O cristianismo malcompreendido pelos fiéis
Assim, as informações que recebi após a publicação de meu livro, tanto sobre o modo de compreender a doutrina de Cristo em seu verdadeiro significado, de uma minoria de pensadores, quanto sobre as críticas religiosas ou leigas por ele provocadas e nas quais se nega a possibilidade de compreender a doutrina de Cristo em seu significado literal, convenceram-me de que, enquanto para a minoria esta doutrina, longe de deixar de ser compreensível, tornava-se cada vez mais clara, para a maioria seu significado se tornava sempre mais obscuro. Esta obscuridade chegou a tal ponto que os homens não mais compreendem as noções mais simples, expressas no Evan- gelho com as mais simples palavras.
Hoje, tendo a luz da doutrina de Cristo penetrado até os ângulos recônditos da consciência humana, conforme disse Ele, grita-se de cima dos telhados o que ele dizia ao pé do ouvido; quando esta doutrina se mescla a todas as manifestações da vida doméstica, econômica, social, política e internacional, seria inexplicável que permanecesse incompreendida se para tanto não houvesse causas especiais.
Uma destas causas é que tanto fiéis como ateus estão firmemente convencidos de que compreenderam, há muito tempo, tão completa, positiva e definitivamente a doutrina evangélica, que não é possível atribuir-lhe um significado diverso daquele que lhe é dado. E sua interpretação errônea é fortalecida pela antiguidade da tradição.
O rio mais copioso não pode acrescentar uma gota d*água a um vaso já cheio. Pode-se explicar ao homem mais ignorante as coisas mais abstratas, se ele delas ainda não tem noção alguma; mas não se pode explicar a coisa mais simples ao homem mais inteligente, se ele está firmemente convencido de saber muito bem o que se lhe quer ensinar.
A doutrina de Cristo apresenta-se aos homens de nosso tempo como uma doutrina perfeitamente conhecida desde há muito em seus mínimos detalhes, e que não pode ser compreendida de modo diverso do que o é atualmente.
O cristianismo é, assim, para os fiéis, uma revelação sobrenatural, milagrosa, de tudo o que é dito no Credo. Para os livres-pensadores é uma manifestação esgotada do desejo que têm os homens de crer no sobrenatural, um fenômeno histórico que encontrou sua expressão definitiva no catolicismo, na ortodoxia, no protestantismo, e que para nós não mais possui qualquer significado prático.
A importância da doutrina é ocultada dos fiéis da igreja e dos livres-pensadores da ciência.
Comecemos a falar dos primeiros.
Há 1.800 anos, em meio ao mundo romano, surge uma nova doutrina, estranha, nada semelhante a nenhuma das que a haviam precedido e atribuída a um homem, Cristo.
Esta doutrina era inteiramente nova (tanto na forma, quanto na substância) para o mundo judaico que a tinha visto nascer e sobretudo para o mundo romano, onde era pregada e propagada.
Em meio às complicadíssimas regras religiosas do mundo judaico — onde, segundo Isaías, havia regra sobre regra — e à legislação romana, levada a um alto grau de perfeição, surge uma nova doutrina que negava não apenas todas as di- vindades, como também todas as instituições humanas e suas necessidades. Em troca de todas as regras das antigas crenças, esta doutrina não oferecia senão um modelo de perfeição interna, de verdade e de amor na pessoa do Cristo e, como conseqüência desta perfeição interna, a perfeição externa, preconizada pelos profetas: o reino de Deus, no qual todos os homens, não mais sabendo odiar, serão unidos pelo amor, e no qual o leão estará frente ao cordeiro. Ao invés de ameaças de castigo para as infrações das regras ditadas por antigas leis religiosas ou civis, ao invés da atração das recompensas por sua observância, esta doutrina só atraía por ser a verdade.
“Se alguém quiser cumprir Sua vontade, saberá se minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo" (Jo 7,17).
"Vós, porém, procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade" (Jo 8,40), "e a verdade vos fará livres. Não devemos obedecer a Deus senão com a verdade. Toda a doutrina será revelada e compreendida pelo espírito da verdade. Façam o que Deus lhes manda e conhecerão a verdade" (Jo 8,36).
Nenhuma outra prova da doutrina foi apresentada além da verdade, a adequação da doutrina com a verdade.
Toda a doutrina consistia na busca da verdade e em sua observação, na efetivaçâo cada vez mais perfeita da verdade e do desejo de dela se aproximar, sempre mais, na vida prática.
Segundo esta doutrina, não é por meio de práticas que o homem se torna justo.
Os corações elevam-se à perfeição interna através de Cristo, modelo de verdade, e a perfeição externa pela efetivaçâo do reino de Deus. O cumprimento da doutrina está no caminho da estrada indicada, na busca da perfeição interna pela imitação de Cristo, e da perfeição externa graças ao estabelecimento do reino de Deus.
A maior ou menor felicidade do homem depende, segundo esta doutrina, não do grau de perfeição que ele pode alcançar, mas do seu caminho mais ou menos rápido para esta perfeição.
O ímpeto para a perfeição do publicano Zaqueu, da pecadora, do ladrão na cruz é, segundo esta doutrina, uma felicidade maior que a imóvel virtude do fariseu. A ovelha desgarrada é mais querida ao coração do pastor do que 99 ovelhas não des- garradas; o filho pródigo, a moeda perdida e reencontrada são mais caros a Deus do que tudo o que nunca foi perdido.
Cada situação, segundo esta doutrina, não é mais que uma etapa para o caminho da perfeição interna e externa realizável. Eis por que ela não tem importância. A felicidade não consiste senão em aspirar sempre à perfeição; a pausa em qualquer grau de perfeição é a pausa da felicidade.
"A mão esquerda ignora o que faz a direita." "O lavra-dor que toma do arado e olha para trás não é digno do reino dos céus." "Não vos alegreis se os demónios vos obedecem, procurai que vosso nome seja inscrito no céu." "Sede perfeitos como vosso Pai Celeste." "Buscai o reino de Deus e sua verdade." O cumprimento da doutrina não consiste senão no caminhar incessante em direção à posse da verdade a cada passo mais alta, de sua atuação cada vez maior no próprio ser com um amor sempre mais ardente e fora do próprio ser na atuação perfeita do reino de Deus.
É evidente que esta doutrina, nascida no meio judaico e pagão, não podia ser aceita pela maioria dos homens, acostumados a uma vida totalmente diversa daquela por ela exigida.
A doutrina não podia ser compreendida em todo seu significado nem mesmo por aqueles que haviam aceito, porque era contrária a todos os antigos conceitos de vida.
