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Diário Íntimo

Lima Barreto

1910

Sem data

À tarde, um aprés midi de verão, assoupissant, todas as vidas param e dormem, para que o [...] dos trópicos venha aparecer e agradeça a fecundidade que demorava pelas suas terras.

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Discussões literárias.

Estilo.

Gramática.

Critério [ ? ] filosofia.

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Fuzilamento. Ilha das Enxadas. O enviado do marechal. Este, aquele. A lanterna. A leva. O batelão. Quaresma. [... ]. A presença do poente [ ? ]. Soluço. Será o mar?

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Malaiala ou telugo.

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A conveniência do estilo consiste em escrever sobre os mesmos assuntos que o fizeram os escritores clássicos, com as mesmas expressões e conforme o mesmo plano.

Herculano [?], 117.

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Dissonância do desespero.

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Pathos.

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Ele pensava criar ambiente, a sua casa. O seu sonho é tão forte!

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Quando sobe em balão e vê o Rio, ele recorda as leituras, evoca a grandeza do Brasil e o seu sonho volta com força, etc.

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Ele não percebia que via com os olhos do sonho, não descontava a refração dessa atmosfera especial, para avaliar a realidade.

Anastácio.

Observações.

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Floriano preguiçoso. Fraqueza. Fuzilamentos. Paternalidade [ ? ] com os alunos da Escola Militar.

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Quaresma é feito procurador do Amazonas pelo partido da concentração. Os partidos. Brasileiros, peruano se bolivianos [......]

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A trama do céu se tinha alargado.

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Tibulo Ouve, meu anjo, o canto meu Como as cotovias sobre o mar Quando escutam os gemidos Das ondas de Trafalgar [ ? ]

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Esmeralda.

O exército. A matemática. A luta com os [ ... ] A Marinha. Monge e Lagrange.

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A Duquesa, pata, parece arrastar um manto de arminho.

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Os [...] Na retirada, todos se põem a gritar: metafísicos. O general chega, repreende severamente: são fetichistas.

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Falar nas matas devastadas.

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E [.......] indaga de Felizardo: porque não planta nas suas terras?

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Casa de Maria Rita. A neta. Chateaubriand. O inventário, etc. etc.

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Eschwege Grupiaras — cascalho aurífero solto.

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Choros, folhinhas, registros, retratos [......]

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Capítulo VII — Continuam os desgostos de Ricardo.

Cap. VIII — É o 5o antigo.

Cap. IX-É o 6o Capítulo X — A revolta, etc. Casa de Cavalcanti, etc.

Cap. XI — É o 7º antigo.

Cap. XII — A defesa da legalidade.

Capítulo XIII — Morte e enterro de Ismênia, etc. etc.

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Cap. XIV — Armação, guerra, etc. Ferimento de Quaresma. Ilha das Enxadas. Fuzilamento.

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Cap. XV — Fuzilamento de Quaresma, por ter protestado.

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Desgostos de Ricardo. Subúrbios — sua moradia. Razão dos desgostos. A glória. As preocupações. O seu triunfo em casa do general. Casamento de Genelício. Florêncio, Breves, Caldas, Inocêncio Bustamante.

Ismênia.

Apesar desse triunfo, sempre desgosto. Motivos por que foi procurar Quaresma.

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As unhas nacaradas dos seus longos dedos mergulhavam na maciez de cabelos negros.

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Pombos, quando sai o enterro de Ismênia, voam.

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Ismênia vai à casa da cartomante.

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A lua. Cap. II — 3a Parte.

No silêncio da noite, a lívida lua dourava tudo, o céu e árvores e coisas, homens e as casas, com a sua luz emprestada e fria.

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Feitiçaria, etc.

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As suas terras eram de soalheira, expostas ao poente, o que não contentava Anastácio, que as queria olhando para o levante, de “noruega”, melhores. Variavam muito quanto à proporção de argila, areia, húmus e calcário, de pedaço a pedaço.

Em geral, eram areno-argilosas, pouco calcário e pobres em húmus.

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Queria o incrível. Tácito.

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Revue de Deux Mondes, 1-8-08. Gaston Rougeot. Sobre os resultados da psicofisiologia.

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Policarpo Quaresma.

Idéia que mata.

A decepção.

O prêmio.

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As paineiras estavam cobertas de flores, rosadas e brancas, que, a espaços, caíam com a doçura de ave ferida.

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Bernardin de Saint-Pierre, artigo sobre a sua vida e caráter. Natura ed Arte — Setembro de 1906 a outubro.

* * *

Artigo sobre a vida, experiência de renascimento. Natura ed Arte — 5-12-06.

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Os barcos passavam. Ora, eram lanchas fumarentas; ora, pequenos botes ou canoas, com as suas velas alvas, roçando carinhosamente pela superfície das águas, pendendo para um lado ou outro, como se as quisessem afagar um instante. Os Órgãos vinham suavemente morrendo na violeta macia; e o resto era azul, um azul imaterial de inebriar, de embriagar, como um licor capitoso. Ele se voltava, depois, para a cidade, que entrava na sombra, aos beijos sangrentos do ocaso.

