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Recordações do Escrivão Isaías Caminha

Lima Barreto

No café, em certos momentos, quase sem transição, ele passava das objurgatórias mais terríveis a recitar versos, cheios de detalhes de modas e ardendo de admiração pelas coisas do luxo. Havia nisso muito da sua forte mocidade para que eu me lembrasse de Georges Ohnet. Bem parecido, de rosto bem feito e um nariz clássico e uns bigodes e uns cabelos pretos, tratados com especial carinho de manhã e à tarde, ele tinha a insignificante boniteza dos homens, tanto do agrado das nossas mulheres. Era um namorador temível. No seu quarto, além da mesa e alguns volumes com que preparava as arengas revolucionárias, tinha uma cama-de-vento, nua e órfã de lençóis e travesseiros com fronhas, uma grande mala cheia de camisas, colarinhos, punhos, gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-réis no Centro dos Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava era mais para as coisas de toillette do que para a sua alimentação. Freqüentava os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite levou-me ao Parque Fluminense, onde encontrei o Agostinho Marques, o elegante Agostinho, cheio de anéis e alfinetes, que não quis reconhecer. Desde que nos demos a conhecer, isso havia perto de um mês, nunca mais o tinha visto; ele, porém, chamou-me amigavelmente. Era o solicitador do dr. Leitão Fróis, ganhava um conto e tanto por mês e pretendia formar-se em direito precisando de mim, para lhe explicar uns preparatórios. Disse-me isso no momento em que Leiva se deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhança. Estávamos sentados a uma mesa do botequim, e servíamo-nos de cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua preocupação extra-revolucionária, Agostinho queixou-se dos calos: - Não há sapateiro que preste no Rio de Janeiro... Mandei fazer essas botinas no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-réis e é esta desgraça! Apertam-me como diabo...

O Abelardo tinha opinião um pouco diferente sobre os sapateiros da cidade. Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda; ultimamente, porém, comprava-as feitas. Eram estrangeiras e melhores...

- Mas o Martinelli, "seu" Abelardo! objetou semi-indignado o solicitador. O cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; só são cortadas e montadas aqui...

- Ora, continuava Leiva, eu já tive botinas dele e sei tudo isso; mas não vale a pena, é um engano... Olhe, o Sr. dá trinta e cinco mil-réis por uma Walk-Over ou Clark e fica mais bem servido do que com ele. E são bonitas... Veja! Mostrou o pé e durante minutos os dois estiveram a debater-se, procurando toda a sorte de argumentos para defenderem as suas firmes opiniões sobre a distinção, a comodidade do calçado comprado feito e mandado fazer de encomenda.

Agostinho Marques, "solicitador nos auditórios desta Capital", chegou a empregar argumentos de natureza jurídica; Abelardo Leiva, apóstolo do socialismo revolucionário, inimigo da execrável burguesia, procurou justificativa nos elegantes do mundo chic parisiense. A minha reserva só os fazia prolongar a discussão; estavam diante de um juiz, a quem expunham as suas razões com delicadeza e urbanidade.

- Lá vai o Raul Gusmão, exclamou Marques.

Voltei-me um pouco. Era de fato ele de braço com o Oliveira. Vestia um grande fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano e marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e procurando os mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a reputação jornalística.

- É um rapaz de talento, disse Marques.

O carroussel moía uma música banal, preguiçosa e irritante. Leiva esteve pensando um instante e disse: - É, e parece que faz prosperar o seu talento com práticas suspeitas.

- É verdade o que se diz por aí dele? indagou a meia voz o solicitador.

- Não sei, nunca vi, mas, no domingo, nós... - não foi Caminha? Fiz um sinal afirmativo e o meu amigo continuou: - ...no domingo vimo-lo entrar numa hospedaria da rua da Alfândega com um fuzileiro naval.

- Que coisa! Mas será verdade? - Qual, disse Leiva, não creio. Ele faz constar isso e faz suspeitar, para se ter em melhor conta o seu talento. O público quer que o seu talento artístico tenha um pouco de vício; aos seus olhos, isso o aumenta extraordinariamente, dá-lhe mais valor e faz com que o escritor ganhe mais dinheiro.

- Como é então que entrou na hospedaria? indagou Marques.

- Tinha-nos visto e, mediante uma gorjeta, obrigou o soldado a prestar-se ao papel... Aquilo é o gênio do réclame...

Em torno de nós, sob a chuva miúda do vapor condensado do motor de iluminação, grupos de passeantes moviam-se de um lado para outro, isocronamente, lenta, tristemente, como se obedecessem a uma lei inflexível a cujo império não se pudessem furtar. Só o Carnaval tira essa triste gravidade aos nossos passeios. Os rapazes excedem-se, saem fora da bitola, e as moças e as senhoras abandonam-se aos impulsos do temperamento. Lembro-me que em um dos últimos carnavais a que assisti, às oito e meia da noite, vi duas moças afastarem-se um pouco para o interior da Gazeta de Notícias, donde assistiam à passagem de cordões, e lá dentro requebrarem lascivamente com as exigências que um "maxixe" tocado por uma banda de música a passar pedia. Fora do carnaval sempre senti essa mesma tristeza nos nossos passeios públicos, tendo presente sempre a tirania doméstica e a preocupação do dia seguinte.

Os dois continuavam a conversar, quando voltei a ouvi-los. Tinham passado imprevistamente para a reforma social que Leiva anunciava. Agostinho, que se sentia chegar a homem rico e considerado, fazia imensos esforços para contestar as doutrinas subversivas de Leiva: - Mas o sr. o que quer é desordem, é anarquia, é extinção da ordem social...

E Leiva sorria um instante, satisfeito que ele viesse ao encontro da sua resposta querida.

