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Diário Íntimo

Lima Barreto

Veio-me à idéia, ou antes, registro aqui uma idéia que me está perseguindo. Pretendo fazer um romance em que se descrevam a vida e o trabalho dos negros numa fazenda. Será uma espécie de Germinal negro, com mais psicologia especial e maior sopro de epopéia. Animará um drama sombrio, trágico e misterioso, como os do tempo da escravidão.

Como exija pesquisa variada de impressões e eu queira que esse livro seja, se eu puder ter uma, a minha obra-prima, adiá-lo-ei para mais tarde.

Temo muito pôr em papel impresso a minha literatura. Essas idéias que me perseguem de pintar e fazer a vida escrava com os processos modernos do romance, e o grande amor que me inspira — pudera! — a gente negra, virá, eu prevejo, trazer-me amargos dissabores, descomposturas, que não sei se poderei me pôr acima delas. Enfim — “une grande vie est une pensée de la jeunesse réalisé par l’âge mür”, mas até lá, meu Deus!, que de amarguras!, que de decepções! Ah! Se eu alcanço realizar essa idéia, que glória também! Enorme, extraordinária e — quem sabe? -uma fama européia.

Dirão que é o negrismo, que é um novo indianismo, e a proximidade simplesmente aparente das coisas turbará todos os espíritos em meu desfavor; e eu, pobre, sem fortes auxílios, com fracas amizades, como poderei viver perseguido, amargurado, debicado? Mas... e a glória e o imenso serviço que prestarei a minha gente e a parte da raça a que pertenço. Tentarei e seguirei avante. “Alea jacta est”.

Se eu conseguir ler esta nota, daqui a vinte anos, satisfeito, terei orgulho de viver! Deus me ajude!

* * *

14 de janeiro.

Ontem passei o dia em casa. Um dia bom. Folheei os meus livros, cortei os artigos dos jornais franceses e preguei-os de encontro à lídima prosa de Rui Barbosa. E um perfeito retórico esse tal Rui, glória do Brasil e honra da América do Sul. Pelos dias 16 a 20 de novembro, ele publicou uma carta na Tribuna, fazendo considerações sobre os acontecimentos de 14 e 15. Havia o seguinte: ele dissera que a noite de 14 fora prenhe de ameaças, mas que a providência divina, protegendo o Brasil, permitira que a manhã de 15 fosse clara, radiante e azulada, como convinha a uma manhã cheia de boas novas... Entretanto, choveu muito na tal manhã, que foi feíssima, haja visto o testemunho dos que viveram e viram. Como a retórica exigia, lá vai pura, azulada e radiante.

Pois preguei os meus artigos, fumei muito e comi à vontade.

Perdi a esperança de curar meu pai! Coitado, não lhe afrouxa a mania que, cada vez mais, é uma só, não varia: vai ser preso; a polícia vai matá-lo; se ele sair à rua, trucidam-no. Coitado, o seu delírio cristalizou-se, tomou forma. Pobre de meu pai! Uma vida cheia de trabalhos, de afanosos trabalhos, acabar assim nesse misterioso sofrimento que me compunge! Hoje, 14, desci da casa, vim à secretaria. O S..., que é o chefe, um curioso tipo de moleza de caráter e de ignorância, quis repreender-me, altercamos e ele retirou-se convencido. Deu-me, entretanto, um grande trabalho. Cópias dos acontecimentos do Juruá. Estou as tirando. A ênfase da linguagem das partes dos oficiais pareceu tratar-se de combates na Manchúria. Palavras bombásticas, frases grandíloquas, a retórica, sempre a retórica.

Havia numa delas a palavra da gíria: “corretismo”.

O dia acabou morno, sem novidade.

* * *

16 de janeiro.

Um livro que pensei. Tibau, filho de uma rapariga que fugira da casa de seu pai em companhia de um valdevinos, que pouco depois a abandona, educa com grande dificuldade esse filho, que chega a estudar medicina; mas, no terceiro ano, sem o adubo que era sua mãe, a planta fenece sem arrimo e, por fim, por recomendação de um colega, vai ser professor de História do Brasil, num colégio em Botafogo; o diretor, notando que era um desar para seu estabelecimento ter um professor sem título algum, arranja-lhe o de major da Guarda Nacional. Eis senão quando o Major Tibau, que do seu avô pouca notícia tivera, vem a saber que ele acabava de morrer no Porto, deixando-lhe (e reconhecendo-o como neto) toda a sua fortuna: dois mil contos. No curso das suas lições de história, Tibau tinha adquirido um grande amor do Brasil e acariciara o sonho de uma Sociedade de Folclore, que se destinava a recolher os cantos, as tradições e a poesia popular da nossa terra. Cultivar e festejar as datas familiares com o sainete nacional e os respectivos manjares. Possuidor dessa fortuna, funda a sociedade, com a qual é explorado por jornalistas, poetas, estudantes, debicado pelos ministros e funcionários, a quem se dirigiu para pedir uma subvenção. Morre numa estalagem, às sete horas da noite, estalagem a que se recolhera com um preto velho, o Nicolau, que, fazendo “ganchos”, ia-o fazendo viver; morre, mandando que se lhe abram a porta e a janela, para ouvir melhor a cantilena da criançada ao luar.

* * *

17 de janeiro.

Desde domingo que não tomo notas. Hoje, 17, vou recapitular estes três dias. Domingo, passei-o em casa. Cortando artigos do Figaro do ano passado e os pregando sobre a lídima prosa do nosso Rui Barbosa. Enchi o dia assim e enchi-o agradavelmente, suavemente. Meu pai freqüentemente me ia apoquentar. Pobre insano. Não quer comer e é preciso forçá-lo, e as perseguições que ele tem no espírito não o deixam sossegar. Às vezes, é preciso obrigá-lo a comer, porque, diz ele, no estado em que está, chamariam-no de cínico, porque come com satisfação. Tendo requerido uma certidão de sua vida ao delegado, veio, nesse dia, o inspetor verificar. O policial entrou na minha casa de cigarro na boca e não o tirou; não atribuo isso à arrogância, pois que ele parecia um rapazola simples, antes a sua absoluta falta de educação. Percebendo a patetice de meu pai, ele apressou o atestado e saiu um tanto acanhado. Coitado, não era mau! Segunda-feira vim à secretaria, passaram-me em mãos cópias das coisas do [ilegível], combate entre brasileiros e peruanos. Não foi combate, pois que cem dos do Peru e cento e pouco dos nossos, que tirotearam durante vinte horas, só podia haver escaramuça. As partes, consoante o jeito nacional, vêm cheias de frases grandíloquas, que fazem crer que se trata da rendição de Porto Artur... A Retórica! A Retórica! Entretanto, elas me deram uma consolação: é a energia e a vitalidade que os brasileiros apresentam naquela região. Não sendo nova essa energia, me parece que ela serve unicamente à humanidade como desbravadora, como batedora, sentinelas avançadas de outra gente que há de vir.

