Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  O Reino De Deus Está Em Vós  Voltar

O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

Certos homens, sem raciocínio bem definido, concluem, não se sabe bem de que maneira, que a responsabilidade pelas medidas governamentais cabe inteiramente àqueles que governam, isto é, que os governantes e os reis decidam o que é bem e o que é mal para seus súditos, e que o dever destes é apenas o de obedecer. Creio que este modo de pensar nada faz senão ofuscar a cons-, ciência. "Não posso participar dos conselhos do governo, portanto não sou responsável por seus delitos." É verdade que não somos responsáveis pelos erros dos governantes, mas somos responsáveis pelos nossos erros, e os cometidos por nossos governantes transformam-se em nossos se, sabendo que são erros, participamos de sua execução. Aqueles que acreditam que seu dever é obedecer ao governo e que a responsabilidade dos delitos que cometem recai inteiramente sobre o soberano estão bastante enganados.

Alguns dizem: ''Submetamos nossos atos à vontade alheia e estes atos não podem ser maus ou bons. Em nossos atos não pode haver o mérito de uma boa ação, nem a responsabilidade de uma má ação, já que são alheios à nossa vontade." Devemos notar que estas mesmas idéias são desenvolvidas nas instruções dadas aos soldados e que devem por eles ser decoradas. Nelas é dito que somente o comandante será responsável pelas conseqüências de suas ordens.

Mas isto não é verdade. O homem não pode fugir da responsabilidade dos atos que comete. Eis por que: Se o comandante ordena matar o filho do vosso vizinho, matar vosso pai, vossa mãe, obedecer-lhe-eis? E, se não lhe obedecerdes, todos os raciocínios caem por terra, porque, se há caso em que podeis não obedecer, onde encontrareis o limite até o qual deveis fazê-lo? Não existe para vós outro limite senào aquele estabelecido pelo cristianismo; e respeitá-lo é coisa, aojjiesrno tempo, sabiá e fácil.

Portanto, acreditamos que o dever de cada homem que considere a guerra como inconciliável com sua religião é recusar, suave mas firmemente, o serviço militar. Aqueles que assim agirem recordar-se-ao que cumprem um grande dever. De sua fidelidade à religião depende (tanto quanto isto pode depender dos homens) o destino da paz da humanidade. Professem e defendam sua convicção, não apenas com palavras mas, se necessário, com sofrimento.

Se acreditais que o Cristo tenha condenado a matança, não atendais aos raciocínios nem às ordens dos homens que vos ordenam nela tomar parte.

Com essa firme recusa a participar da violência, merecereis a bênção daqueles que escutam e seguem essas ordens, e chegará um dia em que o mundo vos louvará como artífices da regeneração humana

CertoS homens, sem raciocínio bem definido, concluem, não se sabe bem de que maneira, que a responsabilidade pelas medidas governamentais cabe inteiramente àqueles que governam, isto é, que os governantes e os reis decidam o que é bem e o que é mal para seus súditos, e que o dever destes é apenas o de obedecer. Creio que este modo de pensar nada faz senão ofuscar a cons-, ciência. "Não posso participar dos conselhos do governo, portanto não sou responsável por seus delitos." É verdade que não somos responsáveis pelos erros dos governantes, mas somos responsáveis pelos nossos erros, e os cometidos por nossos governantes transformam-se em nossos se, sabendo que são erros, participamos de sua execução. Aqueles que acreditam que seu dever é obedecer ao governo e que a responsabilidade dos delitos que cometem recai inteiramente sobre o soberano estão bastante enganados.

Alguns dizem: ''Submetamos nossos atos à vontade alheia e estes atos não podem ser maus ou bons. Em nossos atos não pode haver o mérito de uma boa ação, nem a responsabilidade de uma má ação, já que são alheios à nossa vontade." Devemos notar que estas mesmas idéias são desenvolvidas nas instruções dadas aos soldados e que devem por eles ser decoradas. Nelas é dito que somente o comandante será responsável pelas conseqüências de suas ordens.

Mas isto não é verdade. O homem não pode fugir da responsabilidade dos atos que comete. Eis por que: Se o comandante ordena matar o filho do vosso vizinho, matar vosso pai, vossa mãe, obedecer-lhe-eis? E, se não lhe obedecerdes, todos os raciocínios caem por terra, porque, se há caso em que podeis não obedecer, onde encontrareis o limite até o qual deveis fazê-lo? Não existe para vós outro limite senào aquele estabelecido pelo cristianismo; e respeitá-lo é coisa, aojjiesrno tempo, sabiá e fácil.

Portanto, acreditamos que o dever de cada homem que considere a guerra como inconciliável com sua religião é recusar, suave mas firmemente, o serviço militar. Aqueles que assim agirem recordar-se-ao que cumprem um grande dever. De sua fidelidade à religião depende (tanto quanto isto pode depender dos homens) o destino da paz da humanidade. Professem e defendam sua convicção, não apenas com palavras mas, se necessário, com sofrimento.

Se acreditais que o Cristo tenha condenado a matança, não atendais aos raciocínios nem às ordens dos homens que vos ordenam nela tomar parte.

Com essa firme recusa a participar da violência, merecereis a bênção daqueles que escutam e seguem essas ordens, e chegará um dia em que o mundo vos louvará como artífices da regeneração humana.

O livro de Musser tem o título: Non-resistance asserted, ou Kingdom of Christ and kingdom of this world separated, 1864 (Afirmação da não-resistência, ou Separação do reino de Deus do reino terrestre).