- Mas é isso mesmo, não quero outra coisa! Pois o senhor acha justo que esses senhores gordos, que andam por aí, gastem numa hora com as mulheres, com as filhas e com as amantes, o que bastava para fazer viver famílias inteiras? O sr. não vê que a pátria não é mais do que a exploração de uma minoria, ligada entre si, estreitamente ligada, em virtude dessa mesma exploração, e que domina fazendo crer à massa que trabalha para a felicidade dela? O público ainda não entrou nos mistérios da religião da Pátria... Ah! quando ele entrar! Levado pelo calor da frase Leiva continuou a falar cheio de força, entusiasmado: - Não há na natureza nada que se pareça com a nossa sociedade governada pelo Estado... Observe o sr. que todas as sociedades animais se governam por leis para as quais elas não colaboraram, são como preexistentes a elas, independentes de sua vontade; e só nós inventamos esse absurdo de fazer leis para nós mesmos - leis que, em última análise, não são mais que a expressão da vontade, dos caprichos, dos interesses de uma minoria insignificante... No nosso corpo há uma multidão de organismos, todos eles interdependem, mas vivem autonomamente sem serem propriamente governados por nenhum, e o equilíbrio se faz por isso mesmo... O sistema solar... Na natureza, todo o equilíbrio se obtém pela ação livre de cada uma das forças particulares...

Agostinho precisava arranjar uma objeção, mas o desconhecimento das noções que Leiva punha em jogo estava completamente fora da sua atividade mental. O apóstolo-poeta, sentindo a fraqueza do adversário, exultou, e, deitando um olhar em torno, exclamou vitoriosamente: - Eu quero a confusão geral, para que a ordem natural surja triunfante e vitoriosa! Deitou um longo e terno olhar para a linda burguesa da vizinhança e bebeu voluptuosamente um grande gole de cerveja. Eu creio que se a nova era dependesse do seu braço, ele não deitaria a bomba para não assustar as meninas bonitas e delicadas.

Foi Leiva o meu iniciador no Rio de Janeiro. Deu-me relações, ensinou-me as maneiras, o calão da boêmia, levou-me aos lugares curiosos e consagrados. Com ele fui ao Apostolado Positivista ouvir o Sr. Teixeira Mendes. Um grande matemático, disse-me; a primeira cabeça do Brasil, uma inteligência enciclopédica, uma erudição segura, e, sobretudo, um caráter e um coração! Um domingo, em que havíamos saído do Apostolado, vínhamos descendo pachorrentamente o cais da Glória.

Leiva viera pela rua de Benjamin Constant abaixo gabando a eloqüência do venerável Sr. Mendes, a sua virtude, a sua sobriedade e contara-me por alto a surra que ele dera no Bertrand, da Academia Francesa, em assunto de matemática. Eu ouvia-o sem coragem de contestar, embora não compartilhasse as suas crenças. Não era a primeira vez que ia ao Apostolado, mas quando via o vice-diretor sair rapidamente por detrás de um retábulo, na absida da capela, ao som de um tímpano rouco, arrepanhando a batina, com aquele laço verde no braço, dava-me vontade de rir às gargalhadas. Demais, ficava assombrado com a firmeza com que ele anunciava a felicidade contida no positivismo e a simplicidade dos meios necessários para a sua vitória: bastava tal medida, bastava essa outra - e todo aquele rígido sistema de regras, abrangendo todas as manifestações da vida coletiva e individual, passaria a governar, a modificar costumes, hábitos e tradições. Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um trecho e procurava o caminho por alusões a questões atuais, repetindo fórmulas para se obter um bom governo que tendesse a preparar a era normal - o advento final da Religião da Humanidade. E eu achava toda aquela dissertação tão intelectual, tão balda de comunicação, tão incapaz de erguer dentro de mim o devotamento, o altruísmo, "o esforço sobre mim mesmo em favor dos outros", como dizia o apóstolo, que me quedava a indagar até que ponto o auditório respeitoso estava convencido e até que ponto fingia convicção.

Havia trechos em que ele insistia com particular agrado. Via-se que neles repousava a conversão dos espíritos. Não me esqueci que ele amava repetir que a física, a química, a biologia, a sociologia, todas as ciências e todo o esforço humano de qualquer ordem tinham preparado lentamente e tendiam para a religião da humanidade; era ela como a coroação, a cúpula do edifício do pensamento e dos grandes sentimentos da humanidade. Citava trechos de grandes poetas nesse sentido, e procurava dados históricos. Quando se oferecia ocasião, esboçava a ordem futura, cotejando-a com a presente. O médico, o professor e o sacerdote estariam juntos em um mesmo homem, cujos serviços seriam gratuitos: todos exerceriam um ofício manual e os capitais acumulados em poucas mãos, seriam empregados em benefício social. A quantas necessidades presentes daquele auditório não iria dar remédio a promessa daquela sociedade a vir?! Os homens têm amor à utopia quando condensada em fórmulas de felicidade; e aqueles militares, funcionários, estudantes, encontravam naquelas afirmações, repetidas com tanta segurança e cuja verdade não procuravam examinar, um alimento para a forma de felicidade da espécie e um consolo para os seus maus dias presentes.

Pelo caminho, ouvi repetirem as palavras do Mestre e apoiarem-se nelas para criticar atos do Governo, projetos da Câmara - esse viveiro de bacharéis ignorantes que não sabem matemática.

Observei que o meu próprio amigo Leiva partia também dessa crença pitagórica das virtudes da matemática para condenar e criticar o Governo e os governantes; entretanto, além daquelas explicações filosóficas do sr. Teixeira Mendes, ele sabia pouco mais das quatro operações na ciência divina.

- Vê tu, dizia-me ele, quem no Brasil tem conhecimentos mais seguros que o T. Mendes? E acrescentava logo: como se pode acreditar que, na nossa época científico-industrial, um homem que não conhece como se fabricam os encanamentos d’água, as propriedades do ferro e o seu tratamento industrial, as teorias hidráulicas, saberá aquilatar e dirigir as necessidades de uma cidade moderna, cuja primeira necessidade é um seguro e farto abastecimento d’água? Leiva gostava de falar; e, quando a matéria lhe agradava, o cansaço dificilmente vinha. Eu amava ouvi-lo, pois tinha uma bela voz, acariciante e de agradável timbre, e que vibrava musicalmente ao chegar-lhe a paixão. Continuou: - Antigamente, todos os governantes tinham, ou antes, estavam a par do saber de seu tempo, e só com a necessidade do estabelecimento de novas ciências - o que fez a especialização dos conhecimentos - deixaram tão salutar regra. Hoje, porém, graças ao sobre-humano cérebro de Comte - o maior talvez depois de Aristóteles - o saber voltou à unidade útil e moral dos outros tempos. A síntese foi feita e os estadistas verdadeiramente dignos, servidores práticos da Humanidade, poderão encontrar nela um seguro farol para guiá-los.

