A atitude do governo era curiosa. Às vezes ostentava-se forte, mandava dizer pelos seus jornalistas que o lançaria pelo corretor que entendesse. Os artigos rompiam, mostrando as vantagens da operação, mas Loberant, ou alguém por ele, atirava no dia seguinte um artigo descompassado, pesado de descomposturas, e os adversários esfriavam. Neles não se raciocinava, não se ia adiante dos argumentos dos adversários. Afirmava-se e insultava-se o contendor com alguns palavrões do calão do Quinhentos ou de Seiscentos. E essas palavras ressuscitadas eram de efeito seguro. A multidão guardava-as de cor, procurando-lhes a significação e o sentido.
Nos "apedidos" do Jornal do Comércio, era interessante o combate. Havia artigos sisudos, cheios de citações, Léon Say, Leroy-Beaulieu, versos de Racine; havia epigramas, ligeiros e ágeis que nem um torpedeiro, e venenosos que nem uma cascavel; o mais notável, porém, eram as verrinas, alusões a vícios e maus hábitos dos adversários. Causava pasmo o esforço de imaginação despendido em se obter circunlóquios bastante claros para serem compreendidos no seu verdadeiro sentido por toda a gente e bastante velados para não haver impedimento na sua publicação. O diretor era alvejado com encarniçamento; não se incomodava, mas nos artigos fingia-se ferido, desgostoso. Aires d’Ávila recebia também um bom quinhão. Veio até publicado um epitáfio seu, em verso, terrivelmente sarcástico, que era atribuído a um poeta famoso pela perfeição dos seus versos, pelo seu humor boêmio e veia satírica. Dizia assim: P.R.
(A.A.) Quando ele se viu sozinho Da cova na escuridão, Surripiou de mansinho Os bordados do caixão Apesar disso tudo, ambos se mantinham inalteráveis e calmos. Aquilo era como um torneio de xadrez e eles o estavam jogando calmamente a fumar um charuto. A população é que vivia inquieta, ora pendendo para aqui, ora para ali, mas sempre tendo em vista a opinião d’O Globo. Havia, porém, nesse torneio um prêmio, um grande prêmio, de mil e tantos contos, dos quais algumas dezenas iriam parar às algibeiras de Aires d’Ávila e de Laje da Silva, cujas visitas ao ventrudo jornalista eram assíduas e prolongadas. O antigo padeiro de Itaporanga continuava no seu semimistério, mas sempre solícito, bem relacionado, procurando um e outro. Ultimamente explorava uma casa de divertimentos na Lapa, "Folies Bergères", onde se dizia haver jogo oculto. Não havia estréia de uma cantora que não mandasse convites individuais para o pessoal de todos os jornais. Ele sabia os nomes de um por um, desde a redação até à administração, passando pelas oficinas, revisão e expedição.
A batalha, entretanto, não se decidia. As duas hostes em luta não ganhavam terreno. Um dia era da gente do prefeito; outro dia, era dos adversários. Vinha um assassinato, um incêndio, havia uma trégua. O governo temia um fracasso e esperava. Surgiu, porém, a questão dos sapatos obrigatórios que precipitou os acontecimentos. É de pouco tempo esse motim e muitos dos meus leitores ainda se recordam perfeitamente os acontecimentos. Escrevendo agora estas páginas, eu tenho escrúpulos. Parece-me que vou acusar o dr. Loberant de ter movido essa sangrenta arruaça e ser culpado da morte de algumas dezenas de cidadãos nas barricadas improvisadas. Não é o meu fito esse, pois estou bem certo de que ele, como ninguém, não é capaz de medir e avaliar as múltiplas reações que as nossas palavras podem operar nos outros quando transmitidas. Seria ignóbil que eu o quisesse acusar. Ele foi, por assim dizer, um benfeitor meu e todos menos eu podem fazê-lo e têm esse direito que me escapa. Contudo, embora possam ser tomadas nesse sentido as minhas palavras dirão fielmente o que vi e o que senti.
Nascera a questão dos sapatos obrigatórios de um projeto do Conselho Municipal, que foi aprovado e sancionado, determinando que todos os transeuntes da cidade, todos que saíssem à rua seriam obrigados a vir calçados. Nós passávamos então por uma dessas crises de elegância, que, de quando em quando, nos visita. Estávamos fatigados da nossa mediania, do nosso relaxamento; a visão de Buenos Aires, muito limpa, catita, elegante, provocava-nos e enchia-nos de loucos desejos de igualá-la. Havia nisso uma grande questão de amor-próprio nacional e um estulto desejo de não permitir que os estrangeiros, ao voltarem, enchessem de críticas a nossa cidade e a nossa civilização. Nós invejávamos Buenos Aires imbecilmente. Era como se um literato tivesse inveja dos carros e dos cavalos de um banqueiro. Era o argumento apresentado logo contra os adversários das leis sumptuárias que apareceram pelo tempo: "A Argentina não nos devia vencer; o Rio de Janeiro não podia continuar a ser uma estação de carvão, enquanto Buenos Aires era uma verdadeira capital européia. Como é que não tínhamos largas avenidas, passeios de carruagens, hotéis de casaca, clubes de jogo?" Laje da Silva, farejando o que continha de negociatas nos melhoramentos em projeto, propugnava-os com ardor. Nas suas conversas na redação constantemente dizia: - Que são dez ou vinte mil contos que o estado gaste! Em menos de cinco anos, só com as visitas dos estrangeiros, esse capital é recuperado... Há cidade no mundo com tantas belezas naturais como esta? Qual! Aires d’Ávila chegou mesmo a escrever um artigo, mostrando a necessidade de ruas largas para diminuir a prostituição e o crime e desenvolver a inteligência nacional.
