A leptospirose é uma doença infecciosa aguda, de caráter sistêmico, que acomete o homem e os animais, causada por microorganismos pertencentes ao gênero Leptospira. A distribuição geográfica da leptospirose é cosmopolita, no entanto a sua ocorrência é favorecida pelas condições ambientais vigentes nas regiões de clima tropical e subtropical, onde a elevada temperatura e os períodos do ano com altos índices pluviométricos favorecem o aparecimento de surtos epidêmicos de caráter sazonal. É uma zoonose de alta importância devido aos prejuízos que acarreta, não só em nível de saúde pública, face à alta incidência de casos humanos, como também econômicos, em virtude do alto custo hospitalar dos pacientes, da perda de dias de trabalho e das alterações na esfera reprodutiva dos animais infectados.
O gênero Leptospira é um dos componentes da família dos Espiroquetídeos, onde estão reunidos os microrganismos com morfologia filamentosa, espiralados, visualizados apenas pela microscopia de campo escuro e de contraste de fase, com afinidade tintorial pelos corantes argênticos. Nesse gênero aceita-se atualmente a existência de duas espécies: L.interrogans e L.biflexa, as quais reúnem, respectivamente, as estirpes patogênicas e aquelas saprófitas de vida livre, encontradas usualmente em água doce de superfície.A diferenciação em espécie apoia-se nas características de crescimento em meios de cultivo enriquecidos; no entanto, do ponto de vista taxonômico, as características antigênicas decorrentes de antígenos de parede, com natureza lipoproteica, possibilitam as diferenciações sorológicas que superam a cifra de 200 exemplares para a espécies L. interrogans, as quais com base em relações antigênicas são reagrupadas em sorogrupos.
Dentre os fatores ligados ao agente etiológico que favorecem a persistência dos focos de leptospirose, especial destaque deve ser dado ao elevado grau de variação antigênica; relativo grau de sobrevivência em nível ambiental em ausência de parasitismo (registros experimentais referem até 180 dias desde que haja alto nível de umidade, proteção contra os raios solares e valores de pH neutro ou levemente alcalino); ampla variedade de vertebrados suscetíveis, os quais podem hospedar o microorganismo.
Os roedores desempenham o papel de principais reservatórios da doença, pois albergam a leptospira nos rins, eliminando as vivas no meio ambiente e, contaminando água, solo e alimentos. Dentre os roedores domésticos (Rattus norvegicus, Rattus rattus e Mus musculus), grande importância deve se dispensar ao R. norvegicus, portador clássico da L. icterohaemorraghiae, a mais patogênica ao homem.
A infecção humana pela leptospira resulta da exposição direta ou indireta à urina de animais infectados. Em áreas urbanas, o contato com águas e lama contaminados demonstram a importância do elo hídrico na transmissão da doença ao homem, pois a leptospira dela depende para sobreviver e alcançar o hospedeiro. Há outras modalidades menos importantes de transmissão como a manipulação de tecidos animais e a ingestão de água e alimentos contaminados. A transmissão de pessoa a pessoa é muito rara e de pouca importância prática. A penetração do microorganismo se dá pela pele lesada ou mucosas da boca, narinas e olhos, podendo ocorrer através da pele íntegra, quando imersa em água por longo tempo.
Período de Incubação: varia de um a vinte dias, sendo em média de sete a quatorze dias.
Período de Transmissibilidade: a infecção inter-humana é rara, sem importância prática.
A suscetibilidade no homem é geral, porém ocorre com maior freqüência em indivíduos do sexo masculino na faixa etária de 20 a 35 anos, não devido a uma preferência do agente a estes indivíduos, mas por estarem mais expostos a situações de risco. A imunidade adquirida é sorotipo específica, podendo incidir mais de uma vez no mesmo indivíduo, porém, por sorovares diferentes. Tradicionalmente, algumas profissões são consideradas de alto risco, como trabalhadores em esgotos, algumas lavouras e pecuária, magarefes, garis e outras. No Brasil, há nítida predominância de risco em pessoas que habitam ou trabalham em locais com más condições de saneamento e expostos a urina de animais, sobretudo a de ratos, que se instalam e proliferam, contaminando, assim, água, solo e alimentos.