Esse livro foi escrito por ocasião da Guerra de Secessão, quando o governo americano impôs o serviço militar a todos os cidadãos. Isto é também importante, na atualidade, pelos assuntos que aborda em relação à recusa ao serviço militar. No prefácio, diz o autor:

Sabe-se que, nos Estados Unidos, muitos negam a necessidade da guerra. Estes são chamados os cristãos não-resistentes> ou defenceless (sem defesa). Recusam-se a defender o próprio país, a usar armas e a combater contra os inimigos a pedido do governo. Até pouco tempo esta razão religiosa foi respeitada pelo governo, e aqueles que a invocaram eram liberados do serviço militar. Mas, no início da Guerra de Secessão, a opinião pública indignou-se com essa situação. É natural que os cidadãos que, para a defesa de sua pátria, consideravam um dever submeter-se às durezas e aos perigos da vida militar, tenham visto com desprezo aqueles que, evitando essas obrigações, usufruíam de há muito, em igualdade de condições, da proteção e das vantagens do Estado que se recusavam a defender no momento de perigo. E é também evidente que essa situação trazia em si algo de monstruoso e inexplicável.

Inúmeros oradores e escritores rebelaram-se contra a doutrina da não- resistência e tentaram provar sua falsidade, seja por meio de raciocínio, seja por meio da Sagrada Escritura. Isto é lógico e, em muitos casos, esses escritores têm razão, quando se trata daqueles que, recusando-se às durezas do serviço militar, não recusam as vantagens do serviço social; mas eles não têm razão quando se trata do próprio princípio da não-resistência.

Antes de tudo, o autor estabelece para osjcnstãos o dever da não-resistência pelo fato de que o mandamento é, nitidamente e sem equívoco possível, expresso por Cristo: "Julgai vós mesmos se é justo obedecer ao homem ao invés de Deus", como reportaram Pedro e João. Portanto, todo homem que quer ser cristão tem apenas uma conduta a manter, a recusa, quando desejarem mandá-lo à guerra, pois Cristo disse: "Não resistireis ao mal com a violência".

Eis por que o autor considera a questão a princípio resolvida. Quanto à outra questão, relativa às pessoas que, não recusando as vantagens a elas dadas por um governo baseado na violência, ainda assim se recusam ao serviço militar, o autor a estuda em detalhes e chega à conclusão de que, caso o cristão que segue as leis de Cristo se recuse a ir à guerra, não pode tomar parte alguma na administração governamental, no poder judiciário, nem no poder eletivo. Não pocie, sequer, recorrer à autoridade, à polícia ou à justiça, para regularizar seus problemas pessoais.

Mais adiante, o autor examina as relações existentes entre o Antigo e o Novo Testamentos e mostra o que significa o Estado para os não-cristãos. Expõe as objeções feitas à doutrina da não-resistência e as rebate; enfim, assim conclui: “Os cristãos não precisam do governo e portanto não são obrigados a obedecer-lhe e menos ainda a dele participar." Cristo escolheu no mundo seus discípulos, que não almejam as satisfações e a felicidade terrenas; almejam, sim, a vida eterna. O espírito no qual vivem os torna satisfeitos e felizes, qualquer que seja sua condição. "Se o mundo lhes é tolerante, estão contentes; se não são deixados em paz, vão-se para outros países, porque são peregrinos na Terra e não se fixam em lugar algum. Acreditam que cabe aos mortos enterrar seus mortos; no que lhes diz respeito nada devem fazer senão ‘seguir seu mestre’." Sem examinar se a definição do dever do cristão em relação à guerra é ou não justa, definição estabelecida nos dois livros, não se pode negar a possibilidade prática nem a urgência de uma solução para este problema.

Centenas de milhares de homens, os quakers, os meno-nitas os nossos dukhoborzos, os nossos molokanes e uma quantidade de pessoas que não pertencem a qualquer seita definida, consideram a violência, e, por conseguinte, o serviço militar, como inconciliáveis com o cristianismo. Eis por que a cada ano, entre nós, na Rússia, alguns recrutados recusam o serviço militar, fundamentando-se em sua convicção religiosa. E o que faz o governo? Libera-os, talvez? Obriga-os a marchar e os pune, em caso de recusa? Não...

Em 1818, o governo assim regulamentou. Eis um extrato de jornal, que quase ninguém conhece na Rússia, de Nicolau Nicolaiewic Muraviev-Karsky, suprimido pela censura:

2 de outubro de 1818. Tifilis.

Hoje pela manhã, o comandante disse-me que foram mandados recentemente para a Geórgia cinco camponeses da Comarca de Tàmbov. Esses homens foram recrutados pelo exército, mas se recusam a se submeterem ao serviço militar. Foram já muitas vezes punidos com o knut1 e com o bastão; mas abandonaram sem resistência seus corpos às mais cruéis torturas e à morte, para não serem soldados. "Deixai-nos ir, dizem, não nos façais mal e não o faremos a ninguém. Todos os homens são iguais e o tzar é um homem como nós. Por que lhe pagaremos impostos? Por que iremos expor nossas vidas na guerra para matar homens que não nos fizeram mal algum? Podereis cortar-nos em pedaços, mas não mudareis nossas idéias. Não vestiremos a farda e não comeremos na gamela. Aquele que tiver piedade de nós dará esmola; nada temos que pertença ao tzar e dele nada queremos ter!' Eis o que dizem esses mujiques. Garantem que na Rússia muitos pensam da mesma forma. Foram conduzidos quatro vezes à frente do conselho de ministros, e foi finalmente decidido submeter a questão ao soberano, que determinou, como medida de punição, mandá-los para a Geórgia, ordenando ao general-comandante que lhe fizesse um relatório mensal sobre os progressos da conversão deles a idéias mais sadias.

1Espécie de chicote russo. (N. do E.)

Se conseguiu submetê-los? Não se sabe; e é também desconhecido o próprio fato, a respeito do qual foi mantido o mais profundo segredo.

Assim agia o governo há 75 anos; assim continuou a agir na maior parte dos casos, sempre com muito cuidado ocultos do povo; assim age ainda hoje, exceto para com os alemães menonitas que vivem na Comarca de Kherson, cuja recusa ao serviço militar é respeitada e que servem somente no corpo da guarda florestal.

Nos mais recentes casos de recusa ao serviço militar fundamentada em convicções religiosas, por homens que não pertençam à seita dos menonitas, as autoridades assim regulamentam.

