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Negrinho do Pastoreio

Esta História muitas pessoas dizem que aconteceu, a muito tempo atrás no Estado do Rio Grande do Sul, na época da escravidão , pois o Negrinho do Pastoreio era um escravo,vivia numa fazenda de um rico fazendeiro,na lenda só há relatos de algumas pessoas que moravam na fazenda e participam diretamente da vida do Negrinho Pastoreio,eram além do fazendeiro,o filho do dono da fazenda um garoto muito perverso que se divertia com malvadezas contra o Negrinho do Pastoreio,e um escravo de confiança.

Segundo a lenda , o Negrinho do Pastoreio não era muito querido pelos patrões, não tinha nome , razão pela qual foi sempre foi chamado assim,e não foi batizado sendo assim ele próprio atribui-lhe como Madrinha Nossa Senhora, que segundo afirmam costumava aparecer para ajudá-lo.

Segundo afirmam, o Negrinho do Pastoreio era um escravo de um rico fazendeiro, e o que tinha de riqueza tinha de maldade no coração,este fazendeiro não era de ter amigos, nem fazer amizades, um homem de poucos diálogos, que gostava mesmo é de provocar o mal para outras pessoas.

Devido a sua maldade a ajuda que era comum nas tarefas de lido do Campo não existia, e sobrava mais trabalho era para o Negrinho do Pastoreio,que além de trabalhar muito era pouco e mau alimentado.

Todas as madrugadas o Negrinho galopeava o Cavalo de corrida baio(cor castanho), depois conduzia os avios do chimarrão

Um dia, depois de muita discussão, o fazendeiro apostou uma corrida com um vizinho,que queria que o prêmio fosse para os pobres, más o fazendeiro não queria assim ,ele queria que o prêmio deviria ficar com o dono do cavalo que ganhasse. E resolveram correr uma distância de aproximadamente medida 60 braças ( 132 m), e o prêmio, mil onças de ouro (onças = Peso brasileiro antigo, equivalente à décima sexta parte do arrátel,ou seja, antiga unidade de peso equivalente a 16 onças, ou 459 gramas.)

No dia marcado na cancha(lugar em que se realizam corridas de cavalos)havia bastante gente.Entre os cavalos de corrida o povo não sabia se decidir, tão perfeito cada um dos animais, o cavalo baio(castanho) tinha fama de que quando corria, corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as patas baterem no chão. E do cavalo mouro

( cavalo escuro mesclado de branco) era que era bastante resistente.

As apostas começara a ser feitas.Os corredores fizeram suas demonstrações à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última, fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E preparando o corpo, de rebenque(pequeno chicote) no ar, largaram, os cavalos como de estivessem nomeando seus galopes .

- Empate! Empate! Gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a corrida veloz..

- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora ! gemia o Negrinho.

Se o sete-léguas perde, o meu senhor me mata .E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

- Se o corta-vento ganhar é só par os pobres ! Retrucava o outro corredor.

E cerrava as esporas no mouro.

Mas os corredores corriam, emparelhados. Quando foi os últimos metros, o mouro vinha correndo muito e o baio não ficava atrás mas sempre juntos, sempre emparelhados.

E perto da chegada o baio diminui o ritmo, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar, ganhando facilmente .E o Negrinho ficou abismado.

- Foi uma corrida ruim! Gritava o fazendeiro.

- Mau jogo! Secundavam os outros de sua parceria.

O povo estava dividido no julgamento da carida,mas o juiz que era um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo.

- Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu que pague. E u perdi sem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei !.Não havia o que alegar. Despeitado e furioso, o fazendeiro pagou a parada, à vista de todos, atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão.E foi uma alegria por aqueles pagamentos, porque logo o ganhador mandou distribuir aos pobres.

O fazendeiro retirou-se para sua casa e veio pensando, pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa, mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se, da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho.Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

- Trinta quadras tinha a cancha da carreira que perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropelia de trinta tornilhos negros... O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar, enquanto os cavalos iam pastando.

Veio o sol, veio o vento, veio a chuva, veio a noite. O Negrinho, varado de fome e já sem forças nas mãos, enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim.

Vieram então as corujas e fizeram a roda, voando, paradas no ar, e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram, como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas.