A leptospirose é uma doença de caráter sazonal, intimamente relacionada aos períodos chuvosos, quando há elevação dos índices pluviométricos e um conseqüente aumento na incidência de casos da doença. É uma doença endêmica, sendo comum o surgimento de casos isolados ou de pequenos grupos de casos, tornando-se epidêmica sob determinadas condições, tais como umidade e temperaturas elevadas e alta infestação de roedores contaminados.
A doença ocorre tanto em nível rural quanto urbano. Na segunda, adquire um caráter mais severo, devido à grande aglomeração urbana de baixa renda morando à beira de córregos, em locais desprovidos de saneamento básico, em condições inadequadas de higiene e habitação, coabitando com roedores, que aí encontram água, abrigo e alimento necessários à sua proliferação. A presença de água, lixo e roedores contaminados predispõe à ocorrência de casos humanos de leptospirose.
No Brasil, durante o período de 1985 a 1997, foram notificados 35.403 casos da doença, variando desde 1.594 casos anuais (mínimo) em 1987, a 5.576 em 1997 (máximo). Nesse mesmo período, houve 3.821 óbitos, variando desde 215 em 1993 (mínimo) a 404 óbitos em 1988 (máximo). A letalidade da doença nesse período variou de 6,5% em 1996, a 20,7% em 1987, numa média de 12,5%, dependendo entre outros fatores, do sorovar infectante, da gravidade, da forma clínica, da precocidade do diagnóstico, do tratamento e da faixa etária do paciente.
A infecção humana varia muito em gravidade, desde formas subclínicas até as formas graves ou fatais.
Qualquer sorovar pode causar a forma grave ou branda. A doença, na maioria dos casos, se inicia abruptamente com febre, mal-estar geral e cefaléia, descrevendo-se duas formas clínicas, anictérica e ictérica.
Esta forma acomete 60% a 70% dos casos. A doença pode ser discreta, de inicío súbito com febre, cefaléia, dores musculares, anorexia, náuseas e vômitos. Dura de um a vários dias, sendo freqüentemente rotulada de "síndrome gripal" ou "virose". Uma infecção mais grave pode ocorrer, apresentando-se classicamente como uma doença febril bifásica. A primeira fase, septicêmica ou leptospirêmica, inicia-se abruptamente, com febre elevada, calafrios, cefaléia intensa, prostração, mialgias que envolvem principalmente os músculos das panturrilhas, coxas, regiões paravertebrais e abdômen, resultando em palpação dolorosa, podendo às vezes simular um abdômen agudo cirúrgico. Anorexia, náuseas, vômito, obstipação ou diarréia, artralgias, hiperemia ou hemorragia conjuntival, fotofobia e dor ocular podem ocorrer. Podem surgir hepatomegalia, hemorragia digestiva e mais raramente esplenomegalia. Epistaxe, dor torácica, tosse seca ou com expectoração hemoptóica podem ser observadas.
Recentemente, têm sido relatados casos anictéricos que evoluem para importante sintomatologia respiratória, levando inclusive a quadros de insuficiência respiratória aguda e óbito. Distúrbios mentais como confusão, delírio, alucinações e sinais de irritação meníngea podem estar presentes. As lesões cutâneas são variadas: exantemas musculares, máculo-papulares, eritematosos, urticariformes, petequiais ou hemorrágicos.
Em geral ocorre hiperemia de mucosas. A fase septicêmica dura de quatro a sete dias, havendo uma melhora acentuada dos sintomas ao seu término.Em seguida, o paciente pode restabelecer-se ou evoluir com recrudescimento de febre e sintomas gerais e instalação de um quadro de meningite, caracterizado por cefaléia intensa, vômitos e sinais de irritação meníngea, assemelhando-se clínica e liquoricamente às das meningites virais. Há manifestações respiratórias, cardíacas e oculares (uveítes). As manifestações clínicas da segunda fase, também chamada fase imune, iniciam-se geralmente na segunda semana da doença e desaparecem de uma a três semanas. Alguns pacientes apresentam alterações de volume e do sedimento urinário a partir da segunda semana de doença, porém é rara a insuficiência renal aguda na leptospirose anictérica.