Antes de tudo, adotam-se todas as medidas coercitivas que hoje são usadas para "corrigir" o recalcitrante e convertê-lo às idéias "sadias", e é mantida secreta qualquer instrução referente a tal espécie de assunto. No que concerne a um destes refratários, sei que em 1884, em Moscou, dois meses após sua recusa, o caso sè havia transformado em volumoso dossiê, conservado no mais profundo segredo nos arquivos do ministério.

Começa-se geralmente por mandar o recalcitrante aos padres que, para sua vergonha, procuram sempre induzi-lo à submissão. Mas esta exortação, em nome de Cristo, a renegar Cristo, permanece, na maior parte das vezes, sem efeito.

Então, entregam-no áos guardas. Estes, em geral, não encontrando em seu caso qualquer razão política, mandam-no embora. Então são os doutores, os médicos, que dele se ocupam e o mantêm em observação num manicômio.

Em todo este ir e vir, o infeliz, privado de liberdade, sofre todo o tipo de humilhação e sofrimento, como um delinquente condenado (o fato repetiu-se quatro vezes). Quando os médicos o deixam sair do manicômio, começa uma longa série de manobras ocultas e pérfidas que visam impedi-lo de partir, a fim de que não leve o mau exemplo aos que como ele pensam. Evita-se também deixá-lo entre os soldados, porque estes poderiam aprender com ele que sua convocação para o exército está longe de ser o cumprimento das leis de Deus, como são levados a crer.

O mais cómodo, para o governo, seria simplesmente cortar a cabeça do refratário, surrá-lo até a morte ou suprimi-lo de qualquer outro modo, como outrora se fazia. Desgraçadamen te, é impossível condenar à morte abertamente um homem pelo motivo de ser ele fiel à doutrina que nós próprios professamos.

Por outro lado, é da mesma forma impossível deixar em paz um homem que se recusa a obedecer. Então, o governo esforça-se para obrigar, pelo sofrimento, este homem a renegar Cristo, ou suprime-o secretamente por um meio qualquer, a fim de que ninguém conheça seu suplício ou seu exemplo.

Todo o tipo de astúcia foi adotado para submeter os refratários a todos os tipos de tortura: Deportação para algum país distante; processo por indisciplina; prisão, incorporação aos batalhões de punição, onde se pudesse torturá-lo livremente, ou rotulavam-nos como loucos e trancafíavam-nos num manicômio. Assim, um foi deportado para Taschkent, ou seja, usaram o pretexto de mandá-lo para o exército de Taschkent; um outro foi mandado para Omsk; um terceiro foi julgado por rebelião e encarcerado; um quarto, enfim, foi trancado num manicômio.

Por toda a parte a mesma coisa! Não só o governo, mas também a maioria dos liberais, dos livres-pensadores, parecem haver adotado a palavra de ordem de desviar cuidadosamente a atenção de tudo aquilo que foi dito, escrito, feito e que ainda se faz para revelar a inconciliabilidade da violência, em sua forma mais terrível, mais grosseira, mais clara — a do militarismo, isto é, a organização da morte — com a dou- trina, não direi cristã, mas simplesmente humanitária, que a sociedade pretende professar.

Assim, as informações que recebi sobre até que ponto o verdadeiro significado da doutrina de Cristo foi explicado por muito tempo, e cada vez mais se explica, e qual seja, em relação a esta explicação e ao seguimento da doutrina, a atitude das classes superiores e dirigentes — não só na Rússia, mas também na Europa e na América — convenceram-me de que, nessas classes, existe uma hostilidade consciente contra o verdadeiro cristianismo, e essa hostilidade se traduz principalmente na conspiração do silêncio em que são envolvidas todas as suas manifestações.

CAPÍTULO II

Opiniões dos fiéis e dos livres-pensadores sobre a não-resistência ao mal com a violência

Os comentários gerados por meu livro produziram em mim esta mesma impressão. Adivinhei o desejo existente de se fazer silêncio sobre as idéias que procurei exprimir.

Ao ser pubjicado, como já esperava, este livro foi proibido. Segundo a lei, deveria ser queimado. Ao contrário, foi procurado pelas autoridades; uma enorme quantidade de cópias e autobiografias foi difundida, além de diversas traduções editadas no exterior.

E, logo depois, apareceram as críticas, não apenas religiosas, mas leigas, que o governo não só tolerou como encorajou. Deste modo, a impugnação de um livro que ninguém deveria conhecer foi discutida nas academias como tema para obras teológicas.

As críticas a meu livro, russas ou estrangeiras, dividem-se em duas categorias: as críticas religiosas de escritores que se consideram fiéis e as críticas dos livres- pensadores.

Começo pelas primeiras.

Acuso, em meu livro, os doutores da igreja de ensinarem uma doutrina claramente contrária aos preceitos de Cristo, sobretudo, ao mandamento da não- resistência ao mal e de, com isto, retirarem da doutrina de Cristo toda sua importância.

Os teólogos admitiram o Sermão da Montanha, como também o mandamento da não-resistência ao mal com a violência, como revelações divinas. Por que então, já decididos a discutir meu livro, não respondem eles, antes de tudo, ao ponto principal da acusação? Deveriam dizer francamente se reconhecem ou não como obrigatórios para os cristãos a doutrina do Sermão da Montanha e o^mandamento da não- resistência ao mal com a violência. Em lugar de responderem, como muitas vezes fazem, que por um lado não se pode por certo negar, mas que, por outro lado, não se pode por certo afirmar... tanto mais que... etc...., eles deveriam responder com clareza à pergunta que formulo em meu livro. Cristo pedia realmente a seus discípulos que aceitassem os preceitos do Sermão da Montanha? Então, pode ou não o cristão participar da justiça, seja como juiz, seja como acusador, o que se constitui numa apelação à força? Pode ele ou não, permanecendo cristão, participar da administração, isto é, usar da força contra seus semelhantes? E enfim, pergunta mais importante, a que, com o serviço militar obrigatório, interessa hoje a todos: pode o cristão, contrariamente à indicação tão precisa de Cristo, servir o exército e assim cometer homicídio ou preparar-se para tal? Estas perguntas são formuladas clara e francamente, e mereciam respostas da mesma forma claras e francas. Mas nada semelhante se encontra em todas as críticas provocadas por meu livro, nem mesmo, aliás, em todas as que responderam aos escritos através dos quais se conclamam os doutores da igreja às verdadeiras prescrições do Evangelho, escritos dos quais a História está repleta, desde os tempos de Constantino.

Por ocasião de meu livro, censuraram-me pela interpretação errada de uma ou outra passagem da Bíblia; porque não reconheço a Trindade, a Redenção e a imortalidade da alma, comentaram meu desvio. Comentaram-se muitas coisas, mas nada a respeito daquilo que, para todos os cristãos, se constitui na principal, na essencial pergunta de vida: como conciliar a doutrina claramente expressa pelo Senhor e contida no coração de cada um de nós — perdão, humildade, paciência, amor a todos, amigos ou inimigos — com a exigência da guerra e de suas violências contra os nossos compatriotas e contra os estrangeiros? As aparentes respostas dadas a esta pergunta podem ser agrupadas em cinco categorias.

Reuni aqui não apenas o que encontrei nas críticas a meu livro, mas também tudo o que foi escrito sobre este assunto no passado.

O primeiro e mais grosseiro gênero de respostas consiste na afirmação audaciosa de que a violência não está em contradição com a doutrina de Cristo, que é autorizada e até mesmo ordenada pelo Antigo e Novo Testamentos. As respostas deste tipo provêm, em sua maioria, de pessoas que se encontram no ápice da hierarquia administrativa ou religiosa e que estão, por isto, absolutamente certas de que ninguém a elas ousaria contradizer e que, por outro lado, nem dariam ouvidos. Devido à embriaguez do poder, esses homens perderam totalmente a noção do que é o cristianismo (em cujo nome ocupam suas posições), e tudo o que nele se encontra de realmente cristão lhes parece herético, enquanto, tudo aquilo que, ; na Sagrada Escritura, pode ser interpretado no sentido anticris-tão e pagão parece-lhes o verdadeiro sentido do cristianismo.

Em apoio à afirmação de que o cristianismo não está em contradição com a violência, eles invocam, com a maior audácia, as passagens mais equivocadas do Antigo e do Novo Testamentos, interpretando-as no sentido menos cristão como, por exemplo, a execução de Ananias e Safira, a de Simão Mago etc. Citam tudo o que lhes parece justificar a violência, como a expulsão dos mercadores do templo e as palavras: "Mas eu vos digo que o Dia do Juízo será mais suportável para a Terra de Sodoma, que para vós" (Mt 11,24).

Consoante a opinião desses homens, um governo cristão não tem, em absoluto, o dever de deixar-se guiar pelo espírito da caridade, pelo perdão às ofensas e pelo amor aos inimigos.

É inútil refutar tal tese, pois aqueles que a defendem refutam a si mesmos, ou melhor, separam-se de Cristo, imaginando seu próprio Cristo e seu próprio cristianismo, ao invés daquele por cujo nome existem a igreja e a posição por eles ocupada J Se todos soubessem que a igreja reconhece um Cristo vingador, implacável e guerreiro, ninguém seria partidário dessa igreja e ninguém defenderia suas doutrinas.

O segundo meio — um pouco menos grosseiro — consiste em reconhecer que o Cristo ensinava, é verdade, a dar a face e o manto, e que esta é, realmente, uma elevada moral..., mas... uma vez que, sobre a terra, existe um grande número de malfeitores, é preciso mantê-los pela força, para que não se veja perecerem os bons e até mesmo o mundo inteiro. Encontrei pela primeira vez este argumento em São João Crisóstomo e demonstro sua falsidade em meu livro A minha religião.

Este argumento não tem valor porque, se nos permitimos declarar, não importa quem, um malfeitor fora-da-lei, destruímos toda a doutrina cristã segundo a qual somos todos iguais e irmãos, na qualidade de filhos de um só Pai Celeste. E mais, ainda que Deus houvesse permitido a violência contra os malfeitores, sendo impossível determinar de modo absolutamente certo a distinção entre o malfeitor e aquele que não é, aconteceria que os homens e a sociedade se considerariam mutuamente malfeitores: coisa que hoje existe. Enfim, supondo que fosse possível distinguir com segurança um malfeitor daquele que não é, não se poderia encarcerá-lo, torturá-lo e condená-lo à morte numa sociedade cristã, porque não haveria nela ninguém para cometer tais atos, sendo qualquer violência proibida ao cristão.

O terceiro meio de responder — mais sutil que os precedentes — consiste na afirmação de que o preceito da não-resistência ao mal com a violência é certamente obrigatório para o cristão, mas somente enquanto o mal não ameaça senão a ele. Isto, porém, deixa de ser obrigatório quando o mal é dirigido contra seus semelhantes. Nesse caso, não só o cristão não deve se conformar ao preceito mas, ao contrário, deve opor-se à violência com a violência. Esta afirmação é absolutamente arbitrária e é impossível encontrar-lhe confirmação em toda a doutrina de Cristo. Esta interpretação faz mais do que restringir o preceito: é sua negação absoluta. Se cada homem tem o direito de usar a violência para repelir um perigo que ameaça seu semelhante, muda a questão: não se trata mais de saber se a violência é proibida ou permitida, mas de saber qual a definição do que pode representar perigo para outrem. E, se meu raciocínio particular pudesse decidir a questão, eu diria que não existe um só caso de violência que não possa ser explicado pelo perigo alheio. Queimaram e condenaram à morte bruxos; condenaram à morte aristrocatas e girondinos; condenaram à morte também seus inimigos, porque os que ocupavam o poder consideravam-nos um perigo para a nação.

Se esta importante restrição, que aumenta a importância do preceito, tivesse estado na mente de Cristo, estaria formulada em algum lugar. Ela não se encontra nas prédicas nem na vida do Mestre. Mas ao contrário o que se vê é uma advertência contra tal restrição, tão falsa quanto sedutora. Isto ressalta, com especial clareza, do relato do raciocínio feito por Caifaz que justamente censura esta restrição. Ele reconhece que é injusto condenar Jesus, inocente, mas vê o perigo não para si, mas para todo o povo. Por isso ele diz: "É melhor que morra um só homem do que todo o povo." O mesmo ensinamento sobressai ainda com mais nitidez das palavras ditas a Pedro quando este tentou se opor à violência dirigida a Jesus (Mt 26,52). Pedro não se defendia a si mesmo, mas a seu Mestre divino e adorado. Mas Cristo proibiu-o, dizen- do: "Guarda tua espada no seu lugar, pois todos que pegam a espada pela espada morrerão." Ademais, a violência para defender o semelhante de outra violência nunca é justificada, porque não tendo sido ainda cometido o mal que se quer impedir, é impossível que se possa adivinhar qual mal será maior, se aquele que se está prestes a cometer ou aquele que se quer impedir./Condenamos à morte um delinquente para dele livrar a sociedade, e nada nos prova que esse delinquente não mudaria amanhã de conduta e que sua execução não seria uma crueldade inútil. Mandamos para a prisão um membro da sociedade, perigoso a nosso ver, mas amanhã esse indivíduo poderia deixar de; ser perigoso e, então, sua prisão seria inútil./Vejo um bandido perseguir uma jovem. Tenho nas mãos um fuzil. Mato-o. Salvo a jovem; mas a morte ou a ferida do bandido é fato certo, enquanto o que teria acontecido com a jovem me é desconhecido. Que mal imenso deve resultar, e na realidade resulta, do direito reconhecido pelos homens de prevenir os delitos que poderiam ocorrer! Da Inquisição às bombas de dinamite, execuções capitais e torturas de dezenas de milhares de delinquentes ditos políticos são 99% das vezes fundamentadas neste raciocínio.

A quarta categoria de respostas, ainda mais sutis, consiste na afirmação de que o preceito da não-resistência ao mal com a violência, longe de ser negado, é, pelo contrário, formalmente reconhecido como todos os outros; mas que um significado absoluto não lhe deve ser atribuído, como fazem os sectários.

Fazer dele uma condição sine qua non da vida cristã, à imitação de Harrison, Bailou, Dymond, dos menonitas, dos quakers e como fazem os irmãos morávios, os valdeses, os al-bigenses, os bogomilos, os paulicianos, é um sectarismo limitado. Este preceito não tem mais ou menos importância do que todos os outros, e o homem que infringe, devido a sua fraqueza, não importa qual mandamento, inclusive o da não- resistência, não deixa de ser cristão, se tem fé.

Esta astúcia é muito hábil e inúmeras pessoas, que desejam ser enganadas, a ela sucumbem sem dificuldade. Consiste isto em transformar a negação consciente do preceito numa in-fração ocasional. Mas basta comparar a atitude dos ministros da igreja diante deste preceito e sua atitude frente àqueles que realmente o reconheçam para se convencer da diferença que fazem entre um e outros.

Eles sem dúvida reconhecem, por exemplo, o preceito contra a luxúria; assim, jamais admitem que a luxúria não seja um mal; nunca apontam uma ocorrência em que o preceito contra o adultério poderia ser infringido e sempre ensinam que devemos evitar as tentações da luxúria. Nada parecido em relação ao preceito da não- resistência. Todos os padres reconhecem casos onde este preceito pode ser violado, e assim ensinam. E não só ensinam a evitar as tentações das quais a primeira é o juramento, mas eles próprios o pronunciam. Em acontecimento algum aprovam a violação de qualquer outro mandamento; enquanto, em relação à não-resistência, professam abertamente que não há necessidade de seguir à risca esta interdição; que não é necessário a ela resignar-se sempre e que, aliás, existem circunstâncias, situações, que exigem justamente o contrário, isto é, nas quais se deve julgar, fazer guerra, condenar à morte. De modo que, quando tratam do preceito da não- resistência, o mais comum é que ensinem como não se deve conformar com ele. A observância deste preceito é, dizem eles, muito difícil; é este o apanágio da perfeição. Como não seria difícil observá-lo, na realidade, se sua violação, longe de ser reprovada, é, ao contrário, encorajada, visto que são abertamente abençoados os tribunais, as prisões, os canhões, os fuzis, o exército e as batalhas? Não é, então, verdade que este mandamento seja, como os outros, reconhecido pelos ministros da igreja.

Estes não o reconhecem, simplesmente, por não ousar admiti-lo e procuram dissimular este ponto de vista.

Tal é a quarta maneira de reagir.

O quinto modo, o mais hábil, o mais adotado e o mais forte, consiste em evitar responder, fingindo considerar esta questão como já resolvida de há muito tempo e da maneira mais clara e mais satisfatória, de tal forma que nela não se deva mais falar ./Esta resposta é adotada por todos os escritores religiosos demasiado instruídos para desconhecerem as leis da lógica. Sabendo que é impossível explicar a contradição exis- tente entre a doutrina de Cristo, que nós, e toda a nossa classe social, professamos por palavras, e que, falando a respeito, só se consegue torná-la mais evidente, eles contornam a dificuldade com maior ou menor habilidade, simulando acreditar que a questão da conciliação da doutrina cristã com a violência já foi resolvida e absolutamente não existe.1 lO mundo inteiro julga com segurança.

'Conheço um só estudo — não uma crítica no sentido exato da palavra — que trata do mesmo assunto, tem como alvo o meu livro e se afasta um tanto dessa defini- ção geral. É o opúsculo de Trostsky: O Sermão da Montanha (Kazan). O autor reconhece que o preceito da não-resistência ao mal com a violência quer dizer exata- mente isto, como também o preceito sobre o juramento. Ele não nega, como os outros, o significado da doutrina de Cristo; infelizmente, ele não tira deste reconhecimento as deduções inevitáveis que daí derivam e aparecem, de forma naturalíssima, quando, como ele, temos em vista a doutrina de Cristo. Se não devemos opor-nos ao mal com a violência, nem prestar juramento, cada um deve se perguntar: "E o serviço militar? E o juramento?'* — E é exatamente a estas perguntas que o autor não responde. Ora, é preciso responder a essas perguntas, ou, se não se pode, evite-se provocar tais perguntas.

A maior parte dos críticos religiosos que se ocuparam do meu livro adotou este argumento. Poderia citar dezenas dessas apreciações nas quais, sem exceção, a mesma coisa é sempre repetida. Fala-se de tudo, menos do assunto principal do livro. Como exemplo característico deste tipo de crítica, citarei o artigo do célebre e arguto escritor e pregador inglês Far-rar, grande mestre, como todos os teólogos sábios, da arte de subterfúgios e reticências. Este artigo foi publicado na revista americana Fórum do mês de outubro de 1888.

Depois de conscienciosa e rapidamente resumir meu livro, diz Farrar:

Tolstoi chegou à conclusão de que o mundo foi grosseiramente enganado quando se assegurou aos homens que a doutrina de Cristo de não resistir ao mal com o mal é conciliável com a guerra, com os tribunais, com as execuções capitais, com o divórcio, com o juramento, com o patriotismo e em geral com a maior parte das instituições sociais e políticas. Ele acredita, hoje, que o reino de Cristo existirá quando os homens seguirem os cinco mandamentos de Cristo, ou seja: 1 — Viver em paz com todos; 2 — Levar uma vida pura; 3 — Não jurar; 4 — Nunca resistir ao mal; 5 — Abandonar qualquer fronteira entre as nações.

Tolstoi nega a origem divina do Antigo Testamento, das Epístolas e de todos os dogmas da igreja, como a Trindade, a Redenção, a descida do Espírito Santo e a ordenação, e não reconhece senão as palavras e os preceitos de Cristo.

Mas é então acertada tal interpretação da doutrina de Cristo? São os homens obrigados, e como ensina Tolstoi, a observar os cinco mandamentos de Cristo? Diante desta pergunta essencial, a única que levou o autor a escrever o artigo sobre meu livro, que podemos esperar? Que ele nos diga que esta interpretação da doutrina de Cristo é justa e que é preciso a ela obedecer, ou então que é inexata, e que ele assim prove e nos dê uma explicação mais acertada para as palavras que compreendo tão mal? Nada disto. Farrar restringe-se a exprimir a ''convicção" de que Tolstoi, ainda que guiado pela mais nobre sinceridade, caiu no erro das interpretações restritas do significado do Evangelho e do pensamento e da vontade de Cristo. Em que consiste este erro? Ele não explica, apenas diz: É impossível, neste artigo, aprofundar-me nesta demonstração, porque já ultrapassei o número de páginas que me foi fixado.

E conclui, com admirável tranqüilidade de espírito: Porém, se o leitor se sente atormentado pelo pensamento que deva, como cristão, seguindo o exemplo de Tolstoi, renunciar às condições habituais de sua vida e viver como um pedreiro, acalme-se e pense na máxima: Securus judicat orbis terrarum.

Salvo algumas exceções (prossegue ele) toda a cristandade, desde o tempo dos apóstolos até nossos dias, chegou à conclusão de que o objetivo de Cristo era dar aos homens um grande princípio, mas não destruir as bases das instituições de todas as sociedades humanas, que se fundamentam na sanção divina e na necessidade. Se eu tivesse tido a missão de provar a impossibilidade da doutrina do comunismo, que Tolstoi apoia sobre paradoxos divinos (s/c), que não podem ser interpretados senão sobre princípios históricos, de acordo com todos os métodos da doutrina de Cristo — isto teria demandado um espaço maior do que aquele que tenho a minha disposição." Que desgraça! Ele não tinha espaço! E que coisa estranha! Há 15 séculos ninguém tem espaço para provar que o Cristo, em quem acreditamos, não tenha dito o que disse. E çoder-se-ia entretanto tê-lo feito, caso se houvesse desejado. É verdade que não vale a pena provar o que todos sabem. Basta dizer: Securus judicat orbis terrarum.

Tal é, sem exceção, a argumentação de todos os crentes literatos que compreendem, por conseguinte, a falsidade de sua situação. Sua única tática consiste em se apoiar na autoridade da igreja, em sua antiguidade e seu caráter sacro para intimidar o leitor e dissuadi-lo da idéia de ler o Evangelho e de estudar a fundo a questão. E a coisa funciona. Quem poderia supor, de fato, que aquilo que os arquidiáconos, os bispos, os arcebispos, os santos sínodos e os papas repetem com tanta segurança e tanta solenidade, século após século, não é senão uma pérfida mentira, e que eles caluniam o Cristo com o objetivo de garantir para si mesmos as riquezas de que precisam para levar uma vida agradável em prejuízo dos outros? Sua falsidade tornou-se hoje tão evidente que seu único meio de mantê-la é o de intimidar o público com sua audácia e desenvoltura.

O mesmo ocorre há anos nos conselhos de revisão. Frente a uma mesa vêem- se sentados nos lugares de honra, sob o retrato do imperador, alguns velhos dignitários, todos cobertos de condecorações, conversando livre e negligentemente, es- crevendo, ordenando, chamando. A seu lado, em batina de seda, uma grande cruz no peito, cabelos brancos caídos por sobre a estola, um venerável padre senta-se a uma estante sobre a qual estão uma cruz de ouro e um Evangelho de ângulos dourados. Chamam Ivan Petrov. Um adolescente mal vestido, sujo, assustado, aproxima-se com o rosto descomposto, olhos irrequietos e febris e diz gaguejando, à meia-voz: "Eu... a lei... como cristão... não posso...*' — O que diz? —pergunta com impaciência o presidente piscando, segurando a orelha e levantando a cabeça do livro.

— Fala em voz alta! — Grita o coronel cujos galões brilham.

— Eu... eu... como cristão...

Por fim, entende-se que o jovem se recusa ao serviço militar, porque é cristão.

— Não diga asneiras. Abra os braços. Doutor, poderia medi-lo. Está bem? — Está bem.

— Padre, faça-o prestar juramento.

Não somente ninguém está perturbado, mas nem sequer se dá atenção ao que balbucia aquele pobre adolescente assustado.

— Todos têm algo a dizer, como se tivéssemos tempo para escutá-los. Restam ainda muitos recrutas a examinar! O recrutado parece querer acrescentar algo.

— Isto é contrário à lei de Cristo.

— Sai, sai! Não precisamos de ti para saber o que está conforme à lei e o que não está. Sai! Vai-te embora! Padre, catequiza-o. Passemos a um outro: Vassili Nikitine! E o jovem é conduzido para fora, todo trémulo.

E ninguém suspeita — nem os guardas, nem Vassili Nikitine, que é introduzido naquele momento, nem uma só pessoa dentre as que assistiram a esta cena — que aquelas poucas palavras incoerentes, pronunciadas pelo adolescente e logo re- primidas, contêm a verdade, enquanto os solenes discursos dos funcionários e do padre, calmos e seguros, nada são senão mentira e engano! Os artigos de Farrar produzem a mesma impressão. O mesmo ocorre com todos os discursos retóricos, com tratados e livros que vêm a público tão logo a verdade apareça em algum lugar, para revelar a mentira imperante. Sem perda de tempo, escritores e oradores, verbosos ou hábeis, elegantes ou solenes, levantam e tratam de questões à margem do assunto, tendo por outro lado o cuidado de silenciar a respeito do tema em si.

É este o quinto método de controvérsia, o mais eficaz para ocultar a contradição em que se colocou o cristianismo oficial, professando a doutrina de Cristo na teoria, mas negando-a na prática.

Aqueles que tentam se justificar pelo primeiro método, afirmando aberta e brutalmente que o Cristo tenha autorizado a violência, as guerras, as matanças, afastam-se conscien-temente da doutrina evangélica. Aqueles que se defendem pelo segundo, terceiro e quarto métodos emaranham-se em sua própria contradição, e é fácil convencê-los da mentira, mas os últimos, que não raciocinam ou não se dignam raciocinar, que se escondem atrás de sua grandeza, que aparentam acreditar que todas estas questões tenham sido resolvidas de há muito, por eles e por outros, e não mais dão lugar a dúvidas, estes supostos impassíveis permanecerão serenos enquanto os homens estiverem sob ação da sugestão hipnótica dos governos e da igreja. Assim foi, em relação a meu livro, a atitude dos teólogos, que professam a religião cristã. Não poderiam ter tido outra. Eles estão presos pela con- tradição em que se encontram — a fé na divindade do Mestre e a negação de suas palavras mais claras — contradições às quais se querem subtrair a qualquer custo.

Por conseguinte, não se poderia esperar deles uma argumentação independente sobre a própria essência da questão, sobre modificações das condições da existência que resultariam na aplicação da doutrina de Cristo à ordem atual. Eu esperava este tipo de raciocínio por parte dos críticos livres-pensadores que não estão presos à fé e podem julgar livremente; esperava ver os livres-pensadores considerarem Cristo não apenas como fundador de uma religião de salvação pessoal (como entendem os partidários da igreja), mas também como um reformador que derruba as antigas bases da sociedade e constrói novas, reforma ainda não concluída, e cuja efetivação prossegue a cada dia.

Este conceito da doutrina de Cristo é o de meu livro. Para meu grande assombro, entre as inúmeras críticas por ele provocadas, não se encontrou uma única, russa ou estrangeira, que tenha tratado o tema sob este ponto de vista, isto é, considerando a doutrina de Cristo como uma doutrina filosófica, moral e social (segundo a expressão dos doutores).

Os críticos leigos russos não viram em meu livro nada além do preceito da não- resistência ao mal, e (provavelmente pela comodidade da objeção) compreenderam este preceito no sentido absoluto, ou seja, como a interdição de qualquer luta contra o mal. Eles o atacaram com furor e demonstraram vitoriosamente, durante vários anos, que a doutrina de Cristo é falsa uma vez que proíbe a oposição ao mal. Os críticos refutaram esta suposta doutrina de Cristo com tanto maior sucesso quanto sabiam muito bem, antecipadamente, que sua argumentação não seria relevada ou retificada, já que, havendo a censura proibido o livro, proibia da mesma forma qualquer artigo a seu favor.

Coisa notável! Aqui, onde não se pode dizer uma só palavra sobre a Sagrada Escritura sem que se intrometa a censura, este preceito de Cristo clara e formalmente expresso (Mt 5,39) foi, durante anos, falsamente interpretado, criticado, condenado e ridicularizado em todas as revistas.

Os críticos leigos russos, ignorando, sem dúvida, o que foi feito a respeito do exame da questão de não-resistência ao mal com a violência, fazendo até mesmo, aliás, crer que eu houvesse inventado pessoalmente esta regra, atacavam-na, falsificavam-na e refutavam-na com o máximo ardor. Buscavam argumentos, há longo tempo examinados e rejeitados sob todos os aspectos, para provar que o homem deve necessariamente defender (com violência) todos os fracos e todos os oprimidos, e que, portanto, a doutrina da não-resistência ao mal é uma doutrina imoral.

Para os críticos russos, toda a importância da pregação de Cristo aparece como um suposto impedimento voluntário de certa ação direta contra tudo o que ele considerava, então, como um mal. De tal modo que o princípio da não-resistência ao mal com a violência foi atacado por dois campos opostos: pelos conservadores, porque este princípio teria impedido a resistência ao mal causado pelos revolucionários, sua perseguição e sua execução capital; e pelos revolucionários, porque este princípio impedia a resistência ao mal causado pelos conservadores, e sua queda.

Os conservadores indignavam-se porque a doutrina da não-resistência impedia a enérgica repressão dos elementos revolucionários que poderiam comprometer o bem- estar da nação; os revolucionários indignavam-se porque esta doutrina os impedia de derrubar os conservadores que comprometiam o bem-estar da nação. É notável que os revolucionários atacassem o princípio da não-resistência ao mal com a violência, que é também o mais terrível, o mais perigoso para qualquer despotismo, pois, desde que o mundo existe, todas as violências — da Inquisição à fortaleza de Schlússelburg1 — fundamentaram-se e fundamentam-se ainda no princípio contrário.

1 Prisão para condenados políticos. (N. do E.)

Ademais, os críticos objetavam ainda que a aplicação do preceito da não- resistência à vida prática afastaria a humanidade do caminho da civilização, por ela seguida.

Ora, o caminho da civilização seguido pelos povos europeus é, em sua opinião, precisamente aquele que toda a humanidade deve sempre seguir. Tal é o caráter principal das críticas russas.

As críticas estrangeiras eram concebidas com o mesmo espírito, mas diferiam bastante nas objeções. Estas se diferenciavam das críticas russas não só pelo sentido íntimo, mas também por mais urbanidade e menos paixão na forma.

Falando, a propósito de meu livro, da doutrina evangélica em geral, tal como é estabelecida no Sermão da Montanha, os críticos estrangeiros afirmam que esta doutrina não é, para dizer a verdade, a do cristianismo (que, em suas opiniões, é representado pelo catolicismo ou pelo protestantismo), mas apenas uma série de encantadoras utopias, mas não práticas do encantador doutor (charmant docteuf), como dizia Renan, admissíveis para os habitantes meio selvagens que viviam na Galiléia, há 1.800 anos, ou então para os meio selvagens russos — Sutaiev, Bondarev e o místico Tolstoi — mas absolutamente não aplicáveis às sociedades européias possuidoras de grande cultura.

Os críticos estrangeiros leigos fizeram-me sentir, de maneira bastante delicada e, sem me ofender, que eu não poderia supor a humanidade capaz de conformar-se com a ingénua doutrina do Sermão da Montanha, senão graças a minha falta de saber, a minha ignorância da história e de todas as vãs tentativas feitas no passado para pôr em prática na vida os princípios desta doutrina.

Fizeram-me entender que desconheço o alto grau de civilização a que chegaram hoje as nações européias, com os canhões Krupp, com a pólvora sem fumaça, com a colonização da África, com a administração da Irlanda, com o parlamento, com o jornalismo, com as greves, com as constituições, com a torre Eiffel.

Assim escreveram o senhor de Vogue, o senhor Leroy-Beaulieu, Mathieu Arnold; assim escreveram os americanos Savadje, Ingersol — o popular livre-pensador e orador americano — e tantos outros.

"A doutrina de Cristo não é praticável porque não corresponde a nosso .século industrial", dizia ingenuamente Ingersol, exprimindo assim, com muita franqueza e clareza, a opinião das pessoas cultas e refinadas sobre a doutrina de Cristo. Ela não é prática em nosso século industrial! Como se a ordem de nosso século industrial, tal qual existe, fosse sagrada e não pudesse ser modificada! Seria como se bêbados res- pondessem, ao conselho de se tornarem mais sóbrios, que este conselho não teria cabimento devido a seu estado de embriaguez.

As opiniões de todos os críticos, russos ou estrangeiros, apesar das diferenças de tom e forma, conduzem, em substância, ao mesmo estranho mal-entendido, ou seja: que a doutrina de Cristo, da qual um dos princípios é a não-resistência ao mal com a violência, não nos é possível, pois obrigar-nos-ia a modificar toda nossa vida.

A doutrina de Cristo não é possível porque, se fosse seguida, nosso modo de viver não poderia continuar. Em outras palavras, se tivéssemos começado a viver bem como nos ensina Cristo, não teríamos podido continuar a viver mal como fazemos e como nos habituamos. Quanto à questão da não-resistência ao mal, ela não só não pode ser discutida, como o simples fato de tal prescrição no Evangelho é já prova sufi- ciente da impossibilidade de toda a doutrina.

Parece contudo necessário dar alguma solução a esta questão, porque ela é a base de toda nossa ordem social.

Nisto consiste a dificuldade. Como resolver o antagonismo entre pessoas, algumas das quais consideram um mal aquilo que outras consideram um bem e vice- versa? Porque declarar como mal o que assim considero, apesar da afirmação de meu adversário, que declara ser isto um bem, não é uma resposta. Não podem existir senão duas soluções: ou encontrar um critério verdadeiro, indiscutível, do que se chama mal, ou não resistir ao mal com o mal.

A primeira solução foi tentada no princípio dos tempos históricos e, como sabemos, não deu qualquer resultado satisfatório. A segunda solução é não resistir com o mal ao que classificamos como sendo o mal, até que tenhamos encontrado um critério certo: e isto foi o que nos ensinou Cristo.

Pode-se considerar que esta solução não seja boa, pode-se substituí-la por outra melhor, dando um critério que determina para todos o que é o mal. Pode-se achar simplesmente inúteis estas questões, como fazem os povos selvagens; mas não se pode, como fazem os críticos que tratam do estudo da doutrina evangélica, aparentar acreditar que essas questões não existem ou que já tenham sido resolvidas pelo direito reconhecido a certos homens ou a certas classes de homens (sobretudo se delas fazemos parte) de definirem o mal e de a ele resistirem com a violência. Tal atribuição, sabemos todos, nada resolve, pois sempre se encontram homens que se negam a reconhecer este direito a outros homens.

Os críticos leigos na doutrina cristã ou nada entendem da questão, ou fundamentam seus argumentos numa definição arbitrária do mal, definição que a eles parece indiscutível. De tal modo que os estudos sobre meu livro, leigos ou religiosos, mostraram-me simplesmente que a maior parte dos homens não compreende não só a palavra de Cristo, mas sequer as questões às quais ela corresponde.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal