Facebook do Portal São Francisco Twitter do Portal de Educação Curtir
Home  O Reino De Deus Está Em Vós  Voltar

O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

CAPÍTULO V

Contradições entre nossa vida e a consciência cristã

A incompreensão da doutrina de Cristo por parte dos homens tem causas diversas. Uma delas é que os homens crêem tê-la compreendido quando, como os fiéis da igreja, admitiram sua revelação sobrenatural, ou então quando, como os doutores, limitaram-se ao estudo dos fenômenos externos através dos quais ela se manifestou. Outra destas causas está na convicção de que ela é impraticável e pode ser substituída pela doutrina do amor à humanidade. Mas a principal destas causas, a que é a fonte de todos os mal-entendidos, consiste na opinião de que o cristianismo é uma doutrina que se pode aceitar ou rejeitar sem mudar de vida.

Os homens, habituados à ordem atual das coisas, à qual são afeiçoados e que receiam modificar, procuram entender a doutrina como um conjunto de revelações e regras, que se pode aceitar sem mudar de vida. Porém, o cristianismo não é apenas uma doutrina que dá normas para seguir, mas uma explicação nova do sentido da vida, uma definição da ação humana absolutamente diversa da antiga, porque a humanidade entrou num novo período.

A vida da humanidade modifica-se, como a vida do indivíduo, passando por diversas idades: cada idade tem, sobre a vida, um conceito correspondente, que os homens infalívelmente assimilam. Aqueles que não o assimilam com a razão assimilam-no inconscientemente. O que ocorre pela mudança do modo de encarar a vida pelos indivíduos, ocorre da mesma forma pela mudança do modo de encarar a vida pelos povos e por toda a humanidade. Se o pai de família continuasse a agir segundo o conceito de vida que ele tinha quando jovem, sua vida tornar-se-ia tão difícil que ele procuraria por si mesmo um outro conceito e, de bom grado, aceitaria aquele que correspondesse a sua idade.

É isto o que hoje ocorre com a humanidade, no período de tempo que atravessamos, período de transição entre o conceito pagão de vida e o conceito cristão.

O homem social de nosso tempo é levado pela própria vida à necessidade de rejeitar o conceito pagão da vida, impróprio para a idade atual da humanidade, e a submeter-se às exigências da doutrina cristã, cujas verdades, por mais corruptas e mal- interpretadas que sejam, são, porém, por ele conhecidas e as únicas a lhe oferecer a solução para as contradições que o embaraçam.

Se o homem seguidor do conceito social considera as exigências do cristianismo estranhas e também perigosas, igualmente estranhas, incompreensíveis e perigosas pareciam ao selvagem das épocas antigas as exigências da doutrina social, quando ele ainda não as entendia e não podia prever suas conseqüências.

"É uma insensatez sacrificar a própria tranqüilidade e a própria vida pela defesa de algo incompreensível, intangível e convencional: a família, a raça, a pátria, e é sobretudo perigoso colocar-se nas mãos de um poder estrangeiro'' — dizia ele.

Mas veio um tempo em que o selvagem compreendeu, ainda que vagamente, o valor da vida social e de seu principal estímulo, a aprovação ou a reprovação social: a glória — e no qual, por outro lado, as dificuldades de sua vida pessoal tornaram-se tais que não podia continuar a acreditar no valor de seu antigo conceito da vida e precisou aceitar a doutrina social e a ela submeter-se.

O mesmo repete-se hoje com o homem social.

"É uma insensatez, diz ele, sacrificar a própria felicidade, a da própria família e da própria pátria para satisfazer as exigências de algumas leis, superiores sim, mas incompatíveis com o sentimento melhor, mais natural, o amor a si próprio, à própria família, à própria raça, à própria pátria, e, é sobretudo perigoso abandonar a garantia da vida que assegura a ordem social" — continua ele a dizer.

Mas chega o tempo em que a vaga consciência da lei superior do amor a Deus e ao próximo e os sofrimentos resultantes das contradições da vida forçam o homem a rejeitar o conceito social e a aceitar o que lhe é proposto, que resolve todas as contradições e remedia todos os sofrimentos: o conceito cristão da vida. E este tempo chegou.

Nós que suportamos, por milhares de anos, a transição do conceito animal da vida ao conceito social, acreditamos que esta transição era então necessária, natural, enquanto aquela na qual nos encontramos há 1.800 anos nos parece arbitrária, artificial e assustadora. Mas nos parece assim somente porque a primeira transição já se completou e porque os costumes que fez nascer tornaram-se habituais, enquanto a transição presente ainda não terminou e devemos conscientemente levá-la adiante.

Longos séculos, milhares de anos passaram-se antes que o conceito social penetrasse na consciência dos homens. Ele passou por diversas formas e entrou hoje no domínio do inconsciente, por meio da herança, da educação e do hábito. Por isso nos parece natural. Mas, há cinco mil anos, parecia ao homem tão pouco natural e tão apavorante quanto lhes parece, agora, a doutrina cristã, em seu verdadeiro sentido.

