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Senhores e Servos

Leon Tolstoi

Fosse lã como fosse, o certo é que ele acordou e sentiu o coração a palpitar com tal intensidade, que dava a nítida impressão de que o trenó tremia debaixo dele. Abriu os olhos, nada mudara à sua volta, mas pareceu-lhe que aclarara um pouco. “Sim, começa a clarear. O amanhecer não tarda”, conjeturou. Mas logo viu que a claridade era devida à lua que se mostrava no céu. Soergueu-se e olhou para o Baio, que continuava de pé, a traseira voltada para o vento, tremendo. Coberta de neve, a manta tombara para um lado; a retranca escorregara e se via melhor a sua cabeça, polvilhada de neve e com a crina arrepiada. Vassílii Andréitch dobrou-se sobre a parte traseira do trenó para ver o que era feito de Nikita. O criado permanecia na mesma posição. Os pés e a serapilheira com que se cobrira haviam desaparecido sob grossa camada de neve.

“Queira Deus que não morra de frio! Suas roupas não agasalham nada! Se morrer vão dizer que fui eu o culpado! Que gente burra! Como a instrução faz falta!”, pensou Vassílii Andréitch. Imaginou tirar a manta que cobria o cavalo e colocá-la sobre Nikita, mas logo desistiu, pois iria sentir frio quando se levantasse e o cavalo poderia ficar gelado. “Ora bolas, por que fui trazê-lo comigo? A culpa foi toda dela”, e se lembrou da mulher, a quem não tinha amor. E acomodou-se de novo no fundo do trenó.

“Meu tio passou uma noite inteira assim e não sofreu nada”, acudiu-lhe de repente. E a seguir um outro caso veio à mente: “É, mas

Sevastiavos, coitado, não escapou. Quando removeram a neve que o soterrava, estava morto, duro como um pedaço de carne congelada. Se eu tivesse ficado em Grichkino não estaria passando este aperto”.

Embrulhou-se prudentemente na peliça de modo a não perder o calor que seu corpo ainda armazenava e, fechando os olhos, tentou readormecer. Mas, apesar de todos os esforços, não conseguiu, sentia-se, pelo contrário, insone e agitado. Recomeçou a relacionar as posses que tinha e o quanto lhe deviam, elogiou-se e rejubilou-se pela excelente situação que desfrutava, mas, a todo momento, seus pensamentos eram cortados por um estranho terror e pelo arrependimento de não ter pernoitado em Grichkino, “Oh, outros galos cantariam se eu estivesse deitado numa boa cama agora, bem coberto, bem quentinho.”

Virou-se e revirou-se vezes sem conta, nunca encontrando uma posição satisfatória. Levantava-se, deitava-se de outra maneira, tornava a cobrir os pés, ficava sossegado um minuto. Logo sentia que as botas estavam apertando ou que o vento penetrava por uma abertura qualquer de sua roupa.

Voltava a pensar, muito aborrecido consigo mesmo, como poderia estar gozando o bom calor daquela sala em Grichkino. E levantava-se, virava-se, embrulhava-se melhor na roupa e tomava a se deitar.

Em dada hora, acreditou ter ouvido o canto dos galos ao longe. Alegre, abaixou a gola da peliça e se pôs a ouvir com a maior atenção. Mas, bastante decepcionado, não percebeu nada além do barulho que o lenço fazia agitado pelo vento e o insistente bater da neve no trenó.

Nikita não fizera o mínimo movimento, desde que se ajeitara atrás do trenó. Nem tomara conhecimento das duas ou três perguntas que o amo lhe endereçara. “Aquele nem se importa com o que está acontecendo! Certamente está ferrado no sono”, pensava Vassílii Andréitch, um tanto despeitado e dobrando-se sobre a parte de trás do trenó, a fim de observar Nikita coberto de neve.

Vassílii Andréitch se levantou e se deitou pelo menos umas vinte vezes. Parecia-lhe que aquela noite não acabava mais.

“Agora, sem dúvida, o dia vai raiar”, murmurou, levantando-se e passeando os olhos em redor. “Se eu soubesse que horas são! Mas se abrir a peliça vou sentir mais frio. Assim que perceber que está amanhecendo, crio alma nova. Poderíamos atrelar logo o cavalo e zarpar.”

