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Lesão do Esforço Repetitivo

A revolução eletrônica é uma das grandes mudanças ocorridas no mundo do trabalho nas últimas décadas. Com o processo de automação crescente, um número cada ve z maior de trabalhadores é levado a ficar mais e mais tempo sentados na frente de computadores. Esta atividade tem sido apontada como a principal causa das afecções conhecidas como LER/DORT. No entanto, estudos mostram que vários são os fatores existentes no trabalho que podem contribuir para incidência dessas afecções, tais como: fatores biomecânicos, psicossociais e fatores ligados à psicodinâmica do trabalho.

Os fatores biomecânicos incluem a repetitividade de movimentos, a manutenção de posturas inadequadas por tempo prolongado, o esforço físico e a invariabilidade das tarefas. Incluem também a pressão mecânica sobre determinados segmentos do corpo, o trabalho muscular estático, choques, impactos, vibração e frio.

Os fatores psicossociais estão relacionados às interações hierárquicas com chefias imediatas e chefias superiores, às interações coletivas intra e intergrupos e às características individuais do trabalhador, como os traços de personalidade e o seu histórico de vida.

Os fatores ligados à psicodinâmica do trabalho estão relacionados à maneira como o trabalhador organiza suas atividades, de acordo com a liberdade que lhe é dada, à forma como ele percebe o seu trabalho e qual o significado deste para ele.

A organização do trabalho freqüentemente caracterizada pela exigência de ritmo intenso de trabalho; pelo conteúdo pobre das tarefas; pela pressão e autoritarismo das chefias; pelos mecanismos de avaliação, punição e controle da produção dos trabalhadores em busca da produtividade, desconsiderando a diversidade própria do homem; e pela falta de estratégias operatórias que permitam reduzir o custo humano do trabalho, configura um ambiente fértil para a incidência de LER/DORT.

Os sinais e sintomas de LER/DORT são múltiplos e diversificados, caracterizando-se por dor espontânea ou decorrente da movimentação; por alterações sensitivas de fraqueza, cansaço, dormência e formigamento; por sensação de diminuição, perda ou aumento de sensibilidade (agulhadas e choques); por dificuldades para o uso dos membros, particularmente das mãos; por sinais flogísticos e áreas de hipotrofia ou atrofia. (MS/OPAS, 2001)

Segundo a Norma Técnica do INSS sobre DORT, LER é “uma 'síndrome clínica', caracterizada por dor crônica, acompanhada ou não por alterações objetivas e que se manifesta principalmente no pescoço, cintura escapular e/ou membros superiores em decorrência do trabalho ”.

“O comportamento do indivíduo frente a um processo de dor não segue um curso linear, nem possui estágios bem definidos”. Ao contrário, ele depende da interação de vários elementos, como a percepção do sintoma, sua interpretação, expressão e comportamentos de defesa. Nesse contexto, os fatores culturais e sociais devem ser considerados. A sensação dolorosa é acompanhada de reações cognitivas e emocionais, podendo explicar o comportamento dos indivíduos.

A dor não deve ser analisada somente do ponto de vista fisiológico, ou seja, como resultado de uma estimulação dos receptores do sistema sensorial. Ela envolve uma conceituação mais ampla, pois o tipo e a intensidade com que é sentida e expressada dependem da experiência prévia do indivíduo e da sua percepção quanto às implicações futuras da injúria. Segundo resume Moon:

"Dor não é uma sensação simples, mas uma experiência sensorial e emocional complexa

Dor aguda e crônica diferem-se fundamentalmente

Dor que cursa com neurofisiologia central reflete componentes sensorialdiscriminativo (localização e qualidade) e afetivo-emocional

Os conhecimentos atuais em neurofisiologia permitem hipóteses ainda não completamente testadas

A ausência de danos ou de lesões físicas não justifica a aceitação de que a dor seja menos real ou menos severa”.

(MS/OPAS, 2001).

De difícil diagnóstico, particularmente em casos subagudos e crônicos, a LER/DORT têm sido objeto de questionamento, apesar das evidências epidemiológicas e ergonômicas, no que diz respeito ao nexo com o trabalho, principalmente porque, de acordo com a NT/DORT - INSS, o que deve ser considerado “... não é tanto a integridade física ou funcional, mas a integridade produtiva, isto é, o indivíduo enquanto portador de uma determinada potencialidade de trabalho (rendimento), não basta à existência da doença, mas sim a repercussão da doença em sua capacidade laborativa...”.