Parece-nos, hoje, que as exigências do cristianismo, a fraternidade universal, a supressão da nacionalidade, a supressão da propriedade e o tão estranho preceito da não-resistência ao mal com a violência são inaceitáveis. Mas pareciam, também, inaceitáveis, há milhares de anos, todas as exigências da vida social e mesmo as da vida doméstica, como a obrigação dos pais de nutrir os filhos e dos jovens de nutrir os velhos, ou mesmo a obrigação dos esposos de serem fiéis um ao outro. Mais estranhas ainda, até insensatas, pareciam as diversas exigências sociais, como a obrigação dos cidadãos de submeter-se ao poder, de pagar impostos, de guerrear em defesa da pátria etc. Todas estas exigências nos parecem, hoje, simples, compreensíveis, naturais e nada vemos nelas de místico ou apavorante. Todavia, há cinco ou três mil anos pareciam inadmissíveis.

O conceito social servia de base às religiões porque, na época em que foi proposto aos homens, era absolutamente incompreensível, místico e sobrenatural. Hoje, tendo atravessado esta fase da vida humana, compreendemos as causas racionais do agrupamento humano em famílias, comunidade, Estados; mas, na Antiguidade, a necessidade de tais reuniões foi apresentada em nome do sobrenatural e por ele confirmada.

As religiões patriarcais divinizavam a família, a raça, o povo; as religiões sociais divinizavam o rei, os Estados. Ainda hoje, a maior parte dos ignorantes — como nossos camponeses que chamam o czar de Deus terrestre — submetem-se às leis sociais, não segundo a consciência racionalizada de sua necessidade, não por terem uma idéia do Estado, mas por sentimento religioso.

Do mesmo modo, hoje, a doutrina de Cristo aparece sob o aspecto de uma religião sobrenatural, enquanto, na verdade, nada tem de misteriosa, mística ou sobrenatural. É simplesmente uma doutrina de vida, correspondente ao grau de desenvolvimento da idade em que se encontra a humanidade e que, em conseqüência, deve ser, por ela, aceita.

Virá o tempo — e já está vindo — no qual os princípios cristãos da vida — fraternidade, igualdade, comunhão de bens, não-resistência ao mal com a violência — parecerão tão simples e tão naturais como hoje parecem os princípios da vida doméstica e social.

Nem o homem nem a humanidade podem voltar atrás. Os conceitos doméstico e social são fases atravessadas pelos homens; é preciso que eles progridam e assimilem o conceito subsequente, superior; e isso já ocorre atualmente.

Este movimento é executado de dois modos simultâneos: conscientemente, como resultado de causas materiais; inconscientemente, como sequência de causas materiais. Como um indivíduo isolado não muda sua existência por razoes apenas morais e, na maioria das vezes, continua a viver como no passado, apesar do novo sentido e da nova finalidade revelados pela razão, e só modifica sua vida quando esta se torna absolutamente contrária a sua consciência e, portanto, intolerável, assim também a humanidade, tendo aprendido com seus guias religiosos o novo sentido da vida, os novos objetivos que deve alcançar, continua ainda por longo tempo após esta iniciação a viver como no passado e não é induzida a aceitar o novo conceito senão pela impossibilidade de continuar a antiga vida.

Não obstante a obrigação de modificar a vida, obrigação formulada pelos guias religiosos, reconhecida pelos homens mais inteligentes, e já parte da consciência, a maioria dos homens, mesmo mantendo um respeito religioso por estes guias, ou seja, a fé em sua doutrina, continua a seguir pelo caminho mais complicado, pelos princípios da antiga doutrina, como faria um pai de família que, sabendo muito bem como é preciso viver em sua idade, continuasse, por hábito e por leviandade, a viver sua existência de menino.

Eis o que acontece no período de transição da humanidade de uma idade para outra, que nesse momento atravessamos. A humanidade saiu da idade social e entrou numa nova. Porém, conhecedora da doutrina que deve servir de base a esta nova idade, continua, por inércia, a conservar as antigas formas de vida. Deste antagonismo do novo conceito com a prática da vida resulta uma série de contradições e sofrimentos que envenenam nossa existência e exigem sua modificação.

Basta, na realidade, comparar apenas a prática com sua teoria, para assustar- se frente à contradição flagrante das condições de nossa existência e de nossa consciência.

Toda nossa vida está em contradição constante com tudo o que sabemos e que consideramos necessário e obrigatório. Esta contradição está em tudo, na vida econômica, na vida política e na vida internacional. Como se tivéssemos esquecido o que aprendemos e posto provisoriamente de lado o que acreditamos justo, fazemos o contrário daquilo que pedem nossa razão e nosso bom senso.

Guiamo-nos, em nossas relações econômicas, sociais e internacionais, pelos princípios que eram bons para os homens há três e cinco mil anos, e que estão em contradição direta com nossa consciência atual, bem como com as condições da vida em que, hoje, nos encontramos.

O homem da Antiguidade podia julgar ser seu direito gozar os bens deste mundo em detrimento dos outros homens, fazendo-os sofrer de geração em geração, porque acreditavam que os homens pertenciam a diversas origens, nobres ou vis, estirpe de Jafé ou de Cam. Não só os maiores sábios do mundo, os educadores da humanidade, Platão, Aristóteles etc, justificavam a escravidão e demonstravam sua legitimidade, como, há três séculos, os homens que descreveram a sociedade imaginária do futuro, a Utopia, não conseguiam representá-la sem escravos. Os da Antiguidade e também os da Idade Média acreditavam que os homens não são iguais, que os verdadeiros homens eram somente os persas, somente os gregos, somente os romanos, somente os franceses: mas não mais podemos acreditar nisso, e os que, em nossos tempos, se esforçaram tanto para defender a aristocracia e o patriotismo não podem acreditar naquilo que dizem.

