I
Estávamos no princípio da Primavera. Havia dois longos dias, e uma não menos longa noite que viajávamos de comboio.
Em todas as estações, passageiros entravam ou saíam do nosso compartimento. Por fim ficaram só três viajantes: uma senhora de meia-idade, feições envelhecidas e feia, de cigarro na boca, gorro na cabeça, e um casacão de corte masculino; um amigo alegre que aparentava quarenta anos, com bagagens novas e elegantes; e, afastado de todos, um homem baixo, de movimentos nervosos; não era velho e os cabelos embranquecidos antes de tempo, ainda se conservavam ondulados. Tinha uns olhos brilhantes e de extrema mobilidade. Vestia um casaco coçado, com gola de cordeiro e com a marca de um bom alfaiate; na cabeça, gorro alto da mesma pele. Sob o casaco, quando o desabotoava, via-se colete comprido e blusa russa bordada.
Tinha ainda outra particularidade. De vez em quando, soltava sons estranhos que se assemelhavam a um soluço ou a um riso abafado.
Durante toda a viagem não dirigiu a palavra a qualquer dos passageiros. Lia, fumava, ou olhava pela janela; bebia chá, comia pão com manteiga que tirava de um saco velho de couro.
Se lhe dirigiam a palavra, as respostas eram breves e secas e o seu olhar ia perder-se na paisagem fugidia. Notei, contudo, que a solidão lhe pesava. Tentei, por várias vezes, falar-lhe.
Parecia adivinhar o meu pensamento, e quando os nossos olhares se encontravam — o que era frequente, pois ocupávamos lugares fronteiros — desviava o olhar e enfronhava-se na leitura. Ao cair da noite o comboio parou numa estação importante. O senhor de cabelos brancos desceu para ir buscar água a ferver e fazer chá novo.
O homem das malas novas e elegantes — um advogado — desceu com a sua companheira para ir ao bufete tomar uma chávena de chá.
Novos passageiros subiram, um velho alto com a barba feita de fresco e a fronte sulcada de rugas, um negociante sem dúvida — envolto numa pelica de lontra, a cabeça coberta por um boné de grande pala. Sentou-se no lugar em frente da companheira do advogado e entabulou imediatamente conversa com um rapaz novo, tipo de caixeiro-viajante, que entrara na mesma carruagem e na mesma estação.
Eu estava perto deles e com o comboio parado pude ouvir alguns
trechos da conversa... Falaram da viagem, do comércio, de uma pessoa que ambos conheciam e, por último, de Nijni-Novgorod.
O caixeiro quis contar o casamento de um negociante conhecido de ambos, mas o velho interrompeu-o para descrever as pândegas em que outrora tomara parte em Kounavino. Evocava essas recordações com certo desvanecimento, persuadido de que essas histórias em nada prejudicavam nem o seu brio nem a sua dignidade. Orgulhoso dessas façanhas contava, como um dia, em Kounavino, estando embriagado, se entregara a tal orgia, que só ao ouvido podia ser contada. O caixeiro, ao ouvir a confidência, riu desabaladamente e, o velho, ria também, mostrando dois dentes amarelados.
A conversa não tinha interesse para mim. Desci para desentorpecer as pernas enquanto não dava o sinal da partida.
Na gare encontrei o advogado e a sua companheira, conversando animadamente.
— Não se demore — disse ele —, o comboio vai partir. Efectivamente, mal eu atingira a cauda do comboio, deram o segundo sinal.
Quando subi para a carruagem, o advogado e a sua cliente prosseguiam a conversa animadíssimos. O velho negociante sentado em frente deles não dizia uma palavra, olhando-os com ar severo e desdenhoso. Quando eu passava, o advogado dizia, sorrindo:
— Ela então declarou ao marido que não podia, nem queria, continuar a viver com ele, tendo-se dado o caso...
Não ouvi o resto. Passava o revisor e entravam mais passageiros. Restabelecido o silêncio, ouvi novamente a voz do advogado, e pareceu-me que a conversa se desviara, de um caso particular, para considerações gerais.
O advogado observava que, a questão do divórcio interessava hoje toda a Europa e que na Rússia, os casos eram cada vez mais frequentes. Sorriu ao notar que era o único a falar e, voltando-se para o comerciante, perguntou-lhe:
— Era questão que não existia nos bons tempos de outrora, não é verdade?
O comboio pôs-se em movimento. Sem responder, o velho descobriu-se, persignou-se, murmurou uma oração em voz baixa, enterrou o boné até às orelhas e disse:
— Existia... mas menos. Hoje não pode ser de outro modo. As pessoas instruem-se de mais.
O advogado replicou. Mas o barulho do comboio, que aumentava de velocidade, impediu-me de perceber. Aproximei-me cheio de curiosidade para ouvir a resposta do velho. A conversa parecia interessar também o meu vizinho — o senhor de olhos brilhantes — que prestava toda a atenção, embora não abandonasse o seu lugar.
— Que culpa tem a instrução? — perguntou a senhora, esboçando um sorriso. — Era melhor o casamento quando os noivos mal se conheciam? — continuou ela, respondendo: — hábito frequente entre as mulheres — não aos argumentos apresentados mas àqueles que podiam ter sido.
— Amavam-se? Poder-se-iam amar? Não o sabiam. A mulher desposava o primeiro que aparecia e habilitava-se, assim, a uma vida de tormento. Isto era preferível? — concluiu, dirigindo-se, mais ao advogado e a mim, do que ao velho com quem principiara a discussão.
— Nos nossos dias há demasiada instrução — repetiu o velho, respondendo à pergunta e olhando desdenhosamente.
— Gostava de ouvi-lo explicar a ligação entre a instrução e as desavenças conjugais — disse o advogado, disfarçando um sorriso.
O comerciante ia responder, mas a senhora interrompeu-o:
— Esse tempo acabou.
— Permita que este senhor exponha as suas ideias — disse o advogado.
— Todas as tolices vêm da instrução — disse o velho em tom categórico.
— Como podem entender-se pessoas que se não amam? — apressou-se a perguntar a senhora, olhando para o advogado, depois para mim e para o caixeiro que, de pé, encostado ao banco, seguia, sorridente, a discussão.
— Só os animais se podem acasalar, segundo a vontade do dono; os homens têm as suas inclinações, as suas simpatias — disse ela com a intenção de ferir o negociante.
— É um erro, minha senhora — disse o velho. — O animal é um animal; ao homem foi dada uma lei.
— Mas como pode o homem viver sem amor? — replicou a senhora, convencida que emitia ideias originais.
— Modernismos — teimou o velho. — Outrora não se pensava em tal.
Hoje, à mais leve questão, a mulher moderna declara ao homem que o deixa; e até as camponesas atiram com as camisas e as peúgas ao marido para se lançarem nos braços de outro homem, por ter o cabelo mais frisado... De que servem palavras? O dever da mulher é respeitar o marido, o único sentimento que a mulher deve sentir é o temor.
O caixeiro olhou para o advogado, para a senhora e para mim, reprimindo um sorriso, pronto a ridicularizar ou a aplaudir as palavras do comerciante, segundo a nossa atitude.
— Mas que temor? — perguntou a senhora.
— Eu explico... «As mulheres estejam sujeitas a seus maridos».
— Meu caro senhor, esse tempo já Ia vai...
— Não tanto como parece, minha senhora. Eva, a primeira mulher, nasceu de uma costela do homem e assim permanecerá até ao fim do mundo.
