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O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

CAPÍTULO VI

Os homens de nossa sociedade e a guerra

A solução das contradições entre a vida e a consciência é possível de duas maneiras. Mudar a vida ou mudar a consciência. E não parece que possa existir dúvida na escolha.

O homem pode deixar de fazer aquilo que considere ruim, mas não pode deixar de achar ruim aquilo que é ruim.

Da mesma forma, toda a humanidade pode deixar de fazer aquilo que acha ruim, mas não pode não só mudar, mas nem mesmo deter por um momento o progresso da consciência, cada dia mais lúcida e mais difundida, do que é ruim e, portanto, não deve existir. Por isso parece inevitável, para a humanidade cristã de nosso tempo, a necessidade de renegar as formas pagãs que condena e de tomar como base de sua vida os princípios cristãos que reconhece.

Assim seria se não existisse a lei da inércia, imutável, tanto na vida dos homens e dos povos, como nos objetos inanimados, e que se exprime nos homens pela lei psicológica tão bem formulada nas palavras do Evangelho: "E eles não caminharam para a luz, porque suas ações eram más." Esta lei existe devido ao que se segue: que a maior parte dos homens não pensa com a finalidade de conhecer a verdade; mas para persuadir-se de que vivem na verdade; para convencer-se de que a vida que vivem, acham agradável e à qual estão habituados é precisamente aquela que se harmoniza com a verdade.

A escravidão foi contrária a todos os princípios morais que pregavam Platão e Aristóteles, no entanto, nem um nem outro perceberam que a supressão da escravidão teria destruído todas as regras da vida à qual estavam acostumados. E o mesmo acontece em nossos tempos.

A divisão dos homens em duas castas, como também a violência política e militar, é contrária a todos os princípios morais que nossa sociedade professa, entretanto os homens cultos de sua vanguarda não parecem percebê-lo.

Os homens modernos, cultos, senão todos, ao menos em sua maioria, esforçam-se inconscientemente para reter o antigo conceito social da vida, que justifica sua posição, escondendo de si mesmo e dos outros a insuficiência deste conceito e, sobretudo, ocultando a necessidade de adotar o conceito cristão que destrói toda a ordem atual das coisas. Procuram manter o regime fundado no conceito social de vida, em que nem eles mesmos acreditam, porque isto é antigo e não se pode mais acreditar.

Toda a literatura filosófica, política e artística de nosso tempo é característica, neste ponto. Que riquezas de idéias, de formas, de cores! Que erudição e que arte e, ao mesmo tempo, que ausência de teses sérias, que timidez diante da expressão de cada pensamento exato! Das sutilezas, das alegorias, das brincadeiras, os conceitos mais vastos, e nada de simples, de preciso, que se refira ao assunto tratado, ou seja, a questão da vida. E mais: escrevem-se e contam-se futilidades graciosas ou francas impudicícias, divulgam-se embustes, sustentam-se os paradoxos mais refinados, que reconduzem o homem à selvageria primitiva, aos princípios da vida não só pagã, mas também animal, pela qual passamos há cinco mil anos.

Aliás, não pode ser de outro modo. Dando as costas ao conceito cristão da vida que destrói a ordem apenas habitual para uns, habitual e vantajosa para outros, os homens não podem deixar de voltar ao conceito pagão e às doutrinas que dele derivam. Em nossos tempos prega-se não só o patriotismo e o aristocrafismo, como há dois mil anos, mas também o mais rude epicurismo, a bestialidade, com uma só diferença: os homens que outrora pregavam assim acreditavam, enquanto hoje os pregadores não acreditam no que dizem, e não podem acreditar, porque não faz mais sentido. Não se pode estar parado num lugar, quando o século se move: se não se vai adiante, volta-se atrás e — coisa estranha e terrível! — os homens cultos de nosso tempo, aqueles que caminham na vanguarda, com seus raciocínios especiais, arrastam para trás a sociedade, não para o estado pagão, mas para o estado das primitivas barbáries.

Não podem ser mais bem reveladas estas tendências dos homens cultos de nosso tempo do que por sua atitude em presença do fenômeno pelo qual manifestou- se a insuficiência do conceito social da vida: a guerra, o armamento geral e o serviço militar obrigatório.

A falta de clareza — a menos que haja boa-fé — na atitude dos homens cultos em presença deste fenômeno é surpreendente. Esta atitude manifesta-se de três maneiras: uns consideram este fenômeno como algo ocasional, produto da situação política da Europa, e suscetível de ser melhorado sem mudanças na ordem interna da vida dos povos, mas por meio de simples medidas externas, internacionais e diplomáticas; outros vêem este fenômeno como algo terrível e atroz, mas inevitável e fatal como a doença ou a morte; outros ainda encaram a guerra com tranqüilidade e sangue-frio, como um fenômeno necessário, benéfico e, portanto, desejável.

Os homens tratam deste assunto de diversas formas, mas uns e outros falam de guerra como de um acontecimento que na verdade não depende da vontade dos homens, que, contudo, dela participam, e, sendo assim, não admitem a pergunta que se apresenta naturalmente a qualquer pessoa que conserva o próprio bom-senso: devo nisto tomar parte? Em sua opinião, este gênero de questões não existe e cada homem, qualquer que seja sua opinião pessoal sobre a guerra, deve sutil-mente submeter-se às exigências do poder.

A atitude dos primeiros, dos que crêem na possibilidade de evitar a guerra com medidas internacionais e diplomáticas, está bem clara nas resoluções do último Congresso Universal da Paz, em Londres, em 1892, e nos artigos e cartas escritos sobre a guerra por escritores célebres e reunidos no número 8 da Revista das Revistas, de 1891. Eis os resultados do Congresso: havendo reunido de todos os pontos do globo as opiniões verbais ou escritas dos doutos, o Congresso em seus trabalhos, iniciados com um serviço religioso na catedral e encerrados com um banquete seguido de diversos brindes, escutou durante cinco dias inúmeros discursos e chegou às seguintes resoluções:

1. O Congresso afirma que a fraternidade entre os homens implica, como conseqüência necessária, uma fraternidade entre as nações, na qual os verdadeiros interesses de cada uma sejam reconhecidos idênticos. O Congresso está convencido de que a verdadeira base de uma paz durável consiste na aplicação deste grande princípio por parte dos povos, em todas as suas relações mútuas.

2. O Congresso reconhece a importante influência que o cristianismo exerce sobre o progresso moral e político da humanidade, e recorda, com insistência, aos ministros do Evangelho e as outras pessoas que se ocupam da educação religiosa a necessidade de difundir estes princípios de paz e de boa vontade, que são a base dos ensinamentos de Jesus Cristo, dos filósofos e dos moralistas; e o Congresso recomenda que a cada ano seja escolhido o terceiro domingo do mês de dezembro para ser feita uma especial propagação destes princípios.

3. O Congresso emite a opinião de que os professores de História deveriam chamar a atenção dos jovens sobre os terríveis males infligidos à humanidade em todos os tempos de guerra e sobre o fato de que quase todas as guerras foram provocadas, em geral, por razões absolutamente insignificantes.

4. O Congresso protesta contra o uso dos exercícios militares, dados como exercícios físicos nas escolas, e sugere a formação de brigadas de salvamento, em vez das que possuam um ca-ráter quase militar. E insiste sobre a utilidade de inculcar às comissões de examinadores encarregados de formular as perguntas para os exames a necessidade de dirigir a inteligência dos jovens para princípios da Paz.

5. O Congresso é de opinião que a doutrina dos direitos imprescritíveis do homem exige que as raças indígenas e fracas sejam defendidas, em seus territórios, em sua liberdade e em suas propriedades, contra qualquer injustiça e qualquer abuso quando em contato com povos civis, e que sejam protegidas dos vícios tão predominantes nas nações ditas adiantadas. Afirma, além disto, a convicção de que as nações deveriam agir de acordo para alcançar este objetivo.

O Congresso deseja exprimir seu cordial apreço pelas conclusões da Conferência Antiescravagista, recém-realizada em Bruxelas, quanto à melhoria do estado das populações africanas.

6. O Congresso está convencido de que os prejuízos militares e as tradições ainda profundamente enraizadas em certas nações, como as exageradas declarações que fazem, nas assembléias legislativas e nos órgãos de imprensa, certos condutores da opinião pública, são com muita freqüência a causa indireta das guerras. O Congresso faz então votos para que sejam eliminados estes erros, publicando-se fatos exatos e informações que dissipem os mal-entendidos que se infiltram por entre as nações. O Congresso recomenda também à Conferência Interparlamentar que examine atentamente a conveniência de ser criado um jornal internacional, destinado a corresponder às necessidades acima expressas.

7. O Congresso propõe à Conferência Interparlamentar que aconselha seus membros à defesa, frente a seus respectivos Parlamentos, dos projetos de unificação dos pesos e medidas, das moedas, das diversas tarifas, dos regulamentos postais e telegráficos, dos meios de transporte etc, devendo esta unificação constituir uma verdadeira união comercial, industrial e científica dos povos.

8. O Congresso, considerando a enorme influência moral e social da mulher, conclama cada uma, como esposa, mãe, irmã, cidadã, a encorajar tudo o que tende a assegurar a Paz, porque, de outra forma, ela incorre em grande responsabilidade pela continuação do Estado de guerra e de militarismo, que não só aflige como também corrompe a vida das nações. Para concentrar e apli- car esta influência de forma prática, o Congresso convida as mulheres a se unirem^ às sociedades para a propaganda da Paz universal.

9. O Congresso exprime a esperança de que a Associação pela Reforma Financeira e outras sociedades do gênero, na Europa e na América, se unam para convocar em futuro próximo uma Conferência que examine os melhores meios aptos a estabelecer relações comerciais equitativas entre os Estados, com a redução das taxas de importação, como um primeiro passo para o câmbio livre. O Congresso acredita poder afirmar que, mantendo a recíproca confiança, o mundo civil deseja a Paz, e espera com impaciência o momento de ver cessar os armamentos que, construídos a título de defesa, tornam-se por sua vez um perigo, e são simultaneamente a causa do mal-estar econômico geral que impede a discussão, em condições satisfatórias, das questões que deveriam vir à frente de todas as outras, as do trabalho e da miséria.

10. O Congresso, reconhecendo que o desarmamento geral seria a melhor garantia da Paz e conduziria à resolução, do ponto de vista dos interesses gerais, das questões que agora dividem os Estados, emite o voto de que um congresso de representantes de todos os Estados da Europa seja reunido o mais depressa possível, para providenciar os meios de efetuar o desarmamento gradual geral, que já se vislumbra como possível.