No íntimo, Vassílii Andréitch não ignorava que o dia devia estar ainda bem longe, mas sentia se acentuar um medo indefinível e ansiava por, ao mesmo tempo, aplacá-lo e enganar-se a si próprio. Cauteloso, desabotoou a peliça e lentamente foi enfiando a mão por debaixo da

roupa, tateando, tateando até chegar ao colete. A muito custo tirou o relógio de prata com flores esmaltadas na tampa e procurou ver as horas. Mas não distinguia o mostrador.

Apoiou-se nos cotovelos e nos joelhos, como já fizera antes para acender o cigarro, e, mais cauteloso ainda, abriu a caixa de fósforos, escolheu pelo tato o palito que lhe pareceu mais grosso e riscou-o sem que ele falhasse. Chegou o relógio para a chama e consultou-o. Não podia acreditar no que marcavam os ponteiros... Meia-noite e dez! A noite apenas principiava...

— Oh! esta noite não tem fim! — gemeu Vassílii Andréitch, sentindo um arrepio de frio correr-lhe pela espinha. Tornou a se abotoar, cobriu-se meticulosamente, se ajeitou no canto do trenó, disposto a esperar com a máxima paciência.

Às voltas tantas, apesar do ulular da ventania, ouviu nitidamente um rumor característico — o rumor de um ser vivo. O ruído foi aumentando, conservou certa regularidade, depois baixou de intensidade. Era um lobo, não havia a menor dúvida. E devia estar bem perto, pois se ouvia claramente o barulho que fazia com as mandíbulas. Afastando a gola, Vassílii Andréitch pôs-se à escuta. O Baio também ouvira e empinara as orelhas. A fera uivou e o cavalo sapateou e relinchou como advertindo a proximidade do perigo. Depois do incidente, Vassílii Andréitch não somente não pôde dormir como teve de lutar incessantemente contra a inquietação que o dominava. Procurava encaminhar os pensamentos para seus negócios, para a sua situação financeira e para os seus bens, mas o medo o empolgava num crescendo.

O arrependimento de não ter pernoitado em Grichkino não o largava.

“Que a floresta fique como está e Deus faça dela o que quiser! já tenho tantos negócios bons que não preciso dela, graças a Deus! Eu devia é ter pernoitado em Grichkino!”, repisava. “Dizem que a gente sente mais frio depois de beber. E eu bebi.”

Mas, sentindo o corpo tremer, não sabia na verdade se era de frio ou de medo. Quis se cobrir e se acomodar, como já fizera várias vezes antes, mas foi impossível. Não era capaz de se manter quieto. Tinha ímpetos de se levantar, de fazer qualquer coisa para sufocar o pânico, que progressivamente aumentava e contra o que se sentia impotente.

Mais uma vez recorreu ao cigarro. Mas só restavam três fósforos, os piores da caixa, e nenhum acendeu.

— Que o diabo te consuma, desgraçado! — praguejou alto sem saber contra quem. E, esmagando o cigarro, atirou-o longe. Quis também jogar fora a caixa de fósforos, mas, pensando melhor, meteu-a no bolso.

Tamanho pavor o possuía, que não pôde mais ficar onde estava. Saiu do trenó e, de costas para o vento, desamarrou o cinto e tornou a amarrá-lo mais apertadamente.

“Que me adianta ficar aqui à espera da morte? Vou montar no Baio e tocar para a frente!”, acudiu-lhe de repente. “O Baio é esperto e há de se safar. Quanto àquele ali (e pensava em Nikita), tanto faz morrer como viver. A vida, para um pobre-diabo como ele, não é nada divertida, não tem importância. Comigo, o caso é diferente. Graças a Deus tenho os meus guardados e...”

Desamarrou o Baio, colocou o freio e tentou montá-lo, porém, as peliças e as botas estavam tão pesadas que não conseguiu se alçar. Trepou, então, no trenó para alcançar o lombo do animal, mas o trenó balançou com o seu peso e ele caiu. Foi mais bem-sucedido na terceira tentativa: puxou o cavalo para perto do trenó, fincou o pé prudentemente no rebordo do veículo e conseguiu se deitar de barriga no lombo do cavalo. Assim ficou alguns momentos, depois, com dois ou três impulsos, passou uma das pernas por cima do animal. Afinal, montou-o. Com as manobras de Vassílii Andréitch, o trenó balançou, despertando Nikita, que se levantou um pouco. Vassílii Andréitch julgou que ele lhe dizia qualquer coisa e gritou:

— Seria eu uma besta quadrada se fosse atender a gente imbecil como você! Que é que está pensando? Acha que vou morrer assim a troco de coisa nenhuma? Está muito enganado!

