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Diário Íntimo

Lima Barreto

1915

Março.

Fiz o empréstimo no Montepio, em março de 1915.

* * *

Sem data.

A Noite começou a publicar o meu livro Numa e a Ninfa, em 20 de março de 1915.

* * *

Álbum de Pelino.

— Porque a girafa tem o pescoço tão comprido? — Porque tem a cabeça longe do corpo.

* * *

“Há meses inaugurou-se iluminação elétrica em uma qualquer cidade.

Para evitar desastres pessoais dou-vos o seguinte aviso junto aos dínamos de alta voltagem, os transformadores, etc.: “Perigo! Quem tocar nesses fios será fulminado. Pena de prisão e multa para os contraventores.” Fazer um conto. Pelino, quando vê um sujeito ser fulminado pelo fio elétrico ...

* * *

Sem data

Banco, consignação, a começar a 1º de janeiro de 1916.

1916

Fevereiro.

O Policarpo Quaresma apareceu em 26 de fevereiro de 1916. A entrevista comigo na Época saiu em fins de fevereiro, 20.

* * *

Retirei três exemplares: um para Jackson, outro Vinhais e outro Milanez.

* * *

Retirei quatro volumes: dois brochados e dois encadernados, sendo para o Comércio e a Noite.

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Castilhos / 50.

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Brochado, 1. Pereira da Silva.

* * *

Mandei: 1 — João Ribeiro.

1 — Alcindo Guanabara.

1 — Alcides Maia.

1 — Laet.

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Dei: 1 — Antônio 1 — Benedito.

1 — Lima.

1 — Minha irmã.

* * *

Já dei quinze exemplares.

* * *

País. 1 volume. Dei.

Gazeta. 2 volumes. Dei.

Viriato. Um volume. Dei.

Prensa. Um volume. Dei.

Tribuna. Um volume. Dei.

Noticia. Um volume. Dei.

Braule. Um. Dei.

Rui. Um Dei.

Afonso Celso. Um. Dei.

Correio Paulistano. Um.

Amadeu Amaral.

Estado de São Pauto. Um.

Teixeira (Lisboa). Dois.

Couto. Um Dei.

Fábio. Um. Dei.

Biblioteca. Dois.

* * *

Saião. Hilário de Gouveia, 54. Copacabana.

* * *

Adriano de Abreu — 1.

Capistrano de Abreu — 1.

Mário Behring — 1, dei.

Carlos Maul — 1, dei. (Jornal das Moças. Assembléia)

* * *

Notícia da Época sobre Policarpo: 28-2-16.

* * *

Domingos — 1, dei.

A Águia — 1 (Porto), dei.

Dei 25 exemplares.

Osino — 1, dei.

Emílio — 1 dei.

Dei 28 exemplares.

* * *

Correio de Vassouras: doutor Soares Filho — 1.

* * *

Artur Mota. São Paulo.

* * *

Francisco Calmon. Farmácia do Aristides Caire.

* * *

Rui Barbosa, dei. São Clemente, 184.

* * *

Costa Macedo — 1, dei.

Jacob — 1, dei.

Gilka — 1, dei.

Dei 33 exemplares.

Lambert — 1, dei.

Bilac — 1, dei.

Malagutti, dei.

* * *

Carlos Restier — 1, dei.

* * *

Paulo Hasslocher. Nossa Senhora de Copacabana, 72

* * *

Dei 36 exemplares.

Dei um ao tipógrafo.

Dei 37.

* * *

Arnaldo Pereira. Arquivo da Prefeitura.

* * *

Mota -? Reis — 1.

Dei 38 exemplares.

* * *

Bastos Tigre — 1.

Antônio Torres — 1.

Araújo Jorge — 1.

* * *

Doutor Afonso Machado. Largo da Lapa, 106.

* * *

Alfredo Morais Rego — 1.

* * *

Dei sete mais = 45.

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Prensa.

* * *

Cartier.

48 livros.

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Dei 49.

P. Curio — 1.

* * *

Nos nossos militares (exceto a Marinha), a necessidade de mudança de uniformes eqüivale à da moda nas mulheres.

* * *

1 — Henrique Magalhães.

Dei 51.

Dermeval — 1, dei.

52.

* * *

Cardim. Rua Fernandes, 91.

* * *

Março

Meu livro, o Policarpo, saiu há quase um mês. Só um jornal falou sobre ele três vezes (de sobra). Em uma delas, Fábio Luz assinou um artigo bem agradável. Ele saiu nas vésperas do carnaval. Ninguém pensava em outra coisa. Passou-se o carnaval e Portugal teve a cisma de provocar guerra com a Alemanha. As folhas não se importavam com outra coisa senão com o gesto comicamente davidinesco de Portugal. Enchiam colunas com noticias como esta: “A esquadra portuguesa foi mobilizada. Acham-se em pé de combate o couraçado Vasco da Gama, o cruzador Adamastor, a corveta dona Maria da Glória, a nau Catarineta, a caravela Nossa Senhora das Dores, o brigue Voador e o bergantim Relâmpago”. E não têm tempo de falar no meu livro, os jornais, estes jornais do Rio de Janeiro.

