Destas linhas resulta que a força está nas mãos daqueles que se perdem por si mesmos, nas mãos de indivíduos isolados que compõem a massa, e que a fonte do mal está no Estado. Parece evidente que a contradição entre a consciência e a vida tenha atingido limites que não poderiam ser ultrapassados, e nos quais a solução se impõe.
Mas o autor não é deste parecer. Ele vê o caráter trágico da vida humana e, após haver mostrado todo o horror da situação, conclui que a vida humana deve transcorrer neste erro.
A terceira categoria é dos homens que perderam a consciência e, portanto, o bom senso e qualquer sentimento humano.
A essa categoria pertence Moltke, cuja opinião foi citada por Maupassant, como também a maior parte dos militares, educados nesta cruel superstição que os faz viver e, com freqüência, ingenuamente convencidos de que a guerra é uma instituição não §ó inevitável, mas necessária e útil.
Alguns burgueses, ditos doutos e civis, têm a mesma opinião.
Eis o que escreve, no número da Revista das Revistas em que estão reunidas as cartas sobre a guerra, o célebre académico Camille Doucet:
PREZADO SENHOR,
Quando perguntais ao menos belicoso dos académicos se ele é partidário da guerra, a sua resposta é dada por antecipação.
Desventuradamente, senhor, vós mesmos qualificais de sonho o pensamento no qual se inspiram hoje vossos generosos compatriotas.
Desde que estou no mundo, sempre ouvi muita gente honesta protestar contra o horrível hábito de massacre internacional que o mundo reconhece como mau e deplora; mas como remediá-lo?
Com freqüência fomos também tentados a suprimir o duelo, e parecia fácil, mas não! Jamais o que se fez com este nobre fim trouxe ou trará qualquer benefício.
Todos os congressos dos dois mundos em vão votarão contra a guerra e contra o duelo; acima de todos os compromissos, de todas as convenções, de todas as legislações, existirão eternamente: A honra dos homens, que sempre quis o duelo; e o interesse dos povos, que sempre desejará a guerra.
Não desejo menos, e de todo o coração faço votos que o Congresso da Paz Universal consiga enfim realizar sua honorabilíssi-ma tentativa. Recebei, senhor, os protestos etc...
CAMILLE DOUCET
O sentido desta carta é que a honra dos homens quer que eles se batam entre si e que o interesse dos povos exige que se arruinem e se massacrem reciprocamente.
Quanto às tentativas para suprimir a guerra, nada merecem além de um sorriso. Deste mesmo gênero é a opinião de outro académico, Jules Claretie:
PREZADO SENHOR, Não pode existir senão uma única opinião, para um homem sensato, sobre a questão de paz ou de guerra.
A humanidade é feita para viver, para viver com liberdade de aperfeiçoar e melhorar sua sorte mediante um trabalho pacífico. O acordo geral pregado pelo The Universal Peace Congress talvez seja um belo sonho, mas é sem dúvida o mais belo dos sonhos. O homem tem sempre diante dos olhos a Terra prometida, e sobre essa terra do futuro as colheitas deverão amadurecer sem medo de serem trituradas por granadas, nem amassadas por rodas de canhões. Só que... Ah! Só que, como os filósofos e os benfeitores da humanidade não são os patrões, será bom que os nossos soldados vigiem a fronteira e os arredores dos lares, e suas armas, bem carregadas e bem manejadas, talvez sejam as mais seguras garantias da paz que todos amamos.
Não se dá a paz senão aos resolutos e aos fortes.
Aceitai, prezado senhor, meus mais sinceros e distintos sentimentos.
JULES CLARETIE.
O sentido dessa carta é que nada impede que se fale do que ninguém tem intenção nem dever de fazer. Mas, quando se trata da prática, é preciso lutar.
Eis agora a opinião recentemente expressa sobre o assunto pelo mais popular romancista da Europa, Émile Zola: Considero a guerra como uma necessidade fatal que parece inevitável devido a suas íntimas ligações com a natureza humana e com todo o Universo. Gostaria de adiar a guerra o mais longo tempo possível. Chega, contudo, um momento no qual somos obrigados a lutar. Neste momento coloco-me sob o ponto de vista universal, e de modo algum faço alusão à nossa discórdia com a Alemanha, que nada é além de um insignificante incidente na História da humanidade. Disse que a guerra é necessária e útil, porque aparece como uma condição de existência para a humanidade. Encontramos a guerra por toda parte, não apenas entre as diversas raças e os diversos povos, mas também na vida familiar e na vida privada. Ela é um dos elementos principais do progresso, e cada passo à frente dado até agora pela humanidade foi dado sobre o sangue. Falou-se e fala-se ainda do desarmamento. O desarmamento é, entretanto, algo impossível, e ainda que fosse possível, dever-se-ia rejeitá-lo. Só um povo armado é poderoso e grande. Estou convencido de que o desarmamento geral teria como resultado uma espécie de decadência moral que se manifestaria pelo enfraquecimento geral e reteria o caminho progressivo da humanidade. Uma nação guerreira goza sempre de uma saúde florescente. A arte militar traz consigo o desenvolvimento de todas as outras artes. A História é testemunha. Assim, em Atenas e em Roma, o comércio, a indústria e a lite- ratura jamais alcançaram tão grande desenvolvimento quanto na época em que estas cidades dominavam pela força das armas o mundo então conhecido. Para tomar um exemplo em tempos mais recentes, recordemos o século de Luís XIV. As guerras do grande rei não só não impediam o progresso das artes e das ciências, mas, pelo contrário, parecem havê-las ativado e favorecido seus desenvolvimentos.