O Negrinho tremia, de medo...porém de repente pensou em sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite, iam passando as estrelas; o cruzeiro apareceu, subiu e passou; passaram as Três-Marias; a estrela d’alva subiu... Então vieram os guaraxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele, escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O Escravo acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio.

Os galos estavam cantando, mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou.

O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam.

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido. Rengueando, chorando e gemendo, o Negrinho pensou em sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo.

Por coxilhas e canhadas, nas beira dos lagoões, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz, e já eram tantas que clareava tudo. O gado ficou deitado, os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando, como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e seguiu por diante a tropilha, até a coxilha que o senhor lhe marcara

E assim o Negrinho achou o pastoreio e se riu ...

Gemendo, gemendo, o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante apagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu. E não apareceram nem as corujas agoureiras nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora, retouçando e desguaritando-se nas canhadas.

O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou...

O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe então até ele não mais chorar nem bulir, com as carnes recortadas, o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o fazendeiro mandou atirar o corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos... E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo, é que então ele se foi embora, sem olhar para trás.

Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos, mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro... e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno.Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto.

E três dias houve cerração forte, e três noite o estancieiro teve o mesmo sonho.

A peonada bateu o campo, porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro, para ver o que restava do corpo do escravo.

Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé, com a pele lisa, perfeita, sacudindo de si e as formigas que o cobriam ainda!...O Negrinho de pé, e ali ao lado, o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não atêm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu, o senhor caiu de joelhos diante do escravo.

E o Negrinho sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope.

E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio.

E não chorou, e nem se riu.

Correu no vizindário a nova do fadário e da triste morte do Negrinho, devorado na panela do formigueiro.

Porém logo, de perto e de longe, de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo...

E era, que os posteiros e os andantes, e os que dormiam sobre as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pela estrada, mascates e carreteiros, todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passar, como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de me pêlo, em um cavalo baio!...

Então, muitos acenderam velas e rezaram um Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante, quando qualquer cristão perdia uma cousa, o que fosse, pela noite velha o Negrinho campeava e achava, mas só entregava a quem acendesse uma vela, cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha, a Virgem, Nossa Senhora, que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver.

Todos os anos, durante três dias, o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande, fazendo visita as formigas, suas amigas; a sua tropilha esparrama-se; e um aqui, outro por lá, os seus cavalos retouçam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia, o baio relincha perto de seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha, olha, e não vê ninguém, nem na ponta, nem na culatra.

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho, cruza os campos, corta os macegais, bandeia as restingas, desponta os banhados, vara os arroios, sobe as coxilhas e desce às canhadas.

O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, podo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendem um coto de vela, cuja luz ele leva ao altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm.

Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo - Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi...Foi por aí que eu perdi !

Fonte: www.brasilfolclore.hpg.ig.com.br

Lenda Negrinho do Pastoreio

Chegando o grande dia, todos os habitantes da cidade, vestindo suas roupas domingueiras, se alojaram na cancha da carreira. Palpites discutidos, apostas feitas, inicia-se a corrida.

Lenda Negrinho do Pastoreio

Os dois cavalos saem emparelhados. Negrinho começa a suar frio. pois sabe o que lhe espera se não ganhar. Mas, aos poucos toma a dianteira e quase não há dúvida de que seria vencedor. Mas, eis que o inesperado acontece, algo assusta o cavalo, que para, empina e quase derruba Negrinho. Foi tempo suficiente para que seu adversário o ultrapasse e ganhe a corrida.

E agora? O outro cavalo venceu. Negrinho tremia feito "vara verde" ao ver a expressão de ódio nos olhos de seu patrão. Mas o fazendeiro, sem saída, deve cobrir as apostas e põe a mão no lugar que lhe mais caro: o bolso.

Ao retornarem à fazenda, o Negrinho tem pressa para chegar a estrebaria.

- Aonde pensa que vai? pergunta-lhe o patrão.

- Guardar o cavalo sinhô! Balbuciou bem baixinho.

- Nada feito! Você deverá passar trinta dias e trinta noites com ele no pasto e cuidará também de mais 30 cavalos. Será seu castigo pelo meu prejuízo. Mas, ainda tem mais, passe aqui que vou lhe aplicar o devido corretivo.