O termo DORT não é aceito como diagnóstico clínico, fazendo-se necessário ser mais específico, definindo exatamente qual das doenças está sendo referida e que deverá constar no LEM (Laudo de Exame Médico), inclusive com os exames subsidiários pertinentes. “Isto significa que haverá dois momentos: um primeiro, em que se define uma doença ou um quadro clínico específico, e um segundo, em que se estabelece ou não a relação com o trabalho, que, caso confirmado, define -se como DORT”. (INSS, 1988)

Diante do exposto, pode-se dizer que a complexidade do fenômeno da LER/DORT se deve à heterogeneidade do quadro clínico, à dificuldade de diagnóstico em alguns casos, às influências sócio-econômicas no reconhecimento como doença ocupacional, às repercussões psicossociais, aos conflitos de interesses, à dificuldade de tratamento e reabilitação.

A contribuição da análise ergonômica do trabalho, no que diz respeito a LER/DORT, reside no fato de que os estudos sistemáticos das situações de trabalho, através da análise ergonômica da atividade, têm como objetivo compreender o esforço despendido pelo trabalhador no desenvolvimento e realização de suas tarefas. Por isso, os fatores de risco devem ser avaliados no contexto organizacional onde o trabalhador está inserido.

A intervenção sobre os ambientes e condições de trabalho deve basear-se na Análise Ergonômica do Trabalho – AET, nas medidas de proteção coletiva e individual implementadas pela empresa/organização, e nas estratégias de defesa individuais e/ou coletivas adotadas pelos trabalhadores.

“A construção de ambientes de trabalho saudáveis tem sido apontada como uma alternativa de programa para a prevenção de LER/DORT e um facilitador para o retorno de lesionados ao trabalho.

As inúmeras dificuldades que envolvem o manejo de LER/DORT somente serão superadas à medida que os distintos atores sociais envolvidos adotarem uma postura desarmada e respeitosa para lidar com os diferentes olhares, interesses e limites intrínsecos à questão”. (MS/OPAS, 2001).

Assim, o enfrentamento desse problema de saúde pública é um desafio colocado aos empregadores, aos trabalhadores e suas representações sindicais, às universidades, aos serviços de saúde e ao poder público.

Áurea Magalhães
Psicóloga da área de Recursos Humanos da Anvis

Fonte: www.anvisa.gov.br

Lesão do Esforço Repetitivo

As Lesões por Esforços Repetitivos (LER) ou os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT), como são denominados pela Previdência Social, constituem-se num dos mais sérios problemas de saúde enfrentados pelos trabalhadores e seus sindicatos nos últimos anos no Brasil e no mundo.

Cerca de 80% a 90% dos casos de doenças relacionadas ao trabalho notificadas nos últimos 10 anos no país são representados pelas LER/DORT, o que evidencia a gravidade e a abrangência do problema. Esse é, sem dúvida, um dos reflexos mais diretos das mudanças ocorridas nas condições e ambientes de trabalho com a introdução de processos automatizados, com o aumento do ritmo e da pressão para execução do trabalho e com a redução dos postos de trabalho

Por esse motivo, nessa série intitulada "Cadernos de Saúde do Trabalhador" do Instituto Nacional de Saúde no Trabalho (INST) da CUT, dedicamos duas publicações ao assunto, sendo uma delas essa, de autoria da Dra. Maria Maeno, que procura orientar os trabalhadores e sindicalistas a identificar os primeiros sinais e sintomas da doença, a encaminhar o assunto junto à assistência médica e previdenciária e, finalmente, a garantir que, em todas essas etapas, o trabalhador ou trabalhadora seja respeitado em seus direitos como profissional, como segurado da Previdência e como cidadão.

Aoutra publicação da Série (Caderno nº 9) é aquela promovida pela Confederação Nacional do Bancários (CNB) da CUT, de autoria da Dra. Regina Heloísa Maciel, intitulada "Prevenção da LER/DORT: o que a ergonomia pode oferecer". Como o próprio título sugere, trata-se de uma obra voltada para a prevenção da doença e que visa sobretudo, proporcionar aos sindicatos dos bancários e a todos os demais, uma ferramenta de luta.