Sabemos todos, e não temos como não saber, ainda que nunca houvéssemos ouvido ou lido coisa alguma a este respeito, ainda que nós mesmos nunca houvéssemos expressado, impregnando-nos do sentimento que age na área cristã — sabemos com todo nosso coração, e não temos como não saber, que somos todos filhos de um só Pai, qualquer que seja o lugar em que moramos, qualquer que seja a língua que falamos; que somos todos irmãos e todos sujeitos ao julgamento da lei úni- ca do amor, colocada em nosso coração por nosso Pai comum.

Quaisquer que sejam as idéias e o grau de instrução de um homem de nosso tempo, um culto liberal de qualquer grau, um filósofo de qualquer sistema, um doutor, um economista de qualquer escola, também um fiel de qualquer crença, cada homem sabe que todos os homens têm os mesmos direitos à vida e aos prazeres deste mundo, e que todos, nem piores ou melhores uns do que os outros, são iguais. Cada um sabe isto do modo mais absoluto e seguro. Entretanto, não só cada um vê a seu redor a divisão dos homens em duas castas, uma lastimosa, sofrida, miserável, oprimida, e a outra ociosa, dominadora, vivendo no luxo e nas festas; mas além do mais, voluntariamente ou não, cada qual participa de um lado ou de outro da manutenção destas divisões que sua consciência condena, 'porque não pode deixar de sofrer com esta contradição e com sua contribuição para este ordenamento.

Seja patrão ou escravo, o homem moderno não pode deixar de perceber a contradição constante, aguda, entre sua consciência e a realidade, e deixar de conhecer os sofrimentos que daí resultam.

A massa trabalhadora, a grande maioria dos homens, suportando a pena e as privações sem fim e sem razão que absorvem durante toda a vida, sofrem ainda mais com esta flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser, segundo o que eles mesmos professam e o que professam aqueles que os reduziram a esse estado.

Eles sabem que vivem na escravidão e condenados à miséria e às trevas para o prazer da minoria que os escraviza. Sabem e dizem. É esta consciência não só aumenta seu sofrimento, mas é sua principal causa.

O escravo antigo sabia que era escravo por natureza, enquanto o nosso operário, sentindo-se escravo, sabe que não deveria sê-lo e, por isso, sofre o suplício de Tântalo, desejando sempre e jamais obtendo, não só o que lhe poderia ser con- cedido, mas sequer o que lhe é devido. Os sofrimentos das classes operárias, derivando da contradição entre o que é e o que deveria ser, decuplicam com a inveja e com o ódio resultantes da consciência desta situação.

O operário de nosso tempo, ainda que seu trabalho seja menos penoso do que o do escravo antigo, ainda que obtenha a jornada de oito horas e o salário de poucas liras por dia, não deixaria de sofrer porque, fabricando objetos dos quais não tem o prazer do uso, trabalha não para si e voluntariamente, mas por necessidade, para a satisfação dos ricos e dos ociosos, e para o proveito de um só capitalista (proprietário de fábrica ou estabelecimento industrial). Sabe que isto ocorre num mundo em que é reconhecida a máxima científica de que só o trabalho alheio é uma injustiça, um delito punido por lei, num mundo que professa a doutrina de Cristo, segundo a qual somos todos irmãos, e que não se reconhece ao homem outro mérito senão o de vir em auxílio do próximo, ao invés de explorá-lo.

Ele sabe tudo isso e não pode deixar de sofrer devido a esta flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser.

Segundo todos os dados e segundo tudo o que eu sei do que acontece no mundo eu deveria ser livre, amado, igual a todos os outros homens e, em vez disto, sou escravo, humilhado, odiado." Diz para si mesmo o trabalhador.

E ele também odeia e procura o modo de sair de sua situação, de livrar-se do inimigo que o oprime e de, por sua vez, oprimi-lo.

Diz-se: "Os operários estão errados ao desejarem colocar-se no lugar do capitalista, o pobre no lugar do rico." É falso. O trabalhador e o pobre seriam injustos se assim o desejassem no mundo em que escravos e patrões, ricos e pobres são reconhecidos como sucedâneos de Deus; mas eles assim o desejam num mundo no qual se professa a doutrina evangélica, cujo primeiro princípio é que todos os homens são filhos de Deus, donde resultam a fraternidade e igualdade de todos. E, não obstante todos os esforços dos homens, não é possível esconder que uma das principais condições da vida cristã é o amor não a palavras, mas a fatos.

O homem da classe que se diz culta sofre até mais com as contradições de sua vida. Cada membro desta classe, se acredita em algo, acredita, senão na fraternidade dos homens, pelo menos num sentimento de humanidade ou na justiça, ou na ciên- cia; e ele sabe, entretanto, que toda sua vida está estabelecida sobre princípios diretamente opostos a tudo isso, a todos os princípios do cristianismo, da humanidade, da justiça e da ciência. Ele sabe que todos os hábitos em meio aos quais foi educado, e cujo abandono lhe seria penoso, só podem ser satisfeitos por meio de um trabalho árduo, muitas vezes fatal, dos operários oprimidos, isto é, pela violação mais evidente, mais grosseira, daqueles mesmos princípios de cristianismo, de hu- manidade, de justiça e até de ciência (e omite as exigências da economia política) por ele professados. O homem ensina princípios de fraternidade, de humanidade, de justiça, de ciência, mas não só vive de modo a ser obrigado a recorrer à opressão do trabalhador, a qual reprova, mas ainda toda sua vida repousa sobre os benefícios desta opressão, assim dirigindo toda sua ação para a manutenção deste estado de coisas absolutamente contrário a todos os princípios que professa.