O homem apanhou seu chicote e foi em direção ao menino:

- Trinta quadras tinha a cancha da corrida, trinta chibatadas vais levar no lombo e depois trata de pastorear a minha tropilha.

Lenda Negrinho do Pastoreio

Lá vai o pequeno escravo, doído até a alma levando o baio e os outros cavalos à caminho do pastoreio. Passou dia, passou noite, choveu, ventou e o sol torrou-lhe as feridas do corpo e do coração. Nem tinha mais lágrima para chorar e então resolveu rezar para a Nossa Senhora, pois como não lhe foi dado nome, dizia-se afilhado da Virgem. E, foi a "santa solução", pois Negrinho aquietou-se e então cansado de carregar sua cruz tão pesada, adormeceu.

As estrelas subiram aos céus e a lua já tinha andado metade de seu caminho, quando algumas corujas curiosas resolveram chegar mais perto, pairando no ar para observar o menino. O farfalhar de suas asas assustou o baio, que soltou-se e fugiu, sendo acompanhado pelos outros cavalos. Negrinho acordou assustado, mas não podia fazer mais nada, pois ainda era noite e a cerração como um lençol branco cobria tudo. E, assim, o negrinho-escravo sentou-se e chorou...

O filho do fazendeiro, que andava pelas bandas, presenciou tudo e apressou-se em contar a novidade ao seu pai. O homem mandou dois escravos buscá-lo.

O menino até tentou explicar o acontecido para o seu senhor, mas de nada adiantou. Foi amarrado no tronco e novamente é açoitado pelo patrão, que depois ordenou que ele fosse buscar os cavalos. Ai dele que não os encontrasse!

Assim, Negrinho teve que retornar ao local do pastoreio e para ficar mais fácil sua procura, acendeu um toco de vela. A cada pingo dela, deitado sobre o chão, uma luz brilhante nascia em seu lugar, até que todo lugar ficou tão claro quanto o dia e lhe foi permitido, desta forma, achar a tropilha. Amarrou o baio e gemendo de dor, jogou-se ao solo desfalecido.

Lenda Negrinho do Pastoreio

Danado como ele só e, não satisfeito com já fizera ao escravo, o filho do fazendeiro, aproveitou a oportunidade de praticar mais uma maldade dispersa os cavalos. Feito isso, correu novamente até seu pai e contou-lhe que Negrinho havia encontrado os cavalos e os deixara fugir de propósito. A história se repete e dois escravos vão buscá-lo, só que desta vez seu patrão está decidido em dar cabo dele. Amarrou-o pelos pulsos e surrou-o como nunca. O chicote subia e descia, dilacerando a carne e picoteando-a como guisado. Negrinho não agüentou tanta dor e desmaiou. Achando que o havia matado, seu senhor não sabia que destino dar ao corpo. Enterrá-lo lhe daria muito trabalho e avistando um enorme formigueiro jogou-o lá. As formigas acabariam com ele em pouco tempo, pensou.

No dia seguinte, o cruel fazendeiro, curioso para ver de que jeito estaria o corpo do menino, dirigiu-se até o formigueiro. Qual sua surpresa, quando o viu em pé, sorrindo e rodeado pelos cavalos e o baio perdido. O Negrinho montou-o e partiu a galope, acompanhado pelos trinta cavalos.

O milagre tomou o rumo dos ventos e alcançou o povoado que alegrou-se com a notícia. Desde aquele dia, muitos foram os relatos de quem viu o Negrinho passeando pelos pampas, montado em seu baio e sumindo em seguida por entre nuvens douradas. Ele anda sempre a procura das coisas perdidas e quem necessitar de seu ajutório, é só acender uma vela entre as ramas de uma árvore e dizer:

Foi aqui que eu perdi

Mas Negrinho vai me ajudar

Se ele não achar

Ninguém mais conseguirá!

Esta é a mais linda e popular lenda fraternal gaúcha. Ela representa um grito de repúdio aos maus-tratos com o ser humano. Reflete a consciência de um povo (gaúchos) que deliberadamente condenou a agressão e a brutalidade da escravidão. É uma lenda sem dono, sem cara, sem raça é a lenda de todos nós, que lutamos dia-a-dia nesta terra de excluídos.