E os da frente, os cinco mil de cima, esforçavam-se por obter as medidas legislativas favoráveis à transformação da cidade e ao enriquecimento dos patrimônios respectivos com indenizações fabulosas e especulações sobre terrenos. Os Haussmanns pululavam. Projetavam-se avenidas; abriam-se nas plantas squares, delineavam-se palácios, e, como complemento, queriam também uma população catita, limpinha, elegante: cocheiros irrepreensíveis, engraxates de libré, criadas louras, de olhos azuis, com o uniforme como se viam nos jornais de moda da Inglaterra. Foi esse estado de espírito que ditou o famoso projeto dos sapatos.
Ao ser apresentado, ninguém lhe deu importância, mesmo porque dias antes houvera um crime sensacional que prolongara a atenção da cidade.
Eu tinha feito o serviço de dia e ia sair. Seriam cinco para as seis horas, quando o Lemos, repórter de polícia, entrou ofegante e deslumbrado. Chegou e falou o secretário, nervoso de contentamento, com a palavra entrecortada, oprimido de felicidade: - Um crime! Um grande crime! - Onde? - Em Santa Cruz, nos campos de S. Marcos... Uma mulher e um homem foram encontrados mortos a facadas e decapitados... Vestiam com luxo... Parecem pessoas de tratamento... Um mistério! Todos os circunstantes ouviram estuporados a breve narração do repórter. Depois de um curto silêncio, choveram as perguntas. Lemos nada sabia; recebera a notícia de Teixeira que estivera na polícia, onde pouco mais sabiam. A notícia viera de Santa Cruz pelo telégrafo... Leporace, que raramente saía de sua natureza de celentério, pôs-se nervoso e começou a dar as providências, a regular o caso: - Já um boletim... Já! E logo rapidamente, Adelermo começou a traçar em letras garrafais a notícia que o Lemos trouxera. Eu fui pregá-lo à porta; da sacada, Leporace avaliava o efeito. O primeiro curioso que passou, parou e quedou-se a ler. Vieram outros e em breve uma multidão estacionava em frente do jornal. A notícia espalhou-se rapidamente, com uma rapidez de telégrafo, com essa rapidez peculiar às notícias sensacionais que nas grandes cidades se transmitem de homem a homem quase com a velocidade espantosa da eletricidade. O doutor Loberant entrou, atravessando a custo por entre a multidão. Tinha ouvido qualquer coisa e correu ao jornal. Que houve? perguntou. Contaram-lhe. A sua fisionomia abriu-se risonha, sorridente e feliz. Ia vender mais mil ou dois mil exemplares. Chegou à janela e viu a multidão crescer sempre. Veio até à sala da redação e perguntou com império: - Quem está fazendo a "cabeça"? "Cabeça" se chama nos jornais às considerações que precedem uma notícia. Feita com a moral de Simão de Nântua e a leitura dos folhetins policiais, a "cabeça" é a pedra de toque da inteligência dos pequenos repórteres e dos redatores anônimos. No Despacho havia um especialista nesse gênero jornalístico que era tido por gênio.
- Não há como o Matoso! Que felicidade! Que rapidez! Escreve trinta tiras em uma hora! diziam os colegas.
Isto lhe valia uma fama e um conceito, entre os seus, superior à que o Conselheiro Rui Barbosa goza em todo o Brasil. É preciso saber-se que as tiras no jornal são menores e levam menos palavras que as redigidas por qualquer pessoa não afeita ao ofício. São escritas com grandes intervalos entre as linhas e grandes espaços entre as palavras, para facilitar a composição.
Demais eram as banalidades, os conceitos familiares sobre o crime e os criminosos que ele desenvolvia com a convicção de quem estivesse fazendo um estudo profundamente psicológico e social. Oh! A vaidade dos desconhecidos da imprensa é imensa! Todos eles se julgam com funções excepcionais, proprietários da arte de escrever, acima de todo o mundo. Não reconhecem que são como um empregado qualquer, funcionando automaticamente, burocraticamente, e que uma notícia é feita com chavões, chavões tão evidentes como os da redação oficial. Quase todos os repórteres e burocratas dos jornais desprezam a literatura e os literatos. Não os grandes nomes vitoriosos que ele veneram e cumulam de elogios; mas os pequenos, os que principiam. Estranha ignorância de quem, por intermédio dos artigos dos que sabem, copia os processos dos romancistas, as frases dos poetas e deturpa os conceitos dos historiadores, imitando-lhes o estilo com uma habilidade simiesca...
Leporace, apanhado em falta, respondeu timidamente, ao diretor: - Ninguém.
- Pois já deviam ter pensado nisso... Vá, "seu" Adelermo, faça a "cabeça"; e o senhor, "seu" Lemos, já para Santa Cruz! - Só há trem daqui a uma hora e com certeza não apanho o que volta de lá às sete e quarenta e cinco...
- Não faz mal. Vá, durma lá, telegrafe... Passe na caixa e diga ao Pranzini que lhe dê duzentos mil-réis...
O diretor retirou-se e Adelermo começou a escrever.
- Qual será o título? fez ele suspendendo a pena.
- "Crime no Pampa", gritou o Oliveira.
Oliveira, Carlos Oliveira, era da Bahia. Maneiroso, mesureiro, captara a amizade e o compadresco do diretor, de Aires d’Ávila e Losque; fizera-se grande influência no jornal, no qual já colocara dois redatores, Adelermo e Losque, e muitos repórteres. Ganhava como redator importante; mas o seu serviço era trazer notícias da Estrada de Ferro e dos Telégrafos. Na redação, limitava-se a escrever: "Foram concedidos passes aos telegrafistas F. e S., a linha de Vista Alegre, 9o distrito, está interrompida, devido, etc."; na rua, porém, entre os auxiliares de escrita e os diretores, fazia constar que escrevia artigos e crônicas. Vendia a sua pomada.
