«Não é necessário uma grande ciência para se concluir que, como afinal concluem os animais, no período de gestação e aleitamento deve haver continência. Mas não. A ciência já chegou a descobrir não sei que leucócitos que correm no sangue e outras inépcias que não servem para nada mas não pôde ou não quis descobrir isto. Pelo menos nunca ouvi dizer que tenha sido abordado tal assunto. De modo que para a mulher só há duas saídas: a primeira fazer de si própria um monstro, destruir ou tentar destruir em si, segundo as necessidades, a faculdade de ser mulher, isto é, mãe, a fim de que o homem possa, tranquilamente e de uma maneira constante, satisfazer-se; a segunda modalidade, que não é um expediente mas a violação directa, simples e grosseira das leis da natureza e se pratica em todas as famílias consideradas honestas. A mulher, violentando a sua própria natureza deve ser ao mesmo tempo grávida, ama e amante e deve ser rebaixada até onde não são os animais.
«Esgotam-se-lhe as forças. E daí provêm os muitos casos de histeria; de doenças de nervos e no povo... as possessas. Note você que os casos das possessas não se encontram entre raparigas puras, mas somente entre as mulheres casadas e entre as casadas as que coabitam com os maridos.
«E assim entre nós e é assim na Europa. Os hospitais estão cheios de mulheres histéricas porque infringiram as leis da natureza.
«As possessas e as doentes de Charcot são verdadeiras doentes, e o mundo está cheio de estropiadas.
«Se pensássemos na grande obra que se realiza na mulher quando ela traz dentro de si um filho, ou quando o amamenta!...
«O que ela traz em si é a nossa continuação, quem nos substituirá... e esta obra sagrada é comprometida... Porquê?
«É acabrunhante meditar nisto. Fala-se muito nos direitos da mulher e, afinal, é como se os antropófagos engordassem os prisioneiros para os comer, afirmando contudo que muito os interessa os direitos e liberdade desses mesmos prisioneiros.»
Tudo isto era novo para mim e interessou-me:
— Mas nesse caso um homem só pode amar a mulher uma vez, de dois em dois anos, e o homem...
— E o homem não pode sujeitar-se a tanto...
«Os ilustres sacerdotes da ciência assim o fazem crer a todo o mundo. Gostaria de poder obrigar estes magos da ciência a substituir as mulheres
nestas obrigações que, segundo eles, são indispensáveis aos homens.
«Convença um homem de que é indispensável à vida a vodca, o tabaco, o ópio e tudo isto se tornará indispensável.
«Deus porque não consultou esses adivinhos da ciência, não compreendeu o que era necessário e falhou. Há portanto qualquer coisa que não está certa.
«Se para o homem (os magos assim o determinam) é uma necessidade satisfazer a sua concupiscência e se a procriação e o aleitamento são um obstáculo à satisfação dessa necessidade, que fazer então? Dirigirem-se aos magos e tudo se arranja. Eles têm a solução para todos os problemas.
«Quando serão destronados estes adivinhos e as suas imposturices?...
É tempo!
«Veja ao que chegamos; uns enlouquecem, outros suicidam-se, e tudo tem a mesma causa.
«Mas como proceder de outro modo?
«Os animais parecem compreender que a descendência assegura a continuidade da espécie e observam a esse propósito a lei que a regula. Só um animal a ignora e faz por ignorar. De quem se trata? Do rei da natureza. Do homem!
«Note que os animais se acasalam quando pressentem que podem ter descendência, e que ao imundo rei da natureza todo o tempo lhe serve, conquanto tire disso proveito. E ainda mais, esta ocupação de macaco é exaltada como a pérola da criação, o amor. Em nome deste amor, ou melhor, desta abominação, assegura a perda de quem? De metade do género humano! De todas as mulheres que deveriam ser suas colaboradoras na evolução da humanidade para o bem e para a verdade, mas em nome do prazer se fazem, não auxiliares, mas inimigas.
«Observe o que refreia o movimento de avanço da humanidade: as mulheres. E porquê? Unicamente por isto. Sim. Sim», repetiu ele várias vezes e pôs-se muito agitado. Procurou os cigarros, acendeu um com o desejo evidente de se acalmar.
XIV
— Vivi assim, como um porco — continuou ele no mesmo tom que
dantes.
«E o pior era que levando esta vida infame, considerava-me — porque não seduzia outras mulheres e levava uma existência conjugal honesta — um homem irrepreensível. Não me sentia culpado e atribuía as questões que surgiam, entre nós, ao mau carácter da minha mulher.
«Mas não era ela a culpada. Ela era como a maior parte.
«Tinha sido educada como são quase todas as mulheres da nossa sociedade. Há quem se queixe da forma como a mulher é educada. Há quem deseje dar-lhe outra orientação. É fogo de vista.
«A mulher recebe e receberá a educação dentro do espírito em que a considerem. A educação da mulher corresponderá sempre à maneira como o homem a julgue.
«Sabemos todos o que o homem pensa da mulher.
«Tanto na poesia, como na pintura ou na escultura, só se considera a mulher como instrumento de prazer; começando pela poesia amorosa, pelas Vénus e as Phrineas nuas todas elas e isto é assim em Trouba, em Gratchevka e nos bailes da corte. Quando se fala de voluptuosidade e de prazer pensa-se na mulher.
«No princípio, os cavaleiros divinizavam a mulher (divinizavam-na mas, mesmo assim consideravam-na um instrumento de prazer).
«Hoje pretende dizer-se que se respeita a mulher. E assim uns cedem-lhe os seus lugares e apanham-lhe o lenço; outros reconhecem-lhe o direito de exercer todas as funções e de tomarem parte na administração.
«Fazem tudo isto, mas a opinião é sempre a mesma: o corpo da mulher é um instrumento de prazer. E a mulher sabe-o. Esta atitude não difere muito da escravatura. A escravatura é a exploração por uns do trabalho forçado de um grande número. Para que não haja escravatura é necessário que os homens não queiram usufruir o trabalho forçado de outros e considerem isto como pecado ou uma desonra. Enquanto isto se não der suprime-se a forma exterior da escravatura, tomam-se disposições para impedir os mercados de escravas e fica-se persuadido de que a escravatura foi abolida. Não vêem, não querem ver que a escravatura continua a existir porque se continua a amar da mesma maneira, e se julga bom e justo aproveitar o trabalho forçado dos outros. E porque se julga bom este procedimento haverá sempre mais fortes e mais manhosos para passarem do pensamento aos actos. O mesmo se dá com a emancipação das mulheres. A
escravatura da mulher consiste só no facto de os homens a considerarem como instrumento de prazer. Modernamente emancipam-na, concedem-lhe todos os direitos do homem, mas como é imprescindível para a satisfação das suas necessidades fisiológicas educam-na neste sentido desde a infância. Assim ela é uma escrava, humilhada, pervertida, e o homem um corrompido senhor de escravos.
«Emancipam a mulher nas universidades e nos parlamentos mas, de facto, só a consideram escrava dos sentidos. Ensinai-a como entre nós a considerá-la da mesma maneira e a mulher será sempre uma criatura inferior.
E com a ajuda dos médicos ela impedirá a concepção, e cruelmente diremos que não passa de uma prostituta, descerá ao mais baixo nível, descerá abaixo dos animais e será um objecto ou em muitos casos, uma doente moral, uma histérica, uma infeliz, o que elas são na realidade sem possibilidades de se desenvolverem espiritualmente.
«Os liceus e as universidades não têm possibilidades de modificar este estado de coisas. Só a mudança radical da opinião que os homens têm das mulheres e as mulheres não têm dos homens pode modificar um tal estado de coisas. Isto acabará quando a mulher se convencer de que o estado mais perfeito é o da virgindade.
«Enquanto o ideal de toda a rapariga, qualquer que seja a sua formação, for o de atrair o maior número de homens para poder fazer a sua escolha, nada mudará.
«Ou seja instruída nas matemáticas ou saiba executar maravilhosamente trechos de harpa nada mudará...
«A mulher só é absolutamente feliz se obtém o que pode desejar, isto é, conseguir embruxar um homem. Será sempre assim... Isto passa-se na nossa sociedade, na vida das raparigas solteiras, e depois, na vida de casadas, o fim é sempre o mesmo: dominar o homem.
«A única coisa que põe termo a esta situação é o nascimento dos filhos.
E quando a mulher não é um monstro, a sua criação.
«É então que intervêm mais uma vez os sacerdotes da ciência.
«Minha mulher, que quis, por todos os modos amamentar o primeiro filho e alimentou todos os outros cinco teve durante a primeira gravidez umas pequenas crises.