A guerra, obra útil! Mas a opinião mais característica neste sentido é do académico de Vogue, o mais dotado entre os escritores desta tendência. Eis o que ele escreve — num artigo sobre a seção militar da Exposição de 1889:
Na esplanada dos Invalides, no centro dos acampamentos exóticos e coloniais, um edifício mais severo domina o pitoresco bazar; todos estes fragmentos do globo vieram agregar-se ao palácio da guerra, nossos hóspedes submissos montam guarda em turnos, defronte à casa-mãe, sem a qual não estariam aqui. Belo tema de antítese para a retórica humanitária; quem não desiste de se lamentar por estas aproximações e de afirmar que uma coisa matará a outra1 e que a fusão dos povos, graças à ciência e ao trabalho, vencerá o instinto militar. Deixemo-la acalentar a quimera de uma idade de ouro que chegaria em breve, caso se pudesse efetivar numa idade de lama. Toda a história nos ensina que uma coisa é criada por outra, que é preciso sangue para apressar e cimentar a fusão dos povos. As ciências da natureza têm ratifi- cado, em nossos dias, a lei misteriosa, revelada a Joseph de Maistre pela intuição de seu génio e pela meditação sobre os dogmas primordiais; ele via o mundo resgatar-se de suas decadências hereditárias por meio do sacrifício; as ciências o mostram aperfeiçoando-se pela luta e pela seleção violenta; as duas partes dão a constatação do mesmo decreto, redigido em terminologia diferente.
A constatação é desagradável, sem dúvida; mas as leis do mundo não são feitas para nosso deleite, são feitas para o nosso aperfeiçoamento. Entremos então neste inevitável, neste necessário palácio da guerra; teremos ocasião de observar como o mais tenaz de nossos instintos, sem jamais perder parte de seu vigor, transforma-se e dobra-se às diversas exigências dos momentos históricos. lCeci tuera cela; palavras tiradas do romance de Victor Hugo: Notre-Dame de Paris.
A necessidade da guerra é provada pelo senhor De Vogue, por duas expressões de dois grandes pensadores, Joseph de Maistre e Darwin, e estas expressões agradam- no tanto que ele as recorda novamente em sua carta ao diretor da Revista das Revistas:
Senhor, Vós me perguntais meu sentimento quanto ao possível sucesso do Congresso Universal da Paz. Creio, como Darwin, que a luta violenta é uma lei da natureza que rege todos os seres; creio, como Joseph de Maistre, que é uma lei divina: duas maneiras diferentes de nomear a mesma coisa. Se, por um acaso impossível, uma fração da sociedade humana — tomemos todo o Ocidente civil — conseguisse suspender o efeito desta lei, as raças mais instinti- vas encarregar-se-iam de aplicá-la contra nós: estas raças dariam razão à natureza contra a razão humana; e teriam sucesso, porque a certeza da paz — não digo a paz, digo a certeza da paz — geraria, antes de meio século, uma corrupção e uma decadência mais destrutivas para o homem do que a pior das guerras. Avalio que é preciso fazer pela guerra, lei criminal da humanidade, o que devemos fazer por todas as nossas leis criminais, mitigá-las, tornar sua aplicação a mais rara possível, usar de todas as nossas forças para que se tornem inúteis. Mas toda a experiência da História nos ensina que não poderemos suprimi-las enquanto existirem na Terra dois homens, o pão, o dinheiro e uma mulher entre eles.
Ficaria gratíssimo se o Congresso me desmentisse. Duvido que ele desminta a História, a Natureza, Deus.
Dignai-vos aceitar, senhor, os protestos da minha distinta con- sideração.
O sentido desta carta é que a História, a natureza do homem e Deus nos mostram que a guerra subsistirá enquanto existirem dois homens e entre eles o pão, o dinheiro e a mulher. Isto significa que nenhum progresso induzirá os homens a abandonar o selvagem conceito da vida que não admite, sem luta, a divisão do pão, do dinheiro (o que está fazendo aqui o dinheiro?) e da mulher.