Adelermo Caxias não compreendeu bem o título de Oliveira e perguntou: - Por que pampa? - Pampa, não é campo? Caxias, apesar da justificativa, não o quis e perguntou a outro: - Qual deve ser, Floc? - "Bucolismo e tragédia"? - Qual! É erudito...
- "Ciúme e crime".
- Por que ciúme? Por fim, chegou Leporace e lembrou um título rocambolesco, sonoramente popular; "Descampado da morte". Boa idéia! - gritaram todos; e Adelermo pôs-se a escrever.
A calma voltou um instante à redação, mas foi logo interrompida pelo tilintar do telefone. Lemos, que estava na polícia, mandava dizer que se tinha encontrado um chapéu de palha, quase junto aos cadáveres. A multidão, em frente ao jornal, aumentava sempre. Muitos subiam pedindo informações. A curiosidade era geral; o crime impressionara a população. Por essa estranha e misteriosa faculdade das multidões, aquele caso, vulgar um mês antes ou depois, naquele dia tomou a proporção de um acontecimento, de um fato pouco comum. Para atender à impaciência da massa, constantemente se telefonava para a polícia. A resposta era a mesma; não havia notícias. O diretor, por detrás da veneziana semicerrada, espreitava o poviléu embaixo. Os repórteres chegaram trazendo para a redação a ansiedade das ruas, a emoção dos cafés - toda a imprevista vibração da cidade em face daquele fato de polícia quase banal.
Cá do outro lado da sala de redação, sentíamos que o "doutor" ouvia todas aquelas notícias com interesse. Havia estalidos na cadeira, tênues ruídos de movimentos de atenção. Houve um momento em que não se conteve. Veio até a sala geral, inquirindo este, perguntando àquele; e certo da superexcitação do público, da extensão que a notícia tinha alcançado na cidade, da intensa curiosidade que dominava toda a gente e ainda mais que o Jornal do Brasil punha, de quando em quando, um boletim - determinou que o Adelermo inventasse qualquer coisa, indícios, depoimentos, quaisquer informações. E fez isso em altas vozes, congestionando, meio zangado e meio contente, expectorando injúrias contra o rival.
Adelermo era a imaginação do jornal. Nascera no Maranhão e escrevia regularmente. Apesar de nunca se ter feito notar por uma associação mais original de idéias, no jornal era imaginoso porque nascera no Norte e tinha uma boa dose de sangue negro nas veias. As generalizações dos jornais são infalíveis...
Mas... Adelermo era a imaginação do jornal, e em seus ombros recaía todo o peso da necessidade de informações imediatas ao público quando os documentos faltavam ou eram omissos.
Se havia um atentado anarquista ou um terremoto na Europa e o telegrama era por demais conciso, Adelermo tinha o encargo de desenvolvê-lo, de explicá-lo, de reconstruir a cena para o gosto público. Às vezes, pediam-se-lhe mais detalhes; o diretor queria a descrição do complot, a cena da "sorte", à lôbrega luz de uma mansarda. Adelermo era obediente e fazia. Intimamente desgostava-se com aquele papel de mentiroso; mas temia ser despedido, posto na rua. Era esse o grande terror de todos. Não eram os ordenados, não era a miséria que os apavorava; temiam não encontrar outro lugar nos jornais e perderem por isso a importância, a honra suprema de pertencer ao jornalismo. Eles não valiam por si; o jornal é que lhes dava brilho.
Nas invenções de Adelermo, quase sempre se passavam coisas fantásticas e curiosas.
Havia então complicações de topografia, ruas metidas umas nas outras; mas o terremoto, que a potente imaginação de Adelermo levava às grandes cidades da Europa, passava completamente desapercebido ao público e ninguém, dias depois, se lembrava de cotejar as notícias dadas pelo O Globo com as que vinham nos jornais da Europa.
Caxias não se deteve; pôs-se logo a escrever. Ele não conhecia a região; nunca passara de São Francisco Xavier e fora uma vez acompanhar um figurão argentino a Belo Horizonte em serviço de reportagem, num rápido. Para os lados de Santa Cruz, nunca tinha ido, não sabia coisa alguma da situação da localidade, da sua posição relativa às outras estações. Tendo tido notícia que os empregados da Estrada não se lembravam de ter visto desembarcar na estação um par nas condições do assassinado, concluiu que o casal tinha ido a pé até Cascadura - estação que lhe parecia ser muito próxima do tradicional curato.
O boletim ia ser posto, quando alguém mais bem informado objetou: - Cascadura! Não é possível, Adelermo? Fica léguas distante de Santa Cruz.
- Então de onde podia ser? Eles foram a pé da estação mais próxima... Isso não há dúvida! Qual a estação mais próxima que conheces? O outro fez um grande esforço de memória, esteve uns instantes a pensar, e disse por fim: - Há Realengo... Depois... Depois... Campo Grande! Devia ser Campo Grande! Imediatamente, sem que de todo ficasse apagada a palavra Cascadura, Caxias emendou e o novo boletim foi pregado.
A rua encheu-se ainda mais. Havia gente de toda a sorte: velhos, moços, burgueses, operários, senhoras - gente de todas as idades e condições. Os que ficavam mais distante, no passeio fronteiro, para ver melhor, punham-se nos bicos dos pés, cheios de ansiedade. Quando subi a escada, voltei-me um instante e vi aquela centena de pessoas, com as pálpebras arregaladas, o pescoço erguido, esforçando-se por ler aquele carapetão formidável, forjicado naquela fábrica de carapetões que se chama o jornal.
A redação recebera uma visita. Era a Viscondessa de Varennes, que conversava com Floc. Os dois estavam no período de namoro; ela, retirando todo o proveito, em notícias, péssimos sonetos publicados na primeira página; ele, oleoso, gastando os seus melhores mimos e alguns mil-réis de sua algibeira econômica.
