Perguntei mais de uma vez a diversos soldados. Deixava-os sempre embaraçados recordando-lhes, com esta pergunta, algo em que não queriam pensar. Sabiam que existe uma lei de Deus obrigatória: Não matarás, e sabiam também que existe um serviço militar obrigatório, mas nunca haviam pensado que nisto houvesse uma contradição. O sentido das respostas tímidas que obtinha era sempre que matar na guerra, ou condenar à morte um bandido por ordem da autoridade, não entra na proibição geral. Mas, quando eu dizia que esta distinção não está escrita na lei de Deus e recordava a obrigação, para todos, da doutrina cristã, da fraternidade, do perdão às ofensas, do amor, que em caso algum pode se conciliar com o homicídio, os homens do povo davam-me geralmente razão, mas por sua vez perguntavam-me: "Como é então possível que o governo (que, em sua opinião, não pode errar) mande o exçrcito à guerra e faça justiçar os delinquentes?" Quando eu respondia que o governo age mal dando estas ordens, meu interlocutor perturbava-se ainda mais e interrompia a conversa ou se irritava comigo.
"E provável que tenha sido encontrada uma lei para isto, quero acreditar que os arcebispos sejam tão sábios quanto o senhor" — respondeu-me um soldado. Depois, absolutamente certo de que seus chefes encontraram uma lei que autorizava seus avós, seus herdeiros e milhões de homens, e a ele próprio a servir o exército, sentiu-se visivelmente tranquilizado e convenceu-se de que eu simplesmente recorria a uma astúcia, que o colocava diante de uma espécie de adivinhação.
Todos os homens de nosso mundo cristão sabem, de forma absoluta e pela tradição, pela revelação, pela consciência, que o homicídio é um dos maiores delitos que possa cometer um homem, como está dito no Evangelho, e que este delito não pode ser limitado, isto é, que matar seja um pecado para uns e não o seja para outros. Todos sabem que é sempre pecado, qualquer que seja a vítima. É um pecado como o adultério, como o furto ou qualquer outro. Contudo, os homens vêem, desde a sua infância, que o homicídio não só é admitido, mas também abençoado por aqueles que são considerados como seus guias espirituais, designados pelo próprio Deus, e vêem também os chefes leigos portarem, com perfeita tranquilidade e até com orgulho, armas mortais e, em nome da lei, exigirem dos cidadãos, e até mesmo de Deus, sua participação nos assassinatos. Os homens sentem, em tudo isto, uma contradição, mas, não podendo resolvê-la, supõem que seja aparente e que resulte apenas de sua ignorância.
Sua convicção é consolidada pela mesma rudeza e pela evidência desta contradição. Não podem imaginar que aqueles que caminham à testa da civilização possam pregar com tanta desenvoltura duas obrigações que lhes parecem tão opostas: a lei cristã e o homicídio. Uma simples criança, não corrupta, depois adolescente, não pode imaginar que homens que ocupam tão alta posição em sua estima possam, por um objetivo qualquer, enganar a todos tão impudicamente.
Entretanto, isto é feito e não deixa de sê-lo. Isto é feito, primeiro, porgue a todos os trabalhadores, que não têm tempo para examinar eles mesmos as questões morais e religiosas, é sugerido, desde a infância, pelo exemplo e pelo ensinamento, que a tortura e o homicídio são conciliáveis com o cristianismo e que, em determinados casos, não só podem como até mesmo devem ser usados; segundo, porque, para alguns deles, alistados no exército, seja para o serviço obrigatório, seja voluntariamente, se sugere que aplicar com as próprias mãos a tortura e cometer homicídio é um dever sagrado e também um feito glorioso, digno de louvor e recom- pensa.
Esta mentira universal é difundida por todos os catecismos e por livros que os substituem e que servem, hoje, a instrução obrigatória. Neles se diz que a violência, a tortura, o aprisionamento e as execuções capitais, como também o assassinato durante a guerra civil ou estrangeira, que têm o objetivo de manter e defender a ordem social existente, seja qual for — monarquia absoluta ou constitucional, convenção, consulado, império, república ou comunas — são absolutamente legítimas e não contradizem a moral, ou o cristianismo.
E os homens persuadem-se tão bem de tudo isto que crescem, vivem e morrem nesta convicção, sem nunca duvidar um só instante.
Esta é a mentira universal, mas existe também a mentira especial, própria para os soldados e policiais que cometem as crueldades e os homicídios necessários à manutenção da ordem atual.
Em todos os códigos militares se diz, mais ou menos nos mesmos termos, o que se lê no código militar russo: § 87. Cumprir rigorosamente e sem observações as ordens superiores, quer dizer, cumpri-las sem discutir se são boas ou más ou se sua execução é possível. Somente o chefe é responsável pelas consequências de sua ordem.
§ 88. O subordinado não deve desobedecer às ordens do chefe, exceto no caso em que veja claramente que, obedecendo, viola... (espera que se diga, no caso em que viole a lei de Deus? Absolutamente), quando vê claramente que viola o juramento de fidelidade ao soberano.
Neste código está dito que o homem, quando é soldado, pode e deve executar, sem exceção, todas as ordens do chefe; ora, constituindo-se estas ordens, sobretudo, em homicídios, ele deve, conseqiientemente, violar todas as íeis divinas e humanas, mas não deve violar seu juramento de fidelidade àquele que, em um dado momento, se encontra por acaso no poder. E não pode ser diferente, pois todo o poder do Estado repousa sobre esta mentira. Eis aqui a razão da estranha crença das classes inferiores de que a ordem atual, para elas tão mortífera, é exatamente a que deve existir, e que se deve mante-la com a tortura e com o homicídio.