Nessa forma, a fase septicêmica evolui para uma doença ictérica grave, com disfunção renal, fenômenos hemorrágicos, alterações hemodinâmicas, cardíacas, pulmonares e de consciência, associadas a taxas de letalidade que variam de 5 a 20% nas diversas casuísticas. Na leptospirose ictérica, o curso bifásico é raro. Os sintomas e sinais que precedem à icterícia são mais intensos e de maior duração do que os relatados na forma anictérica. Destaca-se a presença das mialgias, sobretudo nas panturrilhas, durante as duas semanas iniciais.
A icterícia tem seu início entre o terceiro e o sétimo dia da doença, apresentando uma tonalidade alaranjada (icterícia rubínica) bastante intensa e característica. Na maioria dos casos, a palidez é mascarada pela icterícia. Ao exame do abdômen, com freqüência, há dor à palpação e hepatomegalia em 70% dos casos. Insuficiência renal aguda e desidratação ocorrem na maioria dos pacientes. A oligúria é menos freqüente que a poliúria, mas está associada a um pior prognóstico. Uma característica importante da insuficiência renal na leptospirose é sua associação com alterações hemodinâmicas, geralmente desidratação intensa e hipotensão, que podem agravar o quadro e levar à necrose tubular aguda.
Choque circulatório e insuficiência cardíaca podem ser encontrados, porém são menos freqüentes que as alterações eletrocardiográficas como alterações do ritmo e da repolarização ventricular e bloqueios diversos. Essas alterações podem ser agravadas pelos distúrbios metabólicos, em especial hiperpotassemia e uremia.
Os fenômenos hemorrágicos são freqüentes e podem traduzir-se por petéquias, equimoses e sangramento nos locais de venopunção ou hemorragias gastro-intestinais exteriorizadas por hematêmese, melena ou enterorragias. O comprometimento pulmonar na leptospirose ictérica é freqüentemente manifestado clinicamente por tosse, dispnéia, e hemoptise, associados a alterações radiológicas diversas, que variam desde infiltrado intersticial focal até intersticial e alveolar difuso.
Recentemente têm sido observados em nosso meio, quadros respiratórios mais graves evoluindo para insuficiência respiratória aguda com hemorragia pulmonar maciça ou síndrome de angústia respiratória do adulto. Nessa segunda fase da doença, que dura em torno de duas semanas, o paciente apresenta regressão progressiva dos sintomas, evoluindo para cura em uma a três semanas. Atrofia muscular e anemia são manifestações freqüentemente observadas por ocasião da alta do paciente.
As maiores dificuldades diagnósticas são representadas pelas formas anictéricas, as quais, embora correspondam à maioria dos casos da doença, em geral passam despercebidas e são rotuladas com outros diagnósticos, do ponto de vista clínico. Apesar de usualmente apresentarem evoluções benignas, podem também levar ao êxito letal. Na dependência dos sintomas e sinais clínicos predominantes, tem sido sugerida a classificação dessas formas anictéricas em: tipo influenza, pulmonar (tosse e hemoptise), febril pura, hemorrágica, miálgica, meníngea, etc.
Verifica-se, assim, que as possibilidades de confusão diagnóstica são bem maiores que na forma ictérica da leptospirose. Nesse último caso, o número de possíveis diagnósticos diferenciais fica mais reduzido e, o que é mais importante, a presença de febre, mialgia e icterícia, mais facilmente, traz à mente do clínico tal suspeita diagnóstica. Segundo o período evolutivo, têm sido considerados os seguintes diagnósticos diferenciais:
"Viroses", dengue, influenza, Hantaan vírus, apendicite aguda, bacteremias e septicemias, colagenoses, colecistite aguda, febre tifóide, infecção de vias aéreas superiores e inferiores, malária, pielonefrite aguda, riquestsioses, toxoplasmose, meningites e outras.