* * *

O Policarpo Quaresma foi escrito em dois meses e pouco, depois publicado em folhetins no Jornal do Comércio da tarde, em 1911. Quem o publicou foi o José Félix Pacheco. Emendei-o como pude e nunca encontrei quem o quisesse editar em livro. Em fins de 1915, devido a circunstâncias e motivos obscuros, cismei em publica-lo. Tomei dinheiro daqui e dali, inclusive do Santos, que me emprestou trezentos mil-réis, e o Benedito imprimiu-o. Os críticos generosos só se lembravam diante dele do dom Quixote. V. Oliveira Lima e Afonso Celso. Audaces fortuna juvat.

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O Numa e a Ninfa foi escrito em vinte e cinco dias, logo que saí do hospício. Não copiei nem recopiei sequer um capítulo. Eu tinha pressa de entregá-lo, para ver se o Marinho me pagava logo, mas não foi assim e recebi o dinheiro aos poucos. Escrevi-o em outubro de 1914. O Marinho era diretor da A Noite.

* * *

Encontrei, na estação, T. S., um vagabundo, companheiro de P. Disse-lhe que tinha estado doente, e ele me confessou que também, à guisa de quem faz uma confidência, explicando-me, ao ouvido, que tinha levado uma navalhada na barriga da perna. Penso que ele tinha perebas.

* * *

W., cantora, interpelou o espectador por ter posto a mão em concha no ouvido.

* * *

Numa dependência do quartel-general, diversos soldados conversavam; diz um a outro: — Foi preso esse Paiva Couceiro.

— Quem é? — É um anarquista aí.

* * *

O Isaías, os primeiros quatro capítulos, escrevi-os lentamente; o resto em dias, mas copiando-os, logo que os acabava.

* * *

Os jornais que não noticiaram absolutamente o aparecimento do meu segundo livro foram: o Correio da Manhã e a Tribuna, do Rio de Janeiro.

No Correio sou excomungado; e é justo. Na Tribuna, não sei porque, tanto mais que o mandei ao Lindolfo Cólor.

* * *

Sem data.

Vilarinho morreu em 8-4-1916.

* * *

Junho.

Encontrei em Ouro Fino na boca do povo o neologismo “fumal”, para designar plantação de fumo.

E o vício de dizer “ponhar” em vez de “pôr”, em todos os tempos e modos.

* * *

Sem data.

Manuel de Oliveira morreu a 8 de novembro de 1916, dia de anos de minha irmã.

Eu o conheço desde os onze anos e creio que ele foi para casa, quando eu tinha doze ou treze anos. Viveu conosco cerca de vinte e dois ou vinte e três anos e muito nos serviu e foi útil. Era preto cabinda e tinha de sua nação um orgulho inglês. Hei de escrever-lhe um artigo

* * *

“Amplius!“, A Época, de 10-9-16.

1917

Março.

Devo unicamente ao Lima, pela impressão do Policarpo, a quantia de quatrocentos e quarenta e dois mil réis.

* * *

7 de março.

Hoje, 7 de março de 1917, estive na Garnier, como ontem, como anteontem. Vou agora lá sempre rondar. Troquei palavras com este, com aquele, e cada vez me capacito mais de que eles não tem nenhum ideal de Arte. São muito inteligentes, escrevem e falam como Rui de Pina, mas ideal em Arte não tem nenhum. Não me entendem ao certo e procuram nos meus livros bandalheiras, apelos sexuais, coisa que nunca foi da minha tenção procurar ou esconder.

Chamam-me de pudico. Ora bolas!

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Eu vendi ao Jacinto quatrocentos Policarpos por duzentos mil-réis. Vendi ao Garnier a mil-réis cem, por cem mil-réis. Vendi ao Alves setecentos a oitocentos réis, quinhentos e sessenta mil-réis 1200 = 860 mil-réis.

Devo ter recebido uns seiscentos mil-réis de consignações. 860 + 600 + 1.460$000~ Dei cerca de.mil e duzentos exemplares. Tenho ainda a receber cem mil-réis, se tanto.

* * *

Enquanto que Latino Coelho — livro sobre o Marques de Pombal, diversas vezes, nas páginas 357 [......]

* * *

Lutero também condenou o sistema de Copérnico. Ver Latino Coelho, Marquês de Pombal, página 371.

* * *

dona Luisa de Oliveira Costa, poetisa das Mágoas Secretas, Rua da Candelária, 92A.

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Paguei a Gazeta até 14.

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Preço médio do açúcar exportado é de 462 réis o quilo.

Vide Correio da Manhã, de 15-9-17 O último da Bruzundanga veio no A.B.C., de 5-5-17.

* * *

7 de junho.

Minha irmã acaba de chegar da rua (sete e meia da noite) e me traz a notícia de que um grande prédio em construção no Largo do Rossio acaba de desabar, matando quarenta operários. O antigo prédio era uma arapuca colonial, mas que, apesar da transformação, de ter tido as paredes eventradas, resistia impavidamente. O novo ia ser uma brutalidade americana, de seis andares, dividido em quartos, para ser hotel: Hotel New York (que nome!), um pombal, ou melhor: uma cabeça-de-porco.