Nos últimos dias, fui novamente testemunha desta mentira desavergonhada e cínica e, de novo, admirei-me de que ela possa ser perpetrada tão despudoradamente. No princípio do mês de novembro, passando por uma cidade do interior, vi outra vez, às portas desta, a multidão que tão bem conheço e a cujo burburinho se mesclavam as vozes embriagadas dos homens e os lamentos das mães e das mu- lheres. Era o conselho de revisão. Jamais consigo passar adiante desse espetáculo sem parar; ele parece atrair-me a contragosto, como por fascínio. Misturei-me então à multidão, olhando, interrogando, e fui surpreendido pela liberdade com que se comete este grande delito em plena luz do dia e no coração de uma cidade.
Como em todos os anos, a 1? de novembro, em todos os burgos e em todos os vilarejos desta Rússia de cem milhões de habitantes, os estarostes* reuniram os homens inscritos em determinadas listas, às vezes até os próprios filhos, e con- duziram-nos à cidade. Pela estrada, bebia-se, sem que os recrutas fossem impedidos pelos anciãos, porque dispor-se a executar algo tão insensato, abandonando mulher, filhos, mães e tudo o que se tem de mais caro, simplesmente para se transformar numa arma passiva de destruição, seria demasiado cruel se não se atordoassem com vinho.
*Chefe da administração, na Rússia czarista, das comunidades rurais. (N. do E.)
Ei-los, portanto, escorregando nos trenós, fazendo festa, blasfemando, cantando, empurrando-se e passando a noite nas tabernas. Pela manhã, armaram-se de coragem, esvaziando novos copos, e reuniram-se diante dos muros do município.
Lá estão, cobertos de casacos de pele de carneiro, novos em folha, com cachecóis de lã no pescoço, olhos inchados pela bebida, uns gritando selvagemente para excitar-se, outros calmos e tristes; aglomeram-se junto à porta, esperando seu turno, cercados pelas mães e mulheres com os olhos cheios de lágrimas. Outros comprimem-se no vestíbulo do escritório de recrutamento.
Lá dentro, neste ínterim, o trabalho avança rapidamente. A porta abre-se e o guarda chama Petro Sidorov. Este estremece, faz o sinal-da-cruz e entra num pequeno quarto com uma porta de vidro, onde se desnudam os recrutados. Um companheiro de Petro Sidorov, que àquela altura havia sido declarado apto para o serviço e saiu completamente nu da sala do conselho de revisão, com os maxilares tremendo, veste- se apressado. Sidorov já percebeu e aliás vê, pelo rosto de seu companheiro, que ele foi declarado apto para o serviço.
Quer interrogá-lo, mas chamam-no e ordenam-lhe que se dispa o mais depressa possível. Ele tira o casaco de pele de carneiro, as botas, descalçando um pé com o outro, depois o colete; tira a camisa virando-a pelo avesso e, com os quadris sobressaindo, inteiramente nu, o corpo todo tremendo e exalando odor de vinho, de tabaco e de suor, entra na sala do conselho, não sabendo onde colocar os braços musculosos.
Na sala, em evidência, está suspenso na parede, numa moldura dourada, o retrato do imperador, em uniforme de gala, com um grande cordão ao pescoço, e, num canto, um pequeno retrato de Cristo, sem camisa e coroado de espinhos. No meio da sala está colocada uma mesa coberta por um pano verde, sobre o qual estão papéis e um bibelô triangular, encimado por uma águia, chamado o espelho da justiça.
Ao redor da mesa estão sentados os membros do conselho, com ar desenvolto e tranquilo. Um fuma um charuto, um outro consulta documentos.
Tão logo Sidorov entra, o guarda aproxima-se e coloca-o de braços abertos, erguendo-lhe bruscamente o queixo e arruma-lhe os pés. O homem do charuto aproxima-se — é o médico — e, sem olhar para seu rosto, apalpa com repugnância o corpo do recrutado, mede-o, ausculta-o, fá-lo abrir a boca pelo guarda, fá-lo respirar, falar. Alguém escreve algo. Enfim, sem havê-lo encarado uma só vez, diz: "Apto! Que venha outro." E, com ar cansado, volta e senta-se.
Novamente, o guarda empurra o rapaz, apressa-o. Este recoloca rapidamente, como pode, a camisa, mal encontrando a abertura das mangas, abotoa precipitadamente as calças, recoloca as botas, procura o cachecol, o gorro, põe o casaco sob o braço e reconduzem-no à sala do conselho, separando-o dos outros por um banco. Ali esperam os recrutados reconhecidos aptos ao serviço. Um jovem, camponês como ele, mas de uma província longínqua, já soldado, armado de um fuzil com uma baioneta na ponta, vigia-o, pronto a trespassá-lo caso lhe viesse a ideia de fugir.
Entrementes, a multidão de pais, mães e mulheres, empurrada pela guarda municipal, comprime-se à porta, ansiosa para saber quem é declarado apto e quem está salvo.
Sai um reformado que declara que Petro está retido e, no mesmo instante, ouve-se um grito da jovem esposa dele, para quem a palavra "retido" significa separação por quatro ou cinco anos e uma vida de mulher de soldado, como serva, na devassidão.