Disse isto, sacudindo a cabeça, num gesto tão triunfante e tão severo que o caixeiro lhe concedeu os louros da vitória, fazendo ouvir uma sonora gargalhada.
— Eis a maneira de os homens julgarem — disse a mulher, não querendo dar-se por vencida. — Querem a liberdade para si e a escravidão para a mulher. Aos homens tudo é permitido, não é assim?...
— O homem é outro caso...
— É essa a sua opinião?...
— Ao homem tudo é permitido?...
— Ninguém diz tal. O mau comportamento do homem não atinge a família. A mulher é frágil como o vidro — continuou ele. O calor das suas palavras convenceu os que o ouviam; mas a senhora não se deu por vencida e continuou: — No entanto a mulher é pessoa humana, tem sentimentos como o homem. Que há-de fazer, se não amar o marido?
— Não amar o marido?... — gritou o velho. — Aprenderá a amá-lo. Não receie...
Esta conclusão imprevista encantou o caixeiro que teve um murmúrio de aprovação.
— Engana-se. Nunca aprenderá. O amor não se impõe.
— E se a mulher enganar o marido? — perguntou o advogado.
— É questão que se não pode pôr — disse o velho. — Esteja-se atento.
— Mas se, apesar de tudo, o facto se der? São coisas que podem acontecer...
— Noutros meios isso pode acontecer; no nosso não — disse o velho. Todos se calaram. O caixeiro parecia agitado; aproximou-se mais e não querendo deixar de tomar parte na conversa disse com o seu eterno sorriso:
— Um dos meus amigos foi vítima de um escândalo bem triste. A mulher, leviana, começou a fazer das suas. O marido era instruído e sério. O primeiro amante da mulher foi o caixeiro-viajante O marido tentou levá-la ao bom caminho, admoestando-a brandamente. Ela não fez caso e desceu o máximo; começou a roubar-lhe dinheiro. Ele bateu-lhe. A situação agravou-se. Entregou-se a um judeu e depois a outros... Que podia ele fazer? Expulsou-a de casa, de uma vez para sempre.
Ela agora corre mundo e ele vive solteiro.
— Era um imbecil — disse o velho. — Se ele tem sabido domá-la desde o princípio ainda hoje a teria em casa. É preciso ter sempre as rédeas altas, em casa, à mulher, na estrada ao cavalo.
Neste momento entrou o revisor para controlar os bilhetes, antes da próxima estação. O velho entregou o seu e continuou:
— Pode crer, as mulheres devem ser refreadas a tempo, de contrário está tudo perdido.
— Isso não impede que se divirta com as raparigas bonitas de Kounavino — disse o advogado, com um sorriso irónico.
— O senhor afasta-se da questão — replicou friamente o comerciante e manteve-se num silêncio absoluto.
Daí a pouco ouviu-se um apito agudo. O comboio parava. O velho ergueu-se, embrulhou-se na pelica, levou a mão ao boné e desceu.
II
Apenas o velho saiu, travou-se animada conversa.
— Um homem do Velho Testamento — disse o caixeiro.
— Um verdadeiro Demostoroi — disse a senhora. — Que ideias atrasadas sobre o casamento!...
— Estamos ainda longe de ter sobre o casamento as ideias do resto da Europa — disse o advogado
— Não é possível fazer compreender a esta gente — interrompeu a senhora — que só o amor consagra o casamento e, que, só o casamento consagrado pelo amor é realmente legítimo.
O caixeiro sorria atento, desejando reter na memória, quanto possível, estas inteligentes opiniões, para as emitir em ocasião oportuna.
No meio da tirada da senhora, atrás de mim, ouviu-se um som semelhante a uma gargalhada ou a um soluço. Quando me voltei vi o meu vizinho, o senhor solitário de cabelos brancos e de olhar brilhante que, aparentemente interessado, se tinha aproximado, durante a discussão, sem que déssemos por isso.
Estava de pé, apoiando as mãos no estofo do banco, visivelmente comovido, a face congestionada e estremecendo-lhe um dos músculos.
— Que amor é esse que consagra o casamento? — perguntou.
— Que amor?... — repetiu a senhora. — O amor conjugal que santifica o casamento. O verdadeiro amor. Se esse amor existe entre o homem e a mulher o casamento é possível.
— Está bem. Mas o que entende por verdadeiro amor? — disse timidamente o senhor de olhar brilhante, com um sorriso contrafeito
— Todo o mundo o sabe! — disse a senhora, declarada-mente desejosa de interromper a conversa.
— Pois eu desconheço tal amor — disse o senhor — e gostava que me explicasse o que entende por verdadeiro amor.
— Como?... É uma coisa bem simples — disse a senhora. E reflectindo um instante acrescentou: — O amor é a predilecção exclusiva de um homem ou de uma mulher pelo indivíduo de sexo diferente.
— Por quanto tempo essa predilecção? Por um mês? Por dois dias? Por meia hora? — perguntou o senhor de cabelos brancos, desatando a rir.
— Quer dizer — interveio o advogado, designando a senhora — que o casamento deve ter origem numa afeição, no amor, se você quiser, e, que, se realmente o amor existe, e somente nesse caso, o casamento tem alguma coisa de sagrado. Compreendi o seu pensamento, minha senhora?
A senhora aprovou com a cabeça este esclarecimento.
— Depois disto... — retomou o advogado, seguindo o curso do seu raciocínio. Mas o primeiro senhor, que tinha agora os olhos brilhantes e se continha com manifesta dificuldade, sem deixar o advogado acabar, começou:
— Eu falo precisamente dessa predilecção de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem entre todos ou todas. Mas pergunto simplesmente: Predilecção por quanto tempo?
— Por quanto tempo? Por muito... por toda a vida... — disse à senhora, sacudindo os ombros.
— Nos romances, talvez. Na vida real, nunca. É muito raro essa preferência durar anos. Na maioria dos casos, dura meses, semanas, dias, ou mesmo horas.
Ele sabia que estas opiniões, evidentemente, espantavam todos e sentia-se satisfeito.
— Não, não é verdade — disseram todos. O próprio caixeiro-viajante teve um gesto de aprovação.
— Eu sei... Os senhores falam do que deveria ser. Eu falo do que realmente é. Todo o homem sente o que os senhores chamam amor, por qualquer mulher bonita.
— É horrível o que o senhor diz. O amor existe, e dura, não só meses, não só anos, mas toda a vida.
— Não. Não é verdade. Mesmo admitindo que um homem prefira uma mulher toda a vida, essa mulher preferirá outro. Foi sempre assim e assim continuará a ser.
Pegou na cigarreira, tirou um cigarro e acendeu-o.
— Mas a reciprocidade existe — disse o advogado.
— Não. É tão impossível como encontrarem-se num vagão cheio de grãos, dois grãos previamente marcados. Amar um homem, ou amar uma mulher toda a vida é teimar que uma vela acesa pode arder eternamente — concluiu ele, aspirando avidamente o fumo do cigarro.
— Mas o senhor refere-se somente ao amor carnal. Não admite o amor nascido da comunhão de um mesmo ideal, de afinidades espirituais? — disse a senhora.
— Afinidades espirituais?... Comunhão de ideal? — repetiu ele,
emitindo o gemido que lhe era peculiar. — Ter o mesmo ideal não é razão para ter o mesmo leito.
— Os factores provam o contrário — disse o advogado. — O casamento existe, não só entre nós, mas na maioria dos povos, e, muitos casais vivem durante muito tempo unidos e felizes.