Somente após uma série de mal-entendidos, erros, explicações restritas, retificadas e completadas por muitas gerações, o princípio do cristianismo ficou mais claro aos homens.
O conceito evangélico influenciou àqueles do judaísmo e do paganismo, e, por sua vez, estas correntes deixaram sua marca no cristianismo. Mas o conceito cristão, mais vivo, penetrava dia a dia, mais e mais no judaísmo e no paganismo agonizantes e aparecia cada vez mais puro, libertando-se dos maus elementos a que era misturado. Os homens compreendiam melhor o sentido cristão, usavam-no sempre mais em suas vidas.
Mais envelhecia a humanidade, quanto mais claro via a doutrina de Cristo; por outro lado não pode ser diferente em qualquer doutrina social.
As sucessivas gerações corrigiam os erros das gerações precedentes e aproximavam-se mais a cada dia do verdadeiro sentido da doutrina.
Assim foi desde os primeiros tempos do cristianismo. Desde o princípio apareceram alguns homens que afirmavam ser seu modo de explicar a doutrina o único exato, e isto provaram por meio de fenômenos sobrenaturais que vinham con- firmar a exatidão de suas interpretações.
Essa é a razão principal de haver sido a doutrina, primeiro, malcompreendida e, depois, desvirtuada.
Admitiu-se que a doutrina de Cristo foi transmitida aos homens não como todas as outras verdades, mas por um caminho especial, sobrenatural. De tal modo que é demonstrada não por sua lógica e por seu acordo com as necessidades da vida humana, mas pelo caráter milagroso de sua transmissão.
Esta suposição, nascida do entendimento imperfeito da doutrina, teve como resultado a impossibilidade de ser compreendida melhor.
Isto ocorreu desde os primeiros tempos, quando a doutrina era interpretada de forma tão incompleta e várias vezes tão falsa, como vemos nos Evangelhos e nos Atos. Quanto menos era compreendida, tanto mais misteriosa e mais era necessário dar provas exteriores de sua verdade. O preceito: "Não faças aos outros o que não queres que te seja feito" não precisa ser demonstrado com a ajuda de milagres e não exige um ato de fé, porque é convincente por si mesmo e satisfaz simultaneamente a inteligência e o instinto humanos, enquanto a divindade de Cristo precisava ser provada com milagres absolutamente incompreensíveis.
Quanto mais obscura era a noção da doutrina de Cristo, mais elementos milagrosos eram nela infiltrados; quanto mais nela se infiltrava o maravilhoso, tanto mais ela se afastava de seu sentido e se tornava obscura, quanto mais precisava afir- mar com força sua infalibilidade, tanto mais se tornava incompreensível.
Desde os primeiros tempos, pode-se observar no Evangelho, nos Atos, nas Epístolas como a não-compreensão do sentido exato da doutrina fazia nascer a necessidade de provas milagrosas. .
Isto teve início, segundo os livros dos Atos, na reunião em que os Apóstolos examinaram, em Jerusalém, a questão do batismo dos não-circuncidados e daqueles que comiam carnes sacrificadas.
A única maneira de expor a questão mostrava que aqueles que dela tratavam não compreendiam a doutrina de Cristo, que exclui qualquer cerimonia exterior: abluções, purificações, jejum, sábado. Lê-se textuamente no Evangelho: "Não é aquilo que entra na boca que macula, e sim o que sai do coração." Eis por que a questão do batismo dos não-circuncidados não pôde nascer senão entre homens que amavam o Mestre e sentiam a grandeza de Sua doutrina, mas que ainda não a compreendiam com clareza. Assim, uma confirmação exterior de sua interpretação era para eles tão necessária quanto essa interpretação era falsa. E para resolver esta questão que provava, assim como era colocada, quão incompreendida era a doutrina, foram pronunciadas naquela assembléia as palavras terríveis e funestas: "Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós..." (At 15,28).
Pela primeira vez os apóstolos afirmam, externamente, a exatidão de algumas de suas decisões, isto é, apoiando-se na milagrosa participação do Espírito Santo, ou seja, de Deus.
Mas a afirmação de que o Espírito Santo, isto é, Deus, tenha falado por meio dos apóstolos devia também ser provada; e foi, então, dito que no dia de Pentecostes o Espírito Santo havia descido sob forma de línguas de fogo sobre aqueles que assim o afirmaram (na narrativa, a descida do Espírito Santo precede esta deliberação, mas os Atos foram escritos muito tempo depois). Mas era também preciso confirmar a descida do Espírito Santo para aqueles que não viram as línguas de fogo (ainda que seja incompreensível que uma língua de fogo acesa sobre a cabeça de um homem demonstre ser uma verdade absoluta aquilo que este homem está para dizer); e então, foi necessário recorrer a novos milagres: curas maravilhosas, ressurreições, mortes, enfim, todos os falsos milagres de que está cheio o livro dos Atos, e que não só não podem convencer ninguém da verdade da doutrina, mas que, ao contrário, devem levantar dúvidas.
Este modo de afirmar a verdade tinha como conseqüência afastar a doutrina de seu sentido primitivo e torná-la tanto mais incompreensível quanto mais se acumulavam as narrativas dos milagres. __ Foi o que aconteceu desde os primeiros tempos e continuou crescendo sempre, chegando, em nossos tempos, aos dogmas da transubstanciação e da infalibilidade do papa, dos bispos e da Escritura, isto é, até a exigência de uma fé cega, incompreensível até o absurdo, não em Deus, não em Cristo, nem mesmo na doutrina, mas em uma pessoa, como no catolicismo, ou em várias pessoas, como na ortodoxia, ou num livro, como no protestantismo. Quanto mais se propagava o cristianismo, mais englobava um sem-número 4e pessoas não preparadas, e menos era compreendido.
Quanto mais se afirmava energicamente a infalibilidade da interpretação oficial, menos possível se tornava penetrar no verdadeiro sentido da doutrina. Já ao tempo de Constantino ela reduzia-se a uma síntese confirmada pelo poder secular — síntese das discussões que ocorreram no concílio — o símbolo da fé, onde isto é dito: "Creio nisto... nisto... nisto, e finalmente numa igreja universal, sagrada e apostólica, ou seja, na infalibilidade das pessoas que se dizem a igreja." De tal modo que tudo foi feito para o que o homem não creia mais nem em Deus, nem em Cristo tal como eles se revelaram, mas somente no que a igreja ordena que se acredite.
Mas a igreja é sagrada. Mas a igreja foi fundada por Cristo. Deus não podia deixar aos homens a liberdade de interpretar sua doutrina arbitrariamente; por isto ele instituiu a igreja. Todas estas máximas são a tal ponto falsas e privadas de fundamento que se tem vergonha de refutá-las.