- Oh! Sr. dr. Cunha! dizia ela. Que coisa! Como isto está! Que malvadez! Eu vinha rindo, quando li... Fiquei apavorada!... Não sei. Meu Deus! Quando vejo isso até tenho medo de viver...
Leporace passou e deitou sobre a poetisa um olhar cheio de desejos. Os enormes olhos de boi da poetisa voltaram um instante para o Secretário que se desfez em cortesias. A Viscondessa estava em relações com todos os redatores e repórteres e todos eles esperavam cedo ou tarde tê-la uma noite nos braços.
Com a sua finura de profissional do Amor, ela bem percebia a fome que todos aqueles homens tinham do seu corpo fatigado. Não desanimava a nenhum, recebia homenagens, sorria com o seu longo sorriso, contraindo as grandes massas carminadas, abanava-se um instante com o leque, ajeitava a saia de sêda de modo a lhe desenhar melhor as pernas e pedia favores: uma referência, uma notícia, a publicação de um soneto, de um conto. Assim se valorizava. Os únicos da gazeta que não a queriam absolutamente, eram o diretor e Michaelowsky. Este quando a ouviu tão temerosa, prorrompeu bruscamente com a sua voz metálica.
- Ora, minha senhora! Nós todos somos criminosos... A senhora também o é! - Eu, dr.! - Sim! A senhora para viver tirou a vida de muita gente; para ter esse vestido, esses laçarotes, tira a de muitos outros... A nossa vida só se desenvolve com grandes violências sobre as coisas, sobre os animais e sobre os semelhantes...
- Mas dessas não o sabemos! - Talvez não seja tanto assim...
A viscondessa estendeu a mão ao viçoso Floc, abarcou com o olhar a sala toda e saiu arrastando o corpo pequeno e pesado.
Caxias continuava no seu serviço dos boletins periódicos. Alguns jornais da tarde deram uma segunda edição. O Globo, porém, com os seus cartazes contínuos, distraía os compradores. Nos portais, já não havia mais lugar. Os boletins iam de cima a baixo; alguns já cobriam os outros. O povo continuava aglomerado. Escurecia. Houve alguém que acendeu um fósforo para ler melhor. O doutor Ricardo, que viera de jantar, vendo o gesto do popular, mandou que o foco elétrico da fachada fosse aceso.
Nos outros jornais, que tinham também afixado boletins, logo o imitaram; e a rua do Ouvidor, àquela hora da tarde excepcionalmente transitada e iluminada, surgiu como num dia de festa. Todo o jornal convergia para o crime. Mandou-se retirar uma grande parte da matéria, sair o lindo artigo da festejada colaboradora Pilar de Giralda, uma velha senhora das salas burguesas de Botafogo e Petrópolis, que dera em escrever, depois de avó, uns contos colegialmente eróticos ou uns artigos com pretensões a propagar a emancipação da mulher e o divórcio. Saiu também o folhetim do jovem Deodoro Ramalho, um discípulo de Veiga Filho, autor de uns contos pastosos, pejados de frases redondas, redondinhas, que escapavam quase diariamente pelas colunas d’O Globo, com a mole resistência da massa de tinta que sai de uma bisnaga.
O seu folhetim tinha sempre pretensão à graça, a coisa ligeira e leve, sem deixar de ser intelectual; além do folhetim semanal, escrevia também um conto aos domingos, histórias juvenis de namoros burgueses e casamentos de bacharéis e doutores. Era de uma fecundidade de parvo. Não havia tolice que lhe passasse pela cabeça, que não escrevesse. Mas tinha admiradores: sua noiva, os futuros sogros, alguns colegas de escola e meia dúzia de meninas da rua dos Voluntários.
O dr. Ricardo respeitava a sua literatura por sabê-lo com distinção em Matéria Médica, no que ele encontrava grande competência para o valor literário de suas produções. Demais, as suas relações, o rigor colegial da sua vida, os seus olhos azuis, tinham-lhe valido a respeitosa consideração de todos os repórteres, redatores e colaboradores.
Raul Gusmão, com aquela covardia moral que o caracterizava, logo que o soube tão relacionado nas Laranjeiras, com influência entre os colegas, falando familiarmente com deputados e senadores - gente influente para a glória e tudo o mais - começou a elogiá-lo pelo seu jornal. O Binóculo não cessava de acusar-lhe a passagem pela rua do Ouvidor: o doutor Deodoro Ramalho, o fino conteur de O Globo. E ele, por sua vez, ecoava no jornal de Loberant: "O nosso amigo Florêncio Silva, cujo temperamento tumultuário foi um belo espetáculo para a geração atual, acaba, etc., etc." E assim se foi fazendo uma celebridade, homem notável, admirado nos salões e houve (ele disse uma vez na redação) uma moça que o achou de qualquer modo parecido com o Pierre Weber, no estilo e na fisionomia. Ele perguntou então ao Floc quem era esse tal Weber.
- Oh! Não conheces?! É uma celebridade ultraparisiense, "parisianíssima"... Só lá pode haver destas... Nada de calhamaços, de coisas pantafaçudas e solenes; ligeirezas, garleseries, um quase tudo e um quase nada, como disse alguém... É dos cinco reis do espírito francês atual: ele, o Tristan Bernard, o Courteline, o Alphonse Allais... Nunca leste - Vous m’en direz tant - dele e do Tristan Bernard? - Nunca.
- Pois é preciso... Vocês levam-se voltados para o calhamaço, têm a mania livresca, e não conhecem a verdadeira literatura francesa... É o papá Flaubert e o vovô Hugo...