Não me animei a perguntar-lhe se a síntese de que falava continha também a questão do abastecimento d’água. Senti a sinceridade momentânea de suas palavras, ditas até com certo entusiasmo; e quando alguém me fala desse modo, encho-me de respeito e de amizade. Vínhamos descendo a rua e assim continuamos um instante calados. Houve uma ocasião, que, quase sem refletir, perguntei ao Leiva: - Como você é ao mesmo tempo anarquista e positivista - uma doutrina de ordem, de submissão, que espera a vitória pelo resultado fatal das leis sociológicas? - Ora você? Eu quero uma confusão geral, um abalo completo desta ordem iníqua, para então... O Mendes é simples, é bom, pensa que isso vai como ele quer; mas é preciso... Olhe, o Cristianismo...

Olhei um instante a seda azul do mar levemente enrugada e sorvi um pouco da vibração que soprava da barra; depois perdemo-la de vista e a vibração deixou de açoitar-nos com força e fomos descendo a rua da Lapa, transitada, ladeada de sobrados, donde pendiam mulheres públicas em peignoir, como descoradas orquídeas de milionário europeu, cujo brilho natural o ambiente de estufa lhes tirou ou não soube dar. Nós olhamo-las com um pouco da nossa mocidade e com um pouco das preocupações que trazíamos; e caminhamos para o Passeio Público, onde íamos esquecer que não jantávamos, olhando a turba resignada que aproveitava o domingo.

Uma banda de música enchia o jardim com os seus estridentes compassos. Nas proximidades do coreto, Leiva encontrara um conhecido com quem ficara a conversar. Eu não me detive; avancei vagarosamente para o terraço que deita para o mar. O meu companheiro veio ter comigo meia hora depois e vinha acompanhado de outro rapaz. Apresentou-nos. Um instante, contemplei a angustiada cabeça do desconhecido, o seu ar orgulhoso e todo ele esguio e alto, ligeiramente curvado como um teimoso caniço que não se pôde erguer completamente depois das muitas tempestades que suportou.

- O Plínio, Caminha, disse Leiva, vinha-me contando o seguinte: há dias, o Florêncio - conheces? Fiz sinal que não e ele insistiu: o Florêncio que redige a seção do Jornal do Rio - conheces, não é? Pois bem; o Florêncio entrou na Garnier e pôs-se a ler um livro. De quando em quando mudava de lugar, aproximando-se da porta. Assim leva hora e tanto. Ele, porém, não tinha reparado que os empregados vigiavam-no. Num dado momento, meteu a brochura debaixo do paletó e encaminhou-se para a porta. Os caixeiros cortaram-lhe os passos, intimidando-o a entregar a obra. Florêncio ataranta-se, prontifica-se a pagar, do dinheiro cai e...

- Pagou? perguntei.

- Pagou sim, apressou-se em responder Plínio de Andrade; mas um dos empregados disse-lhe insolentemente: Você paga este sobre a Grécia, que queria levar agora e também o romance francês que levou anteontem... A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade, uma ausência de senso moral a toda a prova... E assim dominam tudo, aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação... Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais e bestas... Só se é geômetra com o seu placet, só se é calista com a sua confirmação e se o Sol nasce é porque eles afirmam tal coisa... E como eles aproveitam esse poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção das mediocridades, de modo que...

- Você exagera, objetou Leiva. O jornal já prestou serviços.

- Decerto... não nego... mas quando era manifestação individual, quando não era coisa que desse lucro; hoje, é a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais terrível também... É um poder vago, sutil, impessoal, que só poucas inteligências podem colher-lhe força e a ausência da mais elementar moralidade, dos mais rudimentares sentimentos de justiça e honestidade! São grandes empresas, propriedade de venturosos donos destinadas a lhes dar o mínimo sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os seus desejos inferiores... Não é fácil a um indivíduo qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um que os combata... Há necessidade de dinheiro; são preciosos, portanto, capitalistas que saibam bem o que se deve fazer num jornal... Vocês vejam: antigamente, entre nós, o jornal era de Ferreira de Araújo, de José do Patrocínio, de Fulano, de Beltrano... Hoje de quem são? A Gazeta é do Gaffrée, o País é do Visconde de Morais e assim por diante. E por detrás dela estão os estrangeiros, inimigos nossos naturalmente, indiferentes às nossas aspirações...

Andrade acabou de falar e tirou o chapéu um instante. Vi-lhe o cabelo crespo, lanudo e revolto e toda a sua grande cabeça angustiada e inteligente assomou aos meus olhos com uma grande expressão de rebeldia. Coado através das árvores, um jato de luz veio bater-lhe em cheio e ela mais bela me apareceu quando inundada por aquela luz de ouro. Sentando-se, o seu ar já era outro, manso, passivo, e a sua voz, antes tão enérgica, passou a ser macia, preguiçosa e tomou um ar distraído até despedir-se. Nós fomos jantar com o dinheiro que ele deu ao Leiva e soube por este alguma coisa da sua vida passada. Fora estudante de medicina na Bahia, e freqüentava o segundo ano quando um estudante mais antigo lhe dissera: "Apanha isto aí, ‘seu’ calouro!" Andrade olhou-o devagar e virou-lhe as costas. O veterano exacerbou-se com o olhar, quis obrigá-lo a obedecer, empregando a força; e, como fosse mais forte, Plínio bruscamente apanha de cima da mesa de um guarda uma raspadeira, crava-a várias vezes no colega e mata-o. Atualmente, vivia ensinando História Natural nos colégios e publicando panfletos em que a sua irritação lhe congestionava a frase indignada. Era odiado e gostava de sê-lo.

