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Diário Íntimo

Lima Barreto

1906

Sem data

Opiniões e idéias de J. Sá Bragança, primeiro oficial da Secretaria dos Cultos.

É bacharel em letras pelo antigo Imperial Colégio dom Pedro II, onde foi colega do doutor Joaquim Nabuco. Conhece a psicologia clássica e a metafísica de todos os tempos.

É de história sentimental limitada. Não é casado e só amou duas vezes: a primeira vez, a filha de um visconde, num baile de um marquês; a segunda, à sua cozinheira, não sabe em que ocasião. Seguindo o seu favorito método introspectivo, analisou as duas emoções e, ao cabo de análise detalhada, achou-as idênticas em si mesmas e nas aparências.

Nunca teve ambições. Filho de um general e titular do Império, podia ter sido “muita coisa”; não quis; era preciso ser doutor, formar-se, o que lhe daria trabalho, amolações...

Fez-se praticante e foi indo.

Com tão grande saber, Sá Bragança podia ser oráculo de sua repartição, e não o é. As repartições são como a vida em geral — amam os medíocres.

Contudo, ele é bom empregado. A Republica veio encontrá-lo a postos, redigindo um decreto do Defensor Perpétuo; e, ao lhe avisarem: — Seu Bragança, o Deodoro proclamou a República no Campo de Sant’Ana.

— Qual foi? perguntou As suas reminiscências de história não lhe davam de pronto a idéia nítida do que fosse república. Sabia de tantas e tão diferentes, que o seu embaraço não foi afetado.

— República! ... Homessa! ... Governo de todos nós, respondeu o servente.

— E você ainda pretende governar? — Eu, não; mas meus filhos...

— É de esperar, meu amigo.

— Agora, outra coisa: vão restabelecer a escravatura? — Isso não sei, “seu” Bragança.

Disse-me ele que, naquela manhã mesmo lera o seu Fustel de Coulanges, a respeito da significação aristocrática do tratamento cidadão. Despido de ambições, acabado o seu curso, não abandonou os livros. Continuou a ler e a comprá-los mensalmente, procedendo a leitura com a ordem e o vagar de quem vai escrever uma tese. Das revistas estrangeiras, a Revue des Deux Mondes é a que mais quer e cita.

— É a única que não traz figuras, disse-me ele.

Ama as letras pátrias e acompanha o seu movimento com interesse, mas sem paixão. Quando moço, admirou Fagundes Varela e Laurindo Rabelo; hoje, o seu ídolo literário é o senhor barão do Rio Branco.

— Mas não tem livros? — É porque não quer. Se os fizesse...

E a sua fisionomia se concentrou num olhar que parece estar vendo, ao longe, o triunfo de Tito.

Nos dias de bom humor, ele me distingue com as suas piadas críticas: — Na Canaã do Milkau, do doutor Graça Aranha, entrarão o Felicíssimo e aquele simpático “camarada” que dança o miudinho? Não lhe pude responder. A terra de promissão do ilustre romancista fica tão na névoa e no vago — é tão alemã! — que não me atrevi a responder sim. Demais, quem é que precisa de terra de justiça e de amor? Os alemães, sem dúvida! Para Felicíssimo e nós outros, o encorajamento.

Lentziano com a carabina do vagabundo da Tijuca, que vem a ser o mesmo.

Sá Bragança parece que adivinhou o meu pensamento, quando me perguntou em seguida: — Você já reparou que os nossos [...]

* * *

Sem data.

Aos camaradas do Esplendor dos Amanuenses comunica Aff. H. de Lima Barreto, amanuense da Secretaria da Guerra, que vai arejar no Largo da Carioca, onde, durante dois meses, para exercícios variados de artilharia... verbal, continuando, embora com tão árduos trabalhos, a tomar notas para o seu Pequeno Dicionário dos Super-Homens, título esse que o Rivarol, lá do Inferno onde está, há de gostar muito.

Mot de la fin: Rua do Ouvidor. Passa o batalhão naval.

— Que te parece? — O que? (para danar o Rui) — O batalhão naturalmente...

— Os oficiais são de um país e os soldados de outro.

— Um regimento de cipangos.

— Um batalhão de sudaneses.

— Exato! — Tal e qual!

* * *

Abril

O pai de Gonzaga de Sá devia ter nascido em 1813.

Gonzaga de Sá, em 1850, e entrou na secretaria dos Cultos em 1872; quando nasceu, o pai tinha 37 anos, e a irmã deve ser mais velha do que ele 12 anos.

O concerto do Gottschalk.

O benefício da Stoltz.

* * *

O pai de Gonzaga de Sá devia ter morrido em 1874, com, pelo menos, 60 anos — 1814. Fez a campanha do Rio Grande; em 1845 voltou e fez-se professor.

Pai Gonzaga N. 1810 1850 1874 57

G. de Sá 1850 (40)— Mãe morreu em 12 (1866)

General { 1810

Escolástica 1838 (26)..........Mãe morreu em 24

Benefício da Stoltz - 1852 agosto - E. 14 Gottschalk - novembro de 1869.