Em lugar algum, aparece qualquer indício (exceto nas afirmações da igreja) de que Deus ou Cristo tenha fundado algo que se assemelhe ao que os fiéis entendem pela palavra igreja. Existe, no Evangelho, uma indicação contrária à igreja como autoridade externa, indicação das mais claras e das mais evidentes de que não se deve chamar ninguém de Mestre ou Pai. Mas menção alguma é feita à instituição daquilo que os fiéis chamam de igreja.
A palavra igreja é usada duas vezes no Evangelho; uma vez no sentido de uma assembléia para resolver uma questão dúbia, outra vez junto a palavras obscuras sobre pedra, Pedro e as portas do inferno. Destas duas menções à palavra igreja, não havendo outro significado além da palavra assembléia, deduziu-se o que hoje entendemos pela palavra igreja. Mas Cristo não poderia absolutamente fundar a igreja, isto é, o que hoje entendemos por esta palavra, porque nada que se possa assemelhar ao conceito atual de igreja, com sua afirmação de infalibilidade, encontra- se nas palavras de Cristo, nem no pensamento dos homens daqueles tempos. H^-^O simples fato de que aquilo que se formou a seguir tenha sido chamado com uma palavra empregada por Cristo não permite afirmar que Cristo tenha fundado a única e verdadeira igreja^H^M* Ademais, se ele realmente houvesse estabelecido uma instituição como a igreja, sobre a qual são baseadas toda a doutrina e toda a fé, tê-lo-ia feito em termos tão precisos quanto cristalinos, e teria cercado esta igreja única e verdadeira, ao invés de milagres usados em todas superstições, de sinais a tal ponto evidentes que dúvida alguma seria possível quanto a sua realidade. Mas nada parecido existe e, como de outras vezes, existem ainda hoje diferentes igrejas, cada uma delas intitulando-se única e verdadeira.
O catecismo católico diz: "A igreja é a Sociedade dos fiéis, estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, espalhada por sobre toda a terra e submissa à autoridade de pastores legítimos, principalmente o Nosso Santo Padre, o papa", entendendo-se por "pastores legítimos" uma instituição humana que tem por chefe seu papa e se compõe de determinadas pessoas ligadas entre si por uma determinada organização.
O catecismo ortodoxo diz: "A igreja é uma sociedade, fundada na Terra por Jesus Cristo, reunida num só todo por uma só doutrina e pelos sacramentos, sob a direção e sob a égide da hierarquia estabelecida por Deus", entendendo-se por "hierarquia estabelecida por Deus" precisamente a hierarquia grega, composta de tais ou tais pessoas que se encontram em tais ou tais lugares. „ O catecismo luterano diz: "A igreja é o santo cristianismo ou a reunião de todos os fiéis sob o Cristo, seu chefe, e na qual o Espírito Santo, através do Evangelho e dos Sacramentos, oferece e comunica a saúde divina", dando a entender que a igreja católica abandonou o verdadeiro caminho, e que a verdadeira tradição é conservada pelo lutera-nismo.
Para os católicos, a igreja divina encarna-se na hierarquia grega e russa1; e para os luteranos, na reunião dos homens que reconhecem a Bíblia e o catecismo.
1A definição de igreja feita por Khomiakow, que goza de um certo crédito entre os russos, nada muda, se com ele reconhecemos que a única e verdadeira igreja é a ortodoxa. Khomiakow afirma que igreja é a reunião dos homens (sem distinção de pastores ou ovelhas) unidos no amor; que só aos homens unidos no amor é revelada a verdade (amemo-nos uns aos outros), e que esta igreja é aquela: primeiro, que reconhece o símbolo de Nicéia, e segundo que, depois da separação das igrejas, não reconhece nem o papa nem os novos dogmas. Mas, depois, esta definição torna-se ainda mais difícil compreender, como quer Khomiakow, a igreja unida no amor, na igreja que reconhece o símbolo de Nicéia e a verdade pregada por Fócio.
De modo que a afirmação de Khomiakow, de que esta igreja unida no amor, portanto Santa, seja precisamente aquela constituída pela hierarquia grega, é ainda mais arbitrária do que a afirmação dos católicos e dos velhos ortodoxos. Admitindo-se o conceito de igreja, tal como nos foi dito por Khomiakow, tudo o que se pode dizer seria que se teria muito prazer em dela fazer parte. Mas não existe sinal algum do qual se possa deduzir se um homem dela faz ou não parte, porque um tal conceito não se pode traduzir por qualquer caráter externo.
Em geral, falando da origem do cristianismo, os homens pertencentes a uma das igrejas existentes empregam a palavra no singular, como se nunca houvesse existido e não exista senão uma só igreja. Mas isto não é exato. A Igreja, instituição que afirma possuir a verdade indiscutível, não surgiu senão no momento em que não mais estava só, em que já existiam pelo menos duas. Os fiéis até concordavam, não foi necessário que sua sociedade única se constituísse em igreja; somente quando estes homens se dividiram em partidos opostos, negando-se mutuamente, cada partido sentiu a necessidade de afirmar sua ortodoxia, atribuindo-se a posse exclusiva da ver- dade. O conceito de uma igreja única foi conseqüência do fato de que cada um de seus participantes, em desacordo, declarando ser o outro cismático, reconheceu como infalível apenas sua própria igreja.
Se conhecemos a existência de uma igreja que no ano de 51 decidiu admitir os não-circuncidados, é porque havia outra de judaizantes, que havia decidido não admiti-los.
Se hoje existe uma igreja católica, convencida de sua infalibilidade, é porque existem igrejas greco-russas, ortodoxas, protestantes, cada uma das quais afirma sua própria infalibilidade, negando, em conseqüência, as outras igrejas. Assim, a igreja universal não é senão uma palavra ilusória, sem qualquer realidade.
Estas numerosas sociedades que afirmam, cada uma por conta própria, ser a igreja universal fundada por Cristo e serem as outras cismáticas e heréticas não existiram e realmente não existem a não ser como fenômenos históricos.
O catecismo das igrejas mais difundidas: católica, ortodoxa e protestante, assim afirma abertamente.
O catecismo católico: "Quem são os que estão fora da igreja?" "Os infiéis, os hereges e os cismáticos." Os cismáticos são aqueles que se chamam ortodoxos; os protestantes são reconhecidos como hereges. De modo que, segundo o catecismo católico, na igreja existem apenas católicos.