São realmente estranhos estes homens que se reúnem em congressos, pronunciam discursos para ensinar como se captura um pássaro colocando-lhe um grão de sal na cauda, mesmo sabendo que isto é impossível. São estranhos também aqueles que, como Maupassant, Rod e outros, vêem claramente todo o horror da guerra, toda a contradição disto resultante: que os homens não fazem o que é preciso fazer e que lhes seria proveitoso, que lamentam as trágicas fatalidades da vida e não vêem que estas fatalidades cessarão tão logo os homens, renunciando raciocinar sobre assuntos inúteis, se decidissem não mais fazer o que lhes parece penoso e repugnante.
Estes homens são surpreendentes; mas aqueles que, como o De Vogue e outros, adotando a lei da evolução que considera a guerra não só inevitável como também útil e, portanto, desejável, estes homens são terríveis, pavorosos em suas aberrações morais. Os primeiros dizem, ao menos, que odeiam o mal e amam o bem, enquanto estes últimos declaram abertamente que não existe o bem ou o mal. Todas as dissertações sobre a possibilidade de estabelecer a paz em lugar da guerra eterna não é senão sentimentalismo nocivo de faladores. Existe uma lei da evolução da qual resulta que devo viver e agir mal; o que fazer? Sou um homem culto, conheço a lei da evolução e, em conseqüência, agirei mal. "Entremos no palácio da guerra!' Existe uma lei da evolução e, em conseqüência, não há bem ou mal, e não é preciso viver senão para o próprio interesse pessoal, abandonando o resto à lei da evolução. Tudo isto é a última expressão da cultura refinada, o conjunto do obscurecimento da consciência que distingue as classes esclarecidas de nosso tempo.
O desejo das classes esclarecidas de conservar por todos os meios suas idéias prediletas e a existência que lhes é conseqüente atinge o paroxismo. Estes homens mentem, enganam a si próprios e aos outros, da forma mais refinada, para conseguir apenas obscurecer e ofuscar a consciência.
Em vez de mudar seu modo de viver, segundo as indicações de sua consciência, eles procuram, por todos os meios, sufocar-lhes a voz. Mas a luz brilha na escuridão, e é assim que a verdade começa a resplandecer por entre as trevas de nossos tempos.
Significado do serviço militar obrigatório
Os homens cultos das classes superiores procuram esconder a necessidade, cada vez mais evidente, de uma mudança na ordem natural das coisas, mas a vida, que continua a se desenvolver e a se complicar sem mudar sua direção, aumenta as contradições e os sofrimentos dos homens e os conduz ao limite extremo, que não pode ser ultrapassado. Este último limite da contradição é o serviço militar obrigatório para todos.
Acredita-se, em geral, que o serviço militar obrigatório e o aumento dos armamentos dele resultante, como também o aumento dos impostos e dos débitos de Estado em todos os povos, são um fenômeno passageiro, produzido por determinada situação política da Europa, e que determinadas convenções internacionais poderiam fazer desaparecer, sem que seja para isso necessário modificar a ordem atual das coisas.
Isto é absolutamente falso. O serviço militar obrigatório é uma contradição interna que penetrou por inteiro no conceito social da vida, e que não se tornou evidente a não ser porque alcança os extremos limites num momento de desen- volvimento material bastante grande.
O conceito social da vida consiste, como é sabido, em que o sentido da vida foi transferido do indivíduo para o grupo, em seus diversos graus: família, tribo, raça, Estado.
Segundo este conceito, é evidente que, como o sentido da vida reside no agrupamento dos indivíduos, estes indivíduos sacrificam voluntariamente seus interesses aos do grupo. Isto de fato ocorreu e ainda ocorre em determinados tipos de agrupamento, na família e na tribo, na raça e também no Estado patriarcal como conseqüência dos costumes transmitidos pela educação e confirmados pela sugestão religiosa, os indivíduos subordinavam seus interesses aos do grupo e sacrificavam-nos à comunidade sem a isto serem obrigados. Porém, mais as sociedades tornavam-se grandes, mais crescia o número de novos membros para a conquista, e mais se afirmava a tendência dos indivíduos a perseguir seu interesse pessoal em prejuízo do interesse geral; e mais ainda devia o poder recorrer à violência para dominar estes indivíduos insubordinados. Os defensores do conceito social procuram em geral confundir a noção do poder, ou seja, a violência, com a noção da influência moral, mas esta confusão é absolutamente impossível.