Esse domingo foi um dos últimos que passei com relativa satisfação. Invadia-me uma indiferença, uma atonia, que me fazia viver sem me decidir a tentar o menor passo para sair da situação em que me achava. Media as dificuldades, os óbices, os tropeços, achava-os iníquos mas superiores às minhas forças. Abandonara-me à miséria que a proteção de Agostinho Marques impedia que chegasse a ser declarada. Fizera-me seu professor e secretário; mas era difícil dar-me o ordenado que me tinha marcado. Fazia-lhe requerimentos, cartas de amor, ensinava-lhe os prolegômenos de alguns preparatórios; mas a sua pobreza intelectual e a sua malandragem resistiam particularmente à entrada na sua cabeça da menor noção. Nunca chegou a compreender os teoremas de divisibilidade e a sua memória não guardava as regras do plural francês. Aos poucos, desistiu da lição e diminuiu-me o ordenado, que era anteriormente de quarenta mil-réis, dados aos bocados. Entretanto, cada dia se apurava mais no trajar, fazia amigos entre a gente importante, cercava-os, tinha um cumprimento e um sorriso para cada um.

Num dia de abandono em que lhe cheguei de manhã a casa, pedindo-lhe dez tostões, contou-me que estivera na véspera numa grande "esbórnia". Tinham sido seus companheiros o deputado S., leader do Governo, e o doutor H.; o primeiro foi mais tarde Ministro e o segundo ainda é desembargador da Corte de Apelação.

Marques preferia que eu lhe pedisse dinheiro a experimentar o seu prestígio junto aos seus poderosos amigos, solicitando uma colocação para mim. Uma vez que lhe falei a respeito, esforçou-se por me mostrar que era impossível enquanto os seus amigos estivessem por baixo. Enquanto ele esteve no Rio, deu-me roupas; tive com que pagar o quarto e dinheiro para comer com intervalo de quarenta e oito horas. Um belo dia, porém, disse-me que ia para fora, para um estado do Norte, tratar de negócios, demorando-se dois ou três meses. Foi uma grande época de fome e sofrimentos na minha vida. Leiva era incapaz do menor obséquio; nada lhe fazia retirar um tostão dos seus perfumes e das suas roupas. Vendi as melhores roupas que tinha, tudo que tinha valor vendi, e, quando nada mais tinha que vender, passei dias inteiros sem tomar café. Lá chegava uma ocasião que alguém, um quase desconhecido, uma fisionomia encontrada momentaneamente, me convidava a tomar café ou a jantar; e se não fossem eles, eu talvez tivesse morrido de inanição ou furtado bolos às confeitarias. Esperava resposta de uma carta minha que não tardou a vir. Recebi-a na "Posta-Restante" e, encostado a uma coluna, pus-me a lê-la. Tio Valentim dizia-me que lá atravessavam uma grande crise. Minha mãe estava de cama, muito mal, desenganada...

Não continuei a leitura; deixei cair a mão ao longo do corpo e estive a olhar a rua, sem ver coisa alguma. Morria minha mãe! E via-a logo morta, muito magra, os círios, o crucifixo, o choro... Passou-me pelos olhos a sua triste vida, humilde e humilhada, sempre atirada a um canto como um móvel velho, sem alegria, sem fortuna, sem amizade e sem amor...

Durante aqueles meses de ausência, eu pouco me detive na sua recordação; mas agora elas eram freqüentes e a sua figura flutuava a meus olhos: magra, esquálida, com o corpo premido pelos trabalhos e tendo pelas faces aquelas manchas que pareciam de fumaça entranhada... Eu quis envolver essa recordação com o que havia em mim de mais terno e também as outras que me vieram: a volta do colégio, o abraço que eu lhe dava; a minha doença, como ela me dava remédios... E tudo vinha com pressa do fundo de mim mesmo, subia uma recordação que expulsava outra; por fim, tudo se baralhou, tornou-se confuso e os meus olhos se orvalharam de pranto.

- Oh! Caminha! Onde tens andado? Que tens, rapaz? Era Gregoróvitch Rostóloff. Falei, contei-lhe a vida. Os seus olhos de conta mais se arredondaram de desconfiança; mas, depois de duas ou três perguntas, de examinar-me o vestuário e algumas palavras de consolo, ao despedir-se, assim me convidou: - Aparece-me logo, à noitinha, na redação do O Globo.

VIII

Era uma sala pequena, mais comprida que larga, com duas filas paralelas de minúsculas mesas, em que se sentavam os redatores e repórteres, escrevendo em mangas de camisa. Pairava no ar um forte cheiro de tabaco; os bicos de gás queimavam baixo e eram muitos.

O espaço era diminuto, acanhado, e bastava que um redator arrastasse um pouco a cadeira para esbarrar na mesa de trás, do vizinho. Um tabique separava o gabinete do Diretor, onde trabalhavam o secretário e o redator-chefe; era também de superfície diminuta, mas duas janelas para a rua davam-lhe ar, desafogavam-no muito. Estava na redação do O Globo, jornal de grande circulação, diário e matutino, recentemente fundado e já dispondo de grande prestígio sobre a opinião. Falei ao Oliveira, perguntando-lhe pelo dr. Gregoróvitch. O eminente repórter levantou um pouco o olhar de cima do importante escrito (relação dos decretos assinados no último despacho), ao dar com a minha fisionomia conhecida e humilde, abaixou-o logo e, entre dentes, transcendentalmente superior, respondeu: "Ainda não veio." Eu não tinha mais onde dormir, havia dois dias que não comia, tinha a máxima necessidade de falar ao russo. Intimidado com a secura do Oliveira, fiquei de pé hesitando fazer-lhe uma segunda pergunta. Medroso e esfomeado, deixei-me assim permanecer alguns minutos debaixo daquele teto que abrigava a falange sagrada que vinha combatendo pelos fracos e oprimidos.