Somos de uma estupidez formidável. O Rio não precisa de semelhantes edifícios. Eles são desproporcionados com as nossas necessidades e com a população que temos. Com pouco mais, o seu construtor adquiria os prédios vizinhos e faria coisa decente, proporcional, harmônica com a nossa vida e os nossos gostos. Mas a mania de imitarmos os Estados Unidos leva-nos a tais tolices. Uma casa dessas, servida por elevadores, povoada que nem uma vila povoada, é sempre uma ameaça para os que a habitam. Em caso de desastre, de acidente, os pequenos elevadores não a poderão esvaziar, a sua população. Mas os americanos...

É o que eles chamam progresso. Fresco progresso!

* * *

Sem data.

Há dois acréscimos a fazer no Policarpo: o requerimento do maníaco que quer ser major por ter dois galões, como tenente honorário, e outros dois, como tenente reformado, pois a soma 2 ± 2 = 4 dá o número de galões de major; e falar nas cobras — a morte do Dicomarte.

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Sem data.

Para Clara dos Anjos. Ver Correio da Manhã, de 31-5-17.

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Piramidamento. Piramidar — colocar em pirâmide.

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Sobre a vida de João Laje, ver Correio da Manhã, artigo do Edmundo e de 6-9-17

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Sem data.

“Un écrivain ne doit songer, quand il écrit, ni à ses maitrês, ni même à son style. S’il voit, s’il sent, il dira quelque chose; cela sera intéressant ou non, beau ou médiocre, chance à courir.” Remy de Gourmont. Le probleme du Style. p. 31.

“Volupté — c’est pour les coeurs libres quelque chose d’innocent et de libre, le bonheur du jardin de la terre, la débordante reconnaissance de l’avenir pour le présent.” Nietzsche. Zarathrusta.

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“Loué par ceux-ci, blâmé par ceux-là, me moquant des sots, bravant les méchants, je me hâte de rire de tout, de peur d’être obligé d’en pleurer.” Figaro, Beaumarchais.

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Carta régia de 30-7-1766, proibindo as fábricas. Vide Matoso Maia, página 222, e a que proíbe a cultura da cana-de-açúcar no Maranhão, de 19-6-1768, no mesmo autor.

* * *

Quando se está perto de uma mulher, ou dizemos asneiras, ou nos calamos.

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Sem data.

O Paraná (que em tupi significa mar) toma este nome... Serve de limites às províncias de Minas, Goiás, São Paulo e Paraná; dividindo outrossim o Brasil do Estado Oriental e da Confederação Argentina. Recebe então o Paraguai e o Uruguai, adquirindo o nome de Rio da Prata.

Nota do Cônego Fernandes Pinheiro à História do Brasil, de Robert Southey, volume III, página 433.

Há aqui um equívoco do Southey. É inexato que o rio Uruguai... serve de limites do Império do Brasil à República Oriental.

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“Cette question de savoir si son (du Grec) toujours grandissant désir de beauté, de fêtes, de réjouissances, de cultes nouveaux, n’est pas fait de vice, de misère, de mélancholie, de douleur?” Nietzsche, L’Origine de la Tragédie. Em que fica a joie de vivre dos gregos? Ora bolas!

* * *

Só em Ciudad Real, a Inquisição, em 1486, processou mais de três mil pessoas; em Sevilha, desde este ano até o de 1489, calcula-se em três mil sentenciados, dos quais perto de quatrocentos foram queimados vivos. Herculano, História do Estabelecimento da Inquisição, página 71 (2a edição).

* * *

3 de junho.

Hoje, depois de ter levado quase todo o mês passado entregue à bebida, posso escrever calmo. O que me leva a escrever estas notas é o fato de o Brasil ter quebrado a sua neutralidade na guerra entre a Alemanha e os Estados Unidos, dando azo a que este mandasse uma esquadra poderosa estacionar em nossas águas.

A dolorosa situação dos homens de cor nos Estados Unidos não devia permitir que os nossos tivessem alegria com semelhante coisa, pois têm. Néscios. Eu me entristeço com tal coisa, tanto mais que estou amordaçado com o meu vago emprego público.

A escolher, sim senhor, eu preferia mil vezes a Alemanha. Não posso dizer nada e nada direi; mas aqui fica o meu protesto mudo. Coisa curiosa, o Lauro não quis dar o seu assentimento a tal coisa; o Nilo deu. Ao primeiro, chamam de alemão; e ao segundo, de moleque? Em que parará isto? Não sei bem, mas se a sangueira já é grande, julgo que ela vai ser ainda maior depois. Tudo o que é revoltante e grosseiro vai por baixo disso tudo, sob o pretexto de pátria. É de causar horror, tanto mais que os fortes burgueses querem, aproveitando o estado dos espíritos, matar o indivíduo em proveito do Estado, que são eles.

Spencer tinha razão: o mundo retrograda. O escopo utilitário matou todo o ideal, toda a caridade e quer cada “besta” na sua manjedoura.

Antes o feudalismo! Antes a nobreza!

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18 de junho.

Nada mais devo da impressão do meu livro. O pulha do Vasconcelos, empregado na Secretaria do Exterior, no meio de outros pulhas, cônsules ou coisa que o valha, teve o topete de perguntar-me onde fui buscar um conto e oitocentos mil-réis. Certamente não foram nas gratificações que na repartição dele se distribuem a mancheias. F. da p.!

