O que, a isso, poderia responder qualquer homem de bom senso? Mas por que o faria? Deveria dizer: porque prometerei obedecer hoje a Salisbury, amanhã a Gladstone; hoje a Boulanger, amanhã a uma câmara composta por homens iguais a Boulanger; hoje a Pedro III, amanhã a Catarina II, depois de amanhã, ao impostor Pugatscev; hoje ao louco rei da Baviera, amanhã a Guilherme? Por que prometerei obedecer a homens notoriamente maus e levianos, ou que me são absolutamente desconhecidos? Por que, sob forma de imposição, entregar-lhes-ia o produto de meu cansaço, sabendo que este dinheiro serve para comprar autoridades, fabricar prisões e igrejas, manter o exército e outras coisas ruins destinadas a oprimir- me? Por que iria, por vontade própria, lutar com lanças? Por que, perdendo meu tempo e atribuindo aos violentos uma aparente legitimidade, participaria de eleições, ou me imaginaria participando do governo, quando sei, sem sombra de dúvida, que a administração do Estado está nas mãos daqueles que dispõem do exército? Por que participaria do castigo de homens marginais sabendo, se sou cristão, que a lei da vingança é substituída pela lei do amor e, se sou um homem culto, que o castigo não melhora os homens, mas só os torna piores? Por que iria pessoalmente ou por meio de um suplente matar e roubar, expondo-me pessoalmente ao perigo da luta, simplesmente porque as chaves do templo de Jerusalém estão com este ou aquele arcebispo, ou porque tal alemão, e não um outro, deve ser o príncipe da Bulgária, ou porque as focas são capturadas por pescadores ingleses e não por pescadores americanos? E, sobretudo, por que iria eu mesmo, ou com uma força armada por mim paga, ajudar a opressão e o assassinato de meus irmãos ou de meu pai? Tudo isto me é inútil, nocivo, e tudo isto é a conseqüência de um princípio imoral e vil. Se me é dito que sem tudo isto deverei sofrer violências, parece-me certo, antes de tudo, que nada é mais cruel do que aquilo que sofro obedecendo, e é evidente que não haveria ninguém para nos flagelar se não o fizéssemos nós mesmos. Pois o governo é formado por soberano, ministros, funcionários, que, armados de canetas, não podem sozinhos me obrigar ao que quer que seja, como aquele comissário aos rebeldes camponeses; não são eles que me arrastarão à força, diante de um tribunal, à prisão, ao patíbulo, e sim homens liguais a mim, da mesma condição, e aos quais serem açoitados desagrada tanto quanto a mim. É, portanto, provável que, se lhes abro os olhos para nossa posição, não só não me farão violência alguma como, ao contrário, seguirão meu exemplo. Mas, supondo que eu deva sofrer por este motivo, ainda assim seria para.mim mais vantajoso ser deportado ou aprisionado, defendendo o bom senso e o bem, em vez de sofrer pela imbecilidade e pelo mal que devem desaparecer amanhã, se não hoje.
Parece razoável supor que, na falta do sentimento religioso ou moral, o simples raciocínio e o cálculo deveriam levar qualquer homem a assim agir. Pois bem, não. Os homens defensores do conceito social consideram inútil e até nocivo agir assim para libertarem-se da escravidão e que, como os camponeses de há pouco, devemos continuar a nos fustigar uns aos outros, consolando-nos com o fato de que tagarela- mos nas assembléias e nas reuniões, de que formamos sociedades operárias, de que festejamos o 1º de Maio, de que conjuramos e de que, em segredo, fazemos gestos indecorosos ao governo que nos açoita.
Nada se opõe tanto à libertação dos homens quanto este inconcebível desvio. Em vez de induzir a cada homem a se libertar por si mesmo, mudando o próprio conceito de vida, procura-se um modo geral externo e nada se faz além de acorrentá- los mais fortemente. Seria como se, para fazer fogo, tentássemos arrumar os pedaços de carvão de modo a acendê-los todos de uma só vez.
Torna-se, todavia, mais evidente que a libertação dos homens ocorrerá precisamente com a libertação de cada indivíduo. Esta libertação de indivíduos isolados, em nome do conceito cristão, fenômeno muito raro e que passava desper- cebido em tempos idos, tornou-se muito mais freqüente nestes últimos anos e bastante mais perigoso para o poder.
Se acontecia, na Antiguidade, na época romana, que um cristão se recusasse a tomar parte nos sacrifícios ou ajoelhar-se diante dos imperadores ou dos ídolos, ou, na Idade Média, a prostrar-se diante dos ícones ou a reconhecer o poder do papa, estes casos eram excepcionais: o homem podia ser coagido a confessar sua fé, mas podia também terminar sua vida sem ter sido confrontado uma só vez com esta obrigação.
Hoje, todos os homens, sem exceção, são submetidos a estas provas de fé.
Devem participar das crueldades da vida pagã, ou a elas se recusar. Além disso, na Antiguidade, a recusa a prostrar-se diante dos deuses, dos ícones ou do papa não tinha uma importância considerável para o Estado, pois o número dos fiéis ou dos incrédulos não podia influir sobre sua potência. Hoje, ao contrário, a recusa a satisfazer as exigências anticristãs dos governos ameaça o poder no seu próprio princípio, pois este está baseado nestas exigências.
O curso da vida conduziu os governos a uma situação tal que, para manter-se, devem pedir aos homens atos que estão em desacordo com a verdadeira doutrina cristã. Por isso cada verdadeiro cristão compromete a existência da organização social atual e deve infalivelmente apressar a libertação de todos.
Que importância pode ser atribuída à recusa de algumas dúzias de loucos, como os chamam, a prestar juramento ao governo, a pagar impostos, a participar da justiça do Estado e a servir o exército? Esta gente é punida, enviada à prisão perpétua, e a vida continua seu curso, como antes. Entretanto, são estes fatos, mais que qualquer outro, que comprometem o poder e preparam a libertação dos homens. São as abelhas isoladas, primeiro desprendidas do enxame, que volteiam a seu redor, esperando o que não pode tardar: que todo o enxame pouco a pouco se desprenda. E os governos sabem disso e temem estes exemplos mais do que temem todos os so- cialistas, comunistas e anarquistas com suas conspirações e sua dinamite.