Mas eis que naquele momento chega em coche um homem de cabelos longos e vestido com um traje que o distingue dos outros; aproxima-se da porta da sede do município. A guarda municipal abre-lhe uma passagem em meio à multidão. É o "padre" que veio para fazer prestar o juramento. E então este "padre", a quem se fez crer que é o servidor particular, exclusivo, de Cristo, e que na maior parte do tempo não vê, ele mesmo, a mentira pela qual está cercado, entra na sala do conselho onde o esperam os recrutados. Ele veste por sobre o hábito, à guisa de veste, um cortinado de brocado, solta os longos cabelos, abre aquele mesmo Evangelho onde está proibido o juramento, segura a cruz, a mesma cruz em que foi pregado Cristo por não ter querido fazer o que ordena seu suposto servidor, coloca-os na estante, e todos aqueles jovens infelizes, sem defesa e enganados, repetem depois dele a mentira que pronuncia em tom firme e habitual. Lê e os outros repetem: "Prometo e juro por Deus onipotente e diante de seu Santo Evangelho etc..." defender (isto é, com homicídio) todos aqueles que me serão indicados e fazer tudo o que me ordenarão meus superiores (homens que não conheço e que precisam de mim para oprimir os meus irmãos e cometer os delitos que os conservem em suas posições).
Todos os recrutados repetem estupidamente estas palavras selvagens. Depois este pretenso "padre" se vai, persuadido de haver conscienciosa e corretamente cumprido seu dever, enquanto aqueles jovens enganados estão convencidos de que as palavras néscias, ininteligíveis que pronunciaram, os dispensam, por todo o tempo de seu serviço, de qualquer obrigação humana, e lhes criam outras, novas e mais rigoro- sas: as obrigações do soldado.
E este ato é cometido publicamente e ninguém grita aos enganadores e aos enganados: "Reflitam! É uma mentira, a mais vil e mais pérfida mentira que perde não só vossos corpos, mas também vossas almas." Ninguém o faz. Aliás, concluída a operação, como para zombar dos recrutados, o coronel entra com ar solene na sala onde estão trancafiados e grita-lhes militarmente: "Bom dia, jovens! Felicito-os por vê-los entrarem ao serviço do czar." E os desventurados (alguém já lhes ensinou) balbuciam com a língua inábil e ainda pesada pelos excessos da véspera algumas palavras que parecem querer manifestar contentamento.
Fora, a multidão de parentes continua esperando, à porta. As mulheres, com os olhos vermelhos de lágrimas, têm o olhar fixo na porta. Esta finalmente se abre e os recrutados reconhecidos aptos ao serviço saem cambaleantes, mas aparentando coragem. Evitam olhar para seus parentes. De repente, irrompem os gritos e gemidos das mães e mulheres. Alguns atiram-se em seus braços e choram, outros conseguem conter-se, outros consolam-nas. As mães, as mulheres, sabendo que agora ficarão abandonadas, sem sustento, por três, quatro ou cinco anos, gritam e lamentam-se em voz alta. Os pais falam pouco. Estalam a língua com tristeza e suspiram. Cada um deles sabe que não verá mais o companheiro, o ajudante criado e formado com tanto sacrifício; cada um deles sabe que, na maioria das vezes, estes jovens não retornarão mais como são agora, agricultores, dóceis e trabalhadores, e sim dissolutos e velhacos desabituados da vida simples.
Enfim, a multidão sobe novamente nos trenós e segue pela estrada em direção às tascas e tabernas e mais e mais alto ainda ecoam confusamente os cantos, o pranto, os gritos bêbados, os lamentos das mães e das mulheres, os sons dos órgãos e as blasfémias. Vão gastar seu dinheiro nas tabernas e nos empórios, cujo comércio constitui uma das rendas do governo. E já começa a festa que neles sufoca o sentimento de injustiça do qual são vítimas.
Permanecem duas ou três semanas em casa, onde se embriagam quase constantemente.
Então, no dia marcado, são reunidos como um rebanho e começam a ensinar- lhes os exercícios militares.
Os instrutores são homens iguais a eles, mas que foram enganados e embrutecidos um, dois ou três anos antes. Os métodos para instruí-los são a mentira, o embrutecimento, as surras e a aguardente. Em menos de um ano, aqueles jovens, sãos de corpo e alma, inteligentes, bons, tornam-se seres selvagens como seus instrutores.
— Muito bem! E se teu pai, preso, quisesse fugir, o que farias? — perguntei a um jovem soldado.
— Trespassá-lo-ia com minha baioneta — respondeu-me ele com a voz estúpida, própria dos soldados — e, se ele "escapar", eu deverei abrir fogo contra ele — acrescentou, visivelmente orgulhoso por saber o que deveria fazer caso seu pai escapasse.
Então, quando o bom rapaz descer mais baixo que as feras, tornar-se-á aquilo que deve ser para os que o usaram coimo instrumento de violência. Ele está pronto: o homem está perdido e o novo instrumento de violência foi fabricado. E tudo isto é cometido a cada outono, por toda parte, em toda a Rússia, à luz do dia, no meio da cidade, diante e com o conhecimento de todos, e o engano é tão hábil que, mesmo co- nhecendo no fundo da alma toda sua infâmia, todos o temem e não se podem libertar dele.