Edmundo Bittencourt. Como amostra, pois que não é dos mais primorosos, guardo esse artigo desse jornalista. Os seus processos eram invariavelmente esses; entretanto, com alguns meses de exercício da linguagem, apurara-se um pouco, perdendo os termos rebuscados e antiquados, que ele tinha hábito de usar. É curioso como eu notei, pela primeira vez, a fisionomia desse homem. O filho do Castagnino, hoje Alexandre, fizera exame e seu pai nos convidara a ir jantar no Silvestre, num restaurante que ficava por cima dos bondes. No salão do hotel havia pouca gente, e entre essa pouca me chamou a atenção um senhor magro, de bigodes louros, de olhar de cão de fila ao cio, que em espanhol macarrone perguntava a uma rapariga airada dessa proveniência: — ¿Quiere usted camarones con quiabos? — Si, como non.

Acompanhei essa fisionomia e, pouco depois, na Rua da Quitanda, onde o Serrado trabalhava como solicitador, fui-lhe por este apresentado; passando por ele e como ele não me cumprimentasse, decidi também não faze-lo. Meses depois, ele fundou o Correio da Manhã, órgão da regeneração nacional.

* * *

Hoje, à noite, recebi um cartão-postal. Há nele um macaco com uma alusão a mim e, embaixo, com falta de sintaxe, há o seguinte: “Néscios e burlescos serão aqueles que procuram acercar-se de prerrogativas que não tem. M”.

O curioso é que o cartão em si mesmo não me aborrece; o que me aborrece é lobrigar se, de qualquer maneira, o imbecil que tal escreveu tem razão.

“Prerrogativas que não tenho”...

Ah! Afonso! Não te dizia...

Desgosto! Desgosto que me fará grande.

* * *

18 de janeiro.

Vim no trem com o Viana, pai e filho, neta e irmã. É um tipo curioso de aventureiro esse Viana. Fundou um jornal, a Revista da Época, do qual, por lábias sábias, obrigou-me durante três números a ser secretário, do que me descartei a muito custo. A revista dele é uma espécie de galeria de retratos de varões obscuros. Quando lhe escasseiam os recursos, ele publica um número e, no dia seguinte, corre aos retratados para buscar dinheiro.

Anda agora de gorro com um russo. Curioso vagabundo que busca fortuna. Saltou no cais de Pharoux, arranjou um título universitário, é doutor, assim como, se saltasse na gare de Orléans, seria conde ou marques. Dentro do código, como o Galvez e outros, ele com certeza pretende roubar o Brasil. Há ainda com ele o Raposo, tradutor de inglês, um português que foi criado de hotel em New York. Chegado aqui, insinuou-se, e de tal maneira, que em breve fez-se examinador de inglês, em cujo lugar fez uma tabela de aprovações, creio que só. Distinção — duzentos mil-réis; plenamente — cento e cinqüenta mil-réis; simplesmente — cem mil-réis. Para melhor “cavar”, casou-se e, se ainda não fez da mulher um chamariz, foi porque as coisas não apertaram. Ele, com o Viana, estão fazendo um número em inglês. A revista, aparecendo em duas línguas, “morderá” melhor. Além destes, esporadicamente, surgem lá outros: gente honesta, as vezes, mas que, desanimada, se atira ali como a uma gamela de porcos, gente faminta. Eu, graças a Deus, livrei-me dele.

* * *

19 de janeiro.

Dor de dentes pavorosa. É uma coisa soberanamente imbecil, dói-me a cabeça, as faces. Eu vejo o mundo mau através da minha dor. O mundo é decididamente mau, porque o vejo coado na minha dor de dentes. Ela vai passando. As burrices do 5...tiveram o efeito do creosote.

O Edmundo Bittencourt foi preso por causa do artigo de que falei há dias; alguns jornais, poucos, protestaram, entre eles a Tribuna, a quem o chefe de polícia mandou avisar, por um capitão de sua milícia, que não admitia censura à sua administração. O presidente da República (parece) mandou que o chefe o soltasse, e este soltou-o, fazendo-o constar que o fazia por seu livre alvitre. Esse chefe de polícia, Cardoso de Castro, é a besta mais imbecil que há no Brasil. Irritado, ignorante, esfomeado de dinheiro, babuja-se todo para ficar no lugar em que está. O seu relatório, que é a coisa mais impagável dessa vida, pretende envolver nos distúrbios de novembro platônicos monarquistas, porque, diz ele, fazer propaganda da monarquia é o maior crime possível. A monarquia há de voltar, e eu hei de vê-lo, como chefe de polícia, dizer que a propaganda da República é pior que matar o seu próprio pai. Áulico, esfomeado, imbecil e ignorante, sem capacidade para ser liberal. Desonesto, porque consentia que seus filhos, eu os conheci, recebessem subvenções de bicheiros e morassem em casa de propriedade deles sem pagar. Disso eu sou testemunha.

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24 de janeiro.

Desde sábado, ou antes, desde sexta-feira (20), que não tomo notas. A 20, dia santo de São Sebastião, semi-feriado, vim para minha desgraça à secretaria e de tal forma trabalhei nesse dia, que resolvi não vir no dia seguinte, em que fui à Biblioteca Nacional tomar notas para o meu romance. Pedi maio de 1888; vindo-me, corri o mês, desde 10 até 16, onde recebi confirmação do que pensava. Li, por acaso, algumas páginas do Ateneu e as achei soberbas; entretanto é de desanimar ‘que um livro como aquele não seja lido aos 10.000. O Eça, me parece, escrevia inferiormente, e os seus processos de graça são muito mais grosseiros que os de Raul Pompéia.

Entretanto... Ah! O Brasil! À tarde, muito conversei com o Alcides sobre nossa pátria, sobre nossas coisas, nossa política. O Alcides, Alcides Maia, é um inteligente rapaz, inteligência de bom quilate, dessas que não fazem coisas de raio, mas marcham lenta, seguramente, a deixar sulco como uma relha de arado. Conversamos muito e agradavelmente. Éramos eu, o Otávio de Sousa, um bom matemático, que se intromete agora pelas coisas da arte e de sociedade, estreou no positivismo mundano, eu penso rapaz de talento; éramos eu, Otávio e Alcides, depois chegaram o Araújo Viana, músico, e o Cartier, um belo rapaz do Rio Grande, bonito e forte, amplo de gestos e de voz, simpático.