Um novo reinado principia: é regra que todos os súditos prestem juramento ao novo soberano. Com tal propósito, são todos reunidos nas igrejas. E eis que um homem em Perma, um outro em Tuia, um terceiro em Moscou, um quarto em Kalunga declaram recusar-se a prestar juramento, e os quatro, sem que tivessem combinado antes, explicam do mesmo modo suas recusas, isto é, que segundo a lei cristã é proibido jurar e que, ainda que o juramento fosse lícito, não poderiam, segundo o espírito desta lei, prometer realizar as más ações que lhes são pedidas na fórmula do juramento, como: denunciar quem quer que comprometa os interesses do governo, defendê-lo com armas e atacar seus inimigos. Conduzem-nos diante dos comissários, dos padres, dos governadores; tentam fazê-los ouvir a "voz da razão", imploram, ameaçam, castigam-nos, mas eles permanecem irremovíveis e não prestam juramento. Assim, em meio a milhões de homens que prestaram juramento, vivem alguns homens que não o fizeram. E pergunta-se a eles: "— Como? Não prestaram juramento? — Não, não prestamos juramento.
— E nada lhes aconteceu? — Nada." Todos os súditos são obrigados a pagar impostos e todos pagam. Mas um homem em Karcov, um outro em Tver, um terceiro em Samara, todos se recusam, pelo mesmo motivo. Um diz que não pagará senão quando lhe for dito a que é destinado o dinheiro que lhe pedem. Caso se trate de boas obras, dará por vontade própria e mais do que lhe pedem. Caso se trate de obras ruins, nada dará voluntariamente porque, segundo a lei de Cristo, que professa, não pode colaborar para fazer o mal. Em outros termos, os outros dizem o mesmo. Aqueles que algo possuem são obrigados a pagar à força; aqueles que nada possuem são deixados em paz.
"— Então, não pagaram os impostos? — Não.
— E nada lhes aconteceu? — Nada."
Foram criados os passaportes. Todos aqueles que deixam seu lugar de residência são obrigados a providenciar um e a pagar uma taxa para este fim. De repente, de diversos lugares, aparecem homens que se recusam a servir-se dos passa- portes e a pagar a taxa, afirmando que ele é inútil e que não se deve depender de um governo fundamentado apenas na violência. Também neste caso as autoridades são impotentes. Colocam estes homens na prisão, mas depois os libertam, e eles vivem sem passaporte.
Todos os camponeses são obrigados a executar certas funções de polícia: centurião, decurião etc. Mas em Karcov, um camponês se recusou a executar esta função, dando como motivo que a lei cristã, por ele seguida, proíbe prender, encarcerar ou mesmo conduzir de um lugar para outro sob custódia, quem quer que seja. O mesmo fato reproduziu-se em Tver, em Tambov. Estes camponeses foram maltratados, surrados, aprisionados, mas continuaram firmes e não renegaram sua fé. Enfim deixou-se de usá-los para tais funções e, novamente, "nada" de real aconteceu.
Todos os cidadãos devem participar da justiça como jurados. E eis pessoas pertencentes às mais diversas classes: carroceiros, professores, negociantes, camponeses, nobres, que recusam tais funções baseando-se, como se lhes fosse dada uma palavra de ordem, não sobre motivos reconhecidos pela lei, mas sobre o fato de que o próprio tribunal, segundo sua crença, é ilegítimo, anticristão e não deve existir. As autoridades sujeitam-nos a multas, procurando não deixá-los exprimir pu- blicamente as razões da recusa e substituem-nos por outros que, pela mesma razão, se recusam a ser testemunhas. Também aqui, "nada".
Todos os jovens de 21 anos estão sujeitos ao recrutamento militar. Subitamente, um jovem em Moscou, outro em Tver, um terceiro em Karcov, um quarto em Kiev, como se de antemão combinados, apresentam-se ao local do recrutamento e declaram não querer prestar juramento, nem servir, porque são cristãos.
Eis um dos primeiros casos que conheço pessoalmente destas recusas que se tornaram cada vez mais freqüentes1. Um jovem de cultura média recusa-se ao serviço militar, no município de Moscou. Suas palavras não são levadas em consideração e lhe é pedido, como aos outros, que pronuncie o juramento. Ele se recusa, indicando o lugar exato do Evangelho que proíbe jurar. Nem mesmo desta vez o que diz é levado em consideração, pois pretende-se que se ajuste às regras, mas ele torna a se recusar. Consideram- no, então, como um sectário que compreende mal o cristianismo, ou seja, divergindo do modo como o compreendem os padres pagos pelo Estado. Mandam-no, então, para os padres. Estes catequizam-no, mas suas exortações a renegar Cristo em nome de Cristo permanecem sem efeito sobre o jovem; e incorporam-no ao exército rotulando-o de incorrigível. Ele continua a não prestar juramento e a se recusar abertamente ao cumprimento dos deveres militares.
lTodos os pormenores deste fato, como dos que o precederam, são autênticos.
Um caso que não está previsto na lei. Não é possível tolerar que alguém não se submeta às ordens das autoridades, mas também não é possível colocar este caso entre as insubordinações ordinárias. Depois de um conluio, as autoridades militares, para desembaraçar-se deste jovem incomodo, decidem reconhecê-lo como revolucionário e mandam-no, secretamente, sob escolta à prisão. Os policiais e os guardas interrogam-no, mas nada do que diz pode ser incluído em qualquer categoria de delitos que constam de suas atribuições, e não é possível acusá-lo de qualquer ato revolucionário, pois que declara nada querer destruir e também que condena qualquer violência. Por outro lado, não esconde suas opiniões e, ainda, procura ocasiões para formulá-las abertamente. E os guardas, embora na verdade não se preocupem com a legalidade, não encontrando qualquer motivo de acusação, devolvem-no, como o clero, às autoridades militares. Os chefes consultam-se novamente e decidem inscrever e incorporar o jovem ao exército, ainda que não tenha prestado juramento. Ele é vestido e encaminhado, novamente sob escolta, para o lugar onde se encontra o destacamento para o qual é destinado. O chefe do destacamento pede-lhe, por sua vez, o cum- primento dos deveres militares e o jovem mais uma vez se recusa e, em presença dos outros soldados, declara que não pode, como cristão, preparar-se para o assassinato, já proibido pela lei de Moisés.
Este incidente ocorreu numa cidade de província. E desperta interesse e simpatia não só das pessoas estranhas ao exército, mas também dos oficiais; assim os chefes hesitam em adotar as medidas disciplinares usualmente aplicadas contra a insubordinação.
