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Leptospirose

Etiologia

A leptospirose é causada por bactérias do gênero Leptospira, que apresentam forma espiralada, pertencentes a família Leptospiraceae, da ordem Spirochaetales. A classificação do gênero Leptospira é objeto de divergência entre os pesquisadores.

Dois tipos de classificação coexistem, dos quais um baseado em determinantes genéticos e outro baseado em determinantes antigênicos. Ambos reconhecem espécies patogênicas e saprofíticas. O grupo classificado com base em determinantes antigênicos é subdividido em diferentes sorovares, de patogenicidade variada tanto para os animais quanto para o homem.

O grupo Leptospira interrogans sensu lato, agrupa oito espécies patogênicas para diversas espécies animais e para o homem: L. interrogans sensu stricto, L. borgpetersenii, L. santarosai, L. inadai, L. noguchii, L. weilii, L. kirshneri, L. fainii.

Nesse grupo são classificados aproximadamente 230 sorovares em 23 sorogrupos. O grupo Leptospira biflexa sensu lato agrupa espécies não patogênicas e saprófitas: L. biflexa, L. meyeri, L. wolbachii, Turneria parva e Leptonema illini.

O gênero Leptospira é bastante sensível à luz solar direta, aos desinfetantes comuns e aos anti-sépticos. O período de sobrevida das linhagens patogênicas na água pode variar segundo a temperatura, o pH, a salinidade e o grau de poluição.

Sua multiplicação é ótima em pH compreendido entre 7,2 a 7,4. Experimentalmente, já foi constatada persistência de leptospiras viáveis na água por até 180 dias. O sorovar icterohaemorrhagiae é inativado em 10 minutos à temperatura de 56o C e, em 10 segundos, à temperatura de 100oC. Sobrevive ao frio e mesmo ao congelamento por aproximadamente 100 dias a -20oC.

Epidemiologia e Transmissão

A transmissão da leptospirose pode ocorrer de forma direta ou indireta. A forma direta ocorre, geralmente, pelo contato com sangue e/ou urina de animais doentes, por transmissão venérea, placentária, feridas por mordedura (pele) ou pela ingestão de tecidos infectados.

Os cães que se recuperam da doença eliminam o agente de forma intermitente por meses após a infecção. A transmissão indireta pode ocorrer pela exposição prolongada dos animais susceptíveis à água, ao solo ou pela ingestão de alimentos contaminados.

O risco da transmissão indireta aumenta consideravelmente para o homem quando as condições ambientais são favoráveis à manutenção e replicação das leptospiras, em especial após enchentes, ou em coleções de água com pouca movimentação, em temperaturas variando entre 0oC e 25oC, principalmente em populações de baixo poder aquisitivo.

Desta forma, os surtos de leptospirose no Brasil freqüentemente são registrados nos períodos mais quentes e chuvosos do ano (entre dezembro e março).

As leptospiras têm no solo e água com pH neutro ou levemente alcalino, condições ótimas de sobrevivência. Entretanto, sobrevivem transitoriamente no pH ácido da urina (5,0 a 5,5). A doença no cão ocorre independentemente do sexo do animal, raça e faixa etária.

A leptospirose-doença apresenta menor freqüência se comparada à ocorrência de infecção pelo agente, levando em muitos casos à forma assintomática, dificultando o diagnóstico.

A leptospirose canina é causada principalmente pelos sorovares canicola e icterohaemorrhagiae , que apresentam como fontes de infecção, respectivamente, os cães e os roedores (Rattus norvergicus - ratazana de esgoto, Rattus rattus e Mus musculus - camundongo).

Recentemente, infecções em cães causadas por outros sorovares que não L. icterohaemorrhagiae e L. canicola, têm-se tornado mais aparentes na população de animais domésticos.

Os sorovares L. grippotyphosa e L. pomona estão entre os que tiveram sua prevalência aumentada e têm sido apontados como causas importantes de insuficiência renal aguda em cães.

Patogenia

As leptospiras penetram ativamente pela mucosa oral, nasal ocular genital ou pele íntegra ou lesada. Elas se multiplicam rapidamente após entrarem no espaço vascular e então se espalham e além disso se replicam em muitos tecidos, incluindo rim, fígado, baço, sistema nervoso central, olhos e trato genital.

Esta fase é caracterizada como quadro agudo da doença, denominado leptospiremia. O período de incubação até o início dos sintomas é de aproximadamente 7 dias mas pode variar de acordo com o sorovar infectante e a imunidade do hospedeiro.

A extensão do dano aos tecidos é variável dependendo da virulência do organismo e da susceptibilidade do hospedeiro. Edema tecidual e vasculite podem ocorrer em infecção aguda e grave que resulta na injúria endotelial e manifestações hemorrágicas.

A leptospira estimula a adesão de neutrófilos e a ativação plaquetária. que pode contribuir para anormalidades inflamatórias e de coagulação. A colonização renal ocorre em muitos cães infectados pois os organismos replicam e persistem nas células epiteliais tubulares renais mesmo na presença de anticorpos séricos neutralizantes.