Somadas às diversas publicações específicas de muitos sindicatos, federa- ções e confederações cutistas e aos demais números da série "Cadernos de Saúde do Trabalhador", essas duas publicações complementam uma lacuna na informação sobre o assunto, contribuindo sobretudo para consolidar um ponto de vista e um estilo de ação sindical em saúde do trabalhador e meio ambiente.

INTRODUÇÃO

As Lesões por Esforços Repetitivos ou como são denominadas pela Previdência Social, Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho provocam diferentes reações nas pessoas que, de alguma forma, têm contato com o problema.

Os adoecidos, no início, geralmente, tentam se esconder achando que os sintomas passarão. Protelam ao máximo a procura por auxílio e quando chegam à conclusão de que não conseguem continuar trabalhando, procuram assistência e suas vidas se tornam uma busca de “provas” de seu adoecimento. Tentam a todo custo convencer suas chefias, colegas e familiares que sentem dores e não conseguem mais fazer o que faziam antes. Tentam provar que não estão inventando doenças e nem se tornaram preguiçosos. Os profissionais de saúde e segurança no trabalho das empresas, atropelados pelo grande contingente de trabalhadores adoecidos, não conseguem compreender que os determinantes causais vão além de um agente específico, como estão habituados a pensar. Muitos estão certos de que se trata de modismo e acabam culpabilizando os trabalhadores, numa atitute mais cômoda do que admitir que não conseguem prevenir.

No máximo tentam administrar o problema. Centram as explicações para a ocorrência da doença em fatores individuais, tais como gênero, alterações hormonais ou suscetibilidade psíquica, ignorando aspectos sociais, exigências reais do trabalho e a rela- ção do trabalhador com o trabalho. As empresas vêem esses trabalhadores adoecidos como perigosos disseminadores de insatisfações, queixas, dores, incapacidades. A Previdência Social, constatando que, há quase 10 anos, as LER/ DORT r e p r e s e n t a m entre 80 a 90% das doenças relacionadas ao trabalho notificadas e certamente o maior gasto pelo longo tempo de incapacidade no trabalho dos pacientes, tentam a todo custo diminuí-las nas estatísticas. Sem se preocupar com a prevenção, vem adotando critérios mais rigorosos para enquadrar os casos como relacionados ao trabalho.

As perguntas que pairam entre os que atuam na área de Saúde do Trabalhador são:

Conseguiremos mudanças nas condições e organização do trabalho para que haja diminuição do número de adoecidos?

L E R / D O RT continuarão a s e r reconhecidos como doenças relacionadas ao trabalho pela Previdência Social atual ou por outro eventual sistema de seguro?

Há claramente um movimento de determinadas instituições em busca de soluções cosméticas, visando queda de casos apenas nas estatísticas

Esse movimento tem sido respaldado por teses e posturas de profissionais de saúde inseridos nas mais variadas instituições, inclusive universidades.

A nós, promotores da saúde, incomoda mais do que a ninguém constatar o adoecimento e sofrimento de tão grande contingente de trabalhadores brasileiros. Mas não nos interessa uma solução cosmética, de manipulação de dados estatísticos. Resta saber se conseguiremos conquistar soluções reais que resgatem a dignidade e a saúde do ser humano, freqüentemente visto somente no aspecto produtivo. E isso só será possível com a mobilização social, em particular dos trabalhadores.

ENTENDENDO O SISTEMA MÚSCULO - ESQUELÉTICO HUMANO

O s i s t ema músculo-esquelé- tico é composto por vários elementos: ossos, q u e s ã o a p a r t e que compõem a estrutura do esqueleto e as partes moles, compostas por músculos, fáscias, sinóvias, tendões, ligam e n t o s , nervos. Esses elementos permitem que os ossos se sustentem, se articulem e se movimentem. Imagine se só existissem os ossos, sem nada que os articulasse. Eles despencariam no chão como um monte de ossos.

E imagine se só existissem as partes moles, sem uma estrutura consistente. Também despencariam no chão como um monte de “carne”. Assim, para existir o que conhecemos como corpo, é preciso que o sistema músculo-esquelético esteja completo e íntegro.

Algumas doenças do sistema músculoesquelético, como por exemplo, artrite reumatóide, podem causar deformidades visíveis a olho nu.

Outras não são perceptíveis a uma simples inspeção visual, como por exemplo, tendinites crônicas

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