O senhor de cabelos brancos riu novamente.
— Perdão. O senhor afirmou que o amor é a base do casamento. Eu emito a dúvida da existência de outro amor, que não seja o amor sensual e o senhor dá-me como prova que o casamento existe. Mas esse casamento no nosso tempo não é senão uma impostura.
— Perdão!... — disse o advogado. — Eu disse que houve e há ainda casamentos.
— De acordo. Mas porquê? Porque há ainda pessoas que consideram o casamento como um acto sacramental, um laço perante Deus. Para aqueles que assim pensam, o casamento existe realmente. Mas só para esses.
«Entre nós os homens casam sem considerar o casamento outra coisa que não sejam benefícios materiais ou de ordem sexual; e a ligação tende então ou para a fraude ou para o constrangimento. Quando é fraude é fácil de suportar...
«Então o marido e a mulher procuram fazer acreditar aos outros que vivem em monogamia quando, de facto, vivem na poligamia ou poliandria. É repugnante. Mas quando isto acontece, e dá-se muitas vezes, tomam como obrigação exterior viverem juntos toda a vida, quando desde o segundo mês se odeiam, nesse tremendo inferno que leva muitos ao suicídio, à embriaguez, a fazer desaparecer, e envenenar o companheiro ou a companheira — isto disse o senhor de cabelos brancos apressadamente, sem dar tempo a que ninguém abrisse a boca e entusiasmando-se cada vez mais.
Todos se calaram. Ninguém estava à vontade.
— De facto há momentos de crise na vida conjugal — disse o advogado para interromper uma conversa mais acalorada do que conveniente.
— Você reconheceu-me, pelo que vejo — disse o senhor de cabelos brancos com uma voz delicada e apaziguadora. — Não. Não tenho esse prazer.
— Não deve ser grande o prazer. Eu sou Pozdnychev, que atravessou na sua vida conjugal um desses momentos de crise a que você fez referência;
momento tão crítico que matei a minha mulher — disse ele, fitando rapidamente cada um de nós.
Ninguém encontrou palavras para responder; todos se calaram.
— E o mesmo — disse ele, produzindo aquele som mistura de soluço e de gargalhada. — Perdoem-me, não quero incomodá-los!
— De maneira nenhuma. Esteja a sua vontade!... — disse o advogado sem saber ao certo porque dizia aquele «à vontade».
Mas Pozdnychev virou-se bruscamente e foi de novo sentar-se no seu lugar. O senhor e a senhora começaram a cochichar. Eu estava sentado, ao lado de Pozdnychev e conservava-me calado, sem saber o que havia de dizer.
Havia já pouca luz. Fechei os olhos, fingindo que queria dormir. Chegámos assim à estação seguinte.
Durante a paragem o senhor e a senhora passaram para uma outra carruagem; tinham previamente combinado a mudança com o revisor. O caixeiro instalou-se comodamente e deixou-se dormir...
Quanto a Pozdnychev, não parava de fumar e beber chá, que havia preparado na estação anterior. Quando abri os olhos e olhei para ele, voltou-se subitamente para mim e com um ar ao mesmo tempo resoluto e exasperado perguntou-me:
— Certamente lhe é muito desagradável ficar sentado ao pé de mim, sabendo quem eu sou. Se você quiser, vou-me embora.
— Não se vá embora, pelo amor de Deus!
— Quer então tomar uma chávena de chá? Está muito forte. Serviu-me o chá.
— Eles dizem... Não fazem outra coisa senão mentir — disse ele.
— De que é que está a falar? — perguntei-lhe.
— Sempre da mesma coisa, desse amor de que eles falam e do que ele é na realidade. Tem sono?
— Nenhum.
— Então, se me dá licença, vou contar-lhe como por esse amor eu fui arrastado ao crime.
— Se lhe não custa contar-me a história...
— O que custa é calar-me. Sirva-se de chá. Está talvez muito forte...
Estava realmente muito forte. Parecia tinta de escrever; no entanto, tomei um copo.
Neste momento entrou de novo o revisor. O meu companheiro seguiu-o com um olhar sombrio e só começou a história quando o outro desapareceu.
III
— Contar-lhe-ei a minha história, se, realmente, a você lhe interessa. Repeti-lhe que a desejava ouvir.
Calou-se por momentos. Passou a mão pela cara e começou:
— Antes de me casar eu fazia a vida que fazem todos os rapazes do nosso meio. Era proprietário. Estudava na Universidade. Meu pai era da alta nobreza. Como todos os homens do nosso meio vivia amoralmente, convencido de que vivia como deve viver um homem do nosso meio. Pensava, de mim para mim, que era um rapaz encantador e de uma excelente moralidade. Não era um sedutor, e não tinha hábitos contra a natureza; nem tinha como fim último da minha existência os prazeres da carne — o que acontecia com a maior parte dos rapazes da minha idade.
Procedia com medida e decência, sempre preocupado com a saúde. Evitei relações que pudessem ter consequências sérias, filhos ou grandes afeições. Talvez tivesse havido filhos e mesmo ligações com raparigas desinteressadas e sérias, nunca me interessou sabê-lo; era como se nada tivesse acontecido. E não só achava esse procedimento moral, mas até me sentia orgulhoso dele.
Parou e emitiu aquele som particular que fazia todas as vezes que lhe vinha uma ideia nova.
— É uma das piores infâmias — gritou ele. — O desregramento nunca é físico; nenhuma desordem física é desregramento. O desregramento, o verdadeiro desregramento consiste, precisamente, no facto de nos libertarmos de todas as ligações morais com a mulher com que houve comércio físico. Até então considerava uma alta virtude essa libertação. Lembro-me do terror que senti no dia em que não paguei a uma mulher, verdadeiramente apaixonada por mim e que se me entregou. Só me
tranquilizei quando lhe pude enviar o dinheiro, porque só assim me sentia moralmente desligado dela.
«Não abane a cabeça, como se você fosse da minha opinião — gritou ele, olhando para mim. — Conheço a cantiga. Vós todos, e você também, se não é uma excepção rara, vêem as coisas como eu as via. Perdoe-me, mas o facto é horrível, horrível, horrível!...
— Mas o que é horrível? — perguntei-lhe.
— Este abismo de delírio em que vivemos com as mulheres. Eu não posso falar calmamente; não é pelo que se deu, como disse o outro, mas porque desde que se deu o caso, os meus olhos se abriram e eu vejo com uma luz diferente. Tudo está ao contrário; tudo está ao contrário...
Acendeu um cigarro e com os cotovelos apoiados nos joelhos continuou a falar.
No escuro eu não podia ver-lhe a cara. Ouvia somente a sua voz agradável e convincente misturada ao rodar do comboio.
IV
— Foi só depois do suplício que suportei e, só graças a ele é que compreendi onde estava a raiz do mal. Compreendi o que devia ser e, por conseguinte, vi todo o horror do que era. Dir-lhe-ei como começou o que me havia de levar ao momento crítico da minha vida conjugal.
«Eu tinha dezasseis anos e frequentava o liceu; meu irmão mais velho já era aluno do primeiro ano. Eu não era puro. Tinha sido pervertido pêlos meus colegas, como acontece a todos os rapazes da nossa sociedade.
«Sofria, como sofrem noventa e nove por cento dos nossos rapazes. Andava aterrado; rezava, mas sucumbia. Tinha já o pensamento corrompido mas ainda não transpusera o último passo.
