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Sonata a Kreutzer

Leon Tolstoi

XXIV

— Parti no dia seguinte para o congresso. Despedi-me de minha mulher nas melhores disposições.

«Na capital do distrito eu tinha sempre muito trabalho; cheguei a passar dez horas sentado à secretária. Era uma vida à parte, um pequeno universo particular.

«No dia seguinte ao da minha chegada trouxeram-me uma carta de minha mulher. Falava-me dos filhos, de um nosso tio, da criada, das despesas que fizera, e entre outras coisas, como de uma coisa banal, referia-se a uma visita de Troukhatchevski. Tinha ido levar-lhe umas partituras que lhe prometera. Tinha-se também oferecido para a acompanhar, mas ela recusara. Eu não me lembrava que ele lhe houvesse prometido tais partituras. Julgava

 

até que ele se despedira definitivamente. Esta notícia chocou-me desagradavelmente. Tinha, no entanto, que fazer e não tive tempo de pensar mais na carta. À noite, porém, quando reli a carta, reflecti no que me escrevera minha mulher e a carta então pareceu-me afectada. Estranhei que Troukhatchevski tivesse ido visitar minha mulher na minha ausência.

«A fera raivosa do ciúme pôs-se a rugir dentro de mim. Mas tive medo dela e prendi-a.

«“Que sentimento abjecto é o ciúme”, disse para comigo. “Nada mais natural do que o que ela me escreveu.”

«Deitei-me. Pensei só nos assuntos que tinha para resolver no dia seguinte.

«Quando vinha tomar parte nestes congressos o que mais me custava era ter que dormir num quarto que não era o meu. Desta vez, porém, adormeci rápida e profundamente.

«Nunca lhe aconteceu por vezes ser acordado por uma espécie de descarga eléctrica que nos atravessa? Acordei debaixo dessa impressão. Levantei-me com o pensamento em minha mulher, no amor que, apesar de tudo, sentia por ela, e em Troukhatchevski. Acabrunhava-me o pensamento de que entre ela e ele alguma coisa se consumara. O terror e o ódio apertavam-me o coração. Tentei acalmar-me.

«“Que tolice!”, disse para comigo. “Isto não tem razão de ser! Não há nenhum fundamento! Não é possível. Nada se passou! Como posso rebaixar-me e rebaixá-la, pensando tais horrores?”

«“Ele é um violinista a quem se paga, conhecido por ser um pobre homem.”

«“Minha mulher é uma senhora respeitável, uma honrada mãe de família. Que absurdo!”, pensava eu.

«Por outro lado eu considerava que casara com minha mulher por ter necessidade dela, e que a necessidade que eu sentia também outros a sentiam e, entre muitos, esse músico.

«Não era casado. Tinha uma esplêndida saúde. Lembro-me perfeitamente do prazer com que ele trincava os ossos das costeletas e a avidez com que bebia o vinho que lhe deitavam nos copos. Homem bem alimentado, sem princípios, ou melhor, tendo como princípio gozar todos os prazeres da vida.

«A música, esse terrível excitante, a forma mais perfeita do desejo

 

deveria sem dúvida ser um elo entre eles. O que a pode conter a ela? Nada.

Pelo contrário, tudo a atrai.

«Minha mulher foi sempre para mim um enigma. Eu não a conhecia, senão no período animal. Aos animais ninguém os pode conter.

«E assim me foram vindo à memória pormenores esquecidos. A fisionomia dos dois quando acabaram de tocar um trecho apaixonante cujo autor não me recordo, e que é uma página sensual, até à impudência.

«“Como me atrevi a partir?...”, pensei, depois de ter notado estes pormenores. “Tudo se consumou entre eles, esta noite.”

«Lembrava-me do sorriso de felicidade, ténue e amoroso que ela tinha enquanto passava o lenço pelas faces rosadas, quando me aproximei do piano.

«Eles, é certo, evitavam olhar-se. Somente durante a ceia, quando ele lhe servia a água, os olhos se encontraram e entre si trocaram um sorriso quase imperceptível. Lembrava-me com horror desse olhar e desse sorriso que captara.

«Dentro de mim uma voz dizia-me:

«“Tudo acabou.” Mas outra voz me segredava uma outra linguagem.

«“O que te prende? E impossível...”

«Não pude mais estar às escuras. Acendi um fósforo. E senti verdadeiro horror nesse quarto pequeno. Fumei um cigarro. É sempre assim quando o pensamento gira em volta de contradições insolúveis. Fuma-se. Acendi cigarros uns após outros. Envolvi-me num nevoeiro em que os pensamentos se suspendiam, sem nenhuma consistência. Em toda a noite não dormi uma hora. Às cinco horas da manhã compreendi que não podia por mais tempo manter-me nesta situação. Resolvi partir. Levantei-me. Acordei o criado. Mandei-o chamar uma equipagem. Escrevi para o congresso, pedindo que me fizessem substituir por outro congressista. Fora chamado a Moscovo subitamente.

«Às oito horas subia para um tarantass e partia.»

XXV

O revisor entrou. E tendo notado que a luz se extinguia acabou por a apagar completamente sem a substituir. Lá fora o dia começava a aparecer.

 

Pozdnichev manteve-se calado enquanto o revisor ficou na carruagem, suspirando profundamente. Só tornou a falar quando o revisor saiu. No nosso compartimento, completamente às escuras, só se sentia o estremecimento dos vidros produzido pêlos solavancos do comboio e o ressonar regular do caixeiro-viajante. Na meia-luz do amanhecer eu não o via.

Somente a sua voz cada vez mais emocionada, cada vez mais dorida, se ouvia acima de todos os outros sons.

— Eu tinha de percorrer trinta e cinco verstas de carruagem e oito horas de caminho-de-ferro. O percurso de carruagem foi agradável.

«Estava um dia de Outono frio. O sol era brilhante. Era a época em que as rodas dos carros vão deixando sulcos pêlos caminhos — você conhece certamente. A luz era esplêndida, o ar vivificante. Eu sentia-me perfeitamente livre dentro do tarantass.

«Quando o dia nasceu e me pus a caminho sentia-me bem-disposto.

«Olhando os campos, reparando nos cavalos, vendo as pessoas que se cruzavam no caminho, esquecia-me ao que ia. De tempos a tempos, tinha a impressão de que era uma simples viagem de recreio e nenhum outro motivo me levava para casa.

«Sentia alegria por me esquecer. Se porventura me vinha ao pensamento o que ia fazer dizia para mim:

«“Não pensemos... Depois se verá.”

«Durante o percurso, a meio do caminho, deu-se um desastre. O tarantass avariou-se e foi necessário repará-lo. Este incidente teve muita importância. Em vez de chegar a Moscovo às cinco horas, como tinha previsto, cheguei à meia-noite; cheguei a minha casa à uma hora, porque perdi o expresso e tive de apanhar um omnibus. Procurar abrigo, assistir às reparações, pagar, tomar chá na estalagem, dois dedos de cavaco ao estalajadeiro tudo contribuiu para me distrair. Ao fim do dia tudo estava pronto, e de novo, nos pusemos a caminho.

«A viagem de noite ainda foi mais agradável.

«Caía neve e a lua iluminava a estrada lindíssima. Os cavalos eram esplêndidos e o cocheiro um bom tagarela. Caminhava, saboreando estes momentos sem quase me lembrar do que me esperava, ou talvez, eu experimentasse esta alegria tanto mais intensa quanto sabia que dizia adeus para sempre ao que na vida é belo.

 

«A paz que neste momento gozava parou no mesmo momento em que parou a viagem de tarantass. Desde que me meti no comboio tudo se transformou. O percurso de comboio foi torturante. Nunca o poderei esquecer. Não sei se era a trepidação do comboio que me excitava, se a ideia de que me ia aproximando de casa. Desde que subi para o comboio não pude mais dominar a imaginação. De uma maneira vivíssima pintavam-se-me quadros, cada uns mais lúbricos um do que o outro e que me excitavam o ciúme. O assunto era sempre o mesmo, o que nessa noite se passava em minha casa e a maneira como ela me enganava. O ciúme, a raiva, a indignação e o sentimento de humilhação ao representarem-se-me estas imagens disputavam-se, dilacerando-me o coração, como abutres esfaimados. Eu não podia deixar de os ver; via-os sempre e quanto mais as imagens se detinham no meu pensamento mais eu acreditava na sua realidade. Um demónio comprazia-se em me torturar, trazendo-me à memória as piores cenas de luxúria.

