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O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

Chega o tempo em que todas as instituições fundamentadas na violência desaparecerão em consequência de sua inutilidade, de sua estupidez e, sobretudo, de sua evidente inconveniência.

Este tempo haverá chegado quando acontecer aos homens de nossa sociedade, que ocupam posições criadas pela violência, o que aconteceu ao rei, no conto de Andersen intitulado A roupa nova do rei — quando o menino, tendo visto o rei inteiramente despido gritou ingenuamente:''Olhem, está nu!" Então, todos aqueles que o viam da mesma forma, mas nada diziam, não puderam deixar de admiti-lo.

No conto, trata-se de um rei, grande amante de roupas novas, ao qual alguns alfaiates prometem um traje extraordinário, cujo tecido tem a especial qualidade de permanecer invisível para quem não estiver à altura do cargo que ocupa. Os cortesãos que vêm para assistir ao trabalho dos alfaiates nada vêem, porque os alfaiates movem suas agulhas no ar. Mas, lembrando-se da qualidade própria daquele tecido, todos dizem vê-lo e extasiam-se com sua beleza. O rei faz o mesmo. Chega o momento da procissão, na qual, deve aparecer com seu novo traje. Ele se desnuda e veste o traje imaginário, isto é, permanece nu e assim passeia pela rua. Mas, lembrando-se da qualidade do tecido, ninguém se decide a dizer que não existe roupa até o momento em que uma criança grita: "Olhem, está nu!" A mesma coisa deve acontecer com todos aqueles que ocupam por inércia posições de há muito tornadas inúteis, tão logo o primeiro grite ingenuamente: "Mas de há muito estes homens para nada servem!" A situação da humanidade cristã, com suas fortalezas, com seus canhões, com a dinamite, os fuzis, os torpedos, as íprisões, os patíbulos, as igrejas, as fábricas, as alfândegas, os palácios, é realmente terrível; mas nem os torpedos, nem os canhões, nem os fuzis disparam sozinhos; as prisões não prendem alguém sozinhas, os patíbulos não enforcam, as igrejas a ninguém enganam sozinhas, as alfândegas não detêm, os palácios, as fortalezas e as fábricas não se constróem sozinhos. Tudo isto é feito por homens. E, quando os homens compreenderem que não se deve fazê-lo, tudo isto não mais existirá.

E eles já começaram a compreender. Senão todos, ao menos os homens de vanguarda, aqueles que serão seguidos por todos os outros. E deixar de compreender aquilo que uma vez foi compreendido é impossível; e aquilo que compreenderam os homens de vanguarda os outros podem e devem compreender.

De modo que, no tempo previsto pelo profeta, em que todos os homens serão instruídos por Deus, desaprenderão a guerra e transformarão as espadas em arados e as lanças em foices; em que, traduzindo para nossa língua, as prisões, as fortalezas, as casernas, os palácios e as igrejas ficarão vazios, e os patíbulos, os fuzis e os canhões ficarão ociosos. Não é mais uma utopia, mas uma nova forma de vida para a qual a humanidade caminha com uma rapidez cada vez maior.

Mas quando tudo isto acontecerá? Há 1.800 anos, Cristo respondeu esta pergunta: o fim do século atual, isto é, da organização pagã, chegará quando as calamidades humanas estarão multiplicadas e a feliz novidade da vinda do reino de Deus, ou seja, a possibilidade de uma nova organização de vida, não alicerçada sobre a violência, será pregada por toda a terra (Mt 24,4-28).

"Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai" — diz Cristo (Mt 21,35). Porque Ele pode sempre vir a qualquer instante e quando menos o esperamos.

Quando virá esta hora? Cristo diz que não podemos sabê-lo. Devemos, então, estar sempre prontos para sua vinda, como deve velar aquele que guarda sua própria casa dos ladrões, como devem velar as virgens que com suas lanternas esperam o esposo, e mais, devemos trabalhar com todas nossas forças para antecipar esta hora, como devem trabalhar os servos para fazer render os talentos que receberam (Mt 24,42-44; 25,13).

E não pode haver outra resposta. Saber quando virá o reino de Deus os homens não podem, porque essa hora só depende dos próprios homens.

A resposta é como a daquele sábio a quem um viajante perguntou se faltava muito para chegar à cidade: "Caminha!" Como podemos saber se ainda está longe o objetivo para o qual se dirige a humanidade, já que não sabemos como ela caminhará e já que dela depende caminhar ou parar, moderar ou acelerar seu movimento? Tudo o que podemos saber é aquilo que nós, que fazemos parte da humanidade, devemos ou não fazer para que venha o reino de Deus, e isto sabemos. Basta que cada um comece a fazer o que deve fazer e deixe de fazer o que não deve fazer; basta que coloquemos em nossos atos toda a luz que há em nós, para que em breve se estabeleça o reino de Deus, prometido, e para o qual tende a alma de cada homem.