O microorganismo é eliminado na urina (fase leptospiúrica) de forma intermitente. A eliminação renal do agente ocorre desde 72 horas após a infecção até semanas a meses nos animais domésticos e por toda vida nos roedores.

A presença do microorganismo nos rins determina lesões nas células epitélio-tubulares, edema de parênquima e conseqüente diminuição da perfusão renal, que resultam na insuficiência renal aguda.

As toxinas produzidas pelo microrganismo desencadeiam disfunção hepática e conseqüente hepatite ativa crônica. O grau de icterícia apresentado pelos ani-mais infectados por Leptospira spp depende da necrose hepática e do sorovar infectante, ocorren-do com maior intensidade em cães acometidos pelo sorovar icterohaemorrhagiae.

No cão, os sorovares icterohaemorrhagiae e canicola acometem principalmente as células hepáticas, enquanto os sorovares pomona e grippotyphosa lesam principalmente as células renais.

Entretanto, há relatos de acometimento hepático severo pelo sorovar grippotyphosa, sugerindo a sua inclusão na triagem sorológica de casos de hepatite ativa crônica.

Clínica

Nos cães, as manifestações clínicas mais comuns na infecção aguda são: letargia, depressão, anorexia, vômito, febre, poliúria, polidipsia, dor abdominal e/ou lombar, diarréia, mialgia, halitose, úlceras bucais, icterícia, petéquias e sufusões em mucosas e conjuntivas.

A infecção pelo sorovar icterohaemorrhagiae pode levar a morte hiper-aguda entre 24 a 48 h. Animais que sobrevivem a esse período podem desenvolver a síndrome ictero-hemorrágica, com sinais de hipertermia, prostração, icterícia, hemorragias difusas - especialmente em pulmões e sistema digestório, podendo evoluir para insuficiência renal aguda e óbito.

A infecção pelo sorovar canicola resulta no comprometimento renal grave com sintomas gastroentéricos e aqueles decorrentes da uremia (emese, diarréia, estomatite e glossite necrótica), evoluindo geralmente para insuficiência renal crônica.

Os cães infectados pelos sorovares pomona e gryppotyphosa apresentam, geralmente, anorexia, depressão, vômito, apatia, poliúria, polidpsia e dor lombar. O sorovar bataviae pode causar ainda meningite, uveíte, abortamentos e infertilidade.

Os animais que desenvolvem insuficiência renal aguda mesmo após o tratamento, podem evoluir tanto para o retorno da função renal normal, em 2 a 3 semanas, como desenvolver insuficiência renal crônica.

A icterícia ocorre mais freqüentemente na fase aguda da doença, relacionada às infecções pelo sorovar icterohaemorrhagiae. Nessa fase podem ser observadas também fezes de coloração acizentada, em virtude da colestase hepática.

Os cães com hepatite ativa crônica manifestam inapetência, perda de peso, ascite, e em casos crônicos, encefalite. As manifestações pulmonares - como pneumonia intersticial - são mais comuns no homem do que nos cães, e a inflamação intestinal, em alguns animais, pode resultar em intussuscepção.

Em estudo realizado no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina com 120 cães soropositivos para leptospirose, as principais manifestações clínicas observadas foram: vômito, apatia e diarréia, sendo icterícia, estomatite, necrose da ponta da língua e mialgia de aparecimento menos freqüente.

Leptospirose

Principais manifestações clínicas observadas em 120 cães reagentes à soroaglutinação microscópica, atendidos no Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina, com suspeita clínica de leptospirose. Londrina, 2001.

A alta ocorrência de sintomas inespecíficos, assim como a reduzida freqüência daqueles considerados típicos da leptospirose em cães - necrose da ponta da língua, estomatite e icterícia, ressalta a importância de incluir a leptospirose no diagnóstico diferencial de animais com sintomatologia gastroentérica inespecífica (vômito, diarréia e anorexia), com ou sem histórico vacinal.

Diagnóstico

Diagnóstico laboratorial

O diagnóstico da leptospirose canina deve ser embasado nas informações clínico-epidemiológicas, apoiado nos exames laboratoriais subsidiários. A presença de cães com anorexia, diarréia, vômito, sensibilidade em região abdominal e/ou lombar, com ou sem mucosas e conjuntivas amareladas, devem levar a suspeita clínica da doença.

As alterações hematológicas observadas nos casos de leptospirose usualmente são leucocitose (= 20.000 leucócitos/dl) por neutrofilia e graus variáveis de anemia.

A leucopenia pode ser um achado na fase inicial de infecção (leptospiremia), evoluindo geralmente para leucocitose com desvio a esquerda, com a progressão da doença.

A trombocitopenia faz-se presente geralmente em cães gravemente afetados. Exames de função renal revelam freqüentemente aumento dos níveis séricos de uréia e creatinina e variam segundo o grau de comprometimento renal.

As alterações das enzimas hepáticas alamino aminotransferase (ALT) e fosfatase alcalina (FA), assim como os níveis séricos de bilirrubina, variam com a gravidade da lesão hepática.