Contudo, por formalidade, o jovem é posto na prisão e escreve-se à administração militar superior solicitando instruções. Do ponto de vista oficial, a recusa a servir ao exército, ao qual pertence o próprio czar, e que é abençoado pela igreja, é uma loucura. De Petersburgo escreve-se então que, segundo todas as aparências, tendo provavelmente o jovem perdido a razão, é preciso, sem recorrer a medidas rigorosas, mantê-lo em observação e sob cuidados num manicômio. Para lá o mandam, com a esperança de que aí permaneça longo tempo, como aconteceu há dez anos em Tver com outro jovem que se havia recusado ao serviço militar e a quem torturaram, no manicômio, enquanto não se submeteu. Mas este método nem sempre dá bons resultados. Os médicos examinam o jovem, interessam-se por seu caso e, finalmente, não encontrando qualquer sintoma de alienação mental, devolvem-no às autoridades militares. Incorporam-no, fingindo não se recordarem nem de sua recusa, nem dos motivos que alegou. Mandam-no novamente para os exercícios e, outra vez, diante dos outros soldados, ele se recusa a fazê-los, invocando as mesmas razões.
O caso atrai, cada vez mais, a atenção dos soldados e dos habitantes da cidade. Escreve-se de novo a Petersburgo e, desta vez, recebe-se a ordem de mandar o recalcitrante para o exército que ocupa as regiões de fronteira com a Ásia, exército em pé de guerra, onde é possível fuzilar por recusa à obediência e onde casos deste tipo passam desapercebidos porque naquelas regiões longínquas existem pouquíssimos russos e cristãos, mas muitos maometanos e idólatras. E assim é feito. O jovem é mandado para o exército da região transcaucasiana, em companhia de delinqüentes e sob o comando de um chefe famoso por sua severidade.
Durante todas essas peregrinações o infeliz é tratado duramente, fazem-no passar frio, fome, sujeira: em uma palavra, fazem-no sofrer o martírio. Mas todos estes sofrimentos não abalam sua resolução.
Do outro lado do Cáucaso, quando o escalam como sentinela, mais uma vez se recusa a obedecer. Não se recusa a ir para seu posto, mas recusa-se a pegar no fuzil, declarando que em nenhum caso cometerá violência contra alguém. Como tudo isto acontece diante de outros soldados, não é possível deixar impune esta desobediência.
O jovem é processado por insubordinação e condenado a dois anos de prisão militar.
Novamente o mandam, por etapas, em companhia de delinqüentes vulgares, para o Cáucaso, onde é posto na prisão e deixado aos cuidados do carcereiro. Martirizam-no durante 18 meses, mas ele permanece imutável em sua resolução de não portar armas e revela suas razões a todos os que o cercam. Ao fim do segundo ano, libertam-no e, para desembaraçar-se dele o mais depressa possível, dão-lhe baixa antes do prazo, contando, contrariamente às leis, como tempo de serviço, os anos passados na prisão. Os mesmos fatos ocorreram em diversas partes da Rússia e sempre a ação do governo foi assim tímida, hesitante e secreta. Alguns destes insubordinados são mandados para o manicômio; outros são destinados aos escritórios militares; outros são mandados ao serviço na Sibéria; outros são incorporados às guardas florestais; outros são encerrados em prisões ou condenados a uma multa. Neste momento, muitos deles estão ainda na prisão, não por haver negado o direito do governo, mas por não haver obedecido às ordens de seus chefes militares. Assim, recentemente, um oficial da reserva — cujo lugar de residência não foi indicado — declarou não mais de- sejar servir o exército e foi condenado, por desobediência às autoridades, a uma multa de trinta rublos que, aliás, se recusou a pagar de espontânea vontade. Recentemente, diversos recrutas e soldados, que se recusaram a tomar parte nos exercícios e a se armar, foram postos na sala de castigo por insubordinação.
Estes casos de recusa ao cumprimento das ordens do governo contrárias ao cristianismo acontecem, nos últimos tempos, não só na Rússia, mas também em outros países. Assim, sei que, na Sérvia, os membros da seita chamada Nazir re- cusam-se constantemente a se submeterem ao serviço militar, e o governo, há vários anos, luta contra eles em vão, aprisionando-os. Em 1885, houve 130 recusas deste tipo. Sei que, desde 1890, na Suíça foram presos no forte de Chillon, por terem recusado submissão ao serviço militar, muitos homens que, ainda assim, permaneceram firmes em suas resoluções. A mesma recusa verificou-se na Suécia e os culpados foram também aprisionados — e o governo ocultou cuidadosamente do povo estes casos. Houve também casos semelhantes na Prússia. Sei que um suboficial da guarda declarou, em Berlim, em 1891, que, como cristão, não podia continuar a servir; e apesar das exortações, ameaças e punições, perseverou em sua resolução. Na França, no Midi, surgiu nos últimos tempos uma comunidade que traz o nome de Hinschis* (estas informações foram tiradas do Peace Herald, julho de 1891), cujos membros rejeitam o serviço militar, baseando-se nos princípios cristãos. Antes, incorporavam-nos no serviço de ambulâncias, mas hoje, à medida que o caso se torna mais freqüente, são punidos por insubordinação e, ainda assim, continuam a se recusar a portar armas.
*Movimento religioso e místico, de origem protestante alemã, iniciado por Marguerite Hinsch no sul da França em 1833. (N. do E.) Os socialistas, os comunistas, os anarquistas, com suas bombas, suas rebeliões, suas revoluções, estão longe de ser tão perigosos para os governos como estes homens isolados que proclamam de qualquer lugar sua recusa, calcados na mesma doutrina conhecida por todos.
Cada governo sabe como e com que meios defender-se dos revolucionários; assim, não teme seus inimigos externos. Mas o que poderão fazer contra os homens que demonstram a inutilidade, aliás, o mal de toda a autoridade, que não combatem o governo, mas simplesmente o ignoram, que podem viver sem ele e, em conseqüência, recusam-se a dele participar? Os revolucionários dizem: "A atual ordem social peca neste e naquele ponto que deveria ser suprimido e substituído por este outro." O cristão diz: "Não me preocupo com a ordem social, ignoro se é boa ou ruim; mas pelo mesmo motivo, não quero também apoiá-la — e não só não quero, como não posso — porque aquilo que me pedem é contrário a minha consciência." Ora, todas as obrigações do cidadão são contrárias à consciência do cristão: o juramento, os impostos, a justiça do Estado e o exército; e é sobre estas obrigações que se fundamenta todo o poder do Estado.
Os inimigos revolucionários lutam externamente contra o governo, enquanto os cristãos, sem luta, destroem internamente todos os princípios sobre os quais repousa o Estado.