«Os médicos cinicamente obrigavam-na a despir-se, apalpavam-na em todos os sentidos (e eu tive que lhes pagar por esse trabalho) e por fim
estes caros doutores decretaram que ela não devia criar o bebé e assim ficou privada durante os primeiros tempos do único meio de se subtrair à coqueteria.
«O nosso primeiro filho foi criado por ama e dizendo por forma mais rude: “Aproveitámos a miséria, a indigência, e a ignorância de uma pobre mulher tirámo-la ao filho e sob este pretexto enfeitámos-lhe a cabeça com uma coifa de fitas.” Mas não é disso que se trata.
«O problema é que desde que ela se libertou da gravidez e da criação a coqueteria feminina que estava entorpecida despertou com uma força particular. E ao mesmo tempo sobrevieram-me, paralelamente e com a mesma força, os tormentos do ciúme.
«Dilaceraram-me sem tréguas durante todo o tempo que vivi com minha mulher da mesma maneira que dilaceram todos os casais que vivem com as suas mulheres como eu vivia, isto é, de uma maneira perfeitamente imoral.»
XV
— Durante todo o tempo que vivi com a minha mulher nunca deixei de experimentar os tormentos do ciúme. E houve mesmo períodos em que sofri com profunda acuidade. Um desses períodos foi depois do nascimento do primeiro filho quando os médicos proibiram que minha mulher o amamentasse.
«Sofri horrorosamente, primeiro porque minha mulher sentia uma inquietação própria de todos os que sem razão perturbam a marcha regular da existência; segundo porque vendo-a enjeitar a sua responsabilidade de mãe conclui, inconscientemente, que lhe seria fácil fugir às suas responsabilidades de mulher casada, tanto mais que ela estava de perfeita saúde. Apesar da interdição dos médicos ela criou ao peito todos os outros filhos.»
— Decididamente você não gosta dos médicos — disse-lhe eu. Notara que sempre que falava dos médicos dava uma entoação particularmente odiosa às palavras.
— Não é questão de gostar ou não gostar; arruinaram-me a vida como arruinaram e continuam a arruinar a vida de milhares, de centenas de milhar
de pessoas. Compreendo que eles desejem ganhar dinheiro, como os advogados e outros profissionais.
«Conceder-lhes-ia metade dos meus rendimentos e todas as pessoas, se compreendessem bem o que eles fazem, lhes cederiam, de bom grado, metade dos seus rendimentos, só para que eles se não metessem na nossa vida.
«Não juntei todas as minhas informações, mas conheço dezenas de casos e há muitos mais em que, umas vezes mataram o filho no ventre da mãe, outras vezes mataram a mãe sobre o pretexto de não sei que operação. É impossível de enumerar os crimes que cometeram. Mas todos estes crimes não são nada comparados com a corrupção moral e com o materialismo que eles têm introduzido no mundo, por intermédio das mulheres. Eu não falo das prescrições que eles exigem (a respeito por exemplo dos contágios) e fazem a desunião entre os homens; segundo eles devíamos andar sempre com uma seringa de fenol na boca. Mas isto não é nada. O principal veneno é a corrupção dos seres, principalmente das mulheres. Hoje é quase impossível dizer: “Vives mal, procura viver melhor.” Não se pode dizer isto nem a si próprio nem a ninguém. Se se vive mal a causa está no mau funcionamento dos nervos ou outra qualquer coisa do mesmo género. Então vamos a correr ao médico e prescrevem-nos trinta e cinco copeques de medicamentos e devoramo-los. Você piora, corre a outros médicos, são precisas novas drogas, outros médicos! Uma fantochada! Mas a questão não é essa.
«A minha mulher amamentou perfeitamente os filhos e só a gravidez e a amamentação me salvaram da tortura dos ciúmes e sem os filhos, o que aconteceu, ter-se-ia dado mais cedo... Os filhos salvaram-na e salvaram-me. Em oito anos deu à luz cinco filhos. E foi ela quem os amamentou.»
— Onde estão agora os seus filhos? — perguntei.
— Onde estão os meus filhos?— repetiu ele com um ar desvairado.
— Desculpe, talvez lhe custe responder-me.
— Não. É-me indiferente. Os irmãos de minha mulher tomaram conta deles. Não mós entregaram. Deixei-lhes os meus bens, mas eles não mós entregaram. Sabe, eu sou uma espécie de louco. Venho agora de casa deles.
Vi-os. Mas não mós entregarão. Porque eu os educaria de modo diferente, para que não fossem como os pais. Ora é preciso que eles sejam como os pais. Que fazer? Compreendo que eles mós não entreguem e que não tenham confiança em mim. Nem sei mesmo se teria força para os educar. Penso que não. Eu sou uma ruína, um estropiado. Não há senão uma coisa para mim.
Eu sei. Sim. É verdade. Eu sei o que os outros não saberão tão cedo. Sim, os meus filhos estão vivos. E crescem como selvagens, como todos em volta deles. Vi-os umas três vezes ao todo. Não posso fazer nada por eles. Nada. Por agora vou para minha casa no Sul. Eu tenho uma casita e um jardim pequeno.
«Não. Não é tão cedo que os outros saberão o que eu sei. Dentro em breve saber-se-á que no Sol e nas estrelas há muito ferro e outros metais... saber-se-á em breve... Mas o que mascara a nossa vilania... é difícil, muito difícil... horrivelmente difícil de saber.
«Você ao menos ouve-me e eu estou-lhe muito reconhecido.»
XVI
— Você falou-me dos filhos. A propósito dos filhos tem-se espalhado lamentáveis mentiras. Os filhos são uma bênção do céu. Os filhos são a alegria da casa.
«Outrora tudo isto era verdade, mas agora não existe nada de semelhante. Os filhos são um tormento e, nada mais. A maior parte das mães sentem-no e dizem-no francamente. Pergunte à maior parte das senhoras da nossa sociedade, à classe das pessoas abastadas e elas responder-lhe-ão de que o medo de que os filhos adoeçam ou morram faz com que elas os evitem. Não os querem ter; e se os têm não os querem amamentar para não se prenderem e não sofrer. O prazer que lhes proporciona o filho pela graça do pequenino corpo, das mãozinhas, dos pezitos, não compensa o sofrimento que tem com o pensamento que o pequenino ser possa adoecer. E não falamos na doença de facto... e da possível morte. Pesando os prós e os contras verifica-se que não é vantajoso ter filhos e portanto não são desejáveis. Elas dizem-no abertamente e orgulhosamente convencidas de que estes sentimentos provêm do amor, de um sentimento nobre de que se sentem ufanas. E não compreendem que com este raciocínio negam o amor e não mostram senão egoísmo. Elas encontram mais sofrimento do que prazer na graça do filho. Não querem sacrificar-se por um ser amado, elas imolam a si próprias um ser que devia ser amado. Não é amor é egoísmo.
«Quando penso ainda agora na vida e no estado da minha mulher nos primeiros tempos quando tínhamos três e depois quatro filhos e ela estava
completamente absorvida por eles apodera-se de mim um verdadeiro terror.
Não era vida era um perigo perpétuo mal se aproximava a salvação; surgia logo de seguida outro perigo, fazíamos esforços desesperados... vivíamos em permanente alerta como num navio em perigo de naufrágio.
«Algumas vezes tive a impressão de que se servia da doença dos filhos para me vencer. Ela resolvia assim os problemas em seu proveito, e tudo o que fazia e dizia nessas ocasiões era premeditado.
«Os filhos eram uma constante tortura para ela e para mim. Não podia estar sem se atormentar. A necessidade de alimentar os filhos, de os adormecer, de os defender, existia nela como na maior parte das mulheres.
«Mas ela não era como os animais: tinha raciocínio e imaginação.
«A galinha não receia o que pode acontecer aos pintos, porque ignora as doenças que os podem matar, desconhece os meios pêlos quais os homens estão convencidos de que se preservam da doença e da morte. Ela faz pêlos pintos o que é natural e agradável fazer; os pintos são para a mãe um motivo de alegria. Se um pinto cai doente os seus cuidados estão determinados: aquece-os, alimenta-os. Fazendo isto, ela sabe que faz tudo o que é necessário.
Se um pinto morre não lhe interessa saber qual a razão por que morreu, solta alguns cacarejes e continua depois a sua vida de galinha.