CAPÍTULO XII

Conclusão

Fazei penitência, porque o reino de Deus está próximo, está a nossa porta

Terminava eu finalmente esta obra, na qual trabalhava há dois anos, quando, atravessando de trem os territórios de Tuia e Riazan, já, então, atormentados como hoje pela carestia, o que me levava cruzou, numa estação, com um transportando soldados que acompanhavam o próprio governador da região. Estes soldados tinham fuzis, cartuchos e açoites para martirizar aqueles infelizes esfomeados.

As surras com açoites para fazer respeitar as decisões das autoridades, embora as penas corporais já tenham sido abolidas há trinta anos, tornam-se cada vez mais frequentes.

Já havia ouvido falar de coisas semelhantes; havia também lido nos jornais a relação das execuções ocorridas em Cernigov, em Tambov, em Saratov, em Astracã e em Orei, e daquelas de que se vangloriou o governador de Nijni-Novgorod, Baranov. Nunca, porém, me havia acontecido, como naquele dia, ver os homens em ação. Assim, vi russos bons e compenetrados do espírito cristão armados de fuzis, cartuchos e açoites, que iam martirizar seus irmãos famintos! O motivo pelo qual viajavam era este: numa das mais belas propriedades da região, os camponeses cultivavam uma floresta numa terra comum a eles e a um dos mais ricos proprietários da região, quando este se atribuiu toda a floresta e começou a derrubá-la. Os camponeses, que de há muito desfrutavam desta floresta que consideravam sua, ao menos propriedade comum, apresentaram queixa. Em primeira instância, os juizes pronunciaram uma sentença injusta. (Digo injusta de acordo com o governador e o procurador, que assim declararam.) O juiz deu razão ao proprietário.

Todas as outras sentenças que se seguiram, inclusive a do senado, embora todos vissem claramente que a primeira sentença havia sido injusta, confirmaram-na, e toda a floresta foi entregue ao proprietário.

O proprietário continuou a derrubá-la, mas os camponeses, não podendo crer que tão flagrante injustiça pudesse ser cometida pelos poderes supremos, não se submeteram. Expulsaram os operários vindos para os cortes, declarando que a floresta lhes pertencia, que iriam até o czar, mas que não deixariam tocar na floresta.

O fato foi referido em Petersburgo, de onde foi transmitida uma ordem ao governador para executar a sentença, e este pediu a tropa, e ei-los, os soldados com sua provisão de fuzis, cartuchos e feixes de açoites expressamente preparados para a ocasião, tudo isto desordenadamente, no vagão, ei-los enviados para fazer executar a decisão suprema.

A execução da decisão das autoridades superiores traduz-se no homicídio, no suplício e na ameaça de um ou outro, conforme as pessoas se revoltem ou se submetam.

No primeiro caso, isto é, se o camponês se revolta, tudo acontece na Rússia (como em todos os países nos quais existe o direito de propriedade) e tudo acontece do seguinte modo: o governador pronuncia um discurso em que pede a submissão. A multidão, superexcitada e naturalmente envolvida pelos mais exaltados, nada compreende da linguagem pomposa do funcionário; o governador pede, então, a sujeição da multidão e ordena sua dispersão, caso contrário será obrigado a recorrer à força.

Se a multidão não se sujeita e não se dispersa, o governador ordena que se dispare para o ar. Se a multidão, mesmo assim, ainda não cumpre o ordenado, o governador torna a ordenar que se atire sobre o povo, não importa em quem; o soldado atira, mortos e feridos caem nas ruas. A multidão, então, se dispersa, e os soldados, por ordem do governador, apanham, em meio à mesma, aqueles que julgam mais perigosos e conduzem-nos sob escolta; depois, são recolhidos os moribundos ensanguentados, os mutilados, os mortos, os homens feridos, por vezes mulheres e crianças. Os mortos são enterrados, os mutilados são mandados para os hospitais.

Os que são considerados os líderes mais exaltados são conduzidos à cidade e julgados por um conselho de guerra. Quando é provado que sua rebelião chegou à violência, são condenados ao enforcamento. Então, a forca é armada. Enforcam-se vítimas sem defesa, como amiúde sucede na Rússia e como não pode deixar de acontecer em todos os lugares onde a ordem social é fundamentada na força. Eis o que acontece em caso de revolta.

No segundo caso, isto é, no caso em que o camponês se submete, acontece algo especial, absolutamente russo. Eis c que acontece: o governador chega ao local designado, pronuncia um discurso no qual reprova o povo por sua insubordinação e, ou faz ocupar pelo exército as casas do vilarejo onde, por vezes durante um mês, os soldados esgotam os meios de subsistência do camponês, ou, tendo-se limitado às ameaças, vai embora sem praticar maus-tratos, ou ainda, o que ocorre na maioria das vezes, declara que os líderes devem ser punidos. Escolhem-se a esmo, sem critério algum, alguns indivíduos, reconhecidos como líderes, que, diante dele, são açoitados.

