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Diário Íntimo

Lima Barreto

1903

Época: 1874 a 1905

Clara.

Nasceu..........................1868
Morte do pai.................1887
Deflorada......................1888 (12 ou 13 de maio).

Dá à luz.........................1889
Deixada.........................1892
Casada..........................1894
Viúva............................ 1899
Amigada de novo...........1900

* * *

Preciso saber de que data são as “Vozes d’África”.

Veio residir em Catumbi em 1884.

* * *

Clara deve primeiro intentar os soldados à noite no acampamento de Maria Angu, depois, aconselhada, vai ao Frutuoso, de manhã, que a recebe, escrevendo uma carta cheia de sentenças filantrópico-políticas, e escrevendo continua a dar-lhe atenção.

David é fuzilado de manhã no meio de um campo, fazem-lhe cavar a cova e depois zás.

* * *

A sedução de Clara passara-se no dia 13 de maio.

* * *

Amigada com casa montada briga com a dona Quitéria. O delegado e os escrivães, gente libidinosa, querendo conquistar todas as mulheres que lhe vão às repartições.

* * *

A república passa-se enquanto ela, amigada com o Monteiro, recebia algumas pessoas de sua amizade, entre os quais o Sá Bandeira, que, para casar a filha, adulava-a, para arranjar dinheiro...

* * *

Fuzilado o seu marido, ela amiga-se com o alferes tal, das forças; finda a revolta ele a deixa e ela procura empregar-se em serviço doméstico. A vida que leva.

* * *

Amancebada com um operário espanhol que fica entrevado, vai morar numa estalagem no Mangue.

O dia do funeral, a força passa. Comanda-a Frutuoso, general, e, antes, elas conversam sobre o bicho, lavando roupa e cantarolando.

* * *

O Frutuoso, por acaso, conversa em uma roda alegre, um deles afirma que o Benjamim Constant era um impostor, que não sabia matemática e nem nada. Reflete Frutuoso, examina o que ele deixou de obras, os seus cursos em que havia mais política e eloquência que profundeza matemática, e concorda intimamente com a história. Vai pelo bonde e no caminho salta nele um colega e ele se refere à conversa e por fim ele solta uma frase.

(Convém procurar essa frase nos exemplos vivos: Liberato, Moreira Guimarães. Ler a Revista Militar).

* * *

“Quando, porém, procede inversamente, vai de encontro à função que fica fementida e perturbada.

Este fato se produz, sobretudo, quando o chefe, saindo de sua impersonalidade, determina ordens no sentido de sua satisfação individual açulada por forte dose de vaidade.

O comando é, em suma, a determinação do ato funcional no conjunto hierárquico da força armada.

Saiamos agora do estilo imaginoso que não podíamos deixar de empregar nesta exposição”.

Da Revista Militar, 1904.

* * *

Frutuoso, com uma pretensão, julga humilhante se empenhar como um paisano para o ministro da Guerra.

Tinha bochechas cheias, bigode esfarelado ao ar e olhos miúdos.

* * *

A classificação de ciências do Frutuoso: Ciências estáticas Ciências dinâmicas Ciências estático-dinâmicas Exs.

1a — A Geometria, a Mineralogia etc.

2a- A Astronomia, a Química.

3a — A Biologia, a História e a Nigromancia.

* * *

Verso de um soneto de Frutuoso: “Marcando aos homens o dever do justo”.

* * *

Opiniões do Gomensoro.

Os negros fizeram a unidade do Brasil.

O negro é recente na terra.

Os negros, quando ninguém se preocupava em arte no Brasil, eram os únicos (O. Duque, Arte Brasileira).

Os produtos intelectuais negros e mulatos, e brancos, não são extraordinários, mas se eqüivalem, quer os brancos venham de portugueses, quer de outros países.

Os negros diferenciam o Brasil e mantêm a sua independência, porquanto estão certos que em outro lugar não têm pátria.

Se um viajante, sábio etc. etc., sem saber a história do passado, fosse visitar os árabes atuais, negaria qualquer capacidade intelectual a eles.

A capacidade mental dos negros é discutida a priori e a dos brancos, a posteriori.

A energia só se tem revelado depois de lenta submissão (hunos, plebe romana, bárbaros em geral).

A coragem é da mesma maneira. O português, que é humilde entre nós, é um povo valente; o fim a que se propõe, obriga-o a curvar-se.

Discutindo a incapacidade mental desta ou aquela raça, temos o ar de dizer com o poeta grego — os bárbaros, gente vil que não ama a filosofia e ciências; ele se dirigia ao avô de Kant e ao tio de Descartes.

Se a feição, o peso, a forma do crânio nada denota quanto a inteligência e vigor mental entre indivíduos da raça branca, porque excomungará o negro? Os árias, quando no plateau da Bactriana, nada valiam; emigrando, após séculos de fermentação, brilharam numa cultura superior; porque os negros, transportados de África pelo tráfico, não desenvolverão uma civilização ou concorram para ela? Esse fenômeno de mudança de habitat é importante para o estudo.

A ciência é um preconceito grego; é ideologia; não passa de uma forma acumulada de instinto de uma raça, de um povo e mesmo de um homem.

Se há três geometrias etc. etc.

* * *

Outubro

Discurso que fiz ao barão de Itaipu.

É caso, senhor barão e meus senhores, que o encanto da complexidade da vida nos assombra e nos atrai. Ora esse aspecto absorve nossa alma, ora aquele outro faz convergir para ele toda a energia de que são capazes os nossos sentidos; e sempre — em vão procurando decifra-la — a estrutura íntima da vida aparece ao nosso entendimento como um eterno problema a resolver.

Armamo-nos de ciências e filosofias, e, se com elas percebemos uma face da existência, deixamos escapar uma outra, ou descobrimos novas. Nesse suplício, que lembra, ao mesmo tempo, os mitológicos das danaides e de Sísifo, percorremo-la tacteando em trevas.

Entretanto, há um seguro instrumento para a compreender: é viver.

Viver é acumular intuições e noções, que vão formar um cabedal pessoal e intransmissível. É construir uma sabedoria individual; é, de alguma forma, decifrar o magno problema, pois só o lento evolver na vida nos fornece a verdadeira percepção dela mesma e a sua representação, cuja passagem a outrem é impossível.

Será talvez por isso que, com os anos, aos nossos corações chega aquela calma transcendental que nos faz saborear, com carinho, todas as suas feições e pairar desassombradamente sobre os acontecimentos.

Lembro-me agora de um fato. Era menino. Com meu pai, assistia a um dramalhão ensangüentado. Ao meu lado direito, adiante do meu progenitor, um senhor tinha os olhos úmidos; em frente, uma moça soluçava com a ingênua; à esquerda, porém, um cavalheiro, com a fisionomia parada, e plácida, seguia com afinco a representação. Não perdia um gesto, uma frase, um movimento...

Quando saía, pelo fim da peça, ouvi dizer a um amigo: — Aproveitei bem a minha entrada.

Para espetáculo do mundo, só os anos dão a calma do meu espectador.

E, por ser assim, é que eu, ainda avaro em anos, gabo a passagem de mais um, pois que me vou vendo chegar ao tempo em que poderei apreciar, com o máximo rendimento, a dádiva de viver.

Aproveitarei melhor a minha entrada, então... Todas as grandes qualidades de Vossa Excelência, senhor barão, de honradez, de experiência, de culto ao dever e à justiça, de tolerância e de bondade, acentuadas cada vez mais por essa sabedoria de que falei, lograram transformar, de cada um de nós, classificados diversamente pelas necessidades da administração, em um amigo e um admirador. De tal forma é assim, que sabemos que, em Vossa Excelência, temos um mais alto critério e um árbitro máximo, indicados pelo respeito, pela admiração e pela amizade que crescem dia a dia, razão por que, neste, sabedores de que mais um ano Vossa Excelência acrescenta aos já vividos, pedimos aos deuses protetores que muito mais sejam os que restam a Vossa Excelência, para maior ser a nossa veneração.

Era o que eu tinha a dizer.

* * *

Sem data

Capítulo 1 — A família Brandão.

Capítulo II — Marco Aurélio encontra uma conhecida de infância, Araci, relembra-lhe a história. Considerações. A rua. A escola, as pressões.

Capítulo III — A festa de formatura. Os lírios. O discurso de Marco Aurélio. A alegria da família dona Romualda e a filha Mendonça.

Capítulo IV- Marco Aurélio Brandão, compadecido da miséria de um colega, doente, sem dinheiro, recolhe-o a sua casa.

Capítulo V — Sentindo-se melhor, mas não tendo para onde ir, o rapaz continua em casa e começa a namorar a irmã.

Capítulo VI — Sedução de Alice pelo Mendonça, e como ele dá farinha envenenada à filha.

Capítulo VII — Gravidez.

Capítulo VIII — As explicações e recusa.

Capítulo IX — O assassinato pelo outro irmão, a desculpa de Marco Aurélio e a queda dos titãs.

Deve dar vinte capítulos.

O caso do Mendonça. Um poeta seduziu uma mulata. Houve um filho. Ele não quis casar com ela. Indo uma vez pedir o que comer para o filho, ele lhe deu farinha láctea com sublimado corrosivo.

Marco Aurélio. Pedro. Alice. O velho Nicolau. A criada Ana.

Silvino Cavalcanti. Manuel da Costa Freitas.

Romualda. Amélia.

* * *

CAPITULO 1

Marco Aurélio, orgulho, bondade, talento, tristeza em ver “a gente” sem força, sem coragem, sem ânimo de trabalhar e de lutar, os homens; as mulheres, sem dignidade, sem grandeza, sem força para resistir às seduções, mergulhadas na prostituição.

Pedro, seu irmão, capadócio, tocador de violão, capoeira, altivo e corajoso, mas inútil.

Alice, passiva, não conhecendo bem a sua situação.

Tia Rosa, doçura, filosofia pessimista, certeza de que não é nada.

O velho Nicolau, africano, dedicação, etc.

Ana, preta, resignação, jovialidade.

Marco Aurélio acaba de se formar, o seu gênero de estudo, o seu orgulho de inteligência, a sua tristeza em ser único, prepara-se para festejar a data.

É de manhã, a família toma café, a irmã pede-lhe licença para convidar Amélia, filha da Romualda, prima de sua mãe; ele a dá contrariado, mostra-lhe os inconvenientes. Antes de sair, chega-lhe o seu colega Cavalcanti, é um ano mais atrasado, vem lhe pedir um livro.

Conversam um pouco. O colega abre um livro, a Bíblia, por acaso dá com esta passagem: “Bendito seja o senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra”.

— É terrível esta Bíblia, comenta o outro.

E ambos saem.

* * *

Sem data

MARCO AURÉLIO E SEUS IRMÃOS

Bendito seja o senhor Deus meu, que adestra as minhas mãos para a batalha e os meus dedos para a guerra. Salmo 141

PRIMEIRA PARTE

Tito, fora de seus hábitos, despertara cedo. A tepidez e a beleza da manhã tinham como que atravessado as paredes da velha casa, as fortes portas da janela, fazendo-se sentir no interior do quarto, completamente fechado, somente iluminado pela claridade vaga que se coava pelos óculos das janelas. O velho preto não demorara em trazer o café. Há quinze anos que ele o fazia, com a mesma regularidade e com aquela larga e doce simpatia, que só se encontra nessas almas selvagens dos velhos negros, onde o cativeiro paradoxalmente depositou amor e bondade. Enquanto o café esfriava na mesa de cabeceira, Marco Aurélio pôs-se a remontar o destino daquele pobre homem, que o servia e o amava desde quase o nascer. Viu-o criança, muito negro, retinto, feio, entre os braços da mãe na cubata natal, crescendo ao forte sol da África, aquele sol que fecunda e que mata, para onde se alçam as altas palmeiras num ardor de paixão insuperável. Viu-o, depois, crescido, aos sete anos, já tangado, aprendendo a usar as armas da tribo e ensaiando-se nas culturas elementares da sua rudimentar agricultura. Depois, e em seguida, eram as festas, aquelas danças em que o apelo à divindade se faz com esboços de representações de atos amorosos, presididas por aqueles fantásticos feiticeiros. Um dia... Como foi? Quem o saberia? Um encontro, um ataque às cubatas, lá vinha ele, infante ainda, ao sol forte do triste continente, entre um rebanho de irmãos, jungiam aos dois, da corrente, carregando volumes, a descer até o negreiro que os trouxesse às plantações da América. E desde oito anos até hoje, durante mais de cinqüenta. ele tinha trabalhado de sol a sol; e agora, agora que nem talvez uma década lhe restava de vida, que consolo tinha ele? Filhos? Mulher? Fortuna? Terra? Sete palmos onde enterrasse aquela sua carne, pois o seu sangue há muito que a ensopava. Nada! E ele então começou a perguntar-se por que estranhas leis aquela humilde vida tivera que atravessar léguas e léguas, desertos e oceanos, para vir acabar aqui tão tristemente, depois de encher um semi-século de trabalho. Havia mesmo leis que se servissem da cupidez e da perversidade humana para tal fazer, ou era o acaso, só o acaso? E ele não soube responder e fatigou-se de pensar. Ergueu-se, abriu a janela, olhou em torno a paisagem. Os cajueiros estavam em flor e o bambual cerrado só deixava uma fresta para ver o mar e a cidade lá embaixo, surgindo das águas, com o seu casario tumultuário a subir pelos morros, que começam a branquear à luz já firme da manhã. Um sino tocou. Era o sino da velha igreja conventual, onde se instalara o asilo. Ele lembrou-se, então, do seu serviço, aquele obscuro serviço de escriturário, sempre doloroso, sempre amargo, sempre humilhado, mais que isso; ali, entre dois médicos, não sei quantos internos, todos doutores e senhorias, mais amargo e mais doloroso se tornava. Lembrava-se bem do seu curso perdido, das suas esperanças de posição e consideração, há dez anos passados, quando um dia voltava com os preparatórios feitos, para a casa e a alegria que causara ao pai. Ele se pôs a recordar o curso, os processos de aprovação, a venalidade dos lentes, a sua covardia diante do poder e da força, e pensou consigo que essa nobreza universitária, de exames e diplomas, era duas vezes mais cínica e mais rapace que e milhares de vezes maior que a nobreza de dinheiro. Em uma, havia emprego, trabalho, imaginação para as especulações e para os ganhos. Na outra, havia bravura, generosidade, energia; mas na nossa, nada, nem o saber, sobre o qual ela se faz repousar, e poucas vezes a inteligência, de que ela se arroga o monopólio. Lembrava-se do dia em que se apresentara para tomar posse do lugar: — Marco Aurélio! disse-lhe um interno no veículo. O senhor ainda vive? E o idiota contraía os lábios, contente com o espírito que fizera. E a galeria do pessoal superior começou a passar-lhe pelos olhos. Primeiro, o ecônomo, um homem cauteloso, tímido, vivendo à parte, filosoficamente, cheio de respeitos por tudo e por todos; era o homem mais firme, de mais caráter de todos; era o único em quem não se podia apontar uma infração no regulamento. Ordenava-lhe a lei que morasse próximo, ele morava; que assistisse as refeições dos asilados, ele assistia. Depois, o diretor, um velho formado em medicina, espécie curiosa de médico, que se amedrontava com a perspectiva de passar uma receita. Depois, o médico, os dois internos, estes pedantes, enfumaçados de sábios etc...