Quando os olhos se abrem para esta terrível mentira, ficamos estupefatos ao ver os pregadores da religião cristã, da moral, os mestres da juventude ou simplesmente os bons pais inteligentes, que sempre se encontram em qualquer sociedade, pregar não importa que doutrina moral nesta sociedade em que se reconhece abertamente que a tortura e o homicídio constituem a condição indispensável da existência dos homens, e que dentre nós devem-se sempre encontrar seres especiais, prontos para matar seus irmãos, e aos quais cada um de nós pode se tornar semelhante.
Como, então, ensinar às crianças, aos adolescentes, a todos em geral, sem sequer falar da instrução cristã, de alguma doutrina moral, doutrina social que prega ser o assassinato necessário para manter-se o bem-estar geral e que, por isto mesmo, legitimamente, existem homens (entre os quais poderemos estar também nós) que são obrigados a violentar e matar os seus, semelhantes, por vontade daqueles que detêm o poder? Se uma tal doutrina é possível, não fia è não pode haver qualquer doutrina moral, não há senão o direito do mais forte. Na realidade, essa doutrina, justificada por alguns como teoria da luta pela existência, é dominante em nossa sociedade.
De fato, como pode uma doutrina moral admitir a necessidade do homicídio por um objetivo qualquer? Isto é tão inadmissível, quanto uma teoria matemática que admitisse que dois é igual a três. Reconhecer como sagrada a vida de cada homem é a primeira e a única base de qualquer moral.
A doutrina do olho por olho, dente por dente e vida por vida exatamente anulada pelo cristianismo porque nada mais é do que a justificação da imoralidade e uma aparência de equidade sem sentido algum. A vida é um valor que não tem peso nem medida e não pode ser comparado a qualquer outro e, portanto, a destruição da vida pela vida não faz sentido algum. Ademais, toda lei social tem como objetivo a melhoria da existência. Como então, a destruição da vida de alguns homens poderia melhorar a dos outros em geral? A destruição de uma vida não é um ato de melhoria, mas um suicídio.
Este ato é semelhante ao que cometeria um homem que, desejando remediar a desgraça que lhe adveio de perder um braço, para ser justo cortasse também o outro. Sem falar da mentira que permite considerar o crime mais terrível como uma obrigação; sem falar do estarrecedor abuso que se faz do nome e da autoridade de Cristo para legitimar uma ação por ele condenada; sem falar da tentação com que se mata não só o corpo, mas também a alma "dos pequeninos"; como podem os homens tolerar, ainda que para sua própria segurança, essa força estúpida, cruel e mortífera que representa todo governo organizado que se apoia no exército? A quadrilha dos mais ferozes bandidos oferece uma ordem menos terrível. O poder de todo chefe de bandidos é, por si mesmo, limitado pelo fato que aqueles que formam a quadrilha gozam ao menos de um pouco de liberdade e podem se opor ao cumprimento dos atos contrários a sua consciência. Ao contrário, graças ao apoio do exército, nenhum obs- táculo incomoda os homens que fazem parte de um governo organizado. Não existe delito que os homens pertencentes ao governo e ao exército não estejam prontos a cometer, a uma ordem daquele que o acaso colocou no comando. Muitas vezes, quando se assiste à convocação de recrutas, aos exercícios militares, às manobras, ou quando se vê guardas com revólveres carregados, sentinelas com fuzis armados de baionetas, quando se ouve por dias inteiros (como ouço em Khamovniki, onde moro) o sibilo das balas e o barulho delas no alvo, e quando, no centro da cidade, onde qualquer tentativa de violência pessoal, de venda de munição, de comércio ilícito de medicamentos, de exercício da medicina sem diploma etc. é proibida, se vêem milhares de homens disciplinados, submetidos a um único homem, exercitarem-se no homicídio, devemos nos perguntar: como podem os homens que prezam sua segurança admitir e suportar tudo isso com tranquilidade? Porque, sem falar da imoralidade, nada é mais perigoso. Que fazem então todos aqueles — não digo cristãos, pastores cristãos, filantropos, moralistas — mas simplesmente aqueles que prezam sua vida, sua segurança, seu bem-estar? Esta organização social funcionará do mesmo modo nas mãos de um chefe de Estado moderado; mas amanhã ela pode passar para as mãos de um Biron, de uma Elisabeth, ou uma Catarina, de um Pugatscev, de um Napoleão I ou de um Napoleão III. E até o chefe moderado que hoje detém nas mãos o poder pode, amanhã, transformar-se numa fera, ou pode ter como herdeiro um louco ou um extravagante, como o rei da Baviera ou Paulo I.
E não apenas o chefe de Estado, mas todos os pequenos déspotas que estão espalhados por toda a parte, os governadores, os chefes de polícia, até os comissários, os chefes das companhias podem cometer os mais graves delitos antes que se tenha tempo de substituí-los. E isto realmente acontece! Perguntamo-nos, então, a contragosto, como podem os homens tolerar tudo isto, mesmo prezando sua própria segurança? Pode-se responder que isto não é tolerado por todos os homens (a maioria, enganada e submissa, nada tem a tolerar ou a proibir). Isto é tolerado unicamente por aqueles que, em tal organização, ocupam uma posição vantajosa. Estes toleram porque as desvantagens que lhes adviriam da presença de um louco à frente do governo e do exército são sempre menores do que as que para eles resultariam do desaparecimento da própria organização.
Um juiz, um comissário de polícia, um governador, um oficial ocuparão indiferentemente sua posição numa monarquia ou numa república; mas perdê-la-iam certamente se desaparecesse a ordem que a assegura. Por isso todos estes indivíduos não receiam ver quem quer que seja à frente da organização da violência: far-se-ão acolher bem por todos. Por isso sustentam sempre o governo e, muitas vezes, inconscientemente.