«Veio-me então à lembrança a conversa que tivera com um irmão de Troukhatchevski em que lhe perguntara se frequentava casas de má nota; ele respondera que um homem não tem necessidade de ir a lugares anti-higiénicos e sórdidos, onde corre risco de apanhar doenças, quando é fácil encontrar uma mulher honesta da qual nada há a temer.

«Eu agora pensava que o irmão tinha encontrado essa mulher, a minha própria mulher. Não era muito nova, faltava-lhe um dente e estava um pouco alentada, mas — que fazer? — é preciso aproveitar as ocasiões.

«“Sim”, pensava eu. “Ele condescende em a aproveitar para amante... não tem perigo para a sua saúde.”

«“Não!... É impossível!... Como posso pensar tais coisas?...”, pensava eu horrorizado. “Não tenho razões para pensar nada disto... Ela afirmou-me que se sentia humilhada por eu ter ciúmes dele.”

«Eram mentirosos os seus protestos... Ela mentia-me... E de novo me vinham ao pensamento os mais lúbricos quadros.

«No meu compartimento iam mais dois passageiros, um homem e uma senhora, ambos pouco faladores. Desceram na primeira estação e eu fiquei só.

«Era uma fera enjaulada.

«Levantava-me. Sentava-me. Debruçava-me da portinhola, batia os pés como se os meus movimentos contribuíssem para apressar a marcha do comboio.

 

«Os vidros e os bancos do comboio estremeciam a todo o momento, exactamente como acontece a estes.»

Pozdnichev levantou-se, deu duas ou três voltas febris e voltou a sentar-se.

— Toda a carruagem me metia pavor. Sentia-me gelar... Sentei-me. Tentei pensar noutra coisa. Por exemplo no dono da estalagem onde tinha tomado chá. Mas surgiu-me na imaginação o criado com a sua barba comprida e o neto, um garotinho da mesma idade que o meu Vassia. O meu Vassia!... Ele com certeza assiste à mãe ser beijada pelo músico.

«Que se passará na sua pobre alma? Ela não faz caso. Está apaixonada.

E de repente tudo em mim se reavivou.

«Não... Não... Eu quero pensar na consulta no hospital. Ontem um doente queixou-se ao médico.. O médico tinha os mesmos bigodes que Troukhatchevski...

«E o pensamento voltava ao mesmo ponto. Com que impudência eles me enganam!

«E tudo voltava de novo. O principal sofrimento era a ignorância, a dúvida, a duplicidade no facto de eu próprio não saber se a devia amar, se a devia odiar.

«O meu sofrimento era tão horrível que me veio a tentação — lembro-me perfeitamente — de descer à linha, deitar-me sobre os rails sob o comboio e acabar definitivamente. Esta ideia dava-me satisfação. Não teria mais dúvidas nem hesitações. Reteve-me a piedade que sentia por mim próprio e que fez nascer imediatamente o ódio contra a minha própria mulher. Por ele, eu sentia o sentimento bizarro, misto de ódio e da consciência da minha humilhação e da sua vitória. Por ela eu sentia um ódio pavoroso.

«“Eu não quero suicidar-me. Não quero deixá-la. E preciso que ela sofra, pelo menos um pouco, para que compreenda o que eu sofro.”

«Desci em todas as estações para mudar de ideias. Numa delas vi que serviam bebidas no bufete, fui imediatamente tomar uma vodca. Perto de mim um judeu bebia também. Meteu conversa e para não ficar sozinho no meu compartimento acompanhei-o à terceira classe, suja, cheia de fumo e juncada de invólucros de sementes de girassol. Sentei-me a seu lado. Ele conversou durante muito tempo. Contou-me inúmeras anedotas. Escutava-o, mas sem compreender, porque ia seguindo o fio dos meus desgraçados

 

pensamentos. A certa altura ele percebeu e quis prender-me a atenção. Nessa altura levantei-me e voltei para o meu compartimento.

«“É preciso que eu me concentre. Se o que eu penso é a verdade tenho razão para me torturar?”

«Sentei-me com a intenção de pensar calmamente, mas depressa, em vez de pensamentos calmos tudo recomeçou. As mesmas imagens me perseguiam, as mesmas representações...

«Entretanto pensava:

«“Quantas vezes fui atormentado (lembrava-me então das cenas de ciúmes que tantas vezes sentira e em tudo semelhantes a esta) e depois tudo terminava em bem.”

«“Será talvez, hoje, como outrora. Certamente vou encontrá-la a dormir sossegada; ela acordará contente por me voltar a ver e as suas palavras, o seu olhar dar-me-ão a certeza de que nada se terá passado e que tudo eram tolices forjadas pela minha imaginação doentia. Ah! Como seria maravilhoso que, tudo se passasse assim!”

«Mas não. Isto repetiu-se muitas vezes. Desta vez não será assim — dizia-me uma voz, e tudo recomeçava. O que era horrível é que eu considerava-me com direito incontestável sobre o seu corpo. Como se fosse realmente o meu próprio corpo e ao mesmo tempo reconhecia que aquele corpo não me pertencia, que ela não podia dispor dele como quisesse e que o desejo que ela manifestava não era conforme ao meu. Se ela não tivesse tido nada com ele mas o desejasse, e eu sabia que ela o desejava, era pior ainda. Mais valia que tivesse havido alguma coisa então eu o saberia e não mais haveria incertezas. Eu já não sabia o que queria. Sentia-me enlouquecer.»

XXVI

— Antes da última estação, quando o revisor veio controlar os bilhetes, juntei as bagagens e saí para a plataforma. O sentimento do que se ia passar, aumentou a minha emoção. Tinha frio de tal modo que batia os queixos e tremia-me o corpo. Saí da gare maquinalmente juntamente com a multidão. Tomei um fiacre, subi e parti. Durante o percurso ia olhando os raros passeantes daquela hora nocturna, os porteiros, as sombras projectadas pêlos revérberos e pela minha própria carruagem, umas vezes pela frente,

 

outras vezes pela parte de trás. Não pensava em nada. Depois de ter percorrido meia versta, tive frio nos pés e lembrei-me de que tinha tirado as minhas peúgas de lã e as tinha metido no saco. E agora onde estava o saco? E o meu cesto? Lembrei-me então que na precipitação me esquecera das bagagens. Pensei que não valia a pena voltar para trás e de que tinha em meu poder a guia.

«Apesar de todos os meus esforços, não posso lembrar-me do estado em que me encontrava então. Em que pensava eu? Ignoro. Lembro-me somente que tinha o sentimento do que ia acontecer, qualquer coisa de tremendo e de muito importante para a minha existência. Este acontecimento medonho deu-se porque eu pensava nele ou porque o pressentia?... Não sei. Talvez também tudo o que se passou nos minutos que precederam o que aconteceu tomou na minha lembrança uma cor sombria.

«Cheguei diante do pátio da minha casa. Passava da meia-noite. Vários fiacres estavam parados em frente à porta, esperando fregueses eventuais porque havia luz nas janelas (nas do salão e nas da sala de jantar do nosso apartamento).

«Sem tentar perceber porque estariam iluminadas as janelas, galguei as escadas, bati à porta com o mesmo sentimento de que qualquer coisa de horrível ia acontecer. O nosso criado de quarto, Egor, homem honesto e dedicadíssimo, abriu-me a porta. O primeiro objecto que me saltou à vista foi, logo na entrada, o casaco de Troukhatchevski, pendurado no cabide juntamente com outros.

«Eu devia ter ficado surpreendido, mas não. Parece que contava com isso.

«“Está bem”, disse para mim.

«Quando perguntei a Egor quem estava com a senhora ele respondeu-me que era Troukhatchevski. Perguntei-lhe se havia mais alguém. Ele respondeu-me negativamente.

«Lembro-me agora que a resposta dele tinha uma intenção particular. Como se ele desejasse ser-me agradável e desvanecer em mim qualquer má impressão, a propósito de qualquer outra pessoa.

«“Ninguém mais! Ninguém mais”, repetia eu.

«“E os meninos?”

«“Graças a Deus estão bem. Adormeceram há já muito tempo.” Eu não podia suster a respiração, nem fazer parar o tremor dos queixos.

 

«Afinal era o que eu pensava. Antigamente eu pensava numa desgraça mas na realidade tudo se passava bem. Agora não era como antigamente. Tudo o que eu imaginara, tudo o que eu pensara era a realidade. Desta vez era verdade.

«Ia começar a chorar mas, de repente, um demónio soprou-me ao ouvidos:

«“Chora, arma ao sentimento, eles terão tempo de se separarem tranquilamente. Não terás provas e toda a vida viverás na dúvida e te atormentarás.”