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Hoje me contaram que o Getúlio das Neves, lente da Escola Politécnica, demitiu-se de diretor da Carteira Cambial do Banco do Brasil, porque, encontrando o câmbio, por exemplo, a 11 1/32, no dia seguinte, julgando que o fazia subir, mandou que o Banco o cotasse a 11 3/32. As cifras não são exatas, mas o fato em si é.

* * *

O Raul Pederneiras fez concurso de anatomia artística, de que deve entender muito pouco. Agora, está tratando de fazer de grego, de que estudou umas coisinhas no Ginásio.

Que homem e que país!

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Setembro.

A segunda edição do Isaias apareceu em setembro de 1917.

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5 de setembro.

De há muito sabia que não podia beber cachaça. Ela me abala, combale, abate todo o organismo, desde os intestinos até à enervação. Já tenho sofrido muito com a teimosia de bebê-la. Preciso deixar inteiramente.

No dia 30 de agosto de 1917, eu ia para a cidade, quando me senti mal. Tinha levado todo o mês a beber, sobretudo parati. Bebedeira sobre bebedeira, declarada ou não. Comendo pouco e dormindo sabe Deus como. Andei porco, imundo.

Ia para a cidade, quando me senti mal. Voltei para casa, muito a contragosto, pois o estado de meu pai, os seus incômodos, junto aos meus desregramentos, tornam-me a estada em casa impossível. Voltei, porque não tinha outro remédio.

Deitei-me, vomitei e andava com fluxo de sangue, que me levava à latrina freqüentemente. Numa das vezes em que fui, caí e fiquei como morto. Meus irmãos acudiram-me e trouxeram-me a braços, inclusive o Elói, o filho da Prisciliana, meu afilhado e de minha irmã. Não sei o que se passou; o que sei é que as senhoras da vizinhança acudiram e eu despertei duas horas depois com equimoses nos tornozelos e cercado por elas, cheias de susto.

Chamaram médico, o Caire, estudante do meu tempo; e estou sofrendo a medicação mais penosa que me podia ser imposta. Estou em dieta de fruta e água de arroz, pois o meu organismo tem deficit.

Se não deixar de beber cachaça, não tenho vergonha. Queira Deus que deixe.

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Outubro.

“Exmos Srs.

Tendo nós notado que artigos de certos dos nossos autores, quando aparecem em publicações difundidas, são lidos com interesse e avidez; e notando também que muitos escritores não possam faze-los com independência e necessária autonomia intelectual, para não ferir interesses e susceptibilidades das grandes empresas dos nossos quotidianos, revistas e magazines; resolvemos editar uma pequena revista quinzenal em que coubessem artigos de semelhante natureza e onde também fossem feitos, sem a dependência de pequeninos interesses do momento, largos e francos comentários aos sucessos da nossa atividade, em todos aqueles departamentos onde os nossos colaboradores entendessem buscar assunto.

Não se trata de uma revista de descompostura, não se trata nela de insultar esta ou aquela personagem em evidência. Não precisamos disto. O que nós desejamos é esclarecer fatos e opiniões, sob a luz de uma livre crítica, de forma que aqueles leitores, pouco enfronhados nos bastidores de certos aspectos da nossa vida e deles só tendo diante de si o fato bruto, possam melhor julgar o desenrolar dos acontecimentos políticos, literários e outros, assim também as individualidades envolvidas nesses acontecimentos.

Um programa destes é necessariamente assintótico. Começamos modestamente e, com o tempo, a curva irá se aproximando gradativamente, insensivelmente, da assíntota, para nunca atingi-la. É da definição.

Com esse espírito, resolvemos pôr, na direção intelectual da publicação, o senhor Lima Barreto, moço autor, cujos livros, por demais conhecidos, são fiadores da diretriz que ele imprimirá a Marginália, de acordo com o que desejamos.

Procuraremos o mais breve possível organizar o nosso quinzenário, de forma a torná-lo o mais atraente possível. Na medida do razoável, não fugiremos aos moldes das publicações mais procuradas. Sem faze-la semelhante aos chamados semanários humorísticos, nem tampouco aos modelos das grandes revistas clássicas — o que no nosso meio é quase impossível —, esforçar-nos-emos por editar a Marginália de modo que, participando de um e outro gênero de publicidade, ela possa satisfazer o gosto de qualquer espécie de leitor, sem depender de nenhuma delas.

É mais uma tentativa que entre nós se faz nesse gênero de imprensa de período longo; e, seja qual for o seu futuro, ficaremos satisfeitos só em tentá-la.

Esperamos, pois, a boa vontade dos senhores para a publicação que encetamos agora e, desde já, agradecemos o acolhimento que derem a Marginália.

Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1917.

Os Editores.

P.S. — Não aceitamos, por ora, assinaturas.”

* * *

Sem data.

Otacílio Sampaio de Macedo. Ensaio de uma Psicologia Nacional. Capítulo II. Cita Policarpo.

1918

21 de janeiro.

Eu beijei por uma ou duas vezes E., cunhada do H.M. Isto foi há dias e eu estava esquentado. Se aquela ocasião fosse propícia, talvez consumássemos o ato. Ela é casada com um demônio de um inferior da Marinha, estúpido a roçar na idiotice. Tem todas as manifestações da compressão militar, em que o puseram desde a meninice. Tem dois filhos.