Felizmente, houve alguém que me fez sentar e me convidou a esperar. Debaixo das penas, algumas nervosas e rápidas, outras, calmas e vigorosas, o papel rinchava sob o maior silêncio. Eram sete horas e pouco; as pessoas importantes do jornal ainda não tinham chegado. Laje da Silva, sempre com aquelas suas maneiras atenciosas, com aquele seu ar indecifrável, entrou na redação, não me olhou sequer e foi direito ao Oliveira. Estiveram alguns momentos falando em voz baixa, depois saiu cumprimentando aqui, ali, deixando no ambiente um grande desprendimento de simpatia e sedução. Houve quem dissesse quando saiu: - Que queria esta "águia" Oliveira? - Nada... Procurava o Rabelo... E depois ajuntou: vocês são injustos, não é uma "águia".... "Águia" é um cavador de negociatas, de arranjos desonestos; ele não. Não há uma bandalheira em que se diga que ele se meteu...

- E as notas falsas? - Ora! Ninguém está livre de que um tratante pague uma dívida em notas falsas e, na boa fé, vir fazer pagamentos com elas...

- Coitado! fez o outro com um arzinho canalha.

- Afinal, objetou o Oliveira indignado, quem é honesto para você, Meneses? Todos são ladrões, prevaricadores... Livra! Que língua! A conversa tinha cessado quando o diretor penetrou na sala. Era o dr. Ricardo Loberant, um homem muito alto e muito magro, anguloso, com um grande bigode de grandes guias, louro, de um louro sujo, tirando para o castanho, e um olhar erradio, cheio de desconfiança. Era um homem temido, temido pelos fortes, pela gente mais poderosa do Brasil, ministros, senadores, capitalistas; mas em quem, com espanto, notei uma falta de firmeza, de certa segurança de gestos e olhar, própria dos vencedores. Fora uma irrupção. Ninguém o sabia jornalista, mesmo durante o seu curso mal amanhado não sacrificara às letras: fora sempre tido como viveur, gostando de gastar e freqüentar a sociedade das grandes cocottes. Um belo dia, o público da cidade ouviu os italianos gritarem: O Globo! O Globo! Os curiosos compraram-no e com indiferença leram ao alto o nome do diretor: Ricardo Loberant. Quem é? Ninguém sabia. Mas o jornal atraía, tinha um desempenho de linguagem, um grande atrevimento, uma crítica corajosa às coisas governamentais, que, não se sabendo justa, era acerba e parecia severa. Este gostou, aquele apreciou, e dentro de oito dias ele tinha criado na multidão focos de contágio para o prestígio de sua folha. Vieram as informações a seu respeito. Algumas pessoas do foro informaram que o dr. Ricardo Loberant era um advogado violento, atrevido, que tinha por hábito discutir pelos "apedidos" do Jornal do Comércio, com mais azedume que lógica, as causas intrincadas que lhe eram confiadas. E o jornal pegou. Trazia novidade: além de desabrimento de linguagem e um franco ataque aos dominantes, uma afetação de absoluta austeridade e independência, uma colaboração dos nomes amados do público, lembrando por este aspecto os jornais antigos que a nossa geração não conhecera. O Rio de Janeiro tinha então poucos jornais, quatro ou cinco, de modo que era fácil ao governo e aos poderosos comprar-lhes opinião favorável. Subvencionados, a crítica em suas mãos ficava insuficiente e covarde. Limitavam-se aos atos dos pequenos e fracos subalternos da administração; o aparecimento d’O Globo levantou a crítica, ergueu-a aos graúdos, ao Presidente, aos ministros, aos capitalistas, aos juízes, e nunca os houve tão cínicos e tão ladrões. Foi um sucesso; os amigos do governo ficaram em começo estuporados, tontos, sem saber como agir. Respondiam frouxamente e houve quem quisesse armar o braço do sicário. A opinião salvou-o, e a cidade, agitada pela palavra do jornal, fez arruaças, pequenos motins e obrigou o governo a demitir esta e aquela autoridade. E O Globo vendeu-se, vendeu-se, vendeu-se...

Aquele jornal que era sua propriedade, recebia também a sua inspiração. Nenhum dos seus redatores tinha uma personalidade suficientemente forte para resistir ao ascendente da sua. Medíocres de caráter e inteligência, embora alguns fossem mais ilustrados que ele, a ação deles no jornal recebia impulsão do dr. Ricardo, o sinete de sua paixão dominante, a sua característica; e esta era, despeito de sua fraca capacidade intelectual, a resistência que o seu cérebro oferecia ao trabalho mental contínuo, de modo a não lhe permitir chegar às altas posições pelo prestígio do talento e do estudo, não lhe deixando o seu grande orgulho que chegasse de outra forma mais geral e mais fácil. Com uma grande sede de domínio e grandes apetites de mulheres e prazeres, mas sem talento, sem pertinácia e paciência, para atingir à fortuna e aos grandes cargos, consciente dessas falhas, o dr. Ricardo tinha aí um depósito inexaurível de emoções, sempre a esporeá-lo, a excitá-lo e bastante forte para marcar a sua pessoa e os seus atos.

Demais, o seu desgosto e o seu despeito podiam cevar-se na mediocridade de inteligência e na geral desonestidade dos que governavam e dominavam; era só fechar os olhos e estender a mão. Diziam que os primeiros artigos não tinham sido escritos por ele, mas deviam ter sido inspirados; foi a sua paixão contagiosa que os ditou ao amigo complacente que os escreveu. Durante os cinco anos que estive na redação, senti que o seu estado d’alma "pegava", alastrava-se pelos amigos e subalternos, tanto que, nas suas ausências, o diário não perdia o tom e os artigos pareciam ter sido revistos por ele na véspera e saírem de sua fonte inexaurível de desgosto, despeito e rancor. Entretanto, fora do momento, fora do minuto em que se punham a escrever e sentiam a presença do O Globo diante dos olhos, aqueles redatores eram a gente mais satisfeita desta vida, satisfeita consigo, com a posição que tinham e com a sociedade que os cercava.