1905

1 de janeiro

Hoje, dia de Ano Bom (10 de janeiro de 1905) levantei-me como habitualmente às sete e meia para as oito horas. Fiz a única ablução do meu asseio, tomei café, fumei um cigarro e li os jornais. Acabando de lê-los, arrumei as paredes do meu quarto. Preguei aqui, ali, alguns retratos e figuras, e ele tomou um aspecto mais garrido. Há, de mistura com caricaturas do Rire e do Simplicissimus, retratos de artistas e generais. Não faz mal; nesse aspecto baralhado ele terá o aspecto da vida ou da letra “A” do dicionário biográfico, que traz Alexandre, herói de alto coturno, e um Antônio qualquer, célebre por ter inventado certa pomada. Como a casa me aborrecesse, não unicamente pela tristonha moléstia de meu pai, mas por ela em si, com quem nunca me acomodei, resolvi dar uma volta. Demorando-se o trem na estação de Todos os Santos, fui toma-lo na de Engenho de Dentro. O trem, banal como sempre; idiota e mascavado. Quase ao chegar ao Largo da Carioca, assisti uma cena de que já me ia desabituando. Três soldados do Exército em grande gala forçavam os vendedores ambulantes a lhes darem a sua fazenda gratuitamente. A um qualquer passante, isso, tachado de roubo, valeria um passeio até à estação policial; mas a soldados, não; eles se foram na mais santa das pazes. É coerente isso: o papel dos exércitos, desde os mais extraordinários de Condé e Frederico, até às nossas guardas nacionais da América do Sul, é esse mesmo. Eles três individualmente fizeram o que, talvez mais tarde, hão de fazer sob o pendão auriverde, em meu nome e no dos demais pacíficos homens desta terra.

Muni-me de uma ida e volta para o Leme e no elétrico voei linhas afora até o meu destino. A viagem até ao Largo do Machado foi banal e corriqueira. No banco em frente a mim iam dois burgueses, desses respeitáveis, passados dos cinqüenta e ainda em santa paz conjugal. O homem era dos vulgares em sua classe. A mulher tinha características fisionômicas. Uma penugem rala crescia-lhe dos cabelos até o pescoço, fazendo supor, que, como um debrum simétrico, fosse pelas pernas, o busto, até aos pés. A cintura quase lhe ficava no pescoço e os seios empinados dentro de uma blusa cor-de-rosa de seda acabavam o seu todo grotesco. Na Rua Marquês de Abrantes, embarcam a Odete C. P. e outras. Nada de notável, a não ser a vulgaridade.

Pleno Leme. O dia é meigo. O Sol, ora espreitando através de nuvens, ora todo aberto, não caustica. Nos dois abarracamentos cheios de gente, espoucam garrafas de cerveja que se abrem. A praia se estende graduada, harmônica, desde o monte do Leme à igrejinha. A ponta recurva desta é como a cauda de um peixe que se dobrasse num “samburá”. Por detrás, a lombada de morros pintalga de verde-esmeralda, verde-garrafa, verde-mar, variando cambiantes aqui, ali, consoante as dobras do terreno e a incidência da luz, pintalga o azulado opalino do dia. O mar muge suavemente. As ondas verde-claro rebentam antes da praia em franjas de espuma. Pelo ar havia meiguice, e blandícias tinha o vento a sussurrar.

A gente que há é a vulgar dos piqueniques. Gente simplória que, enclausurada em casa uma semana, um mês, um ano, quem sabe, resfolegava naquele dia ao ar livre. Havia um deputado e família, o que não diminui nem altera a minha observação. No bonde, na altura da Rua dos Voluntários, tomaram-no dois rapazes e uma rapariga. A rapariga sentou-se ao meu lado. Como era de meu dever, comecei a observar-lhe discretamente. Ela não se aborreceu e observou-me. Estendeu a mão, mirei-lhe a mão com amor e firmeza. Ela escondia. Eu fingia olhar para outro lado, ela estendia, eu olhava. E assim fomos até ao Leme. Era uma espécie de galanteio que eu tinha inventado e que agradara a italiana (falava em patoá italiota com os rapazes). Já nas curvas, ela avançava mais do que eu. Dava-me encontrões. Preparei o flirt para o botequim, mas, aí chegando, o cioso irmão, percebendo, levou-a para longe. A minha covardia não permitiu que a seguisse, nem que a esperasse, de volta. Com isso, eu adquiri uma certeza; embora mulato, os meus olhares podem interessar as damas e desconfiar os irmãos delas.

