Mas há casos em que os homens recuperam a noção exata dos fatos, imediatamente antes de cometer o ato. Conheço o caso de um sargento que havia sido espancado por dois mujiques durante a repressão de desordens e que fizera seu relatório; mas, na manhã seguinte, quando viu como eram maltratados outros camponeses, suplicou ao chefe de sua companhia que rasgasse o relatório e pusesse em liberdade os mujiques que o haviam espancado. Conheço um caso em que alguns soldados, designados para uma execução militar, recusaram-se a obedecer, e conheço muitos casos de oficiais que se recusaram a comandar execuções.
Os homens que viajavam no trem, em 9 de setembro, encaminhavam-se para matar e violentar seus irmãos, mas ninguém sabia se o fariam ou não. Por mais oculta que estivesse para cada um sua cota de responsabilidade neste fato, por mais fortes que fossem suas convicções de que não eram homens, mas funcionários ou soldados, e que, como tais, podiam violar todas as obrigações humanas, quanto mais se aproximavam do lugar da execução, mais devem ter hesitado.
O governador poderia deter-se no momento de dar a ordem decisiva. Sabia que a atitude do governador de Orei havia provocado a indignação dos homens mais honrados e, já ele próprio, sob a influência da opinião pública, havia mais de uma vez expresso sua desaprovação a propósito. Sabia que o procurador que deveria ter vindo havia-se também recusado a tal porque considerava esta ação vergonhosa; sabia ain- da que, nas esferas governamentais, podem ocorrer mudanças e que aqueles que podiam fazê-lo progredir ontem podem se tornar amanhã uma causa de desgraça; sabia que existe uma imprensa, senão na Rússia, pelo menos no Exterior, que poderia falar desse caso e desonrá-lo para toda a vida. Já pressentia uma mudança na opinião pública condenando o que antes era glorificado. Ademais, ele não podia estar absolutamente certo da obediência, no último momento de seus subordinados. Hesitava e não lhe era possível saber como agiria.
Todos os funcionários ou oficiais que o acompanhavam experimentavam mais ou menos os mesmos sentimentos; sabiam todos, em seus corações, que o ato que iam cometer era vergonhoso, degradante aos olhos de certos homens cuja opinião respeitavam; sabiam que se sente vergonha de se apresentar à própria noiva ou à mulher amada, depois de haver cometido um homicídio ou violentado homens sem defesa; enfim, como o governador, duvidavam da obediência absoluta dos soldados. Como tudo isto difere da desenvoltura com que passeavam todas as autoridades na esplanada e nas salas da estação! No fundo, eles não só sofriam, mas hesitavam. En- tretanto, assumiam um tom desenvolto e seguro para acalmar sua hesitação interna.
E este sentimento aumentava à medida que se aproximava o local da ação.
E por imperceptível que fosse, por estranho que pareça, todos aqueles jovens soldados, que pareciam tão submissos, encontravam-se nas mesmas condições de ânimo.
Não são mais os antigos soldados que haviam abandonado a vida natural do trabalho, para dedicar suas existências à orgia, à rapina, ao homicídio, como os legionários romanos ou os combatentes da Guerra dos Trinta Anos, ou mesmo os soldados mais recentes que deviam cumprir 25 anos de serviço. Os de hoje são, em sua maioria, homens há pouco arrancados a suas famílias, ainda cheios de recordações da vida boa, natural, racional, da qual foram tirados. Todos aqueles jovens, em sua maioria camponeses, sabem o que vão fazer; sabem que os proprietários de terra exploram sempre seus irmãos camponeses e que, também desta vez, o mesmo fato é provável. Ademais, a maioria dentre eles já sabe ler e os livros que lêem nem sempre tecem elogios ao militarismo; alguns, aliás, demonstram toda sua imoralidade. Entre eles encontram-se com frequência camaradas livres-pensadores, alistados voluntários e jovens oficiais liberais, e a semente da dúvida quanto à legitimidade absoluta e ao mérito do que irão fazer já está semeada em sua consciência.
É verdade que todos passaram pela educação hábil, terrível, elaborada durante séculos, que mata qualquer iniciativa, e que eles estão a tal ponto habituados à obediência mecânica que, ao comando: "Fogo em toda a linha!... Fogo!...", seus fuzis se erguem sozinhos e os gestos habituais são gerados. Mas este "fogo" não mais significará atirar contra os pais, contra os irmãos esgotados, explorados, que eles vêem na multidão, junto com mulheres, e crianças, gritando não se sabe o quê, gesticulando. Ei-los, uns de cáftan1 todo remendado, laptos2 nos pés, barbicha rala, retrato do pai deixado no vilarejo, em Kazan ou Riazan; outros, com os ombros cur- vados, apoiados num longo bastão, a barba toda branca, o retrato do avô; o jovem de botas e camisa vermelha é o retrato do que ele próprio era há um ano, do soldado que agora deve disparar contra eles. Eis até a mulher de laptos e paneva3, o retrato da mãe...