«Foi então que um camarada de meu irmão — bom rapaz —, por ser o pior dos biltres (foi ele que nos ensinou a beber e a jogar) nos persuadiu, depois de nos ter embebedado, a irmos a uma casa de tolerância. Meu irmão conspurcou-se nessa mesma noite. Imitei-o, indiferente; nunca tinha ouvido dizer a ninguém mais velho e respeitável serem infamantes actos, aqueles a que eu assistira. E ninguém talvez ainda hoje seja capaz de o dizer.
«E verdade que há os mandamentos. Mas você sabe como os mandamentos só servem para responder ao pároco no dia dos exames e é assunto considerado, na ordem dos conhecimentos, inferior ao emprego do ut nas conjunções condicionais. Nunca ouvi a nenhuma das pessoas que respeitava, dizer serem actos condenáveis, e, pelo contrário, ouvi a pessoas que eu respeitava, dizer que não podia ser de outro modo.
«Afirmaram-me que, depois, da iniciação os meus sofrimentos se aplacariam. Ouvi defender muitas vezes essa teoria. Lia-a muitas vezes e, os meus colegas, com a sua experiência, asseguravam-mo.
«Os mais velhos diziam que era conveniente para a saúde; e consideravam-nos, até, uma demonstração de virilidade.
«De modo que estes actos tinham muitas atenuantes.
«Perigos de contágio? De modo nenhum. O governo, cheio de solicitude, prevê e vigia o bom funcionamento das casas de tolerância e protege a depravação da juventude. Os próprios médicos acham bem, e afirmam que o desregramento moral é proveitoso para a saúde e, eles próprios, metodizam este desregramento legalizado.
«Há mães que, solícitas, cuidam desta parte da saúde dos filhos.
«E a ciência mesmo manda-os para as casas de tolerância.»
— A ciência? — perguntei eu.
— Quem são os médicos? Sacerdotes da ciência.
«Quem perverte os jovens, afirmando que é necessário para a saúde? Os médicos.
«E logo a seguir curam as doenças consequentes das suas receitas. E tudo isto com uma espantosa seriedade.
— Por que se não hão-de tratar essas doenças?
— Porque a centésima parte do esforço para acabar com as doenças venéreas devia ser empregada no combate ao desregramento moral e, só então, elas desapareceriam totalmente.
«Mas o problema não consiste só nisto.
«O problema reside no facto que me aconteceu a mim, como acontece em nove de dez rapazes, não somente do nosso meio, mas mesmo entre os camponeses, o de se sucumbir ao encanto natural de uma qualquer mulher.
«Sucumbi porque o meio que me rodeava — ao que de facto é uma
queda — consideravam uns uma função legítima, necessária à saúde, outros uma distracção, a mais natural para um rapaz, a mais perdoável, mesmo a mais inocente.
«Não compreendi então que era uma queda; e comecei a entregar-me ao que era meio prazer, meio necessidade. Entreguei-me a este desregramento como comecei a beber e a fumar.
«Houve entretanto na primeira queda qualquer coisa de particular e de tocante. Lembro-me que depois de se ter consumado o acto me senti profundamente triste. Arrasaram-se-me os olhos de lágrimas, ao pensar na profanação da minha inocência, na eterna profanação das minhas relações normais com a mulher. Não era o mesmo homem. Degradara-me. Considerava-me como o fumador de ópio ou como um bêbedo. O fumador de ópio e o bêbedo não são criaturas normais; e o mesmo acontece ao homem que tem ligações com várias mulheres.
«Este homem poderá lutar contra as suas paixões, será em vão. Nunca mais poderá ter relações fraternais, puras, com qualquer rapariga.
«Até pela maneira de olhar se conhece o homem devasso.»
V
— Quando evoco as torpezas que até então cometi, sinto-me horrorizado! E pasmo da troça que faziam de mim, dos meus escrúpulos, os meus companheiros.
«Que juventude!... Oficiais, estudantes universitários, elegantes parisienses!... Quando penso no ar digno — com trinta anos de devassidão e a consciência carregada de milhentos crimes contra as mulheres — que tomamos ao entrar numa sala de baile, muito correctos, bem barbeados e perfumados, as camisas alvas de neve (emblema da pureza), de casaca ou de uniforme! Que ridículo!
«Meditemos um instante no que é, e no que devia ser.
«Quando um desses desgraçados carregados de vícios se aproxima das nossas filhas ou de alguma das nossas irmãs, nós — que sabemos a vida que levam — devíamo-nos aproximar e dizer-lhes ao ouvido:
— «Meu caro amigo, conheço-te, sei como passas as noites e com
quem. O teu lugar não é aqui. Aqui só há raparigas puras. Sai!»
«Eis o que devia ser. Eis o que é. Quando um senhor desta categoria faz a sua aparição numa sala e dança, apertando nos braços uma irmã ou uma filha, rejubilamos, se ele é rico e está bem aparentado.
«Conheço algumas raparigas da primeira sociedade que os pais casaram com verdadeiros estropiados físicos e morais... Que coisa abominável!
«Tempo virá em que todas estas abominações sejam desmascaradas.»
E de novo fez ouvir o som que lhe era peculiar quando lhe ocorriam pensamentos torpes. Voltou a tomar chá. O chá estava horrivelmente forte e não havia água. Sentia-me agitadíssimo. Certamente o chá produzia os mesmos efeitos sobre o nosso homem. A sua agitação ia num crescendo terrível. Mudava a cada instante de atitude; tão depressa tirava o boné, como o enterrava até às orelhas; a sua fisionomia alterava-se estranhamente na penumbra que nos envolvia. A voz tornava-se cada vez mais cantante e expressiva.
— Assim vivi até aos trinta anos, sem contudo perder a ideia de me casar com uma rapariga pura e realizar uma vida conjugal perfeitamente sã e nobre. Nessa ideia comecei a deitar as minhas vistas para rapariga que me conviesse. E embora continuasse a minha vida desregrada, atrevia-me a procurar raparigas dignas de mim. Houve muitas raparigas que eu pus de lado por não as achar perfeitamente puras para presidirem aos destinos do meu lar.
«Por fim encontrei a filha de um proprietário da província de Penza que outrora fora muito rico e estava arruinado.
«Fomos dar um passeio de barco. Era uma noite de luar. Sentei-me a seu lado onde podia admirar a beleza dos seus cabelos caprichosamente ondulados, e as formas harmoniosas modeladas pelo jersey. Naquele momento decidi escolhê-la para companheira do meu lar.
«Pareceu-me naquela noite que ela compreendia tudo o que eu sentia e pensava. Os meus pensamentos eram nesse momento os mais elevados e puros. Contudo, nada de extraordinário se passara; somente o seu jersey lhe moldava particularmente as formas e os cabelos emolduravam-lhe graciosamente o rosto, tornando-a encantadora. Desde esse momento desejei uma aproximação mais íntima.
«É estranha a ilusão de que a beleza é o único bem total!
«Se uma mulher bonita diz coisas estúpidas, escutamo-la e, longe de a acharmos estúpida, consideramo-la um espírito brilhante. Ela não faz nem diz senão disparates, mas nós achamo-la encantadora. E, quando não diz nem faz senão parvoíces, desde que seja bonita, persuadimo-nos de que ela é estupendamente inteligente e de uma estranha moralidade.
«Voltei para casa convencido de que encontrara a perfeição. Profundamente emocionado, decidi que seria esta, a minha mulher.