«Mas para as nossas infelizes mulheres, e portanto para a minha, a coisa é muito diferente. Sem mesmo falar das doenças e da maneira de as tratar e de educar os filhos, ela procurava por todos os modos elementos que a auxiliassem em tudo o que lhes dizia respeito. Nas conversas, nas leituras, procurava regras de conduta que variam até ao infinito e mudam a todo o momento.
«Devem alimentar-se sob certas regras, vestirem-se, e beberem, dormirem, apanharem ar. Nós, mas muito principalmente ela, descobríamos todos os dias novos preceitos. Como se fosse a primeira vez que nascessem bebés. Fora dessas regras se as crianças não se alimentavam como devia ser, se não se lhes dava banho com os preceitos requeridos: e, por fim, se a criança ficava doente era ela que tinha a culpa, porque não tinha feito o que era aconselhável. Isto em períodos de perfeita saúde. E já era um suplício. Mas se algum dos filhos caía doente era o fim do mundo. Um verdadeiro inferno. Admitimos perfeitamente que se trate uma doença. Há para isso uma ciência e homens que sabem, os médicos; nem todos, mas os melhores.
«Uma criança adoece, se conseguimos apanhar o médico, a criança salva-se. Mas se não se encontra o médico ou se não se vive no lugar em que
o médico vive a criança morre, com certeza.
«Não é uma característica só da minha mulher é de todas as mulheres do seu meio e de todos os lados não se ouve dizer senão: “Catarina Semenova perdeu dois filhos porque não foi chamado a tempo, o doutor Zakharitch; Ivan Zakharitch salvou a filha mais velha de Ivanovna... Em casa dos Petrov acautelaram-se a tempo. A conselho do médico separaram todos os filhos, que doutro modo se não salvariam. Um outro bebé fraquinho a conselho do médico foi instalar-se no Sul e salvou-se...”
«Como não nos inquietarmos e não se perturbar toda a vida familiar quando a vida das crianças — às quais se está ligado de uma maneira animal — depende do que dirá Ivan Zakharitch? E o que dirá Ivan, ninguém o sabe, como ele próprio não sabe. Perfeitamente só sabe que não sabe nada e nada pode fazer; anda às cegas. Mas é preciso que todos estejam convencidos de que ele sabe qualquer coisa. Se ela fosse um animal não se atormentaria, e se fosse, de facto, uma pessoa humana, teria fé em Deus, diria e pensaria como as camponesas crentes: “Deus mo deu, Deus mo tirou; estamos todas nas mãos de Deus.” Pensaria que a vida e morte de todos os seres como o das crianças escapam ao poder dos homens. Confiaria em Deus e não se atormentaria, julgando que estava na sua mão poder conjurar a doença e a morte dos filhos.
«Mas não. Sentia por eles um amor animal, apaixonado. Eram-lhe confiados mas eram-lhe interditos os meios de os salvaguardar enquanto outras pessoas os possuíam — estranhos cujos serviços e conselhos só podíamos adquirir por muito alto preço, e nem sempre.
«A vida dos filhos foi para a minha mulher e, consequentemente, para mim também, uma tortura. Como não nos atormentarmos? Ela atormentava-se por tudo e por nada.
«Mal saíamos de uma cena de ciúmes ou de uma simples questão e pensávamos poder viver, ler ou reflectir um pouco e empreendíamos qualquer trabalho, sabia-se de repente que, Vassia vomitava, que Macha perdia sangue, que André tinha uma erupção, e era o fim. Não se podia fazer mais nada.
«A que médico devíamos recorrer? Como isolar as crianças? E então começava a cena dos clisteres, das temperaturas, das visitas médicas.
«Mal acabava uma logo começava outra. Não tínhamos vida de família sólida nem regular.
«Era, como lhes digo, uma luta constante contra perigos reais e
imaginários.
«E aliás isto o que acontece assim, agora, na maior parte das famílias.
«Mas na minha tinha uma acuidade particular. A minha mulher era especialmente mãe e crédula. A existência de filhos em vez de nos facilitar a vida envenenava-a. Os filhos eram para nós motivo de contínuos dissabores. Desde o momento em que os filhos apareceram e depois cresceram a maior parte das vezes só serviram, como pretexto, da nossa desunião. Eles foram não só os elementos de desunião mas instrumento de combate; batíamo-nos, de qualquer maneira, através dos filhos. Cada um de nós tinha a sua preferência, o seu instrumento de combate. E ainda não é tudo. Quando os filhos começaram a crescer e se foram desenhando os seus caracteres tornaram-se aliados que nós atraímos para o nosso campo. Sofriam horrorosamente, os pobres pequenos, mas na nossa guerra perpétua não tínhamos tempo para pensar neles. A rapariga pertencia ao meu partido; o mais velho dos rapazes, que se parecia muito com a mãe e era o seu preferido, tornou-se-me muitas vezes odioso.»
XVII
— E assim íamos vivendo. As nossas relações foram-se tornando cada vez mais hostis. E chegámos à situação de serem os nossos dissentimentos que criaram a animosidade e não a animosidade que criava os dissentimentos. Eu estava sempre contra o que ela defendia, e o mesmo se dava com ela.
«Ao quarto ano de casados desistimos de nos compreendermos, de tentar explicar-nos e nem sequer nos podíamos ouvir.
«Nas coisas mais simples mas, principalmente em tudo o que se tratasse dos filhos, mantínhamo-nos em atitudes irredutíveis. Na maioria dos casos eu poderia ter cedido nas minhas opiniões; mas isso significava dar-lhe razão e era o que eu de maneira nenhuma queria. Não podíamos mais, nem ela nem eu. Cada um de nós entendia ter sempre razão, e eu até me considerava um santo.
«Qualquer animal podia manter as conversas que nós tínhamos quando estávamos sós — estou disso completamente convencido.
«Que horas são? Que temos hoje para o jantar? .... Onde iremos passar
a noite?... Que dizem os jornais?... É preciso ir chamar o médico... A Macha tem a garganta inflamada...
«Se os temas da conversação se afastassem um cabelo deste colóquio, a discussão atingia o auge. Tivemos discussões violentíssimas por causa do café, da toalha da mesa, da carruagem, assuntos que, de resto, não tinham o mais pequeno interesse para nós.
«No fundo de mim borbulhava continuamente um ódio hediondo. Odiava-a por tudo, porque levava a colher à boca, porque sorvia o chá, porque balançava a ponta do pé, como se todos estes actos fossem indignos.
«Nunca tinha dado conta de que os períodos de ódio surgiam regularmente e paralelos aos períodos a que chamamos amor. Um período de amor, um período de ódio; um período de amor intenso, um período longo de ódio, pequenas manifestações de amor, curto período de ódio.
«Não compreendíamos que o amor e o ódio eram manifestações diferentes do mesmo sentimento animal. Seria horrível compreender a situação em que nos encontrávamos, mas, nem sequer a víamos.
«E ao mesmo tempo a salvação e o castigo do homem.
«Quando levamos uma vida irregular envolve-nos uma neblina que nos não deixa distinguir o carácter desastroso do nosso procedimento. Era o que se dava connosco. Ela procurava atordoar-se na tensão e frenesim das suas ocupações de mãe de família: o arranjo da casa, das suas toilettes e da dos filhos, dos estudos e da saúde dos pequenos. Por meu lado tinha a agitação do trabalho, da caça e do jogo. Estávamos sempre ocupados. Sentíamos que, quanto mais tempo estivéssemos ocupados, mais nos feriamos um ao outro.
«“Podes fingir à vontade; massacraste-me toda a noite e eu tenho de ir para uma sessão”, pensava eu. Por seu turno ela não somente pensava mas dizia: “Tu todo repimpado; e eu não consegui pregar olho porque o filho levou a noite inteira a chorar.”
«Vivíamos envolvidos por perpétuo nevoeiro, sem vermos a situação que criáramos. Se o que aconteceu não tivesse acontecido e se continuássemos a viver assim até à velhice, ao morrer pensaríamos que tínhamos levado uma vida muito boa, não particularmente boa, mas como a de toda a gente, e não teríamos compreendido o abismo de infelicidade e odiosa mentira em que nos debatíamos.
«Éramos dois forçados presos à mesma grilheta, odiando-nos
mutuamente, e mutuamente nos envenenando a existência e procurando ocultarmo-nos de nós próprios. Eu desconhecia que a maior parte dos casais, noventa e nove por cento, vivem no inferno em que eu vivia e não podia ser de outro modo.
«Há uma série de pormenores nas vidas irregulares como na vida regular. Quando os pais tornam a vida intolerável é indispensável instalar-se a família na cidade, não só para a educação dos filhos como também para serem menos possíveis as questões.»
Aproximávamo-nos de uma estação.
— Que horas tem? — perguntou ele. Vi as horas; eram já duas da manhã.
— Você já está cansado?— perguntou ele.
— Não. Você é que deve estar extenuado.
— Eu sufoco. Se me dá licença vou andar um bocado e beber um copo de água.
Atravessou a carruagem cambaleando. Fiquei sozinho e fui recapitulando o que ele me dissera e de tal forma estava entregue aos meus pensamentos que o não vi entrar por uma outra portinhola.
XVIII
— Deixo-me arrastar pelo sofrimento — começou ele. — As minhas opiniões evoluíram e há muitas coisas que encaro, hoje, de forma diferente, mas eu tenho necessidade de desabafar.
«Instalámo-nos na cidade. A vida na cidade é mais suportável para as pessoas infelizes... Um homem pode viver cem anos na cidade, estar há muito morto e putrefacto sem que ninguém dê por isso.
«Nunca há tempo de fazer exame de consciência. Estamos sempre ocupados com negócios, com as relações sociais, com as artes, com a saúde e com as doenças dos filhos e com a sua educação. É sempre necessário visitarmos a casa de um ou de outro. Nas cidades há sempre três ou quatro grandes acontecimentos a que se não pode faltar.
«Vivíamos melhor assim e sentíamos menos o sofrimento que nos
acarretava a coabitação.
«Nos primeiros tempos da mudança tivemos ocupações milagrosas, a nova instalação e as frequentes deslocações da cidade para o campo e do campo para a cidade.
«Passou assim um Inverno.
«No segundo Inverno, porém, deu-se um acontecimento insignificante na aparência, que passou quase despercebido e foi, afinal, a origem de toda a tragédia.
«Ela adoeceu. Os tratantes dos médicos aconselharam-na a não ter filhos e ensinaram-lhe o processo de não conceber. Esta determinação causou-me horror. Tive de aceitar como boa uma decisão que me repugnava, mas que tinha atacado com fraco ardor. Era a última justificação para a nossa vida de porcos. Roubaram-nos os filhos; a nossa situação tornou-se mais abjecta.
«Ao camponês são-lhe necessários os filhos, ainda que lhes custe a educá-los e há por isso uma justificação para as suas relações conjugais. Para nós, porém, que já temos muitos filhos e não temos necessidade deles, os filhos só representam aumento de despesas e são, afinal, uma carga pesada e não temos, por isso, maneira de justificar a nossa vida de porcos. E então ou nos livramos dos filhos artificialmente ou os consideramos uma calamidade como a consequência de uma imprudência, o que é ainda mais repugnante. Caímos tão baixo que nem sequer sentimos necessidade de uma justificação.
A maior parte da sociedade, pretensiosamente, cultivada entrega-se a esta forma de prazer sem o menor remorso. Não há remorso porque não há consciência do pecado.
«Se nos podemos exprimir assim só conta a consciência da opinião pública e a do Código Penal. E quase nem uma nem outra se perturbam. Quase não vale a pena importar-mo-nos com a opinião pública. Todos fazem o mesmo: Maria Pavlovna como Ivan Zakharitch. Não devemos por isso ter escrúpulos, nem temer o Código.
«Só as raparigas de má vida e as mulheres dos soldados deitam os filhos recém-nascidos nos poços e nos lagos; esses, está bem, devem ser castigados, devem ser metidos na cadeia. Entre nós tudo se faz a tempo e com limpeza.
«Vivemos assim dois anos. O processo usado por aqueles velhacos deu excelentes resultados. Ela readquiriu a sua elegância antiga. Engordou um pouco. Era já uma formosura de Outono. Ela percebia isso e tinha muito
cuidado consigo. Criou uma beleza provocante e inquietante.
«Possuía toda a pujança de uma mulher de trinta anos. Não concebia e alimentava-se bem. O seu aspecto era perturbador. Era uma égua bem tratada que estivesse muito tempo presa e a quem tivessem soltado as rédeas, como de resto noventa e nove por cento das mulheres. Pressentia isso e tive medo.»
XIX
De repente levantou-se e foi sentar-se junto da janela.
— Desculpe-me — disse ele e esteve três minutos com o olhar fixo. Suspirou profundamente e voltou, de novo, a sentar-se junto de mim.
A sua fisionomia alterara-se de uma maneira estranha, os olhos tinham uma expressão implorante e os lábios um sorriso contrafeito e incompreensível.
— Estou um pouco fatigado mas quero continuar. Nós temos ainda muito tempo, o dia ainda não vai nascer. Acendeu um novo cigarro.
— Ela recompôs-se desde que deixou de ter o sofrimento do parto e as perturbações da gravidez. Voltou a ter bom senso e apercebeu todo o mundo criado por Deus, com a alegria que tinha esquecido ou não soubera viver.
«E preciso não deixar escapar esta ocasião. O tempo urge; não se pode voltar atrás... Julgo que era isto que ela pensava ou melhor sentia. Aliás, ela não podia nem sentir, nem pensar de outro modo; fora educada assim; não há outro objecto digno de atenção senão o amor. Quando casou recebeu uma parte desse amor, mas nem era o amor como ela o idealizara nem o que lhe haviam prometido. Tinha experimentado dolorosas desilusões, muitos sofrimentos e acima de tudo os filhos. Esse tormento tinha-a esgotado completamente.
«Mas eis que os médicos complacentes lhe fazem compreender que ela podia passar sem filhos. Ficou contentíssima, pôs o conselho à prova e começou a viver para o amor que ela conhecia. Mas não era o amor com um marido diminuído pelo ciúme, e por todas as espécies de furor. Começou a pensar no outro amor, um amor puro completamente diferente do que até aí sentira — era, pelo menos, o que eu pensava.
«Pôs-se a olhar em volta à espera que surgisse qualquer coisa. Notei todas estas modificações e não pude deixar de me alarmar.
«Falando indirectamente comigo, como fazia quase sempre — quer dizer, falando comigo por intermédio dos outros —, defendia a ideia de que os cuidados das mães eram um erro e que não valia a pena consagrarmo-nos aos filhos quando se é nova e se pode ainda gozar a vida, esquecida de que horas antes tinha defendido opiniões contrárias.
«Ocupava-se muito menos dos filhos e sem o frenesim dos primeiro tempos, cuidava muito mais de si, das suas toilettes, da sua cultura, do seu aperfeiçoamento exterior. Começou a dedicar-se, com entusiasmo, ao piano que, há muito, pusera de parte. E tudo começou assim.
«Voltou de novo para a janela, os olhos cansados mas, retomou, de novo, o fio da narrativa, fazendo um esforço visível...
«Foi então que apareceu o homem...»
Perdeu o sangue-frio e emitiu duas ou três vezes, pelo nariz, os sons que lhe eram peculiares. Compreendi perfeitamente que lhe era doloroso dizer o nome do homem, de o lembrar e de falar dele, mas dominou-se, e, como se tivesse conseguido vencer um obstáculo que o detinha, continuou resolutamente:
«Era uma personagem medíocre, um miserável, não porque tivesse alguma importância para mim, mas porque era tal qual eu pensara dele, um miserável...
«O facto de ele ser medíocre era a prova da irresponsabilidade da minha mulher. Se não fosse este seria outro. Tinha que se dar. — Calou-se mais uma vez. Depois continuou. — Era um músico, um violinista não profissional. Era um meio profissional meio homem de sociedade.
«O pai era proprietário e nosso vizinho. Arruinara-se. Três dos filhos estabeleceram-se; o mais novo, porém, foi para casa de uma madrinha, em Paris. Entrou para o Conservatório porque era dotado para a música; tirou o curso de violinista e deu alguns concertos.
«Era um homem... — teve a tentação de dizer mal mas conteve-se e disse rapidamente: — Eu não sei como ele viveu em Paris; sei que nesse ano reapareceu na Rússia e veio visitar-me.
«Era um rapaz bonito mas banal... olhos rasgados em amêndoa e húmidos, lábios onde se instalara um sorriso sempre igual, bigode frisado e penteado segundo a última moda; de aspecto fraco, traseiro bastante
desenvolvido como nas mulheres e nos hotentotes que, segundo creio, também são músicos. Correcto e afável, muito digno, punha-se sempre à parte em qualquer discussão. Tinha um ar parisiense, usava botas abotoadas de lado, gravatas de cores garridas, tudo o que surpreende os estrangeiros em Paris e que, pela originalidade, atrai as mulheres. Apresentava-se sempre bem-disposto. Falava por metáforas e sem sequência, como se soubéssemos, de antemão, o que ele queria dizer e pudéssemos concluir por nós.