Escolástica Gonzaga de Sá Pai Mãe Benefício da Stoltz 14 anos 2 anos 42 27 Gottschalk 31 19 69 Morta Morte da mãe (1858) 20 8 58 0

* * *

Sem data

Opiniões e idéias de J. Gonzaga de Sá, oficial da Secretaria dos Cultos.

Encontrei Gonzaga de Sá na Avenida Beira-Mar, numa tarde tépida destes últimos dias. Vinha absorto, com as mãos atrás das costas, agarrando a bengala, de cabeça caída, sem ver as fantásticas mutações nas nuvens altas.

Falei-lhe: — Passeando, hein? — Exato.

— É uma bela avenida, esta! O meu amigo olhou-me um pouco como que experimentando a minha lealdade.

— Não acho, meu caro. Notei as minhas sensações e creio poder resumir o meu exame introspectivo da seguinte maneira: — é o cais da Lapa alargado. Os americanos têm como critério de beleza — a altura; é possível que o nosso venha a ser a largura...

— Ainda não está acabada...

— Quando estiver, a mais só haverá os passeios, o que é insignificante.

— As paisagens? Os pontos de vista? — Não são a avenida propriamente, e já o cais me oferecia o mesmo espetáculo.

— Contudo... quis retorquir a minha mocidade entusiasta.

— Não se agaste... “Le beau pour le crapaud...” — você sabe não é? Profunda verdade! ... É possível que, se os homens não precisassem de dois sexos para se perpetuarem, não houvesse surgido entre [ nós ] uma tão curiosa noção. Já não sou um homem mais; a beleza para mim é uma fórmula algébrica, por isso...

— Creio que o senhor não maldiz os melhoramentos? — Absolutamente não! Pelo contrário, tenho projeto de novos.

Dizendo isto, tirou da algibeira do velho paletó algumas tiras que me deu.

— Leia-as. Amanhã me entregue.

Eu li então o seguinte: “Nota-se que em geral as grandes cidades, especialmente as européias, não têm um fundo de cordilheira como a nossa. Ora, se as grandes cidades não têm tal disposição natural e se o Rio quer ser das grandes à européia, deve arrasar as montanhas. Não há prejuízo algum com isso. A desvantagem única seria a supressão do Corcovado, montanha internacional e muito procurada pelos estrangeiros. Em substituição, pode-se erguer uma torre semelhante à Eiffel, em Paris. Até será muito melhor, pois ficará o Rio muito parecido com a capital da França. O aterro, proveniente do desmonte dos morros, servirá para alterar a baía, um incômodo, sepulcro de crimes e cuja beleza, no juízo dos políticos, é uma vazia banalidade de retórica.

Para o comércio, ficará uma doca; e lá para as bandas de Mauá um lagozinho destinada aos poetas.

Nota-se também que as grandes metrópoles ficam sobre rios mais ou menos consideráveis (Paris, Berlim, Londres, New York, Viena, etc.) — logo se o Rio quer ser grande metrópole deve ficar à margem de um rio respeitável.

Poder-se-ia transformar o Maracanã em rio considerável. Com canalizações suplementares às nascentes, o aumento do seu volume d’água poderia ser obtido; mas seria falsificar. O melhor é um rio autêntico e bem catalogado nas geografias.

Nenhum mais adequado do que o Paraíba, para preencher um fim tão civilizador.” Apesar de tudo, mesmo depois das linhas acima, ainda não tenho uma opinião segura sobre o Gonzaga de Sá doido ou ajuizado, inteligente ou parvo? Não sei.

* * *

Sem data.

XIII — O afilhado. Primeira conversa com o Aleixo Manuel, sua inteligência, sua vivacidade. Saída para o colégio, alegre, contente, cheio de vida. O Gonzaga de Sá, em seguida, ao ir me dando livros, vai expondo suas idéias sobre a ciência. Volta de Aleixo Manuel, mal põe o pé na soleira da sala, põe-se a chorar nervosamente, muito, muito. Gonzaga de Sã o interroga: — Que é? Que foi? — Dindinha, dindinho, me chamaram de macaco, diz ele.

Fim

XIV — Escritos de Gonzaga de Sá. Dia de chuva, fico em casa. Minha irmã toca. Leio e, folheando livros de Gonzaga de Sá, encontro notas e escritos dele. Miauança, minha gata.

Primeiro — Não há mulher, há sexo feminino.

1 — O general.

2 — A ressurreição de Barbarroxa.

3 — A aeronave e o construtor.

4 — Sapo e sapa E alguns pensamentos.

XV — Morte de Gonzaga de Sã. Vou visitá-lo. Está de camisolão, a rasgar papéis e notas. Muito magro, a cabeça muito grande, etc. De repente, sai do quarto, vem à sala de visitas, grita pela irmã, fá-la sentar ao piano, obrigando-a a tocar a “Bamboula” e morre num desfalecimento, recostado num divã, dizendo: — Que complicação... que peso... foi-se... afinal! Estou eu, a irmã, o preto velho e o Aleixo Manuel.

1907

Sem data.

Espécies parlamentares: Augusto de Freitas: untuoso, gestos lentos, sorriso à flor dos lábios. Doce de côco.