1 Veste dos camponeses.
2Calçado de tília trançada.
3Saia de camponesa.
E deve-se disparar contra eles! E Deus sabe o que fará cada soldado naquele momento supremo. Uma só palavra, uma alusão bastaria para detê-lo.
No momento de agir, todos aqueles homens encontram-se na mesma situação do hipnotizado a quem se sugere partir ao meio uma trave e que, já se havendo aproximado do objeto que lhe foi indicado como trave e havendo já erguido o machado, percebesse que não é uma trave, mas o seu irmão adormecido. Ele pode cometer o ato que lhe foi ordenado, mas pode acordar no momento de fazê-lo. Do mesmo modo, to- dos aqueles homens podem recuperar os sentidos ou ir até o fim. Se forem até o fim, o ato terrível será realizado, como em Orei, e então a sugestão que conduz à submissão estará mais forte do que nunca em todos os outros homens; se param, não só este ato terrível não será executado, como também muitos daqueles que tiverem consciência libertar-se-ão da sugestão sob cuja influência se encontram ou, ao menos, pensarão em libertar-se.
Se somente alguns se detêm e exprimem audaciosamente aos outros o que há de criminoso naquela ação, a influência destes poucos homens pode levar os outros a despertarem da sugestão sob cuja influência agem, e o ato criminoso não será cometido.
Melhor ainda, imaginemos que alguns homens, mesmo dentre os que não colaboram para este ato, mas que são simples testemunhas dos preparativos, ou que, tendo conhecimento de fatos similares, não permanecem indiferentes e exprimem franca e audaciosamente toda a aversão que sentem por aqueles que deles participaram; isto exercerá uma influência salutar.
Foi o que aconteceu em Tuia. Bastou que algumas pessoas exprimissem sua repugnância em participar do ato, bastou que uma passageira e outras pessoas manifestassem, na estação, sua indignação, bastou que um dos comandantes aos quais haviam sido pedidas tropas para reprimir a desordem dissesse que os militares não são carrascos, para que, graças a estes pequenos fatos e a outras influências que parecem de pouca importância, o caso tomasse outro rumo e as tropas, reunidas em seu posto, não cometessem violências e se limitassem a cortar a madeira e entregá-la ao proprietário.
Se a consciência do que é ruim não existisse em certos homens, e se, então, não houvesse, neste sentido, a influência de uns sobre os outros, o que aconteceu em Orei poderia ter ocorrido novamente. Se esta consciência tivesse sido ainda mais forte, é muito provável que o governador e as tropas não houvessem sequer tomado a decisão de cortar a madeira e entregá-la ao proprietário, ou que o governador não se tivesse sequer dirigido ao palco dos acontecimentos, e que o ministro não houvesse tomado tal decisão, e que o soberano não a tivesse confirmado.
Tudo, portanto, depende do grau de consciência da verdade cristã.
À ação de todos os homens de nosso tempo, que afirmam desejar o bem-estar humano, deveria portanto estar voltada para o desenvolvimento desta consciência.
Mas, que estranho! Exatamente os homens que falam mais do que os outros sobre as melhorias das condições de vida, e que são considerados como os exploradores de opinião pública, afirmam que não é necessário fazer precisamente isto, e que não existem outros meios mais eficazes para melhorar a condição dos homens. Afirmam que a melhoria das condições da vida humana não é o resultado de esforços morais isolados, nem da propagação da verdade, mas de progressivas modificações das condições gerais e materiais da vida e que, portanto, os esforços de cada indivíduo isolado devem ser dirigidos neste sentido, enquanto cada confissão individual da verdade contrária à ordem de coisas vigentes, longe de ser útil, é nociva, porque provoca por parte do poder uma oposição que impede que o indivíduo isolado continue sua ação útil à sociedade. Segundo esta tese, todas as modificações da vida humana produzem-se por meio das mesmas leis que regem a vida dos animais.
Desta teoria, resultaria que todos os fundadores de religião, como Moisés e os profetas, Confúcio, Lao-Tse, Buda, Cristo e outros, pregaram suas doutrinas e que seus partidários as aceitaram não porque amassem a verdade, mas porque as condições políticas, sociais e, sobretudo, económicas dos povos em meio dos quais estas doutrinas floresceram eram favoráveis a sua manifestação e a seu desenvolvimento.
A ação do homem que deseja servir à sociedade e melhorar as condições da vida não deve, portanto, segundo esta tese, estar voltada para a apuração e a observância da verdade, mas para a melhoria das condições externas, políticas, sociais e, sobretudo, económicas. E a modificação destas condições é feita, em parte, servindo-se o governo e introduzindo-se na administração princípios de liberalismo e progresso, em parte, favorecendo o desenvolvimento da indústria e propagando as ideias socialistas e, principalmente, colaborando para a propagação da ciência.
O que importa, segundo esta doutrina, não é professar a verdade revelada e, em consequência, aplicá-la na vida ou, ao menos, não cometer atos que lhes sejam contrários: servir o governo, apoiar o poder se for nocivo, aproveitar-se da organização do capital se for ruim, demonstrar respeito em relação a determinadas cerimonias se forem consideradas supersticiosas, sentar nos tribunais se suas leis forem falsas, servir o exército, jurar, mentir, humilhar-se em geral; mas o que importa é, sem mudar as formas atuais da vida e a elas submetendo-se contrariamente às próprias convicções, introduzir o liberalismo nas instituições existentes. Segundo esta teoria, é possível, permanecendo proprietário, negociante, dono de fábrica, juiz, funcionário público, oficial, soldado, ser, ao mesmo tempo, não só humano, mas também socialista e revolucionário.
A hipocrisia que, antes, era apenas religiosa, com a doutrina do pecado original, da redenção e da igreja, transformou-se, através desta nova doutrina científica e prendeu, em suas redes, todos os homens cujo desenvolvimento intelectual não mais permitia apoiarem-se na hipocrisia religiosa. Como, outrora, o homem que professava a doutrina religiosa oficial podia, mesmo acreditando-se isento de qualquer pecado, participar de todos os delitos do Estado e deles se beneficiar, desde que cumprisse as práticas externas de sua religião, os homens que, atualmente, não crêem no cristianismo oficial encontram na ciência as mesmas razões para considerarem-se puros e até de elevado grau de moralidade, apesar de suas participações nos delitos governamentais e das vantagens que dele obtêm.
Um rico latifundiário, seja russo, francês, inglês, alemão ou americano, vive para os tributos, dízimos que subtrai aos homens que vivem em sua terra, a maioria miserável e de quem ele toma tudo o que pode. Seu direito de propriedade está asse- gurado pelo fato de que, a cada tentativa dos oprimidos de desfrutar, sem seu consentimento, das terras que acreditam suas, chegam as tropas e submetem-nos a todo tipo de violência. Deveria parecer evidente que o homem que assim vive é um ser cruel, egoísta e, de modo algum, pode ser considerado cristão ou liberal. Deveria parecer evidente que a primeira coisa a fazer caso se deseje, de alguma maneira, adequar-se ao espírito do cristianismo e do liberalismo, seria parar de espoliar e ar- ruinar os homens com o auxílio das violências governamentais que asseguram o direito sobre a terra. Isto de fato ocorreria se não existisse uma metafísica hipócrita, que afirma que, do ponto de vista da religião, a posse ou não-posse da terra é indiferente para a salvação e, do ponto de vista científico, que o abandono da terra seria um sacrifício individual inútil, visto que a melhoria do bem-estar dos homens é realizada não deste modo, mas pelas modificações progressivas das formas exteriores da vida. E, portanto, este homem, sem a menor inquietação e a menor dúvida, organizando uma exposição agrícola, fundando uma sociedade comedida, ou enviando, através de sua mulher e filhos, flanelas e sopa a três anciãs, prega audaciosamente na família, nos salões, nos comités e na imprensa o amor evangélico ou humanitário ao próximo em geral, e, em particular, aos trabalhadores agrícolas, que não param de ser explorados e oprimidos. E os homens que ocupam a mesma posição nele acreditam, louvam-no e examinam seriamente, com ele, outros métodos de melhoria do destino do povo trabalhador, métodos de livrá-lo da exploração, inventando para tanto diferentes formas de proceder, salvo esta, a única, sem a qual qualquer melhoria das condições do povo é impossível, ou seja: parar de tomar-lhe a terra necessária a sua existência.
Como exemplo notável desta hiprocrisia, podem ser citados os cuidados dos latifundiários russos durante o último ano de carestia, a luta contra esta carestia gerada por eles próprios, e da qual se aproveitaram vendendo aos camponeses não só o pão a um preço mais elevado, mas também as folhas das batatas à razão de cinco rublos por cerca de um hectare, como combustível. Um negociante, cujo comércio — como aliás qualquer comércio — baseia-se inteiramente numa série de trapaças, aproveita-se da ignorância ou da necessidade: ele compra as mercadorias abaixo de seu valor e revende-as muito acima. Seria natural que o homem, cuja atividade é inteiramente alicerçada no que ele mesmo chama de trapaça, se devesse envergonhar de sua posição e não mais pudesse, continuando seu comércio, dizer-se cristão ou liberal. Mas a metafísica da hipocrisia lhe diz que ele pode passar por um homem virtuoso e continuar sua ação perniciosa: o homem religioso deve somente crer, o liberal deve somente ajudar a mudança das condições externas, o progresso da indústria. E, portanto, aquele comerciante (que, além de tudo, vende mercadoria ruim, engana quanto ao peso, quanto à medida, ou vende produtos nocivos à saúde, como o álcool, o ópio) considera-se e é pelos outros considerado, contanto que não engane seus colegas, como um modelo de honestidade e integridade. E se gasta apenas a milésima parte do dinheiro roubado com qualquer instituição pública — um hospital, um museu, uma escola — é considerado um benfeitor do povo que explora, e de onde tira toda sua riqueza; e, se dá uma pequena parte do dinheiro roubado às igrejas e aos pobres, é ainda mais um cristão exemplar.
Um dono de fábrica é um homem cuja renda é toda constituída do salário extorquido dos operários e cuja ação é inteiramente fundamentada no trabalho forçado e anormal que consome gerações inteiras. Seria natural que, se professa princípios cristãos ou liberais, devesse, antes de tudo, parar de arruinar, em seu benefício, vidas humanas; mas, segundo a teoria vigente, ele colabora para o progresso da indústria, e não deve deixar de agir desta forma, porque isto seria prejudicial à sociedade. E, então, este homem, este rude senhor de escravos, após haver construído para os operários mutilados em sua fábrica casinholas com quintaizinhos de dois metros, um fundo de pensões e um hospital, está absolutamente certo de haver pago, com estes sacrifícios, por um valor mais alto do que real, as vidas humanas que arruinou física e moralmente, e continua a viver tranquilo, orgulhoso de sua obra.
Um funcionário, civil, religioso ou militar, que serve o Estado para satisfazer sua ambição ou, como acontece com maior frequência, por um ordenado retirado do produto do trabalho do povo, ou ainda, o que não é bastante raro, que rouba também, diretamente, o dinheiro do Tesouro, considera-se e é considerado por seus semelhantes o membro mais útil e mais virtuoso da sociedade.
Um juiz, um procurador, que sabe que, por sua decisão ou solicitação, centenas e milhares de infelizes, arrancados a suas famílias, são encerrados em prisões, calabouços e enlouquecem, ou se matam com pedaços de vidro, ou se deixam morrer de fome; que sabe terem eles, também, mães, mulheres, filhos desolados pela separação, desonrados mendicantes inúteis do perdão ou mesmo da melhoria da sorte de seus pais, filhos, maridos, irmãos; este juiz, este procurador, está tão inebriado de hipocrisia que ele próprio e seus semelhantes, suas mulheres e seus amigos estão absolutamente certos que podem ser, apesar de tudo, pessoas boníssimas e sensíveis. Segundo a metafísica da hipocrisia, eles cumprem uma missão social muito útil. E estes homens, causa da perda de milhares de outros, com a crença no bem e com a fé em Deus, vão à igreja com ar radiante, ouvem o Evangelho, pronunciam discursos humanitários, acariciam seus filhos, pregam-lhes a moralidade e enternecem-se a propósito de sofrimentos imaginários.
Todos estes homens e aqueles que vivem a seu redor, suas mulheres, seus filhos, professores, cozinheiros, atores nutrem-se do sangue que, deste ou daquele modo, como um ou outro tipo de sanguessuga, chupam das veias do trabalhador, e cada um de seus dias de prazer custa milhares de dias de trabalho. Vêem as privações e sofrimentos destes operários, de seus filhos, de suas mulheres, de seus velhos, de seus doentes; sabem a que punições se expõem aqueles que querem resistir a esta espoliação organizada, e não só não diminuem seus luxos, não só não o dissimulam, como ostentam-no indecorosamente diante dos operários oprimidos, pelos quais são odiados, como se fosse para deliberadamente excitá-los. E, por outro lado, continuam a acreditar e a fazer acreditar que se interessam muito pelo bem-estar do povo que continuam pisoteando e, aos domingos, cobertos de trajes ricos, dirigem-se, em carruagens luxuosas, à casa de Cristo, erguida pela hipocrisia, e lá escutam os homens, instruídos para esta mentira, pregarem o amor que todos renegam com toda sua existência. E aqueles homens desempenham tão bem seus papéis que acabam acreditando, eles mesmos, na sinceridade de suas atitudes.
A hipocrisia geral penetrou a tal ponto no corpo e na alma de todas as classes da sociedade atual, que nada mais pode indignar quem quer que seja. Não é à toa que a hipocrisia, em seu sentido próprio, significa representar um papel: e representar um papel, qualquer que seja, é sempre possível. Fatos como estes: ver os representantes de Cristo abençoar os assassinos que se enfileiram, armados contra seus irmãos, apresentando os fuzis para a bênção; ver os padres de todos os credos cristãos participarem, necessariamente, como carrascos, das execuções capitais, reconhecerem, com sua presença, que o homicídio é conciliável com o cristianismo (um pastor assistiu à experiência da execução pela eletricidade), nenhum destes fatos surpreende mais ninguém.
Uma exposição internacional penitenciária teve lugar, recentemente, em Petersburgo. Estavam ali expostos os instrumentos de tortura, as correntes, os modelos de prisões celulares, ou seja, instrumentos de suplício ainda piores que o knut e os açoites, e senhoras e senhores sensíveis iam ver tudo aquilo e divertiam-se.
Ninguém mais se surpreende sequer com o fato de que a ciência liberal, mesmo reconhecendo a igualdade, a fraternidade e a liberdade, demonstra a necessidade do exército, das execuções capitais, das alfândegas, da censura, da prostituição, da expulsão dos operários estrangeiros que aviltam os salários, da proibição da emigração, da colonização baseada no envenenamento, do saque, do extermínio de raças inteiras de homens chamados selvagens etc.
Fala-se do que acontecerá quando todos os homens professarem o que chamam de cristianismo (ou seja, diferentes crenças, hostis, umas às outras) e quando todos se puderem vestir e comer à saciedade, quando todos os habitantes da Terra estiverem unidos entre si por meio do telégrafo, do telefone e viajarem através de balões, quando todos os operários estiverem imbuídos das teorias socialistas e as sociedades operárias reunirem milhões de adeptos e possuírem milhões de rublos, quando todos forem instruídos, lerem os jornais e conhecerem todas as ciências.
Mas, o que de bom e útil pode resultar de todos estes aperfeiçoamentos, se os homens não dizem e não fazem o que consideram verdade? A desventura dos homens provém da desunião, e a desunião provém do fato de que eles não seguem a verdade, que é única, e sim a mentira, que é múltipla.
O único meio de união é, portanto, unir-se na verdade. Por isso, quanto mais os homens procuram sinceramente a verdade, mais se aproximam da união.
Mas, como se podem unir os homens na verdade ou dela se aproximarem, quando não só não exprimem a verdade que conhecem, mas consideram-na inútil e fingem reconhecer como verdade o que sabem ser uma mentira? Assim, nenhuma melhoria será possível na condição dos homens enquanto estes ocultarem de si mesmos a verdade, enquanto não reconhecerem que sua união e, por conseguinte, a felicidade, não é possível sem a verdade, e enquanto não co- locarem acima de tudo o reconhecimento e a prática da verdade que lhes é revelada. Todos os aperfeiçoamentos externos com que podem sonhar os homens religiosos ou os homens de ciência realizam-se então; todos os homens convertem-se ao cristianismo e todas as melhorias desejadas por Bellamy e por Richet confirmam-se além de seus desejos: se subsistir a hipocrisia que hoje reina, se os homens não professarem a verdade que conhecem, mas continuarem a simular a crença no que não crêem, a estima no que não estimam, sua condição não só permanecerá a mesma, como tornar-se-á pior. Quanto mais os homens estiverem a salvo das necessidades, mais aumentarão os telégrafos, os telefones, os livros, os jornais, as revistas; mais crescerão os meios de propagação das mentiras e hipocrisias contraditórias, e mais os homens serão desunidos, portanto infelizes, como acontece no presente, fru Ocorram então todas estas modificações materiais e a situação da humanidade não será, com isto, melhorada. Que todo homem, na medida de suas forças, siga pessoalmante a verdade que conhece ou, ao menos, não defenda a mentira, e já agora, neste mesmo ano de 1893, acontecerão mudanças com que não ousamos sonhar em cem anos: a libertação dos homens e o estabelecimento da verdade sobre a terra.
Não sem razão a única palavra dura e ameaçadora de Cristo foi dirigida aos hipócritas. Não é o furto, o saque, o homicídio, o adultério, a falsidade, mas a mentira, a mentira especial da hipocrisia, que cancela na consciência dos homens a distinção entre o bem e o mal, os corrompe, torna-os maus e semelhantes às feras, os impede de fugir do mal e procurar o bem, lhes tira o que constitui o sentido da verdadeira vida humana e, portanto, bloqueia-lhes o caminho da perfeição. Os homens que ignoram a verdade e fazem o mal provocam nos outros a piedade para com suas vítimas e a repugnância para com eles mesmos; fazem o mal unicamente àqueles a quem atacam; mas os homens que conhecem a verdade e fazem o mal sob o véu da hipocrisia fazem- no a si mesmos e a suas vítimas, e a milhares e milhares de outros homens, tentados pela mentira que oculta este mal.
Os ladrões, os assassinos, os enganadores, que cometem atos considerados maus por eles mesmos e por todos os outros homens, são o exemplo do que não se deve fazer e causam repulsa a todos. Ao contrário, aqueles que cometem os mesmos furtos, violências, homicídios, dissimulando-os com justificativas religiosas ou científicas, como fazem todos os proprietários, comerciantes, donos de fábrica e funcionários, provocam a imitação e fazem mal não somente àqueles que sofrem diretamente, mas também a milhares e milhões de homens que se pervertem e se perdem, fazendo desaparecer qualquer distinção entre o bem e o mal.
Um único património conquistado com o comércio de produtos necessários ao povo ou de produtos que o corrompem, ou conquistado com operações de bolsa, ou com a compra, a preço aviltado, da terra que aumenta de valor devido às necessidades do povo, ou com uma indústria que arruína a saúde e compromete a vida, ou com o serviço civil ou militar ao Estado, ou com alguma ocupação que encoraje os maus ins- tintos — um património assim conquistado, não só com a autorização, mas também com a aprovação dos governantes, e mascarado por uma filantropia ostensiva — perverte os homens incomparavelmente mais do que milhões de furtos, trapaças, saques cometidos contra as leis estabelecidas e contra os quais se procede criminalmente.
Uma única execução capital, cometida por homens cultos com o pretexto da necessidade e não sob o impulso da paixão, com a aprovação e a participação dos padres cristãos, e levada avante como algo necessário e até justo, perverte e torna ferozes os homens, mais do que podem fazê-lo centenas e milhares de homicídios cometidos por ignorantes e muitas vezes sob o ímpeto da paixão. A execução capital como a que propôs adotar Jukovski,* graças à qual os homens experimentariam até mesmo uma comoção religiosa, seria o ato mais corruptor que se possa imaginar (ver o volume IV das Obras Completas de Jukovski).
Jukovski, Vassili Andreivitch; célebre poeta russo. (N. do E.)
Qualquer guerra, a mais benigna, com todas suas conseqüências ordinárias, a destruição das massas, os furtos, os raptos, a desonestidade, o homicídio, com as justificativas de sua necessidade e de sua legitimidade, com a exaltação dos comportamentos militares, o amor à bandeira, à pátria, com a falsa solicitude para com os feridos etc, perverte, num só ano, mais gente do que milhares de assaltos, incêndios e homicídios cometidos durante um século por indivíduos isolados, impelidos pela paixão.
Uma única existência luxuosa, até os limites usuais, de uma família dita honesta e virtuosa, que gasta para suas necessidades o produto de um trabalho que seria suficiente para alimentar milhares de homens a seu redor, definhados pela miséria, perverte mais gente do que inumeráveis orgias de rudes mercadores, oficiais e operários entregues à embriaguez e à libertinagem, que quebram, por simples divertimento, espelhos, louças etc.
Uma única procissão solene, um ofício ou, do alto do púlpito da mentira, um sermão no qual o próprio pregador não acredita, produzem, sem comparação possível, mais mal do que milhares de falsificações de produtos alimentícios etc.
Fala-se da hipocrisia dos fariseus. Mas a hipocrisia dos homens de nosso tempo supera em muito aquela, relativamente inócua, dos fariseus. Estes, ao menos, possuíam uma lei religiosa externa, cuja observância impedia que vissem suas ver- dadeiras obrigações para com seus semelhantes. Por outro lado, as obrigações não eram, então, claramente definidas. Hoje semelhante lei não existe (não falo da gente rude e estúpida que ainda crê que os sacramentos ou as dispensas do papa absolvem- na de todo pecado). Ao contrário, a lei evangélica que professamos, de uma forma ou de outra, prescreve diretamente nossas obrigações; ademais, estas mesmas obrigações, que eram outrora expressas apenas por alguns profetas em termos vagos, são hoje tão claramente formuladas, tornaram-se a tal ponto axiomas, que são repetidas até por jovens saídos dos colégios e por jornalistas. Assim, os homens de nosso tempo não deveriam fingir ignorá-las.
O homem moderno, que se aproveita da ordem atual, calcada na violência e, ao mesmo tempo, afirma amar seus semelhantes, não percebendo que toda sua existência é prejudicial a seu próximo, assemelha-se ao bandido que, ao ser surpreen- dido com a faca erguida sobre a vítima que grita desesperadamente pedindo socorro, afirmasse não saber que o que fazia desagradava aquele a quem roubava e a quem estava prestes a degolar. Assim como o bandido não poderia negar um fato tão evidente, da mesma forma o homem moderno, que vive em detrimento dos oprimidos, não poderia, ao que parece, convencer-se e convencer os outros de que deseja o bem daqueles a quem rouba sem cessar e que ignorava como foi conquistado o património do qual desfruta.
Não mais podemos nos persuadir de que ignoramos a existência dos cem mil homens que, na Rússia, são encerrados nas prisões ou nos calabouços com o objetivo de garantir nossa propriedade e nossa tranquilidade; nem que ignoramos a existência dos tribunais, dos quais nós mesmos fazemos parte, e que, a nosso pedido, condenam os que lesaram nossa propriedade ou nossa segurança à prisão, à deportação, aos trabalhos forçados, onde homens, que não são piores do que aqueles que os julgam, perdem-se e corrompem-se; nem que ignorarmos que tudo o que temos possuímos apenas porque foi conquistado e defendido com o homicídio e com a violência. Não podemos fingir que não nos apercebemos da presença de policiais que, armados de revólveres, andam de um lado para outro, sob nossas janelas, para preservar nossa segurança, enquanto comemos nossas suculentas iguarias ou assistimos a uma nova obra teatral; ou da existência de soldados que apareceriam armados de fuzis e cartuchos tão logo se verificasse alguma agressão a nossa propriedade.
Sabemos muito bem que, se terminamos em paz nossa refeição, ou vemos o final da nova obra teatral, ou acabamos de nos divertir no baile, na festa em volta à árvore de Natal, no passeio, nas corridas ou na caçada, é apenas graças à bala do revólver do policial, ou graças ao fuzil do soldado que perfurará o ventre faminto do desventurado que, de longe, com água na boca, observa nossos prazeres e os interromperia se o policial ou os soldados não estivessem ali para acorrer a nosso primeiro chamado.
Por isso, assim como um bandido preso à luz do dia, em flagrante delito, não pode afirmar que não ergueu a faca para se apoderar da bolsa de sua vítima, não podemos, por nossa vez, afirmar que os soldados e os policiais não nos rodeiam para nos proteger contra os desventurados e sim para nos defender contra o inimigo externo, para garantir a ordem, para as festividades e as revistas não podemos afirmar que ignoramos que os homens não gostam de morrer de fome, não tendo o direito de ganhar seu pão com a terra onde vivem, que não se divertem trabalhando debaixo da terra, na água, numa temperatura opressiva, de dez a 14 horas por dia, mesmo à noite, para fabricar os objetos de nossos prazeres. Negar esta evidência parece impossível. E, contudo, é negada.
Encontram-se todavia entre os ricos, sobretudo entre os jovens e entre as mulheres, pessoas que felizmente encontro cada vez mais; quando lhes é mostrado com que e como são comprados seus prazeres, não procuram esconder a verdade e, com a cabeça entre as mãos, dizem: "Ah! não me fale disto. Se é assim, a vida é impossível." Mas, se existem pessoas sinceras que percebem sua culpa e a ela não podem renunciar, a grande maioria dos homens de nosso tempo está a tal ponto mergulhada em seu lado hipócrita que, audaciosamente, negam o que salta aos olhos de todos aqueles que enxergam.
Tudo isso é injusto. Dizem:
Ninguém obriga o povo a trabalhar para o proprietário de terras ou para o dono da fábrica. É questão de livre-arbítrio. A grande propriedade e os capitais são necessários porque organizam o trabalho para a classe operária. Ademais, o trabalho nas fábricas e nas usinas não é assim tão terrível como dizem. Se existem, contudo, certos abusos, o governo e a sociedade tomarão medidas para impedi-los e tornar o trabalho do operário mais fácil e até agradável. A classe trabalhadora está habituada aos trabalhos físicos e é incapaz, no momento, de fazer outra coisa.
Quanto à pobreza do povo, esta não é o resultado do grande latifúndio nem da concentração dos capitais, mas de outras causas: da ignorância, da desordem, da embriaguez. E nós, homens de governo, que reagimos contra este empobrecimento com uma sábia administração, nós capitalistas, que reagimos com a ampliação das invenções úteis, nós, padres, com a instrução religiosa, nós, liberais, com a formação de sociedades operárias, com a difusão da cultura, aumentamos com estes meios, sem mudar nossa posição, o bem-estar do povo. Desejamos que todos sejam ricos como os ricos. Quanto à afirmação de que se violentam e matam homens para obrigá-los a trabalhar em benefício dos ricos, isto não é senão um sofisma. O exército não é mandado contra o povo exceto quando, sem compreender seu interesse, este se revolta e compromete a tranquilidade necessária ao bem-estar geral. Da mesma forma, é necessário levar em consideração malfeitores, para os quais temos as prisões, os patíbulos e os calabouços. Nós mesmos desejamos suprimi-los e trabalhamos nesse sentido.
A hipocrisia é mantida, em nossos tempos, por duas coisas: a quase-religião e a quase-ciência, e atingiu tamanhas proporções que, se não vivêssemos neste ambiente, não poderíamos acreditar que os homens possam chegar a semelhante grau de aberração. Os homens chegaram a um estado tão surpreendente, seu coração endureceu a tal ponto, que eles “olham e não vêem, escutam e não ouvem e não compreendem”.
Os homens vivem, já de há muito, contrariamente a sua consciência. Se não houvesse hipocrisia, não poderiam viver assim. Esta organização social, contrária a sua consciência, só continua a existir porque está oculta pela hipocrisia.
E quanto mais aumenta a distância entre a realidade e a consciência dos homens, mais cresce a hipocrisia; mas até esta tem um limite. E parece-me que já o atingimos hoje. Todo homem de nosso tempo, com a moral cristã assimilada mesmo a contragosto, encontra-se inteiramente na posição de um homem adormecido que, em sonho, se vê constrangido a fazer algo que, mesmo em sonhos, ele sabe que não deve ser feito. Sabe, sente em seu íntimo e no entanto parece-lhe não poder mudar sua posição e deixar de agir contrariamente a sua consciência.
E, como acontece nos sonhos, tornando-se sua situação cada vez mais dolorosa, ele chega a duvidar da realidade daquilo que vê e faz um esforço moral para se livrar da obsessão que o domina.
Na mesma situação encontra-se o homem comum de nosso mundo cristão. Ele sente que tudo o que se faz a seu redor é absurdo, infame, intolerável e contrário a sua consciência; ele sente que esta situação torna-se cada vez mais dolorosa e que atingiu o paroxismo.
É impossível que nós, homens modernos, com a consciência cristã da dignidade humana e da igualdade que já nos invadiu o corpo e a alma, com nossa necessidade de comunhão pacífica, de união entre os povos, possamos viver de modo que cada uma de nossas alegrias ou de nossas satisfações seja comprada ao preço do sofrimento e da vida de nossos irmãos, que, ainda, estejamos sempre, como feras, a ponto de trajar uma batalha enfurecida, homem contra homem, povo contra povo, destruindo sem piedade os pertences e os homens, simplesmente porque um diplomata desatinado ou o chefe de Estado dirá ou escreverá alguma tolice a um outro diplomata ou chefe de Estado.
É impossível. E no entanto todos os homens de nosso tempo assistem a este espetáculo e prevêem esta catástrofe.
E a situação torna-se cada vez mais dolorosa.
E, assim, o homem que sonha não acredita que aquilo que vê seja a realidade e quer acordar para retornar à verdadeira vida, assim o homem médio de nosso tempo não pode crer, no fundo, que a situação terrível em que se encontra e que piora cada vez mais seja real, e quer despertar para retornar à verdadeira vida.
E, assim, como basta ao homem adormecido fazer um esforço de inteligência e perguntar-se: "Não é isto um sonho?" para que a situação que lhe parecia tão desesperada desapareça instantaneamente e ele desperte na realidade tranquila e feliz, assim também o homem de nosso tempo precisa apenas duvidar do que sua própria hipocrisia e a hipocrisia geral lhe apresentam como realidade, e perguntar-se: "Não é esta uma ilusão?" para sentir-se de imediato como o homem adormecido, transportado do mundo imaginário e assustador para a realidade verdadeira, tranquila e feliz.
E, para isto, o homem não precisa de ações gloriosas, nem de heroísmo, precisa somente de um simples esforço moral. Mas pode o homem fazer esse esforço? Segundo a teoria atual, necessária à hipocrisia, o homem não é livre e não pode mudar sua vida.
"O homem não pode mudar sua vida porque não é livre, e não é livre porque todos seus atos são consequências de causas antigas. E, faça o homem o que fizer, seus atos têm sempre uma causa à qual ele obedece. Por isso o homem não é livre para modificar seu modo de viver" — dizem os defensores da metafísica da hipocrisia.
E teriam toda a razão se o homem fosse um ser inconsciente, incapaz de, após haver reconhecido a verdade, elevar-se a um grau moral superior. Mas o homem, ao contrário, é um ser consciente e que, a despeito de tudo, se eleva cada vez mais em direção à verdade. Portanto, ainda que não seja livre em seus atos, pode dominar as próprias causas de seus atos, que consistem no reconhecimento desta ou daquela verdade.
De modo que o homem que não é livre para realizar certos atos é livre para trabalhar a fim de suprimir-lhe as causas. Como um mecânico que, se não é livre para modificar o movimento de sua locomotiva, já executado ou que se está executando, é livre para, futuramente, regular com antecipação este movimento.
Faça o que fizer o homem consciente, ele age, deste e não de outro modo, porque: ou ele reconhece estar vivendo na verdade, ou já o reconheceu antes e age agora por hábito.
Coma ou não coma, trabalhe ou descanse, fuja do perigo ou procure-o, se o homem é consciente, assim age porque considera sensato agir assim, porque reconhece que a verdade o leva a agir assim e não de outro modo, ou porque já o reconheceu antes.
O reconhecimento ou o não-conhecimento de determinada verdade depende não de causas externas, mas da própria consciência do homem. De modo que, às vezes, nas condições externas mais favoráveis ao reconhecimento da verdade, existem homens que não a reconhecem, e outros que, ao contrário, nas condições mais desfavoráveis, reconhecem-na sem motivos aparentes, como foi dito no Evangelho: "E ninguém virá a Mim, se não for ao Pai." Isto significa que o reconhecimento da ver- dade, que é a causa de todas as manifestações da vida humana, não depende dos fenómenos externos, mas de algumas faculdades internas do homem, que fogem à observação.
Por isso o homem que não é livre em seus atos sente-se sempre livre naquilo que é a causa de seus atos, no reconhecimento ou no não-reconhecimento da verdade. Assim, o homem que cometeu, sob a influência da paixão, um ato contrário à verdade da qual tem consciência, permanece, apesar de tudo, livre para reconhecê-la ou não, ou seja, pode, não reconhecendo a verdade, considerar seu ato necessário e justificá-lo, e pode, reconhecendo a verdade, considerar seu ato cruel e sentir remorsos.
Assim, um jogador ou um bêbado que não conseguiu dominar sua paixão tem absoluta liberdade para reconhecer o jogo ou a embriaguez, seja como um mal, seja como um divertimento inconsequente. No primeiro caso, ainda que não renuncie de imediato a sua paixão, liberta-se dela com mais facilidade quando reconhece sinceramente que é nociva; no segundo caso, sua paixão aumenta e ele não tem mais possibilidade alguma de dela se libertar.