Prendeu as abas da peliça com os joelhos, para que o vento não o estorvasse, e tocou o Baio na direção em que imaginava encontrar a floresta e a cabana do guarda-florestal.

VII

Nikita permanecera imóvel desde que, envolvido na serapilheira, se sentara atrás do trenó. Como todos aqueles que vivem mais perto da natureza e já experimentaram a miséria, tinha muita paciência e poderia esperar horas e dias inteiros sem irritação e sem nervoso. Bem que ouvira as interpelações do amo, mas não respondera por não sentir nenhuma vontade de se mexer ou de falar. Conquanto ainda se conservasse aquecido devido ao chá que tomara e ao exercício que praticara ao forçar o Baio a transpor o monte de neve, não se iludia que tal calor pudesse durar muito e sabia que não teria forças para se reaquecer, movimentando-se, já que se sentia tão esgotado quanto um cavalo que

pára depois de um violento esforço e fica incapaz de prosseguir mesmo à custa de chibatadas e que o amo compreende ser preciso alimentá-lo para pô-lo em condições de trabalhar.

Gelado tinha o pé que calçava a bota furada e o dedão já estava insensível. Aliás, o frio lhe ia invadindo, pouco a pouco, o corpo todo. Veio-lhe ao espírito a idéia de que podia e que até seria certo morrer naquela noite, mas não a achou desagradável ou assustadora. Não a achou desagradável porque sua existência nunca fora boa, pelo contrário, sempre fora uma contínua servidão e dela já principiava a ficar cansado, Não tinha o menor medo porque, além dos senhores a quem servira na terra, e neles se incluía Vassílii Andréitch, sempre sentira que havia um outro maior, Aquele que o pusera no mundo, e sabia que, mesmo na morte, dependeria Dele, a quem não deveria temer de modo algum.

“É triste ter de abandonar tudo aquilo que nos cercou na vida e a que estávamos acostumados! Mas que remédio? É preciso que nos acostumemos também às novidades.”

E, de repente, se lembrou dos seus pecados. Acudiram-lhe à mente as suas carrasparias, os maus-tratos que infligira à mulher, as blasfêmias incontidas, as poucas vezes que aparecia na igreja, o jejum que não observava e todos os pecados que o padre lhe imputava no confessionário.

“Sim, tenho pecados de sobra! Mas serei mesmo culpado ou foi Deus quem me fez assim? Pecados! De que maneira poderei evitá-los?”

Assim ia pensando Nikita no que poderia lhe acontecer naquela noite. Mas logo deixou de fazê-lo para se entregar às recordações que brotavam espontaneamente. Repassou a chegada de Marfa, as bebedeiras que tomara e a promessa que fizera, a partida da aldeia com o amo, na véspera, a casa tão quentinha de Tarass, e as conversas a respeito da partilha. Desfiou lembranças do filho e do Baio, que devia estar mais confortado sob a manta. Pensou também no patrão, que, cada vez que se mexia, fazia o trenó se embalançar. “O pobrezinho deve estar arrependidíssimo de não ter pernoitado em Grichkino. Para ele, que é rico, a morte será cruel! Para os pobres é que ela não tem importância!” Mas, paulatinamente, as recordações foram se embaralhando e ele adormeceu.

Quando Vassílii fez o trenó balançar mais para poder saltar sobre o cavalo, Nikita acordou, sentindo que o apoio das costas lhe fugia, e, muito contra a vontade, procurou mudar de posição. Esticou com dificuldade as pernas, afastou camadas de neve que as recobriam e se pôs de pé. No mesmo instante sentiu que um frio terrível lhe espetava o corpo.

E, num relance, compreendeu o que se passava. Então, chamara o amo apenas para lhe pedir a manta de que o Baio já não iria precisar, mas que

para ele, Nikita, teria grande serventia. Mas Vassílii Andréitch se arrancara sem lhe dar resposta e logo sumira na espessa poeira de neve que escondia tudo.

Vendo-se sozinho, Nikita pensou rapidamente no que devia fazer. Cansado, não se sentia em condições de procurar um abrigo. Não podia mais se sentar no buraco onde estivera até há pouco, pois a neve já o tapara. o trenó não o esquentava convenientemente, porque não tinha nada com que se cobrir, e o cafetã e a peliça quase não o abrigavam.

Sofria tanto o frio que tinha a impressão de que só vestia uma camisa. Teve medo.

— Meu pai do céu! — exclamou em voz baixa, e imediatamente ficou tranqüilo, certo de que não estava só, de que Alguém o ouvia e não o abandonaria.