No catecismo chamado ortodoxo, lemos: "Sob o nome de igreja única de Cristo, entende-se somente a igreja ortodoxa, que permanece em plena concordância com a igreja universal. Quanto à igreja romana e outras confissões (aos luteranos e aos outros esse catecismo não dá nem mesmo o nome de igreja), não podem ser compreendidas na igreja universal, pois dividiram-se em si mesmas." Segundo esta definição, os católicos e os protestantes estão fora da igreja, e só os ortodoxos dela fazem parte.
O catecismo luterano diz, por sua vez: "A verdadeira igreja é reconhecida pela palavra de Deus ensinada clara e puramente, sem intervenções humanas, e pelos sacramentos nela estabelecidos fielmente, a exemplo da doutrina de Cristo." Segundo esta definição, todos aqueles que algo acrescentaram à doutrina de Cristo e dos Apóstolos, como fizeram a igreja católica e a grega, estão fora da igreja e só os protestantes dela fazem parte. Os católicos afirmam que o Espírito Santo manifesta-se constantemente em sua hierarquia; os ortodoxos também o afirmam. Os arianos afirmaram-no (com o mesmo direito das igrejas que hoje reinam). Cada tipo de protestantes: os luteranos, a igreja reformada, os presbiterianos, os metodistas, os mórmons e os seguidores de Sweden-borg, afirmam também que o Espírito Santo só se manifesta entre eles.
Se os católicos afirmam que o Espírito Santo, no momento da separação das igrejas ariana e grega, abandonou estas igrejas cismáticas, e só permaneceu na única igreja verdadeira, com os mesmos direitos podem afirmar os protestantes das mais variadas correntes que, com a separação de sua igreja da igreja católica, o Espírito Santo abandonou esta última e passou para sua igreja. Aliás, assim fazem.
Cada igreja tem como base de sua fé a tradição ininterrupta transmitida desde os tempos de Cristo e dos Apóstolos. De fato, cada confissão cristã proveniente de Cristo deveria necessariamente chegar à geração presente através de certas tradições. Mas isso não prova que estas tradições sejam indiscutíveis e excluam todas as outras. Cada galho da árvore vem da raiz sem interrupção, mas disto não se pode na verdade deduzir que cada ramo seja o único galho.
Cada igreja apresenta as mesmas provas de sua continuidade na tradição, e os mesmos milagres em apoio a sua ortodoxia. Assim, a definição exata e absoluta do que é a igreja só pode ser uma: a igreja é uma reunião de homens que afirmam serem os únicos de posse da verdade.
Estas sociedades, transformadas a seguir com a contribuição do poder civil em potentes instituições, foram o obstáculo principal à propagação da verdadeira inteligência da doutrina de Cristo.
Não poderia ter sido diferente.
A característica principal da doutrina de Cristo, a que a distingue de todas as outras, é que aqueles que a aceitaram tendem sempre mais a compreendê-la e pô-la em prática; enquanto a igreja afirma a inteligência definitiva da doutrina e seu cumprimento.
Por mais que nos possa parecer estranho, a nós que fomos educados na doutrina errônea da igreja como instituição cristã e no desprezo pela heresia e, exatamente, o que foi chamado de heresia, constituía-se o caminhar pelo caminho cer- to, isto é, no verdadeiro cristianismo, o que não deixava de ser verdadeiro senão quando este caminhar se interrompia e se fixava na heresia, como a igreja em suas formas imóveis.
O que é, de fato, a heresia? Leiam todas as obras teológicas que tratam deste assunto (que é o primeiro a ser definido, porque cada teologia fala da doutrina verdadeira em meio a doutrinas errôneas, isto é, heréticas) e não encontrarão em lugar algum nem mesmo uma aparência de definição de heresia.
A argumentação sobre esse tema do erudito historiador do cristianismo E. de Pressensé, em sua História do Dogma, com a epígrafe: Ubi Christus, ibi Ecclesia (Paris, 1869)1, é um exemplo desta total ausência de qualquer definição da palavra heresia. Eis o que ele diz no prefácio desta obra:
1Onde está o Cristo está 3 Igreja. (N. do E.)
Sei que nos é contestado o direito de qualificar assim (isto é, de chamar heresia) as tendências que tão vivamente foram combatidas pelos primeiros padres. A própria definição de heresia parece um atentado à liberdade de consciência e de pensamento. Não podemos participar deste escrúpulo, porque nem mesmo ele nos levaria a tirar do cristianismo qualquer caráter especial...
E, após haver dito que depois de Constantino a igreja realmente abusava de seu poder de considerar como hereges aqueles que com ela não concordavam, e que os perseguia, diz ele, fazendo um breve histórico dos primeiros tempos: A igreja é uma livre associação; separar-se dela só pode ser vantajoso. A polémica contra o erro não tem outros pretextos senão o pensamento e o sentimento. Um tipo doutrinal uniforme não foi ainda elaborado; as divergências secundárias produzem-se no Oriente e no Ocidente com total liberdade; a teologia não está de modo algum ligada a fórmulas invariáveis. Se no seio desta diversidade aparece um fundo comum de crenças, não temos nós o direito de ver, não um sistema formulado e composto por representantes de uma autoridade de escola, mas a própria fé, em seu mais seguro instinto e em sua manifestação mais espontânea? Se esta mesma unanimidade que se revela nas crenças essenciais aí está para rechaçar tais ou tais tendências, não temos nós o direito de concluir que estas tendências estavam em flagrante desacordo com os princípios fundamentais do cristianismo? Não se transformará esta presunção em certeza se reconhecermos na doutrina universalmente rechaçada pela igreja os traços característicos de uma religião do passado? Para dizer que o gnosticismo e o ebionismo são as formas legítimas do pensamento cristão, é preciso dizer audaciosamente que não existe pensamento cristão nem caráter específico onde se possa reconhecê-lo. Com o pretexto de ampliá-lo, diluem-no. Ninguém, nos tempos de Platão, teria ousado cobrir com seu nome uma doutrina que não tivesse dado origem à teoria das idéias; e teriam provocado merecidos sarcasmos da Grécia querendo fazer de Epicuro ou de Zenão um discípulo da Academia. Reconhecemos então que, se existe uma religião ou uma doutrina que se chama cristianismo, essa doutrina pode ter suas heresias.
Toda a argumentação do autor diz, em resumo, que todo raciocínio discordante dos dogmas professados em qualquer tempo é uma heresia. Mas em uma época e em um lugar quaisquer, os homens certamente professavam algo, e esta crença em algo, em algum lugar, em um tempo qualquer, não pode ser o critério da verdade.