11. O Congresso, visto que a timidez de um só governo poderia bastar para retardar indefinidamente a convocação do congresso acima mencionado, é de parecer que o governo que primeiro decidir mandar de volta ao lar um número considerável de soldados terá rendido um dos maiores serviços à Europa e à humanidade, porque obrigará os outros governos, sensibilizados pela opinião pública, a seguir seu exemplo e, com a força moral deste fato consumado, terá aumentado, ao invés de diminuir, as condições de sua defesa nacional.

12. O Congresso, considerando que a questão do desarmamento, como da Paz em geral, depende da opinião pública, recomenda às sociedades da Paz, aqui representadas, e também a todos os amigos da Paz, que se dediquem a uma propaganda ativa junto ao público, especialmente durante os períodos de eleições parlamentares, a fim de que os eleitores dêem seus votos aos can- didatos que terão como parte de seu programa a Paz, o Desarmamento e a Arbitragem.

13. O Congresso congratula-se com os amigos da Paz pela resolução adotada na Conferência Americana Internacional (ex-ceto os representantes do México), em Washington, no último mês de abril, na qual foi aconselhado que a Arbitragem se torne obrigatória em todas as contestações relacionadas com privilégios diplomáticos e consulares, fronteiras ou limites, territórios, indenização, direitos de navegação, ou concernentes à validade, à estipulação e à execução dos tratados e, em todos os outros casos, quaisquer que sejam a origem, a natureza e a ocasião, exceto aqueles que, segundo o parecer de qualquer nação, parte interessada na controvérsia, poderiam colocar em perigo a independência desta nação.

14. O Congresso respeitosamente recomenda esta resolução à atenção dos homens de Estado da Europa e da América e exprime o ardente desejo de que tratados feitos em termos análogos sejam prontamente assinados pelas outras nações do mundo, de modo a prevenir qualquer causa de conflitos futuros entre eles e, ao mesmo tempo, para servir como exemplo aos outros Estados.

15.0 Congresso exprime sua satisfação pela adoção, por parte do Senado espanhol, no dia 16 de junho passado, de um proje-to de lei que autoriza o governo a concluir tratados gerais ou especiais de Arbitragem, para a regulamentação de qualquer contenda, exceto as que se referem à independência ou administração interna dos Estados em litígio. Exprime também sua satisfação pela adoção de resoluções visando ao mesmo objetivo por parte do Storthing norueguês no dia 6 de março passado e por parte da Câmara italiana a 11 de julho corrente.

16.0 Congresso pede que se forme um Comité de cinco membros para preparar, em seu nome, uma mensagem ou comunicado às principais instituições religiosas, políticas, comerciais, do trabalho e da Paz, de todas as nações civis, para pedir-lhes que enviem petições aos governos de seus respectivos países solicitando que tomem as medidas necessárias à constituição de tribunais convenientes, chamados a solverem as questões internacionais, e assim evitarem recorrer à guerra.

17. Considerando: 1 ? que o fim ao qual aspiram todas as sociedades da Paz é a consolidação da ordem jurídica entre as nações; 2? que a neutralização garantida em tratados internacionais constitui um preparo para este Estado jurídico e diminui o número de lugares onde a guerra poderá ser feita; o Congresso recomenda uma extensão sempre maior do regime de neutralização; e expressa em primeiro lugar que todos os tratados, que hoje asseguram a certos estados as vantagens da neutralidade, permaneçam em vigor, ou, sendo o caso, sejam modificados de modo que garantam a neutralidade mais efetiva, seja estendendo a neutralização à totalidade do Estado do qual apenas uma parte seja neutra, seja ordenando a demolição de fortalezas que constituem mais um perigo do que uma garantia de neutralidade; em segundo, que novos tratados, contanto que sejam conforme à vontade das populações às quais se referem, sejam concluídos, para estabelecer a neutralidade de outros Estados.

18. A sessão do Comité propôs:

I. Que as ulteriores reuniões do Congresso da Paz sejam fixadas antes da mesma reunião da Conferência Internacional anual, ou logo após, e na mesma cidade; II. Que a questão da escolha do emblema internacional da Paz seja adiada para data indeterminada; III. Que sejam tomadas as seguintes resoluções: a. Encaminhar testemunho de satisfação à igreja presbiteriana dos Estados Unidos por sua proposta oficial aos representantes superiores de cada sociedade religiosa de fé cristã, para que se reunam a fim de examinar, em comum, os meios adequados para substituir a guerra por uma Arbitragem internacional; b. Encaminhar, em nome do Congresso, homenagem à memória de Aurélio Saffi, o grande jurista italiano, membro do comité da Liga Internacional da Paz e da Liberdade; IV. Que os atos do Congresso, assinados pelo presidente, sejam transmitidos, na medida do possível, aos chefes de todos os países civis, por delegações autorizadas; V. Que o comité de organização seja autorizado a fazer as necessárias correções nos documentos e processos verbais adotados; VI. Que sejam tomadas também as seguintes resoluções: a. Exprimir o reconhecimento do Congresso aos presidentes de suas diversas sessões; b. Ao presidente, aos secretários e aos membros de seu gabinete; c. Aos membros de suas diferentes sessões; d. Ao reverendo Scott Holland, ao reverendo doutor Ruen Thomas e ao reverendo S. Morgan Gibbon por seus discursos antes da abertura do Congresso, como também ao clero da catedral de São Paulo, de City Temple e da igreja de Stamford Hill, por haver emprestado ao Congresso este edifício.e. De apresentar carta de reconhecimento a Sua Majestade, por haver autorizado aos membros do Congresso a visita ao palácio de Windsor; f. De igualmente agradecer ao lord mayor e sua esposa, como ao senhor Passamore Edwards e às outras pessoas que concederam sua hospitalidade aos membros do Congresso.