Somos todos irmãos, e, no entanto, a cada manhã, este irmão ou esta irmã fazem para mim os serviços que não desejo fazer. Somos todos irmãos — e no entanto preciso a cada dia de charuto, de açúcar, de espelho e de outros objetos em cuja fabricação meus irmãos e minhas irmãs, que são meus semelhantes, sacrificaram e sacrificam sua saúde; e sirvo-me destes objetos, e até os reclamo como meu direito. Somos todos irmãos — e no entanto ganho a vida trabalhando num banco, ou numa casa de comércio, num estabelecimento cujo resultado é tornar mais custosas todas as mercadorias necessárias a meus irmãos. Somos todos irmãos — e no entanto vivo e sou pago para interrogar, julgar e condenar o ladrão e a prostituta, cuja existência resulta de todo meu modo de viver e a quem não se deve, como sei, condenar ou punir. Somos todos irmãos — e vivo e sou pago para recolher impostos dos trabalhadores carentes e empregá-los para o bem-estar dos ociosos e dos ricos. Somos todos irmãos — e sou pago para pregar aos homens uma suposta fé cristã, na qual eu mesmo não creio, e que os impede de conhecer a verdadeira fé; recebo salário como padre, como bispo, para enganar os homens nas questões, para eles, mais essenciais. Somos todos irmãos — mas não forneço ao pobre senão por dinheiro meu trabalho de pedagogo, de médico, de literato. Somos todos irmãos — e eu me preparo para o assassinato; aprendendo a assassinar, fabrico armas, pólvora, construo fortalezas e por isso sou pago.

Toda a vida de nossas classes superiores é uma constante contradição, tanto mais dolorosa para um homem quanto sua consciência é mais sensível e mais elevada.

O homem dotado de uma consciência impressionável não pode deixar de não sofrer com tal vida. O único meio para livrar-se desse sofrimento é impor silêncio à própria consciência; mas, se alguns conseguem isso, não conseguem impor silêncio a seu medo.

Os homens das classes superiores opressivas, cuja consciência é pouco impressionável ou que tenham sabido fazê-la calar, se não sofrem devido a ela, sofrem com o medo e com o ódio e não conseguem deixar de sofrer. Conhecem todo o ódio que contra eles nutrem as classes trabalhadoras; não ignoram que os operários são enganados e explorados e que começam a se organizar para combater a opressão e vingar-se dos opressores. As classes superiores vêem as associações, as greves, o 1? de maio e sentem o perigo que os ameaça, e este medo envenena sua vida e transforma-se num sentimento de defesa e de ódio. Sabem que, enfraquecendo por um instante na luta contra os escravos oprimidos, perecerão, porque os escravos estão exasperados e porque cada dia de opressão aumenta essa exasperação. Os opressores, ainda que quisessem, não poderiam dar fim à opressão. Sabem que eles próprios pereceriam, não apenas logo que deixassem de ser opressores, mas também assim que dessem sinais de enfraquecimento. Por isto não enfraquecem, apesar de seus supostos cuidados com o bem-estar do operário, das jornadas de oito horas, das leis trabalhistas para o menor e a mulher, das caixas de pensão e de recompensas. Tudo isso nada é senão prepotência ou desejo de deixar ao escravo a força de trabalho; mas o escravo permanece escravo e o patrão, que não pode ficar sem ele, está menos disposto do que nunca a libertá-lo.

As classes dirigentes encontram-se, face às classes trabalhadoras, na situação de um homem que houvesse jogado ao chão seu adversário e não o soltasse, não tanto porque não o quisesse, mas porque um momento de liberdade concedido a seu inimigo, irritado e armado com uma faca, bastaria para que este o degolasse.

Por isso, impressionáveis ou não, nossas classes abastadas não podem, como os antigos que acreditavam em seus direitos, gozar das vantagens das quais despojaram o pobre. Toda sua vida e todos seus prazeres são perturbados pelo re- morso e pelo medo.

Assim é a contradição econômica. Mais surpreendente ainda é a contradição política. Todos os homens são educados, antes de tudo, no hábito da obediência às leis. Toda a vida de nossos tempos baseia-se nestas leis. O homem se casa, se divorcia, cria os filhos e até mesmo professa uma crença (em muitos países) de acordo com as leis. Qual é então essa lei sobre a qual repousa toda nossa existência? De fato, nenhuma. Ademais, os homens de nosso tempo não acreditam na justiça dessas leis, desprezam-nas e por isso não se submetem a elas. Compreende-se que os homens da Antiguidade se tenham sujeitado a sua lei; realmente acreditavam que essa lei (que em geral era também religiosa) fosse a única, a verdadeira, aquela a que todos os homens devem sujeitar-se. Mas, e nós? Nós sabemos e não temos dúvida de que a lei do nosso Estado não é a única, a eterna lei, mas somente uma lei como as outras, tão numero- sas, dos outros Estados, igualmente imperfeita e muitas vezes também claramente falsa e injusta. Compreende-se que os judeus tenham obedecido as suas leis, uma vez que não duvidavam que Deus as houvesse escrito com seu dedo, o mesmo se compreende com relação aos romanos, que as acreditavam ditadas pela ninfa Egéria. Compreende-se até a obediência às leis quando se acreditava que os soberanos que as ditaram eram os representantes de Deus na Terra, ou quando as assembléias legislativas que as elaboraram foram animadas pelo desejo de fazê-las o melhor possível e tiveram a habilidade de consegui-lo. Mas todos sabemos como são feitas estas leis. Estivemos todos nos bastidores; sabemos que são geradas pela cobiça, pela astúcia, pela luta entre os partidos; que nelas não há e não pode haver justiça real.