Colangite, coledocolitíase, Doença de Lábrea, febre amarela, hepatite, malária, Síndrome de Zieve, síndrome hepatorrenal, esteatose aguda da gravidez, septicemias e outras. Nem sempre o médico relaciona o quadro clínico com a leptospirose, na fase séptica, pois as manifestações são geralmente inespecíficas comuns aos processos infecciosos em geral. O diagnóstico definitivo dependerá do encontro de leptospiras ou da presença de anticorpos específicos no soro, em amostras pareadas.
O tratamento visa, de um lado, a combater o agente causal (antibioticoterapia) e, de outro, a debelar as principais complicações, principalmente o desequilíbrio hidro-eletrolítico, as hemorragias, as insuficiências respiratórias e renal agudas e perturbações cardiovasculares, incluindo arritmias, insuficiência cardíaca, hipotensão e choque. As medidas terapêuticas de suporte constituem-se nos aspectos de maior relevância e devem ser iniciadas precocemente, na tentativa de evitar complicações da doença, principalmente as renais.
O método laboratorial de escolha depende da fase evolutiva em que se encontra o paciente. Na fase aguda, durante o período febril, as leptospiras podem ser visualizadas no sangue através de exame direto, de cultura de meios apropriados ou a partir de inoculação em animais de laboratório.
O exame direto é extremamente falho, devendo ser realizado por observador experiente. A cultura somente se positiva após algumas semanas, o que garante sempre diagnóstico retrospectivo; finalmente a inoculação, que é técnica muito trabalhosa, necessitando sempre de laboratórios altamente especializados. As leptospiras podem ser visualizadas diretamente na urina, cultivadas ou inoculadas após a segunda semana de doença. Pelas dificuldades em sua realização, estas técnicas também não são adotadas rotineiramente.
O exame do líquor e de tecidos musculares-esqueléticos, renais e hepático são raramente utilizados. Os métodos consagradamente eleitos para configuração diagnóstica da leptospirose são sorológicos. A técnica básica é a aglutinação das leptospiras vivas ou formolizadas pelo soro do homem ou de animais.
São de escolha as técnicas de aglutinação microscópica, que se positivam geralmente a partir da segunda semana de doença. Recomenda-se a realização de pelo menos dois exames, um no início e outro a partir da quarta semana de doença. Na impossibilidade de adoção desta técnica, opta-se pela macroaglutinação, de execução bem mais simples.
Entre os exames complementares considerados inespecíficos, mas de relevância para o diagnóstico e acompanhamento clínico, incluem-se os seguintes: hemograma completo, coagulograma, dosagem de transaminases (TGO e TGP), bilirrubinas, uréia, creatinina e eletrólitos, gasometria, elementos anormais e sedimentos (EAS), RX de tórax e eletrocadiograma (ECG).
leucocitose, neutrofilia e desvio para a esquerda;
anemia hipocrômica a partir da 2ª semana;
aumento da velocidade de hemossedimentação;
plaquetopenia;
elevação das bilirrubinas, principalmente da fração direta, que pode ultrapassar a 20 mg/dl;
transaminases normais ou com aumentos que geralmente não ultrapassam a 500m /dl, estando a TGO usualmente mais elevada que a TGP;
fosfatase alcalina elevada;
atividade de protrombina diminuída ou tempo de protrombina aumentado;
potássio sérico normal ou abaixo do normal, mesmo na vigência de insuficiência renal aguda;
uréia e creatinina elevadas;
líquor com xantocromia (nos casos ictéricos) e pleocitose linfocitária são comuns na segunda semana da doença, mesmo na ausência de clínica evidente de envolvimento meníngeo;
CPK e fração MB poderão estar elevadas; e
gasometria arterial mostrando acidose metabólica e hipoxemia.