Para dar uma ideia de como se procede, quero descrever uma execução deste género e que recebeu a aprovação das autoridades superiores. Eis o que aconteceu em Orei:

Como no governo de Tuia, o proprietário teve a ideia de se apropriar dos bens dos camponeses e, assim como lá, os camponeses opuseram-se a suas pretensões. O motivo do litígio era este: o proprietário queria desviar, em favor de seu moinho, uma cascata de água que irrigava os campos dos camponeses. Estes rebelaram-se. O proprietário recorreu ao comissário rural que, in- justamente (como, aliás, foi depois reconhecido pela justiça), deu razão ao proprietário. Permitiu-lhe desviar a água. O proprietário mandou operários escavarem os canais através dos quais deveria a água chegar até ele. Os camponeses, exasperados por esta sentença iníqua, mandaram suas mulheres impedirem que os operários do proprietário escavassem os canais: nos diques, elas derrubaram as carroças e expulsaram os operários.

O proprietário recorreu contra as mulheres. O comissário rural ordenou que colocassem na prisão uma mulher de cada família.

A ordem não era de fácil execução, pois em cada casa havia várias mulheres e não era possível saber qual delas deveria ser presa; e assim a sentença não foi cumprida. O proprietário lamentou-se da negligência da polícia com o governador que, sem se aprofundar na questão, simplesmente ordenou a execução da sentença do comissário rural.

O comissário do distrito chegou à aldeia e severamente ordenou aos seus agentes que prendessem em cada casa uma mulher qualquer: mas, como eu disse, havendo em cada casa várias mulheres, surgiram discussões; o comissário do distrito ordenou que não se importassem com isto, que prendessem a primeira mulher que encontrassem e que a conduzissem à prisão.

Os camponeses defenderam suas mulheres e suas mães; impediram que a polícia cumprisse sua missão; espancaram os agentes e o comissário do distrito. Um novo delito juntou-se, então, ao primeiro, a rebelião às leis; notícias sobre este fato novo foram levadas à cidade; e eis que aparece, como em Smolensk, o governador do lugar, chefiando um batalhão de soldados, armados de fuzis e açoites, com grande reforço do telégrafo e do telefone, viajando em trem expresso, acompanhado por um douto médico encarregado de inspecionar que as surras fossem aplicadas higienicamente; e eis que o governador, encarnando o Gengis Khãn moderno previsto por Herzen, chega ao lugar da execução.

No município do cantão encontravam-se a tropa, um regimento de guardas com revólveres pendentes de seus cinturões vermelhos, os principais camponeses do lugar e, enfim, os culpados. Ao redor, agrupava-se uma multidão de mais de mil pessoas.

O governador, chegando em carruagem, desceu, pronunciou o discurso de costume e pediu que viessem os culpados e um banco. A princípio, seu pedido não foi compreendido, mas um guarda, que o governador conduzia junto a si para todos os lugares e que se ocupava especialmente de organizar tais execuções, repetidas inúmeras vezes naquele governo, explicou que o banco serviria para o flagelo.

O banco foi trazido, assim como os açoites, e foram chamados os carrascos. Os carrascos são preparados antecipadamente, são escolhidos entre os ladrões de cavalos do próprio vilarejo, porque os soldados absolutamente recusam este género de funções.

Quando tudo estava pronto, o governador ordenou que fosse retirado da fila o primeiro dos 12 homens indicados pelo proprietário como os mais culpados. Tratava-se de um pai de família honrado, estimado por todos, um homem de quarenta anos que defendia energicamente os interesses de sua classe e que, por isto, gozava de muita consideração entre os habitantes. Conduziram-no ao banco, desnudaram-no, estenderam-no sobre o mesmo.

O camponês começou a suplicar mas, vendo que seria inútil, fez um grande sinal-da-cruz e deitou-se. Dois soldados precipitaram-se para segurá-lo.

O médico estava por perto, para o caso em que sua ajuda e sua alta ciência médica fossem necessárias. Os carrascos cuspiram nas mãos, ergueram os açoites e começaram a bater. Acontece que o banco não era suficientemente largo e era difícil nele manter a vítima que se contorcia. O governador ordenou que trouxessem um outro banco e que nele fosse colocada uma prancha. Os soldados — fazendo a saudação militar e repetindo: "Muito bem, excelência" — prepararam-se para executar a ordem, enquanto seminu, pálido, o homem martirizado aguardava, franzindo as sobrancelhas, olhando para o chão, batendo os dentes. Quando o banco foi alargado, nele recolocaram a vítima e, novamente, os ladrões de cavalos começaram a bater. Os ombros e os rins do homem cobriam-se cada vez mais de estrias marmóreas, e, a cada golpe, ouviam-se os gemidos surdos que o torturado não conseguia reprimir.

Na multidão que os circundava, ouviam-se os gritos da mulher, da mãe, dos filhos, dos parentes do martirizado, e de todos aqueles que haviam sido chamados para assistir ao suplício.

