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O Reino De Deus Está Em Vós





Leon Tolstoi

O recalcitrante terá as vantagens de conservar sua dignidade de homem, de ser estimado por gente honrada e, sobretudo, de ter consciência de realizar uma obra de Deus, ou seja, uma obra útil aos homens.

Tais são as vantagens e os inconvenientes, nos dois casos, para um homem da classe abastada e opressora. Quanto ao homem da classe operária pobre, as vantagens e os inconvenientes serão os mesmos, mas com um notável aumento dos inconvenientes; além disso, participando do serviço militar, consolida com seu apoio a opressão à qual é submetido.

Mas a questão da necessidade de um governo não se pode resolver com reflexões sobre a maior ou menor utilidade do Estado ao qual os homens prestam apoio, participando do serviço militar, e muito menos com reflexões sobre as vanta- gens ou os danos da submissão ou da revolta.

Esta questão só pode ser resolvida de modo definitivo, apelando-se à consciência de cada homem a quem se apresenta, sem que ele o deseje, o serviço militar obrigatório.

CAPÍTULO VIII

Aceitação inevitável pelos homens de nossa sociedade da doutrina da não-resistência ao mal

Com freqüência se diz que, se o cristianismo fosse uma verdade, deveria ter sido aceito por todos os homens desde sua aparição e instantaneamente mudar as condições da vida, tornando-a melhor. Seria como se fosse dito que a semente, a partir do momento em que pode germinar, deve dar simultaneamente o caule, a flor e o fruto.

A doutrina de Cristo não é uma jurisprudência que, sendo imposta pela violência, pode modificar de imediato a vida dos homens. É um novo conceito de vida, mais alto do que o antigo, e um novo conceito de vida não pode ser prescrito, precisa ser livremente assimilado. E só pode ser livremente assimilado de duas maneiras: uma interna, espiritual, e a outra externa, experimental.

Alguns — a minoria — com uma espécie de instinto profético, adivinham imediatamente a verdade da doutrina e seguem-na. Outros — a maioria — não chegam à verdade da doutrina e à necessidade de segui-la senão por uma longa senda de erros, experiências e sofrimentos.

A maioria da humanidade cristã chegou hoje a esta necessidade de assimilação pela via experimental externa.

Às vezes nos perguntamos se a deturpação do cristianismo, que é, ainda hoje, o principal obstáculo a sua aceitação em seu verdadeiro significado, poderia ser necessária. E, no entanto, os homens chegaram, através desta deturpação do cristianismo, à situação em que hoje se encontram e que era precisamente a condição necessária para que a maioria o pudesse aceitar, em seu verdadeiro significado.

Se o cristianismo puro houvesse sido proposto desde o início, não teria sido aceito pela maioria, que lhe teria permanecido indiferente, como hoje são indiferentes os povos da Ásia. Havendo-o aceito em sua forma deturpada, os homens foram submetidos a sua influência, segura, ainda que lenta, e, pela longa senda de erros e sofrimentos, chegaram hoje à necessidade de assimilá-lo em seu verdadeiro significado.

A deturpação do cristianismo e sua aceitação sob tal forma eram necessárias, como é necessário que a semente colocada na terra aí permaneça durante certo tempo.

O cristianismo é uma doutrina de verdade e, ao mesmo tempo, uma profecia. Há 18 séculos, o Cristo revelou a verdadeira vida e simultaneamente predisse o que se tornaria a existência dos homens se, não se amoldando a este ensinamento, continuassem a viver segundo os antigos princípios.

Ensinando, no Sermão da Montanha, a doutrina que deve guiar os homens, Cristo disse:

Assim, todo aquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática será comparado a um homem sensato que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra a casa mas ela não caiu, porque estava alicerçada na rocha. Por outro lado, todo aquele que ouve estas minhas palavras mas não as pratica será comparado a um insensato que construiu sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enxurradas, sopraram os ventos e deram contra a casa, e ela caiu. E foi grande a sua queda (Mt 7, 24-27).

E eis que, 18 séculos mais tarde, se confirmou a profecia. Não havendo seguido a doutrina de Cristo, não se tendo conformado a seu preceito da não-resistência ao mal, os homens chegaram, para seu desprazer, à iminência da ruína por ele prevista.

Os homens, freqüentemente, acreditam que a questão da não-resistência ao mal com a violência seja uma questão secundária e que se pode negligenciar. Contudo, a própria vida coloca-a diante de cada homem que pensa e reclama uma so- lução. Desde que a doutrina de Cristo foi ensinada, esta questão é, na vida social, tão importante como é para o viajante saber, no ponto em que a estrada se bifurca, qual dos dois caminhos que se lhe apresentam é o que deve seguir. É preciso ir adiante e não se pode dizer: "Não pensarei nisto e continuarei a caminhar como fiz até agora." Havia uma estrada, agora são duas: é preciso escolher.

Assim, não se pode dizer, depois que a doutrina de Cristo tornou-se conhecida pelos homens: "Viverei como antes, sem escolher entre a questão da resistência e a da não-resistência ao mal com a violência." É absolutamente necessário, a cada nova luta, decidir se devemos ou não nos opor, com violência, àquilo que consideraremos como mal.

A questão da resistência ou da não-resistência ao mal nasceu quando teve lugar a primeira luta entre os homens, porque cada luta não é senão a oposição, com violência, àquilo que cada combatente considera como um mal. Mas, antes de Cristo, os homens não percebiam que a resistência, com a violência, àquilo que cada um considera como um mal unicamente porque seu julgamento é diferente do de seu adversário é apenas um dos métodos de terminar a luta e que existe um outro: o que consiste em não se opor ao mal com a violência.

Antes de Cristo, os homens só consideravam o primeiro método e agiam de acordo, esforçando-se para se convencer e convencer os outros de que aquilo que consideravam um mal era, sem dúvida, um mal. E para tal, desde os mais remotos tempos, os homens inventaram várias definições do mal, que eram obrigatórias para todos; e estas definições foram impostas, ora como leis recebidas por via sobrenatural, ora como ordens de homens ou assembléias a que se atribuía a infalibilidade.

Alguns homens empregavam a violência contra alguns outros e persuadiam a si mesmos e aos outros de que empregavam esta violência contra um mal reconhecido como tal por todos.

Este método, cuja prepotência não foi, durante longo tempo, percebida pelos homens, foi utilizado desde as épocas mais remotas, especialmente, por aqueles que se apossaram do poder. Porém, com o progresso, quanto mais se multiplicaram as relações, mais se tornava claro que a oposição com a violência àquilo que cada um, por seu lado, considera um mal era irracional; que a luta não diminuía e que nenhuma definição humana pode fazer com que o que alguns consideram um mal seja como tal aceito por outros.