Barbosa Lima — imprecações, gestos bruscos e convulsos, voz ora cava, ora estrídula. Apocalíptico.

James Darcy — melífluo, longas melenas oleadas, na voz “trêmolos”, acompanhados de outros trêmolos na mão, que se alça devagar. Manjar branco.

Anisio de Abreu — desengonçado, desarticulado, voz tonitroante, inaudível à meia voz e gestos descompassados, estos. Sermão da quaresma.

Rui Barbosa — voz imperceptível, citações, citações... Temas arcaicos e aforismas. João das Regras.

Germano Hasslocher. Super-homem.

Augusto de Vasconcelos, O silêncio é de ouro.

* * *

25 de novembro.

Précis de Phitosophie. / Rédigé conformément aux programmes officiels. / Pour la classe de philosophie./ D’aprés les leçons de philosophie de M. E. Rabier. / Par René Worms... / Deuxième édition revue. / Paris, Librairie Hachette et Cie. / 1903.

VIII-407p.

Este livro foi-me dado pelo Antônio N. Santos, no “sebo” do Martins, em 1907.

Lima Barreto.

25-11-1907.

* * *

Sem data.

Mário Pederneiras. Artigo em francês, publicado na A Revista, Rio de Janeiro, 1907.

Tolice e burrice minha.

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Manuel Capineiro. Ver do Barreto. Houve uma fome. Estrada Real etc. Caso do capim. Expresso esmaga bois. “Ai mô gado! Antes fosse eu!”

* * *

“A expiação”. Tipo que, sem ter assassinado, acusa-se como sendo o assassino de um caso misterioso.

* * *

“A volta” (?). Mocidade. Carnaval. Bebericos. Choro. “Pobre Chico, que quer?, não me casei.”

* * *

Sobre o humorismo. Pôr tudo na história do riso de Schopenhauer.

* * *

O sentimento do doente nas outras crises. Brigas etc. Falta tudo.

* * *

Mulher bonita é que não falta nesta vida; o que falta é a mulher de que a gente goste.

1908

5 de janeiro.

O ano que passou foi bom para mim. Em geral, os anos em 7 fazem grandes avanços aos meus desejos. Nasci em 1881; em 1887, meti-me no alfabeto; em 1897, matriculei-me na Escola Politécnica. Neste andei um pouco, no caminho dos meus sonhos. Escrevi quase todo o Gonzaga de Sá, entrei para o Fon-Fon, com sucesso, fiz a Floreal e tive elogio do José Veríssimo, nas colunas de um dos Jornais do Comércio do mês passado. Já começo a ser notado. Pelas vésperas do Natal, fui ao Veríssimo, eu e o Manuel Ribeiro. Recebeu-nos afetuosamente. Ribeiro falou muito, doidamente, difusamente; eu estive calado, ouvi, dei uma opinião aqui e ali. Deu-me conselhos, leu-me Flaubert e Renan, aconselhando aos jovens escritores. Falou da nossa literatura sem sinceridade, cerebral e artificial. Sempre achei a condição para obra superior a mais cega e mais absoluta sinceridade. O jacto interior que a determina é irresistível e o poder de comunicação que transmite à palavra morta é de vivificar. Agora mesmo acabo de ler o Carlyle, Hero Worship, no herói profeta, Maomé, que ele diz ser um sincero, acrescentando: “I should say sincerity, a deep, great, genuine sincerity is the first characteristic of all men in any way heroic”. O Veríssimo disse coisa semelhante, dizendo-nos que a glória dos segundos românticos, do Castro Alves, do Fagundes, do Laurindo, do Casimiro, era imperecível, tinha-se incorporado à sorte da nação, porque eles tinham sido sobretudo sinceros. Concordei, porque me acredito sincero. Sê-lo-ei? Às vezes, penso ser; noutras vezes, não. Eu me amo muito; pelo amor em que me tenho, com certeza amarei os outros.

A Floreal vai mal.

* * *

No dia 2, fui à casa do M... A... Ele vive amancebado com uma rapariga portuguesa, de vinte e quatro anos, por aí. Tenho ido lá várias vezes, sempre cheio de suspeitas que me queiram armar alguma cilada. É besta e infantil tal suposição. Eu não compreendo a ligação dos dois. Ele quase não dorme lá, passa dias sem lá ir; sob os pretextos mais infantis, passa as noites fora. Corre que tem outra amante; suspeito que tem um sócio na mulher. Eu julgo que ele não dorme em casa, para deixar o outro dormir; entretanto, pelas conversas dos dois, há noites em que dorme. Ela não o ama; ela o quer para descansar da vida fatigante, aborrecida, trabalhosa, de mulher pública. Moram numa casa de duzentos mil-réis de aluguel, têm um trem de vida de trezentos; não saem juntos; se se encontram na rua, não se falam. É enigmático. Porque se mantêm juntos, que soma de interesses representa tal ligação? A mulher é pouco para o homem que é; e o homem etc. etc.

Fui lá, dizia, entrei para a sala de jantar, sentei-me e ela veio ao meu encontro: — ... não está.

Tinha ido a um jantar, disse-me ela. Tinha esquecido o rendez-vous etc. etc.