O Negrinho do Pastoreio é a formatação de um arquétipo do inconsciente coletivo e podemos vê-lo como uma manifestação de uma consciência coletiva repleta de ideologias que são transmitidas pela cultura e linguagem que nós utilizamos quando estamos sujeitos a algo.

A escravidão ainda persiste, embora incógnita e camuflada, mostra sua terrível face nas sub-habitações circunvizinhas às metrópoles. Esta questão social, tem a cada dia afastado a classe média de uma consciência do real problema e que por medo ou omissão, mantêm-se afastada e enclausurada em suas fortalezas gradeadas.

A lenda do Negrinho do Pastoreio possui versões no Uruguai e na Argentina, lugares onde praticamente a escravidão inexistiu, portanto, aqui configura-se uma verdadeira "exportação" da lenda gaúcha. A sua versão mais antiga é a de propriedade de Apolinário Porto Alegre, "O Crioulo do Pastoreio" de 1875, quando ainda existia a escravidão no país. João Simões Lopes Neto, publicou em 1913 as "Lendas do Sul", onde concretizou algumas alterações, introduzindo o baio, as corujas e a Nossa Senhora.

No Rio Grande do Sul, o Negrinho é símbolo da Caixa Econômica Estadual. É encontrada outra homenagem à ele na sede do Governo do Estado, no Salão Nobre que leva o seu nome. Lá encontramos afrescos do famoso pintor Aldo Locatelli que reconta sua história na versão de Lopes Neto.

Inúmeros poetas e trovadores, já cantaram e escreveram sobre esta lenda, sendo que o mais famoso dos poemas pertence à Barbosa Lessa (abaixo)

Negrinho do Pastoreio

l. c. Barbosa Lessa

"Negrinho do Pastoreio Acendo essa vela pra ti E peço que me devolvas A querência que eu perdi

Negrinho do Pastoreio Traz a mim o meu rincão Eu te acendo essa velinha Nela está o meu coração

Quero rever o meu pago Coloreado de pitanga Quero ver a gauchinha A brincar na água da sanga

E a trotear pelas coxilhas Respirando a liberdade Que eu perdi naquele dia Que me embretei na cidade".

Fonte: www.rosanevolpatto.trd.br

Lenda do Negrinho do Pastoreio

Esta História muitas pessoas dizem que aconteceu, a muito tempo atrás no Estado do Rio Grande do Sul, na época da escravidão, pois o Negrinho do Pastoreio era um escravo, vivia numa fazenda de um rico fazendeiro , na lenda só há relatos de algumas pessoas que moravam na fazenda e participam diretamente da vida do Negrinho Pastoreio , eram além do fazendeiro , o filho do dono da fazenda um garoto muito perverso que se divertia com malvadeza contra o Negrinho do Pastoreio, e um escravo de confiança.

Segundo a lenda , o Negrinho do Pastoreio não era muito querido pelos patrões , não tinha nome , razão pela qual foi sempre foi chamado assim, e não foi batizado sendo assim ele próprio atribui-lhe como Madrinha Nossa Senhora, que segundo afirmam costumava aparecer para ajudá-lo.

Segundo afirmam , o Negrinho do Pastoreio era um escravo de um rico fazendeiro , e o que tinha de riqueza tinha de maldade no coração, este fazendeiro não era de ter amigos, nem fazer amizades, um homem de poucos diálogos , que gostava mesmo é de provocar o mal para outras pessoas.

Devido a sua maldade a ajuda que era comum nas tarefas de lido do Campo não existia , e sobrava mais trabalho era para o Negrinho do Pastoreio, que além de trabalhar muito era mau alimentado.

Todas as madrugadas o Negrinho galopava o Cavalo de corrida baio (cor castanho), depois conduzia os avios do chimarrão.Um dia, depois de muita discussão , o fazendeiro apostou uma corrida com um vizinho, que queria que o prêmio fosse para os pobres, más o fazendeiro não queria assim, ele queria que o prêmio deviria ficar com o dono do cavalo que ganhasse.

E resolveram correr uma distância de aproximadamente medida 60 braças ( 132 m), e o prêmio, mil onças de ouro (16 onças = 459 gramas.)