Soltou um fundo suspiro e, sem tirar a serapilheira com que resguardava a cabeça, subiu para o trenó e se acomodou no lugar onde o amo estivera.

Mas não conseguia se reaquecer. Um forte tremor sacudia-lhe o corpo. Depois, o tremor foi diminuindo e, pouco a pouco, ele perdeu os sentidos. Não poderia dizer se estava morrendo ou adormecendo, mas se sentia indiferentemente preparado para uma coisa ou para outra.

VIII

Enquanto isso, Vassílii Andréitch, animando o cavalo com os joelhos e com a rédea, tocava-o no rumo em que julgava, sem mesmo saber por quê, encontrar a floresta e a cabana do guarda-florestal. A neve tirava-lhe a visão e o vento dificultava-lhe o avanço; sem embargo, dobrado sobre o pescoço do Baio e preocupado em prender as abas da peliça entre as coxas e o selim gelado, que muito o incomodava, forçava a marcha do animal, que com grande sacrifício obedecia ao desejo do condutor.

Durante uns cinco minutos assim andaram em linha reta, segundo acreditava Vassílii Andréitch, que nada via, salvo a cabeça do Baio e o vasto lençol branco que se estendia por todos os lados, nem nada escutava, fora o silvo do vento rente à gola da peliça.

Repentinamente, divisou uma coisa escura na sua frente. O seu coração palpitou de alegria e ele dirigiu a monta ria para aquele ponto,

cuidando distinguir ali as paredes das casas da aldeia. A coisa escura, porém, não estava imóvel — mexia-se. Não eram casas, mas altas artemísias nascidas no fundo de uma vala e que se curvavam desesperadamente sob o impacto da ventania. E, sem saber por quê, ao deparar com aquelas plantas atormentadas pela tempestade impiedosa Vassílii Andréitch estremeceu de horror e impulsionou a alimária para a frente, sem perceber que, quando chegara perto das artemísias, mudara de rumo e, assim, avançara em outro sentido, pensando ainda que ia direito à floresta e à cabana do guarda-florestal. O Baio tendia a seguir para a direita e por isso Vassílii Andréitch obrigava-o a tornar para a esquerda.

Novamente vislumbrou uma mancha escura à sua frente. Rejubilou-se, seguro de que desta vez avistara a aldeia.

Mas eram as mesmas artemísias castigadas pelo vendaval e que, sem explicação, o haviam atemorizado. Não só via as mesmas plantas secas como também as manchas recentes das patas de um cavalo, que o vento começava a apagar.

Vassílii Andréitch conteve o Baio e se inclinou para observar com a máxima atenção. Sim, por ali passara um cavalo e só podia ser o seu. Não teve dúvidas de que andava em círculo e num espaço muito limitado.

“Se eu continuar assim, não escapo da morte”, disse consigo mesmo. E, para vencer o terror, apressou o cavalo, esforçando-se por ver através da intensa bruma branca. Parecia-lhe que no meio dela brilhavam pontos luminosos, que desapareciam logo que os fixava. Em certos momentos acreditou ouvir latidos de cães e uivos de lobos, mas eram sons tão difíceis e remotos, que não poderia garantir que eram reais ou apenas uma ilusão sua. Parou e ficou atento, procurando captar o menor ruído.

Eis que um grito medonho e ensurdecedor como que arrebentava- lhe os ouvidos e ele se viu tomado por um convulsivo tremor. Abraçou-se desesperadamente ao pescoço do cavalo, mas também o pescoço tremia e o pavoroso grito se repetiu. E, durante alguns segundos, Vassílii Andréitch não pôde concatenar as idéias e esclarecer o que sucedera. Ora, o que acontecera fora simplesmente que o Baio, para encorajar-se ou para pedir socorro, pusera-se a relinchar com quanta força lhe restava.

— Que a morte lhe tape a boca, desgraçado! — praguejou aos berros. — Que susto me pregou!

Mas, mesmo após ter compreendido a causa do medonho grito, não conseguiu dominar a ansiedade que ele lhe provocara. “Preciso refletir sensatamente. É preciso me acalmar”, dizia interiormente. Mas não se controlava, e continuava a apressar o animal, sem perceber que tinha agora o vento pelas costas, e não pela frente como antes.