Como ficasse tarde, recolhi-me ao quarto do Tigre, paredes e meia do Alcides. Às duas horas, ele chegou e mais dois para buscar o Amarante, para o baile dos Democráticos.

É um tipo de literato do Brasil, esse meu amigo Tigre, inteligente, pouco estudioso, fértil, que usa da literatura como um conquistador usa das roupas — adquirir mulheres, de toda a casta e condição.

Ia aos Democráticos com o Domingo, que é também literato, e daqueles, que pensa que o literato deve ser o inimigo do casamento, da moral, das coisas estabelecidas, com tintas de darwinismo e haeckelismo, velhíssimas coisas que ele pensa novas, escreveu um romance rebarbativo e idiota, para fazer constar que é um voluptuoso, um lascivo, e põe-se nas ruas a fazer os mais baixos comentários sobre as mulheres que passam: “Que peixão! Que bunda! Oh! A carne!” Isso! Aquilo! É um imbecil.

Também o Miguel Austregésilo, gastador dos mais velhos paradoxos que se conhece. Passando seis meses em Paris, ou antes, em Bruxelas, trazia os bolsos cheios de cançonetas que nós conhecíamos aqui desde dois anos.

O outro, Amarante, é um bom menino.

É preciso saber que a todos eles eu devo valiosos favores.

* * *

26 de janeiro.

Ontem, quarta-feira, fui a casa do Santos, Antônio Noronha Santos, bacharel, irmão do João, engenheiro, e Carlos. Conversamos amistosamente e inteligentemente. Voltei pra casa, eis senão quando dou com um baile em forma. Eram dez horas da noite. Havia canto, dança, etc. Ora, no estado que meu pai está, com os poucos recursos que temos, positivamente aquilo me aborreceu. Como permitia o meu orgulho que eu recebesse gente, sem oferecer-lhes boas coisas? Como? Demais, meu pai, aluado, na saleta, e o baile, a roncar na de visitas. Não me contive e manifestei logo o meu descontentamento. Isso, ao depois das visitas saírem, deu lugar a um destampatório familiar.

A minha vida de família tem sido uma atroz desgraça.

Entre eu e ela há tanta dessemelhança, tanta cisão, que eu não sei como adaptar-me. Será o meu “bovarismo”?

* * *

27 de janeiro.

Ontem, ao sair da secretaria, passei pela Rua do Ouvidor e não vi a Palhares. Acho-a curiosa por causa do mestiçamento que nela há, disfarçado pelos cuidados meticulosos da toilette: perfumes, pomadas, pós, etc. Isso aborreceu-me mais do que estava aborrecido e na botica tive sono. Sai e tomei um bonde e fui à Prainha. A rua está outra, não a conheci bem. Se os prédios fossem mais altos, eu me acreditaria em outra cidade. Estive na esquina dela com a avenida, a famosa avenida das indenizações, subi-a a pé, tomei pelo que resta de beco da Rua da Prainha, agora em alargamento, e segui pela Rua Larga de São Joaquim, prolongada e alargada até o Largo de Santa Rita. A rua quebra um pouco do primitivo alinhamento, mas mesmo assim ficará bela. Entretanto, como vêm já de boa administração essas modificações, acredito que o Rio, o meu tolerante Rio, bom e relaxado, belo e sujo, esquisito e harmônico, o meu Rio vai perder, se não lhe vier em troca um grande surto industrial e comercial; com ruas largas e sem ele, será uma aldeia pretensiosa de galante e distinta, como é o tal de São Paulo.

Tomei pela Rua Larga e fui à fábrica do Rink ver lá o João, o João Noronha Santos, engenheiro e subgerente lá. Conversamos até às nove horas. Carreguei-lhe umas caixas de papelão, piedosa mania, e uns números do Figaro. Tomei o trem e fui pra casa, a minha espectral casa.

Cá estou na secretaria; o barão, em frente, vigia-me por cima dos livros que acumulei nas minhas ventas.

O dia vai correr e eu vou trabalhar um tanto.

* * *

28 de janeiro.

Ontem à tarde, fui ao banco receber um empréstimo que propus. É uma casa singular aquela, uma espécie de agiota privilegiado pelo governo. Demorei-me lá duas horas e às oito fui jantar na Estrada de Ferro; paguei ao Chambá o jantar.

Voltei para casa e li até à uma hora o bovarismo do Gaultier, um curioso livro que se propondo revelar uma coisa já muito pressentida, entretanto, é duma frescura de brisa fagueira dos poetas. Estou lendo e acho lisonjeiro para mim achar nele vistas que eu já tinha sentido também. Deitei-me e dormi bem, sossegado e satisfeito, porque tinha trezentos e tantos mil-réis em casa. Depois dos grandes sofrimentos por que passou minha casa, eu ando pela vida apavorado, temendo desgraças, moléstias e tal fúria de tal forma vai se apossando de mim, que me vou azedando, e as rusgas que tenho mantido em casa, me parece, se explicam assim.

Hoje, ao chegar à secretaria, fui intimado a cumprimentar o Argolo, que fazia anos; lá fui. Idiota esse barão e esse Argôlo.

O mês vai se encerrar e o meu livro só tem pronto dois capítulos, e quem projeta trinta, é pouco trabalhar. Vou esforçar-me mais e creio que até fevereiro terei três capítulos mais.

Entretanto, que de dúvidas me assoberbam sobre o seu mérito, sobre o seu valor!

* * *

O Bovarismo de Jules Gaultier.

Impressões de leitura.

O bovarismo, diz seu autor, é um livro que não visa instituir nenhuma reforma, se aplica a matéria que os homens, mais que nenhuma outra espécie, acreditam marcar, eles mesmos, uma forma; trata da evolução na humanidade, isto é, dos modos de mudança nesta parte do espetáculo fenomenal em que o fato da consciência parece atribuir ao ser que sofre a modificação, com o poder de dar causa, o dever de dirigir. Sob essa ilusão, a vontade humana acredita intervir no turbilhão de causas e efeitos que a envolvem. A constatação, verificação do fato, tende na linguagem a se formular em regra moral, porque a ilusão do fato, engendrada pelo reflexo da atividade na consciência, é tão forte que domina as formas da linguagem.

O bovarismo, livro, é um aparelho de óptica mental. É do prefácio. O bovarismo é o poder partilhado no homem de se conceber outro que não é. Precisar o papel do bovarismo como causa e meio essencial da evolução na humanidade.

O mal, o bovarismo nos personagens de Flaubert, pode ser apreciado com uma rigorosa observação: aumenta com o afastamento que se forma entre o fim a que está voluntariamente assinalado e o fim para que os imantava naturalmente a sua vocação natural.

A pessoa humana A imagem que, sob o império do meio, circunstâncias exteriores, educação sujeição, a pessoa forma de si mesmo.