«No dia seguinte pedia-a em casamento.
«Que confusão!... Em milhares de homens que se casam, no nosso meio e infelizmente entre o povo, encontrar-se-á, talvez, um que seja puro, que não tenha sido um outro D. Juan, antes do casamento.
«Há hoje rapazes, segundo creio, e pelo que ouço dizer e eu próprio tenho observado, para quem o casamento não é uma brincadeira, mas grande obra. Deus os ajude!... No meu tempo, haveria um em dez mil. Todos o sabem, mas fingem ignorá-lo.
«Nos romances descrevem-se com todos os pormenores os sentimentos dos heróis, as suas façanhas, os seus devotamentos às grandes causas, mas nunca se faz referência às acções infamantes cometidas por eles.
«Ao pintarem o amor dos heróis por suas damas, nem de longe se referem às humildes criaturas que serviram de divertimento a essas extraordinárias personagens.
«Os romances que abordam esses assuntos são interditos às raparigas a quem mais interessava dar a conhecer.
«Procura esconder-se das raparigas o cancro social que ocupa metade da vida dos rapazes; depois habituamo-nos de tal modo a uma vida de dissimulação que chegamos, como os Ingleses, a convencermo-nos de que somos todos gente muito de bem e vivemos num mundo moral.
«As raparigas acreditam em tudo isto. A minha desgraçada mulher, como de resto a maior parte das raparigas, acreditava na pureza do sentimento.
«Quando ainda era noivo mostrei-lhe o diário onde ela podia descobrir uma parte da minha vida e, sobretudo, ter conhecimento da minha última ligação, e de que entendi dever falar-lhe para que o não viesse a saber por outros. Lembro-me do seu horror, do seu desespero ao compreender do que se tratava. Tenho a certeza de que, nesse momento, ela teve a intenção de cortar comigo. Por que o não teria feito?...»
Repetiu o soluço estrangulado. Calou-se. Bebeu mais um gole de chá.
VI
— Talvez não... Talvez fosse melhor assim. Recebi o castigo merecido. Mas não é disso que se trata.
«Afirmo que na maioria dos casos, as raparigas são vilmente enganadas. As mães nada ignoram. Fingem acreditar na pureza das intenções dos homens, mas procedem como quem não tem ilusões. Conhecem o anzol com que hão-de engodar os rapazes. Os homens, esses, não vêem, porque não querem ver. As mulheres sabem perfeitamente que o amor, mesmo o mais elevado, o mais, poético — como nós dizemos — depende mais dos dotes físicos do que dos méritos. Perturba mais uma cabeça bem penteada, um vestido de bom corte, modelando bem as formas do que uma frase reveladora de excelsas qualidades morais.
«Pergunte a uma mulher experimentada qual é preferível, passar por mentirosa ou aparecer mal arranjada ao homem que pretende cativar. Ela preferirá a primeira alternativa.
«Sabem perfeitamente que mentimos quando falamos de sentimentos puros. Sabem que só fisicamente as pretendemos. E perdoamos mais facilmente uma vilania do que o ridículo de um vestido de mau gosto.
«As mulheres experimentadas procedem conscientes; as rapariguinhas inocentes fazem-no inconscientemente.
«As mulheres casadas sabem que, por mais atraente que seja a conversa de uma mulher, o que interessa ao homem, quando se aproxima, é tudo o que lhe desperte os sentidos. E por isso, procuram, principalmente, o que possa torná-las mais provocadoras. Não sei quando estes costumes entraram na sociedade, mas parece-me que toda esta sociedade é uma imensa casa de tolerância. Que diz você?... Permita que lho demonstre. Diz que as senhoras da nossa sociedade têm interesses diferentes das mulheres toleradas, eu afirmo o contrário e provo-o.
«Se as pessoas diferem pêlos seus fins, pelo conteúdo interno da sua vida, essa diversidade reflectir-se-á inevitavelmente no exterior, e esse exterior será diferente.
«Comparemos agora essas desgraçadas infelizes de todo o mundo com algumas outras mulheres: as roupas interiores, os gestos, o modo de andar, os braços nus, as espáduas desnudadas, a nudez do peito, o jeito de bambolear o corpo, a paixão das jóias e dos objectos brilhantes, os divertimentos, as danças, a música e as canções, tudo é igual. Umas e outras procuram seduzir. Só há uma diferença, umas são as senhoras bem, outras, as banidas da sociedade.»
VII
— Assim caí na ratoeira dos jersey, dos penteados e enfeites postiços. Era, aliás, fácil de conseguir, porque fui educado nas condições em que se criam e formam os jovens amorosos, como pepinos em viveiros.
«Com efeito, a alimentação excitante e abundante, sem nenhum exercício, são estimulantes sistemáticos do desejo físico. Embora isto lhe cause admiração é assim mesmo. Eu próprio, até há pouco, não via nada disto, mas agora vejo. O que me tortura é que ninguém nota estas anormalidades. E a maior parte diz baboseiras, como há pouco aquela senhora.
«Na Primavera, quando os camponeses trabalhavam perto da minha casa num aterro do caminho-de-ferro, assisti à refeição habitual de um camponês, que é constituída por pão, kuass e alhos; o camponês é vivo, são e realiza o seu trabalho do campo, com facilidade.
«Quando vem para o trabalho no caminho-de-ferro distribuem-lhe todos os dias gruau e uma libra de carne; aumentam-lhe a ração e tornam-lha mais forte; e ele con-some-a, trabalhando dezasseis horas por dia, puxando uma carrinha. É o que é preciso.
«Nós, que absorvemos, cada um, duas libras de carne de veado ou javali e todas as espécies de petiscos picantes e bebidas alcoólicas; onde desgastamos esses alimentos? Em excessos sexuais. Se abrimos a válvula de segurança, tudo vai bem, mas se a fechamos, como eu a fechei várias vezes, produz-se a tal excitação doentia, que, sob a influência da música e dos romances, acaba por apresentar todos os sintomas do amor.
«Apaixonei-me como toda a gente. Conheci as deliciosas emoções, os poéticos enternecimentos, os enlevos que lembram êxtases.
«E, afinal, esta paixão era obra da mãe e da modista, das refeições suculentas e da falta de exercício físico.
«Se não fossem os passeios de barco, os vestidos que modelam as formas e realçam a elegância, nunca me teria apaixonado! Nunca teria caído no laço!»
VIII
— Desta vez o plano teve êxito. O passeio de barco, um vestido elegante e o meu estado de espírito deram resultado. Vinte vezes o plano falhara. Não estou a brincar. Desta vez a ratoeira fora bem armada.
«Hoje prepara-se um casamento como quem prepara uma esparrela.
«É natural que, quando a rapariga chega à idade de casar, seja preciso casá-la, e é fácil, quando não é um monstro e há homens que se encontram na mesma situação.
«Assim se procedia outrora; quando chegava esse momento, os pais casavam as filhas. É isto o que se passava e se continua a passar em toda a humanidade; é o que se passa entre os chineses, os hindus, os maometanos e entre o nosso povo em todo o género humano, numa proporção de noventa e nove por cento.
«Mas a centésima parte, os devassos, não considerámos bem e que era necessário encontrar alguma coisa de novo. E qual foi essa coisa nova?... — Nas salas, nos salões, nos passeios públicos as raparigas sentam-se e os homens passeiam de diante para trás e de trás para diante, fazendo a sua escolha.