Vinha-lhe então pensar por que força misteriosa, por que injunção irônica, ele se tinha misturado em tão tenebroso acontecimento, assistindo ao sinistro alicerçar do regímen.

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O processo da vida devia ser outro. Se fosse de doçura, de bondade, talvez a humanidade depurasse [? ].

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Ilusões que morrem.

Ilusões e fatos.

Desenganos.

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Um oficial no hospício como deve ser considerado? Louco.

Doutrina da solidão.

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Consultar a toda a hora o dicionário. Livros empregados.

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Sobre os negros, em geral, e principalmente sobre as populações coloniais da Ásia e Oceania, é bom ver a Revue Scientifique, de julho de 1906. M. Louis Lapicque.

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Sobre a literatura em geral, ler Brunetière, Revue des Deux Mondes — Janeiro e fevereiro de 1892.

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Nietzsche: Revue des Deux Mondes — Setembro a outubro de 1892.

Pascal: Revue des Deux Mondes — 15 agosto 1879, Brunetière.

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Como se deve escrever a história do Brasil, tomo VI da Revista do Instituto Histórico.

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Artigo de Littré sobre árias e semitas, 1º de julho de 1857.

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O triste fim de Policarpo Quaresma:

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Leme. Pescadores seguiam as ondas com a tarrafa.

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Olhos cheios d’água.

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El negro se ha ido cuando se fué la fiebre, que excluía la concurrencia dominante del trabajador europeo.

El Brazil, M. Bernárdez, pág. 6.

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Rouché. L’Art Théatrale Moderne.

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Sem data

I — HISTORIA DO MACACO QUE ARRANJOU VIOLA

Um macaco saiu à rua muito bem vestido. As crianças começaram a troçá-lo: — Olha o rabo! Olha o rabo do macaco! — Meninos, deixem-me dizia o macaco. As crianças, porém, continuaram: — Olha o rabo do macaco! Ele foi então a um barbeiro e pediu que lhe cortasse o rabo. O barbeiro recalcitrou. Ele insistiu e ameaçou-o de lhe furtar a navalha se não lhe cortasse a cauda. O barbeiro cortou-lhe a cauda e o macaco voltou à rua muito contente. A assuada continuou: — Olhem o macaco cotó! Olhem! O macaco voltou ao barbeiro e pediu que lhe pusesse de novo a cauda. O barbeiro mostrou que era impossível. O macaco furtou-lhe a navalha. Continuou o seu caminho e veio a encontrar uma mulher que escamava peixe com a mão. — Porque você escama peixe com a mão? — Porque não tenho faca, diz-lhe a mulher. -Tens aqui uma navalha. A mulher aceitou e ambos comeram o peixe com farinha. Chegando mais adiante, arrependeu-se e foi de novo buscar a navalha. A mulher recusou, porque lhe tinha dado o peixe. — Ah! não me dás, disse o macaco, eu te furto a farinha! Dito e feito. Furtou-lhe a farinha e seguiu adiante, vindo a encontrar uma professora que dava bolos de pau às meninas. Ele, então, ofereceu a farinha. A professora aceitou e ele entrou também nos bolos. Tendo andado um pouco, arrependeu-se e veio reclamar a farinha. A professora não a tinha mais e, portanto, não a pôde restituir. Ele então arrebatou uma menina. Com ela às costas, foi indo, vindo a encontrar um tipo que tocava viola. Deu-lhe a menina em segurança e pediu-lhe a viola. Armado do instrumento, foi a esmo, topando com um rio. Não o podendo atravessar, começou a cantar as suas proezas e, acabado que foi o hino à sua astúcia, atirou-se ao rio. “Macaco, com o seu rabo, arranjou navalha; com a navalha, arranjou peixe; com o peixe, arranjou farinha; com a farinha, arranjou menina; com menina, arranjou viola”.

(Contado por dona Minerva Correia Pinto, natural de Valença, à rua do Piauí, 64, Todos os Santos).

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HISTÓRIA DO LINGUADO

O linguado tem a boca torta, porque, certa vez, Nossa Senhora, tendo chegado à praia, perguntou: — Linguado, a maré enche ou vaza? O peixe arremedou a fala e gesto de Nossa Senhora: — Linguado, a maré enche ou vaza? Por castigo ele ficou sempre com a boca torta.

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II — HISTÓRIA DO DIABO QUE FOI AO BAILE

Certa vez, havia um baile animado num lugarejo da roça. Dançava-se e cantava-se, quando entra um moço muito bonito e pede licença para cantar. Toma de uma viola e canta. Encantou. Todas as moças ficaram pelo beicinho e ele continuou durante muito tempo triunfando. Eis senão quando uma criança se abaixa e diz: — Mamãe, esse moço tem pé de pato.

Houve um cheiro de enxofre e o moço desapareceu.