Já ao tempo da origem do cristianismo, no lugar em que pela primeira vez apareceu, no império romano, era para a maioria dos homens evidente que aquilo que Nero e Calígula consideravam um mal não poderia ser assim considerado pelos outros. Já naquela época começava-se a compreender que as leis que se fizeram passar por divinas foram escritas pelos homens, que os homens não são infalíveis, qualquer que seja a autoridade externa da qual estejam investidos, e que os homens falíveis não se podem tornar infalíveis devido unicamente ao fato de se reunirem numa assembléia à qual chamam senado ou algo semelhante. E Cristo ensinava, então, sua doutrina, que consiste não apenas no fato de que não é preciso opor-se ao mal com a violência, mas também num novo conceito de vida, cuja aplicação na vida social teria como resultado fazer desaparecer a luta entre os homens, não submetendo uma parte deles e algumas autoridades, mas proibindo que os homens, sobretudo os que estão no poder, empreguem violência contra quem quer que seja, em qualquer caso.

Esta doutrina não foi, então, aceita, senão por um número assaz restrito de discípulos. A maioria dos homens, e sobretudo os que estavam no poder, mesmo após a aceitação nominal do cristianismo, continuou a resistir com a violência ao que con- sideravam um mal. Tudo permaneceu do mesmo modo à época dos imperadores romanos e bizantinos, e ainda mais adiante.

A insuficiência de definição oficial do mal e da resistência com a violência, já evidente nos primeiros séculos do cristianismo, torna-se ainda mais clara após a divisão do império romano em vários Estados de igual força e na época das lutas entre estes e de suas lutas internas.

Mas os homens não estavam preparados para aceitar a solução de Cristo e continuavam a adotar o antigo modelo de definição do mal ao qual é preciso resistir com leis obrigatórias para todos e impostas pela força.

Ora o papa, ora o imperador, ora o rei, ora o corpo eletivo, ora o povo decidiam quanto ao que se devia considerar um mal e rechaçar com a violência. Mas, no interior e no exterior do Estado, sempre havia homens que não reconheciam como obrigatórios nem os decretos que se faziam passar pela expressão da vontade divina, nem as leis humanas às quais se dava um caráter sacro, nem as instituições que deveriam re- presentar a vontade do povo; homens que consideravam um bem aquilo que as autoridades existentes consideravam um mal, e que lutavam contra o poder.

Os homens investidos de autoridade religiosa consideravam um mal aquilo que alguns homens e algumas instituições, investidos do poder civil, consideravam um bem, e vice-versa; e a luta tornava-se cada vez mais acirrada. E quanto mais os homens empregavam a violência, mais se tornava evidente que este método é ineficaz, porque não existe e não pode existir uma definição autorizada do mal, que possa por todos ser reconhecida.

O quadro permaneceu o mesmo durante 18 séculos e, hoje, o mundo chegou à constatação cabal de que não pode existir do mal uma definição externa, obrigatória para todos. O mundo passou a não acreditar na possibilidade de encontrar esta definição, mas nem mesmo em sua utilidade, e os homens que estão no poder não mais tentam demonstrar que aquilo que consideram um mal realmente o é. O que eles consideravam um mal é o que não lhes agrada. E os homens submissos ao poder aceitam esta definição, não porque a creiam justa, mas porque não podem fazer de ou- tro modo. Não porque seja um bem necessário e útil aos homens, e porque o contrário seria um mal, mas porque aqueles que estão no poder assim o desejam. Acontece que Nice é anexada à França, a Alsácia-Lorena à Alemanha, a Boêmia à Áustria, a Polônia é desmembrada, a Irlanda e as índias são subjugadas à Inglaterra, declara-se guerra à China, matam-se africanos, os americanos perseguem os chineses, os russos oprimem os judeus, os proprietários rurais se apropriam da terra que não cultivam, e os capitalistas, do produto do trabalho alheio. Chega-se então ao fato de que uns cometem violências não mais em nome da resistência ao mal, mas em nome de seu interesse e de seu capricho, e que outros sofrem a violência não por nela verem, como antes, um meio para defendê-los do mal, mas porque não podem evitá-la.

Se o romano, se o homem da Idade Média, se o nosso russo, como o conheci há cinqüenta anos, estavam absolutamente convencidos de que a violência do poder era necessária para defendê-los do mal, que os impostos, os dízimos, a escravidão, a prisão, o knut, a deportação, as execuções capitais, a soldadesca e as guerras eram uma necessidade absoluta, é raro encontrar hoje um homem que creia que todas as violências cometidas defendam quem quer que seja do mal, que não perceba que a maior parte das violências a que é submetido ou das quais participa é, por si mesma, uma grande e inútil calamidade.

Não existe hoje um homem que não veja o quanto é inútil e injusto recolher impostos do povo trabalhador para enriquecer funcionários ociosos; o quanto é estúpido infligir uma punição a homens corruptos e fracos e deportá-los de um lugar para outro, ou aprisioná-los, uma vez que, tendo assegurada sua existência e continuando desocupados, nada fazem além de se corromperem e enfraquecerem cada vez mais; o quanto é não só estúpido e inútil mas também verdadeiramente insensato e cruel arruinar o povo com armamentos militares e dizimá-los com guerras que não podem ter qualquer explicação, qualquer justificativa. E, no entanto, estas violências continuam e são encorajadas pelos mesmos que percebem sua inutilidade, sua estupidez, sua crueldade, e que com elas sofrem.

Os governos de nosso tempo, tanto os mais déspotas como os mais liberais, tornaram-se o que Herzen tão bem denominou de Gengis Khân com telégrafo, isto é, uma organização de violência que tem por princípio o arbítrio mais grosseiro e que se aproveita, para a dominação e a opressão, de todos os aperfeiçoamentos criados pela ciência para a vida social pacífica de homens livres e iguais.

Os governos e as classes dirigentes apóiam-se hoje não sobre o direito e sequer sobre uma aparência de justiça, mas sobre uma organização tão engenhosa, graças ao progresso da ciência, que todos os homens estão presos num círculo de violência do qual não têm qualquer possibilidade de sair. Este círculo é composto de quatro métodos de ações sobre os homens. E estes métodos estão ligados entre si como os elos de uma corrente.