E, durante todo o seu curso, o jovem Deodoro Ramalho desovou contos, artigos, folhetins e tirou dezenas de distinções na Faculdade de Medicina. Na escola, as distinções vinham-lhe do seu prestígio de jornalista; no jornal, a sua superioridade partia das suas distinções na escola.
No dia do crime, porém, o diretor não poupou o seu folhetim engraçadíssimo. Ordenou que não saísse, pois queria página e meia sobre o crime; que se inventasse, que se dessem os menores pormenores, as suspeitas mais desarrozoadas; que se fizesse o histórico de Santa Cruz e da E. de Ferro Central do Brasil. Fosse com que fosse, ele queria página e meia e vinte e cinco mil exemplares para venda avulsa.
Dividido o serviço, cada um dos repórteres e redatores ficou encarregado de uma parte das muitas em que se dividiu a notícia do crime sensacional. A primeira página, a página sagrada dos conselhos sisudos do austero Aires d’Ávila, da alta literatura do Veiga Filho, do ciciar amoroso da velha Pilar, foi literalmente cheia com o histórico de Santa Cruz (coluna e meia), a "cabeça" de Caxias, os retratos de D. João VI, da rainha Dona Carlota, de D. Pedro I, de José Bonifácio, do Visconde de Cairu. Os cadáveres vinham descritos com muita minúcia e larga fantasia e não se esqueceram de informar também que junto a eles havia fragmentos de "grés", granito em decomposição, segundo a petrografia jornalística.
Os dicionários, os manuais, os indicadores de toda a sorte, andavam de mão em mão. A redação trabalhava sofregamente, quando veio interrompê-la o jovem doutor Franco de Andrade, grande prêmio da Faculdade da Bahia, literato, tenista e clínico ao mesmo tempo. Viera na comitiva de um ministro baiano e já possuía quatro empregos. Além de lente substituto, era médico do Hospício, legista da Polícia e subdiretor da Saúde Pública. Escrevera um volume de poesias místicas e espalhava nas aulas o mais vulgar materialismo. Era idealista em verso; em prosa, positivista. Com isso, era duro de umas maneiras delicadas, de uma amabilidade que cativava as redações em peso. Penetrou na sala sorridente, dizendo uma pilhéria a um, fazendo uma pergunta a outro. Alguém perguntou a sua valiosa opinião sobre o crime; o extraordinário sábio não se fez de rogado: - Penso que o exame médico-legal não se deve limitar a uma simples autópsia... Convinha que se fizesse mais amplo... A exemplo do que se procede na Índia, onde a confusão de raças é imensa e, portanto, a raça é um bom dado para identificar, seria bom que se fizessem mensurações antropológicas...
- Sem a cabeça, é possível doutor? perguntou Losque.
- Perfeitamente.
E o grande prêmio da Bahia, alternativamente Maeterlinck, Charcot e Legrand du Saule, uns ares doutorais como convinha, e continuou: - O professor Broca indicava trinta e quatro mensurações de primeira ordem; Topinard era de opinião que havia dezoito necessárias e quinze facultativas; mas Quetelet, na sua Anthropométrie, exige quarenta e duas.
A redação estava embasbacada. Todos deixaram de escrever para ouvir o sábio moço. O jovem medalhado passeou um instante pela sala o seu imenso olhar cheio de apetites e ambições, e emendou: - Dessas, muitas são tomadas nos membros e no tronco: o talhe, a bacia, o fêmur, etc., etc. Demais, ainda se têm outros dados auxiliares: a seção dos cabelos, o exame microscópico do pigmento... Um operador hábil pode com tais meios indicar perfeitamente a raça e a sub-raça do indivíduo...
No dia seguinte, o jornal desenvolvia os conselhos do jovem e notável dr. Franco de Andrade; e a medida era tão sábia que, no mesmo dia, o chefe de polícia escalava-o para fazer o serviço médico-legal, exigindo-lhe o estudo antropológico dos cadáveres.
Não lhe foi difícil fazê-lo. Vinte e quatro horas depois o laudo estava publicado e o O Globo desfazia-se em elogios ao notável trabalho científico do dr. Franco de Andrade, "um moço, desta nossa forte geração moderna, que sabe aliar o saber e a simplicidade." E como se o valente órgão tivesse falado no interior de uma abóbada, todos os outros jornais, neutros, governistas, oposicionistas, lhe repetiram as frases e os gabos ao talento do dr. Franco.
O crime ficou sendo a grande preocupação pública durante os sete dias que se seguiram. O laudo do doutor Franco concluía que o homem era mulato, muito adiantado é verdade, um quarterão, mas ainda com grandes sinais antropológicos da raça negra. As testemunhas, porém, entre elas o chefe e os condutores dos trens, não se lembravam de ter transportado nenhum par em tais condições. Só um dentista, político na localidade, depusera ter cruzado na estrada com um casal nas condições indicadas pelo laudo do dr. Franco. As indagações continuavam e o crime sacudia a cidade. A sua brutalidade e o seu mistério como que continham ameaças a todos: além do que estava envolvido numa atmosfera de amor, de amor proibido, embalsamada de luxo, de elegância e mocidade, que abalava e preocupava todas as imaginações.
Durante a semana o dr. Ricardo não se esqueceu um só dia de indagar como ia a venda. A tensão da opinião era grande e aumentava. Não se falava em outra coisa nas casas, nos bondes, nas repartições. Os jornais superexcitavam-na mais, inventando detalhes, fazendo suposições, indicando pistas. Adelermo não cessava de imaginar: foi o rei do jornal naqueles dias, com grande inveja de Floc.
- Oh! Como você tem imaginação! dizia ele com amargura.
Às vezes, fora de todo o propósito, fingia desdenhar a faculdade primordial de Adelermo, tachando-a de qualidade inferior. Não bastando este, veio também com a sua ênfase Veiga Filho, que ganhou algumas centenas de mil-réis...