«Imediatamente desapareceu o enternecimento por mim próprio e um estranho sentimento surgiu — talvez você não acredite — um sentimento de alegria, ao pensar que as minhas torturas iam acabar e eu a podia castigar, livrar-me dela e podia finalmente satisfazer o meu desejo de vingança. Tornei-me um animal enraivecido, um animal mau e manhoso.

«“Não é preciso nada”, disse eu a Egor que me queria acompanhar ao salão. “Tu tens que ir fazer imediatamente isto. Mete-te num fiacre e vai levantar as minhas bagagens. Tens aqui a guia. Apressa-te.”

«Ele meteu-se pelo corredor para ir buscar o casacão. Temendo que os fosse prevenir, acompanhei-o até ao quarto e só o deixei quando ele já estava pronto para sair.

«No salão que ficava afastado dos quartos continuavam a ouvir-se vozes e o tilintar dos talheres e dos pratos. Estavam à mesa e não tinham ouvido a campainha da entrada.

«“Deus queira que eles não saiam”, dizia de mim para mim.

«Egor pôs o casacão de gola de astracã e partiu. Logo que saiu fechei a porta à chave e fui tomado de verdadeiro pavor quando percebi que estava completamente só e que era preciso agir imediatamente.

«Não sabia ainda como tudo iria acabar. Mas sabia que tudo terminaria porque não havia maneira de ela poder provar a sua inocência e eu tinha de a castigar e pôr fim às nossas relações.

«Noutras ocasiões eu dizia:

«“Talvez não seja verdade. Pode ser que eu me engane.”

«Neste momento tudo desaparecera. Decidira irrevogavelmente.

«“Às minhas escondidas, numa entrevista durante a noite!...” Era o esquecimento de tudo. Ou pior ainda. Este despudor, esta impertinência do

 

crime eram propositadas para testemunhar a sua inocência. Tudo era claro.

Não podia haver dúvidas.

«Eu só tinha medo que eles se escapassem, inventando uma qualquer artimanha, privando-me de uma prova retumbante e da possibilidade de os castigar. Para os surpreender mais depressa, dirigi-me em bicos de pés para o salão onde se encontravam, não passando pela salinha, mas atravessando o corredor e o quarto dos pequenos.

«No primeiro quarto dormiam os rapazes. No segundo a criada mexeu-se e esteve quase a acordar. Nesse momento pensei o que imaginaria ela quando tivesse conhecimento do que tinha acontecido e senti uma pena tão grande de mim mesmo que não pude suster as lágrimas. Para não ser sentido pêlos pequenos saí a correr para fora do quarto em bicos de pés para o corredor. Entrei no meu gabinete e desatei a chorar convulsivamente enterrado no divã.

«“Que desgraça! Um homem honesto, filho de gente honradíssima, que toda a vida sonhou com a felicidade de um lar!... Cinco filhos e ela beija um músico porque ele tem os lábios vermelhos. Não. Ela não é um ser humano. Ela é uma cadela, uma cadela vil... Junto do quarto dos filhos que ela fingia amar acima de tudo... Escrever o que ela me escreveu e envolvê-lo de seguida nos seus braços.”

«“Talvez tivesse sido sempre assim... Talvez os nossos filhos sejam filhos dalgum dos meus criados.”

«“Se eu tivesse chegado de manhã ela teria vindo ao meu encontro sorridente, formosa com as seus movimentos ondulantes e graciosos (eu revia a sua figura atraente e odiosa) e então a besta raivosa do ciúme ficaria para sempre no meu coração a esfrangalhá-lo.”

«“Que vão pensar o Egor e a criada? E a pobrezinha da Lisa? Ela parece compreender alguma coisa. Que imprudência! Que impostora!”

«Quis levantar-me mas foi em vão. O coração batia-me com tal violência que me não conseguia ter nas pernas. Sem dúvida eu vou morrer de um ataque. Ela mata-me. Era o que era preciso. Era muito cómodo. Não. Não será assim. Seria cómodo de mais. Eu não lhe darei essa satisfação. Muito bonito. Eu aqui sentado sem me poder mexer e eles, comendo, rindo e... Sim. Embora ela não esteja na juventude, ele julgou-a digna dele. Apesar de tudo ela ainda não está má e sobretudo não é um perigo para a sua preciosa saúde.

«“Por que a não estrangulei no outro dia?”, pensava eu recordando a cena em que lhe atirara todos os objectos que tinha sobre a secretária e a tinha

 

expulsado do meu gabinete. Lembrava-me perfeitamente do estado em que me encontrava então; não somente eu recordava nitidamente tudo, mas sentia também a mesma necessidade de bater e de destruir que me assaltara naquele momento.

«Recordo-me de que desejava agir e que todas as espécies de lucubrações fora daquelas que eram necessárias para agir me saíam do cérebro.

«Entrei nas disposições de um animal feroz ou, antes, nas de um homem que está sob a influência de uma excitação física no momento de um perigo. Age com precisão, sem pressa, mas sem perder um minuto e tudo com um fim determinado.»

XXVII

— A primeira coisa que fiz foi descalçar os sapatos. Em peúgas fui até à parede por cima do divã onde estavam penduradas as espingardas e os punhais. Tirei um punhal curvo marchetado, terrivelmente agudo que nunca tinha servido. Tirei-o da bainha que caiu para trás do divã. Lembro-me que pensei procurá-la mais tarde para que se não perdesse. Depois tirei o sobretudo que tivera vestido todo esse tempo e, caminhando com passos silenciosos sem as botas, dirigi-me para o salão. Depois de ter chegado até à porta, sem nenhum ruído abri-a bruscamente. Lembro-me das suas expressões. Lembro-me perfeitamente, pela alegria que senti perante o horror que elas exprimiam. Era precisamente o que eu pretendia. Eu não posso jamais esquecer o terror desvairado, pintado nas feições dos dois, durante o primeiro segundo... quando eles me viram.

«Ele estava — parece-me — sentado à mesa; ao ver-me, ou melhor, ao sentir-me levantou-se repentinamente e ficou de pé, de costas para o armário.

O seu rosto traduzia verdadeiro terror. A cara da minha mulher tinha a mesma expressão. Se a sua fisionomia só tivesse traduzido terror talvez o que aconteceu não tivesse acontecido. Mas ela exprimia — pelo menos foi essa a minha impressão à primeira vista — despeito, desagrado por ter sido interrompida nos seus amores, na sua felicidade com ele. Parecia querer dizer que não a importunassem, que não precisava de nada, porque só precisava, naquele momento, de ser feliz. Mas tudo isto se passou num relance. O terror da expressão de Troukhatchevski foi substituído por um ar

 

interrogador.

«“Devemos mentir ou não? Se devemos mentir tem que ser já, senão outra coisa vai acontecer.”

«Mas o quê? Ele olhou para ela como a interrogá-la. Sobre a face de minha mulher desapareceram os sinais de desapontamento e tédio para darem lugar à inquietação pelo que podia ir acontecer a Troukhatchevski.

«Fiquei um instante no limiar da porta, com o punhal atrás das costas. Neste preciso momento ele sorriu e começou num ar absolutamente indiferente até ao absurdo:

«“Fazíamos um pouco de música...”

«Por sua vez ela disse:

«“Eu não te esperava!”

«Usou o mesmo tom que ele.

«Nem um nem outro ousaram acabar a frase. A raiva que semanas antes me acometera apoderou-se de mim. Senti novamente o desejo de destruir tudo, uma necessidade de violência, de exaltação. Abandonava-me ao meu furor. Os dois deixaram a sua frase inacabada. Aquela coisa que ele, inconscientemente, temia e que quebrava tudo o que eles diziam começou. Atirei-me a ela, escondendo sempre o punhal que trazia comigo para que ele não me impedisse de a ferir de lado, um pouco abaixo do seio. Desde o princípio que eu escolhera aquele lugar. No momento em que me atirei a ela ele viu o punhal (eu não pensei que ele fosse capaz de proceder assim). Agarrou-me pelo braço e gritou:

«“Acalme-se! Que é que você vai fazer? Socorro!”