O primeiro método, o mais antigo, é a intimidação. Esta consiste em representar o regime atual (qualquer que seja, a república mais liberal ou a mais déspota monarquia) como algo sagrado e imutável. Como conseqüência, são punidas com as penas mais cruéis quaisquer tentativas de mudança. Este método foi empregado nos tempos antigos e o é hoje, onde quer que exista um governo: na Rússia contra os que são chamados de niilistas, na América contra os anarquistas, na França contra os imperialistas, os monarquistas, os comunistas e os anarquistas. As estradas de ferro, o telégrafo, os telefones, a fotografia, os métodos aperfeiçoados para fazer desaparecer os homens sem assassinato, encerrando-os perpetuamente em celas isoladas, onde, ocultos de todos, morrem esquecidos, e uma quantidade de outras invenções modernas de que se servem os governos dão-lhes uma força tal que, uma vez caído o poder em determinadas mãos, com a polícia oficial ou secreta, com a administração e todo o exército de inúteis, de carcereiros e carrascos cheios de zelo, não há mais qualquer possibilidade de derrubá-los, por loucos e cruéis que sejam.

O segundo método é a corrupção. Esta consiste em tomar do povo suas riquezas por meio dos impostos e distribuí-las às autoridades que, em troca, encarregam-se de manter e aumentar a opressão. Estas autoridades compradas, dos ministros aos escreventes, formam uma invencível rede de homens unidos pelo mesmo interesse: viver em detrimento do povo. Estes enriquecem tanto mais quanto maior é a submissão com que executam as ordens do governo, sempre e em toda parte, não recuando diante de qualquer obstáculo, em todos os ramos de atividade, defendendo com a palavra e com a ação a violência governamental sobre a qual está fundamen- tado seu bem-estar.

O terceiro método é aquele que não posso chamar de outro modo senão de hipnotismo do povo. Consiste em deter o desenvolvimento moral dos homens e, com diversas sugestões, mantê-los no arcaico conceito de vida sobre o qual se baseia o poder do governo. Este hipnotismo é, hoje, organizado da forma mais complexa, e sua influência vai da infância até a morte. Este hipnotismo começa nas escolas obrigatórias, criadas com este objetivo, onde se inculcam nas crianças noções que eram as de seus avós e que estão em contradição com a consciência moderna da humanidade. Nos países em que existe uma religião de Estado, ensinam-se às crianças catecismos estúpidos e blasfematórios, onde se coloca como dever a sub- missão às autoridades; nos países republicanos, ensina-se a elas a selvagem superstição do patriotismo e a mesma suposta obrigação de obedecer aos poderes. Numa idade mais avançada, este hipnotismo prossegue com o encorajamento das superstições religiosas e patrióticas. A superstição religiosa é encorajada pela criação, com o dinheiro tirado do povo, de templos, procissões, monumentos, festas, tudo isto com o auxílio da pintura, da arquitetura, da música, do incenso que inebria e, sobretudo, com a manutenção do clero, cuja missão é embrutecer os homens e mantê- los constantemente nesse estado com a ajuda do ensino, da solenidade das cerimônias, dos sermões, e também intervenção na vida privada, no nascimento, no casamento, até, pela morte. A superstição patriótica é encorajada pela criação de festas nacionais, espetáculos, monumentos e solenidades que predispõem os homens a não reconhecerem outro valor que não o de seu povo, outra grandeza que não a de seu Estado e de seus governantes, provocando, assim, a hostilidade e até mesmo o ódio contra outros povos. Além disto, os governos despóticos proíbem os livros e os discursos que iluminam o povo, e todos os homens que podem acordá-lo de seu torpor são deportados ou encerrados em prisões. E mais, todos os governos, sem exceção, escondem do povo aquilo que pode libertá-lo e encorajam o que pode corrompê-lo, como a literatura que mantém o povo na barbárie das superstições religiosas e patrióticas, ou os prazeres sensuais: espetáculos, circos, teatros, bem como os meios materiais de embrutecimento, como o tabaco e o álcool, que são a principal fonte de arrecadação do Estado. Até a prostituição é encorajada, porque não só é reconhecida, como também organizada pela maioria dos governos.

O quarto método consiste em escolher, entre todos os homens unidos e embrutecidos com a ajuda dos três métodos precedentes, um certo número de indivíduos, para torná-los instrumentos passivos de todas as crueldades necessárias ao governo. Chega-se ao ponto de embrutecê-los ainda mais e de torná-los ferozes, escolhendo-os entre os adolescentes, quando ainda não puderam formar um conceito claro de moralidade e isolando-os de todas as condições naturais da vida — a casa paterna, a família, a cidade natal, o trabalho útil —, encerram-nos em casernas, vestem-nos com trajes militares, obrigam-nos com gritos, tambores, música, objetos cintilantes a fazer diariamente exercícios físicos, propositalmente inventados. E eles caem, com estes meios, num estado de hipnose tal que deixam de ser homens e se tornam máquinas sem raciocínio, dóceis à vontade do hipnotizador. São estes jovens e fortes (atualmente todos os jovens, graças ao serviço militar obrigatório) que, hipnotizados, armados e prontos para o assassinato à primeira ordem do governo, constituem o quarto e principal método de opressão.

Com este método fecha-se o círculo da violência.

A intimidação, a corrupção, o hipnotismo criam soldados, os soldados dão o poder, o poder dá o dinheiro com que se compram as autoridades e se recrutam os soldados.

É um círculo no qual tudo se encadeia firmemente e de onde é impossível sair por meio da violência.

Aqueles que crêem possível libertar-se por meio da violência, ou somente melhorar esta situação derrubando um governo para substituí-lo por outro ao qual a opressão não será mais necessária, estão enganados, e seus esforços neste sentido, em vez de melhorar a situação, pioram-na. Suas tentativas fornecem ao governo um pretexto para aumentar seu poder e seu despotismo.

Mesmo admitindo que, em conseqüência de circunstâncias especialmente desfavoráveis ao governo, este fosse derrubado pela força, como aconteceu na França em 1870, e que o poder passasse para outras mãos, este poder não poderia ser menos opressor porque, tendo que se defender de todos os seus inimigos desapropriados e exasperados, seria constrangido a ser até mais déspota e mais cruel do que o anterior, como ocorreu durante todos os períodos revolucionários.

Se os socialistas e comunistas consideram um mal a organização individualista e capitalista da sociedade, se os anarquistas consideram um mal qualquer organização governativa, existem monarquistas, conservadores e capitalistas que consideram um mal a organização socialista, ou comunista, e a anarquia, e cada um destes partidos não tem outro meio além da violência para fundar um regime ao qual todos sejam submetidos. Qualquer que seja o partido que triunfe, este necessita, para instituir uma nova ordem e para conservar o poder, não apenas utilizar os meios de violência consagrados como também inventar novos. Os oprimidos não serão mais os mesmos; a opressão tomará novas formas e, longe de desaparecer, tornar-se-á mais cruel, porque a luta terá aumentado o ódio entre os homens.