Por isso os homens de nosso tempo não podem crer que a submissão às leis sociais e políticas satisfaça às exigências da razão e da natureza humana. Os homens de há muito sabem que é irracional submeter-se a uma lei cuja verdade é dúbia e, portanto, não podem deixar de sofrer ao se submeterem a uma lei cujo bom senso e cujo caráter obrigatório eles não reconhecem.

O homem não pode deixar de sofrer quando toda sua vida é regulada antecipadamente por leis às quais ele deve obedecer sob ameaça de castigo, ainda que não acredite em sua sabedoria e justiça e que até, muitas vezes, tenha plena cons- ciência de sua crueldade e de seu caráter artificial.

Reconhecemos a inutilidade das alfândegas e das taxas de entrada, mas somos obrigados a pagá-las. Reconhecemos a inutilidade das listas civis e de muitas outras despesas governamentais; consideramos nocivos os ensinamentos da igreja, e devemos contribuir para a manutenção destas instituições. Reconhecemos como cruéis e injustas as condenações pronunciadas pelos tribunais e somos obrigados a participar desta justiça. Reconhecemos ser irregular e funesta a distribuição da propriedade rural, e devemos suportá-la. Não reconhecemos a necessidade do exército e da guerra, e devemos pagar terríveis impostos para a manutenção das tropas e para as despesas da guerra.

Mas esta contradição não é nada se comparada àquela que se ergue diante dos homens em suas relações internacionais e que, sob pena de perda da razão e da vida humana, exige uma solução: a contradição entre a consciência cristã e a guerra.

Todos nós, povos cristãos, que participamos da mesma vida espiritual, de tal modo que cada pensamento generoso, fecundo, que nasce numa extremidade da Terra, comunica-se imediatamente a toda humanidade cristã e provoca por toda a parte o mesmo sentimento de alegria e orgulho, a despeito das nacionalidades; nós, que amamos o pensador, o filantropo, o poeta, o sábio estrangeiro; nós, que estamos orgulhosos com o empreendimento de Damien1, como se nosso fosse; nós, que simplesmente amamos os estrangeiros, franceses, alemães, americanos, ingleses; nós, que pregamos suas qualidades, que ficamos felizes ao encontrá-los, que os acolhemos com prazer, que não só não podemos considerar como um ato heróico a guerra contra eles, mas que também não podemos pensar sem terror que uma desavença tão grave possa ser deflagrada entre nós e eles, nós somos todos chamados a participar da carnificina que inevitavelmente deve acontecer senão hoje, pelo menos amanhã.

1Empreendimento feito por Joseph De Veuster, que, em 1863, transferiu-se para a Oceania e consagrou- se a cuidar de leprosos, dos quais contraiu a doença. Seu nome religioso era Padre Damien. (N. do E.)

Compreende-se que os judeus, os gregos, os romanos hajam defendido sua independência com o assassinato e que, pelo assassinato, outros povos os hajam submetido, porque cada um deles acreditava firmemente ser o único povo escolhido, bom e amado por Deus, enquanto os outros não eram senão filisteus ou bárbaros. Os homens da Idade Média, e também aqueles do final do século XVIII e do princípio deste, podiam ainda ter a mesma crença. Mas nós, apesar de todas nossas excitações, não mais podemos tê-la. E esta contradição é tão terrível em nossos tempos que não mais podemos viver sem encontrar uma solução.

O conde Komarovsky, professor de Direito Internacional, escreve em suas sábias memórias:

Os nossos tempos são ricos em contradições de toda a espécie; a imprensa de todos os países nos fala, em todos os tons, da necessidade da paz entre os povos e deseja-a ardentemente. Os membros dos governos declaram- no, assim como órgãos oficiais e privados; disto se fala na câmara dos deputados, nas correspondências diplomáticas e até nos tratados que se concluem. A paz está em todas as bocas e, no entanto, os governos a cada ano aumentam seus armamentos, introduzem novos impostos, fazem empréstimos e elevam desmedidamente seus débitos, deixando às gerações futuras o trabalho de reparar todos os erros de nossa política insensata. Que lamentável contraste entre palavras e atos! E o que fazem os governos para justificar seus armamentos e o déficit de seus balanços? Colocam absolutamente tudo na conta exclusiva da defesal Mas eis o ponto obscuro, o que nenhum homem imparcial pode ou poderá compreender: de que parte virá o ataque se, em sua política, todas as grandes potências são unânimes ao objetivar a defesa. É, todavia, evidente que cada uma destas potências está pronta, a cada minuto, para atacar as outras. Eis o que causa uma desconfiança geral, bem como os esforços sobre-humanos de cada Estado para superar em forças militares todos os outros: competem para apresentar no campo de batalha a multidão mais imponente.