«Desprendi o braço brutalmente e sem dizer uma palavra atirei-me a ele. O seu olhar encontrou-se com o meu, tornou-se, como o meu, branco como a cal, os próprios lábios embranqueceram. Os olhos adquiriram um brilho estranho e depois (eu não esperava este desenlace) ele esgueirou-se por debaixo do piano e desapareceu pela porta. Corri atrás dele mas, de repente, senti um peso no meu braço. Era ela. Atirei-me. Ela fez-se mais pesada, reteve-me. Este obstáculo imprevisto, este peso e o seu contacto odioso excitaram-me mais ainda. Eu sentia que estava completa-mente descontrolado, que devia ter um aspecto medonho e sentia-me alegre. Levantei o braço esquerdo com todas as minhas forças e o cotovelo bateu-lhe em cheio na cara. Ela soltou um grito e largou-me o braço. Tentei ainda ir atrás dele mas pensei que seria ridículo correr em meias atrás do amante da

 

minha mulher; eu não queria ser ridículo, queria ser terrível. Apesar do meu frenesim eu tinha a consciência da impressão que causava aos outros e era essa impressão que me guiava. Voltei-me para ela. Tinha caído sobre uma chaise-longue e fitava-me, protegendo com as mãos os olhos feridos. A sua expressão era de ódio e temor; o ódio do inimigo, o do rato quando se abre a ratoeira onde se deixou cair. Pelo menos era o que eu via, horror e medo de mim. Era o horror e o medo que lhe deviam ter feito nascer o amor por outro homem. Eu talvez tivesse conseguido dominar-me e não teria acontecido o que aconteceu se ela não tivesse falado. Mas ela começou a falar e agarrou-me a mão com que eu segurava o punhal.

«“Acalma-te! Que fazes tu?... O que aconteceu? Não há nada... nada... nada... Juro-te!”

«Eu talvez tivesse detido a minha fúria, mas as últimas palavras de que eu tirei a conclusão ao contrário, isto é, que tudo estava consumado, exigiam uma resposta. E a resposta devia ser conforme ao estado em que me encontrava e que ia num crescendo e devia continuar a ampliar-se. A cólera também tem os seus direitos.

«“Não mintas, prostituta!”, berrava eu, e com a mão esquerda agarrei-lhe o braço.

«Mas ela conseguiu libertar-se. Então sem largar o punhal, agarrei-a pela garganta com a mão esquerda, deitei-a para trás e tentei estrangulá-la. Como o seu pescoço era duro! Ela agarrou-se com as duas mãos às minhas, para tentar tirá-las da garganta... e então como se eu não esperasse senão isto, feri-a duas vezes, com muita força, com o punhal no lado esquerdo, abaixo das costelas.

«Quando se afirma que nos não lembramos de nada, num acesso de furor, é uma tolice, e uma mentira. Eu lembro-me de tudo e nem um momento deixei de me lembrar. Quanto mais violenta era a minha cólera mais intenso era o fogo da consciência, à luz da qual eu não podia deixar de ver tudo o que fazia. Em todos os momentos sabia o que estava a fazer. Não poderei dizer que eu sabia de antemão o que ia fazer mas, no momento em que agia, mesmo um pouco antes, sabia bem o que fazia para que fosse possível arrepender-me, e de qualquer maneira, me pudesse deter. Sabia que a feria sob as costelas e que o punhal entrava. Nesse momento, sabia que cometia qualquer coisa de muito horrível, que nunca tinha feito nada de semelhante e que seriam terríveis as consequências. Mas esta consciência desapareceu como um relâmpago e imediatamente o acto se seguiu. Também tenho a consciência nítida do acto. Senti (lembro-me perfeitamente) a

 

resistência do espartilho e depois enterrar-se o punhal em qualquer coisa mole. Ela agarrara a lâmina com as duas mãos e feriu-se mas não a pôde segurar.

«Muito tempo depois, na prisão, quando uma revolução moral se operou em mim, eu meditei nesse minuto, reconstituindo o mais que podia. Lembro-me que num abrir e fechar de olhos durante o segundo que precedeu o meu acto, eu tive o sentimento terrificante de matar, de ter morto uma mulher, uma criatura sem defesa, a minha própria mulher. Lembro-me do horror desse instante e concluí que depois de ter enterrado o punhal eu o tirei (tenho disso uma vaga ideia) com o desejo de reparar o mal, de impedir o que já estava feito. Estive um momento imóvel, esperando o que ia acontecer, se a poderiam salvar. Ela levantou-se bruscamente e gritou:

«“Ama! Ele matou-me!”

«A criada dos pequenos que tinha ouvido barulho estava no limiar da porta. Eu fiquei pregado ao chão, à espera, sem poder render-me à evidência. Neste momento mesmo, o sangue jorrou através do espartilho. Só então compreendi que não poderiam reparar o que tinha feito e verifiquei que era inútil: era precisamente o que eu queria e desejara realizar completamente. Eu esperava que ela caísse. A criada correu para ela gritando:

«“Meu Deus!”

«Então arremessei o punhal para longe e deixei o quarto.

«“É necessário que eu não me perturbe, é preciso que saiba o que faço”, dizia eu, sem olhar, nem para a minha mulher nem para a criada.

«A criada gritava e chamava a outra criada. Eu passei no corredor, mandei a criada para junto de minha mulher e fui para os meus aposentos.

«“Que fazer agora?”, perguntei a mim mesmo e compreendi o que tinha de fazer. Entrando no meu gabinete dirigi-me imediatamente para a parede onde estavam as armas. Tirei um revólver, examinei-o (estava carregado) e coloquei-o em cima da mesa. Em seguida procurei a bainha do punhal e sentei-me sobre o divã.

«Fiquei durante muito tempo assim. Eu não pensava em nada; não me lembrava de nada. Pareceu-me ouvir que transportavam qualquer coisa. Chegou alguém, depois chegou ainda outra pessoa. Em seguida senti e vi Egor trazer para o meu gabinete a bagagem que tinha ficado na gare, como se alguém tivesse necessidade de alguma coisa.

«“Ouviste dizer o que aconteceu? Diz ao porteiro que chame a

 

polícia.”

«Ele calou-se e pouco depois saiu. Levantei-me. Fechei a porta à chave e depois de ter ido buscar cigarros e fósforos pus-me a fumar.

«Ainda não tinha acabado de fumar um cigarro quando o sono me invadiu e me venceu. Dormi, provavelmente, perto de duas horas. Lembro-me que sonhei que éramos bons amigos. Tínhamo-nos zangado mas tínhamos feito as pazes; havia qualquer coisa que nos aborrecia mas éramos bons amigos. Acordei ouvindo bater à porta.

«“É a polícia!”, pensei eu, acordando. “Parece-me que a matei. Ou talvez seja ela e não se tenha passado nada.”

«Tornaram a bater à porta. Eu não respondi, esforçando-me por resolver a questão. Aconteceu ou não aconteceu? Sim, aconteceu. Lembrava-me da resistência do espartilho, o punhal que se enterrava e tive um estremecimento de horror, que me gelou. Sim, aconteceu. Agora é a minha vez. Mas, dizendo isto, eu tinha a certeza que não me mataria. Contudo levantei-me e peguei de novo no revólver. Facto estranho. Lembro-me de que antes disto tinha estado muitas vezes à beira de me suicidar. No dia anterior, no caminho-de-ferro, isso ter-me-ia parecido fácil, precisamente porque supunha dar-lhe um desgosto. Neste momento eu não podia pensar assim.

«“Por que hei-de fazer isto?”, perguntava a mim próprio sem encontrar resposta.

«Bateram de novo à porta. “É preciso saber quem é. Eu tenho tempo.” Pus de nova o revólver sobre a mesa e cobri-o com um jornal. Fui à porta e abri-a. Era a irmã da minha mulher, uma viúva, ao mesmo tempo boa e estúpida.

«“Vassia! Que aconteceu?”, disse-me ela entre lágrimas sempre prontas a correr.

«“O que é que tu queres?”, respondi bruscamente. Reconhecia que era perfeitamente inútil e injusto ser brutal com ela mas não podia falar de cutro modo.

«“Vassia! Ela vai morrer. Disse-o Ivan Fédorovitch.” Era o médico, o seu médico, o seu conselheiro.

«“Ele está cá?”, perguntei eu. De novo me veio uma grande má vontade contra ela. “E depois?”

«“Vassia, vai vê-la. Ah! É horrível!”

 

«“Ir vê-la?”, perguntei a mim próprio. Era necessário ir vê-la. Com certeza era costume. Quando um marido, como eu, mata a mulher é necessário, com certeza, ir vê-la.

«“Se é costume, irei vê-la. Há sempre tempo”, pensei eu a propósito da minha intenção de me suicidar e fui para os aposentos de minha mulher.

“Certamente vai haver frases e gestos mas eu não me deixarei comover.”

«“Espera um pouco”, disse eu para a minha cunhada. «“É estúpido ir em peúgas. Deixa-me, ao menos, calçar as pantufas.”»