A influência moral age sobre os próprios desejos do homem e modifica-os no sentido do que lhe é solicitado. O homem que sofre a influência moral age de acordo com seus desejos. Entretanto, o significado usual da palavra é um meio para forçar o homem a agir contrariamente a seus desejos. O homem submisso ao poder age não como quer, mas como é obrigado; e é somente através da violência física, isto é, da pri- são, da tortura, da mutilação, ou da ameaça destes castigos, que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder.
Apesar dos contínuos esforços dos governos para escondê-lo e para dar ao poder um outro significado, ele é para o homem uma corda, uma corrente, com a qual será amarrado e arrastado, o knut com o qual será flagelado, a faca ou o machado que lhe cortarão os braços, as pernas, o nariz, as orelhas, a cabeça; isto acontecia na época de Nero e Gengis Khãn; e isto acontece ainda hoje, no governo mais liberal, no da república americana e no da república francesa. O pagamento dos impostos, o cumprimento dos deveres sociais, a submissão às punições, tudo isto que parece voluntário traz sempre, no fundo, o temor de uma violência.
A base do poder é a violência física; e a possibilidade de submeter os homens a uma violência física é sobretudo devida a indivíduos mal organizados, de modo que agem de acordo, embora submetendo-se a uma só vontade. E, reunidos, indivíduos armados que obedecem a uma vontade única formam o exército. O poder encontra-se sempre nas mãos dos que comandam o exército, e sempre todos os chefes do poder — dos césares romanos aos imperadores russos e alemães — preocupam-se com o exército mais do que com qualquer outra coisa, e somente a ele adula, sabendo que, se ele está do seu lado, seu poder está assegurado.
Esta composição e esta força do exército, necessárias para a garantia do poder, são justamente as que introduziram no conceito social da vida o germe corruptor.
O objetivo do poder e sua razão de ser estão na limitação da liberdade dos homens que gostariam de colocar seus interesses pessoais acima dos interesses da sociedade. Mas, quer o poder seja adquirido pelo exército, por herança ou por eleição, os homens que o possuem em nada se diferenciam dos outros homens e, como eles, estão inclinados a não subordinar o próprio interesse ao interesse geral; muito pelo contrário. Quaisquer que sejam os meios usados, não foi possível, até hoje, concretizar o ideal de só confiar o poder a homens infalíveis, ou de ao menos remover daqueles que o possuem a possibilidade de subordinar a seus interesses os interesses da sociedade.
Todos os procedimentos conhecidos, o direito divino, a eleição, a herança, produzem os mesmos resultados negativos.
Todos sabem que nenhum destes procedimentos é capaz de assegurar a transmissão do poder aos infalíveis, ou ainda de impedir o abuso do poder. Todos sabem que, ao contrário, os que o possuem — sejam soberanos, ministros, prefeitos ou guardas municipais — são sempre, por deterem o poder, mais inclinados à imoralidade, ou seja, a subordinar os interesses gerais aos interesses próprios, do que aqueles que não detêm o poder. Aliás, não pode ser de outro modo.
O conceito social só podia ser justificado enquanto os homens sacrificavam voluntariamente o interesse próprio aos interesses gerais; mas tão logo surgiram alguns que não sacrificavam voluntariamente o próprio interesse, sentiu-se a neces- sidade do poder, isto é, da violência, para limitar-lhe a liberdade e, então, entrou no conceito social e no ordenamento dele resultante o germe corruptor do poder, isto é, a violência de uns sobre outros.
Para que o domínio de uns sobre outros alcançasse seu objetivo, para que pudesse limitar a liberdade daqueles que passam seus interesses pessoais à frente dos da sociedade, o poder deveria se encontrar nas mãos de infalíveis, como supõem os chineses, ou como se acreditava na Idade Média, e como crêem hoje aqueles que têm fé na graça da unção. Somente nestas condições a ordem social pode ser compreendida.
Posto que tal não existe, mas, ao contrário, os homens que detêm o poder passam sempre ao largo da santidade, exatamente por terem o poder, já não se pode justificar o ordenamento social com base na autoridade.
Se existiu, todavia, um tempo em que, após aviltamento do nível moral e da disposição dos homens à violência com a existência do poder ofereceu alguma vantagem, a violência da autoridade sendo menor do que a pessoal, é fato evidente que esta vantagem não poderia ser eterna. Quanto mais diminuía a tendência dos indivíduos à violência, mais os costumes se suavizavam, mais o poder se corrompia em conseqüência de sua liberdade de ação, mais desaparecia esta vantagem.
Esta mudança da relação entre o desenvolvimento moral das massas e a desmoralização dos governos é toda a História dos últimos dois mil anos. Eis simplesmente como tudo ocorreu: Os homens viviam em família, em tribos, em raças, provocando-se, violentando-se, roubando-se, matando-se reciprocamente. Estas violências eram cometidas em grande e pequena escala: indivíduo contra indivíduo, família contra família, tribo contra tribo, raça contra raça, povo contra povo. O grupo mais numeroso, mais forte, apoderava-se do mais fraco e, mais este se fortalecia, mais diminuíam as violências internas, e mais pareciam asseguradas a duração e a vida do grupo.