Ser real, ideal, tendências hereditárias, etc.

As linhas se coincidem quando a impulsão, vinda do meio circunstancial, age no mesmo sentido que a impulsão hereditária.

Nos casos de Flaubert, essa convergência não se produz. O ângulo dessas linhas é o índice bovárico, mede o afastamento entre o indivíduo real e o imaginário, entre o que é e o que ele acredita ser.

Na Educação Sentimental, de Flaubert, mímica de valor desigual.

Diz o Gaultier que, se na Ema Bovary o bovarismo foi negativo, deve-se a sua falta de crítica.

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Sem data.

Bem cabível.

“Malheureusement ii y avait chez le frère de Mme Pompadour un amour-propre ombrageux, une inquiétude perpétuelle de l’estime qu’on faisait de sa personne, une susceptibilité toujours en quête et en alarme d’une ironie ou d’un mépris, une tendresse pleine de mefiances et de soupçons, un besoin de se tourmenter et de se rendre malheureux dans lequel faisant tout à coup irruption une noire humeur accompagnée de rudesses et de brusqueries”.

Mme Pompadour. Goncourts.

É curioso verificar que essas linhas descrevem inteiramente o meu caráter e, se de qualquer forma a metempsicose é verdade, e em minha alma há qualquer coisa do desventurado irmão da grande favorita.

* * *

30 de janeiro.

No sábado, fui a casa do Alcides Maia ler o meu livro; acredito que fossem sinceros os elogios que dele me fez, o que me anima a continuá-lo; entretanto, o pensamento foi ainda pouco compreendido, eu o creio, porque ele me tenta a pôr nele um personagem que o livro não comporta. A leitura dos dois capítulos primeiros durou uma hora, e ele fez pequenas observações, emendando, que eu aceitei.

Cada vez mais simpatizo com esse Alcides. É inteligente, ilustrado, estudioso, delicado de sentimentos. Ele é muito diverso da maioria dos jornalistas e rapazes de letras com quem tenho relações. Não é que lhe falte orgulho, altaneria, Deus nos livre que ele não o tivesse. Tem-no, mais pautado, discreto; e nele esses sentimentos modelam a sua melhoria. Acho nele dois pequenos defeitos: é jornalista e é político. O primeiro é simplesmente um meio de vida, desculpa-se; o segundo é que não. Entretanto, como ele nascesse daquele fermentado Rio Grande e de família abastada, não poderia escapar a ela.

Domingo, fui ao Papa Lebonnard, drama em quatro atos de Jean Aicard. É um drama de moldes velhos, feito por um autor novo e de talento. A Lucinda, a minha querida Lucinda, um gosto que foi meu pai quem mo deu, fez o papel com uma sobriedade, com uma elevação, que admira em língua portuguesa.

A Lucinda não tem ênfase e com poucos recursos de fisionomia ela tira um partido excepcional. É como um escritor de pequeno vocabulário, mas com grande conhecimento da sintaxe e um grande sentimento da língua. O Cristiano não é lá essas coisas, esforça-se, trabalha, sabe, mas, como disse um português, não tem o teatro no peito. O Ferreira é melhor; entretanto, com se sentir nele um ator inteligente, vê-se que lhe falta a observação do tipo que representava, um nobre, um marquês.

Bom dia! Chovia a cântaros. A francesa de defronte à botica continua a interessar-me. É Louise Léon, costureira. Magra e alourada e eu... Afonso! Afonso! Estou na secretaria a aborrecer-me com os decretos; levemos a cruz ao Calvário, por amor ao meu pai.

Hoje vou pagar ao J... P... o último dinheiro que meu pai lhe deve. Procedeu conosco como um carrasco. Aborreceu-me e acirrou-me como um agiota.

Graças a Deus vou pagar-lhe e que Deus me dê felicidade suficiente para pagar tudo que meu pai deve. E se eu isso fizer e se conseguir cercar-lhe o resto da vida da abundância que ele tem direito, eu só peço três coisas: Um amor Um belo livro E uma viagem pela Europa e pela Ásia.

* * *

31 de janeiro.

Último dia do mês em que, com certa regularidade, venho tomando notas diárias da minha vida, que a quero grande, nobre, plena de força e de elevação. É um modo do meu “bovarismo”, que, para realizá-lo, sobra-me a crítica e tenho alguma energia. Levá-la-ei ao fim, movido por esse ideal interessado e, se as circunstâncias exteriores não me forem adversas, tenho em mim que cumprir-me-ei.

Ontem, saindo da secretaria, fui à Rua do Ouvidor, estive com alguns idiotas e fui à botica. Encontrei o V..., C..., um meu antigo colega de colégio. Bom rapaz, avarento, míope de inteligência e sem nenhum bovarismo. Está a se formar em medicina e com isso enche o seu ideal de fazendeiro médico.

Deixando a botica, fui à Rua do Ouvidor; como estava bonita, semi-agitada! Era como um boulevard de Paris visto em fotografia.

Fui de trem, meditei durante a viagem sobre o meu livro, e em casa compulsei as notas para acabar o terceiro capítulo. Agora acabo de achar uma pequena cena para o segundo, com a qual dar-lhe-ei mais força, mais vida, mais verossimilhança.

Agita-me a vontade de escrever já, mas nessa secretaria de filisteus, em que me debocham por causa da minha pretensão literária, não me animo a faze-lo.

Fá-lo-ei em casa.

* * *

1 de fevereiro.

No dia 10 de fevereiro, com mais forte razão que nos outros, eu vim à secretaria. Logo ao chegar, fui chamado a falar com um tal B..., que aqui há. Lá fui. Tratava-se não sei de que maçada tinha que ver comigo. Esse B... é o tipo mais curioso de militar burocrata, e burocrata fraco em ortografia e na sintaxe comum. Enchi-me da precisa altivez para falar com ele, e lá não foi preciso usá-la, porquanto ele nada me disse que a provocasse. Ainda bem.

O S..., o chefe, atrapalhou-se de tal modo na folha, que não pudemos receber dinheiro; recebi, entretanto, o de meu pai, no Tesouro, o que constitui para mim um grande aborrecimento.

* * *

2 de fevereiro.

No dia 2, dia das candeias, vim à secretaria receber o dinheiro e por sinal que nela me demorei até as duas e meia horas da tarde. Saindo, fui à igreja da Candelária e, como estivesse algum tanto obtuso, não recolhi nenhuma idéia, nem qualquer emoção.