Cada pretensa heresia que não reconhece como verdadeiro senão o que ensina pode encontrar uma explicação na história da igreja, apoderar-se por conta própria de todos os argumentos de Pressensé e considerar a sua fé como o único e verdadeiro cristianismo: assim fizeram e fazem todas as heresias. Tudo é reconhecido ao Ubi Christus, ibi Ecclesia, e o Cristo está onde nós estamos.
A única definição de heresia (a palavra a i p e o i Ç significa parte) é o nome dado por uma reunião de homens a toda argumentação que refuta uma parte da doutrina professada por esta sociedade. O significado mais especial dado com freqüência à palavra heresia é o de uma opinião que derruba a doutrina estabelecida pela igreja e sustentada pelo poder temporal.
Existe uma obra importante, notável, mas pouco conhecida, de Gottfried Arnold, Unpartheyische Kirchen undKetzer-Historie (História Imparcial das Igrejas e das Heresias) de 1699, que trata desse tema e demonstra a ilegitimidade, o arbítrio, o absurdo e a credulidade da palavra heresia no sentido de reprovação. Este livro é um ensaio de descrição histórica do cristianismo, sob a forma de história das heresias.
Na introdução, o autor coloca uma série de pontos: 1 º — Dos que formam os hereges; 2º — Dos que se transformam em hereges; 3 º — Dos motivos de heresia; 4 º — Dos modos de criar hereges; 5 º — Do objetivo e das conseqüências da fomentação da heresia. Cada um destes pontos provoca inúmeras perguntas às quais o autor responde com citações de teólogos célebres, deixando porém ao leitor o cuidado de tirar a conclusão do conjunto de seu livro.
Como exemplo destas perguntas que contêm parte das respostas, desejo citar as seguintes: No quarto ponto, relativo aos meios de criar hereges, encontra-se esta pergunta (a 7º): "Toda a história não nos demonstra, talvez, que os maiores fazedores de hereges foram precisamente aqueles doutores a quem o Pai ocultou seus mistérios, isto é, os hipócritas, os fariseus e os juristas, ou seja, homens absolutamente privados de fé e de moral?” Perguntas 20º e 21º: "Nos tempos corruptos do cristianismo, os hipócritas e os invejosos não rechaçaram talvez aqueles homens especialmente dotados por Deus, os quais, nos tempos do cristianismo puro, teriam sido altamente honrados?" "E, ao contrário, os homens que nos tempos da decadência do cristianismo elevaram-se acima dos outros e declararam-se propagadores do cristianismo puro não teriam sido, nos tempos dos apóstolos e dos discípulos do Cristo, reconhecidos como hereges e cínicos anticristãos?" Exprimindo entre outras coisas, nestas perguntas, a idéia de que a expressão verbal da fé, exigida pela igreja e da qual qualquer afastamento era considerado heresia, não pode nunca conter inteiramente o próprio conceito de fiel, e que, por conseqüência, esta exigência da expressão da fé por meio de determinadas palavras provocava heresias, ele diz (pergunta 31º): "E se os atos e pensamentos de Deus parecem ao homem tão grandes e tão profundos que ele não pode encontrar palavras correspondentes para exprimi-las, devemos considerá-lo herege, porque não pode traduzir exatamente o que sente?" E na pergunta 33 º: "E não é por esse motivo que nos primeiros tempos do cristianismo não existiam heresias, pois os homens julgavam-se uns aos outros não pelas palavras, mas sim pelo coração e pelos atos, havendo plena liberdade de ex- primir seus pensamentos sem receio de serem acusados de heresia?" "A igreja, (diz ele em sua 34? pergunta) não usava talvez o meio mais fácil e mais ordinário, tornando suspeitas as pessoas das quais o clero queria se desfazer, e atirando sobre elas o manto da heresia?" “Embora seja verdade (diz ele mais adiante) que aqueles chamados hereges pecavam e erravam, não resulta de forma menos real e menos evidente, dos inúmeros exemplos aqui citados (isto é, na história da igreja e das heresias), que existisse um homem sincero e consciencioso de certa influência que, por inveja ou qualquer outro motivo, tenha sido desacreditado pelos partidários da igreja." Da mesma forma, há quase dois séculos já não se compreendia o significado da palavra heresia e esta mesma opinião reina, entretanto, até hoje. Por outro lado, esta opinião não pode deixar de existir enquanto existir a igreja. A heresia é o reverso da igreja. Onde existe a igreja deve existir a heresia. A igreja é uma sociedade de homens que pretendem possuir a verdade absoluta; a heresia é a opinião daqueles que não reconhecem a indiscutibilidade desta verdade.
A heresia é uma manifestação do movimento, uma revolta contra a inércia dos princípios 4a igreja, uma tentativa de concessão viva da doutrina. Todos os passos em direção à inteligência e à efetivação da doutrina foram dados por hereges: Tertuliano e Orígenes, Santo Agostinho e Lutero, Huss e Sa-vonarola, Kheltchitsky e outros eram hereges. Não poderia ter sido diferente.
O discípulo de Cristo, cuja doutrina consiste na penetração progressiva do pensamento evangélico, em sua observância, cada vez maior, no caminho para a perfeição, não pode afirmar, por conta própria ou por conta de outrem, exatamente por ser discípulo de Cristo, conhecer por inteiro Sua doutrina e observá-la. Menos ainda pode afirmá-lo em nome de toda uma assembléia.
Qualquer que seja o grau de compreensão e perfeição que tenha atingido, o discípulo de Cristo sente sempre a insuficiência de seu entendimento e de sua observância, e sempre se inclina para uma penetração e uma obediência cada vez maiores. Eis por que a afirmação — em seu nome, ou em nome de uma sociedade — que nos encontramos de posse do total entendimento e da perfeita observância da doutrina de Cristo seria uma renúncia ao espírito da própria doutrina.
Por mais estranho que possa parecer, cada igreja, como Igreja, sempre foi e não pode deixar de ser uma instituição, não só alheia, mas até diretamente oposta à doutrina de Cristo. Não foi sem motivo que Voltaire a chamou de infame. Não é sem motivo que todas, ou quase todas as pretensas seitas cristãs, reconheceram e reconhecem a igreja na grande pecadora profetizada no Apocalipse. Não é sem motivo que a história da igreja é a história das maiores crueldades e dos piores erros.
As igrejas, como igrejas, não são instituições que têm por base um princípio cristão, ainda que um tanto desviado do caminho certo, como pensa um grande número de pessoas. As igrejas, como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs. Não só nada existe em comum entre as igrejas e o cristianismo, exceto o nome, como seus princípios são absolutamente opostos e hostis. As primeiras representam o orgulho, a violência, a sanção arbitrária, a imo- bilidade e a morte; o outro representa a humildade, a penitência, a submissão, o movimento e a vida.