O dr. Ricardo Loberant entrou fumando com força seguido de Pacheco Rabelo (Aires d’Ávila), redator-chefe do jornal, a segunda cabeça da casa. Era um homem gordo que se movia pela sala com a dificuldade de um boi que arrasta a relha enterrada da charrua. Havia na sua marcha um grande esforço de tração e um monóculo petulante na face imóvel não lhe diminuía o peso da figura. Os dois penetraram na redação pondo na sala uma inexplicável atmosfera de terror. Pelos longos anos em que estive na redação do O Globo, tive ocasião de verificar que o respeito, que a submissão dos subalternos ao diretor de um jornal só deve ter equivalente na administração turca. É de santo o que ele faz, é de sábio o que ele diz. Ninguém mais sábio e mais poderoso do que ele na Terra. Todos têm por ele um santo terror e medo de cair da sua graça, e isto dá-se desde o contínuo até o redator competente em literatura e coisas internacionais.

Passando por entre as mesas, tal era a concentração das faces e o ar aterrado daqueles homens tão arrogantes lá fora, tão sublimes na rua, que eu pensei que se fossem atirar ao chão para serem pisados por aquele novo deus, dando-me ali um espetáculo da Índia mística.

Ricardo Loberant e Aires d’Ávila entraram no gabinete onde estava Leporace. O diretor tirou o chapéu, descansou a bengala num canto, sentou-se ao bureau-ministre e gritou bem alto: - "Seu" Leporace, como é que o senhor deixa publicar esta porcaria (apontou o jornal) na primeira página? Leporace era o secretário, arrogante como todo jornalista, apesar de ser uma pura criação de Loberant. Formado, sem emprego, sem fortuna, sem "pistolões", veio a encontrar-se com o dr. Ricardo. Loberant gostou da sua submissão, do ar respeitoso com que era tratado pelo rapaz, daquela espécie de admiração muda pelo seu gênio que ninguém sentia, e começou a interessar-se por ele, dando-lhe sociedade na banca, arranjando-lhe clientes. Começou precisando dele para apoiar a sua pessoa, teve pena depois da sua covardia, da sua inaptidão para "cavar" acabou amando-o inteiramente. Quando fundou o jornal, trouxe-o como redator. Leporace foi aprendendo com os outros o ofício e acabou Secretário, sumidade em literatura e jornalismo, árbitro do mérito, distribuidor de gênios e talentos - ele que nunca tivera o mínimo gosto, a menor inclinação por essas coisas e passara a meninice e as duas mocidades atracado com compêndios e fazendo Exames como toda a gente! Hoje, é quase uma celebridade e passeia de carro pelas ruas asfaltadas do Rio de Janeiro, tendo ao lado a mulher e os pimpolhos.

O berro de Loberant fez estremecer a natureza gelatinosa de Leporace. Ergueu-se, foi até à mesa do diretor, falou-lhe ciciando, desculpando-se e explicando-se. Na sala, ouvimos todos e o autor da "porcaria", Adelermos Caxias, recebeu aquela injúria sem o mais leve movimento de revolta, resignadamente, com resignação difícil de esperar em escritor do seu talento, uma grande esperança das gerações novas.

Estava ali havia mais de meia hora. Depois da brusca reprimenda do diretor, o silêncio fez-se de novo, e os redatores continuaram a escrever, indo um, de onde em onde, consultar outro timidamente em voz baixa ou procurar uma coleção de jornais distante.

A presença do diretor na sala contígua era sentida pelo ruído constante do papel rasgado; parecia que ele escrevia tiras para rasgá-las logo que estavam escritas a meio. Do meu lugar, via-lhe a ponta dos ombros e a Aires d’Ávila inteiramente. O jogo de luzes projetava fantasticamente este último no vão da parede defronte. A sua face alongava-se desmedidamente e o crânio diminuía: o maxilar inferior avançava muito, o nariz ficava colado ao superior e vinha terminar com ele; e tudo tomava uma posição oblíqua, como se fosse uma imensa cabeça de porco. Escreveria, ora com monóculo, ora sem ele; e fumava com a satisfação de um turco que repousa do jantar para se fatigar no harém. Num dado momento, o dr. Ricardo ergueu-se impetuosamente e surgiu na sala como um vendaval. Gritou: - Eu já disse aos senhores que isto não é escada para ninguém subir... É um escândalo! Todo o dia elogios, adjetivos e encher o... desses pulhas aí! Já disse que "eminente" aqui é só o José Bonifácio. - Arre! Quem é esse tal Ruskin que morreu? Ninguém se animou a responder e ele continuou no seu primeiro tom: - Um literato aí qualquer, um contador de caraminholas... Não quero mais que se chame ninguém de eminente nas colunas do meu jornal, senão o José Bonifácio - saibam de uma vez por todas!

O doutor Gregoróvitch não chegava e comecei a sentir-me também invadido por aquela atmosfera de terror. O diretor tinha voltado ao seu gabinete e continuou a rasgar papel. Certa vez, levantou-se, foi até à janela e, na volta, eu pude ver o seu maxilar proeminente e quadrado e o ar terrível que tinha a sua fisionomia banhada da turva luz que se desprendia do olhar. Então, admirei-me que aquele homem, sob cujo nome apareciam tão formidáveis ataques aos nossos problemáticos tiranos fosse ele mesmo, na administração de sua folha, um tirano malcriado e feroz. Ele parecia não achar sossego: sentava-se, levantava-se, ia à janela; por fim saiu estrepitosamente. Ao chegar à porta que dava para o corredor, voltou e gritou a esmo: - O Gregoróvitch já veio? A um só tempo quase todos responderam prestamente: - Ainda não, sr. dr.

- Bem, retrucou o dr. Ricardo. Quando ele chegar, digam-lhe que escreva um artigo sobre o empréstimo da Prefeitura... É preciso não deixar descansar esses tratantes! Lá em cima da minha mesa, acrescentou logo, está o começo do meu e ele continue...

Leporace veio até à porta receber as recomendações, embora Loberant não se tivesse dirigido a ele. Logo que o diretor saiu, correu-lhe à mesa para apanhar os preciosos escritos. Vi-os. Eram três delgadas tiras de papel cheias de emendas e de algumas frases em grandes letras. Sentindo-o longe, os seus auxiliares voltaram a conversar.