A situação dos cristãos, e sobretudo seu ideal, provam-no com surpreendente evidência.

Só resta, hoje, um setor de domínio não exercido pelo poder: o domínio da família e da economia doméstica, o campo da vida privada e do trabalho. Mas, graças ao movimento comunista e socialista, ele é pouco a pouco invadido pelo governo, de modo que o trabalho e o repouso, o domicílio, o vestuário, o alimento, caso se concretizasse o desejo dos reformadores, não tardariam a ser sujeitos a regulamentos. Todo o longo caminho da vida das nações cristãs, durante 18 séculos, destaca necessariamente a obrigação de resolver a questão que haviam evitado, da aceitação ou da não-aceitação da doutrina de Cristo e a que dela resulta, a da resistência ou não-resistência ao mal com a violência, mas com a diferença de que, antes, os homens podiam ou não aceitá-la, enquanto hoje esta solução é inevitável, por ser a única que os pode libertar da escravidão em que, por si mesmos, se emaranharam, como numa rede.

Mas não é apenas esta cruel situação que obriga os homens a reconhecerem a doutrina de Cristo. A verdade desta doutrina tornou-se evidente, à medida que se tornou também evidente a falsidade da organização pagã.

Não em vão, durante 18 séculos, os melhores homens da humanidade cristã, compreendendo a verdade da doutrina, pregaram-na, apesar de todas as ameaças, todas as privações, todos os sofrimentos. Eles esculpiam, com seu martírio, a verdade da doutrina no coração dos outros homens.

O cristianismo penetrava na consciência não só através do caminho negativo da demonstração da impossibilidade da vida pagã, mas principalmente pela simplificação, pela clareza, pela libertação das superstições às quais estava enredada e pela sua difusão em todas as classes.

Não transcorreram 18 séculos de cristianismo sem ter uma influência sobre os homens que o aceitaram também de forma externa. Estes 18 séculos fizeram com que, mesmo continuando a viver a vida pagã que não mais corresponde à idade da humanidade, os homens percebessem nitidamente toda a miséria da situação e acreditassem, no fundo da alma (só vivem porque crêem), que a salvação está apenas na observância da doutrina cristã em todo seu significado. Quando e como será obtida a salvação? As opiniões são várias, conforme o desenvolvimento intelectual e os preconceitos de cada ambiente. Mas cada homem de nossa sociedade culta reconhece que nossa salvação está na doutrina cristã. Alguns, entre os fiéis que admitem o caráter divino da doutrina, pensam que a salvação virá quando todos acreditarem em Cristo, cuja segunda vinda está próxima; outros, que reconhecem igualmente a divin- dade da doutrina de Cristo, crêem que a salvação virá da igreja, que ela sujeitará todos os homens, inculcar-lhes-á as virtudes cristãs e transformará suas vidas; outros ainda, que não reconhecem Cristo como Deus, crêem que a salvação será uma conseqüência do progresso lento e gradual que pouco a pouco substituirá os princípios da vida pagã, pela igualdade, pela liberdade e pela fraternidade, ou seja, pelos princípios cristãos; outros, finalmente, que têm fé na reorganização social, crêem que a salvação virá quando, após uma revolução, os homens forem obrigados a viver sob o regime da comunhão de bens, sob a ausência de qualquer governo, e do trabalho coletivo e não-individual, isto é, quando se houver efetivado um dos aspectos da doutrina cristã. De um modo ou de outro, todos os homens de nosso tempo não só reconhecem no íntimo de sua consciência a insuficiência da ordem atual que chega ao fim, mas também reconhecem, muitas vezes sem suspeitá-lo e mesmo considerando- se adversários do cristianismo, que a salvação está na aplicação, na vida, da doutrina cristã ou de uma parte da doutrina em seu verdadeiro significado.

O cristianismo, como disse seu fundador, não teve a possibilidade de efetivar- se de uma só vez para a maioria, mas precisou crescer lentamente, como uma grande árvore, saída de uma pequena semente. E assim cresceu e desenvolveu-se até hoje, senão na realidade externa, ao menos na consciência dos homens.

Hoje, não é mais apenas a minoria, a que sempre compreendeu a doutrina, que reconhece seu verdadeiro significado, mas toda a grande maioria, aparentemente tão distante do cristianismo por sua vida social.

Observe os costumes dos indivíduos isolados, escute sua avaliação dos fatos, seu julgamento de uns e outros, escute até os sermões e os discursos públicos, os ensinamentos que pais e educadores dão à juventude, e verão que, por mais distantes que estejam os homens, devido a sua vida social baseada na violência, da efetivação da verdade cristã, na vida privada o que todos consideram como bom é o conjunto das virtudes cristãs, e como ruim todo vício anticristão. Aqueles que se dedicam com abnegação ao serviço da humanidade são considerados os melhores. Os egoístas, os que se aproveitam da desventura alheia, são considerados os piores. Certos ideais não-cristãos, como a força, a coragem, a riqueza, existem ainda, mas já estão ultrapassados e não mais são aceitos por todos. Ao contrário, os que são universalmente reconhecidos e obrigatórios para todos nada mais são do que os ideais cristãos.

A situação de nossa humanidade cristã, se possível fosse observá-la de fora, com a crueldade e com todo servilismo dos homens, parecer-nos-ia realmente terrível. Mas, se fosse observada com os olhos da consciência, o espetáculo seria inteiramente diverso.

Todo o mal de nossa vida parece existir apenas porque existe há longo tempo e porque os homens que o cometem ainda não puderam aprender a não mais fazê-lo, pois na realidade não o querem fazer.

Todo este mal parece ter uma causa independente da consciência dos homens. Por estranho e contraditório que possa parecer, não é menos verdade que todos os homens de nosso tempo detestam o regime que, entretanto, sustentam.

Creio ser Max Muller quem conta a surpresa de um índio convertido ao cristianismo, do qual tinha assimilado a essência, e que, vindo à Europa, viu como viviam os cristãos. Ficou perplexo diante da realidade tão absolutamente oposta ao que imaginara encontrar entre os povos cristãos. Nós não nos maravilhamos com a contradição que existe entre nossas crenças e as instituições e costumes, porque as influências que ocultam esta contradição agem também sobre pos. Se apenas observássemos nossa vida do ponto de vista daquele índio que havia compreendido o cristianismo em seu verdadeiro significado, se olhássemos de frente essa barbárie selvagem de que nossa vida é repleta, recuaríamos aterrorizados diante das contradições em meio às quais vivemos sem perceber.