Não se pode servir ao mesmo tempo a estes dois senhores: é preciso escolher um ou outro.
Os servidores das igrejas de todos os credos procuram, sobretudo nestes últimos tempos, apresentar-se como partidários do progresso no cristianismo. Fazem concessões, querem corrigir os abusos que se introduziram na igreja e dizem que não se pode negar, devido a estes abusos, o próprio princípio da igreja cristã que, sozinha, pode reunir todos em um só todo e ser a intermediária entre os homens e Deus. Mas isto é um erro. Não só as igrejas nunca uniram ninguém, como foram sempre uma das principais causas do desacordo entre os homens, do ódio, das guerras, das inquisições, das noites de São Bartolomeu etc, e nunca as igrejas serviram de inter- mediárias entre os homens e Deus, o que é aliás inútil e proibido por Cristo, que revelou sua doutrina diretamente a cada homem. Elas introduzem, ao contrário, fórmulas mortas no lugar de Deus e, longe de mostrá-lo aos homens, escondem-no. Nascidas da ignorância, que conservam com sua imobilidade, as igrejas não podem evitar de condenar toda a justa compreensão da doutrina. Procuram escondê-la, mas isto é impossível; porque cada avanço no caminho indicado por Cristo destrói o poder destas igrejas.
Ao ouvir ou ler os sermões ou artigos nos quais os escritores religiosos dos novos tempos e de todos os credos falam de virtude e de verdade cristã, ao ouvir ou ler as hábeis argumentações, as exortações, as profissões há séculos elaboradas e que às vezes têm aparência de sinceridade, estaremos inclinados a duvidar que as igrejas tenham podido ser hostis ao cristianismo. "Mas é impossível que homens como Crisóstomo, Fénelon, Botler e outros pregadores do cristianismo lhe sejam hostis." Somos tentados a dizer: "As igrejas puderam afastar-se do cristianismo, cair no erro, mas não lhe podem ser hostis." Porém, ao examinar o fruto para julgar a árvore, como ensinou Cristo, e ao ver que os frutos eram ruins, que a corrupção do cristianismo foi a conseqüência de seus atos, não podemos deixar de reconhecer que, por melhores que tenham sido os homens, a obra da igreja, para a qual eles colaboraram, não foi uma obra verdadeiramente cristã. A bondade e o mérito de todos estes servidores das igrejas foram as virtudes dos homens, não as virtudes da obra a que eles serviam. Todos estes homens virtuosos, como Francisco de Assis e Francisco de Sales, como nosso Tikhon Zadonsky, Tomás de Kempis etc, eram bons, apesar de seus serviços a uma obra hostil ao cristianismo, e teriam sido ainda melhores e mais dignos, se não tivessem caído no erro a que serviam.
Mas por que falar do passado, por que julgar o passado que pode ser mal ou pouco conhecido? As igrejas, com seus princípios e suas ações, não são coisas do passado; as igrejas estão hoje diante de nós, e podemos julgá-las segundo seus atos e sua ação sobre os homens.
Em que, então, consiste a ação das igrejas? Como influenciam os homens? O que fazem as igrejas junto a nós, junto aos católicos e junto aos protestantes de todos os credos? Quais são as conseqüências de sua ação? A ação de nossa igreja russa, chamada ortodoxa, é visível a todos. É um grande fato, que se pode ocultar e que não se pode discutir.
Em que consiste a ação desta igreja russa, desta imensa instituição animada por vida intensa e composta por um exército de meio milhão de homens que custam ao povo dezenas de milhões? A ação desta igreja consiste em incutir, por todos os meios possíveis, nos cem milhões de homens desta nação russa, as antigas crenças que foram uma vez professadas por homens absolutamente estranhos a nosso povo, nas quais ninguém mais crê, muitas vezes nem mesmo aqueles cuja missão é protegê-las.
Arraigar no povo fórmulas do clero bizantino sobre a Trindade, a mãe de Deus, os sacramentos, as graças, que nenhum sentido fazem mais para os homens de nosso tempo, constitui uma parte da ação da igreja russa. A outra parte de sua ação é o apoio, fornecido pela idolatria, no sentido literal da palavra: veneração das santas relíquias, das santas imagens e sacrifícios que lhes são ofertados para a obtenção da realização dos próprios desejos.
Não falarei do que diz e escreve o clero russo, com uma tintura de erudição e liberalismo, nas revistas religiosas, mas falarei do que faz realmente o clero na imensa extensão da terra russa em meio a um povo de cem milhões de almas. O que se ensina com intensidade ao povo, e por toda parte com o mesmo zelo? O que dele se exige em virtude da suposta fé cristã? Começarei do princípio; isto é, do nascimento da criança. Quando do nascimento da criança, ensina-se que é preciso fazer, sobre o recém-nascido e sobre a mãe, uma prece para purificá-los, porque sem esta prece aquela mãe é impura. Com tal propósito, o padre toma em seus braços a criança e pronuncia as palavras sacramentais diante das imagens dos santos que o povo chama francamente de deuses. Assim, ele purifica a mãe. Então se inculca e mesmo se exige dos pais, com ameaças de punições, que batizem a criança, isto é, que a façam ser mergulhada pelo padre na água, três vezes seguidas, com a leitura de palavras incompreensíveis acompanhadas por atos ainda mais incompreensíveis: unção de várias partes do corpo, corte dos cabelos; os padrinhos sopram e cospem no demónio imaginário. Tudo isto deve purificar a criança e dela fazer um cristão. Ensina-se, assim, aos .pais que é preciso fazer a criança comungar, isto é, fazê-la engolir, sob forma de pão e vinho, uma partícula do corpo de Cristo, o que terá como conseqüência fazer nela penetrar toda a graça divina etc. É, então, ensinado que, à medida que ela crescer, será preciso ensiná-la a rezar. Rezar quer dizer colocar-se diante de um quadro sobre o qual estão desenhados o rosto de Cristo, da Virgem ou dos santos e, com os dedos postos de determinada maneira, tocar a fronte, os ombros, o abdómen, pronunciando palavras eslavas, entre as quais as mais usadas são: "Santa Virgem..., Virgem, alegra-te etc." Ensina-se, após, que à vista de uma igreja ou de uma imagem sacra é preciso fazer aquele mesmo sinal-da-cruz. Depois ensina-se que durante as festas (as festas são o dia em que nasceu Cristo — ainda que ninguém conheça a data deste acon- tecimento —, o dia em que foi circuncidado, o dia em que morreu a Virgem, o dia em que foi carregada a cruz, o dia em que o inocente viu a aparição etc.) é preciso vestir as melhores roupas, ir à igreja, comprar velas e colocá-las defronte às imagens dos santos, dar bilhetinhos e lembrancinhas, dar pãezinhos nos quais são feitos cortes triangulares e, depois, rezar inúmeras vezes pela saúde e felicidade do czar e dos ar- cebispos e por si e seus próprios negócios, e por fim beijar a cruz e a mão do padre.