Fui ao bastião do Leme. Na concavidade que há ali, fizeram um bastião poligonal a terminar nas duas asas da curva. Um velho canhão de ferro com as quinas repousa indolentemente num dos ângulos: é como um funcionário aposentado.

Na volta, o Teixeira Mendes veio. Benzi-me. Saía do São João Batista. Adiante conversava com umas senhoras elegantemente vestidas (garanto, é verdade). Falavam de coisas familiares. Na praia de Botafogo, a senhora mais velha, olhando as obras, disse: — Vamos ter um Rio de Janeiro bonito! — Parece... A questão é que as cabeças não andam direito, disse o apóstolo.

O apóstolo fala como se falou há vinte mil anos. Nada novo. Cediço. Puh! Pagou duas vezes a passagem (do cemitério ao Largo do Machado e do Largo à Glória), em nenhuma delas recebeu coupons. Singular! Não atino porque. Talvez seja um modo especial de ser altruísta: permitindo que o condutor furte. Puro anarquismo!

* * *

2 de janeiro.

Hoje, dia 2 de janeiro. Chegando à secretaria, fui cumprimentar o ministro pela entrada do ano novo. A coisa foi a de sempre. O barão, o diretor, disse algumas palavras em voz baixa, e o Argolo também respondeu assim. Depois apertou-nos a mão em mão e dessa vez a alguns dirigiu umas palavras.

A mim ele chegou-se e, com aquela fisionomia sem olhar e com a voz incolor, indagou: — Você é o novato? — Sim, senhor. Sou o mais moço.

— O mais moço, frisou ele.

— O mais moço aqui na secretaria.

A coisa não tinha grande graça, mas todos riram-se, incluso o ministro.

Até ao meio-dia, ele recebeu cumprimentos. Havia alguma frieza; entretanto, os aspectos eram os mesmos de quando ele recebeu, há um mês, cumprimentos pela vitória do governo, cujos detalhes já tomei nota. O Matias continua na sua faina de cavar jornais. Hoje, em falta de outro, procurou o Diário Oficial.

Dos jornais, de notável só estes versos, sobremodo estúpidos:

I

És mais formosa do que um crisântemo, Mulher gentil, aurora de meus sonhos.

Só de pensar em desengano, tremo, Como em frente aos fantasmas mais medonhos.

II

Tens um nome tão doce como as flores, que em lembrá-lo somente me extasio.

E sinto se esvaírem minhas dores, Qual águas cristalinas dalgum rio.

III

Teu corpo tem da forma a divindade E se desenha por entre as brancas vestes, Onde se reúne à simplicidade A graça que possuis e o revestes.

Rio, 27-12-1904.

Com freqüência, os jornais traziam casos desses. As vezes era uma pretinha, outras era já uma rapariga. Davam-se em casas da pequena burguesia, dessa que se quer fazer de grande, etc. etc. É um estudo que me tenta o do serviço doméstico entre nós. Em geral, as pessoas se queixam dos criados e eu sempre objetei que os criados têm razão contra os patrões e os patrões contra os criados.

“Três anos de martírios. Surras diárias.

Há três anos, mais ou menos, chegou a esta capital, vinda do interior de um dos estados vizinhos, a menor Claudomira, de 20 anos de idade, indo para a casa de uma família residente à Rua Nora no 2-D.

Durante algum tempo foi essa moça tratada relativamente bem, pois, no desempenho de suas ocupações, que era a de criada, se houve com geral agrado de todos.

Não gozou, entretanto, essa infeliz da paz que, na sua obscura existência, perenemente fazia vicejar a rósea claridade dos seus sonhos de moça.

A mais horrorosa situação, com todo o cortejo de ignomínias, lhe criou o atroz destino.

Não lhe valeu o esforço sobre-humano que empregava para libertar-se da pesada tarefa que lhe era dada nos vários serviços da casa, onde, sem causa que tal justifique, lhe aplicam o mais terrível castigo: o açoite! Tudo tem suportado essa desgraçada.

Crente na misericórdia divina, dominava-lhe a esperança de ver aplacada a fúria desumana dos seus algozes.

Tudo em vão! Impedida de sair à rua, desde que aqui chegou, vive essa desventurada sob o jugo dos seus verdugos.

De tudo a vizinhança sabe.

Desde as primeiras horas da manhã, já se ouve, como fúnebre matina, as lúgubres pancadas do açoite! E essa infeliz não grita: lamentos abafados, soluços de dor, essa macabra confusão com a voz do algoz, enchem de pavor a vizinhança.

É chegado o momento da redenção que terá lugar com a intervenção da polícia da 15a circunscrição.

* * *

3 de janeiro.