A leptospirose é uma zoonose na qual os animais são hospedeiros primários, essenciais para a persistência dos focos da infecção, e os seres humanos são hospedeiros acidentais, terminais, pouco eficientes na perpetuação da mesma. Esses fatos ressaltam a importância do direcionamento das ações preventivas para os animais vertebrados que se comportam como reservatórios de leptospiras. O impacto da leptospirose em termos da saúde pública reflete-se no alto custo do tratamento dos seres humanos acometidos com letalidade da ordem de 5% a 20%. No entanto, quanto à saúde animal, as conseqüências dessa infecção são particularmente da esfera econômica, tendo em vista o envolvimento de bovinos, eqüinos, suínos, caprinos e ovinos, espécies animais produtoras de alimentos nobres como a carne, o leite, e ainda de produtos de interesse industrial, tais como a lã e o couro. A leptospirose animal representa, portanto, um ponto de preocupação para os profissionais envolvidos com a saúde animal e saúde pública. A melhoria das ações de controle voltadas aos animais refletirá na diminuição do nível de contaminação ambiental e, conseqüentemente, na redução do número de casos humanos da doença.
O agente etiológico da leptospirose animal é o mesmo da leptospirose humana. Cada sorovar tem o(s) seu(s) hospedeiro(s) preferencial(ais), porém uma espécie animal pode albergar um ou mais sorovares.
As leptospiras podem hospedar-se em diversos grupos de animais vertebrados; no entanto, os mamíferos são os que, na atualidade, apresentam maior significado epidemiológico. Inquéritos conduzidos em ecossistemas silvestres, não modificados pela ação humana, referem a presença da infecção em roedores, marsupiais, carnívoros e edentados. No entanto, em ecossistemas rurais e urbanos, o principal reservatório de leptospira é constituído pelos roedores sinantrópicos, entre os quais o Rattus norvegicus (ratazana ou rato de esgoto), que ocupa no mundo todo uma posição de destaque. Saliente-se que, neste grupo de animais, a relação hospedeiro-parasita revela uma condição de equilíbrio na qual os animais acometidos, usualmente, não exteriorizam nenhum sinal da infecção.
A penetração da leptospirose ocorre ativamente através de mucosas (ocular, digestiva, respiratória, genital), da pele escarificada e inclusive da pele íntegra, como ocorre quando da permanência por tempo prolongado em coleções de água contaminada. A eliminação da leptospira ocorre através da urina, de forma intermitente, podendo persistir por períodos de tempo de longa duração, variáveis com as espécies animais e a variante sorológica da leptospira envolvida; nos roedores, a presença de leptospira pode ser registrada permanentemente na urina. Devido à uretra constituir-se na via comum para eliminação de urina e sêmen, é possível que este último também venha a ser contaminado por leptospiras o que torna possível a transmissão venérea por leptospirose animal, tanto pela monta natural, como através da inseminação artificial.
Dentre os animais de produção, explorados em ecossistemas rurais, as manifestações clínicas mais freqüentes atingem a esfera reprodutiva, incluindo o abortamento, usualmente no terço final da gestação. Em algumas oportunidades, as reprodutoras atingidas podem apresentar infertilidade ou mesmo esterilidade.
O nascimento de produtos a termo debilitados evoluem para o óbito nos primeiros dias de vida, é também outra manifestação da infecção. Alguns sinais em particular podem ser observados de acordo com a espécie animal e em determinadas faixas etárias.
Em suínos jovens, durante a fase de aleitamento, podem ocorrer quadros de encefalite por leptospiras, que se manifestam por incoordenação motora e acessos convulsivos com movimento de pedalamento. Em bezerros jovens, pode ser observado um quadro febril com icterícia e hemoglobinúria, o qual solicita o estabelecimento de um diagnóstico diferencial com a tristeza parasitária (infecção por hematozoários).