Era o diabo.

(Estas duas histórias me foram contadas quando menino e são correntes).

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III — O MACACO E A ONÇA

O macaco andava de implicância com a onça e a onça com o macaco. Um belo dia esta veio a encontrá-lo trepado na floresta a tirar cipó.

— Que fazes aí, compadre macaco? — Ah, não sabes, comadre onça, que estou fazendo? É a minha salvação.

— Como? — Pois não tens notícia de que Nosso Senhor vai mandar um pé de vento fortíssimo e só se salvará quem estiver amarrado? A onça logo pediu amedrontada: — Então, compadre, amarra-me também para que eu não morra.

O macaco objetou que ela lhe queria fazer mal; mas, à vista dos juramentos e promessas, animou-se a descer e amarrar bem a onça. À proporção que amarrava, perguntava ao felino: — Pode-se mexer? A onça fazia esforços e, logo que ela não pôde fazer o menor movimento, o símio deu-se por satisfeito.

Vendo-a bem amarrada, o macaco agarrou um cipó bem grosso e deu-lhe uma surra.

Veio uma seca e a onça, para vingar-se do macaco, ficou de sentinela no único lugar em que havia água. Todos os animais podiam ir aí beber, exceto o macaco. O macaco imaginou então um estratagema. Encontrou um pote de melaço, besuntou-se todo e depois espojou-se nas folhas secas... Assim disfarçado, foi para aguada.

A onça perguntou: — Quem vem lá? Respondeu o macaco: — É ará (?) (ouriço).

E vem beber água, no que se demora muito.

A onça admira-se muito: — Que sede! O macaco, tendo se afastado e fora do alcance da onça, responde: — Admira-se! Pois desde a surra que te meti, água jamais bebi.

(Contado com pornografia pelo A. Higino, contínuo da Secretaria da Guerra, natural do Rio Grande do Norte).

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IV — O MACACO E A RAPOSA

O macaco e a raposa se juntaram para poder viver. O macaco arranjou um laço, feito de uma corda, furtada. a uma fazenda; e a raposa levava uma faca. Postavam-se no trilho do gado e o macaco atirava o laço, cuja ponta ficava amarrada a um tronco de pau. Logo que a novilha era laçada e presa, a raposa atirava-se à rês e sangrava. Após comiam, e assim foram fazendo durante muito tempo. Um dia, porém, o macaco, por precipitação, esqueceu-se de amarrar o laço ao tronco da árvore.

Atirou o laço e foi arrastado. A raposa gritava: — Compadre macaco, força na “cacunda”! Mas não houve meio e ele assim foi arrastado até ao curral. Houve alvoroço entre o gado. Por fim o proprietário veio e descobriu quem lhe dava cabo das reses. Para vingar-se, comeu o macaco, que estava gordo.

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OS MACACOS QUE SALVARAM A ONÇA

Andava uma vara de macacos em troça por sobre umas grotas. Eis senão quando, eles vêem, no fundo de uma armadilha, uma onça que lá caíra em aventura de caça. Penalizaram-se e resolveram salvá-la. Para isso, cortaram cipós e, amarrando-se às cinturas, atiraram uma ponta ao felino que se agarrou a ela e salvou se. Chegado à superfície do solo, agarrou um dos macacos que fora tardo em soltar-se da laçada que fizera na cintura.

A onça disse: — Compadre, tenha paciência, estou com fome e você vai ser comido.

O macaco chorou e afinal resolveram submeter a questão ao juiz de direito. Era este o cágado, que dava audiência no centro de uma lagoa, num ilhote. Lá foram ambos. O juiz ouviu primeiro o macaco, que sempre a onça segurava pelo braço. No fim disse: — Bata palmas.

Apesar de seguro, o macaco pôde bater palmas. Veio a vez da onça. Ela se explicou e por fim o juiz ordenou: — Bata palmas.

Para o que, teve que largar o macaco, que se aproveitou e fugiu, assim como o juiz que se atirou n’água.

(Contadas pelo Santos, servente da Secretaria da Guerra, natural do Ceará).

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V — O PRÍNCIPE TATU

Estando, uma vez, o rei e a rainha à janela, viram passar um caçador com um tatu às costas. A rainha, até então, não tivera a felicidade de dar a luz a um filho, e, por isso, disse ao rei: — Ah! meu Deus! Quem dera ter o filho, mesmo que fosse como aquele tatu.

Os seus desejos foram satisfeitos e, dentro de menos de um ano, a rainha veio ter um filho, que era um tatu. Apesar de ser assim, ele foi criado com todos os cuidados de um príncipe: educado, instruído, conforme a sua ierarquia e nascimento. Tendo crescido e chegado à época do casamento, ele demonstrou desejo de casar-se com a filha de um conde, que tinha três.