O espetáculo circundante nada apresenta de novo. Ontem, eram onze horas, eu estava no meu quarto, escrevendo, passou um pequeno da vizinhança. Chegando em frente à nossa casa, deu boas-noites. Pelo jeito, pareceu-me que o dera para a minha irmã ou para a tal Paulina, que é uma vulgar mulatinha, muito estúpida, cheia de farofas de beleza e de presunção, que é ou que pode ser namorada. Achei aquilo inconveniente. Que um sujeito, passando por uma casa fechada, desse boas-noites a moças recolhidas num quarto de dormir. Nesse sentido, inquiri minha irmã, que desmentiu. Há em minha gente toda uma tendência baixa, vulgar, sórdida. Minha irmã, esquecida que, como mulata que se quer salvar, deve ter um certo recato, uma certa timidez, se atira ou se quer atirar a toda a espécie de namoros, mais ou menos mal intencionados, que lhe aparecem. Até bem pouco era na casa do tal Carvalho, onde se reumam toda a espécie de libertinos vagabundos; cortei essas relações. Agora é na casa do idiota do Sardinha, casa de positivista, o que quer dizer fábrica de namoros. Se a minha irmã não fosse de cor, eu não me importaria, mas o sendo dá-me cuidados, pois que, de mim para mim, que conheço essa nossa sociedade, foge-me o pensamento ao atinar porque eles as requestam. A tal Paulina é vulgar, chata como um percevejo, e a meu pai nunca perdoarei essa sua ligação com essa boa negra Prisciliana, que grandes transtornos trouxe a nossa vida.

A uma família que se junta uma outra, de educação, instrução, inteligência inferior, dá-se o que se dá com um corpo quente que se põe em contato com um meio mais frio; o corpo perde uma parte do seu calor em favor do ambiente frio, e o ambiente, ganhando calor, esfria o corpo.

Foi o que se deu conosco.

Eu, entretanto, penso me ter salvo.

Eu tenho muita simpatia pela gente pobre do Brasil, especialmente pelos de cor, mas não me é possível transformar essa simpatia literária, artística, por assim dizer em vida comum com eles, pelo menos com os que vivo, que, sem reconhecerem a minha superioridade, absolutamente não têm por mim nenhum respeito e nenhum amor que lhes fizesse obedecer cegamente. Entretanto, é por meu pai e, por assim ser, levarei a cruz ao Calvário, pois que, se meu pai fez tal coisa, foi por supor que nunca nos atingiria, mas a desgraça não quis e a coisa nos atingiu.

O filho da tal negra despediu-se do emprego em que o pus para ficar em casa escrevendo versos.

É o que se dá comigo e me faz dia e noite sangrar de dor.

Se essas notas forem algum dia lidas, o que eu não espero, há de ser difícil explicar esse sentimento doloroso que eu tenho de minha casa, do desacordo profundo entre mim e ela; é de tal forma nuançoso a razão de ser disso, que para bem ser compreendido exigiria uma autobiografia, que nunca farei. Há coisas que, sentidas em nós, não podemos dizer. A minha melancolia, a mobilidade do meu espírito, o cepticismo que me corrói — cepticismo que, atingindo as coisas e pessoas estranhas a mim, alcançam também a minha própria entidade —, nasceu da minha adolescência feita nesse sentimento da minha vergonha doméstica, que também deu nascimento a minha única grande falta.

Hoje, pois, como não houvesse assunto, resolvi fazer dessa nota uma página íntima, tanto mais íntima que é de mim para mim, do Afonso de vinte e três anos para o Afonso de trinta, de quarenta, de cinqüenta anos. Guardando-as, eu poderei fazer delas como pontos determinantes da trajetória da minha vida e do meu espírito, e outro não é o meu fito.

Aqui bem alto declaro que, se a morte me surpreender, não permitindo que as inutilize, peço a quem se servir delas que se sirva com o máximo cuidado e discrição, porque mesmo no túmulo eu poderia ter vergonha.

* * *

4 de janeiro.

A minha casa continua a aborrecer-me sobremodo. Ontem. De manhã, encontrei um sujeito, que me andou aqui na secretaria, a aborrecer-me, para mandar a cópia do decreto que lhe concedia as honras de alferes do Exército. Mandei, O simplório do homem, mal pagou a patente no Tesouro, meteu-se numa farda de linho branco e, agaloado, transita de sua residência para o lugar que trabalha. Vai mais garboso, mais inflamado. E às vezes olha em redor disfarçadamente. Há nessa inspeção desconfiança e orgulho. Desconfiança que os outros militares não o debochem, e orgulho, porque se distingue dos restantes civis. O pobre homem sentia o que todos nós sentimos a necessidade do lustre.

Na nossa vida complicada, o lustre é tudo, e uma atmosfera de lustre é como um ambiente de carícias, e carícias que tanto mais precisamos, quanto a nossa vida é falta de outras satisfações. O burro do Lago, o diretor da contabilidade, é extraordinariamente idiota.

É uma coisa que nada tem a ver com o que foi escrito acima, mas que, no entretanto, deu-me vontade de escrever.

* * *

5 de janeiro.