Em começo, tive uma alegria de devasso — quem sabe? — que passou depressa e felizmente. Ela sentou-se na minha frente, fumei desesperadamente e conversei. Nunca estive tão bem. Tenho vinte e seis anos e, até hoje, ainda não me encontrei com uma mulher de qualquer espécie de maneira tão íntima, de maneira tão perfeitamente a sós; mesmo quando a cerveja, a infame cerveja, me embriaga e me faz procurar fêmeas, é um encontro instantâneo, rápido, de que saio perfeitamente aborrecido e com a bebedeira diminuída pelo abatimento.

A Cecília, tal é o seu nome, é pequena, dá-me pelo peito; é pálida, com aquela palidez mate das prostitutas um tanto diminuída; simples de inteligência, não tem quatro idéias sobre o mundo, aceita o seu estado, acha-o natural, não deita arrependimentos, tem vontade de empregar as elegâncias que aprendeu com as francesas dos grandes bordéis em que andou (Valéry, Richard, etc., etc.). Para mim, apesar da sua maneira de apertar a mão com as pontas dos dedos, ela me fica sendo sempre uma cachopa dos arredores do Porto, meiga, simples, ignorante e um tanto obstruída de inteligência, que um vendaval de miséria trouxe para esta África disfarçada, diminuindo em sua mãe o sentimento de família, aproveitada essa diminuição pela concupiscência dos patrícios que lhe atiraram à grande prostituição, acenando-lhe com a riqueza e a fortuna, que ela não alcançou, talvez porque fosse fundamentalmente boa. Eu a tenho observado muito e, com grande medo da minha inexperiência, eu a quero boa, doce, sem arrependimento, mas a desejar um casamento que a nobilite e eleve. Quando saio de sua casa, depois de sua ingenuidade, depois de sentir que a prostituição lhe roçou de leve, posso dizer com M. de Vogué, a respeito da Casa dos Mortos, de Dostoievski: fico contente em ver que a nossa humanidade é melhor. Sinto por ela que há um cristal de pureza inalterável como núcleo eterno da pessoa humana, e que raramente ele se desagrega, mesmo sob o império das mais baixas degradações por que possamos passar.

Essa rapariga, que viu bordéis, ladrões, estelionatários, rufiões e jogadores; que se meteu em orgias; que certamente se atirou a desvios da sexualidade, aparece-me cândida, ingênua e até piedosa. Estou a ver daqui os seus cabelos castanhos, os seus olhos de um azul desmaiado, e não sei porque me lembram Maria Madalena. Há não sei que separação entre o seu passado e presente e a sua alma verdadeira, que tenho um delicioso bem-estar em vê-la. É como se ela me trouxesse “uma redoma de alabastro cheia de bálsamo”. Nessa tarde, eu, com vinte e seis anos, e ela, com vinte e quatro, ainda muito lembrada da vida antiga, conversamos, das seis e meia às dez horas, inocentemente, e creio que saí com os pés ungidos de nardo, mal enxugados pelos seus lindos cabelos. Eu a olhava com o meu olhar pardo, em que há o tigre e a gazela, de quando em quando, e ela, sempre, constantemente, me envolvia com o seu olhar azul, macio e sereno, que lhe iluminava o sorriso de afeto, eterno e constante, espécie de riso da natureza fecunda e amorável por uma manhã límpida e suave de maio, quando as flores desabrocham para frutos futuros.

Nunca mais hei de me esquecer desta sua frase: — Senhor Barreto, M... não está. O senhor janta e depois vai se embora, não é? Esse “depois vai se embora” foi dito com tal singeleza, com tal espontaneidade, como se pronunciasse uma donzela ou uma senhora casada. E quantas destas seriam capazes de dizer isso com tanta candura?!! Por que razão o destino tê-la-ia prostituído e atravessado no caminho da minha vida? No jantar, nunca foi tão cordial a nossa palestra.

— Não faça cerimônia, senhor Barreto. Gosta de feijão? — Muito, e a senhora? — Muito também.

— Admira...

— Os portugueses gostam...

— O feijão tem uma coisa, disse eu, é feio...

— Mas é gostoso, acrescentou ela alegre, e como muita gente feia, mas gostosa.

Depois do jantar, conversamos longamente; não vi como a conversa começou e resvalou para coisas de jogo, de mulheres.

Ela bebeu mais que de hábito, e houve um instante que ela me disse, ao tomar um copo de vinho, cheia daquela espontaneidade que dominou a entrevista toda: — Eu não posso viver sem gostar de alguém.

É de tarde, chove, embora assim olho a janela, para ver se dou no céu com um pouco daqueles seus olhos de azul límpido, com aquele seu sorriso de florescimento da natureza... É feia a tarde, névoa cerrada, moinha de carvão no ar...

Como a prostituição me parece sagrada; se não fora ela, esta minha mocidade, órfã de amor, de carinho de mulher, não teria recebido esse raio louro de um sorriso e de um olhar, para me recordar esse misterioso amor que se sofre, quando se o tem, e se padece, quando se não o tem.

Abro o Cântico dos Cânticos, leio um versículo a esmo: “Apareceram as flores na nossa terra, chegou o tempo da poda: ouviu-se na nossa terra a voz da rola”...