Passaram oito dias e nada se adiantava. Um acaso permitiu a identificação dos assassinados. Um dono de hotel, tendo um dos seus quartos ocupados por um casal que não aparecia, desconfiou que tivesse sido ele o assassinado. Foi à polícia, as autoridades arrombaram as portas e as malas. Numa delas, encontraram uma carteira de identificação, passada pela polícia de Buenos Aires. Um sargento teve a idéia de confrontar a ficha dactiloscópica com a do cadáver do homem; e descobriu-se que o morto era o cidadão italiano Pascoal Martinelli, estabelecido com fábrica de massas na capital portenha, que partira para a Europa com a mulher, tencionando demorar-se uns dias no Rio de Janeiro. Um dia antes dessa elucidação, o dr. Franco de Andrade era nomeado diretor do serviço médico-legal da Polícia do Distrito Federal.
XI Durante todo esse tempo, residi em uma casa de cômodos na altura do Rio Comprido. Era longe, mas escolhera-a por ser barato o aluguel. Ficava a casa numa eminência, a cavaleiro da rua Malvino Reis e, atualmente, os dois andares do antigo palacete que ela fora, estavam divididos em duas ou três dezenas de quartos, onde moravam mais de cinqüenta pessoas.
O jardim, de que ainda restavam alguns gramados amarelecidos, servia de coradouro. Da chácara toda, só ficaram as altas árvores, testemunhas da grandeza passada e que davam, sem fadiga nem simpatia, sombra às lavadeiras, cocheiros e criados, como antes o fizeram aos ricaços que ali tinham habitado. Guardavam o portão duas esguias palmeiras que marcavam o ritmo do canto de saudades que a velha casa suspirava; e era de ver, pelo estio, a resignação de uma velha e nodosa mangueira, furiosamente atacada pela varia pequenada a disputar-lhe os grandes frutos, que alguns anos atrás bastavam de sobra para os antigos proprietários.
Houve noites em que como que ouvi aquelas paredes falarem, recordando o fausto sossegado que tinham presenciado, os cuidados que tinham merecido e os quadros e retratos veneráveis que tinham suportado por tantos anos. Lembrar-se-iam certamente dos lindos dias de festa, dos casamentos, dos aniversários, dos batizados, em que pares bem-postos dançavam entre elas os lanceiros e uma veloz valsa à francesa.
À noite, quando entravam aqueles cocheiros de grandes pés, aqueles carregadores suados, o soalho gemia, gemia particularmente, dolorosamente, angustiadamente... Que saudades não havia nesses gemidos dos breves pés das meninas quebradiças que o tinham palmilhado tanto tempo! A casa pertencera talvez a um oficial de marinha, um chefe de esquadra. Havia ainda no teto do salão principal um Netuno com todos os atributos. O salão estava dividido ao meio por um tabique; os cavalos-marinhos e uma parte da concha ficaram de um lado e o Deus do outro, com um pedaço do tridente, cercado de tritões e nereidas.
Num cômodo (em alguns) moravam às vezes famílias inteiras e eu tive ali ocasião de observar de que maneira forte a miséria prende solidamente os homens.
De longe, parece que toda essa gente pobre, que vemos por aí, vive separada, afastada pelas nacionalidades ou pela cor; no palacete, todos se misturavam e se confundiam. Talvez não se amassem, mas viviam juntos, trocando presentes, protegendo-se, prestando-se mútuos serviços. Bastava que surgisse uma desinteligência para que os tratamentos desprezíveis estalassem de parte a parte.
Certo, quando assistia a tais cenas, não ficava contente, mas também não sabia refletir por aquele tempo, que, seja entre que homens for, desde que surjam desinteligências, logo rompem os tratamentos desprezíveis mais à mão.
Vi aí, na casa do Rio Comprido, os mais disparatados casos; e, pela manhã, aos domingos, quando me debruçava à janela, olhava brincando no terreiro uma pequenada em que se misturava o sangue de muitas partes do mundo. Em nenhum deles havia o gárrulo e a inocência dos meninos ricos; quando não eram humildes e tristes, eram irritáveis. Facilmente surgia uma rixa entre eles e o choro passava do contendor vencido a ser geral entre todos, com os castigos infligidos pelas mães aos culpados e não-culpados.
Admirava-me que essa gente pudesse viver, lutando contra a fome, contra a moléstia e contra a civilização; que tivesse energia para viver cercada de tantos males, de tantas privações e dificuldades. Não sei que estranha tenacidade a leva a viver e por que essa tenacidade é tanto mais forte quanto mais humilde e miserável. Vivia na casa uma rapariga preta que suportava dias inteiros de fome, mal vivendo do que lhe dava uma miserável prostituição; entretanto à menor dor de dentes chorava, temendo que a morte estivesse próxima.
Quando refletia assim, era tarde e, da janela do meu quarto, eu via bem a cortina de montanhas desde Santa Teresa ao Andaraí. O sol descambara de todo e a garganta da Tijuca estava cheia de nuvens douradas. Um pedaço do céu era violeta, um outro azul e havia mesmo uma parte em que o matiz era puramente verde.
Olhei aquelas encostas cobertas de árvores, de florestas que quase desciam por elas abaixo até às ruas da cidade cortadas de bondes elétricos. Quantas flores já as cobriram - quantas formas já as não tinham pisado! Depois que a civilização viera, quantas vezes elas não tinham sido despovoadas, e perdido o seu tapete de verdura?! E pelos séculos, apesar dos cataclismos, das revoluções geológicas, da ação do homem, nem uma só vez aquela terra deixara de fazer surgir plenamente, com as ramagens das árvores e com as plumagens do passaredo, a energia vital que estava nas suas entranhas! A minha vida passava-se um pouco à parte naquele grande casarão. Cumprimentava a todos, mas pouco falava. Só a minha lavadeira mantinha relações comigo, e era por ela que eu sabia da vida daquele vasto cortiço.