«Este homem e o seu violino foram os promotores da catástrofe...
«No processo apresentaram a questão como se o móbil do crime fosse o ciúme. Nada disso. Não quero dizer que não fosse uma das causas. Mas não foi tudo. No julgamento decidiram que eu era um marido ultrajado que matara a minha mulher para defender a honra (é assim que eles se exprimem).
«Fui absolvido por esta razão.
«Durante as audiências, contudo, tentei explicar-lhes as verdadeiras razões do crime mas eles supuseram que eu queria reabilitá-la.
«As suas relações com o músico não tiveram a maior importância nem para mim, nem para ela. O que foi importante foi a minha torpeza. Tudo se deu porque entre nós havia um incomensurável abismo, uma terrível tensão provocada pelo ódio recíproco que o mais insignificante pretexto faria explodir.
«Nos últimos tempos as nossas discussões eram aterradoras por um lado, e tanto mais impressionantes porque eram seguidas de cenas de uma sensualidade animal e exasperante. Se não se tivesse dado a infâmia com o músico dar-se-ia com outro. Insisto neste ponto para que todos os maridos que vivem como eu vivia ou se entreguem a uma vida de licenciosidade ou matem as mulheres.
«Se há algum que escape é uma excepção. Antes do crime eu estive várias vezes à beira do suicídio e ela tentou envenenar-se.»
XX
— Assim levávamos a vida.
«Passámos uns tempos tranquilos, pequenas tréguas, que não
tínhamos razão aparente para quebrar. De repente conversava-se a propósito de um cão; eu afirmava que o cão tinha recebido na exposição uma medalha de ouro; ela sustentava que não tinha sido medalha, mas menção honrosa. Levantou-se a discussão. Passámos de uns assuntos para outros. Fizemo-nos censuras recíprocas:
«Sim.... Sim...
«Conheço-te, é sempre a mesma coisa... Tu disseste... Eu não disse tal... Queres dizer que minto?...
«Depois disto desencadearam-se cenas horrorosas em que tive a tentação de me suicidar ou de a matar. Era iminente o perigo. Temia-o como o fogo, e queria-me dominar mas a cólera invadia todo o meu ser. Era o mesmo o estado dela, senão pior; desvirtuava o sentido das frases. Cada uma das suas palavras escorria veneno; procurava ferir-me nos pontos mais dolorosos. E ia aumentando de intensidade as insinuações e os insultos.
«“Cala-te!”, gritei-lhe eu, ou outra qualquer frase...
«Ela saiu correndo do quarto para onde se encontravam os filhos.
«Procurei detê-la e agarrei-a por um braço.
«Fingiu que eu a magoara e gritou:
«“Meus filhos, o pai está a bater-me!”
«Verdadeiramente espantado exclamei:
«“Tu mentes!...”
«Os filhos acorrem aflitos. Ela sossega-os.
«Eu disse-lhe:
«“Não faças comédia...”
«“Para ti tudo é comédia... És capaz de matar um homem e afirmares que está a fazer de morto. Percebo-te muito bem. E é isso o que tu queres...”
«“Oh, se tu estoirasses!...), gritei fora de mim.”
«Lembro-me de que estas palavras me aterrorizaram. Nunca me supus capaz de as pronunciar tão grosseiras e tão repugnantes. Admiro-me como me puderam escapar.
«Depois de ter gritado esta frase abominável meti-me no meu gabinete, sentei-me e pus-me a fumar. Senti-a passar pela antecâmara e preparar-se para sair. Perguntei-lhe para onde ia. Não respondeu.
«“Que a leve o diabo...”, disse para mim mesmo.
«Voltei para o meu gabinete, estiracei-me e voltei a fumar...
«E então no meu espírito formaram-se planos de vingança, para me ver livre dela sem que ninguém o percebesse. Passei em revista todo o passado, fumando cigarros uns após outros.
«Pensei em fugir, esconder-me, partir para a América.
«Depois, de novo me assaltaram os pensamentos de me libertar, ligando-me a outra mulher, uma mulher diferente. Mas para me livrar dela era necessário ou que ela morresse ou que nos divorciássemos e principiei a estudar os meios de chegar a um desses resultados.
«Senti que desfalecia, o pensamento diluía-se mas continuava a fumar.
«Entretanto a vida da casa continuava como sempre...
«A governanta veio perguntar-me:
«“Onde está a senhora? Ela volta?”
«“O criado diz-me: “Posso servir o chá?...”
«Fui para a casa de jantar. Os filhos e, principalmente Lisa, a mais velha e que pressente o que se passa, fitou-me com um olhar, ao mesmo tempo interrogador e de censura. Não trocamos uma palavra durante o chá.
«Passou-se a tarde... Passou-se a noite sem ela voltar.
«Dois sentimentos cresciam a par, na minha alma: o rancor por me atormentar a mim e aos filhos e a ansiedade por que atentasse contra a existência, embora eu tivesse a certeza de que ela voltaria.
«Pensei em ir procurá-la Mas aonde? A casa da irmã?... Seria estúpido ir atormentar mais família. Tanto pior para ela se nos quer atormentar; que sofra também. É isso que ela pretende e só isso... Para a próxima vez fará pior...
«E se não está em casa da irmã?... Se tentou suicidar-se?... Se se suicida?...
«Deram as onze horas... a meia-noite...
«Não consegui ir para o quarto; seria idiota tentar dormir.
«Comecei a escrever cartas; tentei ler. Não consegui fazer nada.
«Por fim deixei-me estar sentado completamente só,
atormentando-me. Cheguei à última forma de desespero. Pus o ouvido à escuta na esperança de a ouvir chegar. Três horas... Quatro horas... Não regressou. De manhã deixei-me dormir. Quando acordei não tinha ainda regressado.
«Em casa tudo, aparentemente, corria como antes mas todos estavam perplexos, e olhavam-me com ar interrogador e, ao mesmo tempo, cheio de censura.
«Atribuíam-me toda a culpa.
«Dentro de mim os mesmos dois sentimentos se digladiavam: o rancor e a inquietação.
«Às onze horas da manhã chegou a irmã como medianeira. A história começou como sempre:
«“Ela está num estado deplorável... Que é que tudo isto quer dizer?... Não se passou nada?...”
«Queixei-me do seu carácter impossível e confessei que lhe não tinha feito mal.
«“Isto não pode continuar assim....”, disse-me a irmã.
«“Isso é com ela; não é comigo. Eu não darei o primeiro passo. Se ela se quer divorciar, divorciar-nos-emos.”
«A minha cunhada foi-se como tinha vindo.
«Tinha-lhe falado duramente e afirmara-lhe que não daria um passo, mas quando depois da sua partida vi os filhos pálidos, abatidos, resolvi dar o primeiro passo. Sentia nisso contentamento mas, não sabia ao certo, como havia de proceder.
«Pus-me a andar de um lado para o outro e a fumar.
«Ao almoço bebi vodca e vinho e comecei a pressentir o fim para que, inconscientemente, era levado.
«Às três horas da tarde ela voltou. Fui ao seu encontro; não me deu uma palavra. Julgando-a calma tentei explicar-me, que me excedera levado pelas suas censuras injustas.
«Numa atitude agressiva disse-me que não vinha para ouvir explicações. Vinha para levar os filhos e não podia nem queria viver comigo.
«Quis convencê-la de que não era eu o culpado, e que fora ela quem me provocara. Olhou-me friamente e com ar solene disse-me:
«“Não digas mais; tu hás-de arrepender-te. “
«Repeti-lhe:
«“Não posso suportar comédias...”
«Começou a gritar, meteu-se no quarto e fechou-se por dentro.
«Bati. Ninguém respondeu. Afastei-me desesperado.
«Meia hora depois Lisa veio ter comigo debulhada em lágrimas.
«“Que há?... Aconteceu alguma coisa?...”
«“Não se ouve nada no quarto da mamã.”
«“Vamos lá.”
«Meti os ombros à porta. O fecho estava mal corrido e os dois batentes cederam.
«Aproximei-me da cama. Estava sem sentidos meio despida e calçada, numa posição incómoda. Na mesa de toüette um frasquinho de ópio vazio. Fizemo-la vir a si. Lágrimas. A reconciliação...
«Mas dentro da alma de cada um, a mesma animosidade, multiplicada pelo desespero da última questão cujas razões imputávamos um ao outro.
«A vida retomou o seu ramerrão.
«Questões como estas surgiram uma vez por semana, por mês, todos os dias... E eram sempre as mesmas consequências.
«De uma das vezes eu tinha já o passaporte. A zanga durava já há dois dias. Mas houve de novo uma meia explicação, uma meia reconciliação, e eu desisti da partida.»
XXI
— Eis como as coisas corriam, pouco tempo antes de aparecer esse homem.
«Pouco tempo depois de ter chegado a Moscovo, Troukhatchevski veio visitar-me. Era de manhã. Recebi-o. Antigamente havíamo-nos tratado por tu. Por várias vezes ele usou o “tu”, mas eu acentuei bem o emprego da
segunda pessoa do plural e ele desistiu da primitiva familiaridade.
«Desagradou-me profundamente, logo à primeira vista, mas uma força estranha, fatal, arrastava-me para ele, obrigava-me a não o afastar, pelo contrário, levava-me a atraí-lo. De facto era simples evitar as relações; bastava que o recebesse friamente durante alguns instantes e despedi-lo sem o apresentar a minha mulher. Mas não procedi assim e, propositadamente, levei a conversa para o assunto que lhe interessava, dizendo-lhe que soubera que ele abandonara o estudo do violino. Respondeu-me que, mais do que nunca, se dedicava à música. Lembrou-se de que eu antigamente também tocava. Respondi-lhe que pusera de parte a música, mas minha mulher tocava piano muito bem.
«Coisa assombrosa!... A minha atitude perante ele desde o primeiro dia do nosso encontro foi o que pode dizer-se uma preparação para o que havia de acontecer. Havia em mim qualquer coisa de premeditado. Observava cada uma das suas palavras, das expressões que empregava e atribuía-lhes muita importância.
«Apresentei-o a minha mulher. A conversa, como é natural, imediatamente deslizou para a música e ele pôs-se logo à disposição para a acompanhar.
«Ela apresentou-se, como nestes últimos tempos, muito elegante, atraente e de uma beleza inquietadora. Ele agradou-lhe desde o primeiro momento e ficou encantada por poder tocar em conjunto. Apreciava muito tocar e, de tempos a tempos, contratava um violinista do teatro para a acompanhar. A alegria reflectia-se-lhe no rosto. Mas quando reparou na minha reacção e compreendeu os meus sentimentos, mudou a sua atitude. Começou assim, entre nós, uma série de disfarces.
«Eu sorria amavelmente, mostrando-me encantado.
«Ele olhava para a minha mulher, como sabem olhar os libertinos para as mulheres bonitas, mas simulava interesse só pelo assunto da conversa, embora o assunto nada lhe interessasse.
«Ela, coitada, esforçava-se por parecer indiferente, mas a minha expressão falsamente amável e sorridente de homem roído de ciúmes e, que ela conhecia perfeitamente, exaltavam-na, coincidindo com o olhar ávido do outro.
«O olhar dela tinha um novo esplendor e, sem dúvida, o meu ciúme tinha estabelecido entre ambos uma espécie de corrente eléctrica que deixava transparecer no rosto de ambos expressões e sorrisos muito semelhantes.
Tudo era simulado entre eles.
«Falámos de música, de Paris, de um sem-número de bagatelas.
«Entretanto ele fez menção de se retirar, com um sorriso nos lábios, inclinando-se um pouco na nossa frente, olhando, ora para mim, ora para ela, à espera do que iríamos fazer.
Lembro-me perfeitamente desse momento, porque eu podia ter deixado de o convidar e nada teria acontecido.
«Olhei para ele, olhei para a minha mulher e disse mentalmente: “Não penses que tenho ciúmes de ti... Nem que te temo, acrescentei interiormente, dirigindo-me a ele e convidando-o a trazer o violino para acompanhar minha mulher, numa qualquer noite.
«Ela olhou-me aterrorizada e quis libertar-se, afirmando que não tocava bem.
«Esta recusa irritou-me e insisti no convite.
«Recordo-me do sentimento bizarro que experimentei ao contemplar a nuca de Troukhatchevski e o pescoço sobre que caíam os cabelos compridos, apartados no meio; caminhando aos saltinhos lembrava um pássaro.
«A presença deste homem torturava-me.
«“Mas, afinal, só depende de mim impedir que este homem volte”, pensava eu.
«Mas, proceder assim é confessar que o temo.
«“Não. Eu não o temo, seria demasiado humilhantes”. E insisti para que ele viesse nessa mesma noite, para o ouvirmos.
«Aceitou o convite e saiu. À noite chegou mas durante algum tempo eles não conseguiram acompanhar-se porque as partituras de que precisavam não estavam em nossa casa e minha mulher precisava de as estudar.
«Eu gostava muito de música e interessava-me conhecer a execução dele. Fui eu que lhe preparei a estante e lhe voltei a página. Executaram algumas romanças sem palavras e uma sonata de Mozart. Ele tocava admiravelmente. Tinha uma dedilhação perfeita. Um gosto delicado e superior que não correspondia ao seu carácter. Era muito mais artista que minha mulher. Aconselhou-a, elogiando cortesmente a sua execução.
«Minha mulher tomara uma atitude simples e natural, parecendo só se interessar pela música.
«Quanto a mim, fingindo interessar-me pela música, toda a noite e continuamente fui torturado pelo ciúme.
«Desde que tinham cruzado o primeiro olhar, desdenhando a sua condição e as conversações sociais, despertado o animal que cada um traz dentro de si, eles interrogavam-se:
«“É possível? Mas sem dúvida...”
«Ele não supunha poder encontrar, numa moscovita, uma mulher tão atraente e ficou deslumbrado. Não duvidou um instante de que era correspondido. Tudo consistia em afastar o marido para os não importunar.
«Se eu fosse um homem honesto não teria compreendido nada disto, mas como a maioria dos homens antes do casamento, eu considerava as mulheres como Troukhatchevski e podia ler-lhes na alma como num livro aberto.
«Fazia-me sofrer a ideia de que minha mulher sentia por mim só irritação, entrecortada, uma vez ou outra, de acessos de sensualidade.
«Por esse homem elegante e de indubitável talento ela sentia-se agradavelmente atraída.
«A intimidade que criava a colaboração musical, a influência da própria música, muito particularmente o violino, que actua profundamente nas naturezas impressionáveis fazia-me pressentir que esse homem a venceria, a dominaria e a dobraria à sua vontade, fazendo dela o que desejasse.
«Eu já não o podia ver e sofria horrivelmente. E entretanto uma força, que se opunha à minha vontade, constrangia-me não só a ser delicado mas a ser afável. Não sei se procedia assim por causa de minha mulher — para provar que o não temia — ou para me enganar a mim próprio. Ignoro-o. O facto é que nunca fui simples nas relações com ele. Eu fugia ao desejo de o matar, lisonjeando-o.
«À ceia servi-lhe vinhos finíssimos, elogiei-lhe a execução, falei-lhe sempre com um sorriso amável, convidando-o para jantar no domingo seguinte e para tocar, acompanhando minha mulher. Convidaria mesmo alguns amigos para terem o prazer de o ouvir. Assim terminou o primeiro serão.»
Pozdnichev, extraordinariamente emocionado, mudou de posição e soltou aquele gemido que lhe era particular.
— É estranha a maneira como a personalidade desse homem agiu
sobre mim — disse ele, fazendo um esforço para se acalmar.
«Passado um dia ou dois, ao voltar de uma exposição, senti, ao entrar, como se uma pedra me caísse no coração. Não percebi porquê. Só depois de ter entrado no meu gabinete me ocorreu que vira qualquer coisa que me lembrara Troukhatchevski. Voltei ao vestíbulo para confirmar a minha suspeita. Não me tinha enganado. Pendurado no cabide estava o casacão dele. Era impossível ter-me passado despercebido porque eu fixava doentiamente tudo o que lhe dissesse respeito.
«Em vez de atravessar a sala de entrada, dirigi-me ao quarto de estudo. Lisa, a minha filha mais velha, estava a ler e a ama, perto da mesa com o mais pequenino, fazia girar uma tampa.
«Eu ouvia os harpejos e o ruído das vozes através da porta fechada. Pus-me a escutar mas não distingui as palavras. Sem dúvida o piano era um pretexto para abafar as palavras e, talvez, os beijos.
«Meu Deus! Neste momento cresceu em mim uma raiva surda. Quando me lembro do animal furioso que reapareceu, o horror abate-me.
«Apertou-se-me o coração bruscamente, tive a sensação que ele deixara de bater. Depois voltou a bater violentamente. O sentimento dominante nos momentos de cólera era o enternecimento por mim próprio. Diante dos filhos!... Diante dos criados!...