Deve causar assombro ver homens livres, que não serão de modo algum obrigados — porquanto são a fina flor da sociedade — tornarem-se militares na Rússia, na Inglaterra, na Alemanha, na Áustria e até mesmo na França, e desejarem ocasiões de massacre. Por que os pais, pessoas honestas, colocam seus filhos nas escolas militares? Por que as mães lhes compram, como brinquedos preferidos, capacetes, fuzis, espadas? (É preciso notar que os filhos dos camponeses nunca brincam de soldados.) Por que homens bons e até mulheres nada têm a ver com o militarismo, com os feitos de Skobelev* e outros, não param de falar quando começam a louvá-los? Por que homens que não são de modo algum obrigados, que não recebem por necessidade ordenado algum, como por exemplo os marechais da nobreza na Rússia, dedicam meses inteiros a um trabalho fisicamente penoso e moralmente doloroso, qual seja o recrutamento? Por que todos os imperadores e reis usam o traje militar? Por que são feitas manobras, revistas, distribuídas recompensas aos militares e erguidos monumentos aos generais e aos conquistadores? Por que homens livres, ricos, consideram uma honra as funções de lacaio junto aos soberanos, humilhando- se diante deles, adulando-os e fingindo acreditar em sua superioridade particular? Por que homens que de há muito não crêem em superstições religiosas da Idade Média fingem crer seriamente na cruel instituição da igreja e a sustentam? Por que não só os governos, mas também as classes superiores, procuram tão zelosamente manter os homens na ignorância? Por que os historiadores, os romancistas, os poetas, que nada podem obter em troca de suas lisonjas, pintam como heróis certos imperadores, reis, chefes militares de há muito mortos? Por que homens que se dizem inteligente dedicam vidas inteiras à criação de teorias segundo as quais a violência cometida contra o poyo pelo poder é uma violência legítima, um direito?
*General russo que em 1877 comandou a conquista, para seu país, do Turquestão. (N. do E.)
Causa assombro ver uma senhora de alta classe, ou um artista, que não parecem se interessar pelas questões sociais ou militares, condenarem as greves dos operários, pregarem a guerra e sempre, sem hesitação, atacarem um campo e defenderem o outro.
Mas não causa assombro até o momento em que se compreenda que isto acontece apenas porque todos os membros s classes dirigentes sentem instintivamente o que mantêm o que destrói a organização graças à qual podem desfrutar de privilégios.
A senhora de alta classe nem sequer pensou que, se não existissem capitalistas ou exércitos para defendê-los, seu marido não teria dinheiro e ela não teria um salão e ricos vestidos; e nem o pintor pensou nos capitalistas defendidos pelo exército, que lhe são necessários para a venda de seus quadros; mas o instinto, que neste caso substitui o raciocínio, é o guia mais seguro. E é o mesmo instinto que guia, salvo raras exceções, todos os homens que sustentam as instituições políticas, religiosas, económicas, por lhes serem estas úteis.
Mas podem, talvez, os homens das classes superiores realmente sustentar esta organização somente por nela estarem interessados? Eles não podem deixar de ver que esta organização é irracional, que não mais corresponde ao grau de desenvolvimento moral dos homens, da opinião pública, e que está repleta de perigos. Os homens das classes dirigentes, honestos, bons, inteligentes, não podem deixar de sofrer com estas contradições e de ver os perigos que os ameaçam. Podem, talvez, os milhões de homens das classes inferiores cometer, com a consciência tranquila, todos os atos evidentemente maus que cometem apenas por temor ao castigo? Na verdade, isto não poderia acontecer, e nem uns nem outros poderiam deixar de ver a demência de seus atos, se os articuladores da organização social não a escondessem de seus olhos.
Tanto instigadores e cúmplices quanto indiferentes colaboram para cada um destes atos pelos quais ninguém se considera moralmente responsável.
Os assassinos obrigam todas as testemunhas do homicídio a ferir a vítima já morta, com o intuito de dividir a responsabilidade entre o maior número possível de pessoas. O mesmo acontece na ordem social quando se cometem todos os delitos sem os quais a mesma não poderia existir. Os governantes procuram sempre englobar o maior número de cidadãos na realização de todos os atos criminosos que têm interessem cometer.
Nestes últimos tempos, este fat o manifestou-se de um modo bastante evidente, com a convocação dos cidadãos aos tribunais na qualidade de jurados, ao exército na qualidade de lidados e à administração comunal ou legisladora na qualidade de eleitores ou eleitos.
Graças à organização governamental, como num cesto de vime onde as pontas estão tão bem escondidas que se torna difícil encontrá-las, as reponsabilidades são tão bem dissimuladas que os homens, sem se perceberem em quais incorrem, cometem os mais terríveis atos.
Nos tempos antigos, acusavam-se os tiranos dos delitos cometidos, enquanto hoje cometem-se atrocidades, impossíveis na época de Nero, sem que se possa acusar alguém.
Uns pediram, outros propuseram, outros ainda relataram e assim, sucessivamente, os demais decidiram, confirmaram, ordenaram e finalmente executaram. Enforcam-se, açoitam-se até a morte mulheres, velhos, inocentes, como recentemente entre nós, na Rússia, na fábrica de Iusov — ou, como se faz por toda parte na Europa e na América, tia luta contra os anarquistas e outros revolucionários: fuzilam-se, matam-se centenas, milhares de homens; ou como se faz na guerra: massacram-se milhões de homens; ou, como se faz sempre: arruínam-se homens com a prisão celular, com a desonestidade das demais e ninguém é responsável.
