, colocam as teorias da irresponsabilidade. Ao invés do castigo, preconizam a recuperação dos supostos delinquentes, mediante uma cura médica ou moral.

Os carcereiros e verdugos tornam-se frequentemente defensores daqueles que, por sua missão, deveriam martirizar e, muitas vezes, os policiais salvam aqueles que devem matar.

O clero prega a tolerância, por vezes até a negação da violência, e os mais cultos dentre seus membros procuram evitar em seus sermões a mentira, que é a própria base de sua situação e que são chamados a sustentar.

Os carrascos se recusam a cumprir seu dever, de modo que, amiúde, na Rússia, as sentenças de morte não podem ser executadas e, apesar de todas as vantagens dadas às galés, entre as quais são recrutados os carrascos, tornam-se cada vez mais raros os que aceitam estas funções.

Os governadores, os comissários, os cobradores de impostos têm piedade do povo e procuram toda a espécie de pretextos para dispensar dos impostos os pobres diabos.

Os ricos não mais ousam desfrutar sozinhos de suas riquezas, mas sacrificam uma parte em obras de caridade.

Os latifundiários constróem em suas terras hospitais, escolas e alguns chegam a entregar suas propriedades aos agricultores ou nelas estabelecem colónias agrícolas. Os proprietários de usinas e fábricas criam, também, hospitais, escolas, fundos de pensões, espetáculos para seus operários. Alguns formam associações, das quais fazem parte com o mesmo título e com os mesmos direitos que outros membros.

Os capitalistas entregam uma parte de seus capitais a instituições públicas de instrução, arte ou filantropia. Não tendo força para se separar de suas riquezas em vida, muitos dentre eles deixam-nas como herança para institutos públicos.

Todos estes fenómenos poderiam parecer casos excepcionais se não se adivinhasse sua causa única, assim como, em abril, poderiam causar maravilha os primeiros brotos se não se conhecesse a causa geral, a primavera; de modo que, vendo alguns ramos intumescerem e tornarem-se verdes, pode-se dizer com certeza que os outros farão o mesmo.

O mesmo pode ser dito em relação às manifestações da opinião pública cristã. Se já esta opinião pública age sobre várias pessoas, sobre as mais impressionáveis, e força-as cada uma em seu ambiente a abandonar as vantagens que lhes concede a violência,.continuará a agir e sua ação prolongar-se-á até o momento em que mudará toda a ordem atual e a porá de acordo com o pensamento cristão que já penetrou na consciência dos homens que estão na vanguarda.

Se já se encontram governantes que nada decidem por autoridade própria, que procuram assemelhar-se ao máximo não a soberanos, mas a simples mortais, e que estão prontos a abandonar suas prerrogativas e a tornarem-se os primeiros cidadãos de seus países; se já se encontram militares que compreendem toda a barbárie da guerra e desejam não precisar abrir fogo contra os estrangeiros nem contra seus concidadãos; se já há juizes e procuradores que não desejam oprimir e condenar os delinquentes, padres que evitam pregar a mentira, coletores de impostos que procuram suavizar ao máximo possível o rigor de suas funções — e ricos que abandonam suas riquezas — o mesmo acontecerá, fatalmente, com outros governantes, outros militares, juizes, padres, coletores e ricos. E, quando não mais existirem homens que queiram ocupar estas posições, estas mesmas posições, calcadas na violência, desaparecerão.

Mas não é este o único caminho pelo qual a opinião pública conduz os homens à supressão da ordem atual e a sua substituição por uma nova ordem. À medida que as posições calcadas na violência tornam-se menos sedutoras e menos cobiçadas, sua inutilidade torna-se mais evidente.

Vemos sempre, no mundo cristão, os mesmos governantes e os mesmos governos, os mesmos exércitos, os mesmos tribunais, os mesmos impostos, o mesmo clero, os mesmos ricos latifundiários, industriais, capitalistas, mas a situação de uns em relação aos outros não é mais a mesma. Os mesmos chefes de Estado mantêm os mesmos diálogos, os mesmos encontros, as mesmas festas, a mesma pompa; os mesmos diplomatas têm as mesmas conversas sobre alianças e sobre guerras; os mesmos parlamentos discutem as mesmas questões do Oriente e da África e os casos de guerra, o Home Rulé* e a jornada de oito horas; sempre as mesmas mudanças de ministérios, os mesmos discursos, os mesmos incidentes, mas para aqueles que percebem como um artigo de jornal muda, às vezes, a situação, mais do que o fazem dezenas de conferências de monarcas e de sessões parlamentares, parece cada vez mais claro que não são aquelas conferências e discussões parlamentares que dirigem os negócios, mas algo independente de tudo isto e que não reside em lugar algum.

*Teoria política que pregado princípio de autogoverno ou autodeterminação; ou política interna. (N. do E.)

Os mesmos generais, oficiais e soldados, os mesmos canhões, fortalezas, revistas e manobras; mas a guerra não é declarada. Um ano, dez anos, vinte anos se passam. Entretanto, têm-se cada vez menos confiança no exército para reprimir as rebeliões e torna-se cada vez mais evidente que os generais, os oficiais e os soldados são simplesmente figurantes de procissões solenes, objetos de divertimento para os governos, algo como corpos de baile que custam demasiado caro.