No povo russo, em meio ao mal, sobretudo desde Pedro I, o protesto do cristianismo contra o Estado nunca cessou; o povo russo, cuja ordem social é tal que os homens, comunidades inteiras, vão para a Turquia, para a China, para regiões desabitadas, longe de sentir necessidade de um governo, considera-o sempre como um peso inútil apenas suportável, seja russo, turco ou chinês; no povo russo, a libertação cristã da submissão ao governo manifesta-se nestes últimos tempos, em casos isolados cada vez mais freqüentes. Estas manifestações são mais perigosas para o governo na medida que os manifestantes pertencem, muitas vezes, às classes média e alta e explicam sua recusa, não mais com uma religião mística e sectária como antes, acompanhando-a de práticas supersticiosas e fanáticas, como fazem os "suicidas do fogo" ou então os beduim, mas motivam-no apoiando-se em verdades mais simples, por todos compreendidas e reconhecidas.
Assim se recusa o pagamento de impostos porque são empregados em atos de violência. Recusa-se o juramento, porque prometer obedecer às autoridades, isto é, a homens que usam de violência, é contrário ao sentido da doutrina cristã, e porque, de qualquer forma, isto é proibido pelo Evangelho. Recusam-se as funções de polícia, porque é proibido ao cristão usar de violência contra seus irmãos. Recusa-se participar da justiça, porque ela obedece à lei da vingança, inconciliável com a lei do perdão e do amor cristão. Recusa-se a submeter-se a serviço militar, porque o cristão não deve matar.
Todos estes motivos de recusa são tão justos que, por mais autoritários que sejam os governos, não podem punir abertamente quem os alega, porque, para fazê-lo, é preciso negar por completo a razão e o bem. E os governos, que afirmam que seu poder baseia-se exatamente na razão e no bem, fazem ao contrário.
Mas, o que podem realmente fazer os governos contra estes insubordinados? De fato, podem condenar à morte, aprisionar e deportar para sempre todos aqueles que desejam derrubá-los pela força; podem cobrir de ouro e comprar os indivíduos de que precisam; podem submeter a seu poder milhões de homens armados, prontos para matar seus inimigos. E o que podem contra homens que, não querendo nada destruir ou criar, que não têm senão um único desejo, nada fazer que seja contrário à lei de Cristo e que se recusam, por este motivo, a cumprir as obrigações mais elementares e, em conseqüência, mais necessárias aos governos? Se fossem revolucionários pregadores e praticantes da violência e do assassinato, a repressão seria fácil: uma parte poderia ser comprada, outra enganada, uma outra aterrorizada e, àqueles com os quais nenhum destes meios obtivesse sucesso, far-se- iam passar por delinqüentes, inimigos da sociedade; seriam aprisionados, condenados à morte, e a multidão aprovaria. Se fossem fanáticos, pertencentes a alguma seita especial, seria fácil, graças às superstições mescladas àquela doutrina, refutar ao mesmo tempo a verdade que ela contém. Mas o que fazer com homens que não pregam nem a revolução, nem nenhum dogma religioso, mas que recusam simplesmente a fazer mal a alguém, a jurar, a pagar os impostos, a participar da jus- tiça e do serviço militar, obrigações que são a base do Estado atual? O que lhes pode ser feito? Comprá-los é impossível: o próprio risco a que se expõem voluntariamente demonstra seu desinteresse. Enganá-los, afirmando que Deus ordenou aquilo que lhes é pedido, é igualmente impossível, porque sua recusa é fundamentada na lei de Deus, clara e indiscutível, professada igualmente por aqueles que querem constranger estes homens a agir contrariamente a seu espírito. Amedrontá-los por meio de ameaças é ainda menos possível, porque as privações e os sofrimentos que suportarão não farão senão aumentar seu desejo de seguir a lei divina que ensina a obedecer a Deus e não aos homens, e a não temer aqueles que podem matar o corpo, mas a temer aquilo que pode matar a alma. Prisão perpétua ou pena de morte é também impossível: estes homens têm um passado, amigos; seu modo de pensar e agir é conhecido, todos sabem que são bons e dóceis e não se pode fazê-los passar por delinqüentes a fim de podê-los suprimir no interesse da sociedade. A execução de homens reconhecidos por todos como bons daria origem a defensores, a críticos da insubordinação. E bastaria que as causas da insubordinação fossem explicadas para que se tornasse evidente para todos que semelhantes causas são justas e que todos devem seguir seu exemplo. Diante da insubordinação dos cristãos, os governos estão desarmados. Vêem que a profecia do cristianismo se confirma, que caem os grilhões dos acorrentados, os escravos livram-se do jugo, e esta libertação deve ser, infalivelmente, a ruína dos opressores; vêem e sabem que seus dias estão contados e nada podem fazer. Só existe algo que podem fazer para sua salvação: retardar o momento de sua ruína. Não deixam de fazê-lo; mas sua situação é, entretanto, desesperada. É semelhante à de um conquistador que quisesse conservar uma cidade incendiada pelos habitantes. O fogo, apagado por sua ordem, num local, acender-se-ia logo depois, em dois outros.
Os focos são ainda raros, mas reunir-se-ão num incêndio que, nascido de uma centelha, não findará senão quando tudo houver consumido.
A situação dos governos diante dos homens que professam o cristianismo é tão precária que pouco falta para a queda de seu poder, erguido há tantos séculos, tão sólido na aparência. E não obstante, o homem social vem pregar que é inútil, além de nocivo e imoral, libertar-se isoladamente.
Alguns indivíduos desejam desviar um rio. Trabalharam por longo tempo para escavar um novo leito, mas enfim nada lhes resta a fazer além de lhe dar uma desembocadura. Ainda uns poucos golpes de enxada e a água, jorrando com força, desembaraçar-se-á dos últimos obstáculos. Mas neste ponto chegam outros homens que acham ruim o modo de proceder e declaram que é melhor construir sobre o rio uma máquina através da qual se possa fazer subir a água e passá-la de um lado para o outro.
Mas os trabalhos estão muito avançados.
Os governos já sentem sua impotência e sua fragilidade, e já os homens cristãos acordam de seu torpor e começam a sentir sua força.
"Eu vim trazer fogo à terra e como anseio pelo momento de vê-lo arder!" — disse Cristo.
Tal fogo começa a arder.
Inutilidade da violência governamental para suprimir o mal — O progresso moral da humanidade realiza-se não apenas com o conhecimento da verdade, mas também com a formação da opinião pública
O cristianismo, em seu verdadeiro significado, destrói o Estado. Isto foi assim compreendido desde o princípio e por isso Cristo foi crucificado. Foi assim compreendido em todos os tempos por homens não presos à necessidade de justificar o Estado cristão. Somente quando os chefes de Estado aceitaram o cristianismo nominal externo, começaram a ser inventadas as sutis teorias segundo as quais o cristianismo se pode conciliar com o Estado.