Era uma velha mulata, já muito feia e de fisionomia desfeita. De gênio folgazão, e comunicativo, gostava de conversar, considerando com ceticismo especial as coisas da vida, as suas variações. - Já fora gente, dizia, hoje... - Assim é a vida, continuava, a noite vem depois do dia, isto para uns como eu. Para outros, é o contrário, o dia vem depois da noite. Não viu a Maria, exemplificava, em sua voz preguiçosa enquanto eu conferia a roupa. Não conheceu? Respondia-lhe que não; ela então explicava: aquela rapariga clara casada, que morava num quarto lá em baixo. Eu insistia que não, e a velha mulher retorquia - não vem ao caso - e continuava - O marido dera em beber, e em maltratá-la. Uma noite, voltando muito bêbado da rua, espancou-a. Foi para a Misericórdia e lá encontrou alguém, um doutor, não sei, que se enfeitiçou por ela... Hoje, menino, anda num estadão! Xi! É assim: para uns, a noite vem depois do dia, para outros é o contrário... E por fim acrescentava com desgosto; eu também tive homem por mim; mas não soube aproveitar... Quando ele morreu, as filhas quase me tiraram a roupa do corpo... Ah! Esta vida!... Estão certos, os colarinhos? Então calava-se e ficava olhando o chão, absorta em recordações e em saudades. Eu então indagava: - Não teve filhos, D. Felismina? - Tive dois: uma moça e um rapaz.
- Estão bem, não? - Um, o rapaz, morreu; e a moça...
- Está casada? - Não... Vive com um homem... Deu muitas cabeçadas... Não foi ela... O senhor sabe: nós, quando não temos ninguém, é isso...
E levantou-se, sacudindo a cabeça como querendo enxotar a mágoa que a queria invadir...
Levantara-me muito cedo naquela manhã para ir ao jornal. Não me competia o serviço diurno naquele dia; mas o redator português chegava às dez horas e eu recebera ordem para ir recebê-lo no cais. No jornal, o diretor é uma espécie de senhor feudal a quem todos prestam vassalagem e juramento de inteira dependência: são seus homens. As suas festas, são festas do feudo a que todos têm obrigação de se associar; os seus ódios são ódios de soberano, que devem ser compartilhados por todos os vassalos, vilões ou não. A recepção do redator português era uma festa sua e ele exigia esse aparato para que tivesse uma repercussão favorável na grande colônia portuguesa. Todos tinham que ir. E se bem que simples contínuo, o diretor exigia terminantemente a minha presença, para mostrar aos outros periódicos rivais que no seu não havia distinções vãs, "era uma tenda de trabalho onde mourejavam irmãos".
É outra mentira dos jornais que logo senti.
Não há repartição, casa de negócio em que a hierarquia seja mais ferozmente tirânica. O redator despreza o repórter; o repórter, o revisor; este por sua vez, o tipógrafo, o impressor, os caixeiros do balcão. A separação é a mais nítida possível e o sentimento de superioridade, de uns para os outros, é palpável, perfeitamente palpável. O diretor é um Deus inacessível, caprichoso, espécie de Tupã ou de Júpiter Tonante, cujo menor gesto faz todo o jornal tremer. Para ciência dos povos, porém, aquilo é "uma tenda de trabalho onde mourejam irmãos"; e por ser assim eu tive que me levantar cedo e pedir na véspera um par de punhos a dona Felismina. Ela entregou-mos, indagando: - Diga-me uma coisa "seu" Caminha: há aí uma lei que obriga todos a andarem calçados? - Há uma postura municipal.
- Mas é verdade isso mesmo? Pois então todos, todos? - Na rua, é. Por que se assusta? - Dizem que as folhas falam nisso e que até, contam aí, que quem tiver pé grande tem que sofrer uma operação para diminuir os pés, como os chinas... É verdade? - Qual! É balela! Quem lhe contou? Ao sair, ainda ouvi que, pelos corredores, se discutia o assunto com calor, girando sempre a conversa em torno daquela operação chinesa que o governo queria impor à população.
No escritório já encontrei Floc, perfeitamente escanhoado, a preparar a notícia da chegada do novo redator. Lia um período alto e ouvi que descrevia o estado do mar e a agitação das pequenas embarcações em torno do transatlântico. Nos jornais, os artigos impressionistas são sempre feitos antes das impressões.
Premeditou-se certa ocasião uma corrida de automóveis que foi mais tarde proibida pela polícia.
O filho de Aires d’Ávila, que fazia por esse tempo um curso manhoso de direito e escrevia no grande jornal umas sensaborias, compôs com antecedência uma descrição eloqüente da corrida. Veio a proibição; mas o artigo saiu, sob o pretexto de que tinha raros méritos literários! Floc escrevia nervosamente as impressões que ia sentir no desembarque. Estava de costas e, de quando em quando, rasgava uma ou duas das tiras escritas. Num dado momento, ergueu-se bruscamente, deixou escapar uma exclamação desesperada, amarrotou todo o papel que tinha escrito, e atirou-o com raiva à cesta. Depois de ter ido a janela, voltou a escrever com os mesmos trejeitos, com as mesmas mostras de desespero, que só desapareceu e se ocultou com a entrada do velho e esquálido gramático Lobo.