- Está com a bicha, disse o Meneses. Ainda não tinhas visto disso, hein, Adelermo? Aqui é assim...

- Admira-me que só agora tivesse visto que era porcaria... De manhã, nada disse.

- Não há admirar, fez um outro. A mulher só lhe fala nas coisas do jornal ao jantar, e ele guia-se muito pela opinião dela...

Adelermo acendeu um cigarro, tirou uma fumaça calado; depois, impregnado de tristeza, disse vagarosamente que era triste que os seus trabalhos tivessem que ficar sujeitos ao veredictum de uma menina das irmãs de caridade. Os outros nada lhe disseram e ele acendeu de novo o cigarro, pôs-se a olhar ao longe com tristeza, em seguida essa expressão desfez-se e quando voltou a trabalhar sua fisionomia sorria de orgulho interior. O Oliveira então interveio: - És injusto com D. Inês, Adelermo... Não é como tu dizes: uma simples menina das Irmãs... É uma senhora ilustrada; fala francês, monta a cavalo e... Ainda outro dia, eu vi uma carta dela... Que letra! E que ortografia! Imagina que eram só termos de medicina... terapêutica... psicologia... agapanto... Não é brinquedo! E todos corretos! Eu fui ver no dicionário...

No gabinete, o anafado redator-chefe continuava a escrever, fingindo não dar atenção à conversa. O charuto estava pelo meio e era aspirado com o vigor de uma bomba poderosa. Acabando de escrever, leu o artigo vagarosamente, e ergueu-se e veio ao umbral do tabique: - Estás zangado com o Ricardo, Adelermo? - Não, dr., mas...

- Vocês são assomados... É da idade... Se não se atravessar certas coisas, não se vai mesmo. Olhem: eu, logo ao sair da Academia (!), fui trabalhar com meu pai, no Diário Fluminense. Uma noite, escrevi um artigo e julgava-o sofrível. Pois bem: o velho era casmurro, veio até à sala de redação e rasgou-o todinho na minha cara e à vista de uma porção de gente...

Parou de falar, tirou uma fumaça e depois de ter franzido a fisionomia para manter o monóculo no lugar, perguntou vitoriosamente: - E agora, não estou aqui? - Eu sei, doutor, falou o Adelermo; mas...

- Vocês não têm outro patrão como o Ricardo, continuou Aires d’Ávila, sem se incomodar com o Adelermo. Vejam (por aí ele teve um arroto do jantar saboroso). Vejam o que ele fez com o Sanches?! É isso... Há poucos com a sua generosidade e grandeza d’alma... É um fidalgo, um mãos-abertas! O Oliveira confirmou as asseverações do pachorrento redator, acrescentando: - E demais vejam quem fala mal dele... São esses ladrões, esses rufiões, gente desmoralizada que quer avançar...

- Eu digo isso sempre dos que o julgam mal, disse alguém. Ainda ontem, conversando com o Andrade, tive ocasião...

- Você se dá com esse Andrade? indagou o Oliveira.

- Dou-me. É um belo rapaz, meio...

- Qual! exclamou Oliveira. É uma besta! - Não é, Oliveira; é um rapaz que escreve...

- Qual! Eu quero ver esses literatos escreverem duas colunas de incêndio, aqui, no duro... O próprio Rui...

Aires d’Ávila prudentemente interrompeu a crítica do Oliveira. Não era tanto pela sua admiração pelo famoso advogado; com certeza era pelo respeito que lhe inspirava a sua posição política. Interrompeu, perguntando: - Quem é esse Andrade? A amizade subalterna do Oliveira esperava essa pergunta para explodir em arras de sua dedicação ao dr. Loberant.

- É um moleque aí, uma besta! O paquiderme colocou o monóculo e disse com toda a gravidade: - Ah! Já sei... Um bâbleur! Gente que confunde o brilho com a inteligência... Fracas inteligências... Fracas inteligências a que mocidade dá um brilho fugaz...

E o monstruoso redator desandou dizendo asneiras. Eu estava ali de colarinho sujo, esfomeado, mas tive ímpeto de discutir e de quebrar a cara dos idiotas que o ouviam. Entre eles, havia alguns a quem cabia bem a carapuça, mas que se calaram covardemente. Eu queria perguntar-lhe se aqueles seus artigos acacianos, cheirando ainda muito à brochura francesa de dois mil e quinhentos se podiam pôr ao par do Tito Lívio, do Tobias Barreto; eu queria perguntar-lhe se a sua genialidade no artiguete seria capaz de aparecer se tivesse nascido nas condições desfavoráveis do Caldas Barbosa, do José Maurício, do Silva Alvarenga e outros! E não sei que movimento fiz na cadeira, sopitando a vontade de falar, que o Megatherium notou e perguntou-me: - Que é que o senhor deseja? - Falar ao dr. Gregoróvitch.

- Oliveira, o Gregoróvitch quando vem? - Às oito horas.

- Você, meu filho, tem muito que esperar, disse ele com doçura. São sete e um quarto ainda...

- Esperarei, disse eu.

E eles recomeçaram a conversar sobre outro assunto e vieram a cessar instantaneamente quando se ouviram passos na escada. Esperava-se o dr. Loberant, mas entrou o fino, o elegante, o diplomático, o macio Frederico Lourenço do Couto, com a sua linda barba perfumada e o seu grande queixo erguido e atirado para adiante como um aríete de couraçado. Vinha todo perfumado, de olhar lustroso, desprendendo essências, com o peitilho da camisa a brilhar imaculadamente e um grande botão de coral ao centro, rodeado de brilhantes. Trazia o sobretudo debaixo do braço e entrou pisando forte, dando amáveis boas-noites. Vim a conhecê-lo melhor e a minha antipatia não diminuiu; entretanto, hoje, ao recordar-me com que sombria energia ele pôs fim ao seu desespero, ao ver diante de meus olhos a imagem do seu cadáver com aquela fraca cabecinha estourada por uma bala, tenho uma grande e imensa pena e lastimo que a minha total ignorância das coisas da Igreja não me permitia rezar uma oração em favor de sua alma. Era o Floc, pseudônimo com que assinava os seus artigos, os artigos de três tiras, ligeiros e originais, em que, na máxima parte, ele contava uma linda anedota literária donde concluía as suas substanciosas opiniões.