Sentia muitíssimo frio e o corpo todo dolorido, mormente no lugar onde roçava a sela, as mãos e os pés tremiam, a respiração estava opressa. Via que fatalmente morreria naquele deserto de neve, pois não encontrava uma saída. E o cavalo entrou por um montão de neve adentro, debateu-se e caiu de lado. Vassílii Andréitch agilmente pulou na neve e fez escorregar a sela quando se firmou para o pulo. Vendo-se livre, o cavalo se levantou, sacudiu-se, deu dois saltos e, relinchando, disparou arrastando pela neve a manta e a rédea: Vassílii Andréitch viu-se só e semi-enterrado na neve. Quis perseguir o animal, mas a neve era tão alta e os seus agasalhos pesavam tanto que não foi além de vinte trôpegos passos e, esgotado e sem ar, parou. “A floresta, as glebas, o armazém, a construção com telhado de zinco, o galpão, o herdeiro... Que será de tudo? Que estará me acontecendo? Não pode ser!”, foi o que lhe veio à mente, como vieram logo as artemísias martirizadas pela tormenta, diante das quais passara duas vezes, e tão grande pavor o invadiu que se negou a acreditar que tudo fora verdade. “Não estarei sonhando?”, perguntou-se, e, convencido de que sonhava mesmo, quis acordar. Mas a neve que batia em sua cara, cobria a sua roupa e gelava a sua mão direita, cuja luva se perdera, era bem real. Como bem real era o branco deserto em que se encontrava agora, tão só como aquelas artemísias, à espera de uma morte inevitável, rápida e estúpida.

— Mãe do céu! São Nicolau, meu padroeiro! — implorou gritando.

E se lembrou do ofício da véspera na igreja, da imagem do santo de rosto enegrecido numa moldura dourada, das velas que vendia para os fiéis acenderem diante do ícone e que o sacristão lhe trazia depois, quase intactas, para ele esconder e tornar a vender. E começou a rezar àquele mesmo milagroso São Nicolau, prometendo-lhe missas e velas para que o salvasse. Depressa, porem, compreendeu, sem a menor parcela de dúvida, que o ícone, as velas, o padre, as missas, tudo isso era muito importante e necessário lã na igreja, mas não ali, quando não lhe poderiam ser de nenhuma valia. Revelava-se a ele claramente que as missas e velas não tinham nenhuma relação com a sua desesperadora situação.

“Não posso me deixar abater. Tenho de seguir as pegadas do cavalo, antes que a neve as apague. Só assim eu poderei encontrá-lo. Mas devo agir com calma, para não perder o rumo. Do contrário ficarei logo cansado e, então, serei um homem perdido”, pensou. Embora tivesse resolvido andar calmamente, desatou a correr como um alucinado, tropeçando a cada momento. As marcas do Baio já estavam pouco visíveis, especialmente nos lugares onde a neve era menos profunda.

“Vou morrer mesmo. Estou perdendo o rastro do cavalo e assim é

impossível encontrá-lo!”, disse de si para si. E, mal acabara de falar, levantando os olhos, viu uma mancha negra. Era o Baio e também o trenó e os varais com o lenço amarrado. O Baio, com a retranca de lado, não estava no seu antigo lugar, mas perto dos varais, e sacudia a cabeça com a rédea enrolada numa das pernas. E que Vassílii Andréitch viera cair no mesmo monte de neve em que tinha antes afundado com Nikita. O Baio o trouxera até uns cinqüenta passos do trenó e, então, o abandonara.

IX

Atingindo o trenó, Vassílii Andréitch agarrou-se a um dos lados dele e, de pé, ficou algum tempo recuperando o fôlego e se acalmando. Nikita não estava mais no seu lugar, mas Vassílii Andréitch percebeu no trenó uma coisa coberta calculou que fosse ele. o alucinante medo havia de neve e se extinguido. Só temia que voltasse aquele medo horroroso que o empolgara quando vagara a cavalo e que ultrapassara todos os limites ao se ver sozinho, caído no monte de neve. Era preciso, a todo custo, impedir que o pavor renascesse e agir, fazer qualquer coisa útil era um meio de afastá-lo. Em primeiro lugar, foi se colocar de costas para o vento e desabotoar a peliça. Em seguida, com a respiração menos aflita, descalçou as botas e sacudiu a neve que nelas se introduzira — tirou também a luva esquerda, pois a da mão direita havia se perdido na neve. Desapertou o cinto e apertou mais embaixo, como tinha o costume de fazer, quando saía do armazém para examinar as carroças de trigo que os camponeses vinham vender-lhe.