No entanto, com o enterro do Patrocínio não se deu o mesmo. Propalado pelos jornais que esse jornalista tinha sido a alma da Abolição, o populacho à última hora agitou-se e fez-lhe a manifestação de uso: coche puxado a braços, ululos pelas ruas e discursos de cidadãos mais ou menos sequiosos de renome, que aproveitam a ocasião para aumentá-lo um pouco. Quem conheceu o Patrocínio como eu o conheci, lacaio de todos os patoteiros, alugado a todas as patifarias, sem uma forte linha de conduta nos seus atos e nos seus pensamentos, não acredita que pudesse ter sido, como dizem, o apóstolo da Abolição.

Necessariamente, ele se serviu da coisa como um meio de arranjar facilmente dinheiro, explorou-a em seu proveito, na parte pecuniária e na parte gloriosa. Isso ele o fez com o máximo interesse e a máxima baixeza. Eu sei bem que baixos móveis levam a altas coisas, mas isso não se deu com o Patrocínio.

A lei 13 de maio vinha de longe, era convicção da nação a injustiça da escravidão, não precisava jornalistas nem evangelizadores para mostrar-lhe a injustiça. Quem notar — basta faze-lo de 1822 — as referências que os nossos governantes fazem à coisa, sente que eles o fazem com vergonha, com desazo, sentiam-no a ilegalidade, a injustiça; e esse sentimento, que se foi espalhando pelo país, aumentou extraordinariamente depois da guerra do Paraguai e foi como, se dando a lei de 1871, não teve para encarná-la senão o funcionário que a subscreveu, o visconde do Rio Branco, ministro naquele tempo. A lei dos sexagenários foi assim também. E, quando já era quase universal no Brasil esse amargo sentimento, é que apareceu seu Patrocínio, que, sem honestidade e sem grandeza, aproveita-se da história e, pelo “jornalismo”, consegue ser elevado à altura de um apóstolo, de um evangelizador.

Demais, há e houve sempre entre nós um grande sentimento liberal, com certas restrições, em favor dos negros.

Eu vi o enterro; compungido, do redator do Novidades, o último jornal escravocrata que houve aqui, o Alcindo Guanabara. Se era ao amigo que ele ia ao enterro, mentia; eles nunca o foram; se era ao tribuno, mentia, porquanto sempre foram adversários; tartufo e jornalista, o que é uma e mesma coisa.

As ruas cheias tinham um aspecto híbrido, pardo, e os discursos choveram de todas as sacadas da Rua do Ouvidor. Sonetos e mais longas poesias também. E o Rafael, no Largo do Rossio, fez um extraordinário — pois fez populares chorar — um extraordinário discurso. Eu não ouvi; tenho pena.

* * *

20 de fevereiro.

Há mais de dez dias que não tomo notas. Nada de notável me há impressionado, de forma que me obrigue a registrar. Mesmo nos jornais nada tenho lido que me provoque assinalar, mas como entretanto eu queria ter um registro de pequenas, grandes, mínimas idéias, vou continuá-lo diariamente.

Ontem, estive em casa do Tigre, com Alcides Maia, que na verdade é um rapaz que promete.

* * *

Sem data

Saião, amanuense comigo em 1904 e 5. Burro. Pobre. Tonto de sua família — Saião Lobato e Costallat. Ignorante. Fumaças de escritor. Escreveu uns pensamentos e reflexões que eu devo ter entre os meus livros. Curiosos de asnáticos. Como lhe chegassem aos ouvidos que eu estava escrevendo um livro — o Clara dos Anjos — deu-se para espalhar que estava escrevendo outro. Sobre botânica e zoologia. Coisa transcendente. De agora em diante, está no meu trato.

Registrarei as suas palavras e as suas coisas.

* * *

É incrível a ignorância dos nossos literatos; a pretensão que eles possuem não é secundada por um grande esforço de estudos e reflexão. Presumidos de saber todas as literaturas, de conhecê-las a fundo, têm repetido ultimamente as maiores sandices sobre o Gorki, que anda encarcerado na Rússia, por motivo dos levantes populares lá havidos.

Há dias, conversando com o Tigre, ele me disse que esse Gorki nada valia — escrevera uns contos, coisas de fancaria socialística. É incrível, mas é verdade.

Quando eu lhe disse que o Máximo tivera o Prêmio Nobel, ele se admirou — não sabia.

Entretanto, Tigre é uma das esperanças da geração moderna. Domingos, bom rapaz, algo mais ilustrado que a maioria dos novéis literatos, cerebrino autor do Sê Feliz, vai fazer um discurso sobre o Bordalo Pinheiro.

Não acredito que essa coisa do Bordalo seja sincera. Como caricaturista, ele era um pesadão, a sua caricatura era alguma coisa barroca, com os motivos portugueses desgraciosos, folhas de parra, pipas de vinho, suínos, etc. etc.

Desenhista, eu o não conheço. O que se salva nele é o ceramista, e esse só alcança a Portugal, com quem, eu penso, ele não há de querer repartir a glória. Sendo assim, é positivamente idiota e sem razão essa manifestação que lhe vão fazer.

Eu tenho notado nas rodas que hei freqüentado, exceto a do Alcides, uma nefasta influência dos portugueses. Não é o Eça, que inegavelmente quem fala português não o pode ignorar, são figuras subalternas: Fialho e menores.

Ajeita-se o modo de escrever deles, copiam-se-lhes os cacoetes, a estrutura da frase, não há dentre eles um que conscienciosamente procure escrever como o seu meio o pede e o requer, pressentindo isso na tradição dos escritores passados, embora inferiores. É uma literatura de concetti, uma literatura de clube, imbecil, de palavrinhas, de coisinhas, não há neles um grande sopro humano, uma grandeza de análise, um vendaval de epopéia, o cicio lírico que há neles é mal encaminhado para a literatura estreitamente pessoal, no que de pessoal há de inferior e banal: amores ricos, mortes de parentes e coisas assim. A pouco e pouco, vou deixando de os freqüentar, abomino-lhes a ignorância deles, a maldade intencional, a lassidão, a covardia dos seus ataques.

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E como tencione fundar uma revista com o Alcides Maia e mais outros, só me encontro com literatos aos sábados, e com estes do Alcides, que, se não têm todos talento, têm vontade, cavalheirismo e tenção de qualquer coisa.

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Juca Rocha era um conhecido proprietário de casa de jogo. Sustentando, dirigindo estabelecimentos dessa natureza, mantendo a família num luxuoso palacete em Botafogo, e freqüentando ela a “gente” hors ligne de lá. Suas filhas casaram-se com vários magnatas. É um caso curioso e denunciador do relaxamento dos nossos costumes. Da sua casa de jogo, na Rua de São José, eu vi sair senadores, deputados, militares, etc. etc.

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Contou-me o Luís: Um oficial, quando cadete, se amigara com uma mulher, madame Cartomante; ao seu enterro, quando foi esse oficial, o carro, por mais que o cocheiro fustigasse os cavalos, não se movia. O acompanhamento já ia longe, quando o alferes resolveu não acompanhar, mandando que o carro seguisse outro caminho.