Os mesmos procuradores e juizes, os mesmos tribunais, frias torna-se cada vez mais evidente que os tribunais civis pronunciam suas setenças sem se preocuparem com a justiça, e e os tribunais penais não têm nenhum sentido, porque as )unições não alcançam o objetivo a que aspiram os próprios uízes. Estas instituições não servem, então, senão para nurir homens incapazes de atitudes mais úteis.

Os mesmos padres, arcebispos; mas torna-se cada vez mais evidente que estes mesmos homens não mais crêem naquilo que ensinam e, portanto, não mais podem dar a ninguém uma fé que não possuem.

Os mesmos coletores de impostos; mas cada vez mais incapazes de tirar à força os bens dos contribuintes; e assim torna-se cada vez mais evidente que, sem os coletores de impostos, os homens podem, com uma subscrição voluntária, prover todas as necessidades sociais.

Os mesmos ricos; mas torna-se cada vez mais evidente que eles não podem ser úteis, senão deixando de ser administradores pessoais de seus bens e entregando-os à sociedade, integralmente, ou, ao menos, em parte.

E quando tudo isto se tornar evidente, será natural que os homens se perguntem: "Qual a utilidade de manter todos estes reis, imperadores, presidentes e membros de toda espécie de câmaras e ministérios se, de todas suas reuniões e de todos seus discursos, nada resulta? Não seria melhor, como disse um espirituoso, fazer uma rainha de borracha?" E de que serve o exército com seus generais, músicos, cavalos, tambores? Em que consiste sua utilidade, já que não existe guerra, já que ninguém quer conquistar ninguém e já que, mesmo quando eclodisse a guerra, os outros povos não permitiriam que dela fosse tirado proveito, enquanto o exército se recusa a abrir fogo contra os compatriotas? E de que servem os juizes e procuradores que, nas causas civis, não julgam segundo a justiça e, nas causas penais, reconhecem a inutilidade do castigo? De que servem os coletores de impostos que cumprem com tristeza seu dever, já que sem eles é possível reunir somas necessárias? De que serve o clero que de há muito não mais crê naquilo que prega? De que servem os capitais concentrados nas mãos de poucos, já que não podem ser úteis senão tornando-se propriedade de todos? E, uma vez colocadas estas questões, os homens não podem deixar de chegar à resolução de parar de manter todas estas instituições tornadas inúteis.

Mais ainda, os homens que ocupam estas posições privilegiadas reconhecerão um dia a necessidade de abandoná-las.

A opinião pública condena cada vez mais a violência e, por isso, estas posições calcadas na violência são cada vez menos procuradas.

Um dia, em Moscou, assisti a uma das discussões religiosas que se realizam regularmente no domingo da Páscoa, perto da igreja, no Ocotny-Rjad. Uns vinte homens estavam reunidos na calçada e conversavam com muita seriedade sobre a religião.

Simultaneamente, realizava-se um concerto, no edifício do círculo da nobreza, e o oficial de polícia de sentinela no local, tendo percebido este grupo, mandou um guarda a cavalo com a ordem de dissolvê-lo. Para dizer a verdade, o oficial não tinha a mínima necessidade de dispersar aquele grupo se a ninguém incomodava, mas ele havia ficado ali durante toda a manhã, e era preciso dar um sentido a isso. O policial, jovem garboso, levando o punho à ilharga e fazendo tinir a espada, aproximou-se de nós e ordenou em tom severo: "Dispersai-vos! O que é esta reunião?" Todos voltaram-se para ele e um de nós, homem modesto, respondeu com ar calmo e afável: 'Falamos de coisas sérias, por que nos separaríamos? Seria melhor, jovem, que descesses do cavalo e viesses escutar- nos; será útil para ti também." Voltou-se, então, novamente para nós e continuou a conversa. O policial deu meia-volta e afastou-se sem dizer uma palavra.

O mesmo deve acontecer em todos os atos de violência. Aquele pobre oficial se entediou; o infeliz foi colocado numa posição que o obriga a cometer atos de autoridade; ele vive uma vida à parte; pode apenas vigiar e dar ordens, dar ordens e vigiar, embora sua vigilância e suas ordens não tenham qualquer utilidade. Na mesma condição já se encontram em parte, e dentro em breve encontrar-se-ão inteiramente, os infelizes chefes de Estado, membros dos parlamentos, governadores, generais, oficiais, arcebispos, padres e, também, os ricos. Estes nada têm a fazer além de dar ordens e assim fazem, mandam os seus subordinados — como o oficial manda o soldado — para incomodar as pessoas. E, como as pessoas que incomodam lhes pedem para não serem incomodadas, eles imaginam ser muito necessários.

Mas um tempo virá — já vem — em que todos compreenderão claramente que estas autoridades são de todo inúteis e apenas incomodam, em que as pessoas a quem incomodamos lhes dirão, com a mesma candura e a mesma calma: "Não nos incomodem, por favor." E todos estes mandantes com suas ordens serão obrigados a seguir este bom conselho, ou seja, parar de curvetear por entre os homens com o punho na ilharga e de incomodá-los; mas, descendo de seus belos cavalos e retirando todas suas ferragens, virão escutar aquilo que se diz e, reunindo-se aos outros, reingressarão na verdadeira vida.

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