No mais baixo grau da escala social, os soldados, armados de fuzis, pistolas, espadas, violentam, matam e, com estas violências e assassinatos, obrigam os homens a entrar no serviço militar, e estão absolutamente certos de que a responsabilidade por estes atos cabe unicamente aos chefes que os comandam.
No grau mais alto, o rei, o presidente, os ministros, os parlamentos, ordenam as violências, as mortes e o recrutamento, e estão absolutamente certos de que, tendo sido postos no poder pela graça de Deus, ou pela sociedade que governam e que lhes pede exatamente aquilo que ordenam, não podem ser responsáveis.
Entre uns e outros encontra-se uma classe intermediária que inspeciona a execução das violências e está absolutamente convencida de que sua responsabilidade é anulada, em parte pela ordem dos superiores, em parte pelo fato de que estas ordens são solicitadas por todos aqueles que se situam no grau inferior da escala.
A autoridade que comanda e a autoridade que executa, situadas nas duas extremidades da ordem governamental, unem-se como as duas pontas de um elo: dependem uma da outra e mantêm-se reciprocamente.
Sem a convicção de que uma ou mais pessoas assumem a responsabilidade pelos atos cometidos, soldado algum ousaria erguer o braço para cometer uma violência. Sem a convicção de que isto é pedido por todo o povo, nenhum imperador, rei, presidente, nenhuma assembleia ousariam ordenar semelhantes violências. Sem a convicção de que existem superiores que assumem a responsabilidade por tais atos e inferiores que os pedem para seu bem, nenhum homem da classe intermediária ousaria cooperar com a execução dos atos de que é encarregado.
A organização governamental é tal que, em qualquer grau da escala social que se encontre, a responsabilidade de cada homem é sempre a mesma. Quanto mais alto está situado na escala, mais sofre a influência das exigências de baixo e menos é submetido à influencia das ordens de cima.
Mas, além dos homens interligados pela ordem governamental, atribuem-se mutuamente a responsabilidade dos atos cometidos — o camponês, alistado como soldado, às ordens de nobres e às ordens de negociantes saídos das escolas como oficiais; o oficial, às ordens do nobre que ocupa o cargo de governador; o governador, às ordens do ministro; o ministro, às ordens do soberano; o soberano, por sua vez, às de todos: funcionários, nobres, negociantes, camponeses. Perdem todos a consciência de sua responsabilidade, até porque, formando-se numa organização governamental, persuadem-se mutuamente e persuadem os outros, por tanto tempo e de forma tão constante, de que não são iguais entre si, que acabam eles mesmos acreditando sinceramente nisso. Assim, garante-se a uns que são homens especiais, que devem ser especialmente honrados; a outros sugere-se por todos os meios possíveis que estão abaixo de todos os outros homens e que, portanto, se devem submeter, sem reclamar, às ordens dos superiores.
Sobre essa desigualdade, sobre a elevação de uns e humilhação de outros, baseia-se sobretudo a faculdade dos homens de não se aperceberem da loucura da vida atual, de sua crueldade e das mentiras que cometem uns e de quem são vítimas outros.
Uns — aqueles a quem foi sugerido estarem empossados de uma grandeza e importância especiais — estão a tal ponto inebriados com essa grandeza imaginária que não vêem sua responsabilidade nos atos que cometem; outros — aqueles a quem, ao contrário, faz-se acreditar serem seres inferiores que a tudo se devem submeter e por consequência sofrem uma humilhação constante — caem num estranho estado de servilismo embrutecido e, sob a influência deste embrutecimento, sequer vêem a importância de seus atos e perdem a consciência da responsabilidade. A classe intermediária, em parte submissa aos superiores, em parte considerando-se ela própria superior, está simultaneamente inebriada pelo poder e pelo servilismo e, em consequência, perde a consciência de sua responsabilidade.
Basta lançar um olhar, durante uma revista, ao comadante superior, todo orgulhoso de sua importância, acompanhado de seu séquito em cavalos magníficos e paramentados, todos os oficiais em esplêndidos uniformes, ornados de condecorações, quando, ao som das trombetas harmoniosas e solenes, este comandante passa frente às tropas que, petrificadas de servilismo, apresentam-lhe as armas, basta ver tudo isto para compreender que, naquele momento, encontrando-se naquele estado de embriguez máximo, o comandante, os oficiais e os soldados podem cometer atos tais que jamais teriam ousado em outras circunstâncias.
A embriaguez que experimentam os homens sob influência destas excitantes revistas, paradas militares, solenidades religiosas, coroações é um estado agudo e provisório, mas existem outros estados de embriaguez crónica: o dos homens que detêm uma partícula qualquer do poder, do soberano ao mais humilde policial, e o dos homens que se submetem ao poder e que estão tão embrutecidos pelo servilismo que, para justificar esse estado, atribuem sempre, como todos os escravos, a maior importância e a mais alta dignidade àqueles a quem obedecem.
Repousa principalmente sobre esta mentira, da desigualdade entre os homens, e sobre a embriaguez do poder e do servilismo que dela resulta, a capacidade dos homens, constituídos em organização social, de cometerem sem remorso atos contrários a sua consciência.