XXVIII

— Coisa extraordinária! Quando saí do meu gabinete e atravessei os compartimentos que me eram familiares tive ainda a esperança de que nada se tivesse passado. Mas o cheiro dos desinfectantes que são prescritos pêlos médicos, o fenol, o iodofórmio, abateram-me. Sim. Era verdade. Quando passei no corredor, em frente do quarto dos filhos, vi Lisa. Fixou-me com os olhos apavorados. Tive mesmo a impressão de que todos os filhos olhavam para mim. Cheguei à porta do quarto; a criada abriu-a e saiu.

«A primeira coisa que me saltou aos olhos foi o vestido de minha mulher, um vestido de seda cinzento, em cima de uma cadeira, e todo manchado de sangue. Estava deitada na nossa cama no meu lugar (era o mais acessível), estendida, mas com os joelhos levantados. Tinha o corpete desabotoado e sobre a ferida tinham-lhe colocado qualquer coisa.

«O quarto estava impregnado do cheiro do clorofórmio. Mas o que me horrorizou, antes de mais nada, foi a cara inchada e coberta de nódoas negras num dos olhos e numa parte do nariz. Era o efeito da enorme pancada que eu lhe dera quando ela me agarrou.

«Tinha perdido toda a sua beleza e tinha mesmo um ar repugnante. Parei à entrada.

«“Aproxima-te, vai até junto dela”, disse-me a minha cunhada.

«“Quererá ela confessar-me toda a verdade? Devo perdoar-lhe? Sim. Ela vai morrer, eu devo perdoar”, pensei e esforçando-me por ter um ar magnânimo. Cheguei-me um pouco para mais perto dela. Ergueu para mim, com grande custo, os olhos fatigados (tinha um olho inchadíssimo) e com

 

grande dificuldade e entrecortadamente articulou:

«“Conseguiste o teu fim, mataste-me...” E na sua cara, apesar de todo o sofrimento físico e até da aproximação da morte eu vi o antigo ódio frio e animal que me era familiar. “Mas... os filhos... eu não tos deixarei... Será ela (a sua irmã) que tomará conta deles.”

«Mas do que era mais importante para mim, da sua falta, da sua traição, ela entendia que não valia a pena falar.

«“Revê a tua obra”, disse ela olhando para a porta e desatando a soluçar. A minha cunhada estava à entrada da porta com todos os filhos. “Eis o que tu fizeste.”

«Olhei para os filhos, depois para a sua cara coberta de equimoses, e pela primeira vez esqueci a minha personalidade, os meus direitos, o meu orgulho, vi nela um ser humano. Tudo o que me ofendia, todo o meu ciúme era nada perante a acção que tinha cometido. E tive a tentação de encostar a cabeça à sua mão e pedir-lhe que me perdoasse. Mas não tive coragem. Ela ficou calada, os olhos fechados, visivelmente já fora de si. Depois a cara comple-tamente deformada contraiu-se e cobriu-se de rugas. Repeliu-me.

«“Porquê tudo isto? Porquê?”

«“Perdoa-me”, disse-lhe eu.

«“Perdoar? Tudo isto é absurdo!... O que eu queria era viver”, gritou ela. Soergueu-se, os olhos tinham um brilho febril e fixaram-me: “Conseguiste os teus fins!... Odeio-te. Ai!... Ai!...” Subitamente, em delírio, sob uma impressão de terror. “Mata-me! Mata-me! Eu não tenho medo... Somente... peço-te, mata-nos a todos, e a ele também. Ele foi-se embora... ele foi-se embora!...”

«Nunca mais deixou de delirar. Já não conhecia ninguém. Morreu nesse mesmo dia, pelo meio-dia.

«Às oito horas tinham-me levado para o comissariado e daí para a prisão. Depois de onze meses de prisão em que esperei pela organização do processo, reflecti durante esse tempo sobre a minha maneira de ser e proceder, sobre todo o meu passado e compreendi então tudo. Logo dois dias depois comecei a compreender. E dois dias depois entrava na prisão...»

Ele quis acrescentar mais alguma coisa mas não pôde reter por mais tempo os soluços. Parou a narração. Encheu-se de coragem e continuou:

— Eu nada tinha compreendido até que a vi no caixão. — Voltou a soluçar mas continuou precipitadamente: — Foi só quando vi a sua cara de

 

morta, pálida como cera, que compreendi tudo o que tinha feito. Compreendi que a tinha assassinado e que dependera de mim a sua vida, o que a animava, o seu calor, a sua felicidade; e, que por mim, ela se tornara inerte, fria, cor de cera; e eu não podia reparar o mal que fizera em nenhum tempo, em nenhum lugar, de nenhuma maneira. Quem não passou por isto não pode compreender. Que horror!... Que horror!... — gritou ele por diversas vezes. Depois, veio-lhe de novo a calma. Ficámos silenciosos por muito tempo. Ele chorava desabaladamente, sem dizer uma palavra na minha frente, sacudido a todos os instantes, pêlos solavancos do comboio.

— Perdoe-me!...

Voltou-se. Estendeu-se ao comprido no banco e tapou-se com a manta de viagem. Na estação em que eu me devia apear (eram perto de oito horas da manhã) aproximei-me dele para me despedir. Não sei se dormia se fazia que dormia. Não tinha sequer um leve estremecimento. Toquei-lhe com a mão e afastando a manta que o cobria vi que ele estava acordado.

— Adeus — disse-lhe estendendo-lhe a mão. Estendeu-me a sua com um sorriso tão lamentavelmente triste que tive vontade de chorar.

— Perdoe-me — disse-me ele, repetindo as mesmas palavras que dissera quando concluíra a sua narrativa.

 

POSFÁCIO

Recebi e continuo a receber muitas cartas de desconhecidos, pedindo-me que explique em termos simples e claros o que penso acerca da narrativa que escrevi e intitulei Sonata a Kreutzer.

Vou tentar exprimir brevemente, na medida do possível, o conteúdo do que eu quis dizer nesta narrativa e as conclusões que segundo o meu parecer se podem daqui tirar.

Primeiramente, quis dizer que na nossa sociedade se formou a convicção sólida, comum a todas as classes e aprovada por uma falsa ciência de que as relações sexuais são indispensáveis à saúde; e que portanto, quando o casamento se não torna possível, o comércio sexual, não obrigando o homem a outra preocupação que não seja a de uma determinada despesa, é uma actividade perfeitamente natural e por consequência deve ser encorajada.

Esta convicção tornou-se tão geral e tão sólida que os pais, a conselho dos médicos, asseguram a depravação dos filhos; os governos cujo único fim é o cuidado do bem-estar moral dos seus concidadãos fazem do desregramento físico uma instituição, isto é, regularizam a existência de uma classe de mulheres destinadas a morrer não só física como moralmente para satisfação das pretensas necessidades dos homens, de tal modo que os celibatários entregam-se ao deboche com a consciência perfeitamente tranquila.

Eu quis, portanto, provar que esta tese está errada porque é impossível que para a saúde de uns seja necessário fazer morrer os corpos e as almas dos outros, da mesma maneira que não é possível que para a saúde de uns seja necessário beber o sangue dos outros.

A conclusão que tiramos é de que não se deve ceder a esta aberração e falsidade.

Para não ceder é necessário primeiro não acreditar nas doutrinas imorais, quer elas sejam pseudociências em que se arvoram e, segundo, compreender que a prática das relações sexuais desta espécie nas quais os homens ou se libertam das consequências possíveis — os filhos —, ou então fazem recair todo o peso sobre a mulher, ou obstam à possibilidade concepcional; as relações deste género são na verdade uma transgressão da mais simples exigência moral, uma infâmia e os homens solteiros que não

 

querem ter uma vida infame não devem proceder desta maneira.

Para se poderem abster é preciso além disso levar uma vida conforme à natureza; não beber, não se empanturrar de comida, não comer carne, não fugir ao trabalho (não ginástica mas um trabalho extenuante, que não tenha nada de divertimento), afastar do pensamento a possibilidade de relações físicas com mulheres de outros, da mesma maneira que qualquer homem afasta a possibilidade de ligações desse género entre ele e a mãe, os irmãos, os pais e as mulheres dos amigos.

A continência é possível e muito menos perigosa e prejudicial à saúde que a incontinência. Todos os homens encontrarão à sua volta centenas de provas.

Este é o primeiro ponto.