A moça aceitou a coisa com repugnância e pediu que a sua casa fosse guarnecida como se fosse luto, e casamento se fizesse de preto. Assim foi. À hora de recolherem-se ao quarto, o príncipe Tatu, que já encontrara a mulher deitada disse: — Ah! Tu quiseste um casamento de luto, pois vais ver... Morrerás! E estrangulou a mulher, passando um ano desaparecido. Ao fim desse tempo, voltou e mostrou desejos de casar-se com a segunda filha do conde. Da mesma forma que a primeira, ela quis que o casamento fosse de luto. Aconteceu-lhe o mesmo que à primeira. Veio a vez da terceira e esta, ao contrário das outras, quis o casamento festivo. Realizado ele e entrado Tatu no quarto, ele retirou a casca e veio a ser o homem bonito, que o encantamento fizera tatu. A moça ficou muito contente e, não satisfeita de saber do segredo, contou-o à mãe do príncipe. Esta, sabedora do caso, veio ver o príncipe seu filho e, mais a nora, lembraram-se de queimar a casca óssea do tatu. Sentindo o cheiro, o príncipe despertou e disse: — Ah! Ingrata! Faltavam-me só cinco dias para desencantar... Agora, se tu me quiseres ver, terás que ir à terra dos Campos Verdes.

Saudosa do marido, a princesa faz a trouxa e parte à procura de tais terras.

Andou e veio encontrar uma porta, junto à qual estava uma velhinha.

— Minha velha, perguntou ela, onde fica a terra dos Campos Verdes? — Homessa, minha neta, quem deve saber isso é minha filha, a lua. Espera que ela venha.

Escondeu-se na casa e esperou a lua. A lua veio e a velha perguntou. A lua disse-lhe: — Minha mãe, é longe, muito longe, tanto que ainda não cheguei lá.

A princesa saiu e continuou a andar, levando no seio um papelzinho que lhe tinha dado a mãe da lua. Veio a encontrar outra velha e perguntou: — Minha velha, onde é a terra dos Campos Verdes? — Não sei, minha filha, quem deve saber é o meu filho, o Sol.

Veio o Sol e este também não havia chegado lá e disse que só o vento podia saber.

Com um papelzinho que lhe deu a velha, partiu a princesa à procura do vento. Veio a encontrar a sua mãe, que, como as mães da lua e do sol, lhe escondeu à espera do filho.

O filho chegou furioso e gritando: — Aqui, cheira-me à carne humana e a sangue real! E procurou por toda a casa e não encontrou. Por fim, a mãe, usando de estratagemas, indagou: — Meu filho, como é que se vai à terra dos Campos Verdes? — Hi! minha mãe, ninguém pode ir...

— Ninguém? — Só quem tiver três pedaços da minha boca.

A mãe, então, para obtê-los, disse: — Meu filho, olha um fiapo no teu lábio.

Ele passou a mão na boca e atirou o suposto fiapo no chão. A mãe apanhou logo o pedaço da boca, e assim fez três vezes.

Possuidora dos três pedaços, a princesa soube, para chegar às famosas terras, tinha que atravessar o mar, com auxílio deles. Chegando à praia, assim fez, e, quando as ondas se queriam fechar, ela atirava outro pedaço. Chegou a Campos Verdes.

O príncipe Tatu não o era mais e se chamava dom João. Estava casado. A princesa, sabendo disso, foi morar a uma casa muito pobre. Tirando um dos papéizinhos que as velhas lhe tinham dado, viu-se coberta de um vestido magnífico.

A mulher de dom João soube e mandou indagar se ela queria vender o vestido. Ela disse que sim, porém, se ela consentisse que dormisse uma noite com dom João. Ela consentiu, mas pôs ópio no chá que ele costumava tomar à noite. A princesa não se pôde fazer reconhecer, e, tendo vestido, com auxílio do segundo papel, uma nova toilette brilhante, obteve da mulher de dom João o mesmo cambalacho.

Mas a coisa foi notada pelos criados e o príncipe determinou que o seu chá noturno fosse posto fora e substituído por outro, quando a tal moça viesse. Feito isso, eles se reconheceram e Tatu mandou chamar um ferreiro: — Ferreiro, eu tinha perdido a chave de uma certa fechadura. Mandei fazer outra, mas agora achei a que tinha perdido. De qual me devo servir? O ferreiro pensou e respondeu: — Da velha.

Pelo que, resolveu ficar com a princesa e separar-se da segunda mulher.

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A ARANHA

O príncipe andava em guerra e perseguido pelos inimigos. Refugiou-se numa gruta. Uma aranha fez a teia na boca da gruta e os inimigos passavam e paravam, mas resolveram não entrar, porque, se o príncipe nela tivesse entrado, teria esmigalhado a teia.

Assim, a avó mostrou ao neto que aranha servia e podia salvar a vida de um homem.

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VI — MACACOS NO ROÇADO DO MILHO

Iam os macacos a uma roça de milho, quando deram na porteira com um cavalo deitado. Julgaram-no morto e, para afastar esse obstáculo, amarraram cipós na alimária e depois um nó na cintura e começaram a função.