«Nesse instante eu devia meter medo, porque Lisa olhava para mim aterrorizada.
«“Que devo fazer?”, perguntei a mim próprio. “Entrar?... É impossível... Não sei o que faria... Mas não podia afastar-me.”
«A criada das crianças olhava-me espantada, compreendendo a minha situação.
«“E impossível não entrar...”, disse eu, e abri a porta subitamente.
«Ele estava sentado ao piano, tocando harpejos; os dedos muito brancos e altamente recurvados. Ela estava de pé, junto ao piano, e seguia a partitura. Ou me pressentiu ou me ouviu e olhou para mim. Teve medo mas dissimulou ou não teve realmente medo?... O que é certo é que se não mexeu e nem levemente pestanejou. Corou um pouco.
«“Como estou contente por teres vindo!... Nós estávamos a escolher o que havemos de tocar no domingo” disse-me ela com uma expressão que não usaria se estivéssemos sós. Esta circunstância e o facto de ela ter empregado o “nós”, referindo-se a ele e a ela, perturbaram-me. Cumprimentei-o sem
pronunciar uma palavra. Correspondeu ao meu cumprimento com um sorriso que me pareceu francamente irónico e começou a explicar-me que estavam indecisos sobre o que deveriam executar — uma obra clássica e difícil como uma sonata de Beethoven para piano e violino ou trechos mais curtos e de menos responsabilidade. Aparentemente tudo era natural e simples e não havia razão para me escandalizar. Mas eu estava convencido que tudo era mentira e disfarce e tinham já combinado a maneira de me enganar.
«As convenções sociais favorecem a maior e mais perigosa intimidade entre homens e mulheres e são torturantes para os homens ciumentos (na nossa sociedade todos os homens são ciumentos).
«Expor-nos-íamos ao ridículo se tentássemos impedir a intimidade nos bailes, a intimidade entre o médico e a doente, a intimidade criada pelo estudo em comum das artes, da pintura e, muito particularmente, da música.
«Entregam-se ao estudo da mais bela das artes duas almas e a mais profunda intimidade cresce; nada disto tem aparentemente nada de repreensível ou censurável; só um marido estúpido e ciumento pode reconhecer nesta intimidade qualquer coisa de menos digno. Contudo sabe-se que a maioria dos casos de adultério, na nossa sociedade, tem a sua origem na intimidade artística e intelectual de homens e mulheres.
«Trespassei-lhes a perturbação que me acometera. Durante momentos não pude articular uma palavra.
«Eu era como uma garrafa voltada para baixo que não deixa correr a água por estar muito cheia. Tinha a tentação de a insultar e de correr com ele mas, simultaneamente, compreendia que era necessário ser afável e cortês.
«Assim procedi. Fingi aprovar tudo o que disseram e, sob a acção de um sentimento bizarro, tratei-o com tanta mais afabilidade quanto mais as suas palavras e a sua presença me torturavam. Afirmei-lhe que confiava no seu bom gosto e aconselhei minha mulher a proceder do mesmo modo. Depois das minhas palavras ficou só o tempo necessário para tentar desvanecer a impressão dolorosa da minha entrada súbita na sala, do meu aspecto desorientado e do meu mutismo. Despediu-se asseverando que ficara escolhido já o programa que tocariam no dia seguinte. Eu estava convencido, no entanto, que comparado ao que os preocupava a escolha do trecho que haviam de tocar lhes era totalmente indiferente.
«Conduzi-o até ao vestíbulo com uma delicadeza demasiadamente vincada (como não conduzir para fora de casa um homem que vinha
perturbar e comprometer a felicidade de uma família inteira?...)
«Apertei-lhe a mão efusivamente, a sua mão branca e flácida.»
XXII
— Durante todo o dia não dirigi a palavra a minha mulher. Não podia.
A sua presença provocava-me um tal ódio que sentia medo de mim próprio.
«Ao jantar, em frente dos filhos, perguntou-me quando me ia embora...
«Eu tinha de tomar parte num congresso, na província. Disse-lhe quando tencionava partir. Ela pretendeu saber se era necessário alguma coisa para a viagem. Não respondi. Fiquei à mesa, sem pronunciar uma palavra. Retirei-me para o meu gabinete.
«Nos últimos tempos ela nunca vinha aos meus aposentos, principalmente depois do jantar.
«Estendi-me no divã. Tinha a alma cheia de rancor.
«De repente senti aproximarem-se uns passos conhecidos. Um pensamento diabólico me ocorreu. Tal como a mulher de Urias, ela queria esconder o pecado já consumado e, por essa razão, vinha ter comigo a esta hora imprópria.
«“Será possível que ela venha aqui?”, perguntei a mim mesmo, sentindo que os passos se aproximavam cada vez mais. Era verdade. Eu tinha razão. E na minha alma o ódio crescia de uma maneira indizível. Os passos iam-se aproximando cada vez mais. Certamente irá para o salão... Não entrará... Mas a porta rangeu e, no limiar, surgiu a silhueta alta e harmoniosa. Na sua fisionomia transparecia o desejo de agradar, que contudo pretendia esconder, mas de que eu conhecia, muito bem, o significado.
«Parecia-me que sufocava tão longo foi o momento em que retive a respiração. Sem deixar de a fitar, abri a cigarreira e acendi um cigarro.
«“Então?... Venho passar um bocadinho contigo e acendes um cigarro?...”
«Sentou-se no divã a meu lado e encostou-se a mim. Afastei-me para lhe não tocar.
«“Eu sinto perfeitamente que estás aborrecido por causa do concerto de domingo”, disse ela.
«“De modo nenhum...”, respondi-lhe.
«“Tu julgas que eu não percebo?...”
«“Muito bem. Felicito-te. Quanto a mim, não percebo mais nada a não ser que te comportas como uma mulher”
«“Se continuas a falar como um carroceiro vou-me embora.”
«“Vai. Fica sabendo que se tu não ligas importância à dignidade da família, eu, não por ti (que o diabo te leve!), mas pela própria família, pela sua honra, tenho de me importar.”
«“Como?... Como?...”
«“Vai-te embora pelo amor de Deus. Vai-te...”
«Eu não sei se ela compreendeu as minhas alusões, ou realmente não compreendeu porque se ofendeu e ficou vexadíssima. Levantou-se mas, em vez de sair, ficou de pé, no meio do quarto.
«“Decididamente, tu estás a tornar-te impossível” começou ela, “tens um carácter que só os santos poderiam suportar...”
«E, esforçando-se por me ferir profundamente, referiu-se ao meu procedimento com a irmã (ela sabia que me atormentava, relembrando as palavras grosseiras que, num momento de exaltação, eu proferira).
«“Depois do que se passou nada me admira, vindo de ti...”
«“É assim mesmo. Ofendes-me, humilhas-me, desonras-me e atiras com as culpas para cima de mim.”
«E, subitamente, fui invadido por um sentimento de ódio tão horrível que, pela primeira vez, experimentei a sensação de expressar fisicamente esse ódio.
«Ergui-me bruscamente e aproximei-me. Mas, no momento preciso em que me levantei tive a consciência do que ia fazer e pensei se valeria a pena.
«Mas reconsiderei e disse para mim: “Talvez seja salutar. Ela terá medo”, e assim, foi crescendo em mim a cólera.
«“Foge ou mato-te!”, gritei e, aproximando-me dela agarrei-a por um braço.
«Eu tinha propositadamente exagerado o tom de fúria das minhas palavras
«E devia ter uma aparência de endemoninhado, porque ela perdeu o sangue-frio, não teve força para sair e limitou-se a dizer:
«“Vassia, que tens tu, que te aconteceu?...”
«“Sai-me daqui!”, gritei com força. “Só tu és capaz de me pôr neste estado. Eu não respondo por mim...”
«Deixei-me vencer absolutamente pela raiva, senti-me como embriagado e tive vontade de fazer qualquer coisa de extraordinário que pudesse mostrar a extensão do meu desespero.
«Tinha o desejo terrível de lhe bater, de a matar, mas sabia que era impossível e para dar vazão à minha cólera agarrei num pesa-papéis que estava sobre a mesa, atirei-o para o chão, na direcção dela e gritei:
«“Sai-me da vista!...”
«Ela afastou-se. Não saiu. Parou à entrada da porta.
«Enquanto ela me podia ver, agarrei de cima da mesa em diferentes objectos, no tinteiro, nos castiçais e atirei-os ao chão, gritando:
«“Vai-te, bruxa! Eu não respondo por mim...”
«Ela saiu. No momento em que a deixei de ver acalmei-me.