O carro, então, rolou placidamente.

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Sem data.

Amanheci mal, tive até um sonho erótico. Saí às nove horas, fui à missa na igreja da Glória. Como estivesse embotado com a má noite que passei, não pude tomar uma nota.

Vim à cidade, almocei com os Batistas, bons rapazes. Fui ao Leme, aborreci-me. O Metelo, um rapaz gago de Mato Grosso, caceteou-me enormemente. O Pereira, burro e sem nenhum relevo, encheu-me de sono a volta.

Por desencargo de consciência, fui à casa do César Vilares, um bom rapaz, a quem devo vários favores, mas que é extraordinariamente aborrecido como companhia, pois por falta de hábito é gauche conversador.

Em casa voltei.

Esquecia-me de dizer que na sexta fui com minha irmã à casa do Artur, dancei e bocejei.

É o que tenho a relembrar desses quatro dias.

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Sem data.

Eram vulgares no tempo em que morei nos subúrbios os clubes dramáticos. Em Cascadura havia quatro; no Riachuelo, um; no Méier, três; em Todos os Santos, um. Tinham títulos singulares. Um era, Cassino do Méier; outro, Clube Dramático Esperança.

Em geral, eram sórdidos, baixos, um simples barracão coberto com telhas de zinco, e um jirau que era o palco. As mulheres se vestiam quase à vista dos homens. Mensalmente davam récitas. As amadoras, além de lhes faltar beleza, porte, gramática, não tinham voz, graça e jeito. Os rapazes ainda piores. Nos papéis dramáticos ou trágicos, presos da ênfase, tornavam-se ridículos.

Uma vez, no Esperança, quando um ator invectivava a esposa culposa, a platéia caiu na gargalhada. Quando em papéis cômicos, caíam na palhaçada, na “esculhambação”, como se dizia no tempo. Traduzia perfeitamente o fundo burro, inestético da nossa gente. As peças eram pavorosas sensaborias, velhas e sem mérito, cortadas aqui, ali, surgiam à ribalta, representadas por tais atores, como pantomimas idiotas. Findo o espetáculo, um qualquer dos sócios redigia uma notícia e levava a um amigo de um jornal que a publicasse. Exemplo:

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“Grêmio Jupira — Com o encanto e brilhantismo de sempre realizou, sábado último, esta simpática sociedade mais uma récita, sendo levada à cena a chistosa comédia: Os Amores de um Boticário.

Os distintos amadores, a quem estavam confiados os difíceis papéis, saíram-se corretissimamente, sendo dignos de menção as exmas sras d. Januária Teixeira, d. Hilda Nolding e d. Maria Azevedo, que com extraordinário realce tiveram ensejo de demonstrar os seus conhecimentos do palco, e os srs Oscar Amazonas, Joel Braga, J. Júlio, A. Braga e Ribeiro de Sá, que plenamente as coadjuvaram no bom desempenho da peça.

Terminando o espetáculo, tiveram início das danças que, sempre animadas, se prolongaram até alta noite.”

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Sem data.

É curioso comparar a maneira com que o Debret pinta os negros e os brancos. O ponto de verdade dos dois...

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Sem data.

Crisólito — Crisoberilo — Crisópraso.

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Francisco de Castro Morais, governador em 1710.

Guarnição — dois regimentos de infantaria, duas companhias de artilharia.

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Aprisionaram uma sumaca, da Bahia.

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Fossem atacar a fortaleza da Praia Vermelha, mandou mestre de campo João Paiva.

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Lei de 24 de janeiro de 1756 sobre negros e mulatos.

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Quilombolas — Lê-se no alvará de 3 de março de 1741: ...... partus sequitur ventrem.

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Peça da índia — negro escravo.

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Pritchard, citado por Gobineau, pretendia provar que o negro moçambique tinha aptidão para grande personagem.

Até que ponto o livro do conde Gobineau influiu no Darwin? Gobineau diz que Darwin e Buckle “ont créé ainsi les dérivations principales du ruisseau que j’ai ouvert”.

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Sem data.

O número da folha de pagamento de papai é 46v.

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10 de julho.

Campo de Sant’Ana. Uma mulher me veio ao banco em que eu estava sentado, trazendo uma criança no colo e pediu-me algum dinheiro. Dei-lhe trezentos réis. Rico Brasil! Não há miséria. Disse-me ela que a criança não tinha mãe, mas eu creio que quem lhe faltava era o pai.

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Gobineau — meio-nada.

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Gobineau — dia 10. Guizot: a civilização é um fato. A civilização para ele não é um fato, é uma série de fatos, um encadeamento de fatos mais ou menos logicamente unidos uns aos outros, e gerados por um concurso de idéias muitas vezes múltiplos, idéias e fatos fecundando-se sem cessar.

“Civilisation est un milieu dans lequel elle (l’humanité) a réussi à se mettre, qu’elle a créé, qui émane d’elle, et qui à son tour réagit sur elle”.

“Civilisations, un état de stabilité relative oü des multitudes s’efforcent de chercher pacifiquement la satisfaction de leurs besoins, et raffinent leur intelligence et leurs moeurs”.

Princípio-macho na civilização — útil; princípio-fêmea — sonho.

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Sem data.

Seria uma bela obra um romance em que se tratasse a antiga fazenda com escravos...

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12 de junho.

Facada do filho do doutor B ... S ... (quatrocentos réis).

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18 de junho.

Facada de uma pobre mulher no Campo de Sant’Ana (cem). Injustiça: ao filho do almirante não tive pena de dar quatrocentos, mas...

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14 de junho.

Nada de novo. Lobão me comunicou que está no Malho. Grande terra esta!

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Sem data.

Eu me lembrava de ter lido não sei onde que Dalloz observava que, quando a desordem anda nos espíritos, as leis tornam-se numerosas e são sem cessar as reclamações de novas leis que nada conseguem, porque o indispensável é reformar os espíritos, para o que elas são impotentes.

Que diabo ia eu fazer em casa de jurisconsulto? Que tinha ele de meter-se em questão intelectual? Por acaso a gente que incumbia decidir a questão, não era suficientemente esclarecida para resolvê-la por si mesmo? Mas o tempo era legiferante; e a opinião tinha fé no manipanso da lei e nas coisas rebarbativas e, em geral, falsas dos pareceres dos juristas. As melhores leis foram as que romperam as anteriores. Há quem diga isto; e estamos coincidindo a tal ponto, que a excelente será o que romper todas as demais.

O Campo de Sant’Ana estava sempre tranqüilo. Aqueles dois mármores de entrada, muito brancos, nasciam da grama verde, como lírios...