Hoje, no trem, vim com uma menina que me despertou a atenção. Ela não era bonita, antes feia e sardenta, porém, de corpo, apetitosa, era dessas que os franceses chamam fausses maigres. Cheia de carnes, redondinha, ela despertava facilmente o furor báquico. Vinha no trem com pai e irmãos. Sentara em um banco afastado e, cobrindo-se de expressão dolorosa, repousava a cabeça sobre a mão, que, em começo, bonita, polpuda e abacial, acabava nas pontas de dedos feios, chatos. Mas o que me chamou a atenção foi um detalhe da toilette. Evidentemente menina pobre — mesmo as mãos denunciavam, naquelas pontas de dedos feios, os estragos do trabalho manual —, pobre, pois, não tendo talvez um vestido decotado e querendo sair com um assim, dobrara a gola do casaco afogado para dentro na altura das espáduas. A coisa foi boa, porquanto as suas espáduas eram das melhores.

* * *

6 de janeiro.

Dia de chuva.

Três horas da tarde, O sol começa a aparecer. Espreita por entre as nuvens. Dentre as matas das encostas altas, erguem-se fiapos de nuvens. Parece que pelas matas há uma enormidade de caieiras de verão. Os fiapos saem como novelos de fumaça. O verde varia de matiz. Onde mato grosso escuro é; onde ralo ou campina, claro. Passa de um para outro matiz bruscamente.

Mangueira.

A montanha é alta. O verde vai esmaecendo e para cima há cambiantes azulados. O Sol coa-se através de nuvens na altura da Tijuca. Há múltiplos matizes confundidos.

Central.

O Sol mais forte. As nuvens franjam-se de ouro. Como doidas correm para as bandas de Petrópolis.

* * *

7 de janeiro.

A manhã bonita. Desço. O ar acaricia. Tudo azul. A paisagem é de algum modo européia.

Praia Formosa.

Serra dos Órgãos aparece por entre os morros de São Diogo e os de Barro Vermelho. Azul-ferrete com tons de aço novo. Os cumes beijavam as nuvens; à meia encosta, condensavam cúmulos. O mar aparecia espelhante, semelhava de nível mais alto do que a terra.

Campo de Sant’Ana.

Ar polvilhado de alegria. Azul diáfano. Tudo azul. As árvores verdoengas do parque destoam. O rolar das carroças é azul; os bondes azuis; as casas azuis. Tudo azul.

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8 de janeiro.

Ontem, à tarde, estive com o saboroso Carneiro, o Manuel Otávio, engenheiro dos esgotos de Niterói. Gosto imenso dele; é inteligente, é doce, é bom, mas há nele uma pontinha de dúvida, a meu respeito, que me apoquenta. Voltando só com ele da Rua Primeiro de Março, fomos tomar refresco no Cascata. Aí ele me disse: — Barreto, sou dos teus amigos o único que quer ficar obscuro. Contento-me em estudar a condução da merda dos niteroienses, e isso porque eles me pagam... etc. etc.

Nisso, o Filomeno nos interrompe; continuando a subir pela Rua do Ouvidor acima, Carneiro foi despejando coisas dúbias, frases sem nexo, que eu decididamente não lhe compreendi o estado d’alma.

Amores... Aborrecimento comigo... Falta de dinheiro... Que seria? Que desconforto lhe causaria isso, a ele, tão jovial, tão calmo sempre? Hoje, 8, domingo. Pleno Leme. Cediço. Nada novo. Não há moças bonitas. Só velhas e anafadas burguesas. Turcos mascates e suas mulheres também. O João, um imbecil do meu gasto pessoal, o João T... B..., foi comigo. Fomos ao fortim. Canhão do século atrasado. Ruínas portuguesas. Esforço dos lusos. Povoamento do Brasil. Pedro Álvares Cabral. Bandeirantes. Jacobinos idiotas, burros, ingratos. Ipanema, tal qual o Méier. Duas vezes, pelo caminho, encontrei o Serrado a cavalo. Chapéu de cortiça inglês. De branco. Pela rua, fazia o que ele tem feito sempre na vida, galopar e saltar todos e quaisquer obstáculos, fossem quais fossem. Homem águia. Pavorosa vontade de urinar. Passeio com o João pela avenida a construir. Cais do beira -mar. Travessa do Maia. “Ei-la”. Número 22. Que doçura de fisionomia. Pálida. Calma. Cílios poucos. Não há nela nem revolta, nem resignação. Interessa-me. Queria-a para minha mulher. Mas eu... Ah! meu Deus! Há de ser sempre isso. Há uns tempos a esta parte, vai se dando uma curiosa coisa. Na rua, nos bondes, nos trens, eu me interesso por certas moças e às vezes por cinco minutos chego a amá-las. Procuro-lhes a moradia. Passo duas, três vezes pela porta timidamente, gauchement — onde me levará isso? Toma tento, Afonso! Não te precipites. Olha bem. “Nosce te” ...

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Reflexões no Leme.

Divertimento que, tirado dos colégios, foi fazer, no Leme, as delícias dos marmanjos — o balanço.

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Há aqui alguns ingleses, com máquinas fotográficas, pavorosos; (parodiando) porque todos os ingleses não ficam na Inglaterra?