O desgraçado governador, ébrio de seu poder, contava nos dedos cada golpe, dobrando-os um depois do outro, sem parar de fumar o charuto que várias pessoas servis se apressavam a acender, oferecendo-lhe velas acesas.

Quando os golpes passaram dos cinquenta, o camponês parou de gritar e de agitar-se, e o médico, que havia feito seus estudos numa instituição do Estado para poder depois colocar sua alta ciência a serviço de seu soberano e de sua pátria, aproximou-se do torturado, tomou-lhe o pulso, auscultou-lhe o coração e declarou ao governador que o homem punido tinha perdido a cons- ciência e que, segundo os dados da Ciência, poderia ser perigoso para a vida do paciente continuar a execução. Mas o desgraçado governador, já ébrio com a visão do sangue, ordenou que continuassem e a execução prosseguiu até o septuagésimo golpe, limite que ele havia fixado, não se sabe por quê. Só então o governador disse: "Basta! O próximo." E levaram embora o martirizado, com os ombros em frangalhos e sem sentidos; e trouxeram, então, um outro. Os soluços da multidão aumentavam, mas o representante da autoridade fez continuar a execução.

Assim foi feito até o décimo segundo, e cada um deles recebeu setenta golpes. Todos imploravam perdão, gritavam e gemiam. Os soluços da multidão e, sobretudo, os das mulheres, tornavam-se dilacerantes. Os rostos dos homens fechavam-se cada vez mais. Mas a tropa rodeava-os e a execução não parou senão quando pareceu suficiente àquele desgraçado meio ébrio e desvairado que se chamava governador. Os funcionários, os oficiais, os soldados não só assistiam àquela execução, mas dela participavam, já que, com sua presença, tornavam impossível qualquer resistência da multidão.

Quando perguntei a um desses governadores o motivo da execução de pessoas já submissas, com a importância de um homem que conhece toda a delicadeza da sabedoria governamental, respondeu-me estar provado pela experiência que, se os camponeses não fossem punidos, revoltar-se-iam novamente e que a execução de alguns atesta para sempre a autoridade do poder.

Por isso o governador de Tuia, com seus funcionários, oficiais e soldados, ia por sua vez cumprir uma execução semelhante.

Também ali o homicídio e o suplício deveriam ratificar a decisão da autoridade superior. Tratava-se de dar a possibilidade a um jovem latifundiário que já possuía cem mil rublos de renda de receber outros três mil com a madeira por ele subtraída de toda uma comunidade de camponeses famintos, para poder gastar esse dinheiro, em duas ou três semanas, nos restaurantes de Moscou, Petersburgo ou Paris. Eis a obra que iam realizar as pessoas que encontrei.

Como se houvesse sido feito de propósito, quis o acaso, após dois anos de meditação sobre o mesmo tema, tornar-me testemunha, pela primeira vez em minha vida, de um fato cuja realidade brutal me mostrava, com total evidência, o que eu, de há muito, vira com clareza absoluta em teoria, que nossa ordem social está instituída não como querem dar a entender os homens interessados na ordem atual, em bases jurídicas, mas na mais rude violência, no assassinato e no suplício.

Os homens que possuem grandes quantidades de terras e capitais, ou que recebem altos ordenados sugados da classe mais miserável, a classe operária e ainda aqueles, como os negociantes, os médicos, os artistas, os empregados, os cientistas, os cocheiros, os cozinheiros, os escritores, os camareiros, os advogados, que se sustentam junto a esses homens ricos, gostam de acreditar que os privilégios de que desfrutam resultam não da violência, mas de uma troca de serviços absolutamente regular e livre. Preferem crer que os privilégios de que desfrutam existem por si só e são o resultado de uma livre convenção entre os homens, e que as violências, existindo também por si mesmas, resultam de não sei quais leis gerais. Eles esforçam-se para não ver que seus privilégios são sempre a consequência da mesma causa, daquela que obriga os camponeses, sob pena de serem açoitados ou mortos, a entregar sua madeira a um proprietário que não precisa e que em nada participou do cultivo da floresta.

Contudo, se é verdade que, graças às ameaças, aos açoites e ao homicídio, aumentou a renda do moinho de Orei e que as florestas cultivadas pelos camponeses foram dadas ao proprietário ocioso, é igualmente verdade que todoios excepcionais privilégios de que gozam os ricos, privando os pobres do necessário, são alicerçados nas mesmas causas.

Se aqueles que precisam de terra para alimentar sua família não podem cultivar a que circunda suas casas e, se um único homem, seja quem for, russo, inglês, austríaco, ou não importa que grande proprietário que não cultiva e possui uma extensão capaz de alimentar mil famílias, se o rico comerciante, aproveitando-se da miséria do agricultor, pode comprar o grão por um terço de seu valor e, sem incorrer em punição, conservá-lo em seus armazéns, entre gente faminta a quem ele o revende por três vezes mais, é claro que tudo isto provém da mesma causa.