O Congresso exprime seu reconhecimento a Deus, pelo notável acordo que não deixou de reinar, durante as sessões, entre tantos homens e tantas mulheres de nacionalidades e credos diferentes, reunidos num esforço comum, para o final feliz dos trabalhos dos congressistas.

O Congresso exprime sua firme e tenaz confiança no triunfo final da Paz e nos princípios defendidos em suas sessões.

A idéia fundamental do Congresso foi a necessidade: em primeiro lugar, de propagar entre os homens, por todos os meios, a convicção de que a guerra é absolutamente contrária a seu interesse e de que a paz é um grande benefício; em segundo lugar, de agir sobre os governos para demonstrar-lhes as vantagens que oferecem, em comparação com as guerras, os tribunais de arbitragem e, então, o interesse e a necessidade do desarmamento.

Para atingir o primeiro objetivo, o Congresso dirigiu-se aos professores de História, às mulheres e ao clero, e aconselha-os a consagrar o terceiro domingo do mês de dezembro à pregação contra os males da guerra e a favor dos benefícios da paz. Para atingir o segundo objetivo, o Congresso dirigiu-se aos governos e propôs-lhes o desarmamento e a substituição da guerra pela ar- bitragem.

Pregar aos homens os males da guerra e os benefícios da paz! Mas eles conhecem tão bem estes males e estes benefícios que, desde que existem, o melhor augúrio sempre foi: A paz esteja convosco! Não só os cristãos, mas também todos os pagãos, há milhares de anos, conhecem os males da guerra e os benefícios da paz.

O cristão não pode deixar de pregá-los a cada dia de sua vida; e se os cristãos e os padres do cristianismo não o fazem, não é sem razão; e não o farão até que as razões já expostas não sejam afastadas. O conselho dado aos governos para dispensar seus exércitos e substituí-los pela arbitragem internacional é ainda mais útil. Os governos não ignoram as dificuldades que apresentam o recrutamento e a manutenção das tropas; se, então, eles as orga- nizam e as mantêm sob as armas à custa de inauditos esforços, é porque, evidentemente, não podem fazer de outro modo, e os conselhos do Congresso não mudarão essa situação. Mas os doutos não querem perceber este fato e esperam sempre encontrar uma combinação que obrigue os governos a reduzir por si mesmos seu próprio poder.

"Pode-se exorcizar a guerra?" —- escreve um douto na Revista das Revistas. E continua: Todos estão de acordo ao reconhecer que, acaso ela venha a eclodir na Europa, suas conseqüências serão talvez iguais às das grandes invasões. Comprometerá até mesmo a própria existência das nações e, por conseguinte, será sanguinolenta, implacável, atroz.

Assim, esta contradição, unida às dos terríveis instrumentos de destruição de que dispõe a Ciência moderna, talvez retarde a declaração e mantenha as coisas num estado que poderia ser levado a limites indefinidos, não fossem os enormes pesos que oprimem as nações européias e ameaçam, ao se prolongarem, conduzir a ruínas e desastres não maiores do que os produzidos pela própria guerra.

Atingidos por estas idéias, pessoas de todos os países procuraram meios práticos para deter ou, ao menos, atenuar os efeitos das espantosas carnificinas cuja ameaça paira sobre nossas cabeças.

Tais são as questões, colocadas na ordem do dia da próxima abertura do Congresso Universal da Paz em Roma, publicação de um recente opúsculo sobre o Desarmamento.

Infelizmente, é também certo que, com a organização atual da maior parte dos Estados modernos, isolados uns dos outros, e guiados por interesses diversos, a supressão absoluta da guerra é uma ilusão na qual seria perigoso deixar-se levar. Porém, algumas leis ou alguns regulamentos mais sábios impostos aos duelos entre as nações teriam, ao menos, o resultado de circunscrever os erros.

É, ainda, bastante quimérico contar com os projetos de desarmamento, cuja execução se torna quase impossível considerar sob um caráter popular, presentes no espírito de nossos leitores. A opinião pública não está preparada para aceitá-los e, por outro lado, as ligações internacionais estabelecidas entre os diversos povos são tais que impossibilitam esta aceitação. Um desarmamento imposto por um povo a um outro em condições perigosas para a sua segurança equivaleria a uma declaração de guerra.

Todavia, pode-se admitir que uma troca de idéias entre os povos interessados ajudará, de certo modo, o acordo internacional indispensável a essa transação, e tornará possível uma sensível redução das despesas militares que oprimem as nações européias, com graves danos das soluções sociais, cuja necessidade, entretanto, impõe-se a cada uma delas, individualmente, sob pena de ter, internamente, a guerra evitada no exterior.