O cavalo, que só dormia, ergueu-se e arrastou-os.

O chefe, que não estava amarrado, gritava: — Quebra o corpo rapaziada! Senão vamos pra casa do homem do milho! Eles não agüentaram e foram lá cair levando uma surra.

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VII — O MACACO E O ALUÁ

Macaco tomou emprestado doze atilhos de milho a vários animais e também ao homem. Marcou o pagamento para o mesmo dia a todos. Eles vieram e ele os atirou um contra o outro, dando antes um copo de aluá a cada um, para refrescar. eles brigaram e a onça devorou os que ficaram; afinal veio o homem, que matou a onça, e o macaco ficou livre!

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- HISTÓRIA DO CASAMENTO DA PRINCESA CHELMINAZA

O pai manda chamar a concorrer todos os que a desejam. Apresentam-se muitos. Há provas de inteligência, de destreza, etc. Dez vencem todas as provas e ele fica atrapalhado. Afinal descobre o ardil: quer saber qual o melhor. Para isso, posta no palácio, na porta, uma velha mendiga, e manda-os chamar a todos, com pressa, um por um. Quando chegam, a velha se posta aos pés deles; todos a repelem, e só um deles pára. Foi este.

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HISTÓRIA DO PRÍNCIPE BENALCAZA

Vivia triste, etc. Tudo lhe aborrecia porque queria ver tudo o que há no mundo, provar, etc.

Vai passear nos arredores do palácio e vê, na praia, um homem a afogar-se. Corre em seu socorro e o salva. É o gênio Gransar, que tudo pode, menos com água, e, por isso, o seu inimigo Bensar, com ardis, o atraiu e fizera soçobrar-lhe a embarcação.

Em troco oferece-lhe tudo que desejar. O príncipe só pede que lhe faça provar todos os frutos do pomar do mundo. O gênio não lhe quer dar esse poder. Ele insiste. Dá ao príncipe então um cinto, tocando no qual, ele, gênio, pode ir em seu socorro, mas só em perigo de morte iminente. Ele sofre tudo; perde a posição; é ferido; é roubado pelos gatunos; sofre amnésia; trabalha como canteiro, e um belo dia é encerrado num palácio encantado, onde as iguanas se empedrecem quando se as vai tocar.

Sentindo morrer à fome, chama o gênio. Este vem em seu socorro e leva-o de novo aos seus domínios. Veio a ser um bom rei, porque tudo sofreu.

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O ESCRAVO PERSA

Harum Al-Raxid todo o dia quando saía de seu palácio encontrava um rapaz a olhar para o pavilhão da valida Noemi. Ele, um dia, interrogou-o e habilmente veio a saber que ele adorava Noemi e que queria ser califa para dormir com ela. Foi à casa do senhor, pois era escravo, libertou-o e levou-o a cear. Aí, deu-lhe um narcótico. E levou-o a dormir com Noemi. De manhã, ele amanheceu e devia ser morto. Ele, o califa, perdoou, etc.

1911

Em 6 de março de 1911.

Respeitáveis colegas e concorrentes.

Para sossego, tanto do meu espírito e do de vocês, declaro que não sou candidato à promoção que não me julgo com direito absolutamente. Os motivos são íntimo se particulares.

No mais sou de vocês amigo e admirador.

Afonso Henriques de Lima Barreto.

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5 de maio

Ontem, fui ao teatro. Há muito tempo que não ia.

Quase há três anos. Fui com o Marques Pinheiro, irmão do Rafael Pinheiro. Rafael é o tipo do arrivista, é do que fura, de qualquer modo. Estudou medicina e não se formou. Foi tido como rapaz de muito talento, orador, etc., mas coisa alguma de valor fez, em coisa alguma. Ele não me estima, mas talvez me tema. O irmão é medroso. É redator da Gazeta da Tarde, de que me fiz colaborador ultimamente. Levou-me ao teatro e fui à caixa. Nunca tinha ido aí. É interessante. Há uma desordem que agrada. Batem, sacodem, arrastam panos. O contra-regra grita com uma atriz que está ao colo de um cavalheiro: — Aqui não é bordel, é uma casa de trabalho.

As atrizes, seminuas, encostam-se a nós, mostram as espáduas, dizem coisas maliciosas, cantarolam canções do Catulo. Eu gostei da coisa. Houve uma delas que gostei muito. Tinha uma feminilidade de gato, olhos pisados sob a maquillage. Bamboleava-se toda, esfregava-se em nós, maxixava. Ela era portuguesa, mas já tinha tomado o sotaque e o ar de deboche nacionais, o nosso relaxamento, a nossa tristeza que quer ruído e aquele apelo para o erotismo truculento, que nem essas damas lascivas em que o ritmo da cópula domina e é motor. Havia costureiras. Oh! Coitadas! Velhas mulatas com a miséria no rosto, mal vestidas; algumas eram mimosas ainda; mas todas tinham um ar velhaco. Elas, na sua fealdade, na sua pobreza, olhavam a todos nós, mirones e atrizes, com uma infinita resignação.

“Nós nunca seremos como elas e não teremos esses cortejadores”, talvez pensassem.

Enfim, fui apresentado a dona Guilhermina Rocha. É uma atriz de fama, fama feita antes pela sua beleza, que tanto sacode os jornalistas e os faz escachoar reclamos, do que mesmo pelos seus méritos. Ela é inteligente e caprichosa; mas o teatro não é o seu forte. Creio teve um amante rico, que a fez educar-se. Onde estaria ele? Que teria sido feito dele? Oh! Esses amantes ricos que educam as suas amigas, são sempre obscuros...

De fato, ela é bonita e quase bela; falta-lhe, para a grande beleza, espáduas, ombros de deusa. Tem um perfil fino, pernas bem feitas; mas o busto não é correto e o colo é fraco.

O que mais gostei dela foi o olhar. Tem um olhar inteligente, móbil e sequioso, olhar que, com as asas das narinas, móveis e finas, dá-lhe um grande acento de desejo, de fúria carnal, mais fúria que lascívia, mais lascívia que volúpia, mais volúpia que amor. Fedra e Safo, uma e outra coisas.

Falei-lhe. Ela me disse que me conhecia. De fato, ela morava na Rua das Marrecas e, por cima da sua casa, no sotão, o Nicolau Ciâncio. Fui lá muitas vezes e a vi com volumes de Racine, Marivaux, Beaumarchais. Ela, lembrou, estreara na É fita, uma revista, como todas as outras. “C’est le triste retour des choses d’ici bas”...

Devia ser deliciosa, essa Guilhermina.

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Sem data.

Publiquei um aperçu sobre a tipografia do Rio na Tribuna Popular, que o Deoclides editou, em 6-6-1911.

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Sem data.

Vi hoje, no trem, uma moça, com um grande manteau de teatro, sem chapéu.

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Outubro (?).

Quando Flaubert esteve no Egito, encontrou um certo Chamas, francês de origem, que, de aventura a aventura, havia chegado a ser médico em chefe do exército quedival Esse medicastro empregava o seu ócio em rimar uma tragédia clássica, intitulada Abd-El-Káder, em cinco atos, cujo verso mais citado por ele era o seguinte: “C’est de là, par Allah! qu’Abd’Allah s’en alla”! Dizia ele que isto era o que os antigos chamavam a harmonia imitativa. Aí se percebia perfeitamente o galope do cavalo.

“Alada planta fenda as vastidões soturnas, Ou bruta pata passe e pise, à pressa, poças, Cavada a um som, a noite arredonda-se em furnas.”

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Sem data

“Le danger de l’éducation littéraire est d’inspirer un désir immodéré de la gloire sans donner toujours le sérieux morai ‘qui fixe le sens de La vraie gloire.” E. Renan, L’Antéchrist, 315

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Sem data

E já na rua, ao longe, como que continuava a ouvir os passos doidos daquelas danças lúbricas...

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E ela disse, chorou, convulsamente; no salão, as danças continuavam; mas, muitos pares se desfizeram para formar em torno dela uma roda humana espessa: — Que é Pepita? — Nada... Nada... Eu quero casar... Não quero mais viver nesta vida.

E o choro a tomava, a tomava de novo para depois suspender, e ela toda rebenta naquele seu desejo oculto: — Quero me casar!

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Sem data

“L’homme est une corde tendue entre la bête et le surhumain — une corde sur l’abîme.

II est dangereux de passer au delà, dangereux de rester en route, dangereux de regarder en arrière, frisson et arrêt dangereux”. Les flêches du désir vers l’autre rive.

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Sem data

Caçada em Petrópolis. Houve um club lá de caça. Um dia arrumaram uma grande caçada à onça. Damas, cavaleiros, pradaria. Como não havia onça, mascararam um bezerro e foi a ele que caçaram.

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Sem data

Ocaso da mulher do P...C...

Fora pedir um emprego para o marido ao Rodolfo de Miranda. Este não acedeu. Um dia, ela encontrou o tal G... A... e disse-lhe: — Sabes, vou ao Rodolfo pedir um lugar para o J... Choro e ele há de arranjar.

Assim fez e, quando saiu, encontrou o Pompílio e vieram numa grande pândega de automóvel.

Dias depois alguém, falando ao poeta sobre a nomeação, ele lhe disse: — É certo... Não sei como agradecer ao Rodolfo... Essa espontaneidade... Não pedi... Enfim, talvez ele seja meu admirador.

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Sem data

Quintino. A sua falta de cultura, a amplitude dos seus lugares comuns. Físico: duro, lábios contraídos, aspecto hispano-americano dele. A sua incapacidade.

Pinheiro. Terror. Cultura do terror. Escravo de divertimentos sangrentos. Total incapacidade de ligar a idéia à palavra. Ignorante, ausência de idéias condutoras de governo, necessidade de discursos.

Carlos Peixoto. Ilustração relativa. Timidez diante das mulheres de alta roda, donde gosto pelas raparigas airadas.

Elói. Sagacidade, oportunismo, medo de ser chamado mulato ou negro.

Irineu. Ambição de homem humilde, fascinação pela história da revolução, brutalidade, violência sangrenta, etc.

Hermes = Zero. Jeito, donaire de anjo pelo incenso dos outros, convicção de energia, reduzida capacidade militar a uma de regimento, bondade paternal, agudo sentimento de casta, suposição de iluminado, etc.

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Sem data

Seabra, dando informações de coisas reservadas ao Correio.

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Não esquecer Paca. Agiotas. Fornecimentos.

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A casa de pensão do Jequiriçá

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Cantigas da Penha, transcritas em jornal:

“Ranchos e grupos.

Vimos no arraial os seguintes: ‘Filhos da Noite’, que passou cantando a seguinte quadra: Os Filhos da Noite A nota vão dar Na festa da Penha Sempre a brincar.

A ‘Lira de Ouro’, que assim cantava: Oh minha lira...

Que vai chorar, Povo do ouro Não pode negar.

Flor das Morenas’. Até nos faz lembrar os bons tempos do Instituto Profissional... Penha. O ‘samba’ é a ‘nota’ alegre dos festejos de outubro, no arraial da Penha:

Morena, vai, vai Minha flor...

Morena, vai, vai Meu lindo amor.

Meu amor.

Oh! flor!”

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Preciso de cem contos.

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Sem data

O autor destas cartas, segundo os jornais, deflorou onze moças e seduziu uma porção de senhoras: “Querida Doquinha.

Recebi a tua amável cartinha na qual pedis-me que eu não me dedique a outra mulher e que não me esqueça de ti, conserteza estaes convencida que a amizade que eu tenho-te é igual a que me tens, poriço é que tens desconfiança em mim; enfim eu perdôo porque quem ama deve ter sciu1 mes e desconfiança.

Doquinha eu juro-te por mais uma vez que sou teu enquanto quizeres, por tua causa eu sofro tudo que for possível, e ao mesmo tempo peço-te que tudo quanto suberes a nosso respeito escreve para meu governo, e quando quizeres falar-me pessoalmente escreve que cumprirei como se fosse uma ordem.

Estimo as tuas melhoras.

Teu do coração Assis.”

“Queridinha confeço-te que hontem quando recebi a tua carta fiquei tão louco que confecei a mamãe que lhe amava loucamente e fazia por você as maiores violências ficaram todos contra mim, e a razão porque privino-te que não ligues ao que lhe disserem, por isso peço-te que peze bem o meu sofrimento e escreva-me dizendo o que passou-se durante as ultimas vinte e quatro horas, e peço-te perdão de não ter respondido a mais tempo e divido a falta de tempo.

Pense bem e veja se estaes revolvida a fazer o que me dizseste na tua amavel cartinha, responde-me com a maior urgencia sim.

Saudades e mais saudades deste infeliz que tanto lhe adora e não é correspondido.

Assis. 17-6-911.

Quando acabar de ler faz o que eu fiz com a sua, rasga e queima.

Adeus. — Assis.”

“Indolatrada Doquina. Saudades.

Tive immensa satisfação quando a vi hoje pela manhã quando passei no trem estavas sentada na meza e agora as 7 horas da noite a ver-te perto da salla de jantar, porisso peço a minha ingrata que faça o possível de falar comigo hoje, não é preciso pullar a janela é bastante abri-la que eu vou falar com voce, espera-me a hora do custume isto é, se voce não estiver com raiva de mim, podes ficar crente que tão de pressa soube que estavas de camma fui ao Dr. Roma Santos saber o que voce tinha elle disse-me que voce tinha feito a loucura de molhar os peis na agua fria, pois que voce estava com inregularidade no incomudo, foi para mim uma grande tristeza em saber que o Dr. Roma Santos sabe de teus particulares moral; enfim que eu devo fazer se voce não quer ser minha inteiramente minha como eu sou teu.

Doquinha faz o possivel de não faltar porque eu tenho grande novidade a contar-te.

Teu teu do coração A [ ... ] de Assis.”

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Sem data

Preciso descobrir O Dia do Alcindo a meu respeito. Veio na A Imprensa, quando eu publiquei no Jornal o Policarpo.

1912

22 de março.

Vou comprar um bilhete de cem contos...

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Maio.

Em setembro de 1913 está pago o montepio.

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Há uma consignação que acaba em abril de 1913, outra em maio de 1913, outra em junho. Preciso ver as outras.

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14 de maio.

Vou comprar um bilhete de vinte contos.

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Saião volta dos Estados Unidos, admirado que lá haja também nomes estrambóticos. Exemplos: Broadway, estrada larga; Red Star, estrela vermelha, etc.

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Imprensa, de fins de 1912: Aventuras do Doutor Bogóloff “Lima Barreto está publicando em fascículos, que sairão sempre às terças-feiras, umas narrativas humorísticas às quais chamou: Episódios da vida de um pseudo-revolucionário russo, dando-lhe aquele título acima.

As Aventuras do Doutor Bogóloff não são apenas páginas de boa literatura, são na realidade capítulos e capítulos trabalhados com sadio humorismo, visando claramente criticar os nossos costumes, sem preocupações inferiores de agressão a quem quer.

O primeiro fascículo traz uma linda capa colorida”

1913

Fevereiro

No volume II dos Retalhos(1), há um artigo do Forjaz de Sampaio; e no III, um de Alberto Olavo, Mário Matos, sobre o Isaías Caminha.

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Sem data.

J.R. (P. B.)

“Quando ele caiu na cova Remexeu-se bem dengoso Os vermes logo provaram O gordo ‘ioiô’ gostoso”.

Não sei de quem é.

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14 de setembro.

Mudei-me ontem, 13-9-13, da casa em que vivi quase dez anos, à rua Boa Vista, 76, Todos os Santos. Lá entrei com uma nomeação no bolso e com muito pouco dinheiro. Nesta entrei sem um vintém na algibeira, tendo recebido antes seiscentos mil-réis. Já é progresso. Major Mascarenhas, 42.

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Lia: Em mim, não existe absoluto, nem ausência de absoluto, porque não conheci nunca elemento distinto do “eu”.

— É de Kant! exclamou alguém.

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26 de setembro.

Desagradar é verbo intransitivo. Pede, portanto, objeto indireto. É o mais grave erro do artigo, pois o pronome devia ser “lhe” e não “o”. Que clássico! Todos são assim. Quanto mais falam em gramática, mais erram por conta própria.

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Sem data.

Fetichismo dos Negros do Brasil, pelo padre Etienne Brasil, Revista do Instituto, tomo LXXIV (Parte II, ano de 1911).

Este padre é um mistificador de sabedoria. Conheci-o na Associação de Imprensa.

1914

20 de abril

Hoje, pus-me a ler velhos números do Mercure de France. Lembro-me bem que os lia antes de escrever o meu primeiro livro. Publiquei-o em 1909. Até hoje nada adiantei. Não tenho editor, não tenho jornais, não tenho nada. O maior desalento me invade. Tenho sinistros pensa — mentos. Ponho-me a beber; paro. Voltam eles e também um tédio da minha vida doméstica, do meu viver quotidiano, e bebo. Uma bebedeira puxa outra e lá vem a melancolia. Que círculo vicioso! Despeço-me de um por um dos meus sonhos. Já prescindo da glória, mas não queria morrer sem uma viagem à Europa, bem sentimental e intelectual, bem vagabunda e saborosa, como a última refeição de um condenado à morte.

A minha casa me aborrece. O meu pai delira constantemente e o seu delírio tem a ironia dos loucos de Shakespeare. Meus irmãos, egoístas como eles, queriam que eu lhes desse tudo o que ganho e me curvasse à Secretaria da Guerra.

O que me aborrece mais na vida é esta secretaria. Não é pelos companheiros, não é pelos diretores. É pela sua ambiência militar, onde me sinto deslocado e em contradição com a minha consciência.

Não posso suportá-la. É o meu pesadelo, é a minha angústia.

Tenho por ela um ódio, um nojo, uma repugnância que me acabrunha.

Queria ganhar menos, muito menos, mas não suportar aqueles generais do Haiti que, parece, comandaram ou vão comandar em Austerlitz.

Demais, o meu feitio é tão oposto àquela atmosfera de violência, de opressão, de bajulação, que me enche de revolta. Não sei o que hei de arranjar para substituir aquilo, e a minha gana de sair de lá é tão grande, que não me promovem, não me fazem dar um passo à frente.

Eu fiz parte do júri de um Wanderley, alferes, e condenei-o. Fui posto no índex.

Para os jornais daqui estou incompatível. Podia tentar a aventura fora, mas não tenho liberdade; era preciso que estivesse só, só.

Enfim, a minha situação é absolutamente desesperada, mas não me mato.

Quando estiver bem certo de que não encontrarei solução, embarco para Lisboa e vou morrer lá, de miséria, de fome, de qualquer modo.

Desgraçado nascimento tive eu! Cheio de aptidões, de boas qualidades, de grandes e poderosos defeitos, vou morrer sem nada ter feito.

Seria uma grande vida, se tivesse feito grandes obras; mas nem isso fiz.

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13 de julho

Noto que estou mudando de gênio. Hoje tive um pavor burro. Estarei indo para a loucura?

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Sem data

Estive no hospício de 18-8-14 a 13-10-14.

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Basilio Seixas era um rapaz preto tipógrafo, que conheci na Tipografia Altina em 1902, quando fiz, com o Tigre, a Quinzena Alegre.

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Sem data

A Notícia de 9-8-14. Afrânio Peixoto, “isto é metonimia”, quando foi por sinédoque.

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