E se não se podem comprar certos produtos devido a uma , inha divisória que se chama fronteira, sem pagar imposto àqueles que não tomaram parte alguma na produção dessas mercadorias, se os camponeses devem vender sua última vaca para pagar os impostos que o governo distribui a seus funcionários ou destina a nutrir os soldados encarregados, por sua vez, de matar estes mesmos espoliados, deveria parecer evidente que tudo isto não é a consequência de qualquer princípio abstrato, mas tem a mesma causa comum, com o que acontece em Orei, com o que teria podido acontecer em Tuia que se apresenta, sob uma ou outra forma, no mundo inteii ro, onde quer que haja governo ricos e pobres.

Os homens que desfrutam dos privilégios das classes dirigentes convencem-se e convencem os outros, somente por que existem casos de violência sem suplícios e sem homicídios, que as vantagens de que gozam não são consequência de martírios e execuções e, sim, consequência de algumas causas gerais e misteriosas. Todavia, se os homens que vêem a injustiça de tudo isto (como os operários, hoje) entregam, ainda assim, a maior parte do produto de seu trabalho aos capitalistas, aos latifundiários, e pagam os impostos, sabendo a que mau uso se destinam, é evidente que o fazem não para obedecer a certas leis abstratas, de que não têm ideia alguma, de que nunca ouviram falar, mas porque sabem que serão açoitados e serão mortos, caso se recusem.

E, se não se é obrigado a prender, a matar, a justiçar, a cada vez que o proprietário exige seu arrendamento, a cada vez que aqueles que precisam de pão devem pagar três vezes mais seu valor, a cada vez que o operário é forçado a contentar-se com o salário insuficiente, enquanto o patrão ganha o dobro, a cada vez que o pobre é submetido a dar seus últimos rublos para pagar taxas e impostos, isso resulta da seguinte constatação: de um modo ou de outro, os homens já se mataram tanto por suas antigas tentativas de independência que para sempre delas se recordarão. Como um tigre domado que, em sua jaula, não come a carne colocada a sua frente e que pula um bastão quando assim lhe é ordenado, age deste modo porque se lembra da barra de ferro em brasa, ou pelo jejum com o qual foi castigado por sua desobediência, da mesma forma os homens, que se submetem ao que é contrário a seus interesses e ao que consideram injusto, lembram-se do que sofreram quando tentaram resistir.

Quanto aos homens que se aproveitam das vantagens resultantes das violências anteriores, estes com frequência esquecem, e gostam de esquecer, de como foram adquiridas estas vantagens. Contudo, basta reler a história, não das proezas dos diversos soberanos, mas a verdadeira história, a das opressões da maioria pela minoria, para perceber que todos os privilégios dos ricos baseiam-se nos açoites, nas prisões, nos calabouços, nas execuções capitais.

Podem-se citar casos de opressão, raros, é verdade, que não têm o objetivo de granjear vantagens às classes dirigentes, mas pode-se dizer, sem hesitação, que em nossa sociedade, para cada homem que vive na abundância, existem dez consumidos pelo trabalho, invejosos, ávidos e muitas vezes sofrendo cruelmente com suas famílias. Todos os privilégios dos ricos, todo seu luxo e todo seu supérfluo não são adquiridos e mantidos senão com maus-tratos, com encarceramentos, com execuções capitais.

O trem expresso que encontrei no dia 9 de setembro constituía-se de um vagão de primeira classe para o governador, os funcionários e os oficiais, e de alguns vagões de mercadoria, repletos de soldados. Aquelas autoridades e aqueles soldados dirigiam- se a Tuia para cometer uma injustiça flagrante. Este fato prova, claramente, como os homens podem cometer atos absolutamente contrários a suas convicções e a sua consciência, sem disto se aperceberem.

Os soldados, jovens garbosos, em seus uniformes novos e limpos, estavam agrupados em pé ou sentados com as pernas pendentes na grande abertura dos vagões. Uns fumavam, outros davam-se cotoveladas, brincavam, riam, mostrando to- dos os dentes; outros, roendo sementes de girassol, cuspiam as películas com ar de importância. Alguns corriam para beber no barril de água que havia na plataforma e, encontrando alguns oficiais, diminuíam o passo, faziam seu gesto idiota, levando a mão à fronte com ar sério, como se fizessem algo muito importante, seguiam adiante e depois recomeçavam a correr ainda mais alegremente, batendo as pranchas da plata- forma, rindo e conversando como é natural a jovens de boa saúde e a bons rapazes que viajam em alegre companhia. Iam matar seus pais e seus avós famintos como se fossem a um divertimento.

Os funcionários, em uniforme de gala, e os oficiais, espalhados pela plataforma e pela sala da primeira classe, produziam a mesma impressão. Defronte a uma mesa repleta de garrafas estava sentado, em traje semimilitar, o governador, chefe de toda a expedição. Comia e conversava tranquilamente sobre o tempo com alguns conhecidos que havia encontrado; como se o objetivo de sua viagem fosse tão simples e corriqueiro que não poderia perturbar sua tranquilidade e o interesse que demonstrava pela mudança do tempo.