Em vacas adultas das raças com aptidão leiteira, pode haver a infecção da glândula mamária e o quadro clínico é o de uma mastite atípica, com sensível diminuição da secreção láctea, úbere flácido e o leite manchado por coágulos de sangue. Nos eqüinos as manifestações clínicas mais freqüentemente associadas à leptospirose são o comprometimento do globo ocular com o aparecimento de uma conjuntivite recidivante, que pode evoluir para a cegueira, caso não seja introduzido o tratamento adequado, abortamento esporádico e infertilidade. Dentre os animais de companhia mantidos nas áreas urbanas junto ao domicílio humano, a leptospirose pode acometer o cão doméstico, provocando quadros febris com sinais variáveis de hemorragias, icterícia e uremia com alto grau de letalidade e óbito decorrente das insuficiências hepática e renal.
As fontes de infecção animal podem ser sumarizadas em doentes, portadores convalescentes e os portadores sadios. Através dos animais portadores, ocorre a persistência dos focos de leptospirose, devido à longa duração desta condição (meses ou anos) e à ampla facilidade de deslocamento que pode ser oferecida a estes animais, uma vez que os mesmos não revelam nenhum sinal da infecção.
O diagnóstico da leptospirose animal deve apoiar-se na integração dos informes clínicos-epidemiológicos com os dos resultados dos exames laboratoriais. A confirmação definitiva da infecção assenta-se na demonstração da presença do microrganismo ou dos anticorpos específicos. A soroaglutinação microscópica é o procedimento laboratorial mais amplamente empregado para o diagnóstico etiológico da infecção animal. Outros métodos são dispendiosos, de resultado demorado, aplicando-se apenas a casos individuais e ou animais de alto valor estimativo ou econômico.
manter um conhecimento atualizado do comportamento da doença, obtendo assim um diagnóstico da situação epidemiológica;
selecionar, priorizar e orientar as medidas de controle adequadas a serem adotadas;
prever mudanças no comportamento epidemiológico da doença, face à adoção de medidas de controle.
Todos os casos suspeitos devem ser notificados. É importante identificar todas as fontes de informação (hospitais, clínicas, consultórios, laboratórios, serviço de notificação de óbito, escolas e a própria população), para coletar dados de casos e óbitos da doença, de forma ágil e contínua, levando-se em consideração as formas oligossintomáticas da doença.
A investigação epidemiológica deverá ser realizada de forma clara e objetiva, incluindo o preenchimento de uma ficha epidemiológica para cada caso suspeito, devendo compreender os seguintes aspectos:
investigação clínica e/ou laboratorial de todos os casos para confirmação diagnóstica;
determinação da provável forma e local de contágio, sendo importante pesquisar:
contato com água, solo ou alimentos que possam estar contaminados com a urina de roedores infectados; contato com animais que possam estar infectados; condições propícias à proliferação de roedores nos locais de trabalho ou moradia; atividades de lazer em áreas potencialmente contaminadas.
Deverá ser feito o mapeamento de todos os casos para se precisar a distribuição espacial e geográfica da doença (onde está ocorrendo), determinando-se, assim, áreas esparsas ou de aglomeração de casos humanos.
Suspeito
É toda pessoa que apresente sinais e sintomas sugestivos da doença como febre, mialgias (principalmente na panturrilha), vômitos, calafrios, alterações do volume urinário, conjuntivite, icterícia, fenômeno hemorrágico e/ou Síndrome de Weil (alterações hepáticas, renais e vasculares). Também é suspeito de leptospirose toda pessoa que apresente sinais e sintomas de processo infeccioso inespecífico, com antecedentes epidemiológicos, sugestivos.
Considera-se como antecedentes epidemiológicos:
exposição a enchentes ou outras coleções hídricas potencialmente contaminadas como córregos, fossas, lagos e rios;
exposição a esgoto, fossa ou manilhas de esgoto contaminadas com urina de roedores;
atividades que envolvam risco ocupacional como coleta de lixo, limpeza de córregos, trabalho em água ou esgoto, tratadores de animais, entre outras;
presença de animais infectados nos locais freqüentados pelo paciente.