O caturra vinha também de mau humor. Não raro isso acontecia mas naquela manhã a tempestade interior parecia ser amedrontadora. Vestia de preto, como habitualmente: uma velha sobrecasaca curta, desusada, com as abas espapadas e grandes placas luzentes nas costas. Tinha um pescoço de ave a sair de uns colarinhos muito baixos que a gravata cobria inteiramente. Usava cabelo curto, óculos sem aros e possuía uma testa curta com uma grande e constante ruga horizontal. Tinha curiosas manias. Se estava de bom humor, traduzia de uma língua para outra os provérbios e os anexins que surgissem na conversa. Era bastante alguém dizer: "De grão em grão a galinha enche o papo", para ele retorquir da sua mesa, abandonando a revisão gramatical: - Em francês: "Petit à petit l’oiseau fait son nid", os ingleses, porém, dizem...
Naquela manhã não parecia disposto ao seu sport favorito. Entrou carrancudo, com a ruga mais acentuada, cumprimentou ligeiramente Floc, e, já sentado, perguntou-lhe, olhando-o por cima dos óculos: - Quem é este Sanches que escreveu este artigo sobre "Bancos emissores"? - Não sei bem, disse Floc. Creio que é um advogado aí.
- Que ignorante! Pois esta besta não escreveu - um dos que foram - isso se admite? Qual! Como é que saem batatas destas?! Estou desmoralizado... Todos sabem que tenho aqui a responsabilidade da língua... Que dirá o João Ribeiro? o Said Áli? o Fausto? E o Rui, que dirá? Naturalmente vão acusar-me de ignorante... Vou dizer ao Ricardo que preciso ver todos os originais, se não declarar publicamente que não tenho responsabilidade com a gramática do O Globo. Não é possível ser assim! Lobo gozava de uma grande ascendência sobre o ânimo do diretor. Emendava-lhe os artigos e fora imposto ao jornal por sua mulher, D. Inês, a quem o padre Bos, das Irmãs, recomendara como sábio. N’O Globo todos lhe temiam o mau humor, por sabê-lo influente e prestigiado, como sabichão em gramática, em geografia e em línguas. Loberant não escondia o seu respeito. Para ele, a mais alta expressão de cultura era falar inglês e Lobo sabia pedir água na língua do grande império.
A gramática do velho professor era de miopia exagerada.
Não admitia equivalências, variantes: era um código tirânico, uma espécie de colete de forças em que vestira as suas pobres idéias e queria vestir as dos outros. Há três ou cinco gramáticas portuguesas, porque há três ou cinco opiniões sobre uma mesma matéria. Lobo organizara uma série delas sobre as inúmeras dúvidas nas regras do nosso escrever e o nosso falar e ai de quem discrepasse no jornal! Era emendado da primeira vez, da segunda repreendido, da terceira podia ser até despedido, se ele estivesse de mau humor.
Nos seus bons dias, tinha a mansuetude e os modos convincentes de um professor de primeiras letras e recitava muitas vezes aos ouvidos do repórter recalcitrante todas as regras do Sotero sobre o emprego do infinito pessoal, chamando-o por filho, repetindo exemplo. Não admitia que se escrevesse "vieram lhe chamar", se alguém o fizesse em dias de mau humor, era certo ter de refazer de começo ao fim o seu trabalho.
Nem todos, porém, se sujeitavam à sua inspeção gramatical; Floc, Leporace e Caxias eximiam-se e Michaelowsky amedrontara-o com alguns berros e palavrões, quando o fiel gramático do jornal quis corrigir o seu original.
O russo entrava naquele momento na redação. O paquete chegava às onze horas e pouco faltava. Vendo-o entrar, Floc perguntou: - Não vais, Michaelowsky? - A quê? - Ao desembarque do nosso redator.
O russo não lhe respondeu logo. Sentou-se, encolheu a cabeça dentro do corpo como uma tartaruga, franziu a grande boca, depois retrucou: - Eu! Eu vou lá a esses espetáculos... Isso é um baixo "engrossamento"...
O diretor entrava e Michaelowsky não dissimulou a resposta. Loberant sempre autoritário com todos, era de uma delicadeza excepcional com o doutor pelo Cairo.
- Você é um esquisito, Michaelowsky - foi só o que ele observou.
E saímos. Éramos um bando à frente do qual marchava o dr. Ricardo, apressado, com as guias dos bigodes esfareladas ao vento e as abas da sobrecasaca cinzenta a baterem como asas de uma grande ave sultanina. Levava a bengala erguida e, com todos nós atrás, andando celeremente, parecia um delegado em diligência ou um chefe eleitoral que vai perturbar com capangas a eleição num colégio que lhe não é favorável.
Fazia um sol inclemente - sol de dezembro pela manhã. No cais já estavam a família do diretor, mulher e filhas pequenas, as filhas de Aires d’Ávila, cuja beleza tinha gabos especiais nas conversas dos cafés e confeitarias - a claque inteira do O Globo, o núcleo que gerava e transmitia pela cidade o talento de Ávila, as qualidades cívicas do doutor Ricardo e os dotes literários do jovem Julião Bandeira, que lá estava com sua noiva e o seu passo de valsista impenitente. Outros chegaram depois, Floc ficou entre as senhoras. As suas faces, os olhos, a testa breve e até os longos bigodes pretos adquiriram uma radiação especial; o próprio queixo aproximou-se do plano do peito e vim a conhecer outro Floc, simpático, interessante, todo ele cativante e natural.
Inútil é dizer que fiquei de longe, sozinho, como sempre fiquei nessas coisas e como parece ser meu destino ficar sempre. Dona Inês, a mulher do doutor Ricardo, entretanto, deu-me bom dia e fez um "como vais Isaías", bondoso e superior. Tinha-se na conta de ilustrada e nobre. Era o oráculo literário e intelectual do marido. Julgava-se ilustrada porque aprendera a recitar umas coisas das Irmãs de Botafogo e pintar flores; nobre, porque tinha um irmão deputado e o seu pai chicanara no interior do Brasil.