Basta lembrar os preparativos de guerra, as granadas, as bombas prateadas, as minas... e a cruz vermelha; as prisões celulares, as experiências de eletroexecução... e a preocupação com o bem-estar dos prisioneiros; a atividade filantrópica dos ricos... e sua vida que produz os pobres aos quais prestam socorro. E estas contradições não provêm, como se poderia acreditar, do fato de que os homens fingem ser cristãos, enquanto, ao contrário, são pagãos, mas do fato de que os homens sentem que lhes falta algo, ou que existe uma força que os impede de ser aquilo que deveriam e gostariam de ser. Os homens de nosso tempo não demonstram odiar a opressão, a desigualdade, a desunião e todas as crueldades contra os homens e até contra os animais; não, eles realmente detestam tudo isso, mas não sabem como fazê- lo desaparecer, e não se decidem a abandonar o que mantém tudo isso e que lhes parece necessário.

De fato, pergunte a cada indivíduo, separadamente, se ele considera louvável e digno de um homem de nosso tempo ter uma ocupação que rende um ordenado desproporcional ao seu trabalho; exigir do povo — muitas vezes miserável — taxas destinadas a pagar canhões, navios de guerra, instrumentos de morte para combater homens com os quais queremos viver em paz e que têm o mesmo desejo; ou dedicar toda a vida, por um ordenado, a organizar a guerra ou a se preparar e preparar os outros para o massacre. Pergunte-lhe também se é louvável e digno, ou mesmo conveniente, a um cristão ter por ocupação remunerada a de prender pobres marginais, muitas vezes analfabetos, bêbados, com o pretexto de que se apropriaram dos bens alheios, em proporções muito menores do que nós, ou por matarem de modo diferente daquele que nos é habitual; aprisioná-los, torturá-los, matá-los por isto? É louvável, é digno do homem e do cristão, sempre por dinheiro, ensinar ao povo, ao invés do cristianismo, flagrantes superstições, grosseiras e perigosas? É louvável e digno do homem tomar por prazer aquilo que é indispensável às necessidades primárias do próximo, como fazem os grandes proprietários de terras? Ou obrigá-lo a um trabalho superior a suas forças, como fazem os proprietários de usinas ou de fá- bricas para aumentar suas posses? Ou se aproveitar das necessidades dos homens para aumentar a própria riqueza, como fazem os negociantes? E cada um deles, isoladamente, sobretudo ao falar de um outro que não seja ele, responderá que não. E, contudo, o mesmo homem que vê toda a ignomínia destes atos, aos quais não é forçado por quem quer que seja, com freqüência sem proveito material de um ordenado, por uma simples vaidade pueril, por uma ninharia de esmalte, por um pedaço de fita, por um galão que lhe será permitido usar, alistar-se-á voluntariamente no serviço militar; far-se-á juiz instrutor ou juiz de paz, ministro, comissário, arcebispo ou bedel, funções que o obrigarão a cometer atos dos quais não pode ignorar a desonra e a ignomínia.

Sei que muitos destes homens tentarão provar com desenvoltura que tudo isto é não só legítimo, mas também necessário. Dirão, em sua defesa, que as autoridades vêm de Deus, que as funções do Estado são necessárias para a felicidade da humanidade, que a riqueza não é contrária ao cristianismo, que foi dito ao rico adolescente que não desse seus próprios bens a não ser caso desejasse alcançar a perfeição, que a distribuição das riquezas e o comércio elevem existir tal como são e que beneficiam a todos; mas, apesar de todos os esforços para se enganar e enganar os outros, todos estes homens sabem que o que fazem é contrário àquilo em cujo no- me vivem e, no íntimo do coração, quando ficam a sós com sua consciência, envergonham-se e sofrem com as recordações de suas ações, sobretudo quando outros lhes demonstram suas vilanias. Professe ou não a divindade de Cristo, o homem de nosso tempo não pode ignorar que participar, seja como soberano, seja como ministro, prefeito ou guarda campestre, da venda da última vaca de uma pobre família para satisfazer o fisco, e empregar este dinheiro na compra de canhões ou em ordenados e pensões de autoridades ociosas e inúteis, que vivem no luxo; ou participar da prisão de um pai de família, que nós mesmos corrompemos, e reduzir sua família à men- dicância; ou participar de saques e massacres de guerra; ou participar do ensinamento de superstições bárbaras, iconólatras, em lugar da Lei de Cristo; ou apoderar-se da vaca que entrou em nossa propriedade e cujo dono não possui terra; em fazer um pobre pagar por um objeto o dobro de seu valor pelo único fato de que ele é pobre: nenhum homem pode ignorar que todas essas ações são más, vergonhosas. Todos sabem que aquilo que fazem é mau, e por nada no mundo falo-iam, caso pudessem reagir contra as forças que, fechando seus olhos para a criminalidade destas ações, levam-nos a cometê-las.

Nada mais do que o serviço militar obrigatório torna evidente a contradição que sofrem os homens de nosso tempo; é a última expressão da violência.

Se não percebemos esta contradição não é porque este estado de armamento mundial adveio progressivamente, insensivelmente, e porque os governos dispõem para mantê-lo de todos os meios de intimidação, de corrupção, de embrutecimento e de violência. Esta contradição tornou-se, para nós, tão habitual que não vemos toda a estupidez e a terrível imoralidade das ações dos homens que escolhem livremente a profissão de matadores como algo honrado, ou daqueles desgraçados que consentem em servir o exército, ou até daqueles que, em países onde não existe o serviço militar obrigatório, abandonam seu trabalho pelo recrutamento de soldados e pelos preparativos do massacre.

São todos cristãos, ou homens que professam a humanidade ou o liberalismo, e sabem que, cometendo essas ações, participam dos assassinatos mais insensatos, mais inúteis, mais cruéis.

Mais ainda, na Alemanha, o berço do serviço militar obrigatório, Caprivi exprimiu o que se ocultava cuidadosamente: que os homens a serem mortos não serão apenas estrangeiros, mas conterrâneos — os mesmos operários que dão origem ao maior número de soldados. E esta confissão não abriu os olhos dos homens, não os aterrorizou! E depois, como antes, marcham como ovelhas e submetem-se a tudo o que deles se espera.

Mas há ainda melhor: o imperador da Alemanha explicou recentemente, com maior precisão, a missão do soldado, agradecendo e recompensando um soldado que havia matado um prisioneiro, que indefeso, tentava fugir. Recompensando uma ação sempre considerada como vil e infame, até mesmo por homens do mais baixo grau de moralidade, Guilherme II mostrou que o dever principal e mais apreciado do soldado é ser carrasco, e não como um carrasco profissional que só mata os criminosos condenados, mas carrasco de todos os inocentes que o chefe lhe ordena matar.