Os membros da família ou da tribo, reunidos em um só grupo, são menos hostis uns aos outros, e a família, ou a tribo, não morre como o indivíduo isolado. Entre os membros de um Estado, submetidos a uma só autoridade, a luta entre os indivíduos parece também mais fraca, e a duração do Estado mais indubitável.
Estas reuniões em grupos sempre maiores ocorreram não porque os homens tivessem consciência de daí obter alguma vantagem, como se narra na lenda russa, do chamado dos varegos, mas devido ao aumento das populações e, portanto, das lutas e conquistas.
Depois da conquista, de fato, o poder do conquistador faz desaparecer as discórdias internas e o conceito social da vida recebe sua justificativa. Mas esta justificativa é temporária. As discórdias internas, reprimidas pelo poder, renascem do próprio poder. Este encontra-se nas mãos de homens que, como todos os outros, estão inclinados a sacrificar o bem geral a seu bem pessoal, com a diferença que os violentados não lhes podem resistir e sofrem a influência corruptora do poder. Por isso o mal da violência, passando para o poder, não cessa de aumentar e torna-se maior do que aquele para o qual o poder foi um remédio. E isso acontece enquanto, entre os membros da sociedade, as tendências à violência enfraquecem cada vez mais, e enquanto a violência do poder, em conseqüência, torna-se cada vez menos necessária.
O poder governamental, mesmo que faça desaparecer as violências internas, sempre introduz na vida dos homens novas violências, cada vez maiores em razão de sua duração e de sua força. De modo que, se a violência do poder é menos evidente do que a dos particulares, porque se manifesta não pela luta, mas pela opressão, ela, não obstante, existe, e com maior freqüência num grau mais elevado.
E não pode ser diferente, porque além do fato de que o poder corrompe os homens, os cálculos ou a tendência constante daqueles que o detêm terão sempre por objetivo o máximo enfraquecimento possível dos violentados já que, quanto mais estes estão fracos, menos esforços são necessários para dominá-los.
Por isso a viofência aumenta sempre até o extremo limite que pode alcançar, sem matar a galinha dos ovos de ouro. E se esta galinha não põe mais ovos, como os índios da América, como os habitantes da Terra do Fogo, como os negros da África, mata-se a galinha, apesar dos sinceros protestos dos filantropos.
A melhor confirmação de tudo isto é a situação dos operários de nosso tempo, que, para dizer a verdade, nada são além de servos.
Apesar de todos os supostos esforços das classes superiores para melhorar a sorte dos trabalhadores, estes são submetidos a uma imutável lei de ferro, que lhes dá apenas o absolutamente necessário, a fim de que sejam sempre obrigados ao trabalho, embora conservando força suficiente para trabalhar em proveito de seus patrões, cujo domínio lembra o dos conquistadores antigos.
Sempre foi assim. Sempre, à medida do aumento e da duração do poder, as vantagens para aqueles que lhe eram submissos diminuíam, e os inconvenientes aumentavam.
Isto aconteceu e acontece, independentemente das formas de governo sob as quais vivem os povos; com uma só diferença: que, na forma autocrática, o poder está concentrado nas mãos de um pequeno número de violentos, e a forma das violências é mais sensível, enquanto nas monarquias constitucionais e na república, como na França e na América, o poder é dividido entre um número maior de violentos, e a forma em que se traduz a violência é menos sensível; mas seu resultado — as desvantagens do governo maiores que as vantagens — e seu modo de agir — enfraquecimento dos oprimidos — são sempre os mesmos.
Assim foi e é a situação dos oprimidos, mas até agora estes ignoravam e, em sua maioria, acreditavam ingenuamente que o governo existisse para seu bem; que sem governo estariam perdidos; que não se pode, sem sacrilégio, exprimir a idéia de viver sem governo; que seria uma terrível doutrina — por quê? — de anarquia e que se apresenta acompanhada por um cortejo de calamidades.
Acreditava-se, como em algo absolutamente provado, que, já que até agora fodos os povos se desenvolveram sob a forma de Estados, esta forma permanece para sempre a condição essencial do desenvolvimento da humanidade.
Tudo isto continuou assim por centenas e milhares de anos, e os governos sempre se esforçaram e esforçam-se ainda para manter os povos neste erro.
Assim era na época dos imperadores romanos, e assim é em nossos dias, embora a idéia da inutilidade e dos inconvenientes do poder penetre cada vez mais na consciência das massas; e seria eternamente assim, se os governos não se achassem na obrigação de aumentar continuamente seus exércitos para manter sua autoridade. Acredita-se, em geral, que os governos aumentam os exércitos unicamente para a defesa externa do país, enquanto, na realidade, os exércitos lhes são necessários, principalmente, para sua própria defesa contra os súditos oprimidos e reduzidos à escravidão.