Segundo ponto: na nossa sociedade considera-se o comércio amoroso não só como uma condição essencial à saúde e um prazer mas uma felicidade poética e sublime; a infidelidade conjugal em todas as classes (sobretudo entre os camponeses — graças ao serviço militar) é um fenómeno corrente.

Eu considero isto mal. A conclusão que daqui resulta é de que se não deve fazer isto.

Para não fazer isto é necessário considerar o amor carnal de uma outra maneira. É preciso que os homens e as mulheres sejam educados nas famílias e na opinião pública de tal maneira que antes e depois do casamento eles considerem o desejo e o amor físico que estão entre si ligados, não como um estado poético e superior, como se considera presentemente, mas como um estado animal degradante para o ser humano e que a violação da promessa de fidelidade, dada no momento do casamento, seja castigada pela opinião pública pelo menos, da mesma maneira que o não pagamento de uma dívida, ou fraude comercial, e não seja celebrada, como se faz agora, nos romances, na poesia, nas canções, nas óperas, etc.

Este é o segundo ponto.

Terceiro ponto: na nossa sociedade, sempre, como consequência do significado errado atribuído ao amor carnal, a procriação perdeu o seu verdadeiro significado: em vez de ser o fim e a qualificação das ligações conjugais ela não é senão um obstáculo ao prolongamento agradável das relações amorosas. Consequentemente, tanto fora como dentro do casamento, sob o conselho dos servidores da ciência médica, por um lado, o emprego de processos para privarem a mulher da possibilidade de conceber começou a espalhar-se, por outro lado, uma prática que não existia outrora nas famílias

 

patriarcais camponesas começa a entrar em uso: a continuação das relações conjugais durante a gravidez e o aleitamento.

Eu considero isso um mal. É um mal o emprego dos processos anticoncepcionais; primeiro porque liberta as pessoas dos cuidados e dos sofrimentos que dão os filhos e eram um resgate do amor carnal; segundo, porque é qualquer coisa muito próxima do acto que mais repugna à consciência humana, o assassínio. A incontinência durante a gravidez e o aleitamento é reprovável porque atinge a mulher nas suas forças físicas e sobretudo morais.

A conclusão que daqui resulta é de que se não deve fazer isto. E para não o fazer é necessário compreender que a continência, condição essencial da dignidade humana fora do casamento, é ainda mais necessária no matrimónio.

Este é o terceiro ponto.

Quarto ponto: na nossa sociedade, em que os filhos são considerados, tanto como um obstáculo à felicidade, tanto como um perigo desastroso ou como uma felicidade quando se lhes determina o número de antemão, os filhos são criados não no sentido das tarefas da vida humana que os espera como seres inteligentes e amáveis mas somente no sentido dos prazeres que eles podem proporcionar aos pais.

Por consequência, os filhos dos homens são criados como animaizinhos e o principal cuidado dos pais não é prepará-los para as actividades dignas dos homens mas (e nisto os pais são sustentados pela falsa ciência a que se chama medicina) de os fartar o mais possível, de fazer deles homens de boa estatura, musculosos, brancos, gordos e bonitos (se não se faz o mesmo nas classes inferiores é unicamente porque a necessidade se opõe, mas o critério é o mesmo). É entre as crianças molengas como entre os animais superalimentados, manifesta-se cedo e anormalmente uma sensualidade invencível que lhes causa tormentos horríveis na adolescência. Os enfeites, as leituras, os espectáculos, a música, as danças, as guloseimas, todo o cenário da vida, desde os bonecos das caixas de bombons até aos romances, novelas e poemas, incitam e exaltam ainda mais a sensualidade; em consequência disto surgem as mais tremendas depravações e as doenças sexuais tornam-se o elemento habitual no crescimento das crianças dos dois sexos e permanecem, muitas vezes, até na idade adulta.

Eu considero isto um mal. A conclusão que se pode tirar é que é necessário deixar de educar os filhos dos homens como os filhos dos animais e para educar os filhos dos homens devem fixar-se outras regras que não

 

sejam as de criar corpos bonitos e amimados.

É o quarto ponto.

Quinto ponto: na nossa sociedade em que a paixão entre um rapaz e uma rapariga, cuja base é o amor carnal, é considerada no plano de um resultado nobre e poético das aspirações dos seres (toda a arte e a poesia da nossa sociedade são disso testemunhos) os jovens consagram-lhe grande parte da vida: os homens a procurar o objecto mais digno do seu amor e tomar posse dele ou sob a forma de uma ligação ou de um casamento; as mulheres e as raparigas a seduzir e a atrair os homens para uma ligação ou para o casamento.

Deste modo, as melhores forças dos indivíduos são empregadas numa tarefa não somente improdutiva, mas aborrecida. Daí provém a maior parte do luxo insensato da nossa vida quotidiana, daí a ociosidade dos homens, o impudor das mulheres que não hesitam em expor, com a ajuda das modas provenientes de mulheres notoriamente depravadas, as partes do corpo mais provocantes para os sentidos.

Ora eu considero isto um mal.

E mal porque a procura da união, no casamento ou fora do casamento, com o objecto amado, qualquer que seja a maneira como o poetizem é um fim indigno do homem, da mesma maneira que é indigno do homem andar à procura (embora seja para muitos o maior bem) de uma alimentação saborosa e abundante. A conclusão que devemos tirar é de que o amor carnal nada tem de particularmente nobre e que a finalidade superior do homem, quer seja o serviço da humanidade, da pátria, da ciência, da arte (não falando no serviço de Deus) não se atinge através da união com o objecto amado, no casamento ou fora dele. Pelo contrário, o amor, a união com o objecto amado — é debalde que se procura demonstrar o contrário, seja em prosa, seja em verso — não facilita o alcance desse fim, antes o dificulta.

É este o quinto ponto.

Resumindo era isto o que eu queria dizer e julgara mesmo tê-lo dito na minha narrativa. Supunha que o mal que a minha tese denuncia faria reflectir no meio de remediar mal tão profundo.

É impossível rebater os argumentos que apresentei, primeiro porque estão em acordo perfeito com o progresso da humanidade que tende para a castidade, com a consciência moral da sociedade, com a nossa consciência pessoal que condenou sempre a incontinência e apreciou a pureza; segundo porque os argumentos apresentados são a consequência inevitável dos

 

ensinamentos do Evangelho que praticamos, ou pelo menos, reconhecemos, por vezes inconscientemente, como fundamento da nossa concepção moral. Ninguém, certamente, contesta os argumentos que condenam o desregramento, antes e depois do casamento, nem os de que se não deve impedir a concepção; nem que os filhos não devem ser motivo de divertimento, nem que se deve colocar acima de tudo a união carnal; ninguém negará que a castidade é preferível à libertinagem.

Argumenta-se: se o celibato é um estado mais perfeito do que o casamento, evidentemente devemos praticar o que é melhor, mas nesse caso desaparecerá o género humano. Ora, o ideal do género humano não deve ser o seu aniquilamento.

O aniquilamento do género humano não é uma concepção nova. É um dogma para os crentes. É uma dedução inevitável das observações para os cientistas. Há nesta objecção um grande mal-entendido (que não é de hoje e está muito espalhado).

Se os homens atingem o ideal da perfeita castidade aniquilam-se, logo o ideal é falso. Os que afirmam isto misturam, consciente ou inconscientemente, duas coisas de natureza diferente, a lei (a prescrição) e o ideal.

A castidade não é uma lei, é ideal, ou melhor, uma das condições do ideal. E o ideal só é ideal quando a sua realização não é possível, senão como ideia e pensamento. O ideal só deve ser possível de atingir no infinito e por consequência a possibilidade de aproximação é infinita. Se o ideal se atinge e podemos representar a sua realização deixa de ser ideal. Tal é o ideal de Cristo.

O advento do reino de Deus sobre a Terra, ideal já anunciado pêlos profetas e em que os homens instruídos por Deus transformariam o ferro das espadas em charruas, as lanças em foices, o leão se deitaria ao lado do cordeiro e os homens estariam unidos pelo Amor.

Todo o sentido da vida humana é um movimento que tende para este ideal; no seu conjunto e aspiração para o ideal cristão, e em particular a castidade como uma das condições deste ideal, não exclui a possibilidade da vida mas pelo contrário a ausência deste ideal cristão impede toda a possibilidade da vida.

A hipótese de que o género humano acabaria se os homens tendessem para uma castidade perfeita assemelha-se à de que o género humano poderia acabar se os homens em vez de lutarem pela existência tendessem para

 

realizar perfeitamente a caridade amando o próximo como a si próprio, amigos e inimigos, todos os seres vivos.

Estas afirmações derivam da incompreensão da diferença dos dois aspectos da conduta moral.