Critério Laboratorial
Sempre que possível, todo caso suspeito será confirmado pelo laboratório.
isolamento da bactéria a partir do sangue, urina ou líquor;
microaglutinação com soro-conversão, sendo necessárias duas ou três amostras com intervalo de quinze dias, evidenciando aumento de títulos de quatro vezes ou mais;
quando não houver possibilidade de duas amostras, um título igual ou superior a 1:800 na microaglutinação confirma o diagnóstico. Títulos menores (entre 1:100 e 1:800) devem ser considerados de acordo com a situação epidemiológica local;
Critério Clínico-Epidemiológico
Todo caso suspeito com clara evidência de associação epidemiológica. Nos casos suspeitos que evoluírem para o óbito sem confirmação laboratorial, amostras de tecido poderão ser encaminhadas para exame imuno-histoquímico.
Análise dos Dados
A associação dos dados dos pacientes em gráficos e tabelas simples, como faixa etária, sexo, evolução do caso, forma de contágio, será útil na determinação do perfil epidemiológico dos indivíduos expostos e em quem está ocorrendo a doença. O uso do diagrama de controle compara a incidência atual da doença com a de anos anteriores e mostrará como ela se encontra no momento (se endêmica ou epidêmica), podendo também prever o seu comportamento e avaliar a eficácia das medidas de controle adotadas.
Deteccão de Áreas de Risco
As áreas de risco serão detectadas após o mapeamento dos locais de contágio de cada caso associados a:
áreas com aglomeração de casos observada no decorrer do tempo; fonte comum de contágio, se houver; fatores físicos/ambientais predisponentes à ocorrência de casos humanos (topografia, hidrografia da região, pontos críticos de enchente, temperatura, umidade, precipitações pluviométricas, pH do solo, aglomerações populacionais, condições de saneamento básico, disposição, coleta e destino do lixo); fatores sociais (condições de higiene e habitação da população, proteção ao trabalhador, hábitos e costumes da população); e uma alta infestação de roedores no local.
Vários fatores interagem na ocorrência de um caso de leptospirose, portanto, as medidas de controle deverão ser direcionadas não só ao controle de roedores (medidas de anti-ratização e desratização), como também à melhoria das condições higiênico-sanitárias da população e alterações do meio ambiente.
controle da população de roedores por meio de medidas de anti-ratização e desratização;
redução do risco de exposição de ferimentos às águas/lama de enchentes ou situação de risco;
medidas de proteção individual para trabalhadores ou indivíduos expostos a risco, através do uso de roupas especiais, luvas e botas;
uso de sacos plásticos duplos amarrados nas mãos e nos pés representam alguma proteção, quando for possível usar luvas e botas;
limpeza e desinfecção com hipoclorito de sódio de áreas físicas domiciliares ou que não estejam contaminadas;
utilização de água filtrada, fervida ou clorada para ingestão;
vigilância sanitária dos alimentos, descartando os que entraram em contato com águas contaminadas;
armazenagem correta dos alimentos em locais livres de roedores;
armazenagem e destino adequado do lixo, principal fonte de alimento e abrigo do roedor;
eliminar entulho, materiais de construção ou objetos em desuso que possam oferecer abrigo a roedores;
desassoreamento, limpeza e canalização de córregos;
construção e manutenção permanente das galerias de águas pluviais e esgoto em áreas urbanas;
emprego de técnicas de drenagem de águas livres supostamente contaminadas;
ações permanentes de educação em saúde alertando sobre as formas de transmissão, medidas de prevenção, manifestações clínicas, tratamento e controle da doença;
em caso de suspeita clínica, procurar orientação médica, relatando a história epidemiológica nos vinte dias que antecederam os sintomas ;
a critério médico, poderá ou não ser indicado o uso de antibioticoterapia em casos de exposição de alto risco;
tratamento de animais doentes, com especial atenção para o uso de procedimentos terapêuticos que sustem a eliminação urinária de leptospiras;
vacinação de animais (caninos, bovinos e suínos) através do uso de bacterinas preparadas com as variantes sorológicas prevalentes na região;
higiene, remoção e destino adequado de excretas animais e desinfecção permanentes dos canis ou locais de criação de animais.
Fonte: dtr2001.saude.gov.br