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9 de julho. Domingo.

Amanhã, hoje, ontem, fatídicas palavras com o mesmo significado. Tédio, conseqüência da miséria.

Haverá de fato necessidade de submissão? Ou será inútil semelhante coisa, podendo a sociedade existir sem ela? Nansen, Viagem ao Pólo, lida pela quinta vez, hoje, 9 de julho, muito frio, pouco dinheiro, nenhum é melhor dizer. 1905. Encantadora viagem, saborosa como uma ficção; entretanto, aqui, ali, há coisas pueris, reflexões vulgares, que, entre nós, publicada aquela obra, não haveria quem não nas atribuísse ao Conselheiro Acácio, vulgus fecus.

Depois de três meses de interrupção, deu-me vontade de escrever, ou continuar a escrever meu livro. Publicá-lo-ei? Terá mérito? En avant.

Escrevi um bilhete ao Manuel Ribeiro.

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17 de julho.

Dia 17 de julho de 1905. Secretaria. Dez e meia da manhã. A sala da seção do expediente está completa. Todos vieram. Só falta o S..., o chefe, que a faltar tem levado quarenta dias. Estava doente. Fui visitá-lo. Achei-o mal, abatido, carcomido. A família, agradável, simples. Jantei com ele, bom acolhimento. Tem uma filha que não é feia e possui mesmo uma distinção de busto, um que-quer-que aristocrático que me agradou. É a vida. Bem! Secretaria, dez e meia, segunda-feira. Lauriano, um contínuo, entra na sala. Pelas suas costas, a porta por onde entrou fere o batente com estrépido. A dois passos do primeiro oficial que serve de chefe, o Vaz de Barros, ele pára e diz: — Anuncio que “Seu” Silva morreu.

Cada um, ao ouvir aquelas palavras, que ele pronunciara levemente, ergueu as cabeças, cujas fisionomias — maus atores! — se esforçavam por ter um ar de compunção. Ninguém sente. Apesar de viverem, ou terem vivido com ele dez, vinte, trinta anos, a amizade não lhes ligou as almas. Não havia afinidades entre os espíritos deles e os pequeninos atritos de carreira ainda os separou mais. Entretanto, eles se esforçam por ter compaixão e dos traços do seu rosto nada sai e dos seus lábios só um banal: — Coitado! O Belo é o mais aperfeiçoado de todos, como eu já observei algures, é o homem mais sensível às dores formalísticas e de polidez. Logo depressa se apressou no plano das homenagens: que se devia fazer isso, aquilo, etc. etc. É tremendo esse Belo. É desses exemplares de homens que substituíram por completo sua alma pelo papel escrito. Um cartão de pêsames, no seu imaginar, e algumas linhas públicas, no seu pensar, são grandes lenitivos pra dores, pra aflições. Um dia, morreu a filha de um major, com quem ele tinha conhecimento, por tratar em interesse de serviço com ele, aqui na secretaria; pois bem, logo que soube da notícia, encheu de uma ou duas linhas um cartão e mandou-o. E a um seu companheiro que lhe perguntou o que era: — Um cartão de pêsames, disse, ao major fulano de tal. Sou assim, meus amigos, nas horas das aflições, é que vou em busca dos amigos.

Com o tal cartão, e ele não gastara nada, nem pecuniariamente, nem doutra qualquer forma. Escrevera-o com parca sintaxe e bela caligrafia, entre risadinhas e comentários alegres, e mandara-o com o carimbo oficial, recebendo-o gratuitamente da casa fornecedora de papel. Bela alma! E eu vou assim também ficando. O Belo, hoje, 18 de julho de 1905, afiançou que, se o Silva morreu, foi devido a essa nossa carreira (administração). Porque, raciocina ele, a moléstia era antiga e ele não se tinha podido tratar. Ganha-se uma miséria.

O Silva, horas antes de morrer, disse a um parente: — Siga o cachorro e porco.

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27 de outubro.

Vim, hoje, 27 de outubro de 1905, no trem com o Oliveira, um antigo caixeiro da botica do Vilares, que me apresentou ao senhor Cordeiro, empregado da Casa da Moeda.

“Seu” Cordeiro é homem velho, pardo sem ser mulato (?), de pele encarquilhada, a boca pequena calcada para dentro e projetando o queixinho redondo pra fora. Um bigode ralo amarelaço sempre aparado, com uma penugem de pássaro, enquadra-se magnificamente bem em semelhante rosto, a cuja superfície, e, sem exagero, quase no seu plano, brilham uns olhinhos pardos, aureolados com o halo da velhice. Os cabelos, muito lisos, tais como se fossem falsos, descem untados das bordas internas do chapéu. É, me pareceu, como uma chincha (aquelas múmias do Peru).

“Seu” Cordeiro é etimologista. Vai procurar a exata origem da palavra “cigano”, que, etnográficamente, segundo a sua abalizada opinião, são judeus. Disse-me, quando se tratava de superstições, que, embora o metafísico fundamentado fosse uma dúvida, ele não acreditava nessas bobagens: varrer casa de noite, diabos em encruzilhada.

Há dias, foi daí que lhe veio o seu cepticismo astronômico, há dias, estando na estação de Engenho Novo, o Sol caía com tanta força sobre um lampião de gás e a luz se refletia com tanta força, que era como um astro de primeira grandeza (sic). Assim — concluiu ele, muito logicamente — são as distâncias calculadas de quarenta milhões e mais de léguas daqui ao Sol.

Ao saltar, confessou-me que tinha estudado todas as religiões, e profundamente.

Vou explorar esse filão. Deve ser de uma riqueza de estontear.

* * *

Sem data.

Há dias, por motivos de minha profissão, fui obrigado a entrar na Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Vestia-me mal, é fato; mas entrava certo de que era cidadão brasileiro, homem de algum cultivo, cumpridor dos meus deveres, e, sobretudo, protegido da crença que, tendo freqüentado uma dessas nossas escolas superiores, mereceria dos contínuos de lá o tratamento que se dá ao comum dos mortais. Enganei-me. Dirigi-me ao contínuo, no primeiro pavimento, que, com a habitual morgue dos altos e baixos funcionários, aconselhou-me que subisse. Até aí pisava no Brasil, agora, parecia-me, passava a fronteira. Dois contínuos, enfardelados em amplas sobrecasacas pretas com botões dourados, ocupavam-se pachorrentamente em cortar jornais, pregando os retalhos num livro em branco. Original ocupação dos contínuos da Secretaria do Exterior! Medroso do meu ato, ousei interromper-lhes a tarefa: — Precisava isso assim, assim; os senhores podem etc.