Assim como se pode indicar de duas maneiras o caminho ao viajante que o procura, há duas regras de conduta moral para o homem que procura a verdade. Uma consiste em mostrar ao homem objectos que tem de encontrar e ele orienta-se segundo esses objectos. A outra consiste em dar ao homem somente uma direcção indicada pela bússola que o homem traz consigo e em que é marcada a direcção imutável e por consequência ele poderá apreciar os seus próprios desvios.

A primeira regra de conduta moral baseia-se em regras exteriores — determinam-se ao homem actos determinados que ele pode ou não realizar.

— Respeita o sábado — emprega a circuncisão, não bebas bebidas alcoólicas, não mates seres vivos, dá o dinheiro aos pobres, não cometas adultério, faz as tuas abluções, reza cinco vezes por dia, baptiza-te, comunga, etc. Eis os pontos das doutrinas exteriores das religiões, bramânica, budista, muçulmana, hebraica, eclesiástica, abusivamente chamada cristã.

A outra regra mostra ao homem uma perfeição impossível de atingir, à qual ele aspira no fundo de si próprio; indica-se ao homem um ideal e ele pode sempre medir a distância que o separa.

— Ama a Deus com todo o coração, com toda a tua alma, com toda a tua razão, e ao teu próximo como a ti mesmo. Sede perfeitos como vosso Pai Celeste.

É a doutrina de Cristo.

Pode-se verificar a realização das doutrinas exteriores da religião pela concordância dos actos com os pontos destas doutrinas, esta concordância é possível.

Pode-se verificar a realização da doutrina de Cristo pela consciência do grau de afastamento do ideal de perfeição. (O grau de aproximação não é visível; não se apreende senão a distância que nos separa da perfeição.)

O homem, praticando a lei exterior, é um homem de pé à luz de uma lanterna aparafusada num poste. Se ele se mantém na luz desta lanterna vê claro, e não tem necessidade de ir mais longe. O homem que pratica a doutrina de Cristo assemelha-se a um homem que traz uma lanterna diante dele ao fim de uma vara mais ou menos comprida; a luz está sempre diante

 

dele, incita-o continuamente a continuar o seu caminho e revela-lhe a todos os momentos um espaço novo que ela ilumina.

O fariseu dá graças a Deus porque cumpriu todos os seus deveres.

O rapaz rico também cumpriu todos os deveres desde a infância e não vê o que pode faltar-lhe. Eles não podem pensar de outra maneira e não há mais nada a que possam aspirar. Pagam o dízimo, observam o sábado, respeitam os pais, não cometem adultério, nem roubo, nem assassínio. Que mais é preciso?

Mas para o que pratica a doutrina cristã, o acesso a cada grau da perfeição faz nascer a necessidade de subir ao grau seguinte de onde se descobre um outro, ainda mais elevado. O que pratica a lei de Cristo está perpetuamente na situação do publicano. Ele sente-se sempre imperfeito; não vê o caminho percorrido, mas vê sempre o caminho que ainda lhe é necessário percorrer.

E aqui que se encontra a diferença entre a doutrina de Cristo e todas as outras doutrinas religiosas; esta diferença reside não nas exigências mas na maneira de dirigir os homens. Cristo não deu nenhuma regra de vida; ele nem mesmo instituiu o matrimónio — mas as pessoas que não compreendem a singularidade da doutrina de Cristo, habituadas às doutrinas exteriores e desejosas de se sentirem justas da mesma maneira que o fariseu se sente justo — contrariamente a todo o espírito da doutrina de Cristo —, tomaram os seus ensinamentos à letra e fizeram um conjunto de regras exteriores, chamado doutrina cristã da Igreja e que substitui a verdadeira doutrina de ideal de Cristo.

Este ensino da Igreja que se baptiza cristã instituiu no lugar do ensino do ideal em tudo o que concerne às regras exteriores contrárias ao espírito da doutrina — isto no que diz respeito ao poder da justiça, do exército, da Igreja, do culto e também no que diz respeito ao casamento; se bem que Cristo nunca tenha instituído o matrimónio, mas, se se procuram as regras exteriores, tenha antes negado (deixa a tua mulher e segue-me), o ensino da Igreja que se baptiza cristã, instituiu o casamento como base da vida cristã — dizendo de outro modo, fixou as condições exteriores, graças às quais o amor carnal pode parecer ao cristão perfeitamente inocente e legítimo. Mas como na verdade a doutrina cristã não tem nenhuma base para a instituição do casamento, resulta que as pessoas do mundo deixaram uma margem sem abordar à outra: eles não crêem no fundo nas disposições da Igreja que dizem respeito ao casamento, porque sentem que esta instituição não tem fundamento na doutrina cristã e ao mesmo tempo perdem de vista o ideal de

 

Cristo, escondido pelo ensino da Igreja, a aspiração para uma castidade absoluta, e ficam quanto ao casamento sem nenhuma direcção. Daí vem este fenómeno que a princípio pareceu estranho: entre os judeus, os maometanos, os lamaístas e outros que professam doutrinas religiosas de um nível muito mais baixo que o cristianismo, mas que têm regras exteriores do casamento precisas, o princípio filial e a fidelidade conjugal são incomparavelmente mais firmes que entre os nossos pretensos cristãos.

Eles praticam uma concubinagem, uma poligamia regulamentada, fechada dentro de certos limites. Enquanto entre nós, a desvergonha absoluta, a concubinagem, a poligamia e a poliandria, escapando a todas as regras, revestem o aspecto de uma monogamia imaginária.

Unicamente porque, para uma certa classe o clero celebra, por dinheiro, uma determinada cerimónia chamada matrimónio cristão. As pessoas do mundo então, inocente ou hipocritamente, imaginam que vivem na monogamia.

Não houve nunca nem pode haver matrimónio cristão como não há nem nunca poderia haver culto cristão, nem professores ou padres cristãos, nem propriedade cristã, nem exército, nem justiça ou estados cristãos. Isto foi sempre compreendido pêlos verdadeiros cristãos dos primeiros séculos e dos séculos seguintes.

O ideal cristão é o amor de Deus e do próximo, é a renúncia a si próprio para servir Deus e o próximo; o amor carnal, o matrimónio, não é serviço senão de si próprio e assim ele é em todos os casos um obstáculo ao serviço de Deus e os homens, por consequência, sob o ponto de vista cristão estão em pecado. O facto de se contrair matrimónio não é prestar serviço a Deus nem mesmo no caso em que os contratantes têm como fim a propagação da espécie. Em vez dessa gente contrair matrimónio a fim de procriarem vidas infantis seria muito mais simples sustentar e salvar milhares de crianças que morrem à nossa volta à míngua de alimentos — já não digo de alimento espiritual, mas material.

Um cristão não deveria contrair matrimónio sem a consciência de pecado senão no caso em que ele visse e soubesse que a vida de todas as crianças que existem está assegurada. Pode-se não aceitar a doutrina de Cristo, doutrina que impregna toda a nossa vida e sobre a qual assenta toda a moral; mas se se aceita não se pode negar que ela nos indica um ideal de perfeita castidade.

Diz-se claramente no Evangelho e sem nenhuma possibilidade de outra interpretação, primeiramente, que um homem casado não pode

 

repudiar a sua mulher para tomar outra mas deve viver com aquela à qual se uniu uma vez — segundo, que é pecado geral, e então tanto para o homem casado como para o que o não é, considerar a mulher como um objecto de prazer; terceiro, que um homem não casado, melhor é não casar, quer dizer, deve guardar castidade.

Para um grande número estas ideias parecem estranhas e contraditórias. Elas são realmente contraditórias mas não entre si; elas contradizem toda a nossa vida, de tal modo que se levanta involuntariamente uma dúvida: quem tem razão? Estas ideias ou a vida de milhões de seres, compreendendo a minha? Eu próprio tenho experimentado este sentimento no mais alto ponto quando cheguei às convicções a que cheguei e exponho nesta narrativa — nunca pensei que o desenvolvimento dos meus pensamentos me levasse até aqui. Tive medo perante as minhas conclusões e tentei não lhes juntar fé, mas era impossível. Estas conclusões contradizem toda a ordem da nossa vida, contradizem o que pensei e expus outrora, mas devo aceitá-las. Não são senão considerações gerais, são talvez justas, mas reportam-se à doutrina de Cristo e não obrigam senão aqueles que a professam; a vida é a vida e não se pode, depois de se ter mostrado o ideal inacessível de Cristo, abandonar os povos no seio de um dos problemas mais intensos, os mais gerais e os mais geradores de catástrofes, só com este ideal, sem nenhuma espécie de direcção.