«Passada uma hora a criada dos pequenos veio prevenir-me de que minha mulher estava com uma crise de nervos. Fui vê-la. Ora soluçava, ora se ria; não podia falar e tremia convulsivamente. Não era comédia; ela estava realmente doente.
«De manhã acalmou-se; reconciliámo-nos sob a influência do sentimento a que chamamos amor.
«Quando lhe confessei que tinha ciúmes de Troukhatchevski ela não se perturbou, pôs-se a rir com a maior naturalidade, de tal forma lhe parecia estranho que alguém se pudesse apaixonar por um tal homem.
«“Acreditas possível que uma mulher decente se possa apaixonar por um homem como Troukhatchevski? O único sentimento possível é o prazer de o ouvir tocar.”
«“Se tu quiseres, não o tornarei a ver e é fácil impedi-lo de vir a nossa casa; basta que o previnas de que estou adoentada, e não posso tocar. Só é aborrecido no domingo por termos convidado muita gente e se poder pensar
que temos medo dele e que o consideramos perigoso. Sou realmente bastante orgulhosa para poder permitir que se pense tal coisa.”
«Ela não mentia. Ela acreditava no que dizia. Queria convencer-se da verdade das suas palavras, e fazer nascer em si própria o desprezo por ele e defender-se do perigo que, inconscientemente, temia. Não o conseguiu. Tudo estava contra ela e, em particular, a música maldita. Naquele dia tudo acabou em bem.»
XXIII
— É escusado dizer que me sentia vaidoso; se não somos vaidosos na vida quotidiana, que é a nossa vida, não há razão de viver.
«No domingo seguinte ocupei-me com muito prazer das preparativos para o jantar do nosso serão musical. Fiz eu próprio os convites e as compras.
«Pelas seis horas começaram a chegar os convidados. Ele entrou um pouco mais tarde, de casaca, o peitilho da camisa abotoado com brilhantes de muito mau gosto. Tinha um grande à-vontade, correspondendo a todos com um ar afectuoso, sorridente e compreensivo dando a entender que o que fazíamos e dizíamos era justamente o que esperava.
«Nessa noite notei com particular alegria tudo o que nele era defeituoso.
«Essas observações contribuíram para me sossegar e mostravam-me que minha mulher o considerava, com razão, de um nível tão inferior que não podia — conforme me afirmava — baixar-se a ele. Eu não tinha, por isso, razão para ter ciúmes.
«Além de que o último sofrimento arrasara-me e eu sentia a necessidade absoluta de repouso; precisava de acreditar na minha mulher; e acreditava.
«Durante todo o jantar, na primeira parte do serão, antes de começar o concerto, embora eu não tivesse ciúmes havia em mim qualquer coisa de afectado nas atitudes que tomava. Inconscientemente eu vigiava todos os actos deles.
«O jantar foi, como todos os jantares, uma cerimoniosa maçada.
«Como me lembro de todos os pormenores desse triste serão!...
«Ele chegou. Abriu o estojo, tirou para fora a cobertura bordada por uma admiradora e começou imediatamente a afinar o violino. Minha mulher sentou-se ao piano com um ar .aparentemente indiferente e sob o qual pretendia esconder a sua timidez... timidez provocada pela destreza do violinista.
«Depois dos “lás” habituais da afinação, foram os pizzicatti do violino e por fim colocaram-se as partituras nas estantes. Recordo o olhar que trocaram; voltaram-se um instante para a assistência, disseram umas breves palavras e começaram o concerto.
«Ela atacou o primeiro acorde. Então a fisionomia de Troukhatchevski tomou uma expressão simpática, severa, séria, e atenta aos próprios sons do violino. Fez vibrar as cordas com os dedos finos e ágeis e respondeu aos acordes do piano. Assim começou tudo.»
Pozdnichev parou de novo. Depois emitiu várias vezes os sons que lhe eram peculiares — gargalhada ou soluço abafado. Quis continuar. Fungou. E parou de novo.
— Tocaram a Sonata a Kreutzer, de Beethoven.
«“Conhece o primeiro presto? Conhece-o?...”, gritou ele. “Que coisa horrível essa Sonata, sobretudo, esse andamento... A música é qualquer coisa de horrível...”
«O que é exactamente a música?... Eu não o apreendo.
«Qual é a sua acção?
«Dizem que a música actua elevando a alma... Que falsidade!... Que estupidez!
«A música actua de uma maneira terrível, eu falo por mim.
«A música não eleva a alma. A música também não diminui a alma. A música exaspera-a. Nem sei como me hei-de explicar...
«A música obriga a esquecermo-nos da nossa verdadeira personalidade, transporta-nos a um estado que não é o nosso. Sob a influência da música temos a impressão de que sentimos o que não sentimos; que compreendemos o que na realidade não compreendemos; que podemos o que não podemos. É como o bocejo ou o riso. Não temos sono mas bocejamos quando vimos alguém bocejar. Não temos vontade de rir, mas rimo-nos, ouvindo rir. A música transporta-nos, de surpresa e imediatamente, ao estado de alma em que se encontrava o artista no momento da criação, confundimos a nossa alma com a dele e passamos de
um estado a outro sem saber por que o fazemos.
«Beethoven quando escreveu a Sonata a Kreutzer sabia por que se encontrava naquele estado de criação, que o levava à prática de determinados actos que tinham para ele um significado. Para nós que somos levados pela música não tem significação.
«A música exaspera, não conclui.
«Se tocam uma marcha militar e os soldados marcham ao seu ritmo, a música atinge o seu fim. Se a música é de dança e dançamos, a música atinge o seu fim. Se se toca a missa e comungamos a música atinge o seu fim. De outro modo é uma sobreexcitação. Por isso às vezes a música exerce uma acção tremenda... A música na China é negócio de Estado. E assim devia ser. Não é de admitir que qualquer desconhecido possa, a seu bel-prazer, hipnotizar uma ou várias pessoas e as maneje. E que por vezes o hipnotizador seja o primeiro homem de maus costumes que se encontrou no caminho.
«Tomemos para exemplo a Sonata a Kreutzer — primeiro andamento. Deve tocar-se este presto numa sala entre mulheres decotadas; aplaudi-la; comer gelados; contar a última anedota da semana?
«Esses trechos só deviam ser tocados em momentos graves e quando é necessário realizar acções que estejam em harmonia com o assunto da música. De outro modo esse chamamento inoportuno a sentimentos que não têm ensejo de se manifestar não podem ter senão um resultado nefasto. Sobre mim, pelo menos, produziu um efeito desastroso. Sentimentos novos, possibilidades até então desconhecidas revelaram-se em mim. Tudo era diferente da vida que até então eu vivera. Eu não podia avaliar o elemento que descobrira mas a consciência deste novo estado dava-me alegria.
«As fisionomias que eram sempre as mesmas, e, no número das quais havia a de minha mulher e a de Troukhatchevski apareciam-me com um aspecto diferente.
«Depois do presto executaram o andante que é belo mas sem originalidade, com variantes banais e um final fraco.
«Em seguida, a pedido dos convidados executaram uma elegia de Ernst e vários pequenos trechos. Todas estas peças eram muito boas, mas nenhuma produziu, em mim, nem um décimo da impressão que me causou a primeira obra. Tudo o mais que senti estava subordinado à impressão que me causara a Sonata.
«Sentia-me leve, alegre toda a noite. Quanto a minha mulher, nunca a tinha visto como naquela noite. Os olhos brilhantes, um leve sorriso extasiado, uma espécie de abandono total enquanto tocava e uma severa expressão quando terminou o concerto. Vi tudo isto mas não lhe liguei nenhuma importância particular.
«Ela experimentava as mesmas sensações que eu. Sentimentos novos e desconhecidos até aí surgiam dentro de mim e dela.
«O serão acabou muito bem. Cada um regressou aos seus aposentos.
«Troukhatchevski ao saber que tinha de partir para um congresso na província disse que esperava ter o prazer de renovar, quando regressasse, o serão que lhe havíamos proporcionado tão agradavelmente.
«Concluí das suas palavras que ele não voltaria a minha casa enquanto eu estivesse por fora. Esta resolução foi-me particularmente agradável. Não nos tornaríamos a ver, porquanto eu não regressaria antes da partida dele. Pela primeira vez eu lhe apertei a mão com verdadeira alegria e lhe agradeci os momentos de agradável convívio que tivéramos. Os cumprimentos de despedida a minha mulher foram convenientes e naturais. Tudo parecia perfeito.
«Eu e minha mulher sentíamo-nos contentes pela forma como decorrera o serão.»