Um pouco distante da mesa sentava-se o general de polícia, com ar impenetrável, mas entediado, como se todas aquelas formalidades cansassem-no enormemente. Por toda parte, oficiais, em seus uniformes com galões de ouro, iam e vinham ruidosamente. Alguns, à mesa, terminavam sua garrafa de cerveja, alguns, de pé junto ao banco, comiam um salgado, sacudindo os farelos caídos no uniforme e jogavam o dinheiro com gesto soberbo; alguns, passeando ao lado de nosso trem, olhavam as mulheres graciosas.

Todos eles, indo assassinar ou martirizar pessoas famintas e inofensivas que os alimentavam, tinham o ar de quem sabia muito bem o que fazia e até se vangloriava.

O que significa tudo isto? Todos encontravam-se a cerca de meia hora do local onde iriam cometer os mais terríveis atos que se possam imaginar e, de lá, aproximavam-se tranquilamente! Dizer que todos aqueles funcionários, oficiais e soldados não sabiam o que seria feito é impossível, porque para isto se prepararam. O governador precisou dar ordens relativas aos açoites, os funcionários precisaram discutir seus preços, compará-los e inscrevê-los no livro de despesas; os militares deram ou receberam ordens relativas aos cartuchos. Sabiam todos do martírio de seus irmãos enfraquecidos pela carestiae que, também, começariam sua obra daqui a uma hora, talvez.

Dizer, como em geral se diz e eles próprios repetem, que agem por convicção da necessidade de manter a ordem governamental seria injusto, em primeiro lugar, porque é duvidoso que todos aqueles homens tenham-se preocupado com a ordem governamental e sua necessidade; depois, porque não podem estar convencidos de que o ato do qual participam servirá à manutenção e não a destruição do Estado, e, enfim, porque na realidade a maioria deles, senão todos, não só nunca sacrificarão sua tranquilidade e sua alegria para manter o Estado, como também nunca deixarão passar a ocasião de aproveitar, em detrimento do deste, tudo o que possa aumentar sua tranquilidade e seu bem-estar. Portanto, não são guiados por princípio algum O que significa tudo isso? Entretanto, conheço todos aqueles homens. Se não os conheço pessoalmente, conheço mais ou menos seus caracteres, seus passados, seus pontos de vista. Todos têm mãe, alguns têm mulher e filhos. A maioria são bons filhos, generosos, dóceis, por vezes sensíveis, que detestam qualquer crueldade; sem falar em assassinato, muitos não podem matar ou martirizar um animal e, mais, são cristãos e consideram qualquer violência contra gente inofensiva como uma ação vil e vergonhosa. Na vida normal, nenhum destes homens é capaz de fazer, para seu menor proveito, a centésima parte do que fez o governador de Orei, aliás, ofender-se-iam de serem considerados capazes. E, no entanto, ei-los a uma hora de distância do local em que podem, necessariamente, ser induzidos a fazê-lo.

O que significa tudo isso? Não só aqueles homens conduzidos pelo trem estão prontos para o homicídio e a violência, mas também os outros que são a causa de toda esta questão: o proprietário, o gerente, o juiz e aqueles que, de Petersburgo, deram as ordens. Como puderam, aqueles homens, também bons, também cristãos, empreender e ordenar semelhante ato? Como os próprios simples espectadores que dele não participam, que se indignam com qualquer ato de violência na vida privada, ainda que se trate de um cavalo martirizado, como podem deixar perpetrar algo tão terrível? Por que não se indignam, por que não bloqueiam a estrada e gritam: "Não, nós não permitiremos que se espanquem e se matem famintos só porque não cedem os últimos poucos bens que lhes querem tirar indevidamente! " Ao contrário, estes homens e também aqueles que foram a causa do fato, o proprietário, o gerente, o juiz e aqueles que deram as ordens, como o governador, o ministro, têm a consciência absolutamente tranquila. Todos aqueles que iam cometer aquele delito pareciam também tranquilos. Os espectadores, que aparentemente não podiam ter qualquer interesse pessoal no fato, olhavam mais com simpatia do que com repulsa toda aquela gente que se preparava para cometer uma ação tão atroz. No mesmo vagão que eu, viajava um comerciante de madeira, antigo camponês. Ele exprimia francamente e em voz alta sua aprovação.

"Não se deve desobedecer à autoridade. Ela existe para ser obedecida. Esperai um pouco, sereis bem castigados. Não fareis mais rebeliões. Assim é que se faz!" — dizia.