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Quando se quer divertir, deve-se andar só. Os imbecis mesmo perturbam.

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Se toda a humanidade desse passeios ao Leme, teria mais felicidade.

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A felicidade depende mais das nossas cogitações interiores, do que mesmo das circunstâncias exteriores que nos envolvem.

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As nuvens, ao correr, esgarçam-se nas pontas das montanhas, ao jeito de fumaça nas locomotivas.

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10 de janeiro.

Ontem, dia morto. Nada de novo. Nem uma nota, nem um pensamento. Atravessei a cidade, dei as minhas aulas. Escrevi quatro páginas do meu livro; não foram boas, ou antes, não estão firmes, vigorosas como eu as gosto. Farei o trabalho novamente.

Hoje, dia quente, cheguei um tanto mais tarde na secretaria. À minha banca, veio-me falar o major Vital. Esse major é um pretinho, fulá, magrinho, de crânio deprimido, olhos quase à superfície da fisionomia, pele de sapato velho que nunca foi engraxado. Esse pretinho usava farda de major honorário, e tendo estado no Paraguai, obtivera umas honras militares. Depois, com sucessivos acontecimentos, as honras foram aumentando e, um belo dia, surge um, em Pernambuco, de igual nome, branco, que também tinha estado na campanha. Papéis pra lá, papéis pra cá, o branco foi considerado como sendo o que de direito. O major foi despedido de servente do Arsenal de Guerra, excluído do asilo, ficou na miséria. Vou-lhe dar alguma roupa velha e uns cobres.

Não tenho absolutamente a convicção de que seja ele o verdadeiro major, nem tampouco que não é o outro ou um terceiro; entretanto, julgo que a ele competiam as honras; pobre e obscuro, ele precisava qualquer coisa para disfarçar isso, e ainda mais negro...

Por falar nisso, o Belo, primeiro oficial, que foi do gabinete do Benjamim, contou-me que a nomeação do Hemetério (é um negro), para professor do Colégio Militar, foi sustada na gaveta por ordem do Lauro Sodré, que sempre lhe recomendava a ele ir lhe pedir para expedir, que esperasse, que esperasse.

É singular que, fazendo eles a República, ela não a fosse de tal forma liberal, que pudesse dar um lugar de professor a um negro.

É singular essa República.

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Em geral, os homens notáveis do passado são admirados e prezados, não pelo que afirmaram peremptoriamente, mas pelo que supuseram.

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Da Piúca, a maravilhosa Piúca, a belíssima: Um rapaz recitou uns versos, avisando antes que eram do Macedo Papança. Acabando de recitar, ela vai a ele e lhe diz: — Gostei muito desses versos do Sancho Pança.

Contou-me o Antônio Noronha Santos, que ouviu do Carlos Silva, com quem se passou o caso.

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12 de janeiro.

Ontem não fui à secretaria. Passo mal. Uma impressão de cansaço, uma vontade de nada fazer, tenho fadiga de corpo. Descendo, vim à Rua do Ouvidor. Encontrei o Carneiro, o Mário Tibúrcio Gomes Carneiro, que sofre de “bovarismo” revolucionário. É um rapaz a quem um desgraçado acidente cortou-lhe as pernas; entretanto ele, em cima das andas, é como se montasse um corcel de guerra. Mata, esfola, derrota exércitos e esquadras. Derruba governos e concerta países. Há nele a alma de um alferes do Exército do Brasil e, se não o foi, deve-o unicamente a seu aleijão. Se o fosse, ele já se teria envolvido em todas as mil mazorcas que tem havido ultimamente.

No fundo, é um bom rapaz, algo inteligente, cavalheiro, mas maníaco de possuir um talhe de herói de Plutarco, que o ridiculariza. Ele tem um revólver Nagant, que é mais um canhão, perfeitamente característico do seu gênio: não dispara, quando é apontado ou acionado. Ama a farda, os militares; sabe o nome dos oficiais de cor, seus corpos, suas particularidades. As coisas de caserna tentam-no. No fundo, ele é um alferes que se perdeu pelas pernas.

Hoje. Chove pavorosamente. Dia vazio, não há notas a tomar.

Do jornal de hoje: “A cura da tuberculose. No meu consultório, à rua Mariz e Barros n.º 35. Uma consulta por semana, fornecendo o meu específico — 30$000. Na tuberculose incipiente, quatro consultas bastam — 120$000. Na tuberculose declarada crônica ou subaguda, para a cura, dez consultas — 300$000, em primeiro período. Na tuberculose, segundo período, não febril, quinze consultas, para cura — 450$000. Na tuberculose aguda, primeiro e segundo períodos, febril, permitindo o doente vir ao consultório, de quinze a vinte consultas — 450$000 a 600$000. Na tuberculose, em começo do terceiro período — um conto a dois, conforme a resistência da moléstia. Haverá mais barateza? Não obstante, propalam que sou um ‘careiro’! E gastam com viagens e outros profissionais ‘contos de réis’ para terem a certeza de ‘falecer’.

Dr. Platão de Albuquerque.”

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