Pode-se ao menos pedir a redução das enormes despesas que resultam da atual organização da guerra, com o fim de invadir um território em 24 horas e travar uma batalha decisiva na semana seguinte à sua declaração.

É preciso agir de tal modo que os Estados não se possam atacar entre si e, em 24 horas, apoderar-se de terras estrangeiras.

Esta idéia prática foi expressa por Maxime du Camp e forma a conclusão do seu artigo.

As propostas de Maxime du Camp são as seguintes: 1 — Um congresso diplomático, em que estejam representadas as diversas potências, reunir-se-á a cada ano, em data e durante um tempo determinado, para examinar a situação dos povos entre si, para amainar as dificuldades e servir de árbitro em caso de conflito latente; 2 — Nenhuma guerra poderá ser declarada antes de dois meses depois do incidente que a terá provocado. No intervalo, o dever dos neutros será propor uma arbitragem; 3 — Nenhuma guerra será declarada antes de ser submetida, por plebiscito, à aprovação das nações que se preparam para ser beligerantes; 4 — As hostilidades não poderão ser abertas senão um mês após a declaração oficial de guerra.

Mas quem poderia impedir que as hostilidades começassem? Quem obrigará os homens a fazer isto ou aquilo? Quem forçará os governos a esperar os períodos fixados? — Todos os outros Estados. Mas todos os outros Estados são também potências, as quais é preciso moderar e forçar. E quem forçaria e como? — A opinião pública. Mas, se existe uma opinião pública que pode forçar a potência a respeitar os períodos fixados, a mesma opinião pública pode forçar a potência a de fato não declarar a guerra.

Mas, objeta-se, é possível obter tal ponderação de forças, que impeça as potências de sair da reserva. Isto já não foi, talvez, tentado e não o é ainda? A Santa Aliança não era senão isto, a Liga da Paz não é outra coisa etc. etc.

Mas, se todos entram em acordo?, responde-se. Se todos entram em acordo, a guerra não mais existirá e todos os tribunais de arbitragem tornam-se inúteis.

"O Tribunal de Arbitragem! A arbitragem substituirá a guerra. As questões serão resolvidas pela arbitragem. A questão Alabama* foi resolvida por um tribunal de arbitragem, a das Ilhas Carolinas foi submetida à arbitragem do papa. A Suíça, a Bélgica, a Dinamarca, a Holanda, todas declararam preferir a arbitragem à guerra." *Litígio entre Estados Unidos e Grã-Bretanha, durante a Guerra de Secessão, provocado pelo navio-pirata Alabama, que foi arbitrado por um tribunal internacional em Genebra, contra a GrãcBretanha, obrigando-a a uma indenização de 15.500.000 dólares em favor dos Estados Unidos. (N. do E.)

Estou convencido de que também Mónaco expressou o mesmo desejo.

Falta apenas uma pequena coisa, que é esta: que nem a Alemanha, nem a Rússia, nem a Áustria, nem a França fizeram até agora a mesma declaração.

Como os homens zombam facilmente de si mesmos quando têm interesse! Os governos consentiram em resolver suas discórdias com a arbitragem e a dispensar seus exércitos.

As contestações entre a Rússia e a Polónia, entre a Inglaterra e a Irlanda, entre a Áustria e a Boémia, entre a Turquia e os Eslavos, entre a França e a Alemanha serão amainadas por meio de conciliação, amigavelmente.

Seria, nem mais nem menos, como se fosse proposto aos negociantes e aos banqueiros que nada vendessem acima do preço de compra, que se ocupassem sem benefício da distribuição de riquezas e que suprimissem o dinheiro, tornado inútil.

Mas, como o comércio e as operações bancárias consistem unicamente em venda mais cara do que o preço de compra, esta proposta equivaleria a um convite de suicídio. Assim é para os governos. A proposta de não usar a força, mas resolver seus mal-entendidos com justiça, é um conselho de suicídio. É pouco provável que consintam.

Os cientistas se grupam em sociedades (destas existem mais de cem), em congressos (ocorreram recentemente em Paris, em Londres, em Ruão); pronunciam discursos, se reúnem em banquetes, fazem brindes, publicam revistas e assim demonstram por todos os meios que os povos, obrigados a manter milhões de homens no exército, não aguentam mais e que estes armamentos estão em oposição ao progresso, aos interesses e aos desejos das populações; mas que, sujando muito papel, gastando muitas palavras, poder-se-ia colocar todos os homens de acordo e fazer com que não tenham mais interesses opostos, e então, que não haja mais guerra.

Quando eu era criança, fizeram-me crer que, para capturar um pássaro, bastava colocar-lhe um grão de sal na cauda. Tentei então aproximar-me de um pássaro com o sal, mas logo me convenci de que se eu tivesse podido colocar-lhe sal na cauda, ter-me-ia sido igualmente fácil pegá-lo, e compreendi que me haviam enganado.

Os homens que lêem os artigos e livros sobre arbitragem e desarmamento devem também perceber que alguém está zombando deles.

Se é possível colocar um grão de sal na cauda de um pássaro, é porque ele não voa e é fácil capturá-lo. Se tem asas e não quer ser preso, não deixa que lhe ponham sal na cauda, que a qualidade própria do pássaro é voar. Do mesmo modo, a qualidade própria do governo é comandar e não obedecer. Sempre tende a isso e nunca abandonará o poder voluntariamente. Ora, já que o poder lhe é dado pelo exército, ele nunca renunciará ao exército e a sua razão de ser — a guerra.

Daí o erro: doutos juristas — enganando-se e enganando os outros — afirmam em seus livros que o governo não é o que é: uma reunião de homens que exploram os outros, mas, segundo a ciência, a representação do conjunto de cidadãos. Afirmaram- no por tanto tempo que acabaram acreditando eles mesmos; persuadiram-se, assim, que a justiça pode ser obrigatória para os governos. Mas a História demonstra que, de César a Napoleão, e deste a Bismark, o governo é sempre, em sua essência, uma força que viola a justiça e que não pode ser diferente. A justiça não pode ser obrigatória para aquele ou aqueles que dispõem de homens enganados e treinados na violência — os soldados — e que, graças a eles, dominam os outros. Por isso os governos não podem consentir em diminuir o número desses homens treinados e obedientes que constituem toda sua força e influência.

Este é o modo de ver de uma parte dos doutos quanto à contradição que pesa sobre nossa sociedade, e tais são seus meios para resolvê-la. Digam a estes que a solução depende unicamente da atitude pessoal de cada homem em presença da questão moral e religiosa hoje colocada — isto é: a legitimidade ou ilegitimidade do serviço militar obrigatório — estes doutos nada farão além de erguer os ombros e sequer se dignarão a responder.

Não vêem nesta questão senão uma ocasião para pronunciar discursos, publicar livros, nomear presidentes, vice-presi-dentes, secretários; uma ocasião para se reunir ou falar nesta ou naquela cidade. Segundo eles, toda esta tagarelice, escrita ou falada, deve provocar este resultado: os governos deixarão de recrutar soldados, base de sua força, e, seguindo seus conselhos, dispensarão os exércitos e ficarão sem defesas, não só diante deseus vizinhos, como também diante de seus súditos. Seria como uma quadrilha de bandidos que, tendo amarrado fortemente alguns homens desarmados, para roubá-los, se deixassem enternecer por discursos sobre sofrimento causado a suas vítimas pela corda que as amarra, e se apressassem a cortá-la.

Existem, todavia, pessoas que acreditam em tudo isto, que se dedicam aos congressos de paz, pronunciam discursos e escrevem livros: os governos, compreende- se, dão a eles muitas provas de simpatia e fingem encorajá-los, como fingem proteger a sociedade de repressões, enquanto, em sua maioria, vivem apenas graças à embriaguez dos povos; como fingem proteger a instrução, enquanto sua força tem por base precisamente a ignorância; como fingem garantir a liberdade e a constituição, enquanto seu poder mantém-se graças à ausência de liberdade; como fingem cuidar da melhoria da vida dos trabalhadores, enquanto sua existência repousa sobre a opressão do operário; como fingem sustentar o cristianismo, enquanto o cristianismo destrói qualquer governo.

Nossa sociedade incumbe-se da repressão, mas de modo que este cuidado não possa diminuir a embriaguez; da instrução, mas de modo que, longe de destruir a ignorância, não faz senão aumentá-la; da liberdade e da constituição, mas de modo que não se impeça o despotismo; da sorte dos operários, mas de modo que não sejam alforriados da escravidão; do cristianismo, mas do cristianismo oficial que sustenta os governos, em vez de destruí-los.

Existe agora um novo cuidado: a paz.

Os soberanos que hoje se aconselham com seus ministros decidem, apenas por sua vontade, se o grande massacre começará este ano, ou no próximo ano. Sabem muito bem que todos os discursos deste mundo não impedirão, quando assim decidirem, de mandar milhões de homens para o matadouro. Escutam com prazer semelhantes dissertações pacíficas, encorajam-nas e delas participam.

Longe de serem nocivas, estas são, pelo contrário, úteis aos governos, porque desviam a atenção dos povos e os afastam da questão principal, essencial: Deve-se ou não submeter-se à obrigatoriedade do serviço militar? "A Paz será dentro em pouco organizada, graças às alianças, aos congressos, aos livros e aos opúsculos. Neste ínterim, enverguem seus uniformes e fiquem prontos a, por nós, cometer e a sofrer violências", dizem os governos; e os doutos or- ganizadores de congressos e os autores de memórias pela paz aprovam integralmente. Assim agem e assim pensam os cientistas desta primeira categoria. Sua atitude é que mais proveito traz aos governos e portanto a que mais os encoraja.

O ponto de vista de uma segunda categoria é mais trágico. É o dos homens aos quais parece que o amor pela paz e a necessidade da guerra são uma terrível contradição, mas destino do homem. São, em sua maioria, homens de talento, de natureza impressionável, que vêem e compreendem todo o horror, toda a imbecilidade e toda a barbárie da guerra; mas, por uma estranha aberração, não vêem e não procuram nenhuma saída para esta desoladora situação da humanidade, como se deliberadamente quisessem revolver a chaga.

Eis um excelente exemplo, tirado do célebre escritor francês Guy de Maupassant. Observando de seu iate as manobras e os exercícios de tiro dos soldados franceses, ocorreram-lhe as seguintes reflexões:

Quando penso somente nesta palavra guerra, me assalta um desânimo, como se me falassem de bruxaria, de inquisição, de algo longínquo, fundo, abominável, monstruoso, contra a natureza.

Quando se fala de antropófagos, sorrimos com orgulho, proclamando a nossa superioridade sobre aqueles selvagens. Quais são os selvagens, os verdadeiros selvagens? Aqueles que se batem para comer os vencidos ou aqueles que se batem para matar, com o único intuito de matar? Os soldados de infantaria que correm ao longe estão destinados à morte, como o rebanho de carneiros que um açougueiro vislumbra diante de si na estrada. Cairão numa planície, com a cabeça quebrada por um golpe de espada ou com o peito perfurado por uma bala; e são jovens que poderiam trabalhar, produzir, ser úteis. Seus pais são velhos e pobres, e suas mães, que durante vinte anos os amaram, adoraram como adoram as mães, saberão dentro de seis meses, ou talvez de um ano, que seu filho, o menino, o menino grande educado com tanto sacrifício, com tanto dinheiro, com tanto amor, foi jogado numa fossa, como um cachorro, depois de ser estripado por um tiro de canhão e pisoteado, amassado, moído pelas cargas de cavalaria. Por que ma- taram seu filhinho, seu lindo filhinho, sua única esperança, seu orgulho, sua vida? Ela não sabe. Sim, por quê? A guerra!... lutar!... degolar!... massacrar os homens!... e temos hoje, em nosso tempo, com a nossa civilização, com a vastidão da ciência e com o grau de filosofia ao qual o ser humano acredita haver chegado, escolas onde se aprende a matar, e matar a distância, com perfeição, muita gente ao mesmo tempo, a matar pobres diabos de homens inocentes, arrimos de família e sem antecedentes criminais.

E o mais assombroso é que o povo não se volte contra os governos. Que diferença há, então, entre as monarquias e as repúblicas? O mais assombroso é que a sociedade inteira não se rebele contra esta palavra guerra.

Ah! Viveremos sempre sob o peso dos velhos e odiosos costumes dos preconceitos criminosos, das idéias ferozes dos nossos antepassados bárbaros, porque somos bestas e continuaremos bestas que o instinto domina e nada muda. Talvez não houvesse sido condenado ao desterro um outro que não fosse Victor Hugo, quando lançou aquele grito de libertação e de verdade? Hoje, a força chama-se violência e começa a ser julgada; a guerra é posta em cheque. A civilização, por denúncia do gênero humano, instrui o processo e reúne a grande documentação criminal dos conquistadores e dos capitães. Os povos começam a compreender que o engrandecimento criminal de um delito não pode ser a diminuição; que se o ato de matar é um delito, matar muito não pode ser uma circunstância atenuante; que se o ato de roubar é uma vergonha, invadir não pode ser uma glória! Ah! proclamemos estas verdades absolutas, desonremos a guerra! Cóleras vãs, ira de poeta. A guerra é mais venerada do que nunca.

Um hábil artista neste setor, um massacrador talentoso, o senhor Moltke, respondeu um dia, aos delegados da paz, com estas estranhas palavras: "A guerra é santa, instituiu-a Deus; é uma das leis sagradas do mundo; mantém nos homens todos os grandes e nobres sentimentos: a honra, ofcdesinteresse, a virtude, a coragem, e impede-os, numa palavra, de cair no mais horrível materialismo." Assim, reunir-se em rebanhos de quatrocentos mil homens, marchar dia e noite sem repouso, em nada pensar, nada estudar, nada aprender, nada ler, a ninguém ser útil, dormir emporcalhados na lama, viver como brutos em contínuo hebetismo, saquear cidades, incendiar vilarejos, arruinar povos, bater- se então com outra aglomeração de carne humana, cair sobre ela, fazer lagos de sangue, planícies de carne massacrada misturada à terra enlameada e avermelhada por pilhas de cadáveres; ter arrancados braços ou pernas, despedaçado o cérebro sem proveito para ninguém, ou explodir num campo enquanto seus velhos pais, sua mulher e seus filhos morrem de fome: eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo! Os homens de guerra são o flagelo do mundo. Lutamos contra a natureza e a ignorância, contra obstáculos de toda espécie, para tornar menos dura a nossa mísera vida. Existem homens, benfeitores, cientistas, que consomem sua existência a trabalhar, a procurar o que pode ajudar, o que pode socorrer, o que pode servir de alívio a seus irmãos. Continuamente imersos em sua útil tarefa, acumulam descobertas, ampliam os horizontes da mente humana, enriquecem o património da Ciência, dedicam à sua pátria, a cada dia, bem-estar, abundância, força.

Vem a guerra. Em seis meses, os generais destruíram vinte anos de esforços, paciência e génio.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo.

Nós vimos a guerra. Vimos os homens, embrutecidos, fora de si, matar por prazer, por terror, por bravata, por ostentação. Quando o direito não mais existe, quando a lei está morta, quando desaparece qualquer noção de justiça, vimos fuzilar inocentes encontrados pela estrada e transformados em suspeitos porque tinham medo. Vimos matar cães acorrentados defronte às portas de seus patrões, para experimentar revólveres novos; vimos metralhar por prazer vacas deitadas num campo, sem qualquer razão, para tirar as balas dos fuzis, assim, de brincadeira.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo.