Os dois respeitáveis funcionários olharam-me de alto abaixo e, entre complacente e desdenhoso, um deles disse-me: — Entra.

Fiquei atônito, nunca fora assim tratado em departamento da administração brasileira e demais naquele sotaque estrangeiro! Prudentemente entrei, sentei-me, conforme me aconselhava o magnífico auxiliar das nossas relações exteriores. Tinha sob mim uma delgada cadeira dourada meio suja. Em torno, um salão lustrado, amplo e meio escuro; e o teto de estuque tinha pelos cantos o armorial de algum visconde apressado. O estuque encantou-me e, embora sob o peso daquela afronta, interessou-me o relevo dele, as armas do escudo, os florões, os grifos, etc. etc. etc...De quem fora aquilo? Não sabia. O dinheiro que o fizera, entretanto, era fácil de se dizer donde vinha. E, não sei como, eu vi uma grande fazenda: a senhorial casa acaçapada, numa meia laranja de morro branco de cal, enrubescer sob o banho da luz da aurora; as vacas mugiam no curral próximo; o terreiro fronteiro era como vasto lençol estendido. Da senzala, sem que sequer ouvissem o gorjeio dos pássaros, em filas cerradas, saíam, sob o peso do cativeiro, algumas centenas de negros. Aquela viva linha negra a estender, silenciosa, humilde, tinha a energia oculta de um filete que se infiltra pela terra adentro. Depois de furar cem metros, rebenta aqui como uma fonte cristalina; se mais desce, mais pressão e mais temperatura ganha, e complexidade na composição; voltando à flor da terra, é agora termal; se mais baixo vai, mais forte fica, e lá, nos profundos recessos do planeta, complica, revoluciona, baralha, e provoca vulcões. Lá ia a fila negra unida, cerrada, por entre os cafezais...

Olhei o escudo, as fantasias heráldicas, as armas de galés e, de mim pra mim, pensei: — Doce fila negra que mourejaste no cafezal, estás ali também naquele níveo escudo; tu entraste nele sem querer; foste aí pela fatalidade das coisas e essa...

— Não é isso que você quer?, disse-me o contínuo.

E eu acabei de raciocinar: — ... e essa, não há barões, viscondes, duques e reis que a desviem.

* * *

Sem data.

Vai se estendendo, pelo mundo, a noção de que há umas certas raças superiores e umas outras inferiores, e que essa inferioridade, longe de ser transitória, é eterna e intrínseca à própria estrutura da raça.

Diz-se ainda mais: que as misturas entre essas raças são um vício social, uma praga e não sei que coisa feia mais.

Tudo isto se diz em nome da ciência e a coberto da autoridade de sábios alemães.

Eu não sei se alguém já observou que o alemão vai tomando, nesta nossa lúcida idade, o prestígio do latim na Idade Média.

O que se diz em alemão é verdade transcendente. Por exemplo, se eu dissesse em alemão o quadrado tem quatro lados seria uma coisa de um alcance extraordinário, embora no nosso rasteiro português seja uma banalidade e uma quase-verdade.

E assim a coisa vai se espalhando, graças à fraqueza da crítica das pessoas interessadas, e mais do que à fraqueza, à covardia intelectual de que estamos apossados em face dos grandes nomes da Europa. Urge ver o perigo dessas idéias, para nossa felicidade individual e para nossa dignidade superior de homens. Atualmente, ainda não saíram dos gabinetes e laboratórios, mas, amanhã, espalhar-se-ão, ficarão à mão dos políticos, cairão sobre as rudes cabeças da massa, e talvez tenhamos que sofrer matanças, afastamentos humilhantes, e os nossos liberalíssimos tempos verão uns novos judeus.

Os séculos que passaram não tiveram opinião diversa a nosso respeito — é verdade; mas, desprovidas de qualquer base séria, as suas sentenças não ofereciam o mínimo perigo. Era o preconceito; hoje é o conceito.

Esmagadoras provas experimentais endossam-no. Se F. tem 0,02 m a mais no eixo maior da oval de sua cabeça, não é inferior em relação a B, que tem menos, porque ambos são da mesma raça; contudo, em se tratando de raças diferentes, está aí um critério de superioridade.

As mensurações mais idiotas são feitas, e, pelo complacente critério do sistema métrico, os grandes sábios estabelecem superioridades e inferioridades.

Não contentes com isso, buscam outros dados, os psíquicos, nas narrações dos viajantes apressados, de touristes imbecis e de aventureiros da mais baixa honestidade.

E hoje é para mim motivo de alegria poder eu dizer tal coisa, poder tratar tão solenes instituições com semelhante desembaraço que não é fingido.

É satisfação para minh’alma poder oferecer contestação, atirar sarcasmos à soberbia de tais sentenças, que me fazem sofrer desde os quatorze anos.

Oh! A ciência! Eu era menino, tinha aquela idade, andava ao meio dos preparatórios, quando li, na Revista Brasileira, os seus esconjuros, os seus anátemas... Falavam as autorizadas penas do senhor Domício da Gama e Oliveira Lima...

Eles me encheram de medo, de timidez, abateram-me; a minha jovialidade nativa, a satisfação de viver nesse fantástico meio tropical, com quem tenho tantas afinidades, ficou perturbada pelas mais degradantes sentenças.

Desviei a corrente natural de minha vida, escondi-me em mim mesmo e fiquei a sofrer para sempre.

Mas, hoje! Hoje! Já posso alguma coisa e amanhã poderei mais e mais. Não pararei nunca, não me deterei; nem a miséria, as perseguições, as descomposturas me deterão. Sacudi para longe o fantasma do medo; sou forte, penso, tenho coragem... Nada! Nada! Nada! E que senti que a ciência não é assim um cochicho de Deus aos homens da Europa sobre a misteriosa organização do mundo.

Quando há dias li numa das histórias do Brasil do senhor João Ribeiro, pág. 234: “Não podemos pensar que o homem de cor, conseqüência semi-híbrida do contato heterogêneo de raças tão distanciadas que, até por eminentes cientistas como Haeckel, são consideradas como espécies diversas, seja a peste da cultura americana, como sentenciam os sociólogos”, ri-me com uma espontaneidade, que até eu mesmo me admirei.

Lobriguei no período, debaixo daquele — “eminentes cientistas como Haeckel” — uma excomunhão em regra para os miscigênicos.

Até hoje não li Haeckel e tenho pena de não conhecer o inventor de animais curiosos. Um dos traços do meu espírito é a curiosidade pelas criações humanas. Não se me dá que sejam verdadeiras; o principal, para o meu espírito, é o esforço de inteligência que elas representam e que eu amo. Leio-as, compreendo-as até o ponto que quero, depois fecho livros — certo de que o mundo continua ainda [ ]

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