Esta rivalidade nos armamentos conduziu os governos europeus à necessidade de estabelecerem o serviço militar obrigatório, que busca o maior número de soldados com as menores despesas possíveis.A Alemanha foi a primeira a ter esta idéia e as outras nações imitaram-na. E, então, todos os cidadãos foram chamados às armas para manter as injustiças que entre eles eram cometidas, de modo que os cidadãos se tornaram seus próprios tiranos.
No serviço militar obrigatório esta contradição ficou evidente. De fato, o sentido do conceito social consiste em que o homem, tendo consciência da barbárie da luta entre indivíduos e da falta de segurança, transportou o sentido de sua vida para a associação dos indivíduos. Com o serviço militar obrigatório, os homens, tendo feito todos os sacrifícios possíveis para evitar as crueldades da luta e a instabilidade da vida, são vergonhosamente chamados a correr todos os perigos que acreditavam evitar e que, ademais, a associação — Estado — por que sacrificaram seus interesses pessoais corre os mesmos perigos de morte que ameaçavam o indivíduo isolado.
Os governos tentam poupar aos homens a luta entre indivíduos, dando-lhes a certeza da inviolabilidade do regime adotado; porém, expõem o indivíduo aos mesmos perigos, porquanto, evitando a luta entre indivíduos do mesmo grupo, preparam-nos para uma luta entre grupos.
A criação do serviço militar obrigatório faz pensar num homem que, para que sua casa não desabe, enche-a de escoras, vigas, traves, tábuas, de tal forma que só consegue mantê-la de pé tornando-a absolutamente inabitável.
Do mesmo modo o serviço militar obrigatório torna nulas todas as vantagens da vida social que é chamado a defender.
As vantagens da vida social consistem na segurança da propriedade e do trabalho, e na possibilidade de um melhoramento geral das condições de vida. Ora, o serviço militar destrói tudo isto.
Os impostos recolhidos para as despesas militares absorvem a maior parte do produto do trabalho que o exército deve defender.
A incorporação de todos os homens válidos ao exército compromete a própria possibilidade de trabalho. As ameaças de guerra, sempre prontas a eclodir, tornam inúteis e vãos todos os melhoramentos das condições da vida social.
Se em tempos idos fosse dito a um homem que sem o Estado ele estaria exposto às agressões dos malfeitores, dos inimigos internos ou externos, que deveria se defender sozinho contra todos, que sua vida seria ameaçada, que, em conseqüên- cia, seria vantajoso para ele submeter-se a algumas privações para evitar estes males, o homem teria podido acreditar, já que o sacrifício que fazia ao Estado dava-lhe a esperança de uma vida tranqüila e uma ordem de coisas que não podia desaparecer. Mas hoje, que os seus sacrifícios desapareceram, é natural que cada um pergunte a si mesmo se a submissão ao Estado não é absolutamente inútil.
Mas não reside neste fato o fatal significado deste serviço militar, como manifestação da contradição que encerra o conceito social. A principal manifestação desta contradição consiste em que, com o serviço militar obrigatório, cada cidadão se transforma no sustentáculo da ordem atual das coisas e participa de todos os atos do Estado, sem lhe reconhecer a legitimidade.
Os governos afirmam que os exércitos são necessários, por toda parte, para a defesa externa. É falso. São principalmente necessários contra os próprios cidadãos, e cada soldado participa a sua revelia das violências do Estado sobre os cidadãos.
Para convencer-se desta verdade basta lembrar o que se comete em cada Estado, em nome da ordem e da tranqüilidade do povo, servindo-se sempre do exército como instrumento. Todas as brigas internas de dinastias ou de partidos, todas as execuções capitais que acompanham estas agitações, todas as repressões de revoltas, todas as intervenções da força armada para dissipar os grupos ou para impedir greves, todas as extorsões de impostos, todos os obstáculos à liberdade do trabalho, tudo isto é feito, ou diretamente com a ajuda do exército, ou da polícia, apoiada pelo exército. Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas estas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias a sua consciência.
Assim alguns homens se recusam a abandonar a terra que cultivam de pai para filho há muitas gerações, outros não querem circular como pretende a autoridade, outros não querem pagar os impostos, outros não querem reconhecer como obrigatórias certas leis que não fizeram, outros não querem perder sua nacionalidade e eu, que estou cumprindo as obrigações do serviço militar, sou obrigado a atacar aquela gente? Eu não posso, tomando parte nestas repressões, deixar de perguntar a mim mesmo se são justas ou injustas e se devo concorrer para sua execução.