A E. não é uma beleza, mas é farta de carnes e tem aquele capitoso das caboclas, quando moças. Foi sempre ela quem me provocou. Naquele dia, eu fui adiante... O G. a ronda também, mas penso que não chegou tão longe...

O que eu queria dizer é que, agora, quase um mês passado, eu não tenho nenhum interesse em continuar a aventura. Não lhe tenho amor, não me sinto atraído por ela, por isso não encontro justificativa em mim mesmo para arrastá-la, como se diz, a um mau passo. Havemos de ver...

(Morreu no fim do ano e o G. também. Gripe).

* * *

Álbum de Pelino Guedes

“IDA E VOLTA”

A Osório Duque Estrada

Quando chorosa partiste, No dorso do mar bravio, Sobre a tolda do navio Vi-te, dolente, a cismar...

No ocaso o Sol se escondia, Gemia o mar nos abrolhos Chorava a dor em teus olhos Tudo chorava no lar...

Hoje que voltas contente, Do teu sorriso inocente De luz doura-se o arrebol...

Ontem — partias chorando, Hoje — sorrindo e cantando Beijam-te as flores e o Sol!“

“Por mais que te escarafunches Por mais que rimas arranjes Serás sempre um pobre Dunshee Um pobre Dunshee de Abranches.”

Artur Azevedo, vide A Lanterna, de 30-10-17.

* * *

“Aucun âge n’a le droit d’imposer sa beauté aux âges qui précèdent; aucun âge n’a le devoir d’emprunter sa beauté aux âges qui précèdent. II ne faut ni dénigrer ni imiter, mais inventer et comprendre.” Taine, Essais, página 255.

* * *

Helmholtz, citado por Metchiníkoff: “La Nature. a comme exprès accumulé les contradictions dans l’intention de repéter tous les fondements d’une théorie d’harmonie préexistente entre le monde extérieur et le monde intérieur” — página 100.

* * *

O conto meu “Sua Excelência” foi transcrito na Platéia, de São Paulo, em 24-1-18.

* * *

O doutor Luís Ribeiro do Vale, na sua tese de doutoramento em 1918 (ano letivo de 1917), refere-se ao meu livro Policarpo Quaresma. O título é Psicologia Mórbida na Obra de Machado de Assis.

* * *

Lenine, Trotski, Kólontai. (mulher?).

* * *

Páginas 146, 147, Sóror Mariana Alcoforado, Luciano Cordeiro, sobre adornos pagãos nos conventos de Conceição de Beja e no de Odivelas.

* * *

Mariana Alcoforado nasceu — 22-4-1640 morreu — 28-7-1723 83 anos Convento Conceição (da Nossa Senhora da Conceição) de Beja (Alentejo).

* * *

“Daqui a poucos dias vai fazer um ano que toda me entreguei sem escrúpulos”. Carta II.

“Receava muitas vezes que a afeição que parecia ter por mim pudesse de algum modo prejudicá-lo (a Chamilly)”. Carta V.

“Em nada mais faço consistir a minha honra e a minha religião do que em amar-te perdidamente toda a vida já que comecei a amar-te”. Carta IV.

“Também (Deus?), separando-nos, parece-me que nos fez todo o mal que poderíamos recear dele. Não conseguirá separar os nossos corações: o amor que pode mais do que ele uniu-os para toda a vida”. Carta 1.

“O que me fazem por aliviar-me, acirra a minha dor, e nos próprios remédios acho razão particular para me afligir.” Carta II.

“Fizeras a sangue frio o propósito deste incêndio em que me abrasaste toda.” Carta III.

* * *

Há dez anos eu não compreenderia estas cartas (1918).

* * *

“Triste de mim! que sinto vivamente a impostura desta idéia (nunca tê-lo visto), conheço, mal a exprimo, que estimo bem mais ser desventurada, amando-te, do que não te haver visto jamais.” Carta III.

* * *

Heloísa diz coisa semelhante.

* * *

“Mas agradeço-te, do fundo do coração, as mortificações que me causas, e aborreço a tranqüilidade em que vivia antes de conhecer-te.” Carta III.

“Vi que (o senhor) era menos caro do que a minha paixão e tive mágoas desconformes em combatê-la, depois ainda que os maus procedimentos do senhor o tornaram para mim odioso.” Carta V.

“Desconfio muito dos sentimentos violentos para que me aventure a esse.” Carta V.

“Parece-me contudo que se os homens pudessem ter mão na razão quando escolhem os seus amores, mais se inclinariam a elas (religiosas) do que a outras mulheres. Carta V (1).

* * *

Sem rival, Chamilly. Eu sou seu rival.

* * *

O indeferimento do meu requerimento de montepio em 1916.

* * *

— Não cobra nada pelas minhas receitas, pois só prescreve remédios para os amigos.

Seria muito melhor que o fizesse para os seus inimigos.

* * *

O filho do Leão Veloso aceitou a Legião de Honra. Vide Correio da Manhã, de 5.5.1918.

O Júlio Novais agrediu o Álvaro de Oliveira, em 8-5-96, em frente à igreja de São Francisco, por causa de reprovações.

* * *

Fim do governo:

Ocupar-se das substâncias Fornecer a abundância Cuidar da segurança Favorecer a igualdade.

Bentham — Filon — Literatura inglesa.

* * *

Um epitáfio de um marinheiro grego que naufragou: O marítimo que aqui jaz diz-te: “Veleja! O golpe de vento que nos fez naufragar aqui, fazia vogar ao largo toda uma flotilha de barcos felizes e contentes”.

* * *

A prorrogação do contrato da São Paulo Railway foi no governo do Prudente. O Adolfo Gordo foi o intermediário.

* * *

Frase de Nilsa Faceiro (caso da casa do Faria — retalhos em notas oportunas), tratando do filho que tem no ventre: “Sim, é dele; e só a ele (o amante) é que eu amo”.

* * *

Bolchevismo.

* * *

Conde de Belfort, Visconde de Gurupari — morou na Rua Formosa, perto do velho Antônio Lourenço, num sobradão junto ao Colégio de Santa Cândida.

* * *

Sem data.

O artigo do Amaral tem o mesmo plano que o do Miguel Melo; o do Antônio Torres o mesmo que o daquele último; o do filho de Leão Veloso o mesmo que o do Torres.

Parece que o plano foi ditado pelo chefe de polícia, devendo tocar nos seguintes pontos: a) acoimar de estrangeiros os anarquistas, e exploradores dos operários brasileiros; b) debochar os seus propósitos e inventar mesmo alguns bem repugnantes e infames; e) exaltar a doçura e o patriotismo do operário brasileiro; d) julgar que eles têm razão nas suas reivindicações; que a dinamite não deve ser empregada, etc.; que devem esperar, pois a câmara vai votar o código do trabalho, etc., etc.

Seria melhor mandar o Celso Vieira redigir uma circular, em papel da chefatura de polícia, e, mediante pagamento razoável, publicá-la em todos os jornais.

Viver às claras.

* * *

Hélio Lobo, sua defesa, em A Noite, de 1-12-18.

* * *

Quando eu passo, à noite, pelo Flamengo, que as gentes elegantes, com as suas horríveis casas, fizeram banal, lembro-me do Helesponto, de Leandro e de Hero, que deve estar lá, em Icaraí. Infelizmente, eu não sei nadar.

* * *

A Gazeta, de 1 e 2-12-18, denuncia uma violência do delegado da 17a sob o pretexto de anarquismo.

* * *

João Francisco comprou um apito e uma gaita, para atrair os pardais.

* * *

27 de dezembro

Hoje, aqui, no Hospital Central do Exército, estando na varanda, das seis para as sete, eu vi um grupo de irmãs atravessar o jardim, em demanda a uma outra enfermaria. Uma delas, ao pisar nas terras, recentemente trazidas para um canteiro, passou levantando os pés, como se estivesse a atravessar um terreno encharcado, e levantou a bata com os ademanes bem femininos, com ambas as mãos. Tarda muito a morrer na mulher a coquetterie. A menina burguesa, mais ou menos rica, surgiu debaixo da irmã.

* * *

João Francisco Filho continua a chamar os pardais e a ouvi-los cantar óperas, valsas, etc.

* * *

No retrato de Josefina, que ilustra as minhas memórias de Barras, compradas em segunda mão, havia a seguinte nota, da mão naturalmente do primeiro possuidor: “Veja o retrato na obra de J. Turquan, pág. 1.”

* * *

Escrever alguma coisa sobre o João Francisco e os pardais. Foi meu companheiro no Hospital Central do Exército.

João Francisco, alferes reformado, tipo raté da Escola Militar, as suas manias matemáticas, a sua terminologia, megalômano etc.

Encontrei no Hospital Central do Exército. Escrevia cartas a todos os reis e potentados, aconselhando isto ou aquilo.

Tinha um tratado de mecânica, etc. Caso patológico das manias dos militares saídos da Escola Militar há trinta anos.

* * *

Chagas — boêmio.

Nezumano — positivista.

Nepomuceno — caricato.

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Sem data.

Fui aposentado por decreto de 26-12-1918. Presidente da República, vice em exercício, Delfim Moreira e ministro da Guerra, Alberto Cardoso de Aguiar.

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Sem data.

No Peau de Chagrin, de Balzac, há o seguinte pensamento muito semelhante a um de Nietzche: “L’homme est un bouffon qui danse sur des précipices.

1919

Janeiro

Estive no Hospital Central do Exército, de 4 de novembro de 1918 a 5 de janeiro de 1919.

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25 de fevereiro

O meu Gonzaga de Sá, editado em São Paulo, apareceu no Rio de Janeiro em 25 de fevereiro de 1919.

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“Mais que diable allait-il faire dans cette galère?” Molière, F. de Scapin.

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Março

O negócio do Antônio Claro, diretor da fábrica de tecidos, está no artigo de Ramos da Paz, Jornal do Comércio, de 10 ou 11 de março de 1919.

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“Le Latin, qui dans les mots brave 1’honnêteté”...

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A mulher do H., com quem estive em avançadas intimidades, narrou-me há tempos que o pai gastava razoáveis dinheiros para levar toda a família a Petrópolis. Falando-me em passear com ela, lembrei-lhe a Tijuca, o Jardim, o Pão de Açúcar, as Paineiras, o Corcovado. O pai é fiel da Armada e se tem em grande conta. Eles e ela saíram todos assim.

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Eu veria a Vitória de Samotrácia com o mesmo olhar e a mesma emoção com que vejo um manipanso africano. São documentos sociais ambos.

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13 de março

“A Liga contra o football.” Lima Barreto, entrevistado pelo Rio-Jornal expõe os inconvenientes do football.

Um jogo de pés que concorre para a animosidade e a malquerença entre os filhos de uma mesma nação.

A notícia de que Lima Barreto e alguns companheiros tratavam de fundar uma ‘Liga contra o Football’, levou-nos esta manhã à sua casa, para obter mais esclarecimentos sobre os destinos e fins da liga. Lima Barreto reside, há dezesseis anos, na pacata estação suburbana de Todos os Santos. A sua casa é modesta, porém clara e ampla, cercada de fruteiras e respirando sossego. A sua sala de trabalho, ao mesmo tempo dormitório, é também clara e ampla, tendo livros, móveis, quadros — tudo em ordem. A desorganização de Lima é para uso externo. Estava lendo os jornais matutinos, quando chegamos.

— Você por aqui! exclamou ele logo ao ver-nos.

— É verdade. Quero saber bem esse negócio da ‘liga’ que você fundou.

Nós já nos havíamos sentado e o Lima, na cadeira de balanço, deixou os jornais e respondeu: — O negócio é simples. Há cerca de um ano eu e o Valverde... Você não conhece o Valverde? — Conheço.

— Bem. Eu e ele, conversando sobre os sports, em uma confeitaria do Méier, Valverde me expôs, com a sua competência especial de médico que conhece o seu ofício, os prejuízos de toda a ordem que o abuso imoderado dos sports, sobretudo o football, trazia à nossa economia vital. Ele mós explicou singelamente, sem pedantismo, nem suficiência doutoral. Impressionei-me. Dias depois, ele me lembrou a fundação da liga. Passaram-se dias e meses e não mais falamos nisto; ultimamente, porém...

— Com a decisão da congregação do Pedro II, proibindo o football? — Não; antes. Eu explico a você. Nos últimos meses do ano passado, estive no Hospital Central do Exército, tratando-me. Lá, sem ter que fazer, nem distrações, eu, por desfastio, lia todas as seções dos jornais, inclusive as esportivas que são as únicas enfatuadas e enfáticas. Verifiquei que havia uma irritação inconveniente entre os players.

— Você já sabe a técnica do football? — Isso é técnica? Player está ali no Valdez.

— Vamos adiante.

—...entre os players, amadores, torcedores, enfim entre o público do bola-pé de lá e o daqui. Você sabe disso? — Sei.

— Saindo do hospital, tive notícias mais completas. Entre a gente do football de lá e a daqui há uma rivalidade feroz que se manifesta em chufas, vaias, apelidos deprimentes, até em rolos. A esse respeito escrevi dois ou três artigos...

— Onde? — No A.B.C. ... Mas, a coisa não seria tão importante, se nestes últimos dias, realizando-se no Recife, um match entre um club de lá e um daqui, não se repetisse as chufas, as vaias e os rolos.

— Concluiu você, daí...

— Concluí que, longe de tal jogo contribuir para o congraçamento, para uma mais forte coesão moral entre as divisões políticas da União, separava-as: — Não será exagerado, Barreto? — Julgo que não. Entre São Paulo e Rio foi assim; entre Rio e Recife também; e o lógico é provar que as coisas se repetirão entre Rio e Belém, entre Rio e Porto Alegre, etc. etc.

— É um argumento.

— E não é só este. Os grandes oclubes daqui, aqueles que têm para cerimoniais o caucásico Coelho Neto, são portadores de uma pretensão absurda, de classe, de raça etc., você não pode negar isto! — Não nego; é verdade.

— Está aí, uma grande desvantagem social do nosso football. Nos nossos dias em que, para maior felicidade dos homens, todos os pensadores procuram apagar essas diferenças acidentais entre eles, no intuito de obter um mútuo e profundo entendimento entre as várias partes da humanidade, o jogo do pontapé propaga a sua separação e o governo o subvenciona.

— Subvenciona? — Sim. Parece que a Liga e a tal Confederação estão inscritas no orçamento da despesa da República. Não estou certo, vou verificar; mas, favores e favorezinhos, elas têm recebido do governo para lançar cizânias entre Estados da União e criar distinções idiotas e anti-sociais entre os brasileiros.

— Que favores são esses? — Os poderes governamentais reconheceram de utilidade pública a tal Confederação, o que naturalmente redunda em alguma vantagem de ordem administrativa; e aquela casa de espantos, que é o Itamarati, quando há os tais matches internacionais, subvenciona clandestinamente as équipes que vão para as repúblicas vizinhas ‘defender as nossas cores’, como dizem eles infantilmente. De modo...

— Você é capaz de provar que receberam essas subvenções? — Nem eu nem ninguém. O Itamarati, depois de Rio Branco, fez-se a caixa dos segredos e das mistificações da nossa administração. Não há quem arranque de lá a mais simples certidão...

— Então, como você? — Como? Digo, sob a responsabilidade de meu nome, denuncio, e chamem-me a juízo. Espero. Contudo...

— Mas, Barreto, penso em que vocês não ficarão nesse aspecto político-social-administrativo do football — não é? — Não ficaremos aí. Esta é a minha parte, mas a que se refere à higiene pessoal, ao funcionamento da boa saúde, às reações de ordem psicológica, às perturbações ao desenvolvimento mental que ele possa trazer, esta parte difícil, árdua e técnica é com o Valverde. Eu tratarei da minha, no que tenho o apoio de todos, pois nenhum de nós está disposto a admitir que o Brasil pague impostos, para o governo obter dinheiro e ele venha a dar um pouco desse dinheiro à sociedade dos que cavam a separação, não só das divisões políticas da nação, mas entre os próprios indivíduos desta nação. Você pode dizer que nós não estamos dispostos a consentir que se forme, à custa dos contribuintes, uma aristocracia que se baseia nas habilidades dos pés... Representaremos ao Congresso...

A conversa ameaçava eternizar-se, despedimo-nos, pois; o serviço do jornal nos esperava.

1920

Sem data.

A segunda vez que estive no hospício de 25 de dezembro de 1919 até 2 de fevereiro de 1920.

Trataram-me bem, mas os malucos, meus companheiros, eram perigosos. Demais, eu me imiscuía muito com eles, o que não aconteceu daquela vez que fiquei de parte.

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Tenho um conto no Malho, segundo semestre de 1919, que não guardei. Não sei o número.

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Sem data.

O cálculo do valor das terras de São Paulo, segundo o Cincinato Braga. Fazer uma charge a respeito.

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Revista da Semana, de 7-8-20. Logo no primeiro artigo aconselha reformas suntuárias na cidade. Em seguida sob o título “Um prado de corridas no Leblon” — pede que a Prefeitura e o Ministério da Agricultura o construam, visto “gastar-se muito dinheiro em coisas inúteis” (textual).

Por aí vai nas suas elegâncias.

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A ordenação do Reino (manuelina) que equipara as bestas aos escravos é encontrada no livro IV, título xvi.

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“A saudade escreve entranhado.” Camões, Elegia.

1921

Sem data.

Num domingo de fevereiro de 1921, houve um grande rolo, quando, na Praia de Botafogo, jogavam uma partida de water polo os clubes Natação e São Cristóvão. Foi tremendo e dentro d’água.

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Setembro.

João Henriques de Lima Barreto. Nasceu em 19 de setembro de 1853. Foi chefe de turma das oficinas de composição da Imprensa Nacional, depois de trabalhar como tipógrafo em várias oficinas particulares e de jornais do tempo; mais tarde, chegou a mestre da referida oficina da mesma Imprensa, donde foi demitido com o estabelecimento da República, em 1889.

Pouco depois, foi nomeado para as Colônias de Alienados que o Governo Provisório acabava de fundar, na ilha do Governador, como escriturário; anos após, foi almoxarife, administrador, aposentando-se, em 1902, devido a pertinazes sofrimentos que o impossibilitaram de toda e qualquer atividade até à data do seu falecimento.

Era viúvo e deixa três filhos e uma filha, solteiros, todos os quatro, e o mais velho é o escritor Lima Barreto.

Traduziu e publicou um volume, o Manuel de l’apprenti compositeur, do célebre impressor francês Jules Claye.

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21 de setembro.

(Cópia).

“John C. Branner Stanford University President Emeritus July 27, 1921. Califórnia

Ilmo. Sr. Capistrano de Abreu. c/o F. Briguiet & Cia. Rua Nova do Ouvidor.

Rio de Janeiro, Brazil.

My dear Capistrano: — I received your letter of April 26, and the book and papers you kindly sent, but I have been in poor health for more than six months on account of my heart, and my correspondance has necessarily been very much neglected.

Only a few days ago was I able to read Lima Barreto’s Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. I am delighted with it. I thank you very much for sending it.

I don’t remember whether I ever thanked you for calling my attention to some of the writings of Monteiro Lobato. Some of them seem to me remarkably well done.

Though I am still shut up indoors by the physicians, such strength as I have is spent in the preparation of an autobiography. Naturally there is a good deal about Brazil in it.

Remember me kindly to my friends.

Faithfully yours, (a) Branner.”

Observação: O original o Capistrano deixou para que eu o visse na livraria Schettino, Sachet, 18, com o Francisco Schettino, em começos de setembro de 1921. Mandei-o traduzir oficialmente pelo Guaraná.

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13 de dezembro

Hoje, 13 de dezembro de 1921, recebi de dona Rafaelina de Barros, que viveu com Emílio de Meneses, um terno de fraque, um de casaca, quatro camisas, gravatas, etc., etc., que foram dele. Obrigado à dona Rafaelina e que Deus fale n’alma do Emílio. Amém.

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Sem data

As alfaces de Deocleciano — Diocleciano.

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“Quando a natureza nos deu lágrimas, foi para mostrar que nos criou para a piedade. Juvenal, Diálogo dos Oradores.

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Criptomnésia — conflito do inconsciente com o subconsciente. Vide Delírio em Geral, Franco da Rocha, caderno VIII.

Ch. Labitte Divine Comédie avant Dante. Aroux: “Dante hérétique, revolutionnaire et socialiste.”

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Maus quartos de hora de um plantador de mangas, o plantador de mangas.

Jurujuba + pescoço louro, amarelo. Papagaio louro. Tamoios assim chamavam os franceses. Vi no Benício.

Fim

Fonte: www.ebooksbrasil.org

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