Assim que se viu em melhores condições para agir, tratou de desembaraçar a perna do cavalo. Amarrou o Baio na parte fronteira do trenó, onde ele estivera antes, e quis passar por trás dele para recolocar a retranca, o selim e a manta, porem, naquele momento, viu uma coisa se mexendo no trenó; era a cabeça de Nikita que emergia da espessa camada de neve que a cobrira. Com extremo esforço, Nikita, completamente enregelado, ergueu-se, sentou-se e começou a sacudir a mão diante do nariz, como se estivesse espantando moscas, ao mesmo tempo que murmurava palavras ininteligíveis. Vassílii Andréitch adivinhou que ele o chamava e, deixando cair a manta que ia estender sobre o Baio, acercou- se do empregado:

— Que é que você está dizendo? Que é que está sentindo?

— Estou... mo... mo... morrendo — respondeu Nikita, com dificuldade e a voz entrecortada. — O que... me ... deve... dê ao... meu

filho... ou à minha... mulher... é a mesma... coisa...

— Você está gelado?

— Sim... sim... é a morte ... Perdoe-me... em nome de ... Cristo — e Nikita soluçava e continuava a agitar as mãos como se enxotasse moscas.

Durante alguns segundos, Vassílii Andréitch ficou imóvel e calado. Depois, rapidamente, com aquele ar decidido com que despachava um freguês, depois de um bom negócio, recuou um passo, arregaçou as mangas da peliça e começou, com ambas as mãos, a tirar a neve que cobria Nikita e o trenó. Retirada a neve, Vassílii Andréitch desabotoou a peliça, empurrou Nikita para o fundo do trenó e se deitou em cima dele, agasalhando-o com a peliça e com seu próprio corpo. Tendo enfiado as abas da peliça entre Nikita e os lados do veículo, e prendendo a barra com os joelhos, ficou de bruços sobre o criado, com a cabeça apoiada na parte dianteira do trenó. Não prestava atenção aos movimentos do cavalo, nem ao sibilar do vento. Empenhava-se inteiramente em ouvir a respiração de Nikita, que permaneceu longo tempo imóvel e afinal suspirou e se mexeu ligeiramente.

— Estão bem! E você a dizer que estava morrendo... Fique bem calmo e trate de se esquentar. Nós somos ossos duros de roer...

Mas, com grande espanto seu, Vassílii Andréitch não pôde continuar a falar, pois os olhos se encheram de lágrimas e o lábio inferior tremia. Parou de falar e fez um enorme esforço para conter o nó que lhe apertava a garganta.

“Passei por um grande susto e estou muito enfraquecido”, pensou. Porém, a fraqueza que sentia não era desagradável, até, pelo contrário, fazia que experimentasse uma estranha alegria, antes jamais provada.

“Nós somos ossos duros de roer dizia para si mesmo, abandonando-se a uma espécie de enternecimento solene e todo especial. E ficou assim deitado em silêncio um largo tempo, enxugando os olhos na dobra da peliça e apertando com mais força o joelho direito para prender a aba que o vento ameaçava arrancar.

Mas o desejo de fazer que alguém participasse da sua alegria foi de tal sorte que não se conteve mais:

— Nikita!

— Vou indo bem. já estou sentindo um pouco de calor — respondeu Nikita, embaixo do amo.

— Sim, meu irmão, sim... eu também estive com a morte nas minhas costas. Você quase morre de frio e eu também...

Mas o queixo recomeçou a tremer e novamente os olhos se

encheram de lágrimas. “Não faz mal. Tudo o que sei, tenho que guardar comigo”, pensou. E ficou calado muito tempo.

O calor que subia do corpo de Nikita, sob ele, e o que lhe proporcionava a peliça, posta sobre as costas, aqueciam bastante Vassílii Andréitch; entretanto as mãos, que seguravam as abas da peliça, e os pés, que o vento descobria a todo instante, começavam a ficar gelados. Sentia, principalmente, muito frio na mão direita, que estava sem luva. Contudo, não pensava nem nas suas mãos, nem nos seus pés.

Só pensava em reaquecer o homem que estava deitado por baixo dele.

Algumas vezes dava uma olhada rápida no Baio e via que o lombo dele estava descoberto, pois o vento jogara ao solo a manta e a retranca. A si mesmo dizia que era urgente se levantar e cobrir o animal, mas não se decidia a deixar Nikita nem por um minuto, como ainda não queria quebrar a singular alegria que embalava a sua alma. já não sentia o menor medo.

“Já passou o perigo. Ele está salvo!”, exclamou consigo mesmo, pensando na maneira pela qual recuperava Nikita com o mesmo entusiasmo com que, outrora, gabava as suas compras e vendas.