Mas ainda não é tudo. Em 1892, o mesmo Guilherme, o enfant terrible do poder, que diz em voz alta o que outros se contentam em pensar, disse publicamente o que se segue, reproduzido no dia seguinte por um sem-número de jornais.

Recrutas! Diante do altar e do servo de Deus, vós me haveis jurado lealdade! Sois ainda demasiado jovens para compreender toda a importância do que aqui foi dito, mas cuidai antes de tudo de obedecer às ordens e às instruções que vos serão dadas. Vós me haveis jurado, jovens da minha guarda; agora sois portanto meus soldados, a mim pertenceis, pois, de corpo e alma. Para vós, hoje, não existe senão um inimigo, aquele que é meu inimigo. Com os atuais ardis socialistas, poderia ocorrer que eu vos ordenasse dispararem vossos parentes, em vossos irmãos, também em vossos pais, em vossas mães (que Deus não permita!); ainda assim devereis obedecer às minhas ordens sem hesitar.

Este homem exprime tudo aquilo que os governantes inteligentes pensam, mas cuidadosamente ocultam. Diz abertamente que aqueles que servem o exército estão a seu serviço e devem estar prontos, para seu benefício, a matar seus irmãos e seus pais.

Com as palavras mais brutais, exprime francamente o horror do delito para o qual se preparam os homens que servem o exército, todo o abismo de humilhações na qual se precipitaram, prometendo obediência.

Como um hipnotizador audaz, ele experimenta o grau de insensibilidade do hipnotizado. Aplica-lhe sobre a pele um ferro ardente; a pele fumega, enruga, mas o entorpecido não acorda.

Guilherme II, um doente, miserável, ébrio de poder, ofende com estas palavras tudo o que pode haver de sagrado para o homem moderno, e os cristãos, os livres- pensadores, os homens cultos, todos, longe de se indignarem com esta ofensa, sequer levam-na em consideração. A última, a extrema prova é proposta aos homens, em sua forma mais grosseira. Eles sequer percebem que se trata de uma prova, que têm uma escolha a fazer; sabem que nada têm a fazer além de docilmente se submeterem. Poder-se-ia pensar que estas palavras insensatas que ofendem tudo o que o homem tem de sagrado devessem indigná-los; mas não. Todos os jovens de toda a Europa são submetidos a esta prova e, salvo raras exceções, renegam tudo o que existe de sagrado e aceitam de bom grado a perspectiva de abrir fogo sobre seus irmãos e pais, para obedecer à ordem do primeiro louco que aparecer, ridiculamente vestido com um uniforme com galões vermelhos e dourados.

Um selvagem qualquer tem sempre algo sagrado pelo qual está pronto a sofrer. Onde está então este algo sagrado para o homem moderno? Dizem-lhe: "Serás meu servo, e esta servidão obrigar-te-á a matar também o teu próprio irmão" — e ele, por vezes até muito instruído, entrega tranquilamente seu pescoço aos arreios. Vestem-lhe um traje grotesco, ordenam-lhe que pule, faça gestos, reverencie, mate, e ele tudo faz docilmente. E, quando o exoneram, ele retorna, como se nada tivesse acontecido, à antiga vida e continua a falar da dignidade do homem, da liberdade, da igualdade, da fraternidade! "Mas o que fazer?" — pergunta alguém, por vezes, com sincera perplexidade.

"Caso todos se recusassem a prestar o serviço militar, eu compreenderia, mas só eu apenas sofrerei sem utilidade para quem quer que seja?" E é verdade; o homem que segue conceito social da vida não pode recusar. O objetivo de sua vida é a felicidade. Para ele, pessoalmente, é melhor submeter-se, e submete-se.

Seja o que lhe for feito, qualquer sofrimento, qualquer humilhação por que deva passar, submeter-se-á, porque sozinho nada pode, pois não tem um princípio em nome do qual poderia se opor, sozinho, à violência. E unir-se, eles não podem; estão impedidos de fazê-lo por aqueles que os dirigem.

Diz-se muitas vezes que a invenção de terríveis armas de guerra acabará por tornar a guerra impossível. É falso. Assim como se podem aumentar os meios de extermínio, podem-se aumentar os meios de submeter os homens ao conceito social. Matai-os aos milhares, aos milhões, fazei-os em pedaços, eles irão da mesma forma ao massacre como um rebanho estúpido. Far-se-ão caminhar sendo chicoteados por uns e autorizados por outros a usar pedaços de fitas e galões.

E é com uma sociedade assim, composta de homens embrutecidos a Donto de prometer matar os próprios parentes, que certos homens públicos — conservadores, liberais, socialistas, anarquistas — desejariam construir uma sociedade racional e moral. Como com traves contorcidas e podres não é possível construir uma casa, assim com homens desta espécie não é possível organizar uma sociedade moral e racional. Estes podem constituir apenas uma manada dirigida com gritos e o chicote do pastor. E é o que acontece.

E eis, de um lado, os homens que se dizem cristãos, feitores da liberdade, da igualdade, da fraternidade, ei-los prontos, em nome da liberdade, para uma submissão das mais humilhantes, das mais servis; em nome da igualdade, dividir os homens, somente pelos indícios externos e ilusórios, em classes superiores e inferiores, em aliados e inimigos, e em nome da fraternidade matar seus irmãos.1 A contradição entre a consciência e a vida e, portanto, o desdobramento de nossa existência, atingiram seu limite extremo. A organização da sociedade baseada na violência, que tinha o objetivo de assegurar a vida doméstica e social, conduziu os homens à perfeita negação e ao aniquilamento destas vantagens.

A primeira parte da profecia confirmou-se com uma série de gerações que não aceitaram a doutrina evangélica, e seus descendentes chegaram hoje à absoluta necessidade de experimentar a exatidão da segunda parte.

1O fato de que, entre certos povos, como os ingleses e os americanos, não exista serviço militar obrigatório (embora já algumas vozes se levantem para exigi-lo) em nada muda a situação servil dos cidadãos para com os governos. Em nosso país, cada qual deve ir pessoalmente matar ou se fazer matar; no país deles, cada um deve dar seu trabalho para o recrutamento e para a instrução dos assassinos.

CAPÍTULO IX

A aceitação do conceito cristão da vida preserva os homens dos males de nossa vida pagã

A situação das nações cristãs em nossa época é tão penosa quanto na era pagã. Sob muitos aspectos e em especial sob o ponto de vista da opressão, é ainda mais cruel.