Sob a influência desta embriaguez, os homens acreditam-se seres especiais — nobres, comerciantes, governadores, juizes, oficiais, soberanos, ministros, soldados — que não mais têm deveres humanos ordinários mas, antes de tudo, os deveres da classe à qual pertencem.
Assim, aquele latifundiário, que abriu o processo relativo à floresta, agiu porque não se acreditava mais um homem comum como os camponeses, seus vizinhos, com os mesmos direitos de viver, mas um grande proprietário, um membro da nobreza e, então, sob a influência da embriaguez do poder, sentia-se ofendido com a resistência dos camponeses. Foi unicamente por este motivo que, não obstante as possíveis consequências, apresentou o pedido de reintegração de seus supostos direitos. Assim também, os juizes, que atribuíram injustamente a propriedade da floresta ao latifundiário, fizeram-no apenas porque não se consideram homens como os outros, que se devem deixar guiar unicamente pela verdade, mas, sob a influência da embriaguez do poder, acreditam-se representantes de uma justiça que não se pode enganar e, simultaneamente, sob a influência do servilismo, sentem-se obrigados a aplicar determinados textos de um certo livro chamado Código. Assim, também, todas as outras pessoas que participaram deste caso, dos representantes das autoridades superiores ao último soldado pronto a disparar contra seus irmãos, também eles se consideram personagens convencionais. Nenhum deles se pergunta se deve ou não participar de um ato que sua consciência reprova, mas cada um se acredita investido de uma missão especial; um, czar, ungido pelo Senhor, ser excepcional chamado a velar pela felicidade de cem milhões de homens; outro, representante da nobreza; outro, padre, que recebeu a graça pela ordenação; outro, soldado, obrigado pelo juramento a fazer sem raciocinar tudo que lhe é ordenado.
As posições convencionais, estabelecidas há centenas de anos, reconhecidas há séculos, indicadas por nomes e trajes especiais e sancionadas por diferentes solenidades, impõem-se a tal ponto aos homens que estes, esquecendo as condições normais da vida, não julgam suas ações e as dos outros senão do ponto de vista convencional.
Deste modo, um homem absolutamente são de espírito e já velho, pelo único fato de que lhe penduram alguns berloque ou lhe fazem vestir um traje ridículo, no qual dentro colocam chaves, ou sobre o peito um cordão azul, como conviria somente a uma mocinha vaidosa, e lhe dizem que é general, dignitário da corte, cavaleiro de Santo André, ou outra bobagem semelhante, torna-se subitamente orgulhoso, arro- gante e todo contente; e ao contrário, se perde ou não obtém o berloque ou a designação esperados, torna-se melancólico e infeliz, até a ponto de adoecer. Ou, ainda mais supreendente, um jovem de mente sã, livre e inteiramente a salvo das necessidades, pelo simples fato de que o nomearam juiz instrutor, prende uma pobre viúva, separa-a dos filhinhos que ficam abandonados — e por quê? — porque aquela infeliz vendia vinho escondido e frustrava assim o Tesouro de uma renda de 25 rublos; e ele não sente remorso algum. Ou então, o que é ainda espantoso, um homem honesto e dócil em todas as outras situações, pelo único fato de estar vestido com um uniforme, ou porque traz ao peito uma medalha, ou porque disseram-lhe que é guarda campestre ou guarda alfandegário, põe-se a disparar contra as pessoas; e aqueles que o rodeiam não só não o responsabilizam, mas até o considerariam culpado se não atirasse. E tudo isto sem falar dos juizes e dos jurados que condenam à morte, e dos militares que matam milhares de homens sem o menor remorso, apenas porque lhes foi sugerido não serem mais simplesmente homens, mas jurados, juizes, generais, soldados. Este estado anormal e estranho exprime-se com as seguintes palavras: "Como homem, ele causa-me piedade; como guarda campestre, juiz, general, governador, soberano, soldado, devo matá-lo ou martirizá-lo." Assim, por exemplo, no caso atual, certos homens, que vão violentar e matar os famintos, reconhecem que, no conflito entre os camponeses e o latifundiário, são os primeiros que têm razão (todos os chefes assim me confirmaram). Eles sabem que os camponeses são infelizes, pobres, famintos e que o proprietário é rico e não inspira a menor simpatia. E todos aqueles homens vão, ainda assim, matar os camponeses para assegurar ao latifundiário a posse de três mil rublos, só porque aqueles homens se acreditavam, naquele momento, já não homens, mas governadores, funcionários, generais de polícia, oficiais, soldados; e porque consideram seu dever obedecer, não às exigências eternas da consciência, mas a solicitações temporárias, ocasionais, de sua posição.
Por mais estranho que possa parecer, a única explicação para estes fenómenos surpreendentes é que esses homens se encontram no mesmo estado daqueles que são hipnotizados e que acreditam estar na posição sugerida pelo hipnotizador. Como, por exemplo, se fosse sugerido ao hipnotizado que é coxo e ele começasse a mancar, que é cego e ele não mais enxergasse, que é uma fera e ele começasse a morder, na mesma posição estão todos aqueles que cumprem seus deveres sociais e governamentais antes e em detrimento dos deveres humanos.