As dosagens de uréia, creatinina, ALT, bilirrubina e FA constituem-se nos principais exames de monitoramento da evolução do quadro clínico e, conseqüentemente, do prognóstico de animais com leptospirose.

Na urinálise de cães com leptospirose observa-se geralmente densidade baixa, glicosúria, proteinúria, bilirrubinúria (que normalmente precede a hiperbilirrubinemia), acompanhadas de elevação de cilindros granulosos, leucócitos e eritrócitos no sedimento urinário:

Leptospirose

Na fase clínica inicial é possível a pesquisa do agente por microscopia de campo escuro, a partir do exame de gota de sangue, até o quarto dia de infecção, ou de urina, entre a primeira e a segunda semana.

Esse procedimento apresenta limitações em virtude da intermitência de eliminação das leptospiras na urina e da pequena sobrevivência do agente no ambiente externo.

Alternativamente, pode-se realizar o cultivo microbiológico da urina, do sangue e do líquido céfalo-raquidiano, apesar da dificuldade de isolamento do agente nesses humores orgânicos.

Para o isolamento do agente são recomendados os meios seletivos de EMJH (Ellinghausen, McCullough, Johansen, Harris) ou de Fletcher, enriquecidos com antimicrobianos e soro-albumina bovina.

O diagnóstico sorológico para a leptospirose é usualmente realizado. O teste de aglutinação microscópica (MAT) é o método mais amplamente usado para determinar os títulos de anticorpos anti-Leptospira.

A demonstração de um aumento de pelo menos quatro vezes no título do anticorpo de 2 a 4 semanas de intervalo é o método sorológico mais definitivo para diagnosticar a leptospirose.

Em geral, um título alto isolado (maior ou igual a 1:800) é suficiente para um diagnóstico de leptospirose se o histórico do paciente e constatações clínicas e laboratoriais forem compatíveis.

Um título convalescente que não muda a partir da amostra aguda sugere infecção prévia ou inativa. Vários aspectos do teste sorológico de aglutinação microscópica são importantes na execução de um diagnóstico apurado.

A reatividade cruzada contra sorovares múltiplos freqüentemente resulta no título aumentado contra vários sorovares durante a fase aguda da doença. A imunidade contra leptospiras (natural ou estimulada) é sorovar-específica.

Na avaliação sorológica dos animais é importante questionar o histórico vacinal contra leptospirose, pois os cães vacinados podem ter títulos contra os sorovares contidos na vacina. Normalmente, os títulos são negativos ou abaixo de 1:320 e persistem por uns poucos meses após a vacinação.

Entretanto, os títulos de pós-vacinação podem ser altos, tais como 1:1250. Devido à possibilidade de títulos altos pós-vacinação e reação cruzada, tem-se sugerido que somente títulos maiores que 1:3250 devem ser considerados diagnósticos.

Se fizer 3 meses que o cão for vacinado, entretanto, um título de 1:800 a 1:1600 é evidência presumida de infecção leptospiral.

Os títulos de aglutinação microscópica podem ser negativos durante a primeira semana de infecção. Após a infecção e recuperação, os títulos de anticorpos normalmente declinam gradualmente, mas podem persistir por meses. A terapia antibiótica precoce ou a administração de corticosteróide podem inibir títulos convalescentes.

O teste ELISA pode distinguir entre anticorpos IgM e IgG anti-Leptospira. Estes testes podem ser de grande ajuda quando os testes da aglutinação microscópica produzem resultados confusos.

Os cães desenvolvem título elevado de IgM maior que 1:320 na fase aguda da leptospirose. A proporção de anticorpos IgM e IgG na fase convalescente após a imunoestimulação varia dependendo do sorovar.

O ensaio de reação de cadeia polimerase (PCR) do DNA leptospiral é um meio eficaz de diagnóstico antes do desenvolvimento do título do anticorpo ou quando os títulos estão baixos e o curso clínico confuso.

A maioria dos laboratórios veterinários somente oferece o teste de aglutinação microscópica. Poucos tentam a cultura bacteriana das leptospiras. Requisitos especiais para ELISA, técnicas para anticorpos fluorescentes, reação em cadeia de polimerase, ou isolamento das leptospiras das amostras biológicas, podem ser feitas contatando um laboratório de referência

Diagnóstico anatomo-patológico

O exame pos-morten é extremamente valioso no diagnóstico da leptospirose em cães. À necrópsia, observa-se, principalmente, hepatomegalia, degeneração e fibrose hepática, congestão pulmonar, petéquias e sufusões pleurais, úlceras na língua, edema, congestão e necrose renal, hemorragias e aderência de cápsula renal, congestão, edema e hemorragias gastro-intestinais.

Nas infecções pelo sorovar icterohaemorrhagiae pode observar-se pronunciada icterícia de serosas e conjuntivas.

Nesses animais, o diagnóstico histopatológico é realizado principalmente a partir de fragmentos renais ou hepáticos, corados por técnicas de impregnação pela prata (colorações de Gomori, Warthin-Starry ou Levaditti). Após a necrópsia dos animais, os rins e o fígado são os órgãos de eleição para o isolamento do agente.

Fonte: www.leptospirosenobrasil.com.br

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