«As raparigas esperam e pensam sem ousar dizer: — A mim, meu querido!... Não repares nas outras... Repara em mim... Repara como são belas as minhas espáduas e bem lançado o meu colo...
«Os homens continuam a passar, tornam a passar, despem-nas com os olhos e sentem-se satisfeitos e vão passando e dizendo, às vezes: — A mim não me apanham vocês.
«Sentimo-nos vaidosos por a feira se fazer por nossa causa, mas, sem darmos conta, lá vamos cair na ratoeira que habilidosamente nos foi preparada.»
— Mas como proceder de outro modo?... Deverá ser a mulher a pedir o homem em casamento?
— Verdadeiramente, não sei o que lhes hei-de responder. Mas, se se fala em direitos da mulher, que haja realmente igualdade. Achavam o pedido de casamento humilhante, mas o que se passa é muito pior. A mulher correria os mesmos riscos que o homem. Assim, ou é escrava no mercado, ou isco no anzol.
«Experimente dizer às mães, ou às filhas que estão preparando a rede onde há-de cair o noivo... Meu Deus! Que grave ofensa!...
«Contudo não procedem de outro modo. É horrível saber as raparigas absorvidas sempre por este pensamento. E, se ao menos, as coisas se passassem de uma forma clara e séria!... Mas há qualquer coisa de bruxaria...
«Diz a mãe: Que interessante é o estudo da origem das espécies... — Lisa é uma apaixonada da pintura!... Você vai à exposição? É muito interessante e instrutiva... — A minha Lisa adora a música... Você costuma ir aos concertos.... Têm estado estupendos!... Você não calcula!... Vocês deviam entender-se...
«E é sempre o mesmo pansamento: casa com a minha Lisa...»
— Que abjecção! Que mentira! — concluiu ele. E como tinha acabado de tomar o último gole de chá começou a arrumar as chávenas e tudo de que se servira.
IX
— Você acredite — continuou ele, metendo o chá e o açúcar no saco de couro. — O domínio da mulher que nós sentimos, vem afinal somente de um interesse físico.
— Mas que domínio? — perguntei eu. — Todos os direitos e privilégios estão na posse do homem.
— Justamente — interrompeu ele. — É um facto curioso. Por um lado é perfeitamente justo dizermos que a mulher está numa situação humilhante, por outro que ela é dominadora.
«As mulheres têm a mesma situação que os judeus, que se vingam da opressão em que vivem pelo poder do dinheiro.
«— Vocês querem que não passemos de comerciantes? Pois bem.
Como comerciantes nós vos dominaremos — dizem os judeus.
«— Vocês só nos consideram como objecto de sensualidade? Pois bem, será pela sensualidade que vos dominaremos.
«A ausência de direitos na mulher não está no facto de ela não poder votar ou de não ser juiz (ocuparmo-nos dos nossos interesses não é um direito); está no facto de ela poder ter o direito de escolher e não ser escolhida. Você diz que não é conveniente. Mas então que o homem seja privado dessas regalias. Por agora a mulher está privada desse direito e, como compensação, ela actua sobre a sensualidade do homem, submete-o pêlos sentidos de tal forma que, na realidade, quem escolhe é a mulher. Quando a mulher possui a arte de seduzir, abusa dela e adquire um terrível ascendente.
— Mas como me prova esse poder temível da mulher? Como se manifesta? — perguntei-lhe eu.
— Manifesta-se em tudo e por toda a parte. Visite os grandes armazéns de qualquer cidade, não importa qual. Verá objectos avaliados em milhões, trabalho gigantesco, quase incalculável, só para a mulher.
«Quantos vendem artigos para homens? Dez em cem.
«Todo o luxo da existência é exigido e mantido pela mulher. A maior parte das fábricas produz, na sua grande maioria, ornamentos fúteis...
«Milhões de homens, gerações de escravos, morrem no decorrer desses trabalhos forçados unicamente pelo capricho das mulheres. Elas são como imperatrizes, e têm na escravatura de um trabalho extenuante, nove décimos da humanidade. E tudo isto porque as mulheres vivem em situação humilhante; porque lhe recusamos direitos iguais aos homens. Vingam-se, actuando sobre os nossos sentidos. E todo o problema gira à volta deste tema.
«Desde que um homem se aproxima de uma mulher, deixa-se influenciar pêlos seus sortilégios e torna-se louco.
«Outrora sentia-me sempre mal quando via uma mulher metida no seu vestido de baile. Agora isso inspira-me terror. Vejo, nitidamente, qualquer coisa de perigoso, qualquer coisa de ilegal e tenho vontade de chamar a polícia, de exigir que a levem como um objecto terrível.
«Você ri-se — exclamou ele, olhando para mim. — Não é coisa para rir. Estou convencido de que virá depressa o tempo, mais depressa do que nós supomos e em que todos compreenderão e se espantarão que tenha podido existir uma sociedade em que se tolerem actos tão contrários à
tranquilidade pública e à felicidade das famílias, como é a maneira de expor o corpo das mulheres, tão provocantemente.
«Por toda a parte surgem mulheres hediondamente vestidas, nas praças, nos passeios públicos, nos caminhos, nos bailes, nos concertos e até nas próprias famílias. Verdadeiras emboscadas aos nossos sentidos.
«Por que se proíbem os jogos de azar e se consente que, publicamente, apareçam mulheres seminuas, o que é mil vezes mais imoral?
«Estranho critério!...»
X
— E assim fui apanhado. E assim fiquei enamorado. Não só considerava a minha noiva a mulher mais perfeita, mas eu próprio me considerei, durante o noivado, o mais perfeito dos homens.
«Não há ninguém tão mau que não encontre outro pior. E este pensamento é um manancial de prazer e de orgulho. Era este o meu caso.
«Não casava por dinheiro, como sucedia à maior parte dos meus amigos. Eu era rico, ela era pobre. E outra coisa me envaidecia. Os outros casavam, mas com a intenção de continuarem a viver na poligamia, como antes do casamento. Eu estava absolutamente resolvido a manter-me em monogamia, depois de casado. Era um miserável mas julgava-me um anjo.
«O período de noivado durou pouco. Não posso lembrar esta época sem corar de vergonha.
«Que ignomínia!
«Se o amor é espiritual, só por palavras deve exprimir-se. Mas não é. Quando estávamos juntos era-nos difícil sustentar uma conversa. O assunto esgotara-se. Nada tínhamos para dizer. Tudo, sobre a nossa vida futura, estava dito. Se fôssemos animais sabíamos, de antemão, que não era assunto de conversa. Connosco o caso era diferente. Éramos obrigados a falar e não tínhamos nada para dizer. O assunto que nos interessava não se resolvia com palavras. E havia ainda o terrível costume de oferecer bombons, comer gulodices e tratar dos abjectos preparativos para o novo lar: escolha da casa, do quarto de cama, do leito nupcial e de todas as pequenas coisas da futura vida doméstica.
«Se nos casássemos, segundo os preceitos de Demostoroi, como queria o velho senhor do comboio, os edredons e o enxoval do leito eram pormenores que faziam parte do sacramento. Mas para nós, em que dez pessoas que contraem casamento só uma crê no sacramento, ou pelo menos pensa que é um dever; quando em cem homens há apenas um, que não tenha faltado à castidade e que não esteja na disposição de atraiçoar a mulher legítima; para nós em que a maior parte considera o ir à igreja uma mera formalidade para ter a posse de uma mulher, em particular, que significação podem ter os preparativos pré-nupciais?