O serviço militar obrigatório é o último grau de violência necessária à manutenção da organização social, é o limite extremo que pode atingir a submissão de todos, é a mola mestra cuja queda determinará a de todo o edifício. | Com os crescentes abusos dos governos e com seu antagonismo, chegou-se a pretender dos governados não só sacrifícios materiais, mas também tais sacrifícios morais, que cada um pergunta a si mesmo: Posso obedecer? Em nome de quem devo fazer sacrifícios? E estes sacrifícios são pedidos em nome do Estado. Em nome do Estado pedem-me que sacrifique tudo o que pode ser caro ao homem: a felicidade, a família, a segurança, a dignidade humana. Mas o que é então este Estado que pretende sacrifícios tão terríveis? Por que ele nos é, então, tão necessário? O Estado, dizem-nos, é necessário, em primeiro lugar, porque, sem o Estado, você e eu, todos nós ficaremos sem defesa contra a violência dos malvados; depois, porque sem o Estado permaneceríamos selvagens e não teríamos tido nem religião, nem instrução, nem educação, nem indústria, nem comércio, nem meios de comunicação, nem outras instituições sociais e, enfim, porque sem o Estado teríamos corrido o risco de ser conquistados por povos vizinhos.
"Sem o Estado, dizem-nos, teríamos corrido o perigo de sofrer as violências dos malvados em nossa própria pátria!' Mas quem são estes malvados de cuja maldade e de cuja violência nos preservam nosso Estado e o nosso exército? Há três ou quatro séculos, quando nos orgulhávamos de nossa habilidade militar e de nossas armas, quando matar era uma ação gloriosa, existiram homens deste tipo, mas hoje não mais existem, e os homens de nosso tempo não portam mais armas, e cada um prega leis de humanidade, de piedade pelo próximo e deseja aquilo que desejamos nós, isto é, a possibilidade de uma vida tranqüila e estável significa que não existem mais malfeitores dos quais o Estado nos deva proteger. E, se o Estado nos deve defender dos homens considerados criminosos, sabemos que não são homens de uma outra natureza, como as bestas ferozes entre as ovelhas, mas homens como todos nós, que não encontram, mais do que nós, satisfação em cometer delitos. Sabemos, hoje, que as ameaças e os castigos não podem fazer diminuir o número destes homens, e que este não diminuirá senão pela mudança do ambiente e da influência moral. De modo que a proteção do Estado contra os violentos, se era necessária há três ou quatro séculos, não o é hoje. Agora, o oposto é bem mais verdadeiro: a ação do governo com seus cruéis métodos de coerção, atrasados para estágio de nossa civilização, como as prisões, a forca, a guilhotina, concorre muito mais para a barbárie dos costumes do que para sua suavização e, em conseqüência, cresce, mais do que diminui, o número dos violentos.
"Sem Estado, dizem-nos, não teremos religião, educação, indústria, comércio, meios de comunicação, ou outras instituições sociais!' Sem o Estado, não teríamos podido organizar as instituições que são necessárias a todos. Mas este assunto teria podido ter algum valor há alguns séculos. Houve um tempo em que os homens se comunicavam tão pouco e em que os meios de aproximação e de troca de idéias eram tão precários, que não era possível haver acordos comerciais, industriais e econômicos, sem um centro de Estado. Estes obstáculos, hoje, desapareceram. Os meios de comunicação tão amplamente de- senvolvidos e a troca de idéias fizeram com que, para a formação das sociedades, corporações, congressos, instituições econômicas e políticas, os homens de nosso tempo não só possam prescindir dos governos mas, também, na maioria das vezes, sejam coibidos pelo Estado que, em lugar de ajudá-los, os contraria na efetivação de seus projetos.
A começar de fins do século passado, quase todos os passos da humanidade, em lugar de serem encorajados, foram contrariados pelos governos. Assim aconteceu pela supressão das penas corporais, da tortura, da escravidão, pela instituição da liberdade de imprensa e da liberdade de reuniões. Não só o governo não ajuda, como até se opõe a cada movimento, que daria início a novas formas de vida. A solução das questões operárias, agrárias, políticas, religiosas, longe de ser encorajada, é contrariada pela autoridade governamental.
"Sem o Estado e sem o governo, o povo teria sido conquistado por povos vizinhos!' Inútil responder a este argumento; ele responde por si. Dizem-nos que o governo e o seu exército nos são necessários para nos defender dos povos vizinhos, que nos poderiam sujeitar: mas o que se diz de todos os governos e em todas as nações, e que, portanto, sabemos muito bem, é que todos os povos da Europa exaltam os princípios da liberdade e da fraternidade. Não deveriam, então, se defender uns aos outros. Mas, ao se falar dos bárbaros, a milésima parte das tropas que neste momento compõem o exército bastaria para mantê-los a distância. Vemos, portanto, precisamente o contrário daquilo que nos dizem. Não só o exagero das forças militares não nos preserva das agressões de nossos vizinhos, mas, ao contrário, poderia ser o motivo desta agressão.