Mas, para qualquer homem sincero de nosso tempo, é evidente que o verdadeiro cristianismo — a doutrina da resignação, do perdão, do amor — não se pode conciliar com o Estado, com seu despotismo, sua violência, sua justiça cruel e suas guerras. Não só o verdadeiro cristianismo não permite reconhecer o Estado, como também destrói seus princípios.
Mas, assim sendo, sendo verdade que o cristianismo é inconciliável com o Estado, uma pergunta nasce naturalmente: O que é mais necessário para o bem da humanidade, o que lhe assegura a maior soma de felicidade? A organização go- vernamental ou o cristianismo? Dizem alguns que o Estado é muito necessário; que a destruição do regime governamental produziria o fim de tudo o que a humanidade conseguiu até agora; que o Estado foi, em todos os tempos, e continua a ser a única forma sob a qual a humanidade pode se desenvolver e que todos os abusos podem ser corrigidos sem a destruição de um ordenamento do qual são independentes e que permite ao homem progredir e atingir o mais alto grau de bem-estar. E aqueles que assim pensam apoiam sua opinião em argumentos filosóficos, históricos e até religiosos, que reputam irrefutáveis.
Existem, porém, homens que acreditam no oposto, ou seja, que desde que houve um tempo em que a humanidade viveu sem governo, esse regime é temporâneo, e que virá um tempo em que os homens precisarão de um ordenamento novo e que este tempo já chegou. E aqueles que assim pensam dão, em apoio a sua opinião, argumentos filosóficos, históricos ou religiosos que reputam irrefutáveis.
Podem ser escritos volumes inteiros, em favor da primeira tese (já foram de há muito escritos e ainda hoje são), mas é também possível escrever contra (o que, mais recentemente, foi feito, e de forma magistral).
Não se pode provar, contudo, como procuram fazer os defensores do Estado, que a destruição do ordenamento atual produziria um caos social: a bandidagem, o assassinato, a ruína de todas as instituições e o retorno da humanidade à barbárie.
Não se pode tampouco provar, como procuram fazer os adversários do Estado, que os homens já se tornaram sábios e bons, que não roubam e não matam, que preferem as relações pacíficas ao ódio; que por si mesmos, sem ajuda do Estado, criarão tudo aquilo de que necessitarão, e que, em conseqüência, o Estado, longe de para tanto contribuir, com o pretexto de dar aos homens a segurança, exerce sobre eles uma influência nociva e desmoralizadora. Não se pode provar, com um raciocínio abstrato, qualquer destas teses. Menos ainda pode-se demonstrá-las pela experiência, porque se trata, antes de mais nada, de saber se é preciso tentá-la ou não.
A questão de saber se o tempo de derrubar o Estado chegou, ou não, seria então insolúvel, se não existisse um outro meio para resolvê-la com certeza.
Os pintinhos estão bastante desenvolvidos para que a galinha seja afastada e para que deixe que saiam do ovo, ou é ainda muito cedo? Decidirão eles mesmos a questão quando, não mais podendo continuar dentro da casca, quebrá-la-ão com o bico para sair.
Da mesma forma, o tempo de destruir a forma governamental e de substituí-la por uma nova chegou ou não para os homens? Se o homem, em conseqüência da consciência superior que nele nasceu, não mais pode obedecer às exigências do Estado, se não mais pode fechar-se em si mesmo e se, por outro lado, não mais precisa da proteção do Estado, a questão é resolvida pelos próprios homens que já ultrapassaram a forma do Estado e dele saíram, como o pintinho saiu do ovo no qual nenhuma força poderia fazê-lo reentrar.
O homem que assimilou o conceito cristão de vida diz:
É bastante possível que o Estado já tenha sido necessário e que ainda hoje o seja, por todas as vantagens que nele reconheceis.
Sei apenas que para mim, por um outro lado, não mais preciso do Estado, e, por outro, eu não mais posso cometer as ações necessárias a sua existência. Organizem-se como melhor lhes parecer; quanto a mim, não posso demonstrar a necessidade ou a linutilidade do Estado, mas sei o que preciso e o que me é inútil, o que posso fazer e o que não posso fazer. Não preciso me isolar dos homens das outras nações e, por isso, não posso reconhecer que pertenço exclusivamente a qualquer nação e me recuso a qualquer submissão; sei que não preciso de todas as atuais instituições governamentais, e eis que não posso, privando os homens que necessitam de meu trabalho, dá-lo sob forma de impostos para benefícios dessas instituições; sei que eu não preciso de adminis- tração ou de tribunais fundamentados na violência e, por isso, não posso participar da administração ou da justiça; sei que eu não preciso atacar os homens de outras nações, matá-los, ou sequer defender-me deles com armas na mão, e assim não posso! participar da guerra nem para ela me preparar. É bem possível que existam homens que consideram tudo isto necessário, não posso dizer o contrário; sei apenas, mas de modo absoluto, que eu não preciso. E não preciso não porque eu, ou seja, a minha personalidade, assim deseje, mas porque não o quer Aquele que me deu a vida e uma lei indiscutível para guiar- me nela.
Qualquer que seja o argumento invocado em favor do poder do Estado, cuja supressão poderia causar desventuras, os homens já saídos da forma governamental não podem mais a ela voltar, como os pintinhos, repito, não podem reentrar na casca do ovo do qual saíram.
Mas também neste caso, dizem os defensores da ordem atual:
A supressão da violência governamental somente seria possível e desejável caso todos os homens se tornassem cristãos; até que isto não aconteça, enquanto existirem homens, que se dizem cristãos e não o são, cruéis, prontos para a satisfação de suas paixões, a maltratar os outros, a suprimir o governo, esta supressão, longe de ser um bem para os outros homens, só faria aumentar-lhes a miséria. A supressão da forma governamental não será desejável, não só enquanto houver uma minoria de verdadeiros cris- tãos, mas nem mesmo quando todos o fossem e enquanto entre eles, ou ao seu redor, nas outras nações, existirem ainda não-cristãos, porque estes últimos roubariam, violentariam, matariam impunemente os cristãos e tornar-lhes-iam a vida miserável. Os maus dominariam impunemente os bons. Por isso o Estado não deve ser suprimido até o dia em que todos os homens maus e ladrões houverem desaparecido. E como isto não pode acontecer, senão nunca, ao menos ainda por muito tempo, o poder governamental, não obstante as tentativas isoladas de libertação, deve ser mantido pela maioria dos homens
Assim então, segundo os defensores do Estado, sem o poder governamental os maus violentariam os bons e dominá-los-iam; enquanto hoje o Estado permite que os bons dominem os maus.
Mas, afirmando-o, os defensores da ordem atual decidem antecipadamente a indiscutibilidade do princípio que desejam provar. Ao dizer que sem o poder governamental os maus dominariam os bons, eles consideram provado que os bons são aqueles que estão hoje no poder, e os maus aqueles que se submetem. Mas eis exatamente o que se precisaria provar. Isto seria verdade se em nossa sociedade as coisas acontecessem como aconteceu, ou antes, como se supõe que aconteçam na China, isto é, que sejam sempre os bons que atingem o poder e que sejam derrubados tão logo deixem de ser os melhores.
Supõe-se que assim aconteça na China, mas a realidade é outra. Aliás, não pode acontecer porque, para derrubar o poder do opressor, não basta ter este direito, é preciso ter também força. De modo que se trata de uma simples suposição em relação à China e, em nosso mundo cristão, não há sequer lugar para suposições. Aqueles que se apossam do poder, e não são os melhores, conservam-no para si mesmos e seus herdeiros. Para conquistar o poder e conservá-lo é preciso amar o poder. E a ambição não se harmoniza com a bondade mas, ao contrário, com o orgulho, a astúcia e a crueldade.
Sem a exaltação de si mesmo e a humilhação alheia, sem a hipocrisia e a esperteza, sem as prisões, as fortalezas, as execuções capitais, os assassinatos, poder algum pode nascer ou conservar-se.
"Caso fosse suprimido o governo, o mau dominaria o bom", dizem os defensores do Estado. Os egípcios venceram os hebreus; os persas, os egípcios; os macedônios, os persas; os romanos, os gregos; os bárbaros, os romanos. Valeriam talvez, em verdade, os vencedores mais do que os vencidos? Do mesmo modo, visto que o poder se transmite de um indivíduo para outro, num Estado, passaria sempre para o melhor? Quando Luís XIV foi derrubado e o poder passou para Robespierre, depois para Napoleão: quem estava no poder, o melhor ou o pior? Quem eram os melhores, os versalheses ou os comunais? Carlos I ou Cromwell? E quando o czar Pedro III foi morto e Catarina tornou-se imperatriz de uma parte da Rússia, e Pugatscev soberano da outra, quem dentre deles era o mau? Quem era o bom? Dominar significa violentar, violentar significa fazer aquilo que não deseja aquele com o qual é cometida a violência e, certamente, aquilo que não gostaria de sofrer aquele que a comete; em conseqüência, estar no poder significa fazer a outros o que não desejamos que nos seja feitorou seja, o mal.
Submeter-se significa preferir a paciência à violência e preferir a paciência à violência significa ser bom ou menos mau do que aqueles que fazem aos outros o que não gostariam que lhes fosse feito.
Conseqüentemente, segundo todas as probabilidades, não são os melhores, e sim os piores que sempre estiveram no poder e estão ainda. Podem existir pessoas más entre aqueles que se submetem ao poder, mas é impossível que os melhores do- minem os piores.
Esta suposição era possível na época da definição inexata do bem feita pelos pagãos, mas sob o império da definição exata e clara do bem e do mal feita pelos cristãos, não mais se pode acreditar nisto. Se os mais ou menos bons, ou os mais ou menos maus, podem não se distinguir no mundo pagão, o conceito cristão tão bem e claramente definiu as naturezas que reconhecem os bons e os maus, que torna-se impossível confundi-las. Segundo a doutrina de Cristo, os bons são aqueles que se submetem, que são resignados, que não resistem ao mal com a violência, que perdoam as ofensas, que amam seus inimigos; os maus são aqueles que são orgulhosos, dominadores, que lutam e violentam os homens. Por isso, segundo a doutrina de Cristo, não pode haver dúvida quanto ao lugar dos bons: estão eles entre os dominadores ou entre os submissos? Seria até ridículo falar de cristãos no poder.
Os não-cristãos, ou seja, aqueles que vêem o objetivo de vida na felicidade terrestre, devem sempre dominar os cristãos, os que desprezam tal felicidade.
E assim foi sempre, e tornou-se mais evidente à medida que se foi difundindo a verdadeira inteligência da doutrina cristã.
"A supressão da violência governamental, caso todos os homens não se tornassem cristãos verdadeiros, não faria senão conduzir os maus ao poder e permitir- lhes-ia oprimir os bons", dizem os defensores do atual regime.
Mas nada diferente existiu ou poderia existir. Os maus sempre dominam os bons e sempre os violentam. Caim violentou Abel, o astuto Jacó dominou o confiante Esaú, Labão enganou Jacó, Caifás e Pilatos perseguiram Cristo; os imperadores ro- manos dominaram os Sênecas, os Epictetos e os romanos virtuosos; Ivan IV com a sua guarda feroz, o bêbado sifílítico Pedro com seus palhaços, a impudica Catarina com seus amantes dominavam os laboriosos e pios russos de seu tempo e violentavam-nos. Guilherme domina os alemães; Stambulov, os búlgaros; as autoridades russas, o povo russo. Os alemães dominavam os italianos, agora dominam os húngaros e os eslavos; os turcos dominavam os gregos e dominam os eslavos; os ingleses dominam os hindus; os mongóis, os chineses.
Portanto, suprima-se ou não a violência governamental, a situação dos bons oprimidos pelos maus não mudará. Amedrontar os homens com o fato de que os maus dominarão os bons é impossível, porque isto sempre aconteceu, acontece, e não pode deixar de acontecer!
Toda a história da época pagã demonstra que os maus sempre se apoderaram do poder com crueldade e perfídias e conservavam-no com o pretexto de assegurar a justiça e defender os bons. Afirmando que, se o poder não existisse, os maus oprimiriam os bons, os governantes apenas manifestam seu desejo de não ceder o poder a outros opressores que dele gostariam de se apoderar. Mas sua afirmação apenas os denuncia. Dizem que seu poder, ou seja, a violência, é necessário para defender os homens de não se sabe quais maus, presentes ou futuros1.
1Bastante cómica é a afirmação das autoridades russas que oprimem outros povos: Os poloneses, os alemães das províncias bálticas, os judeus. O governo russo oprime seus súditos há séculos e não cuida dos pequenos-russos da Polónia, nem dos letões da província báltica, nem dos mujiques russos explorados por todos. Mas ei-lo repentinamente defensor dos oprimidos contra os opressores, mas daqueles mesmos oprimidos que eles próprios oprimem.
O perigo do uso da violência é, precisamente, este: que todos os argumentos que fazem valer em seu favor os opressores lhes podem ser opostos com maior fundamento de razão. Falam da violência passada e, com maior freqüência, da que dizem prever para o futuro mas, na realidade, eles mesmos não deixam de usar de violência.
Então deveriam dizer os oprimidos aos opressores:
Dizem que os homens saquearam e assassinaram no passado, e temem que façam o mesmo hoje, caso seu poder desapareça. Isto pode acontecer, como pode não acontecer. Mas o fato de que perdem milhares de homens nas prisões, nas galeras, nas fortalezas; de que arruinam milhares de famílias e sacrificam ao materialismo, física e moralmente, milhões de homens, este fato é uma vio- lência não suposta, mas real, contra a qual, segundo meu raciocínio, é preciso também lutar com violência. Por isso os maus, contra os quais, para seguir seus conselhos, é preciso sem dúvida usar de violência, são vocês mesmos.
De fato, os não-cristãos pensam, falam e agem desta forma. Quando, entre os oprimidos, existem indivíduos piores do que os opressores, estes atacam-nos e procuram suprimi-los, e, em circunstâncias favoráveis, conseguem-no, ou então, o que ocorre na maioria das vezes, entram nas fileiras dos opressores e tomam parte em suas violências.
Assim, esta pressuposta violência, da qual os defensores do Estado se servem como de um espantalho, é uma realidade que nunca deixou de existir. Por isso a supressão da violência do Estado não pode, em caso algum, ser a causa do aumento da violência dos maus contra os bons.
Se a violência governamental desaparecesse, talvez se reproduzissem os casos de violência, mas a quantidade de violência nunca poderia aumentar pelo fato de que o poder passaria das mãos de uns para as de outros.
"A violência governamental não poderá desaparecer, a não ser que desapareçam os maus", dizem os defensores do atual regime, subentendendo que, já que os maus sempre existiram, a violência nunca terá fim. Isto seria verdade, mas so- mente se fosse exato que os opressores são melhores e que o único meio de proteger os homens contra o mal é a violência. Neste caso, de fato, a violência nunca poderia ter fim. Mas como, pelo contrário, ela nunca fez desaparecer o mal e como existe um outro meio para aniquilá-la, a afirmação de que a violência sempre existirá é falsa. Ela diminui cada vez mais e tende evidentemente a desaparecer, mas não como supõem certos defensores da ordem atual, com a progressiva melhoria dos oprimidos sob a influência da ação do governo (aliás, eles tornam-se piores), mas porque todos os homens tornando-se, por si mesmos, melhores, os maus que estão no poder tornam- se por seu lado cada vez menos maus e assim suficientemente bons para serem incapazes de usar de violência.
O progresso da humanidade acontece não porque os opressores se tornam melhores, mas porque os homens assimilam, cada dia mais, o conceito cristão de vida. Sucede aos homens algo similar ao fenômeno da ebulição. Os homens defensores do conceito social tendem sempre para o poder e lutam para conquistá-lo. Nesta luta, os elementos mais cruéis, mais rudes e menos cristãos da sociedade, violentando os mais dóceis, os mais dispostos ao bem, os mais cristãos, sobem, em conseqüência de sua violência, às camadas superiores desta mesma sociedade. E então se cumpre a profecia de Cristo: "Ai de vós, ricos, fartos, glorificados!" Estes homens do poder e da riqueza, atingidos os objetivos a que se propuseram, reconhecem sua vaidade e retornam ao estágio do qual saíram. Carlos V, Ivan o Terrível, Alexandre I, havendo reconhecido a vaidade e a crueldade do poder, abandonaram-no porque se sentiram incapazes de desfrutar ainda mais a violência.
Mas não apenas homens como Carlos V e Alexandre I atingiram este desgosto do poder; cada homem que conquistou a potência a que aspirava, cada ministro, cada general, cada milionário ou mesmo cada chefe de escritório que vivamente ansiou por seu cargo durante anos, cada mujique enriquecido sentem a mesma desilusão e por isto se tornam melhores.
Não só os indivíduos isolados, mas grupos de homens, povos inteiros realizam a mesma evolução.
As vantagens do poder e de tudo o que traz, as vantagens da riqueza, das honras, do luxo são os objetivos da atividade humana enquanto não atingidos, mas apenas os alcance, o homem apercebe-se de sua vaidade. Estas vantagens perdem pouco a pouco a sedução, como as nuvens, que não têm forma e esplendor, exceto se vistas de longe.
Os homens que conquistaram o poder e a riqueza, por vezes eles próprios, mas com mais freqüência seus herdeiros, deixam de ser muito ávidos de poder e não mais adotam métodos muito cruéis.
Tendo conhecido, através da vaidade, os frutos da violência, os homens perdem, às vezes depois de uma geração, às vezes depois de muitas, os vícios adquiridos pela paixão, pelo poder e pela riqueza e, convertidos em menos cruéis, não mais são capazes de defender sua situação e são afastados do poder por outros homens menos cristãos, mais cruéis, e retornam ao estágio inferior do ponto de vista material, mas moralmente superior, elevando assim o nível médio de consciência cristã de todos os homens. Mas logo após, os elementos piores, mais rudes e menos cristãos da sociedade ascendem e passam pelo mesmo processo e, de novo, após uma ou várias gerações, havendo reconhecido a vaidade dos frutos da violência e tendo sido penetrados pelo cristianismo, retornam para o lugar dos oprimidos, substituídos por novos opressores, sempre menos rudes do que os precedentes. De modo que, embora o poder permaneça o mesmo em sua forma externa, a cada mudança dos homens que o ocupam, o número daqueles que a experiência leva a reconhecer a necessidade do conceito cristão aumenta cada vez mais, e homens cada vez menos rudes e cruéis substituem os outros no poder.
O poder escolhe e atrai os piores elementos da sociedade, transforma-os, melhora-os, suaviza-os e devolve-os à sociedade.
Tal é o processo por meio do qual o cristianismo propaga-se cada vez mais. O cristianismo penetra na consciência dos homens, apesar da violência do poder e, também, graças a esta violência.
Por isso a afirmação dos defensores do Estado de que, ao suprimir-se a violência governamental os maus dominariam os bons, não só prova que se deva temer o domínio dos maus, pois que estes já existem, mas prova o contrário, que o poder na mão dos maus é exatamente o mal que se deve suprimir e que se suprime gradualmente por força da consciência.
E perguntam os defensores da ordem atual:
Mas, se fosse verdade que a violência governamental devesse desaparecer'quando os governantes se tornassem bastante cristãos para abandonar voluntariamente o poder e não se encontrasse mais ninguém para substituí-los, o que aconteceria? Se, apesar dos dezoito séculos já transcorridos, encontram-se ainda tantos amantes do poder e tão poucos resignados à submissão, não existe probabilidade alguma de que isto ocorra, não apenas em breve, mas nunca.
Se também existem homens que abandonaram o poder, a reserva daqueles que preferem a dominação à submissão é tão grande que se torna difícil imaginar um tempo em que esta será esgotada.
Para que se produza a cristianização de todos os homens, para que estes abandonem voluntariamente o poder e a riqueza e ninguém se queira aproveitar disto, é preciso que se convertam todos aqueles que são rudes, semibárbaros, absolutamente incapazes de assimilar o cristianismo, e estes são sempre muito numerosos em cada nação cristã. E mais, todos os povos selvagens e em geral não-cristãos, ainda também tão numerosos, deveriam igualmente se tornar cristãos. Se, portanto, fosse admitido que esta cristianização de todos os homens se pudesse completar algum dia, a julgar pelo avanço desta obra durante dezoito séculos, isso não ocorreria senão em vários dezoito séculos: é, portanto, impossível e inútil pensar em suprimir agora o poder; é preciso apenas procurar confiá-lo às mãos dos melhores.
Este raciocínio seria corretíssimo se a passagem de um conceito de vida para um outro só acontecesse com a ajuda da evolução de cada homem isoladamente e, por sua vez, reconhecendo cada um a vaidade do poder e atingindo a verdade cristã por uma via interna.
Esta evolução realiza-se de fato, mas os homens não se tornam cristãos apenas por essa via interna, mas também por um meio externo que suprime a lentidão desta passagem.
Esta passagem não se efetua como a da areia na ampulheta, grão a grão, mas sim como a da água que penetra num vaso submerso, que primeiro se deixa encher de um lado, lentamente, então, em conseqüência do peso adquirido, afunda rapidamente e quase de imediato está cheio.
O mesmo ocorre com as sociedades na passagem de um conceito a outro e, portanto, de uma organização a outra. No início, os homens penetravam, lentamente, um a um, na nova verdade; mas quando esta verdade já está suficientemente propagada, todos a assimilam imediata e quase inconscientemente.
Por isso os defensores do Estado estão enganados quando dizem que se, durante 18 séculos, uma mínima parte dos homens voltou-se para o cristianismo, passar-se-ão ainda vários 18 séculos antes que toda a humanidade a ele se converta.
Os homens assimilam uma verdade não só porque a adivinham por intuição profética ou por experiência de vida, mas porque, quando esta verdade antingir um certo grau de extensão, os homens de cultura inferior aceitam-na de imediato unicamente pela confiança que têm naqueles que a aceitaram antes deles e que aplicaram à vida.
Toda verdade nova, que muda os costumes e faz progredir a humanidade, não é desde logo aceita senão por um restrito número de homens que têm perfeita outros, que em confiança aceitaram a verdade alicerçado o regime vigente, opõem-se sempre à difusão da nova verdade.
Mas como no início os homens progridem sempre e aproximam-se cada vez mais da verdade lhe ajustando sua vida e, como, em seguida, são, conforme sua idade, educação, raça, mais ou menos capazes de compreender as novas verdades, aqueles que estão perto destes homens que a compreenderam pela via interna passam, no começo lentamente, depois mais depressa, à nova verdade, e esta verdade torna-se sempre mais compreensível.
E quantos mais são os homens que penetram na nova verdade, mais esta verdade é assimilável e maior confiança inspira aos homens de cultura inferior. Assim, o movimento acelera, aumenta de volume como uma bola de neve, até o momento em que todos passam de uma só vez para a nova verdade e estabelece-se um novo regime. Os homens que atingem a nova verdade fazem-no sempre em massa, de uma só vez, como o lastro de uma embarcação que se carrega rapidamente para mantê-la em equilíbrio. Se não tivesse lastro, o navio não estaria suficientemente imerso e mudaria de posição a cada instante. Este lastro, que no início parece inútil, é a condição necessária para seu movimento regular e para sua estabilidade.
O mesmo fato reproduz-se com a massa de homens que, não um a um, mas sempre todos juntos, sob a influência da nova opinião social, passam de um ordenamento de vida para outro. Esta massa, com sua inércia, impede sempre a pas- sagem rápida, freqüente, não verificada pela sabedoria, de uma ordem para outra, e retém por longo tempo a verdade confirmada por uma longa experiência de lutas e penetrada na consciência da humanidade.
Por isso aqueles que dizem que, uma vez que 18 séculos decorreram para que uma ínfima minoria da humanidade assimilasse a verdade cristã, decorrerão inúmeras vezes 18 séculos para que toda a humanidade nela penetre, e que esta circunstância nos impele para uma época tão longínqua que não podemos sequer imaginar, certamente se enganam.
Enganam-se porque os homens de cultura inferior, os povos que os defensores do atual regime apresentam como obstáculo à efetivação do regime cristão, são precisamente aqueles que passam sempre em massa e de uma só vez para a verdade aceita pelas classes cultas.
Por isso a mudança na existência da humanidade, em conseqüência da qual os poderosos abandonarão seu poder sem que encontrem alguém para substituí-los, não acontecerá senão quando o conceito cristão, facilmente assimilável, triunfar sobre os homens, não mais um após o outro, mas de uma só vez sobre toda a massa inerte.
E dirão os defensores do atual regime:
Mas, ainda que fosse verdade que a opinião pública pode converter a massa inerte de povos não-cristãos, e os homens corruptos e rudes que vivem em meio dos cristãos, como reconheceremos que os hábitos cristãos nasceram e que a violência tornou-se inútil? Renunciando à violência que mantém a ordem atual para confiar na força fugaz e vaga da opinião, não se corre o risco de ver os selvagens internos e externos violentarem impunemente os cristãos? Se, tendo poder, defendemo-nos com dificuldade dos elementos não- cristãos cia sociedade, sempre prontos a invadir-nos e a anular os progressos da civilização, como então poderia a opinião pública suprir a força e dar-nos segurança? Confiar numa só lei seria tão louco quanto pôr em liberdade os animais ferozes de uma jaula, com o pretexto de que parecem inofensivos em sua prisão, atrás de barras de ferro em brasas.
Por isso os homens que estão no poder e que lá foram colocados por Deus ou pelo destino não têm o direito de renunciar à violência e de colocar em risco a civilização, simplesmente para tentar uma experiência, para saber se a opinião pública pode ou não substituir as garantias dadas pelo poder.