Tanta rivalidade é por si só o maior perigo de guerra; os povos não podem prolongar ao infinito este estado de coisas e cedo ou tarde deverão preferir a guerra à tensão em que agora vivem e à destruição que os ameaça. Então o mais fútil pretexto bastará para acender o fogo da guerra em toda a Europa, de uma extremidade à outra. E esperamos em vão salvar-nos, com a crise, das calamidades políticas e econômicas que nos oprimem. A experiência das últimas guerras nos demonstrou suficientemente que cada uma delas rendeu o mais profundo ódio entre os povos, o peso do militarismo mais insuportável e o estado político e econômico da Europa mais triste e mais difícil. Por sua vez escreve Enrico Fermi: A Europa moderna tem um exército de nove milhões de homens, e cerca de quinze milhões na reserva, e gasta quatro bilhões de libras por ano. Armando-se cada vez mais, esgota as fontes do bem-estar social e individual; e poderia facilmente ser comparada a um homem que, para conseguir armas, condena-se à anemia, perdendo as forças de que precisa para se servir das armas que conseguiu e sob cujo peso acaba por sucumbir.

O mesmo diz Charles Booth, em seu discurso lido em Londres na Associação Pela Reforma e Codificação da Lei das Nacionalidades, a 26 de julho de 1887. Após haver mencionado a mesma cifra de nove milhões de homens no exército ativo e dezessete milhões na reserva, e as enormes despesas dos governos para a manutenção e o armamento destes exércitos, ele acrescenta:

Estas cifras não representam senão uma ínfima parte da despesa real, porque, além destas despesas conhecidas do balanço de guerra das diversas nações, devemos também considerar as incalculáveis perdas causadas à sociedade pela absorção de uma quantidade tão considerável de homens que, escolhidos entre os mais vigorosos, são tirados da indústria e de qualquer outro trabalho, além dos enormes juros das quantias despendidas em preparativos militares que nada rendem. A inevitável conseqüência destas despesas de guerra e dos preparativos militares é o aumento progressivo dos débitos do Estado. A maior parte dos débitos dos Estados da Europa foi feita em previsão da guerra. Seu total soma quatro bilhões de libras esterlinas, ou cem bilhões de liras, e estes débitos aumentam a cada ano.

O mesmo Komarovsky diz, em outra parte: Vivemos em tempos penosos. Ouvem-se por todos os lugares lamentações em torno da estagnação do comércio e da indústria, e em geral em torno da má situação econômica: são evidenciadas duras condições da vida das classes operárias e o empobrecimento das massas. Inventam-se, por toda a parte, novos impostos, e a opressão financeira das nações não tem limites.

Se examinarmos os balanços dos Estados da Europa durante os últimos cem anos, o que antes de tudo nos chama a atenção é seu aumento progressivo e rápido. Como podemos explicar este extraordinário fenômeno que mais cedo ou mais tarde ameaça os Estados de uma inevitável falência? Isso provém certamente das despesas para a manutenção dos exércitos que absorvem a terça parte ou até mesmo a metade do balanço de todos os Estados da Europa. O mais triste é que não se vê o final deste aumento dos balanços e do empobrecimento das massas. O que é o socialismo senão um protesto contra esta situação extremamente anormal na qual se encontra a maior parte da população de nosso continente? Já Frédéric Passy, no último Congresso Universal da Paz, em Londres (1890), diz:

Arruinamo-nos para tomar parte nos loucos massacres do futuro, ou para pagar os juros dos débitos para nós deixados pelos loucos e criminosos massacres do passado. E, como dizia recentemente um dos nossos poetas do jornalismo, 'morramos de fome para nos podermos matar'.

Falando mais sobre o modo como esta questão é considerada na França, acrescenta:

Acreditamos que, cem anos após a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, chegou o tempo de reconhecer os direitos das nações e de renunciar para sempre a todas estas façanhas de mentira e violência que, sob o nome de conquistas, são verdadeiros crimes de lesa-humanidade e que, não obstante o que pensam a ambição dos soberanos e o orgulho dos povos, debilitam até aqueles que triunfam.

Já Sir Wilfred Landon diz no mesmo congresso: A educação religiosa do nosso país surpreende-me. O rapaz vai à escola dominical e lhe dizem: "Meu caro rapaz, deves amar os teus inimigos. Se um companheiro te bate, não te deves vingar, mas sim procurar reconduzi-lo, pela suavidade, a melhores sentimentos." Muito bem. O rapaz freqüenta a escola dominical até os 14 ou 15 anos; depois os seus amigos fazem-no entrar para o exército. O que acontecerá? Ele deve, não amar o inimigo, mas, ao contrário, transpassá-lo com sua baioneta tão logo o encontre. Assim é a instrução religiosa neste país. Não creio que seja esta a melhor maneira de obedecer aos mandamentos da religião. jCreio que, se é bom para um rapaz amar seu inimigo, também é bom para um adulto...