«É uma espécie de mercado. Vende-se uma filha a um devasso mas a venda faz-se sob as mais puras e poéticas aparências.»
XI
— Casei-me como qualquer pessoa e começou a tão desejada lua-de-mel. Como é reles esta expressão! — disse entredentes. — Um dia em Paris fui assistir a todos os espectáculos e entrei, também, levado por um excitante anúncio, a ver uma mulher com barbas e um cão aquático; a mulher era um homem com um vestido decotado e o cão estava metido na pele de uma foca e nadava numa banheira, cheia de água; à primeira vista isto nada tem de comum com a lua-de-mel e nada tem de interessante. Quando saí, porém, o homem que fazia a arenga acompanhou-me amavelmente e dirigindo-se ao público, mesmo à entrada disse, apontando para mim:
«— Perguntem a este senhor se não vale a pena ver tão estupendo espectáculo! Entrai! Entrai! É um escudo por pessoa!»
« Não ousei desmenti-lo, claro, e o charlatão tinha a certeza disso. É isto o que provavelmente acontece aos que experimentaram a abominação da lua-de-mel e não têm coragem para desfazer as ilusões dos outros e as suas próprias ilusões.
«Mas eu não desenganei ninguém. Hoje, no entanto, não vejo razão para que não os desengane. Julgo mesmo que é necessário dizer toda a verdade sobre o assunto. A lua-de-mel, como se pratica, é uma coisa terrível, abjecta, insuportável de tédio e cansaço. É, mais ou memos, o que acontece quando se principia a fumar; vontade de vomitar, náuseas, e vai-se engolindo a saliva para fingir que se tem um grande prazer. O cigarro, como o
casamento, só provoca prazer depois do hábito, quer dizer, depois da adaptação dos casados.
«É necessário que os esposos saibam regular o vício para que desses actos lhe venham compensações.»
— Regular o vício?... — perguntei eu. — Que vício? Você esquece-se de que é uma das manifestações mais naturais da espécie humana.
— Natural? — exclamou ele. — Natural? Não, pelo contrário. Cheguei à conclusão de que não é um acto natural. Não é, de nenhum modo, natural. Tive uma irmã que se casou muito nova com um homem dez vezes mais velho do que ela, um devasso. Lembro-me do nosso espanto quando na noite do casamento fugiu de casa e, toda a tremer, nos disse que por nada no mundo... por nada do mundo... nos podia dizer o que ele pretendia dela.
«Você diz que é uma coisa natural!... Natural é comer. Comer é uma coisa agradável, fácil e alegre; não inspira vergonha nem mesmo no princípio. Mas isto é uma coisa abjecta, vergonhosa e dolorosa. Não. Não é uma coisa natural. E uma rapariga pura, estou convencido, odiará sempre esse acto.»
— Mas, diga-me... Como se reproduziria o género humano?
— Sim. É verdade. Conquanto que o género humano não acabe! — disse ele com uma cruel ironia e como se esperasse esta réplica habitual e de má-fé.
«Pregar que se devem evitar os filhos para que os lordes ingleses possam comer mais à vontade... é possível.
«Pregar que se abstenham de ter filhos para que a vida seja mais fácil e se possa gozá-la melhor... é possível.
«Mas insinuar que se devem evitar os filhos a bem da moral...
«Meu Deus, que calamidade! Mas irá o género humano desaparecer porque uma dúzia ou vinte homens desejam não viver como porcos?
«Dá-me licença?... A luz incomoda-me, posso apagada?», perguntou ele, apontando para a lâmpada.
— É-me indiferente...
Precipitadamente, como tudo o que fazia, subiu ao banco e apagou a lâmpada.
— De qualquer maneira — disse eu. — Se dessa teoria se fizesse uma lei, o género humano desapareceria. Ele não respondeu imediatamente.
— Você quer saber como se perpetuaria o género humano? — disse ele, instalando-se de novo na minha frente, e abriu as pernas, apoiando os cotovelos sobre os joelhos. — Para quê perpetuar o género humano? Para quê?
— Para quê?... Sem isso deixaríamos de existir.
— E para quê existir?
— Para quê?! Para vivermos...
— Mas viver para quê? Se não se tem um fim na vida, se a vida nos foi dada por si mesma não há razão para vivermos. Se isto é assim os Schopenhauer, ou os Hartman e todos os budistas têm razão. Se há um fim, desde que é atingido, a vida deve cessar. É esta a conclusão a que chegamos», disse ele com manifesta emoção (dava muita importância ao seu pensamento).
«Se o fim da vida é o bem, o amor, como você o entende; se o fim da humanidade é o que dizem as profecias, que todos os homens se unirão pelo amor, e que hão-de forjar-se foices com os ferros das lanças; o que se opõe à realização desse fim? As paixões.
«E de todas as paixões, a mais forte, a mais pérfida, a mais obstinada é a paixão da carne. Por consequência, se suprimirem as paixões, e principalmente a maior de todas, realizar-se-á a profecia; os homens unir-se-ão, o fim da humanidade será atingido e, portanto, não haverá razão para existirmos. Mas enquanto dura a humanidade ela tem de realizar o seu ideal que não é de maneira nenhuma o ideal dos coelhos nem dos porcos que é o de se reproduzirem o mais depressa possível, nem o dos macacos ou dos parisienses que é tirarem o máximo rendimento dos prazeres sexuais. Mas sim o ideal do bem que se atinge pela continência e pela pureza. É para aí que tendem os homens e sempre tenderão.
«Veja o que daqui resulta. Resulta que o amor carnal é uma válvula de segurança. Se a geração dos homens actualmente viva não atinge esse fim é unicamente porque tem paixões e a mais forte de todas, a paixão dos sentidos. Virá então uma geração que talvez cumpra a lei, mas se essa não atingir o fim para que foi criada outra virá até que se realize a profecia, a união de todos os homens. O amor sensual é o sinal do desprezo pela lei. Enquanto esse amor existir ir-se-ão formando gerações umas após outras até que a lei se cumpra.
«A espécie mais elevada dos animais, a espécie humana, devia, para se manter na luta contra os outros animais, assemelhar-se em tudo a um
enxame de abelhas; não se multiplicar até ao infinito. Devia, como as abelhas, criar assexuados, isto é, caminhar para a continência e não para o sensualismo para o qual está organizada a vida moderna.»
Calou-se por momentos.
— O género humano deve desaparecer? De qualquer maneira que encaremos o problema não se pode duvidar. É certo como a morte. Segundo a doutrina da Igreja o mundo terá um fim; segundo os ensinamentos da ciência esse fim é indubitável. Que admira pois que o ensino da moral nos conduza à mesma conclusão?
Esteve calado durante muito tempo, depois bebeu mais um gole de chá, acabou o cigarro, tirou outros do saco e meteu-os na sua velha cigarreira.
— Compreendo o seu pensamento, os Shakers sustentam uma tese, mais ou menos parecida.
— Sim. Eles têm razão. A paixão sexual, qualquer que seja o cenário que a envolva é um mal horrível que é preciso combater e não encorajar como se procede entre nós.
«Quando o Evangelho diz que um homem que olha para uma mulher com cobiça já cometeu com ela adultério no seu coração — tem em vista não só as mulheres dos outros mas expressamente, e sobretudo, a sua própria mulher.»
XII
— Na nossa sociedade é exactamente o contrário; se um homem pensa quando é solteiro que deve ser continente, ao casar entende que tem de deixar de o ser.