Mas, entre a situação dos homens da Antiguidade e a dos homens de hoje, existe a mesma diferença que entre as plantas dos últimos dias do outono e dos primeiros dias da primavera. Na natureza outonal, a decrepitude aparente corresponde à real decadência interna; mas, na primavera, encontra-se em sensível contradição com o estado de animação interna, porquanto está de passagem para uma nova expressão de vida.

O mesmo ocorre com a semelhança externa entre as vidas pagã e as de hoje: o estado moral dos homens é absolutamente diverso. Naquele tempo, o regime de escravidão e crueldade estava em perfeito acordo com a consciência dos homens, e cada passo à frente ampliava este acordo; agora, o regime atual está em absoluta contradição com a consciência cristã, e cada passo à frente amplia esta contradição.

Resultam daí sofrimentos inúteis. Dir-se-ia um parto difícil: tudo está pronto para uma nova vida, mas esta tarda a aparecer.

A situação parece sem saída; e assim seria na realidade, se o homem não fosse capaz, por um conceito mais alto de vida, de livrar-se desses laços que parecem atá-lo fortemente.

E este conceito mais alto é o do cristianismo, enunciado há 18 séculos.

Bastaria que o homem assimilasse este conceito para ver tombarem sozinhas as correntes que lhe parecem tão fortes e sentir-se, de repente, inteiramente livre, como um pássaro que alça voo pela primeira vez.

Fala-se de libertar a igreja da tutela do Estado, de dar liberdade aos cristãos. Há nisto um mal-entendido. A liberdade não pode ser concedida nem roubada aos cristãos: é sua propriedade inalienável; e ao falar em dá-la ou retomá-la, trata-se evidentemente não dos verdadeiros cristãos, mas daqueles que apenas usam este nome. O cristão não pode deixar de ser livre, porque nada e ninguém pode deter ou até retardar seu caminho para o objetivo por ele preestabelecido.! Para sentir-se livre de qualquer poder humano, bastaria que o homem concebesse sua vida segundo a doutrina de Cristo, ou seja, compreendesse que sua vida não pertence nem a ele mesmo, nem a sua família, nem a sua pátria, mas somente Àquele que a concedeu, e que, portanto, deve observar não a lei de sua personalidade, de sua família ou de sua pátria, mas a lei que nada limita, a lei d'Aquele do qual provém. Bastar-lhe-ia compreender que o objetivo de toda a vida é observar a lei de Deus porque, diante desta lei que dá origem a todas as outras, todas as leis humanas assumiriam seu cará-ter obrigatório.

O cristão liberta-se, assim, de qualquer poder humano pelo fato de que considera a lei do amor, inata em cada um de nós e tornada consciente por Cristo, como a única norma de vida. Ele pode ser atingido pela violência, privado de sua liber- dade material, dominado pelas paixões (aquele que comete pecado é escravo do pecado), mas não pode deixar de ser livre, não pode ser obrigado, por qualquer perigo ou por qualquer ameaça, a cometer uma ação contrária a sua consciência. Ele não pode ser coagido porque as privações e sofrimentos, ocasionados pelo conceito social da vida, que são tão fortes contra os homens, não agem sobre ele. As privações e sofrimentos, que roubam aos homens, por meio do conceito social, a felicidade para a qual vivem, longe de comprometer a do cristão, que reside no cumprimento da vontade de Deus, tornam-na ao contrário mais intensa, porque ele sofre por Deus.

Por isso o cristão não pode cumprir os mandamentos da lei externa, quando não estão de acordo com a lei divina do amor, como acontece com as exigências dos governos, e não pode sequer submeter-se a quem quer que seja ou ao que quer que seja, nem reconhecer qualquer submissão.

A promessa de submissão a qualquer governo — este ato considerado como a base da vida social — é a negação absoluta do cristianismo, porque prometer antecipadamente ser submisso às leis elaboradas pelos homens significa trair o cris- tianismo, que não reconhece, em todas as ocasiões da vida, senão a única lei divina do amor.

À época do antigo conceito, era possível prometer cumprir a vontade do poder sem infringir a de Deus que consistia na circuncisão, na observância do dia de sábado, na abstenção de certos alimentos. Uma coisa não contradizia a outra. Eis exatamente o que distingue a religião cristã daquelas que a precederam. Ela não reclama do homem determinados atos negativos externos, mas coloca-o, em relação a seus semelhantes, numa outra posição, da qual podem resultar atos muito diferentes que não se poderiam definir antecipadamente. Por isso o cristão não pode prometer cumprir uma vontade alheia sem saber em que ela consiste, nem obedecer às leis humanas variáveis, nem prometer fazer ou não algo num determinado tempo, porque ele ignora em que momento a lei cristã do amor, para a qual vive, pedir-lhe-á algo e o que lhe pedirá. Com tal promessa, o cristão declararia que a lei de Deus não é mais a única lei de sua vida.

O cristão que prometesse obedecer às leis humanas seria como um operário que, começando a servir um patrão, prometesse ao mesmo tempo obedecer às ordens de um estranho. Não é possível servir dois patrões simultaneamente.

O cristão liberta-se do poder humano pelo fato de que reconhece somente a vontade de Deus. E esta libertação acontece sem lutas, não pela destruição das formas atuais de vida, mas pela modificação do conceito de vida. Esta libertação ocor- re porque o cristão, submetido à lei do amor a ele revelada pelo Mestre, considera qualquer violência inútil e condenável, e também porque as privações e os sofrimentos que dominam o homem social são para ele apenas condições inevitáveis da existência e porque suporta pacientemente, sem se rebelar, as doenças, a carestia e as outras calamidades.

O cristão age segundo a profecia adotada por seu Mestre: "Ele não discutirá nem clamará; nem sua voz nas ruas se ouvirá. Ele não quebrará o caniço rachado nem apagará a mecha que ainda fumega, até que conduza o Direito ao Triunfo" (Mt 12,19-20).

O cristão não disputa com outrem, não ataca o próximo, não usa de violência para com ninguém. Ao contrário, suporta a violência com resignação e, assim, se liberta e liberta o mundo de qualquer poder externo.

"Conhecereis a verdade e a verdade vos salvará." Caso houvesse dúvidas de que o cristianismo é uma verdade, a liberdade perfeita, experimentada sem restrições pelo homem tão logo este assimile o conceito cristão de vida, seria uma indiscutível prova de sua verdade.

Os homens, em seu atual estágio, assemelham-se a um enxame suspenso num ramo. Sua situação é provisória e deve, a qualquer custo, ser modificada. É preciso que ele voe e procure outra habitação. Cada uma das abelhas sabe disto e deseja mudar esta situação, mas estão presas umas às outras e não podem voar todas juntas, e o enxame permanece suspenso. Parece que não haveria saída nem para as abelhas, nem para os homens presos na rede do conceito social, se cada um não fosse dotado da faculdade de assimilar o conceito cristão.

Se nenhuma abelha levantasse voo sem esperar pelas outras, o enxame nunca mudaria de lugar, e se o homem que assimilou o conceito cristão não vivesse segundo este conceito, a humanidade nunca mudaria sua situação. Mas, como basta que uma abelha abra as asas e voe, para que uma segunda, uma terceira, uma décima, uma centésima, a sigam, e, assim, todo enxame levantará voo livremente; do mesmo modo bastaria que um só homem vivesse segundo os ensinamentos de Cristo para que um segundo, um terceiro, um centésimo seguissem seu exemplo, fazendo desaparecer o círculo vicioso da vida social, do qual não parece haver saída.

Mas os homens acham esse método muito longo e buscam um outro que os possa libertar a todos de uma só vez. Seria como se as abelhas achassem muito demorado desprenderem-se uma a uma e quisessem que todo o enxame levantasse voo de uma só vez. Mas isto é impossível, e enquanto a primeira, a segunda, a terceira, a centésima não abrirem as asas e voarem, todo o enxame permanecerá imóvel. Enquanto cada cristão não viver isoladamente segundo sua doutrina, as novas formas de vida não se estabelecerão.

Um dos mais estranhos fenômenos de nosso tempo é que a propaganda da escravidão, feita por governos que dela precisam, é também feita por partidários das teorias sociais que se consideram apóstolos da liberdade.

Estes homens anunciam que a melhoria das condições de vida, o acordo entre a realidade e a consciência, ocorrerá não em conseqüência de esforços pessoais de indivíduos isolados, mas com uma violenta reorganização da sociedade, que se pro- duzirá por si só, não se sabe como. Dizem que não devemos caminhar para o objetivo com nossas próprias pernas, mas que é preciso esperar que se introduza sob nossos pés uma espécie de chão móvel que nos levará para onde devemos ir. Por isso devemos permanecer parados e dirigir todos nossos esforços para a criação desse chão imaginário.

Do ponto de vista econômico, sustenta-se uma teoria que pode ser formulada assim: "Quanto pior, melhor." Diz-se que quanto maior a concentração do capital e, em conseqüência, maior opressão dos trabalhadores, tanto mais próxima estará a libertação. Qualquer esforço pessoal para se libertar da opressão do capital é, portanto, inútil. Do ponto de vista político, prega-se que quanto maior o poder do Estado que se deve apoderar do domínio ainda livre da vida doméstica, tanto melhor irão as coisas; por isso é preciso pedir a intervenção do governo na vida doméstica. Do ponto de vista da política internacional, afirma-se que o aumento dos meios de destruição conduzirá à necessidade do desarmamento através de congressos, tribunais, arbitragem etc. E — curioso! — a inércia dos homens é tanta que aceitam estas teorias, embora todo o curso da vida, cada passo à frente, prove sua falsidade.

Os homens sofrem com a opressão e lhes é aconselhado procurar, para melhorar sua situação, métodos gerais que serão aplicados pelo poder ao qual devem continuar a se submeter. É mais evidente, contudo, que desta forma nada seria feito, pois, além de aumentar a força do poder e a intensidade da opressão, nenhum outro erro dos homens afasta-os mais do objetivo a que aspiram. Fazem toda espécie de tentativas e inventam toda espécie de métodos complicados para mudar a situação, mas não fazem o que seria necessário, não usam o método mais simples que consiste em não fazer aquilo que cria esta situação.

Contaram-me a história de um audacioso comissário de polícia que, chegando num vilarejo onde os camponeses haviam se rebelado e para onde haviam sido convocadas tropas, teve a idéia de reprimir sozinho a oposição a Nicolau I, unicamente com sua influência pessoal. Ordenou que fossem trazidas algumas carroças com varas e, fechando-se num celeiro com os camponeses, a tal ponto aterrorizou-os com suas imprecações que os obrigou a se açoitarem uns aos outros. Esta execução continuou até o momento em que um jovem abobalhado recusou-se a prosseguir e aconselhou os outros a resistir. Somente então cessou o suplício e o comissário precisou fugir.

Contudo, os homens não conseguem seguir os conselhos de um abobalhado. Continuam a fustigar uns aos outros e declaram que nisto consiste a última palavra da sabedoria humana.

A docilidade com que os homens de nosso tempo se submetem a funções que os reduzem à escravidão e, em especial, ao serviço militar obrigatório, não será talvez o mais surpreendente exemplo de execução voluntária? Os homens submetem-se por si mesmos: sofrem, mas acreditam que assim deva ser e que isto não impedirá a libertação da humanidade, que em algum lugar se prepara, não se sabe como, e a despeito da opressão sempre crescente.

De fato, o homem moderno, quem quer que seja (não falo do verdadeiro cristão), instruído ou ignorante, fiel ou ateu, rico ou pobre, casado ou solteiro, vive ocupado com seus afazeres ou com seus prazeres, consumindo o fruto de seu trabalho ou do trabalho alheio, temendo a pobreza e as privações, o ódio e os sofrimentos. Assim vive, tranquilamente. De repente, alguns indivíduos entram em sua casa e dizem: 1 — Promete e jura que nos obedecerás servilmente em tudo aquilo que te ordenarmos, e que considerarás como verdades indiscutíveis tudo o que imaginarmos e decidirmos e que chamarmos de leis; 2 — Dá-nos uma parte do produto de teu trabalho, a fim de que, com este dinheiro, nós te mantenhamos na servidão e te impeçamos de resistir a nossas ordens com a violência; 3 — Escolhe, elege ou faz-te eleger como hipotético participante do governo, porém sabendo muito bem que a administração será executada independentemente dos discursos idiotas que pronunciarás nas assembléias de homens, teus pares, pois que a mesma será feita segundo a vontade daqueles que têm nas mãos as forças armadas; 4 — Vem em determinadas datas ao tribunal e participa de todas as insensatas crueldades que cometemos contra homens, por nós mesmos desencaminhados ou corrompidos, sob a forma de prisão, reclusão e execução; 5 — Enfim, e sobretudo por melhores que sejam tuas relações com os homens de outras nações, tão logo ordenemos, considera-os como teus inimigos e concorre pessoalmente ou por meio de um mercenário para arruiná-los, fazê-los prisioneiros e matá-los, homens, mulheres, crianças, velhos, talvez mesmo teus compatriotas e até parentes, se for o caso.

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