E F. Wilson: Existem na Europa 28 milhões de pessoas armadas para resolver as questões não pelo debate, mas pelo massacre. Esta é a rma de discutir, em uso, nas nações cristãs. Esta forma é, ao, ?smo tempo, muito dispendiosa, porque, segundo as estatísticas, por mim consultadas, as nações da Europa gastaram, de |1872] até hoje, a inacreditável soma de sessenta bilhões, unica-í mente para preparar a solução de suas questões por meio do mas4 sacre recíproco. Parece-me então que, nesta ordem de idéias, sê deva aceitar um dos dois finais para este dilema: ou o cristianis-j mo não deu certo (is afailure), ou aqueles que assumiram a mis-« são de interpretá-lo compreenderam-no mal. Até que nossosj encouraçados sejam desarmados e nossos exércitos dispensados,} não teremos o direito de nos chamar uma nação cristã.

Numa conversa a respeito da obrigação, para os pastores cristãos, da propaganda contra a guerra, G. D. Bartlett disse, entre outras coisas: Se compreendo um pouco a Sagrada Escritura, afirmo que os homens não fazem outra coisa senão fingir sua fé no cristianismo, não levando em consideração a guerra. Entretanto, durante toda a minha existência, ouvi apenas meia dúzia de vezes nossos pastores pregarem a paz universal. Eu disse, há vinte anos, que a guerra é inconciliável com o cristianismo. Mas consideraram-me um fanático insensato. A idéia de que se possa viver sem guerra foi acolhida como uma imperdoável fraqueza, uma loucura.

O padre católico Defourny exprimiu-se no mesmo sentido: Um dos primeiros preceitos da lei eterna, resplandecente na consciência dos homens, é o que proíbe tirar a vida ao próprio semelhante, espalhar o sangue humano sem causa justa, ou sem ser obrigado pela necessidade. É um dos preceitos mais profundamente impressos no coração do homem... Mas, tratando-se da guerra, isto é, do derramamento de torrentes de sangue humano, os homens de hoje não mais se importam com a justa causa. Os que dela tomam parte não mais pensam em se perguntar se estas inúmeras mortes são ou não justificáveis, ou seja, se as guerras, ou aquilo que se entende por este nome, sejam justas ou iníquas, legais ou ilegais, lícitas ou criminosas; se, ao manejar o fogo que consome os bens e a arma que destrói as vidas humanas, eles violam ou não a lei primordial que proíbe o homicídio, a matança, o saque e o incêndio sem justa causa. Sua consciência emudece quanto a isto... A guerra deixou de ser, para eles, um ato dependente da moral. Eles não têm outra alegria, nas fadigas e nos perigos dos campos, além de serem vencidos...

Muito tempo transcorreu desde que um génio poderoso vos disse essas palavras que se tornaram proverbiais: "Tirai a justiça, o que são os impérios, além de vastas sociedades de bandidos?" E as companhias de bandidos não são também estes pequenos impérios? Até os bandidos possuem certas leis ou convenções que os regem. Eles também se batem pela conquista da presa ou pelo ponto de honra da quadrilha... Assim, senhores, vos peço em grande confiança que adoteis o princípio da instituição proposta (trata-se da instituição de um tribunal de arbítrio internacional) a fim de que as nações européias deixem de ser nações de ladrões, e os exércitos quadrilhas de bandidos e piratas; devo acrescentar: de escravos... Os exércitos são rebanhos de escravos, escravos de um ou dois governantes, de um ou dois ministros, que deles dispõem tiranicamente, sem qualquer outra garantia além de uma responsabilidade puramente nominal, como bem sabemos... O que caracteriza o escravo é que ele está nas mãos do seu patrão, como uma coisa, um utensílio, e não mais um homem. Assim acontece com o soldado, com o oficial, com o general, que marcham para o sangue e o fogo sem pensamento de justiça, pela vontade arbitrária dos ministros nas condições expostas. Assim existe a escravidão militar, e é a pior das escravidões, sobretudo hoje que põe, com o recrutamento, a corrente no pescoço de todos os homens livres e fortes da nação para deles fazer instrumentos de morte, homicidas por profissão, açougueiros de carne humana, porque este é o único opusservile em previsão do qual são acorrentados e adestrados.

Os governantes, em número de dois ou três, pouco mais ou pouco menos, reunidos num gabinete secreto, deliberando sem registros e sem processo verbal destinado à publicidade, falando sem responsabilidade possível... poderiam talvez ordenar assim massacres se a consciência não fosse apagada? Também diz E.T. Moneta: Os protestos contra os armamentos desastrosos para o povo não começaram em nossos tempos. Ouvi o que escreveu Mon-tesquieu em sua época: "A França (hoje poder-se-ia dizer a Europa) perecerá devido ao militarismo. Uma nova doença espalhou-se pela Europa. Atacou os reis e obriga-os a manter inúmeros exércitos. Esta doença é infecciosa e, em conseqüência, contagiosa, porque tão logo um estado aumenta o seu exército, os outros fazem o mesmo. De modo que não resulta senão na perda de todos. Cada governo mantém tantos soldados quantos poderia manter se seu povo fosse ameaçado de extermínio; e os homens chamam paz a este estado de tensão de todos contra todos. Por isso a Europa está tão arruinada que, se os desprovidos estivessem na situação dos governos deste lado do mundo, os mais ricos entre eles não teriam do que viver. Somos pobres, possuindo as riquezas e o comércio do mundo inteiro!"

Isto foi escrito há quase 150 anos. O quadro parece ter sido feito hoje. Só o regime governamental mudou. Ao tempo de Montesquieu dizia-se que a causa da manutenção dos exércitos numerosos estava no absolutismo dos reis que guerreavam na esperança de aumentar, através das conquistas, suas propriedades privadas e sua glória.