Chove... Vou para a cadeira de balanço. Vou fumar e sonhar...

* * *

24 de janeiro.

A esquadra americana, forte de quinze navios grandes e não sei quantas torpedeiras e destroyers, já saiu. Trazia uma tripulação de dezesseis mil homens, que, aos dois mil e três mil, encheram a cidade diariamente. Era tripulação variada. Trazia gente de diversas nacionalidades: franceses, portugueses, italianos, turcos, alemães; trazia negros e mulatos, alguns destes bem postos e fortes. Tomei um “pifão” uma noite e andei experimentando o meu inglês com alguns. Foi um fiasco. Observei fisionomias. Algumas lindas; nunca vi nas mais lindas mulheres brancas daqui o tom doce de uma fisionomia de marinheiro que me caiu sob os olhos. Entre nós, as fisionomias são mais secas, contraídas, cheias de fogo, mas não tem a limpidez dessas fisionomias saxônicas, que a gente vê nas reproduções dos quadros dos pre-rafaelistas. Há alguma coisa de primitivo nelas, de um primitivo sem selvageria, um sentimento do além, do desconhecido, visto por anjos delicados. Os selvagens são sempre graves; nós somos sempre graves, quando não, uns abandonados às contrações sagradas do “purismo”.

Mesmo a Cecília e as portuguesas que conheço não têm esse ar de arcanjo que o marinheiro me fez ver. Por falar nela, voltei lá na penúltima quinta-feira. Não trouxe nenhuma convicção. A conversa foi falsa. M... estava lá, com toda a sua burrice e falta de poesia.

Quarta-feira última, chegando à secretaria, deram-me um convite para assistir à saída da esquadra de bordo de um navio do Lloyd. Fui, depois de hesitar muito.

* * *

Fui a bordo ver a esquadra partir. Multidão. Contato pleno com meninas aristocráticas. Na prancha, ao embarcar, a ninguém pediam convite; mas a mim pediram. Aborreci-me. Encontrei Juca Floresta. Fiquei tomando cerveja na barca e saltei.

É triste não ser branco.

* * *

10 de fevereiro.

Fui ontem a São Gonçalo. É um município limítrofe ao de Niterói. Fui à casa do Uzeda. Uzeda é um segundo oficial da Secretaria da Guerra, casado com uma professora pública do lugar.

Embarquei às oito e meia no Largo do Paço; fazia uma manhã quente e feia, ensombrada de nuvens. Encontrei o Pinho, um meu antigo colega da Escola Politécnica. Vinha de exercícios práticos. Soberbamente insuportável. Indagando da produção do município, não me soube informar com simplicidade. Atribuiu a falta da lavoura à indolência do povo. Tive vontade de perguntar se ele, engenheiro, tendo estudado a química, física e história natural, dava um exemplo salutar, cultivando o sítio onde morava. Calei-me, e foi dizendo bobagens. Fez uma crítica severa às tarifas do Tramway Rural Fluminense. É isto uma pequena estrada de ferro, com carros abertos ao jeito de bondes, que liga as Neves ao município de São Gonçalo. E uma coisa tosca, necessariamente exigindo para a sua manutenção uma série de medidas empíricas, que a prática dita; o idiota do Pinho quer que ela se guie pelos princípios tarifários que regem os fretes das grandes vias-férreas. Disse-me coisas proveitosas, que, por exemplo — o esforço da tração era o mesmo na descida que na subida. É profundo.

As Neves não tiveram, para os meus olhos, nada de notável. Têm o aspecto comum dos nossos postos afastados e edificados. Casas baixas, pintadas de azul, de oca; janelas quadradas; espessas escadas de tijolos e pedras, que dão acesso a portas baixas; fisionomias indolentes de homens pelas portas das vendas; mulheres: negras, brancas e mulatas — tristes, de longos olhares, em que há desejos de volúpias e sonhos de festas, de bailes, fantásticos, de envolvedoras agitações de todo o corpo, capazes de as fazerem esquecer e quebrar a monotonia daquela vida pobre e triste que levam, tão parecida ainda com a senzala, em que o chicote disciplinador de outrora ficou transformado na dureza, na pressão, na dificuldade do pão nosso de cada dia.

Tomei o tramway. Fui vendo o caminho. A linha é construída sobre a velha estrada de rodagem. Em breve, deixamos toda a atmosfera urbana, para ver a rural. Há casas novas, os chalets, mas há também as velhas casas de colunas heterodoxas e varanda de parapeito, a lembrar a escravatura e o sistema da antiga lavoura. Corre o caminho por entre colinas, há pouca mata, laranjeiras muitas, algumas mangueiras.

Eu, olhando aquelas casas e aqueles caminhos, lembrei-me da minha vida, dos meus avós escravos e, não sei como, lembrei-me de algumas frases ouvidas no meu âmbito familiar, que me davam vagas notícias das origens da minha avó materna, Geraldina. Era de São Gonçalo, de Cubandê, onde eram lavradores os Pereiras de Carvalho, de quem era ela cria.