Na redação, era conhecido e respeitado como entendido em literatura e coisas internacionais. Ele e o Lobo, o consultor gramatical, eram os dois mais altos ápices da intelectualidade do O Globo. Eram os intelectuais, os desinteressados, ficavam fora da ação ordinária daquele exército. Nunca se metiam nas polêmicas, não procuravam escândalos, não escreviam alusões. Gregoróvitch era a artilharia. Com seu estilo desconjuntado e a sua violência injuriosa, abria brecha nas linhas adversárias e dizimava-as de longe. Estrangeiro, nada sabendo da nossa história, nem pelo estudo nem a sentindo pela educação e pelo sangue, a sua crítica e o seu ataque tinham uma violência desmedida. Não poupava, não desculpava, não sentia até que ponto o homem era culpado, até que ponto a marcha das coisas fazia o homem culpado. Ligeiramente enfronhado nas causas da política do momento, ele só via diante de si um aspecto do fato, não sentia inconscientemente os outros que se ligavam com o passado que ele não conhecia, nem os outros que o futuro pressentido condicionava. Um brasileiro, educado e criado no meio das tradições, dos usos, dos hábitos, das qualidades, dos defeitos do seu meio, não teria a violência de sua linguagem, a sua força de crítica, a brutalidade de seu ataque.

Acharia na sua educação e nos seus costumes desculpa para as faltas dos outros que ele sentia também ser suas. Gregoróvitch que, além de estrangeiro, não tinha pátria ao certo, era incapaz de apanhar relações, explicações, só via faltas, erros, onde havia simplesmente efeitos, resultados, e atirava-se com toda a violência de seu temperamento de aventureiro e condottiere da pena contra aquele reino de Incas, de Astecas que ele não compreendia. Além dele, havia o Losque e o Lara homens de espírito, humoristas, espécie de cavalaria parta viva no ataque e capaz ainda de deitar frechas mortais na retirada. O resto era a infantaria, o grosso do exército, de quem faziam parte o Oliveira, admirando o diretor como um deus e supondo-se extraordinário no seu ofício de repórter; o resignado Menezes, indulgente criatura que naquele ambiente de fatuidade e ignorância, era o único simples e o único que estudava; o Rolim, o elegante Rolim, vigorosamente analfabeto, mas lindo como Narciso; o Costa, o Barros, e quantos mais? Era assim composta aquela peça com que tinha irrompido pela vida política e administrativa do Brasil a violência e com o inesperado de um fenômeno vulcânico.

À frente, estava o doutor Ricardo Loberant, bacharel em direito, de inteligência duvidosa e saber inconsciente, com o seu estado-maior, formado de Aires d’Ávila, um monstro geológico com prematuros instintos de raposa, e o Leporace, um secretário mecânico, automático, ser sem alma, sem defeitos nem qualidades, que recebia os seus movimentos do exterior e os comunicava às outras peças da máquina; à parte, um tanto afastado, como aqueles traficantes que acompanham os exércitos, havia o Alberto Pranzin, o gerente, um italiano de olhar turvo a abranger um grande círculo no horizonte, calculador de níqueis, que escumilhara a despesa e trazia para as gavetas do jornal os tostões da população e um pouco dos lucros do comércio português no Rio de Janeiro, isto é, de todo o comércio da cidade, que todo ele é português, tem o seu espírito, a sua alma, e as suas regras.

Floc, porém, sobre todos tinha o grande prestígio de ter estado em Paris e ter sido segundo-secretário da nossa legação em Quito. Por isso ele mesmo se julgava mais depuradamente artista que o resto dos rapazes que faziam literatura pelo Brasil em fora; e o seu estágio diplomático em Quito dava-lhe também um infalível julgamento nas coisas de alta elegância e um saber inarrável nas maneiras de tratar duquesas e princesas. Fazia a crônica literária, as crônicas teatrais dos espetáculos de todas as celebridades, as informações sobre literatura e pintura, além do plantão semanal em que ajeitava frases lindamente literárias, dados da psicologia chic, às notícias de assassinatos perpetrados por soldados ébrios na rua de São Jorge, não esquecendo nunca de dizer que o "criminoso é o tipo acabado do criminoso nato, descrito pelo genial criminalista italiano Lombroso". Ia a um banquete diplomático. A sua entrada não perturbou a conversa.

- ... um moleque! zurrou o Oliveira.

- De quem falas, Oliveira? indagou o recém-chegado.

- Um mulato aí, um tal Andrade...

- Incomoda-te o que ele escreve? - Com certeza, pois se chama o dr. Ricardo de pirata, de Barba-Roxa...

- Ora! Tu! Essa gente está condenada a desaparecer; a ciência já lhes lavrou a sentença...

Ele de ciência sabia o nome e ignorava a conta de dividir. Calou-se um instante e acrescentou: - É preciso fulminar os nulos! Lobo tinha-se mantido calado. Durante toda a conversa, dissera uma ou outra frase ligeira. Revia absorvido um artigo e não queria distrair-se de modo a perder a menor regra gramatical com que pudesse emendar o original.

Tendo o Floc e o Oliveira cessado de falar, alguém perguntou-lhe: - Dr. Lobo, como é certo: um copo d’água ou um copo com água? O gramático descansou a pena, tirou o pince-nez de aros de ouro, cruzou os braços em cima da mesa e disse com pachorra e solenidade: - Conforme: Se se tratar de um copo cheio, é um copo d’água; se não estiver perfeitamente cheio, um copo com água. Explanou exemplos, mas não pôde levá-los à dezena, pois alguém apontou na porta, o que mereceu uma exclamação do Aires d’Ávila: o Veiga!

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