«As viagens depois da cerimónia nupcial, o isolamento em que se colocam os recém-casados, com a autorização dos pais, não são outra coisa que a permissão de se entregarem ao prazer.
«Apesar de todos os meus esforços eu não consegui organizar a minha lua-de-mel.
«Esta época da minha vida foi horrorosamente aborrecida e ignominiosa. E muito depressa se tornou intolerável. Começou cedo. No terceiro ou quarto dia pareceu-me que a minha mulher estava triste e,
pensando que ela precisava de carinhos, perguntei-lhe o que tinha e tentei beijá-la; repeliu-me e desatou a chorar. Porquê?... ela não o sabia dizer. Estava triste e mal disposta. Sem dúvida os nervos gastos deixaram-na compreender a verdade sobre a infâmia das nossas relações. Mas ela não o sabia explicar. Como eu continuasse a interrogá-la, confessou-me que sentia muito a falta da mãe. Tive a impressão de que não era verdade. Sem lhe falar na mãe, comecei a chamá-la à razão.
«Eu compreendera que ela atravessava um momento difícil e a razão que me dera era um pretexto.
«Ofendeu-se por lhe não ter falado na mãe e por não a ter acreditado. Confessou-me que percebia, claramente, que eu já não a amava. Censurei-a por ser caprichosa. Então a sua fisionomia alterou-se completamente. Em vez de tristeza exprimia irritação e, em frases mordazes, censurou o meu egoísmo e a minha crueldade. Fitei-a. Não parecia a mesma. A expressão era de hostilidade, quase ódio. Lembro-me que senti pavor ao fazer esta descoberta.
— Como pode isto ser — pensei eu. — O amor é a união das almas.
«Tentei acalmá-la, mas embati num muro tão intransponível de hostilidade e frio amargor que, antes de ter tempo de me vencer, tomou-me uma funda irritação e vomitámos um sobre o outro uma avalanche de palavras desagradáveis.
«A impressão do primeiro desentendimento foi atroz. Chamo a isto desentendimento, mas não foi desentendimento foi a revelação do abismo que, na realidade, nos separava. Era a consequência do amortecimento das nossas relações mais íntimas. Eu não compreendi logo, porque esta hostilidade nos primeiros tempos desvanecia-se com um novo sobressalto dos nossos sentidos.
«Julguei a princípio que estas cenas não recomeçariam. Porém, passada a lua-de-mel houve um novo período de saciedade. Deixámos de precisar um do outro e deu-se uma nova discussão.
«Esta segunda disputa feriu-me mais do que a primeira, porque surgiu sob um pretexto inverosímil; por causa de uma economia de dinheiro que eu era incapaz de fazer para mim e muito menos para a minha mulher.
«Lembro-me dela ter conseguido virar completamente o sentido de uma expressão que eu empregara e servir-se dela como argumento para provar que eu a queria subjugar pela força do meu dinheiro... Foi insuportável, estúpida, reles, indigna dela e de mim.
«Irritei-me. Reprovei-lhe a sua falta de delicadeza. Ela censurou-me
asperamente e tudo recomeçou. Nas palavras pronunciadas e na expressão da sua fisionomia e no seu olhar percebi, de novo, essa mesma hostilidade dos primeiros dias que tanto me ferira.
«Discuti muitas vezes com meu irmão, com os meus amigos, com meu pai, mas, nunca entre nós se manifestou o ressentimento pessoal e venenoso que notei na minha mulher. Mais uma vez ainda este ódio recíproco se atenuou com um novo sobressalto dos sentidos e eu cheguei a ter esperança de que estas discussões eram reparáveis. Mas outros desentendimentos surgiram por tudo e por nada e eu compreendi que não era o acaso, e, era este, para sempre, o inferno que me esperava.
«Além disso estava convencido de que só a mim isto acontecia, ser eu o único a suportar esta dolorosa vida com a minha própria mulher e em todos os outros lares as coisas se passavam de modo diferente.
«Nessa época eu ignorava que é esta a sorte comum da maior parte das famílias, mas todos, como eu, se julgam casos únicos e guardam para si esta desgraçada vergonha. Esta situação começou nos primeiros dias e continuou sempre e, cada vez, com maior intensidade.
«No fundo da minha alma eu compreendi depois das primeiras semanas ter caído na ratoeira: nada do que se passava era o que eu esperava e o casamento não só não dava felicidade mas era qualquer coisa de amargurante. Como toda a gente eu recusava-me a confessá-lo (eu não o confessaria ainda hoje, se não se tivesse dado o trágico desenlace) e guardei dos outros, e até de mim, esta verdade.
«Admiro-me agora de não ter visto, de princípio, a minha verdadeira situação. E eu podia tê-la visto desde essa época, porque as nossas discussões começavam por tais ninharias que quando acabavam era impossível saber por que tinham principiado. Mas se os motivos das discussões eram inverosímeis muito mais inverosímeis eram os motivos da reconciliação. Algumas vezes eram só palavras, explicações e mesmo lágrimas de parte a parte, mas algumas vezes... repugna-me lembrá-lo. As insinuações mais cruéis transformavam-se, de súbito, sem uma palavra, em sorrisos, beijos e profundos enternecimentos.
«Que abominação!... Por que não compreendi então toda a abjecção do nosso procedimento?»
XIII
Entraram dois novos viajantes e instalaram-se num lugar afastado. Ele calou-se, enquanto eles se instalaram, mas logo que cessou o burburinho continuou, dando a impressão de que não perdera o fio do pensamento:
— ... O que é imundo é que, em teoria, se considere o amor como uma coisa ideal, nobre, quando afinal a prática do amor é qualquer coisa de sórdido que nos avilta e nos põe a par dos porcos, coisa abominável e vergonhosa de se falar em frente de quem quer que seja! Mas os homens querem tornar admirável e superior o que não é senão sórdido e reles.
«Quais foram os primeiros sinais do meu amor?... Entregar-me a uma exuberância animal. E não só não tinha vergonha mas blasonava desta minha possibilidade de transportes físicos, sem pensar na vida espiritual nem mesmo na vida física.
«Muitas vezes procurei a razão da nossa profunda animosidade um contra o outro, e contudo era bem compreensível e claro: esta animosidade não era outra coisa do que o protesto da natureza humana contra a animalidade que a abafava. Confrangia-me a nossa aversão; mas não podia ser de outro modo. Esta aversão não era outra coisa do que o ódio recíproco dos cúmplices de um crime... por instigação e por participação. Era um verdadeiro crime.
«Minha mulher concebeu desde o primeiro mês e, apesar disso, a nossa vida em comum continuou, como verdadeiros animais.
«Julga que me estou a afastar do assunto? De maneira nenhuma. Continuo a contar-lhe como matei a minha mulher.
«No tribunal perguntaram-me com que havia morto minha mulher. Cambada de imbecis!... Estavam convencidos de que a havia morto no dia cinco de Outubro, com uma faca. Não foi nesse dia que a matei; foi muito antes. Como eles matam continuamente...»
— Mas, não percebo... Como matam?...
— Eis o que é espantoso; ninguém quer saber o que é evidente e claro, o que devem saber e difundir os médicos e é horrorosamente simples.
«O homem e a mulher foram criados como os animais de tal modo que, depois do amor carnal começa a gestação, depois o aleitamento, estados em que o amor carnal é nocivo à criança e à mulher.