Lembrando-me disso, eu olhei as árvores da estrada com mais simpatia. Eram muito novas; nenhuma delas teria visto minha avó passar, caminho da corte, quando os seus senhores vieram estabelecer-se na cidade. Isso devia ter sido por 1840, ou antes, e nenhuma delas tinha a venerável idade de setenta anos. Entretanto, eu não pude deixar de procurar nos traços de um molequinho que me cortou o caminho, algumas vagas semelhanças com os meus. Quem sabe se eu não tinha parentes, quem sabe se não havia gente do meu sangue naqueles párias que passavam cheios de melancolia, passivos e indiferentes, como fragmentos de uma poderosa nau que as grandes forças da natureza desfizeram e cujos pedaços vão pelo oceano afora, sem consciência do seu destino e de sua força interior.

Entretanto, embora enchesse-me de tristeza o seu estado, eu não pude deixar de lembrar-me, sem algum orgulho, que o meu sangue, parente do seu, depois de volta de três quartos de século, voltava àquelas paragens radiante de mocidade, saturado de noções superiores, sonhando grandes destinos, para ser recebido em casa de pessoas que, se não foram senhores dele, durante algum tempo, tinha-o sido de outrem da mesma origem que o meu.

Eu vi também pelo caminho uma grande casa solarenga, em meio de um grande terreno, murado com um forte muro de pedra e cal. Estava em abandono, grandes panos do muro caídos e as aberturas fechadas com frágeis cercas de bambus. Eu me lembrei que a grande família de cuja escravatura saíra minha avó, tinha se extinguido, e que deles, diretamente, pelos laços de sangue e de adoção, só restavam um punhado de mulatos, muitos, trinta ou mais, de várias condições, e eu era o que mais prometia e o que mais ambições tinha.

Ela fora mais caipora do que aquele muro sólido, porque extinguira-se, caíra de todo e não deixara da sua linha direta nenhum rastro.

Cheguei à casa do Uzeda.

Antes vi a vila. Há uma grande rua principal, com uma imensa matriz a cavaleiro dela, e toscas casas que a arruam. O trem passa embaixo e, junto ao paço municipal, é macadamizada. A câmara municipal é um caixão ignóbil. Não sei porque nós não sabemos fazer esses edifícios com o gosto que os arquitetos da Idade Média faziam os dos seus burgos. Que infâmia é a que vi! Entretanto, é moderna, tem menos de vinte anos. A capela tem o acabamento das torres em pirâmide; é sem gosto e soturna; não há uma casa com sentimento, e a gente tem o que ver, apenas nas das colunas, em que a escravidão pôs seus sofrimentos e as suas recordações.

A mulher do Uzeda é rapariga anêmica, dessas nossas que a mocidade sabe dar um brilho singular com a sua fragilidade, mas que a maternidade e o tempo empanam e estiolam de modo lastimável. É morena, de curtos cabelos. Rosto em V, bom, para um rapaz inteligente, e que nela, com seus hábitos de paciência que o professorado dá, empresta uma singular fisionomia de freira, que o olho direito mais estreito faz quebrar com certa canalhice.

* * *

15 de maio.

Ontem fui à casa do Goulart, Goulart de Andrade, poeta. Já publicou um livro vitorioso. Não gosto de sua poesia, muito sábia, muito certa, muito verbal, com pouco de sua pessoal, tocando certos temas clássicos; entretanto, ele é trabalhador, poeta agradável, legível e verbal.

Leu-me uma sua peça — Inconfidentes. Trata-se de Tiradentes e os poetas da conjuração. Há versos bonitos. Fraca de espírito, pouca graça, muito pouca. O entrecho não podia ter nada de novo. Os poetas falam com ênfase no primeiro ato. Tiradentes vocifera no segundo; no terceiro, Bárbara Heliodora encontra-se com Marília de Dirceu e Maria Ifigênia, fala como uma melancólica dos nossos dias. O quarto ato é na prisão, movimentado, mas não dramático. A peça toda tem esse defeito: tem movimento mas não tem drama. Goulart não compreende o drama, não sente a paixão. A paixão, para ele, existe depois da poesia — ele só sente o verso. Ilude, no drama, na peça, essa sua fraqueza com o movimento. E um poeta, puro, um poeta de sessenta anos passados, que não parece ter aprendido mecânica, astronomia e navegação. Eu não acredito absolutamente na eficácia da ciência para fazer poetas e literatos; às vezes mesmo a julgo nociva; mas tenho para mim que o processo é o mesmo na arte e na ciência: um acordo entre o oculto e o visível, uma relação entre fatos que, só com os instrumentos do pensamento, ganham uma explicação.

Poeta, antes da poesia, eu devo ter as paixões, as emoções para exprimi-las em verso; dramaturgo, comediógrafo, romancista, da mesma forma: os costumes, as paixões, os sofrimentos, as emoções, o entrechoque delas no cenário do mundo. O estilo, na frase de alguém, é um acompanhamento.

Enfim, para que discutir? Se a poesia agrada...

Leu-me o Coelho Neto — Jardim das Oliveiras. Há algumas coisa boa, diferente do Neto comum, cantador de condessas, baronesas, misses etc. Esse Neto de pacotilha que tem medo de dizer as suas amarguras contra “a sociedade que nos esmaga”.