Em conseqüência disto, cada homem, induzido pelo serviço militar obrigatórios refletir sobre o governo em cujo nome lhe é pedido o sacrifício do próprio repouso, da própria segurança e da vida, fica claro que nada justifica, hoje, este sacrifício.
Não só é evidente que os sacrifícios pedidos pelo governo não têm, em teoria, nenhuma razão de ser, mas também na prática, isto é, na presença das penosas condições em que o homem se encontre por culpa do Estado, cada um vê necessariamente que satisfazer as exigências do governo e submeter-se ao recrutamento militar é, às vezes, mais desvantajoso do que a rebelião.
Se a maioria prefere submeter-se, não é por madura reflexão sobre o bem e o mal que isto pode resultar, mas porque está, por assim dizer, hipnotizada. Obedecendo, os homens submetem-se simplesmente às ordens que lhes são dadas, sem refletir e sem fazer um esforço de vontade. Para não obedecer, é preciso refletir com independência, e isto se constitui num esforço de que nem todos são capazes. Mas, caso fosse afastado o significado moral da sujeição ou da rebelião e consideradas apenas as vantagens materiais, ver-se-ia que a rebelião é, em geral, mais proveitosa do que a submissão.
Quem quer que eu seja, pertença eu à classe abastada e opressora ou à classe operária e oprimida, em ambos os casos as vantagens da rebelião serão maiores do que as da obediência.
Se pertenço à classe opressora, a menos numerosa, minha recusa a obedecer ao governo terá o inconveniente de fazer-me processar como rebelde, e o que me pode acontecer de melhor é que me absolvam, ou seja, como se faz entre nós com os menonitas, que me obriguem a fazer meu tempo de serviço nos trabalhos civis. Mas me podem condenar à deportação ou à prisão por dois ou três anos (falo dos casos que aconteceram na Rússia) ou talvez por um período mais longo. Podem-me até condenar à morte, embora tal condenação seja improvável. Eis os inconvenientes da recusa a obedecer. Os inconvenientes da submissão são os seguintes: no caso mais favorável, não me mandarão matar homens, não me farão correr o risco de ser mutilado ou morto, mas me submeterão à escravidão militar! Serei vestido com um uniforme de palhaço, cada um daqueles que tiver um posto me comandará, do soldado raso ao marechal-de-campo, cada um me obrigará a contorcer meu corpo a seu bel-prazer e, depois de me terem feito servir de um a cinco anos, deixar-me-ão ainda por dez anos» na condição de ser a qualquer instante chamado para executar as ordens que toda aquela gente me dará. No caso menos favoravel acontecerá que, além desta escravidão, me mandarão para a guerra, onde serei obrigado a matar homens de países estrangeiros que nada me fizeram, onde posso ser aleijado ou morto, ou mandado para uma morte certa como em Sebastopol ou, o que é ainda mais cruel, posso ser conduzido contra meus próprios compatriotas e ser obrigado a matar meus irmãos, por interesses dinásticos ou governamentais, que me são de todo estranhos. Tais são os respectivos inconvenientes. Quanto às vantagens da obediência ou da rebelião, ei-los: aquele que não se recusou ao serviço militar, passou por todas estas humilhações e executou toda esta crueldade pode, se não estiver morto, receber em sua veste de palhaço ornamentos vermelhos ou dourados; pode, no caso mais afortunado, comandar centenas de milhares de homens embrutecidos como ele e ser chamado de marechal-de-campo, e ganhar muito dinheiro.
O recalcitrante terá as vantagens de conservar sua dignidade de homem, de ser estimado por gente honrada e, sobretudo, de ter consciência de realizar uma obra de Deus, ou seja, uma obra útil aos homens.
Tais são as vantagens e os inconvenientes, nos dois casos, para um homem da classe abastada e opressora. Quanto ao homem da classe operária pobre, as vantagens e os inconvenientes serão os mesmos, mas com um notável aumento dos inconvenientes; além disso, participando do serviço militar, consolida com seu apoio a opressão à qual é submetido.
Mas a questão da necessidade de um governo não se pode resolver com reflexões sobre a maior ou menor utilidade do Estado ao qual os homens prestam apoio, participando do serviço militar, e muito menos com reflexões sobre as vanta- gens ou os danos da submissão ou da revolta.
Esta questão só pode ser resolvida de modo definitivo, apelando-se à consciência de cada homem a quem se apresenta, sem que ele o deseje, o serviço militar obrigatório.