Além destas orações, ensina-se ainda que é preciso, pelo menos uma vez por ano, confessar-se e comungar. Confessar significa ir à igreja e contar os próprios pecados ao padre, supondo que essa confissão a um estranho nos purifique por com- pleto: e então comer numa colher um pedaço de pão com vinho, o que purifica ainda mais.
É ensinado também que, se o homem e a mulher desejam que sua união carnal seja santa, devem ir à igreja, colocar sobre suas cabeças coroas de metal, beber determinada bebida, andar três vezes em volta de uma mesa com acompanhamento de cânticos e, então, a união carnal do homem e da mulher tornar-se-á santa e em tudo diferente das outras.
Para a vida, ensinaram-se as seguintes regras: não comer carne nem beber leite em determinados dias; assistir aos ofícios e rezar pelos mortos em outros determinados dias; convidar o padre nas festas e dar-lhe dinheiro, e retirar da igreja, várias vezes por ano, o quadro das imagens e colocá-lo sobre guardanapos pelos campos e nas casas. Enfim, ensina-se ao homem a obrigação de comer, no momento da morte, numa colherinha, pão com vinho e, ainda mais válido, se lhe ainda resta tempo, untar-se com óleo. Isto lhe garante a felicidade na vida futura. Após a morte, ensina-se aos parentes do finado que, para a saúde de sua alma, é útil colocar-lhe entre as mãos uma folha de papel na qual está escrita uma oração; e também útil ler sobre o corpo do morto determinado livro e pronunciar seu nome na igreja, em determinados dias.
Em tudo isto consiste a fé obrigatória. Mas, se alguém quer tomar especial cuidado com sua alma, é ensinado que, de acordo com esta crença, a garantia mais segura da felicidade da alma no outro mundo é dar dinheiro às igrejas e aos conventos, o que obriga os homens santos a rezar pelo doador.
São ainda salutares, de acordo com esta crença, as peregrinações aos conventos e o beijo nas imagens milagrosas e nas relíquias.
Segundo esta crença, as imagens milagrosas concentram em si uma força, uma graça e uma santidade especiais; tocá-las ou beijá-las, acender velas e ajoelhar-se diante delas em muito contribui para a salvação, assim como as missas celebradas em seu favor.
E esta crença, é não outra, esta crença chamada ortodoxa, isto é, fé verdadeira, é que é ensinada ao povo como cristianismo, há muitos séculos e ainda hoje.
E não se diga que os padres ortodoxos compreendem de outro modo o sentido da doutrina e que essas são fórmulas antigas que não se acha necessário destruir. Não é verdade. Em toda a Rússia, hoje, só esta fé é ensinada, por todo o clero russo, com especial cuidado.
Nada mais existe. Escreve-se e fala-se de outra coisa nas capitais mas, entre os cem milhões de almas do povo, nada de diferente é feito, nada além disto é ensinado. Os ministros da igreja discutem entre si aquela outra coisa, mas ensinam apenas esta. As prostrações diante das relíquias e das imagens sacras fazem parte da teologia, do catecismo. São ensinadas, teórica e praticamente, ao povo, com pompa, com solenidade, com autoridade, e com violência; hipnotizando-o, obrigam-no a nelas acreditar e assim é esta fé zelosamente preservada de qualquer tentativa de emancipação do povo destas superstições dignas de selvagens.
Como eu disse a propósito de meu livro, a doutrina de Cristo e suas próprias palavras a respeito da não-resistência ao mal com a violência foram, na minha presença, por muitos anos, objeto de zombaria, de ironia geral; e os ministros da igreja não só não se opunham a essas blasfêmias, como até encorajavam-nas. Experimentai falar desrespeitosamente do ridículo ídolo que pessoas embriagadas carregam, em Moscou, de maneira sacrílega, sob o nome de ícone de Iver. Um grito de indignação levantar-se-á dentre os próprios ministros da igreja ortodoxa. Prega-se somente o culto externo da idolatria.
E não se diga que um não impede o outro; que uma coisa deve ser feita e que outra não deve ser abandonada.
"Portanto, fazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis as suas ações, pois dizem mas não fazem." (Mt 23,3). Isto foi dito dos fariseus que observam todas as regras exteriores da religião; e por isto as palavras: "Fazei e observai tudo quanto vos disserem" referem-se aos atos de caridade e de beneficência, enquanto as palavras: "Mas não imiteis as suas ações, pois dizem mas não fazem" referem-se a sua observância das cerimonias e à não-observância às obras de Deus. Estas palavras têm um significado totalmente oposto ao que querem atribuir-lhes os ministros da igreja, que as interpretam como uma ordem de observância das cerimonias. O culto exterior e o culto do bem e da verdade dificilmente se conciliam, até aliás se excluem mutuamente. Assim faziam os fariseus, e o mesmo acontece ainda hoje entre os cristãos da igreja oficial! Se o homem pode obter a salvação pela expiação, pelos sacramentos e pelas orações, as boas obras não mais lhe são necessárias.
O Sermão da Montanha ou então o Símbolo da Fé: não se pode crer num ou noutro; e os partidários da igreja escolheram o último. O Símbolo da Fé é ensinado e lido como oração nas igrejas, enquanto o Sermão da Montanha é excluído até mesmo das leituras evangélicas nas igrejas, a tal ponto que os fiéis nunca o ouvem, salvo nos dias em que o Evangelho é lido por inteiro. E não poderia ser diferente.
Homens que crêem num Deus malvado e insensato que amaldiçoou a raça humana e mandou seu filho ao sacrifício e uma parte dos homens a uma tortura eterna não podem crer num Deus de amor. O homem que crê em Deus-Cristo que julga e pune ruidosamente os vivos e os mortos não pode crer num Cristo que ordena dar a face ao ofensor, não julgar, perdoar e amar os próprios inimigos.
O homem que crê no caráter divino do Antigo Testamento e na santidade de Davi, que em seu leito de morte delega a missão de matar o velho que o ofendeu, a quem ele não pode matar pessoalmente por estar ligado a um juramento (1 Rs 2,8), e muitas outras vilanias das quais está cheio o Antigo Testamento, não pode crer na moral de Cristo. O homem que crê na doutrina e nos sermões da igreja relativos à conciliação do cristianismo com as execuções capitais e a guerra não pode mais acreditar na humanidade de todos os homens.