Contei-lhe o Isaías Caminha. Achou graça, mas ficou apreensivo. Não tinha razão: eu sou amigo dele e sei ser amigo até à última hora.

E nunca, penso eu, procurei ser inimigo do meu ex-amigo.

Cheguei em casa às onze e quarenta e li um artigo de Gaultier sobre o bovarismo na história, a propósito do último livro de Nietzsche. Considerações inatuais. Pelas doze e quarenta apagava a vela e dormia.

* * *

5 de julho.

Domingo. Levantei-me às dez horas, fiz a barba, concertei a gravata, arranjei melhor a minha roupa velha; pus-me limpo e elegante, enfim. Ia visitar umas damas; isto é, ia à casa de duas raparigas de vida airada, que vivem em semi-mancebia com dois antigos colegas meus, o A...,M...,e o C..., M... Hoje, ambos são engenheiros da Prefeitura.

Cheguei lá às duas horas da tarde. Nenhum dos dois estava. Fiquei a conversar com a amiga do A... Chama-se Maria, Cecília, Celina, ou coisa que valha. Eu simpatizo com essa mulher, porque ela me inspira piedade. E eu a ter piedade! Elas têm outros amigos, com o consentimento deles. É uma coisa da moda, isto, hoje. Os costumes estão desse modo, permitem já a poliandria. Há muita falta de delicadeza e beleza nas nossas coisas.

Aborreci-me!

* * *

16 de julho.

Desde menino, eu tenho a mania do suicídio. Aos sete anos, logo depois da morte de minha mãe, quando eu fui acusado injustamente de furto, tive vontade de me matar. Foi desde essa época que eu senti a injustiça da vida, a dor que ela envolve, a incompreensão da minha delicadeza, do meu natural doce e terno; e daí também comecei a respeitar supersticiosamente a honestidade, de modo que as mínimas coisas me parecem grandes crimes e eu fico abalado e sacolejante. Deu-me esse acontecimento, conjuntamente com a vida naturalmente seca e árida dos colégios, uma tristeza sem motivo, que é fundo de quadro, mas pelo qual passam bacantes em estertores de grande festa. Outra vez que essa vontade me veio foi aos onze anos ou doze, quando fugi do colégio. Armei um laço numa árvore lá do sítio da ilha, mas não me sobrou coragem para me atirar no vazio com ele ao pescoço. Nesse tempo, eu me acreditava inteligente e era talvez isso que me fazia ter medo de dar fim a mim mesmo.

Hoje, quando essa triste vontade me vem, já não é o sentimento da minha inteligência que me impede de consumar o ato: é o hábito de viver, é a covardia, é a minha natureza débil e esperançada.

Há dias que essa vontade me acompanha; há dias que ela me vê dormir e me saúda ao acordar. Estou com vinte e sete anos, tendo feito uma porção de bobagens, sem saber positivamente nada; ignorando se tenho qualidades naturais, escrevendo em explosões; sem dinheiro, sem família, carregado de dificuldades e responsabilidades.

Mas de tudo isso, o que mais me amola é sentir que não sou inteligente. Mulato, desorganizado, incompreensível e incompreendido, era a única coisa que me encheria de satisfação, ser inteligente, muito e muito! A humanidade vive da inteligência, pela inteligência e para a inteligência, e eu, inteligente, entraria por força na humanidade, isto é, na grande humanidade de que quero fazer parte.

Mas não é só não ser inteligente que me abate. Abate-me também não ter amigos e ir perdendo os poucos que tinha. Santos está se afastando; Ribeiro e J. Luís também. Eram os melhores. Carneiro (o Otávio), o egoísta e frio Otávio, está fazendo a sua alta vida, a sua reputação, o seu halo grandioso, e é preciso não me procurar mais. Eu esperava isso tudo; mas não pensei que fosse tão cedo. Resta-me o Pausílipo, este é o único que se parece comigo e que tem o meu fundo, que ele desconhece por completo.

Eu os sabia desse feitio, principalmente o O. C. Ele tinha um lustre, um verniz de independência e desinteresse, de superioridade e de grandeza, mas a vida, a grande vida, a fortuna, as fêmeas e uma esposa assim, pedem outras coisas muito diferentes: submissão, respeito pelo estabelecido, companhias que não sejam suspeitas, etc.

Eu fico só, só com os meus irmãos e o meu orgulho e as minhas falhas.

Vai me faltando a energia. Já não consigo ler um livro inteiro, já tenho náuseas de tudo, já escrevo com esforço. Só o Álcool me dá prazer e me tenta... Oh! meu Deus! Onde irei parar? Tenho um livro (trezentas páginas manuscritas), de que falta escrever dois ou três capítulos. Não tenho ânimo de acabá-lo. Sinto-o besta, imbecil, fraco, hesito em publicá-lo, hesito em acabá-lo.

É por isso que me dá gana de matar-me; mas a coragem me falta e me parece que é isso que me tem faltado sempre.

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26 de outubro.