O que significa tudo isso? Não se pode dizer que todos eles, provocadores, participantes, indiferentes, fossem a tal ponto degradados que agissem contrariamente a suas convicções, uns pelo ordenado, outros por medo de uma punição. Em alguns casos, sabem defender suas convicções. Nenhum destes funcionários roubará uma bolsa, lerá uma carta a si não endereçada, suportará uma ofensa sem exigir um desagravo; nenhum destes oficiais trapaceará no jogo, denunciará um companheiro, fugirá do campo de batalha ou abandonará a bandeira; nenhum destes soldados concordaria em cuspir na hóstia, nem em comer carne na sexta-feira sapta. Todos estão prontos a suportar toda espécie de privações e sofrimentos antes de consentir em fazer o que consideram uma má ação. Têm, portanto, a força da resistência, quando se trata de suas convicções.

Dizer que todos eles são animais, aos quais não repugna cometer estas crueldades, é ainda menos possível. Basta falar-lhes para ver que todos, o latifundiário, o juiz, o ministro, o soberano, o governador, os oficiais e os soldados, não só em seu coração não aprovam esta ação, mas até mesmo sofrem por serem obrigados a delas participar, quando lhes é recordada sua iniquidade. Procuram apenas não pensar nisto.

Bastaria falar-lhes para percebermos que têm consciência desta iniquidade, que teriam preferido dela não participar e que sofrem com isto.

Uma senhora que professava opiniões liberais e viajava em nosso trem, tendo visto o governador e os oficiais na sala da primeira classe, e tomando conhecimento da finalidade da viagem, erguendo ostensivamente a voz, pôs-se a criticar violentamente os costumes de nosso tempo e a atacar os homens que eram os instrumentos daquela perversidade. Todos se sentiram pouco à vontade, não se sabia para onde olhar. Mas ninguém a contradisse. Fingiu-se não dar importância alguma a suas palavras, mas o comportamento embaraçado dos passageiros comprovava que sentiam vergonha. Notei o mesmo embaraço nos soldados. Também eles sabiam que a ação que iam cometer era indigna, mas não queriam pensar.

Quando o comerciante de madeira — sem sinceridade, suponho, mas só para mostrar que não era mais um camponês — pôs-se a dizer o quanto semelhantes medidas eram necessárias, os soldados que o escutaram deram-lhe as costas, franzindo as sobrancelhas e aparentando não haver ouvido.

Todos aqueles que contribuíam para a execução daquela repressão, como os passageiros de nosso trem que, sem dela participar, somente assistiam aos preparativos, todos sentiam vergonha.

Por que, então, o faziam e o toleravam? Pergunte a cada um deles. Responderão que isto acontece para assegurar a ordem necessária ao bem do país, indispensável ao progresso de toda sociedade constituída.

Os que obedecem, os que devem cometer a violência com as próprias mãos, os camponeses, os soldados responderão que tudo foi ordenado pela autoridade superior e que a autoridade sabe o que faz. E, quanto a saber se a autoridade deve estar nas mãos dos homens que a têm, tal é, para eles, indiscutível. Ainda que pudessem admitir a possibilidade de um erro, não podiam compreendê-lo senão num funcionário inferior; quanto à autoridade superior, esta é, para eles, sempre infalível.

Embora expliquem sua conduta por diversos motivos, os chefes e os subordinados estão de acordo ao dizer que assim agem porque a ordem vigente é necessária e porque cada um tem o sagrado dever de contribuir para sua manutenção. Baseiam-se na necessidade e na imutabilidade desta ordem para justificar sua participação nas violências do governo. Já que esta organização é imutável, dizem, a recusa à obediência por parte de um indivíduo isolado não poderia trazer a menor mudança. "Apenas aconteceria que a missão, da qual este insubordinado não se quisesse encarregar, seria confiada a um outro que a cumpriria de um modo talvez mais rigoroso e mais cruel." É este o argumento que permite a homens, honestos e bons na vida privada, participarem, com a consciência mais ou menos tranquila, de atos como aqueles ocorridos em Orei e como aqueles para os quais se preparavam os que iam de trem para Tuia.

Mas em que se baseia esta afirmação? Compreende-se facilmente que, para um latifundiário, é prazeroso e desejável acreditar na necessidade e na imutabilidade da ordem atual, que lhe assegura a renda de centenas de milhares de acres de terra e lhe permite viver sua vida habitual, ociosa e luxuosa.