Um rapaz apaixonado será, a princípio, guiado por este ideal, mas não perseverará; desligar-se-á dele, e sem conhecer, nem reconhecer outra regra, cairá no deboche.

Assim se raciocina ordinariamente:

«O ideal de Cristo é inacessível, portanto, não pode seguir-nos de guia na vida; pode-se falar dele e sonhá-lo mas não aplicá-lo à vida, portanto, é preciso abandoná-lo. O que nos é preciso não é um ideal, é uma regra, uma conduta correspondente às nossas forças, ao nível médio das forças morais da nossa sociedade: o matrimónio honesto da Igreja, ou mesmo o casamento não completamente honesto, no qual um dos contratantes, entre nós o homem, se uniu já a muitas mulheres, ou mesmo o casamento com possibilidade de divórcio, ou mesmo o casamento civil, ou mesmo (se vamos por este caminho) o matrimónio japonês a prazo... e porque não então as casas de tolerância? Diz-se que vale mais do que a aliciação na rua. É justamente essa a desgraça: quando se pode baixar um ideal ao nível da sua própria fraqueza, não se pode achar o limite onde devemos parar.»

Este raciocínio é falso desde o princípio; antes de mais nada é falso

 

dizer que um ideal de perfeição absoluta não pode ser guia na vida e que devemos contemplando-o, ou renunciar a esse ideal, dizendo que nos não serve para nada porque não conseguimos atingi-lo, ou então baixá-lo até ao nível em que se mantém a nossa fraqueza. Raciocinar assim é agir como um navegador que dissesse: Como não posso seguir a direcção que me indica a bússola, vou deitá-la fora ou vou deixar de me guiar por ela, quer dizer abandonarei o meu ideal; ou melhor, ligarei a agulha da bússola ao lugar que corresponderá à marcha do navio, num movimento dado e assim baixarei o meu ideal ao nível da minha fraqueza.

O ideal de perfeição dado por Cristo, não é um sonho, nem assunto de discurso retórico, é guia necessário e acessível a todos da vida moral dos homens, da mesma maneira que a bússola é um guia necessário e acessível da navegação; somente o que é necessário é acreditar tanto num como noutro.

Em qualquer situação que se encontre um homem encontrará sempre na doutrina cristã as directivas mais seguras quanto aos actos que lhe convém ou não realizar — mas é preciso acreditar completamente nesses ensinamentos, deixar de acreditar nos ensinamentos de outras doutrinas, da mesma maneira que o navegador deve acreditar na bússola, e cessar de examinar o que vê ao lado dele. É necessário sabermo-nos guiar com o auxílio da doutrina cristã como com o auxílio da bússola e para isto é preciso antes de mais nada compreender a sua situação e não temer de determinar com precisão a distância que nos separa da direcção ideal dada. Em qualquer nível que se encontre um homem, há sempre para ele uma possibilidade de se aproximar deste ideal — e não pode haver para ele situação em que possa dizer que atingiu o ideal e não possa aspirar a aproximar-se cada vez mais. Tal é a tendência do homem para o ideal cristão em geral e para a castidade em particular.

Se considerarmos, no que diz respeito ao problema sexual, as mais diferentes situações (desde a infância até ao casamento), nas quais não se observa a continência, em cada passo, entre estas duas posições, a doutrina de Cristo e o ideal que nela se expõe servirá sempre de guia claro e preciso para o que o homem deve ou não deve fazer em cada um desses passos.

Como devem proceder um adolescente e uma rapariga pura? Evitar as tentações a fim de poder consagrar-se completamente ao serviço de Deus e dos homens, e tender para uma pureza cada vez maior em pensamento e desejo.

Que devem fazer um adolescente e uma rapariga que sucumbiram às

 

tentações, absorvidos pelo pensamento de um amor sem objecto, ou de um amor por um ser determinado, e tendo perdido, de facto uma parte da faculdade de servir a Deus e aos homens? A mesma coisa: não renovar a queda sabendo que «deixar ir», longe de os libertar da tentação, não faz mais do que reforçá-la, e tender sempre da mesma maneira para uma pureza cada vez maior a fim de poder servir plenamente Deus e os homens.

Que devem fazer os que se deixaram vencer nesta luta e que caíram? Considerar a sua queda não como uma alegria legítima, como se faz agora quando essa queda é absolvida pelo rito do casamento, nem como prazer acidental que se pode repetir como outros, nem como uma desgraça quando a queda se consumou com um ser que não é nosso igual e sem rito, mas considerar esta primeira queda como a única, como a conclusão de um casamento indissolúvel. O facto de contrair casamento acarretando uma consequência: a concepção de filhos, determina para os esposos uma nova forma mais limitada do serviço de Deus e dos homens. Antes do casamento, o homem, directamente, sob as formas mais variadas, podia servir a Deus e aos homens; o facto de contrair casamento reduz o seu raio de acção e obriga-o a criar e a educar a sua descendência, composta de futuros servidores de Deus e dos homens.

Que devem fazer um homem e uma mulher que vivam no casamento, e completam este serviço limitado de Deus e dos homens, através da educação e da instrução dos filhos que derivam da sua posição?

A mesma coisa: aspirar em conjunto a libertar-se das tentações, a purificar-se, a abster-se de pecar, a substituir as relações conjugais, que se opõem ao serviço geral e particular de Deus e dos homens; substituir o amor carnal pelas relações puras de um homem e de uma irmã.

É por isso que é falso dizer que não podemos guiar-nos segundo o ideal de Cristo porque é demasiado elevado, demasiado perfeito e inacessível; se não nos podemos guiar segundo o ideal de Cristo, é unicamente porque mentimos a nós próprios e nos procuramos enganar.

Com efeito, quando dizemos que temos necessidade de regras mais praticáveis que o ideal de Cristo e que de outro modo, porque não podemos atingir esse ideal, caímos no deboche, não dizemos que o ideal de Cristo é demasiado elevado para nós mas somente que não acreditamos na nossa vontade de conformar os nossos actos com os seus ensinamentos.

Dizendo que uma vez caídos, tornaremos a cair no deboche, dizemos somente que antecipadamente, tínhamos já decidido que a queda com uma inferior não é um pecado, mas um divertimento, um arrebatamento que não

 

somos obrigados a reparar por aquilo a que chamamos casamento. Em contrapartida, se compreendêssemos que a queda é um pecado que deve ser resgatado e não pode sê-lo senão pela indissolubilidade do casamento e por toda a actividade que ressalta da educação dos filhos nascidos desse casamento, da queda não poderia jamais resultar a recaída no deboche. É exactamente como se um cultivador recusasse o nome de sementeira às sementeiras que não tivessem resultado e não chamasse verdadeiras sementeiras, depois de semear várias terras, senão às que tivessem germinado.

Visivelmente este homem malbarataria muitas terras e sementeiras e nunca aprenderia a semear.

Fazei da castidade um ideal, considerai que toda a queda de quem quer que seja, com quem quer que seja, é um casamento único e indissolúvel para toda a vida e será evidente que a linha de conduta que nos deu Cristo é não só suficiente mas a única possível.

O homem é fraco, é preciso dar-lhe uma tarefa segundo as suas forças, diz o povo. Isto quer exactamente dizer: os meus braços são fracos e não posso seguir a linha que deveria ser direita — isto é, a mais curta distância de um ponto a outro; contudo, para me consolar, desejando seguir essa linha directa, vou tomar como modelo uma linha curva ou quebrada. Quanto mais fraco é o braço, maior é a necessidade de um modelo perfeito.

Desde que uma vez se compreendeu a doutrina cristã do ideal, não se pode proceder como se a desconhecêssemos e substituí-la por regras exteriores. A doutrina cristã do ideal foi revelada à humanidade precisamente porque pode dirigi-la na idade que ela agora atingiu. A humanidade ultrapassou o período das regras religiosas exteriores mas ninguém acredita nisso. A doutrina cristã do ideal é a única doutrina capaz de conduzir a humanidade. Não se pode, não se deve substituir o ideal de Cristo por regras exteriores, é preciso, ao contrário, manter firmemente este ideal diante de si, em toda a sua pureza e sobretudo acreditar. A um homem que navegue perto da margem poder-se-ia dizer: orienta-te por esta iminência, por este cabo, por esta torre, etc. Mas chega o momento em que o navegador se afasta da margem, onde só os astros são acessíveis e a bússola que lhe indica a direcção devem e podem servir-lhe de guia.

São-nos dados um e outro.

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