A diferença entre os hipnotizados usuais e aqueles que se encontram sob a influência da sujeição governamental está em que, de repente, aos primeiros é sugerida uma posição imaginária, por uma só pessoa e por pouquíssimo tempo, e que, por conseguinte, esta posição se nos apresenta de uma forma que nos surpreende por sua rapidez brusca, enquanto que a sujeição governamental se desenvolve pouco a pouco, insensivelmente, desde a infância, e algumas vezes não apenas durante anos, mas durante várias gerações, e não por meio de uma só pessoa, mas por meio de todos aqueles que nos rodeiam.
Mas, objetar-se-á, sempre, em todas as sociedades, que a maioria dos homens, todos os jovens, todas as mulheres, absortas nos deveres e nos cuidados da maternidade, toda a grande massa de trabalhadores, absortos em seu trabalho, todos os seres de mente fraca, anormais, todos os enfraquecidos intoxicados pela nicotina, pelo álcool, pelo ópio e por outras causas encontram-se, todos, na condição de não poderem pensar com independência e submetem-se àqueles que ocupam um grau intelectual mais alto, ou, continuando sob a influência das tradições domésticas e sociais, sujeitam-se ao que se chama de opinião pública, e nada existe de anormal e de contraditório nesta submissão.
E, de fato, nada há de anormal nisto: a tendência dos homens, que pouco raciocinam, para se submeterem às indicações daqueles com um grau mais alto de consciência é um fenómeno constante e necessário à vida em sociedade. Uns — a minoria — suieitâm-se constantemente aos princípios racionais, sempre os mesmos, em consequência de sua concordância com a razão; outros — a maioria — submetem- se aos mes mos princípios, inconscientemente, apenas porque a opinião pública o exige.
Uma tal submissão à opinião pública, por parte de homens que raciocinam pouco, não oferece nenhum caráter anormal, enquanto a opinião pública não se divide em duas. Mas chega um momento em que a consciência de uma verdade mais alta, após haver sido revelada a algumas pessoas, impõe-se gradativamente a um número tão grande de homens que a antiga opinião pública começa a vacilar para dar lugar à nova, já pronta para se estabelecer. Chega um momento em que os homens começam a ponderar seus atos, segundo os novos princípios, enquanto, na vida geral, por inércia, por tradição, continuam a aplicar os princípios que nos tempos antigos forma- vam o grau superior da consciência pensante, mas que, hoje, já se encontram em evidente contradição com ela.
Daí resulta uma situação anormal para todos, pertençam às classes superiores privilegiadas ou às classes inferiores submetidas a todas as ordens.
Os homens das classes dirigentes, não tendo mais a explicação sensata para seus privilégios, são obrigados, para conservá-los, a sufocar dentro deles os sentimentos superiores de amor e a reconhecer a necessidade de suas condições excepcionais, pois aqueles das classes trabalhadoras, oprimidas pelo trabalho e propositadamente embrutecidas, permanecem sob a constante influência das classes superiores.
Só assim se explica o surpreendente fenómeno do qual fui testemunha naquele dia 9 de setembro: homens honestos e pacatos, viajando em perfeita paz de espírito, para ir cometer o delito mais atroz, mais estúpido, mais vil.
Isto não significa que neles haja a total ausência de consciência que os proíbam de fazer o mal que se preparam para cometer; não, a consciência existe, mas está somente adormecida nos chefes, por aquilo que os psicólogos chamam de auto- sugestão, e nos executores e nos soldados, pelo hipnotismo das classes superiores.
Por mais adormecida que esteja, a consciência manifesta-se também através da auto-sugestão, e a sugestão começa a falar e dentro em pouco, a despertará.
Todos aqueles homens encontram-se na situação de um hipnotizado ao qual fosse ordenado um ato contrário a suas noções do bem e da justiça — por exemplo, matar sua mãe ou seu filho; sentindo-se vinculado à sugestão, parece-lhe que não pode parar, mas, por outro lado, mais se aproxima do momento e do lugar da execução, mais a voz da consciência sufocada nele desperta e mais procura reagir, acordar. E não se pode dizer antecipadamente se cometerá ou não o ato sugerido; não se pode saber se vencerá a consciência racional ou a sugestão irracional: tudo depende da força relativa de uma e de outra.
Houve um tempo em que os homens, partindo com um objetivo de violência e de mortes, para dar um exemplo, não retornavam senão após haver cumprido esta missão, sem remorsos ou dúvidas, mas tranquilamente; e, depois de desferidos os gol- pes, retornavam a suas famílias, acariciavam as crianças, brincavam, riam, abandonavam-se a todas as alegrias puras do aconchego doméstico. Naquele tempo, os homens que se beneficiavam de tais violências, os proprietários de terra e os capi- talistas, sequer suspeitavam que seus interesses tivessem uma ligação direta com estas crueldades. Hoje, os homens já sabem, ou estão perto de saber o que fazem e com que finalidade. Podem fechar os olhos è fazer calar á consciência, mas uma vez abertos os olhos e a consciência liberta, não mais podem — nem aqueles que dão as ordens — deixar de ver a importância dos atos cometidos. Acontece que os homens não compreendem a importância do que fizeram senão depois de tê-lo feito; pode também acontecer que o compreendam imediatamente antes de fazê-lo. Assim, os homens que ordenaram as violências de Nijni-Novgorod, de Saratov, de Orei, da fábrica de Iusov não compreenderam o significado de seus atos senão após havê-los cometido, e atualmente deles se envergonham, diante da opinião pública e diante de sua consciência, tanto os homens que deram quanto os que executaram as ordens. Falei sobre isto com alguns soldados, que se apressavam a mudar de assunto ou só falavam a respeito com repugnância.