Compreende-se igualmente que o juiz acredite de bom grado na necessidade da ordem que lhe permite receber cinquenta vezes mais do que o operário mais trabalhador. Assim é para com todos os outros funcionários públicos. Somente graças a esta ordem o governador, o procurador, os senadores, os membros de todos os conselhos podem receber enormes ordenados sem os quais pereceriam imediatamente com toda sua família, porque toda sua inteligência, todo o saber e todo o trabalho não lhes dariam em outras circunstâncias a centésima parte do que ganham. No mesmo caso encontram-se os ministros, o chefe de Estado e todas as autoridades superiores, com a única diferença que, quanto mais altas suas posições, mais sua situação é excepcional e mais devem acreditar que o atual regime seja o único possível porque não só não poderiam ter, fora deste, uma situação equivalente, como até cairiam mais baixo do que todos os outros homens. Um homem engajado voluntariamente como guarda municipal, com uma paga de dez rublos ao mês, que facilmente os poderia ga- nhar de qualquer outra forma, está pouco interessado na conservação da ordem atual e, portanto, pode não acreditar em sua necessidade absoluta. Mas um rei ou um imperador, que recebe milhões, que sabe que a seu redor encontram-se milhares de homens invejosos de seu posto, que sabe que em nenhuma posição receberia as mesmas honras e a mesma renda e até, se o derrubassem, poderiam processá-lo por seus abusos de poder, cada rei ou imperador, digo, não pode deixar de acreditar no caráter imutável e sagrado da ordem vigente. Quanto mais alta é a posição de um homem, tanto mais é instável; e, quanto mais terrível sua queda pode ser, tanto mais ele tem fé na duração ilimitada da organização existente, que lhe permite cometer violências e crueldades com a maior e a mais perfeita tranquilidade de espírito, como se não agisse em interesse próprio, mas somente no interesse do regime. Tal é a situação de todos os funcionários que ocupam posições mais lucrativas do que as que poderiam ocupar com outra organização; dos mais humildes policiais à mais alta autoridade.

Mas os camponeses, os soldados, os posicionados em graus inferiores da escala social, que não obtêm benefício algum desta ordem, que se encontram na mais ínfima e mais humilde posição, por que, então, acreditam que esta ordem é exatamente a que deve existir e que, portanto, se deve manter, até com o preço de atos contrários à consciência? Quem os obriga a acreditar nesta imutabilidade, já que é evidente que só é imutável porque eles a mantêm? Quem obriga estes camponeses, tirados ontem do arado e metidos em trajes desajeitados e inconvenientes, de colete azul e botões dourados, a irem, armados de fuzis e espadas, assassinar seus pais e seus irmãos famintos? Estes já não têm interesse algum na conservação do atual regime e não podem recear perder sua posição, já que esta é bem pior do que aquela da qual foram arrancados.

Os chefes, com frequência bons, humanos, além do proveito que obtêm, são capazes de participar de semelhantes atos porque sua participação limita-se à instigação, às decisões, às ordens. Ademais, sequer vêem como são cometidas todas essas atrocidades por eles provocadas ou ordenadas. Mas os desgraçados das classes inferiores que, sem o menor proveito — são, antes, desprezados — arrancam com as próprias mãos homens de suas famílias, amarram-nos, prendem-nos, deportam-nos, vigiam-nos, fuzilam-nos, e por que o fazem? Todas as violências só podem ser cometidas graças a sua obra. Sem elas, nenhum daqueles homens que assinam as sentenças de morte, de prisão e de reclusão perpétua ter-se-ia jamais decidido a enforcar, a prender, a martirizar, pessoalmente, a milésima parte daqueles que, de seu gabinete, ele com tanta tranquilidade fez enforcar e martirizar, apenas porque não o vê, porque não o faz pessoalmente, mas porque o manda fazer a distância, por seus submissos executores. Todas estas injustiças e crueldades tornam-se habituais somente porque existem pessoas sempre prontas para cometê-las servilmente, pois, se estas não existissem, aqueles que dão as ordens nunca teriam sequer ousado sonhar com o que ordenam com tamanha desenvoltura, e ninguém ousaria afirmar, como fazem hoje todos os proprietários ociosos, que a terra que rodeia os camponeses miseráveis pertence a um homem que não a cultiva e que as reservas de trigo, debulhadas pelos agricultores, devem ser conservadas intactas em meio a uma população faminta, porque os comerciantes devem ganhar imais.

Se estes executores não existissem, o proprietário nunca teria tido a ideia de roubar aos mujiques a floresta que cultivaram, nem os funcionários públicos a de considerar legítimos seus ordenados, tirados do povo faminto, que ganham oprimindo o povo ou perseguindo homens que rechaçam a mentira e pregam a verdade.

Todas estas ações, como as de todos os tiranos, de Napoleão ao último comandante de companhia que abre fogo contra a multidão, não se explicam senão porque estes estão inebriados pelo poder que lhes confere a submissão de homens prontos a cumprir todas suas ordens e com os quais sentem contar. Toda a força reside, então, nos homens que cometem com suas próprias mãos os atos de violência, nos homens que servem na polícia, no exército, sobretudo no exército, porque a polícia só age quando sente o exército por trás de si.

O que, então, levou estas massas honestas, das quais tudo depende, a acreditar nesta surpreendente aberração, que um regime tão mortífero deva necessariamente existir? Quem, então, as fez cair num erro tão grosseiro? Estes homens, é claro, não se puderam convencer, por si mesmos, que devem fazer o que é contrário a sua consciência, nocivo e mortífero para eles e para toda sua classe, que representa nove décimos da população.

"Como poderei matar homens, quando a lei de Deus diz: 'Não matarás'?"

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