No Correio da Manhã de hoje, trecho de um artigo de Carmen Dolores: “...... e ficamos a rebolar, sempre a rebolar, tristes bolas sociais”

Sem data

Modificações a fazer no manuscrito (12): 1) Onde está: Figueiredo Pimentel, no “Binóculo”, etc.(Cap. X ou XI), escrever: Florencio Silva, no “Despacho”, etc. Adiante, substituir Figueiredo Pimentel por Florencio Silva.

2) Onde diz: trezentos mil portugueses, pôr duzentos mil (Cap. XI ou XII).

3) Onde diz: sensação imperscrutável da música, etc. (Cap. XIII) pôr sensação imponderável, etc.

4) Onde diz: as extremidades dos remos luziam como prata e a nossa esteira era luminosa (Cap. XIV in fine) pôr: ”As pás dos remos, caindo nas águas escuras, abriam largos sulcos luminosos de minúsculas estrelas agrupadas e todo o barco vogava envolvido naquele estrelejamento, deixando uma larga esteira fosforescente.

5) Abaixo desta frase de diálogo no Cap. XII: — Homem, você hoje está muito zangado! (Floc), acrescentar: Ele não compreendia que eu também sentisse e sofresse.

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2 de novembro.

Segunda-feira.

Foi dia de finados. A exposição como já se esperava, foi muito concorrida. Entretanto, alguns pavilhões e palácios estiveram fechados, hermeticamente fechados, como túmulos. Era justo.

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3 de novembro.

Terça-feira.

A chuva reapareceu. Veio fraquinha, deliciosamente fraquinha; mas veio. A exposição esteve agradavelmente vazia. Os diretores, de onde em onde, passeavam pelas ruas de chapéu-de-sol aberto, a olhar simpaticamente os raros visitantes. O doutor Antônio Olinto mesmo a um quis servir de guia. O homem, que pertencia à falange jornalística, abespinhou-se com a amabilidade do presidente. Pois não o conhecerem! ...

O Restaurante Pão de Açúcar serviu jantar a seus empregados e a alguns da exposição. O bar vendeu alguns chopes ao pessoal da polícia.

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6 de novembro.

Sexta-feira.

Pouco sei do que tivesse sido o dia; mas a noite foi cheia. Pelo menos, no teatro, foram levadas três peças. Foi, portanto, uma noite de máxima teatral na exposição. Nenhuma delas era de Coelho Neto; uma era de um autor falecido e as duas outras tinham sido escritas por autores jovens e já muito estimados pelo público. Um destes últimos é o nosso amável colega Agenor de Carvoliva, o gentil Carvoliva dos noticiários, que teve a felicidade de ver aplaudido, como merecia, o seu delicado trabalho teatral que intitulou: O Eterno Romance.

O outro jovem autor, que se fez representar pela primeira vez, foi dona Carmen Dolores. O público conhece sobejamente o autor pela leitura de suas crônicas e contos, cheios sempre de altos conselhos morais e animados superiormente pelo sentimento da família e da pureza do lar; mas a pessoa é totalmente desconhecida da nossa população.

É uma moça esbelta, de menos de vinte e cinco anos, reservada, vestida sempre com discretas toilettes, que quase nunca é vista nos lugares em que nos pomos à mostra. Os seus grandes olhos redondos são povoados de sonhos íntimos e toda ela, com seu corpo esguio e seu perfil espiritualizado, parece viver absorvida na arte, ouvindo a música das esferas e as harmonias dos arcanjos. Muito moça, as triviais coisas da elegância não a fascinam, nem lhe são a cogitação constante. Despreza os vestidos, os tecidos caros, as rendas, as modas, os chapéus. Pouco freqüenta as salas e salões; não acha neles atrativo algum, de qualquer ordem ou natureza; julga-os fúteis, desprovidos de atmosfera intelectual propícia à vida de seu espírito e da sua alma.

Moça, e moça circunspecta, não podendo, em obediência aos costumes, viver a vida agitada e desigual de um rapaz do seu temperamento, ela se abroquela no estudo e na leitura. Vive que nem um beneditino ou um solitário do Port-Royal, toda entregue às obras e às concepções. É ela, entre nós, uma das poucas pessoas que possuem perfeito conhecimento de toda a evolução da língua francesa. A sua biblioteca é rica dos antigos documentos dessa língua, e quem a visita poderá ver além do Froissart, Villehardouin, todas as gestas do ciclo carolíngio, Renaud de Montauban, Chanson de Roland, etc., nas edições mais autorizadas.

Além desse conhecimento, que é valioso, dona Carmen Dolores possui uma ciência perfeita do inglês, traduz Chaucer, como se fosse um autor dos nossos dias; e há anos que se dedica ao estudo da metafísica alemã e dos teólogos da Idade Média. É um raro tipo de autora, entre nós: bela, não é coquete; ilustrada, não é pedante; gloriosa, não se exibe. A sua peça — Desencontro — espantou a crítica nacional, pelo rigor da concepção, arrojo das idéias e louçania do diálogo, quente e nervoso.

Foi mais uma vitória para o Grêmio Dramático Artur Azevedo, que tanto tem concorrido para o brilho do certame da Praia Vermelha, representando primores de autores falecidos e obras-primas de alguns camaradas nossos e dos organizadores da companhia.

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