Assim se escoaram três horas. Vassílii Andréitch não notava mais a marcha do tempo. No princípio revia mentalmente a borrasca, os varais empinados, o cavalo com os arreios. E pensava, também, em Nikita ali, embaixo dele.

Logo vieram se juntar as recordações mais antigas: a festa da aldeia, a mulher, o oficial de polícia, a gaveta da arca onde guardava as velas e sob a qual viu, de repente, Nikita deita,do. Seguiram-se os camponeses comprando e vendendo, paredes brancas, casas cobertas de zinco, e sob as quais tornava a encontrar Nikita. Por fim, tudo se embaralhou.

Uma imagem absorveu a outra e, da mesma forma que as cores do arco-íris se misturam para dar o branco, também toda!s as suas impressões, confundindo-se, desapareceram.

E ele adormeceu.

Muito tempo dormiu sem sonhar. Mas, pela madrugada, teve um sonho. Viu-se na igreja, de pé, junto à arca em que guardava as velas. A mulher de Tikhon comprava-lhe uma vela de cinco copeques para acendê-la diante do íc(pc, cuja festa se comemorava. Ele quer pegar a vela para entregá-la à compradora, mas as mãos, que enfiara nos bolsos- não lhe obedecem. Quer contornar a arca, mas os pés não saem do lugar e os sapatos parecem estar colados no chão. Subitamente a arca deixa de ser

arca para ser uma cama e ele se vê deitado de borco na cama, mas em sua ca. Tenta se levantar, porém, não consegue. Todavia, é preniente que se levante, porquanto o oficial de polícia, Ivan Matvéitch, virá buscá-lo para irem juntos efetivar a compra da floresta. Ou será para ajudá-lo a recolocar a retranca o Baio? E Vassílii Andréitch pergunta à esposa:

“Como é, Nikoláievna, ele ainda não chegou?” — “Não, ainda não veio”, responde ela. Aí ouve alguém se aproximando da escada. É ele, certamente. Mas não era! Quem passou não parou. “Como é, Nikoláievna, então ele ainda não chegou mesmo?” — “Não.” E assim ficou na cama, sem poder se levantar, sempre esperando, e a espera é um misto de temor e alegria. De repente, a alegria é que domina: está chegando quem ele esperava. Mas não é Ivan Matvéitch, o oficial de polícia. Trata-se de outra pessoa e, no entanto, é exatamente quem ele desejava que chegasse. Ei-la que se aproxima e o chama. E aquela pessoa que o está chamando é justamente aquela que lhe ordenara que deitasse sobre o corpo gelado de Nikita para reaquecê-lo. “Já vou!”, grita com imensa alegria, e acorda com o próprio grito.

Acorda, sim, mas inteiramente diferente do Vassílii Andréitch que adormecera. Quer se levantar, mas se sente incapaz. Quer mexer as mãos e não pode, Quer mexer os pés, também não pode. Quer mover a cabeça e é a mesma imobilidade. A coisa o espanta, mas não o entristece. Compreende que é a morte e não se sente desolado. Lembra-se de Nikita, que está debaixo dele, aquecido e vivo! Parece-lhe que ele, Vassílii Andréitch, é Nikita e que Nikita é ele, e que a sua própria vida não está mais com ele e sim com Nikita. Atentamente escuta e ouve o respirar e o leve ressonar de Nikita. “Nikita está vivo, portanto eu também estou vivo”, exclama de si para si, triunfalmente.

E lembra-se do seu dinheiro, do seu armazém, da sua casa, das vendas e compras e dos milhões de Mironov. É incompreensível como aquele homem que se chamava Vassílii Brekhunov dava tanta importância a tais bagatelas.

“É porque ele não sabia o que é verdadeiramente de valor”, dizia, pensando em Vassílii Brekhunov. “Não sabia o que eu hoje sei. Não é possível me enganar mais. Agora eu sei!” E ouve de novo o chamado daquela pessoa que já o chamara uma vez. “já vou! já vou!”, responde, o coração transbordando de uma doce alegria.

E, depois disso, Vassílii Andréitch não viu, não ouviu, nem sentiu mais nada neste mundo.

A tempestade não cessava. A neve em constantes imensos turbilhões ia cobrindo o corpo de Vassílii Andréitch, o Baio gelado e tremente, o trenó já meio sepultado. E no fundo do veículo, sob seu amo

morto de frio, Nikita dormia, tépido, sereno.