Entrar numa aldeia, trucidar o homem que defende sua casa, porque veste uma camisa e não traz na cabeça um quepe, queimar habitações de miseráveis que não têm mais pão, arrebentar móveis, roubar outros, beber o vinho encontrado nas cantinas, violar as mulheres encontradas nas estradas, queimar milhares de liras e deixar atrás de si a miséria e a cólera.

Eis o que sé chama não cair no mais horrível materialismo.

O que fizeram então para dar provas de um pouco de inteligência os homens de guerra? Nada. O que inventaram? Canhões e fuzis. Eis tudo.

O inventor do carrinho de mão não fez mais pelo homem com esta simples e prática idéia de aplicar uma roda a dois bastões do que o inventor das modernas fortificações? O que resta da Grécia? Livros, mármores. Será grande, talvez, porque venceu? Ou porque produziu? Foi a invasão dos persas o que os impediu de cair no mais horrível materialismo? Foram as invasões dos bárbaros que salvaram Roma e a regeneraram? Napoleão I continuou, talvez, o grande movimento intelectual iniciado pelos filósofos no fim do século passado? Pois bem, já que os governos desta forma se atribuem o direito de morte sobre os povos, não é de admirar que os povos se atribuam o direito de morte sobre os governos.

Eles defendem-se. Têm razão. Ninguém tem o direito absoluto de governar os outros. Não se pode fazê-lo senão para o bem daqueles que dirigem. Qualquer governo tem o dever de evitar a guerra, como um capitão de navio tem o de evitar o naufrágio.

Quando um capitão perde sua embarcação, é julgado e condenado, se reconhecido culpado de negligência ou mesmo de incapacidade.

Por que não se deveria julgar um governo após cada guerra declarada? Se os povos compreendessem isto, se julgassem por si mesmos os poderes assassinos, se não admitissem deixar morrer sem razão, se empregassem suas armas contra aqueles de quem as receberam para matar, nesse dia a guerra estaria morta... Mas esse dia nunca chegará.

Sobre a Água Guy de Maupassant vê todo o horror da guerra, vê que é causada por governos que, enganando os povos, induzem-nos a se degolarem reciprocamente sem utilidade alguma; vê, ainda, que os cidadãos que compõem os exércitos poderiam voltar suas armas contra os governos e fazê-los pagar; mas pensa que isto nunc^ acontecerá e que, em conseqüência, não há saída possível.

"Penso que a obra de guerra é terrível mas inevitável; que a obrigatoriedade do serviço militar é inevitável como a morte e, uma vez que os governos sempre a desejarão, a guerra sempre existirá." Assim escreve este escritor de talento, sincero, dotado da faculdade de penetrar no âmago do argumento, que constitui a essência do dom poético. Ele nos mostra toda a crueldade da contradição entre a consciência dos homens e suas ações, mas não tenta resolvê-la e parece reconhecer que esta contradição deve existir e que contém em si a tragédia poética da vida.

Um outro escritor, não menos brilhante, Edouard Rod, pinta com cores até mais vivas as barbáries e a loucura da situação atual, mas também com o único intuito de constatar seu caráter trágico, e sem propor qualquer saída.

Para que agir? Para que empreender o que quer quer seja? E como amar os homens, nesta época conturbada na qual o amanhã não é senão uma ameaça!... Tudo isto que começamos, nossas idéias que amadurecem, nossas obras vislumbradas, aquele pouco de bem que teríamos podido fazer, não será carregado pela tempestade que se prepara?... Por toda parte o terreno treme sob nossos pés, e nosso horizonte vai-se cobrindo de nuvens que não nos serão benéficas.

Ah! Se não fosse preciso temer a revolução da qual se fez um espectro!... Incapaz de imaginar uma sociedade mais detestável do que a nossa, tenho pela que a sucederá mais desconfiança que temor. Se devesse sofrer com a transformação, consolar-me-ia pensando que os verdugos do dia são as vítimas da vigília e que a expectativa do melhor faria suportar o pior. Mas não é este perigo longínquo que me assombra: vejo um outro, mais perto e sobretudo mais cruel; mais cruel porque não tem qualquer desculpa, porque é absurdo, porque não pode resultar em bem algum: a cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia-a-dia, tornam-se mais cruéis.

O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o término do progresso de nossa era e contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes, milhares de pobres diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir) para roubar-lhes mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que mercantis interesses coloniais!... Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e ébrios, pelas sonoras e mentirosas palavras trombetadas em seus ouvidos. Marcharão sem se rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender, estabelecer o bom senso e a fraternidade em lugar das selvagens práticas da diplomacia. Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a Deus para abençoar seus apetites sanguinários. Marcharão, pisoteando as colheitas que semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem massacrado!...

A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos. Ficamos presos na rede dos gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta. Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de coisas dessa contraditória abstração, o Estado, que torna ca-da indivíduo escravo em nome da vontade de todos, que tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão obrigados a fazer.

Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros interesses em jogo.

Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de uma raça: um dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, ver-se-á uma força aniquilada — como se, para o bem, houvesse uma a mais! — ver-se-á formar-se uma Europa nova, sobre tais bases, tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não pode ser ainda pior do que a de hoje, mais ini-qua, mais bárbara e mais violenta.

Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencoraja-mento. Agitamo-nos num caminho sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, quinze minutos antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o mais belo esforço de que seja capaz de calcular, soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam de- sordenadamente — se será amanhã ou depois de amanhã, este ano ou próximo que nos degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta de angústias...

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