E, sobretudo, o homem que acredita na salvação pelo caminho da expiação e dos sacramentos não pode mais concentrar todos seus esforços na observância da doutrina moral de Cristo.
O homem a quem a igreja ensinou esta doutrina sacrílega, ou seja, que ele não pode encontrar em si a salvação e que existe um outro meio de obtê-la, recorrerá necessariamente a este meio, e não a sua própria força, na qual não pode confiar sem pecado, como lhe é afirmado. A doutrina da igreja, qualquer que seja, com suas expiações e seus sacramentos, exclui a doutrina de Cristo (sobretudo a igreja ortodoxa, com sua idolatria).
"Mas, poder-se-á objetar, o povo sempre acreditou, e ainda acredita, desta forma. Toda a história do povo russo assim o prova. Não se pode tirar suas tradições." É uma falsidade. O povo realmente professou, por algum tempo, algo parecido com o que hoje professa a igreja; mas não era, na verdade, a mesma coisa.
Ao lado da idolatria das imagens, das relíquias, existiu sempre no povo uma compreensão profundamente moral do cristianismo, que nunca existiu na igreja e que só é encontrada em seus melhores representantes. Mas o povo, apesar de todos os obstáculos neste sentido a ele colocados pelo Estado e pela igreja, já percorreu, há muito, a etapa grosseira deste conceito. O que demonstra isso, por outro lado, é o espontâneo e geral desenvolvimento das seitas racionalistas que hoje proliferam na Rússia, e contra as quais lutam, com tão pouco sucesso, os ministros da igreja. O povo segue adiante na penetração do código moral e vivo do cristianismo. E é, então, que aparece a igreja, não para trazer seu apoio a este movimento, mas para inculcar ainda mais no povo um antigo paganismo, de formas petrificadas, e para novamente empurrá-lo para as trevas das quais com tanta dificuldade tenta sair.
"Não ensinamos ao povo nada de novo, mas apenas aquilo em que ele crê, e de uma forma mais perfeita", dizem os ministros da igreja. Este modo de agir assemelha- se ao que consistiria em amarrar um pintinho que cresce e fechá-lo na casca de onde saiu.
A primeira pergunta, a primeira dúvida que se apresenta ao russo quando este começa a refletir refere-se às imagens milagrosas e, sobretudo, às relíquias: é verdade que são incorruptíveis e fazem milagres? Centenas de homens fazem-se esta pergunta, mas se detêm diante da solução, principalmente devido ao fato de que os arcebispos, os bispos e todos os homens de alta posição beijam as relíquias e as imagens mila- grosas. Perguntai aos arcebispos e aos grandes personagens por que o fazem e nos responderão que o fazem para dar o exemplo ao povo. E o povo assim faz porque eles o fazem.
A igreja russa, apesar do verniz superficial de modernidade e refinamento do caráter sacro que seus membros começam hoje a introduzir em suas obras, em seus artigos, suas revistas religiosas e seus sermões, não tem outro objetivo senão manter o povo numa idolatria selvagem e grosseira e di-* fundir a superstição e a ignorância, obscurecendo a compreen-j são da doutrina evangélica que vive no povo ao lado da su- perstição.
Lembro-me de haver assistido um dia, na livraria do convento Optin, à escolha, feita por um velho camponês analfabeto, de alguns livros religiosos para seu filho. Um frade recomendava-lhe a história das relíquias, das festas, das aparições das imagens, o livro dos salmos etc. Perguntei ao velho se ele possuía um Evangelho.
— Não — Dê-lhe então um Evangelho em russo — disse eu ao frade.
— Não serve para eles, respondeu-me o frade.
Eis, em poucas palavras, toda a ação de nossa igreja.
Mas isto só acontece na bárbara Rússia, objetará um leitor europeu ou americano. E esta opinião será justa, mas só enquanto houver um governo que ajude a igreja na Rússia em sua missão de desmoralização e embrutecimento.
É bem verdade que em parte alguma da Europa existe um governo tão despótico e que tão bem se ponha de acordo com a igreja atual. A participação do poder na desmoralização do povo russo é também muito grande. Mas seria injusto crer que a igreja russa se distingue no que quer que seja de qualquer outra igreja em sua influência sobre o povo.
As igrejas são ás mesmas por toda a parte e, se as igrejas católica, anglicana, luterana não têm nas mãos um governo assim tão dócil, não é, certamente, porque não o desejem.
Uma igreja, qualquer que seja, não pode deixar de não visar o mesmo objetivo da igreja russa, isto é, encobrir o verdadeiro sentido da doutrina de Cristo e substituí- la por um ensinamento que a nada obrigue e que, sobretudo, justifique a existência de bonzos nutridos à custa do povo.
Acaso age de outro modo o catolicismo, quando proíbe a leitura do Evangelho, quando exige uma submissão cega aos chefes da igreja e ao papa infalível? Acaso ensina o catolicismo algo diferente do que ensina a igreja russa? O mesmo culto externo, as mesmas relíquias, os mesmos milagres, as mesmas estátuas milagrosas, a Madona e as procissões, os mesmos raciocínios afetados e nebulosos sobre o cristianismo nos livros e nos sermões; na verdade, o mesmo encorajamento à mais vulgar idolatria.
E acaso o mesmo não ocorre nas igrejas anglicana, luterana e em cada protestantismo que tem uma igreja? As mesmas exigências de fé nos dogmas expressos no século IV, e que perderam qualquer sentido para os homens de nosso tempo, as mesmas práticas de idolatria, se não às relíquias e aos ícones, ao menos ao dia de sábado e aos textos da Bíblia. Sempre a mesma tendência a esconder as verdadeiras exigências do cristianismo e substituí-las por um culto externo e pelo cant9 que não obriga a nada, como definem tão bem os ingleses, que lhe são especialmente afeiçoados. No protestantismo, esta tendência é sobretudo notável porque não tem o pretexto da antiguidade. E acaso não se dá o mesmo no calvinismo regenerado, no evangelismo que deu origem ao Exército de Salvação? Como as diferentes doutrinas de igreja são semelhantes no que se refere à doutrina de Cristo, é também semelhante seu procedimento.
Sua situação é tal que elas não podem deixar de envidar todos seus esforços para ocultar a doutrina de Cristo, de cujo nome se servem. A incompatibilidade de todos os credos eclesiásticos com a doutrina de Cristo é, de fato, tal que são feitos esforços especiais para dissimulá-la perante os homens.