IX

Ao amanhecer, Nikita despertou tomado Por uma estranha sensação de frio. Sonhara que ia levando para o moinho uma carroça carregada de trigo e, não encontrando a ponte, ao atravessar o riacho, atolara-se na lama. Mete-se debaixo da carroça e se esforça por levantá-la com o emprego das costas. Mas, coisa curiosa, a carroça não se move!

Parecia grudada às suas costas e ele não podia suspendê-la nem tampouco sair dali. Ela comprime-lhe os rins. Meu Deus! Como está fria! É preciso que saia dali de qualquer jeito! “Não agüento mais! Tire os sacos!”, diz a alguém que, supõe, está assistindo à cena. Mas a carroça parece cada vez mais fria e esmagando-o. E eis que é atingido por duas pancadas — desperta de todo e se lembra de tudo. A carroça gelada é o amo morto, deitado em cima dele, e as pancadas que sentiu eram o Baio, que por duas vezes batera com o casco no trenó.

— Andréitch! — chama, temeroso, com O pressentimento da verdade e arqueando as costas.

O amo não responde. A barriga e as pernas dele estão duras e pesadas como se fossem de chumbo.

“Com certeza morreu! Que Deus o receba em Seu reino!”, pensa Nikita. Vira a cabeça, faz um buraco na neve com a mão e abre os olhos. Está bastante claro. O vento continua a balançar os varais e a neve tomba sempre, não mais fustigando os lados do trenó, mas sepultando, silenciosamente, o veículo e o cavalo, que está imóvel, a respiração, parada. “Ele também deve ter morrido”, raciocina. E, na verdade, fora fazendo um último esforço para se manter de pé que o Baio, inteiramente gelado, batera com as patas no trenó e acordara Nikita.

“Senhor! Pai celeste! Também sou chamado à Sua presença! Que seja feita a Sua divina vontade! Tenho medo mas que posso fazer? Só se morre uma vez. Tomara que não demore muito”, e Nikita recolhe as mãos, cerra os olhos dorme, certo de que chegara a sua vez.

Foi só no dia seguinte, à hora do jantar, que uns camponeses desenterraram Vassílii Andréitch e Nikita, que estavam a cinqüenta metros da estrada e a meio quilômetro da aldeia.

A neve cobrira inteiramente o trenó, mas os varais como o

drapejante lenço ainda estavam à vista. Baio, com neve até a barriga, a manta e a retranca descaídas para um lado mantinha-se de pé, todo branco, a cabeça pendida, as ventas entupidas de neve, assim como os olhos, que pareciam verter lágrimas geladas. Emagrecera tanto no decorrer daquela noite que não era mais do que pele e ossos.

O corpo de Vassílii Andréitch estava tão hirto quanto um pedaço de carne congelada. Ao erguerem o cadáver, ficou ele com as pernas abertas tal como se deitara sobre Nikita. os olhos de gavião, redondos e saltados, gelados estavam, e a neve entupira a boca, sob o bigode aparado.

Quanto a Nikita, ainda vivia, não obstante tivesse corpo parcialmente gelada. Quando o acordaram, julgou que estivesse morto e que tudo o que acontecia à sua volta já fosse no outro mundo. Ao ouvir a voz dos camponeses que livravam o trenó e suspendiam o corpo de Vassílii Andréitch, ficou muito admirado, no primeiro momento, por ver que havia gente no outro mundo e que discutia da mesma forma que neste; porém, ao perceber que ainda se encontrava na Terra, sentiu-se mais aborrecido do que contente e mais ainda ao notar que tinha os dedos dos pés enregelados.

Dois meses passou ele no hospital. Amputaram-lhe três dedos; outros ficaram bons — e pôde voltar a trabalhar.

Vinte anos viveu ainda, primeiramente como criado de um herdade e mais tarde, ao chegar a velhice, como guarda-noturno. Só veio a morrer este ano rodeado dos seus, na sua própria casa, tal como sempre ambicionara, sob a proteção dos ícones e com uma vela entre as mãos. Antes de expirar, pediu perdão à mulher, despediu-se do filho e dos netos e se foi absolutamente feliz porque livrara o filho e a nora de uma boca inútil e, principalmente, porque trocava, afinal, esta vida, da qual já se sentia saturado, por outra que, à medida que os anos passavam, lhe parecia mais atraente e longa.

Estará melhor ou pior no mundo em que foi acordar depois da sua morte? Terá se decepcionado ou encontrou lá precisamente aquilo que desejava?

Um dia todos nós o saberemos.

Fonte: www.portaldetonando.com.br

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