Evidentemente a loucura dos soberanos tomou conta das classes dirigentes. Agora não mais se guerreia porque um rei foi descortês com a amante de um outro, como aconteceu na época de Luís XIV. Porém, exagerando o sentimento honrado e natural de dignidade nacional e do patriotismo, e exacerbando a opinião pública de uma nação contra outra, chega-se ao ponto em que bastou dizer-se (embora a notícia fosse inexata) que o embaixador de nosso país não foi recebido pelo chefe de outro Estado, para que explodisse a mais terrível e mais assustadora guerra. A Europa mantém agora em armas mais soldados do que durante as grandes guerras de Napoleão.

Todos os cidadãos, salvo raras exceções, são obrigados, em nosso continente, a passar inúmeros anos de suas vidas nos quartéis. Constroem-se fortalezas, arsenais, navios; fabricam-se continuamente armas que serão, em pouquíssimo tempo, substituídas por outras, porque a ciência, que deveria ter sempre como alvo o bem da humanidade, concorre desgraçadamente para a obra da destruição e sem cessar inventa novos meios de matar grandes quantidades de homens, no menor tempo possível.

E, para manter tantos soldados e fazer tão grandes preparativos de carnificina, gastam-se a cada ano centenas de milhões, ou seja, somas que bastariam para a educação do povo e a realização dos mais grandiosos trabalhos de utilidade pública e que gerariam a possibilidade de resolver pacificamente a questão social.

A Europa, por conseguinte, encontra-se, neste aspecto, não obstante todas as nossas conquistas científicas, na mesma situação em que se encontrava nos piores e mais bárbaros dias da Idade Média. Todos se queixam deste estado que não é nem a guerra, nem a paz, e dele todos gostariam de sair. Os chefes de diversos Estados afirmam desejar a paz, e competem para fazer, solenemente, declarações as mais pacíficas. Mas, no mesmo dia, ou no seguinte, apresentam aos parlamentares projeto de lei para o aumento dos efetivos, dizendo tomarem medidas preventivas, pre- cisamente com o fim de garantir a paz.

Mas esta não é a paz que preferimos, e as nações não se iludem. A verdadeira paz baseia-se na confiança recíproca, enquanto estes formidáveis armamentos revelam entre os Estados senão uma hostilidade declarada, ao menos uma desconfiança oculta. O que diremos de um homem que, querendo demonstrar seus sentimentos amigáveis a seu vizinho, o convidasse a examinar as questões que os dividem, com o revólver na mão? E é esta flagrante contradição entre as declarações pacíficas e a política militar dos governos que todos os bons cidadãos gostariam de fazer cessar a qualquer custo.

As pessoas surpreendem-se que sessenta mil suicídios ocorram a cada ano na Europa, e esta cifra contém somente os casos conhecidos e registrados, excetuadas a Rússia e a Turquia. Seria antes preciso supreender-se por ocorrerem tão poucos. Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. Sem falar de todas as outras contradições entre a vida real e a cpnsciência que preenchem a existência do homem moderno, bastaria esse estado de paz permanente e sua religião cristã, para que o homem, desesperado, duvidasse da razão humana e renunciasse à vida num mundo tão in- sensato e bárbaro. Esta contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver dela participando só é possível caso nela não pensemos, caso a esqueçamos. Mas como! Todos nós, cristãos, não só professamos o amor ao próximo, como também vivemos realmente uma vida comum, uma vida cujo pulso bate num só movimento; ajudando-nos mutuamente, ensinamos uns aos outros cada vez mais, para a felicidade comum, aproximamo-nos uns dos outros com amor! — e nesta aproximação está o sentido da vida —, para amanhã algum chefe de Estado, fora de si, dizer uma tolice qualquer a que um outro responderá com uma outra tolice, e iremos nos expor à morte e matar homens que não só nada nos fizeram, mas que amamos! — E esta não é uma probabilidade longínqua, mas uma inevitável certeza, para a qual todos nos preparamos.

Basta, de modo claro, ter consciência para enlouquecer ou suicidar-se. E é isto o que acontece, sobretudo entre os militares.

Basta voltar a si por um momento para sermos reduzidos à necessidade de um tal fim.

Só estas razões podem explicar a intensidade terrível com a qual o homem moderno procura embrutecer-se com o vinho, o fumo, o ópio, o jogo, a leitura dos jornais, com viagens e com toda a espécie de prazeres e espetáculos. As pessoas abandonam-se a isso como a uma ocupação séria e importante, e de fato assim é. Se não houvesse um meio externo de embrutecimento, a metade do gênero humano far- se-ia explodir imediatamente o cérebro, porque viver em contradição com a própria razão é a situação mais intolerável. E todos os homens de nosso tempo encontram-se nesta situação; todos vivem numa contradição constante e flagrante entre sua cons- ciência e sua vida. Estas contradições são econômicas e poéticas, mas a mais notável está na consciência da lei cristã da fraternidade dos homens e, ao mesmo tempo, da necessidade que aos homens impõe o serviço militar obrigatório, a necessidade de ser preparado para o ódio, para a matança, de ser ao mesmo tempo cristão e gladiador.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14 avançar
Sobre o Portal | Politica de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal