Assim, o homem que não teve forças para enfrentar um incêndio a fim de salvar outro homem e que fugiu sozinho da casa em chamas, reconhecendo a verdade de que o homem deve, com o risco da própria vida, socorrer seu semelhante, per- manece livre para considerar seu ato como mau e reprová-lo ou, não reconhecendo esta verdade, para considerar seu ato como natural, necessário, e justificá-lo. No primeiro caso, ele prepara, para o futuro, uma série de atos de abnegação que derivam necessariamente do reconhecimento da verdade; no segundo caso, uma série de atos egoístas.
Não digo que o homem seja sempre livre para reconhecer ou não cada verdade.
Existem verdades reconhecidas há longo tempo que nos são transmitidas pela educação, pela tradição, e que a tal ponto penetraram na alma que se tornaram naturais; e existem verdades que se apresentam mal definidas, vagas. O homem não é livre para deixar de reconhecer as primeiras e não é livre para reconhecer as segundas. Mas existe uma terceira categoria de verdades que ainda não se puderam tornar os motivos não raciocinados de sua ação, mas que já lhe são reveladas com uma tal clareza que ele não pode deixar de tomar partido e precisa reconhecê-las ou rejeitá-las. A liberdade do homem manifesta-se precisamente na presença destas verdades.
Todo homem encontra-se, durante sua vida, em relação à verdade, na posição de um viajante que caminha pela escuridão ao clarão de uma lanterna cuja luz ele projeta a sua frente; não vê o que a lanterna ainda não ilumina; não vê sequer a es- trada percorrida e que já recaiu na escuridão; mas em qualquer lugar que se encontre, vê o que está sendo iluminado pela lanterna, e é sempre livre para escolher um ou outro lado da estrada.
Existem sempre verdades invisíveis que ainda não foram reveladas, já vividas, esquecidas e assimiladas pelo homem, e certas verdades que surgem diante dele, à luz de sua inteligência, e que ele não pode deixar de reconhecer. E aquilo que chamamos liberdade manifesta-se pelo reconhecimento ou pelo não-reconhecimento destas verdades.
Toda a aparente dificuldade da questão da liberdade provém do fato de que os homens, que devem resolvê-la, representam o homem como imóvel diante da verdade.
O homem não é certamente livre, se nós o representamos como imóvel, se esquecemos que a vida da humanidade é um movimento contínuo da escuridão em direção à luz, da verdade inferior à verdade superior, da verdade mesclada de erros à verdade mais pura.
O homem não seria livre se não conhecesse verdade alguma, e não seria igualmente livre, e sequer teria a noção de liberdade, se a verdade lhe fosse revelada em toda sua pureza, sem mistura de erros.
Mas o homem não está imóvel diante da verdade e sempre, à medida que avança na vida, a verdade lhe é revelada cada vez melhor, e ele liberta-se cada vez mais do erro.
A liberdade do homem não consiste em sua faculdade de agir independentemente do curso da vida e das causas que nela influem, mas em poder, reconhecendo e professando a verdade que lhe foi revelada, tornar-se livre e feliz artesão da obra eterna realizada por Deus ou pela humanidade, ou, fechando os olhos a esta verdade, tornar-se seu escravo e ser dolorosamente arrastado para onde não deseja ir.
A verdade abre para nós o único caminho que a humanidade pode percorrer.
Por isso os homens necessariamente seguirão, livres ou não, o caminho da verdade: uns, por sua própria iniciativa, cumprindo a missão que se impuseram, outros, submetendo-se, a sua revelia, à lei da vida. A liberdade do homem reside nesta escolha.
Esta liberdade, em limites tão restritos, parece aos homens tão insignificante que eles não a observam; uns — os deterministas — consideram esta partícula tão ínfima, que em absoluto não a reconhecem; outros — os defensores da liberdade perfeita — visando a sua liberdade imaginária, desprezam uma liberdade que lhes parece imperfeita. Encerrada entre os limites da ignorância absoluta da verdade e do reconhecimento de uma parte desta verdade, esta liberdade é pouco aparente, porque os homens, reconheçam ou não a verdade revelada, são obrigados a adequar a mesma a sua vida.
O cavalo atrelado, com outros cavalos, a uma carroça não é livre para andar senão à frente da carroça. Porém, se não andar, a carroça empurrá-lo-á e ele será forçado a seguir adiante. Mas, apesar desta liberdade limitada, ele é livre para puxar a carroça ou ser por ela empurrado. Da mesma forma, o homem.
Esta liberdade, comparada à liberdade fantástica que desejamos, seja grande ou não, não importa; somente ela existe de fato e nela consiste a felicidade acessível ao homem. E, não só dá aos homens a felicidade, como é ainda o único meio de realizar a obra pela qual anseia a humanidade.
Segundo a doutrina de Cristo, o homem que vê o sentido da vida no campo em que esta não é livre, no campo dos efeitos, ou seja, dos atos, não vive verdadeiramente. Só vive verdadeiramente aquele que transportou sua vida para o campo em que ela é livre, o campo das causas, isto é reconhecimento e a prática da verdade revelada.
Dedicando sua vida aos atos sensoriais, o homem realiza atos sempre dependentes de causas temporárias, que se encontram fora dele. Para si mesmo, nada faz, tem a impressão de agir, mas, na realidade, todos seus atos são executados sob a influência de uma força maior; ele não é o criador da vida, é seu escravo. Colocando sua razão de viver no reconhecimento e na prática da verdade que lhe é revelada, executa, identificando-se com a fonte da vida universal, atos já não pessoais, que dependem das condições de espaço e tempo, mas que sendo incausados, constituem as causas de todo o resto e têm um significado infinito que nada limita.
Negando a essência da verdadeira vida, que consiste no reconhecimento e na prática da verdade, e fazendo esforços para melhorar a yida material, os homens com conceitos pagãos assemelham-se aos passageiros de um navio que, para chegar ao fim da viagem, apagassem o fogo das máquinas e procurassem, durante a tempestade, seguir adiante por meio de remos que não tocassem a água, ao invés de seguir viagem com o auxílio do vapor e da hélice de que já dispõem.
“Conquista-se o reino de Deus com o esforço, e somente aqueles que fazem esforços o alcançam." Eeste esforço do sacrifício das condições materiais para reconhecer e praticar a verdade, este esforço, com o qual se alcança o reino de Deus, deve e pode ser feito em nossos tempo§. Bastaria que os homens o compreendessem, que deixassem de se preocupar com a vida material, onde não são livres, e dedicassem, na esfera em que podem agir livremente, apenas a centésima parte de sua energia ao reconhecimento e à prática da verdade que está a sua frente, para sua própria libertação da mentira e da hipocrisia que escondem a verdade, para que, sem esforço ou luta, desapareça de imediato a falsa ordem social que torna os homens infelizes no futuro. E então, concretizar-se-ia o reino de Deus, ou ao menos a primeira etapa em sua direção, para a qual os homens já estão preparados pelo desenvolvimento da consciência.
Assim como basta uma sacudidela para que o sal com que está saturado um líquido cristalize-se instantaneamente, assim talvez bastasse hoje um mínimo esforço, para que a verdade já revelada se difundisse entre centenas, milhares e milhões de ho- mens, para que se estabelecesse uma opinião pública correspondente à consciência existente e para que, portanto, toda a ordem social se modificasse. E depende de nós fazer este esforço.
Que cada um de nós busque apenas compreender e reconhecer a verdade cristã que, sob as mais variadas formas, nos cerca por todos os lados e nos instiga; que cada um de nós pare de mentir, aparentando não vê-la ou desejar praticá-la, não aquilo que ela nos pede em primeiro lugar; que cada um de nós reconheça esta verdade que nos chama, e logo perceberemos que centenas, milhares, milhões de homens estão na mesma situação, que, como nós, vêem a verdade, mas temem, como nós, ser os únicos <a praticá-la e apenas esperam que os outros a reconheçam.
Que os homens deixem de ser hipócritas, e logo verão que a dura ordem social, que somente os prende e que parece a seus olhos algo indestrutível, necessário, sagrado, vindo de Deus, já vacila e só se mantém com a mentira e com a hipocrisia, e que permanece de pé unicamente por obra nossa. Mas, se assim é, se é verdade que depende de nós abolir o atual regime, temos nós o direito de fazê-lo, não sabendo claramente o que colocaremos em seu lugar? Em que se transformaria a sociedade?
O que encontraremos do outro lado do muro do mundo que abandonamos? O medo nos domina — vazio, espaço, liberdade... — como prosseguir sem saber o que há adiante? Como perder, com a esperança de nada obter? Se Colombo houvesse assim raciocinado, nunca teria levantado âncora. Era uma loucura lançar-se no oceano sem conhecer o caminho, no oceano onde nunca alguém se havia arriscado, para navegar em direção a um país cuja existência era hipotética. Graças a esta loucura, ele descobriu um novo mundo. Sem dúvida, se os povos se pudessem deslocar de uma estalagem para outra melhor, seria mais fácil, mas infelizmente não há ninguém para preparar o novo alojamento. O futuro é ainda mais incerto que o oceano — nada existe nele. Será como o farão as circunstâncias e os homens.
Se estais contentes com o velho mundo, procurai conservá-lo, porque está gravemente doente e não viverá por muito tempo; mas se vos é insuportável viver em eterno desacordo entre vossa convicção e a vida, pensar de um modo e agir de outro, apressai-vos a deixar o refúgio das brancas abóbadas da Idade Média, haja o que houver. Bem sei que não é fácil. Não é, sem dúvida, um pequeno sacrifício abandonar tudo aquilo a que estamos habituados desde a infância, tudo aquilo em cujo seio crescemos. Os homens estão preparados para grandes sacrifícios, mas não para aqueles que dele exigem uma nova vida. Estarão preparados para sacrificar a civilização moderna, seu modo de viver, e a religião, sua moral convencional? Estaremos nós preparados para abandonar todos os frutos produzidos com tanto esforço e dos quais nos vangloriamos há três séculos, para abandonar todas as comodidades, todos os atrativos da existência, para preferir a juventude selvagem à senilidade refinada, para derrubar o palácio erguido por nossos pais somente pelo prazer de participar dos alicerces de uma nova casa que será construída muito tempo depois de nós?
HERZEN, vol. V, p. 55.
Assim falava, há cinquenta anos, o escritor russo que já via, com seu espírito profético, o que hoje vê qualquer homem que reflita um pouco; a impossibilidade de continuar a existência sobre suas antigas bases e a necessidade de estabelecer novas formas de vida.
Já é evidente para o homem mais simples, para o menos inteligente, que seria loucura permanecer sob o teto de uma casa que ameaça desmoronar, que é preciso sair da mesma. E, na realidade, seria difícil inventar uma situação mais infeliz do que aquela em que se encontra, hoje, o mundo cristão, com seus povos armados uns contra os outros, com seus impostos sempre mais altos para dar continuidade a seus armamentos, com o ódio sempre crescente das classes operárias contra os ricos, com a guerra suspensa sobre todos como a espada de Dâmocles, prestes a cair a qualquer instante e que, de fato, cairá, um dia ou outro.
Há dúvidas que qualquer revolução possa ser mais perniciosa para o povo do que a ordem, ou melhor, a desordem atual, com suas habituais vítimas do trabalho sobre-humano, da miséria, da embriaguez, da depravação, e com todos os horrores da próxima guerra que fará em um ano mais vítimas do que todas as revoluções do século atual.
O que acontecerá à humanidade se cada um de nós realizar o que Deus lhe pede através da consciência que está em nós? Será, talvez, pernicioso que, por ordem de um mestre, eu execute, na escola por ele criada e por ele dirigida, aquilo que me diz para fazer, embora aquilo me pareça estranho, a mim que não conheço o objetivo final a que se propôs? Mas os homens não estão sequer preocupados com esta pergunta: "O que acontecerá?", quando hesitam em cumprir a vontade do mestre: perguntam-se como viver fora das condições habituais da vida que chamamos de civilização, cultura, ciências, artes? Sentimos pessoalmente todo o peso da vida presente, percebemos até que a ordem desta vida, caso continue, nos arruinará infalivelmente; mas, ao mesmo tempo, desejamos que as condições de nossa vida — civilização, cultura, ciências, artes — permaneçam as mesmas, apesar das mudanças havidas na ordem das coisas. Seria como se o homem que habita uma velha casa onde sofre com o frio e mil outros inconvenientes, sabendo que esta desabará de um momento para outro, só consentisse em sua reconstrução mediante o acordo de não sair dela, acordo que equivaleria à recusa de reconstruí-la.
"E o que acontecerá se, saindo de casa, eu me privo de todas suas vantagens e se não for construída uma nova, ou se a construírem de outro modo, e nela nada se encontre daquilo a que estou acostumado?" Mas, uma vez que os materiais existem, uma vez que os construtores existem, tudo nos leva a crer que a nova casa será construída, e em melhores condições do que a antiga. Por outro lado, não só é provável como certo que a velha casa desabará e enterrará sob suas ruínas aqueles que nela permanecerem. Que as antigas condições de vida desapareçam, que se estabeleçam novas, melhores, porque de qualquer modo é inevitável que se abandone as antigas, tornadas impossíveis e mortais, e se caminhe ao encontro do futuro.
"Mas as ciências, a arte, a civilização, tudo desaparecerá!" Mas, posto que todas essas coisas não são senão diferentes manifestações da verdade, posto que a mudança a ser feita tem como objetivo a aproximação da verdade e sua realização, como poderiam as manifestações da verdade desaparecer em consequência de sua execução? Elas serão outras, melhores e superiores, mas não desaparecerão. Desaparecerá unicamente o que nelas havia de mentiroso, o que continham de verdadeiro apenas resplandecerá ainda mais.
Caiam em si homens, e creiam no Evangelho, na doutrinada felicidade. Se não caírem em si perecerão todos, como pereceram os homens mortos por Pilatos, como pereceram aqueles que foram esmagados pela mítica Semíramis, como pereceram milhões e milhões de homens assassinados e que haviam assassinado, condenados à morte que haviam condenado à morte, martirizados e que haviam martirizado, e co- mo... pereceu estupidamente o homem que murou os celeiros I e esperava neles viver por muito tempo, ali morreu na mesma noite em que quis começar aquela yida.
“Voltem a si, homens, e creiam no Evangelho", disse Cristo há 18 séculos; e ele o diz com maior força hoje que a desgraça por ele predita já ocorreu e que nossa vida atinge o último grau de loucura ç sofrimento.
Após tantos séculos de vãs tentativas para tornar nossa vida tranquila, com a ajuda da ordem pagã da violência, deveria parecer evidente que todos os esforços voltados para este objetivo trazem apenas novos perigos para a vida pessoal e social, ao invés de torná-las mais seguras.
Seja qual for o nome que nos damos, sejam quais forem as roupas que vistamos, seja qual for o padre que nos dê a unção, seja qual for a quantidade de nossos milhões, seja qual for o número de sentinelas a postos em nosso caminho, seja qual for o número dos policiais encarregados de proteger nossa riqueza, seja qual for o número dos supostos malfeitores, revolucionários ou anarquistas que condenamos à morte, sejam quais forem nossos gestos, seja qual for o Estado que fundamos, as fortalezas e as torres que erguemos, da torre de Babel à torre Eif fel — duas condições inevitáveis estão sempre a nossa frente e eliminam por completo o sentido da vida: primeiro, a morte, que pode nos atingir a qualquer instante; segundo, a fragilidade de todas nossas obras que desaparecem depressa demais e sem deixar rastro algum. Façamos o que fizermos: quer ergamos palácios e monumentos, quer escrevamos poemas e cantos, nada disso dura por muito tempo, tudo passa sem deixar vestígio algum. Por isso, embora o escondamos cuidadosamente de nós mesmos, podemos ver que o sentido de nossa vida não pode residir nem em nossa existência material, sujeita a sofrimentos inevitáveis e à morte, nem em qualquer instituição ou ordem social.
Quem quer que sejas tu que lês estas linhas, pensa na tua situação e em teus deveres, não em tua situação de proprietário, de negociante, de juiz, de rei, de presidente, de ministro, de padre, de soldado, que te dão provisoriamente os homens, e não nos deveres imaginários que essa situação te cria, mas na situação verdadeira, eterna, do ser que, por vontade de Alguém, após toda uma eternidade de não- existência, saiu da inconsciência, e que pode a qualquer instante, pela mesma von- tade, a ela retornar; e pensa em teus verdadeiros deveres que resultam de tua verdadeira situação de ser chamado à vida e dotado de inteligência e de amor. Fazes realmente aquilo que te pede Aquele que te mandou ao mundo e ao qual retornarás dentro em breve? Fazes realmente aquilo que Ele te pede? Fazes isto quando, proprietário, dono de fábrica, tiras dos pobres o fruto de seus trabalhos, baseando tua vida nesta espoliação, ou quando, governante, juiz, violentas os homens, os condenas e os mandas à morte, ou quando, militar, te preparas para a guerra e a fazes, e saqueias e matas? Dizes que o mundo está assim organizado, que tudo isto é inevitável, que o fazes contra tua vontade. Mas, com tão forte repugnância pelos sofrimentos dos homens, pelas violências e pelo homicídio, com tão irresistível necessidade de amor recíproco, vendo claramente que apenas a igualdade entre todos os homens e seu desejo de ajuda mútua podem realizar a maior soma de felicidade possível, quando o coração, o intelecto, a fé te dizem o mesmo, e quando a ciência te repete, é possível que sejas obrigado, por não sei que argumentos confusos e emaranhados, a fazer exatamente o contrário: proprietário ou capitalista, a basear tua vida na opressão do trabalhador; rei ou presidente, a comandar o exército, isto é, a ser chefe e guia de matanças; funcionários a tirar dos pobres seus últimos pertences para deles te beneficiar pessoalmente ou dá-los aos ricos; juiz ou jurado, a condenar ao sofrimento ou à morte homens desencaminhados, porque não lhes foi mostrada a verdade, ou, sobretudo, e esta é a base de todo o mal, que tu, jovem, sejas obrigado a te fazer soldado e, renunciando a tua vontade e a todos teus sentimentos humanos, te empenhes em matar, segundo a vontade de estranhos, todos aqueles que te ordenarem matar? Isto é impossível.
Se te é ainda dito que tudo isto é necessário para a manutenção da atual ordem, e que esta ordem, com a penúria, com os espancamentos, com as prisões, com os patíbulos, com os exércitos, com as guerras, é necessária à sociedade; que, se esta ordem desaparecesse, haveria desventuras maiores, isto te é dito por aqueles que se beneficiam com esta ordem, enquanto todos aqueles que devido a ela sofrem — e são dez vezes mais numerosos — pensam e dizem o contrário. E tu mesmo, no íntimo de teu coração, sabes que isto não é verdade, e que a ordem atual já teve seu tempo, que deve ser inevitavel-fmente reconstituída sobre novas bases e que, portanto, nada te obriga a sustentá-la, sacrificando os sentimentos humanos.
Mesmo admitindo que esta ordem seja necessária, por que te crês no dever de sustentá-la, pisoteando teus melhores sentimentos? Quem te fez ama-seca desta ordem que se desagrega? Nem a sociedade nem o Estado; ninguém jamais te pediu que ocupes a posição de proprietário, de negociante, de soberano, de padre ou de soldado; e sabes muito bem que ocupas tua posição, não pelo fim desinteressado de manter a ordem da vida necessária à felicidade dos homens, mas sim em teu próprio interesse: a satisfação de tua cobiça, de tua vaidade, de tua ambição, de tua preguiça e de tua vilania. Se tu não desejasses esta situação, não farias tudo para mantê-la. Experimenta não mais cometer os atos cruéis, pérfidos e abjetos que cometes para conservar tua posição, e logo a perderás. Experimenta, chefe de Estado ou funcionário, não mais mentir, não mais participar das violências e das execuções à morte; padre, não mais enganar; militar, não mais matar; proprietário ou dono de fábrica, não mais defender tua propriedade com fraudes e com violências, e logo perderás a situação que supões te tenha sido imposta e que parece pesar-te.
E impossível que o homem seja colocado, contra sua vontade, numa situação contrária a sua consciência.
Se te encontras em tua situação, não é porque isso seja necessário a quem quer que seja, mas simplesmente porque assim desejas. Por isso, sabendo que esta posição repugna enormemente teu coração, tua razão e tua fé, e até a ciência na qual tens fé, é impossível não insistir na questão de saber se, conservando-a e, sobretudo, procurando justificá-la, fazes realmente aquilo que deves fazer.
Poderias tentar a aventura, se houvesse tempo para recuperar tua culpa e expiá-la, e se corresses tal risco por algo de valor. Mas, quando sabes sem sombra de dúvida que podes desaparecer de um momento para outro, sem a mínima possibilidade, nem para ti, nem para aqueles que arrastas em tua culpa, de expiá-la, quando sabes, ainda, que o que quer que faças na ordem material do mundo, tudo de- saparecerá depressa e infalivelmente como tu mesmo, sem deixar vestígio algum, é evidente que não tens nenhuma razão para assumir a responsabilidade de uma culpa tão terrível.
Isto seria assim tão simples e tão claro, se nossa hipocrisia não obscurecesse a verdade que nos é indiscutivelmente revelada. Divide com os outros o que tens, não acumules riquezas, não te ensoberbeças, não roubes, não faças sofrer, não mates, não faças aos outros o que não gostarias que te fosse feito. Tudo isto foi dito não há cinquenta anos, mas há 18 séculos, e não poderia haver dúvidas quanto à verdade desta lei se não existisse a hipocrisia. Ainda que não fosse posta em prática; não teria sido possível, ao menos, deixar de reconhecê-la e não dizer que quem a pratica age mal.
Mas dizes que existe a felicidade universal, que, por ela, não podemos e não devemos nos conformar com estas regras: para o bem-estar geral pode-se matar, violentar, assaltar. É melhor que um só homem pereça, ao invés de um povo inteiro, dizes como Caifás e subscreves a condenação à morte de um homem, de outro, de um terceiro; carregas teu fuzil contra aquele homem que deve perecer pelo bem geral, o colocas na prisão, lhe retiras tudo o que possui. Dizes que cometes estas crueldades porque fazes parte da sociedade, do Estado, porque tens o dever de servi-los, e, como proprietário, juiz, soberano, soldado, deves agir conforme suas leis.
Mas, se tu pertences ao Estado e se esta posição te cria deveres, pertences também à vida eterna e a Deus, e isto também te impõe deveres. E, como teus deveres de família e de sociedade estão sujeitos aos deveres superiores do Estado, do mesmo modo estes últimos devem necessariamente estar subordinados àqueles que te são ditados pela vida eterna e por Deus. E, assim como será insensato derrubar os postes dos fios telegráficos para fornecer combustível a uma família ou a uma sociedade a fim de aumentar-lhe seu bem-estar, o que comprometeria os interesses gerais, do mesmo modo é insensato violentar, justiçar, matar, para aumentar o bem-estar da nação, porque isso compromete os interesses da humanidade.
Teus deveres de cidadão não podem deixar de ser subordinados aos deveres superiores da vida eterna de Deus e não podem contradizê-los, como disseram, há 18 séculos, os discípulos de Cristo: "Julgai se é justo aos olhos de Deus obedecer mais a vós do que a Deus" (At 4,19) e: "É preciso obedecer antes a Deus que aos homens" (At 5,29).
Afirmam-te que deves, para que a ordem instável, estabelecida em qualquer parte do mundo por alguns homens, não seja destruída, cometer violências que destróem a ordem eterna e imutável estabelecida por Deus e pela razão.
É isto, talvez, possível? Por isso não podes deixar de refletir sobre tua posição de proprietário, negociante, juiz, rei, presidente, ministro, padre, soldado, que é inerente à opressão, à violência, à mentira, ao homicídio, e não reconhecer sua ilegitimidade.
Não digo que, se és proprietário, devas entregar imediatamente tua terra aos pobres; capitalista ou industrial, teu dinheiro aos operários; que, soberano, ministro, funcionário, juiz, general, tu devas renunciar de imediato às vantagens de tua posição, e, soldado (em quem estão calcadas todas as violências), recusar-te imediatamente a obedecer, não obstante todo o perigo de tua insubordinação.
Se o fizeres, será um ato heróico. Mas pode acontecer — e é o mais provável — que não tenhas a força: tens relações, uma família, subordinados e chefes, estás sob uma influência tão forte que não te podes libertar, mas sempre podes reconhecer a verdade e não mentir. Não afirmarás que permaneces proprietário, fabricante, negociante, artista, escritor, porque isto é útil aos homens, que és governador, procurador, soberano, não porque te agrada, porque estás habituado, mas para o bem público, que continuas a ser soldado, não por receio de uma punição, mas porque consideras o exército necessário à sociedade. Sempre podes não mentir desta forma a ti mesmo e aos outros, aliás não deves, porque o único objetivo de tua vida deve ser o de libertar-te da mentira e de professar a verdade. E bastaria que o fizesses para que a situação mudasse rapidamente, por si mesma.
És livre para realizar apenas isto: reconhecer e professar a verdade.
Por isso, pelo simples fato de que homens, como tu, desvirtuados e miseráveis, te fizeram soldado, soberano, proprietário, capitalista, padre, general, te pões a cometer violências evidentemente contrárias a tua razão e a teu coração, a basear tua vida na desventura alheia, e sobretudo, em lugar de cumprir o único dever de tua vida, reconhecer e professar a verdade, finges não conhecê-la e a ocultas de ti mesmo e dos outros.
E em que condições o fazes? Tu, que podes morrer de um momento para o outro, assinas sentenças de morte, declaras a guerra, nela tomas parte, julgas, martirizas, exploras os operários, vives no luxo em meio a pobres e ensinas aos homens fracos, que têm fé em ti, que assim deve ser e que este é o dever dos homens; e, pode, contudo, acontecer que, no momento em que assim ages, um bacilo ou uma bala te atinja e caias e morras, perdendo para sempre a possibilidade de reparar o mal que fizeste aos outros e sobretudo a ti mesmo, consumando inutilmente uma vida que te foi dada uma só vez em toda a eternidade, e sem haver realizado a única coisa que deverias realizar.
Por mais comum e antigo nos possa parecer, por mais perturbados que estejamos pela hipocrisia e pela auto-sugestão dela resultante, nada pode destruir a certeza desta verdade simples e clara: nenhuma condição material pode garantir nossa vida, que os inevitáveis sofrimentos acompanham e à qual a morte infalivelmente põe fim, e que, portanto, não pode haver qualquer outro sentido exceto o cumprimento constante aquilo que nos pede o Poder que nos pôs na vida com um único guia certo, a razão consciente.
Eis por que este Poder não nos pode pedir o que é irracional e impossível; a ordem de nossa vida temporária material, a vida da sociedade e do Estado. Este Poder pede-nos apenas o que é racional, certo e possível: servir o reino de Deus, ou seja, colaborar para o estabelecimento da maior união entre todos os seres vivos — união somente possível na verdade revelada, o que sempre está em nosso poder.
"Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas" (Mt 6,33). O único sentido da vida é servir a humanidade, colaborando para o estabelecimento do reino de Deus, o que não poderá ser feito se cada um dos homens não reconhecer e não professsar a verdade.
“A vinda do Reino de Deus não é observável. Não se poderá dizer: ‘Ei-lo aqui! Ei-lo ali!’ pois eis que o Reino de Deus está em vós.” (Lc 17, 20-21)
Yasnaia Poliana.
14/26 maio 1893
Fonte: www.portaldetonando.com.br