No dia marcado na cancha (lugar em que se realizam corridas de cavalos) havia bastante gente. Entre os cavalos de corrida o povo não sabia se decidir , tão perfeito cada um dos animais, o cavalo baio, tinha fama de que quando corria , corria tanto, que o vento assobiava-lhe nas crinas; tanto que só se ouvia o barulho, mas não se lhe viam as patas baterem no chão. E do cavalo mouro (cavalo escuro mesclado de branco) era que era bastante resistente. As apostas começara a ser feitas. Os corredores fizeram suas demonstrações à vontade e depois as obrigadas; e quando foi na última , fizeram ambos a sua senha e se convidaram. E preparando o corpo, de rebenque (pequeno chicote) no ar, largaram, os cavalos como de estivessem nomeando seus galopes .

- Empate ! Empate ! Gritavam os aficionados ao longo da cancha por onde passava a corrida veloz..

- Valha-me a Virgem madrinha, Nossa Senhora ! gemia o Negrinho.

Se o sete-léguas perde , o meu senhor me mata .E baixava o rebenque, cobrindo a marca do baio.

- Se o corta-vento ganhar é só par os pobres ! Retrucava o outro corredor. E cerrava as esporas no mouro.

Mas os corredores corriam, emparelhados. Quando foi os últimos metros, o mouro vinha correndo muito e o baio não ficava atrás mas sempre juntos, sempre emparelhados. E perto da chegada o baio diminui o ritmo, de modo que deu ao mouro tempo mais que preciso para passar , ganhando facilmente. E o Negrinho ficou abismado.

- Foi uma corrida ruim! Gritava o fazendeiro.

- Mau jogo! Secundavam os outros de sua parceria.

O povo estava dividido no julgamento da corrida, mas o juiz que era um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo.

- Foi na lei! A carreira é de parada morta; perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro. Quem perdeu que pague. E u perdi sem gateadas; quem as ganhou venha buscá-las. Foi na lei ! .Não havia o que alegar. Despeitado e furioso , o fazendeiro pagou a parada , à vista de todos , atirando as mil onças de ouro sobre o poncho do seu contrário, estendido no chão. E foi uma alegria por aqueles pagamentos , porque logo o ganhador mandou distribuir aos pobres.

O fazendeiro retirou-se para sua casa e veio pensando , pensando, calado, em todo o caminho. A cara dele vinha lisa , mas o coração vinha corcoveando como touro de banhado laçado a meia espalda... O trompaço das mil onças tinha-lhe arrebentado a alma.

E conforme apeou-se , da mesma vereda mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho. Na madrugada saiu com ele e quando chegou no alto da coxilha falou assim:

- Trinta quadras tinha a cancha da carreira que perdeste: trinta dias ficarás aqui pastoreando a minha tropelia de trinta tornilhos negros...

O baio fica de piquete na soga e tu ficarás de estaca!

O Negrinho começou a chorar , enquanto os cavalos iam pastando. Veio o sol , veio o vento , veio a chuva , veio a noite. O Negrinho , varado de fome e já sem forças nas mãos , enleou a soga num pulso e deitou-se encostado a um cupim. Vieram então as corujas e fizeram a roda, voando, paradas no ar , e todas olhavam-no com os olhos reluzentes, amarelos na escuridão. E uma piou e todas piaram , como rindo-se dele, paradas no ar, sem barulho nas asas. O Negrinho tremia , de medo... porém de repente pensou em sua madrinha Nossa Senhora e sossegou e dormiu.

E dormiu. Era já tarde da noite , iam passando as estrelas; o cruzeiro apareceu , subiu e passou ; passaram as Três-Marias ; a estrela d'alva subiu... Então vieram os graxains ladrões e farejaram o Negrinho e cortaram a guasca da soga. O baio sentindo-se solto rufou a galope, e toda a tropilha com ele , escaramuçando no escuro e desguaritando-se nas canhadas.

O Escravo acordou o Negrinho; os guaraxains fugiram, dando berros de escárnio. Os galos estavam cantando , mas nem o céu nem as barras do dia se enxergava: era a cerração que tapava tudo.

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou. O menino maleva foi lá e veio dizer ao pai que os cavalos não estavam. O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho.

E quando era já noite fechada ordenou-lhe que fosse campear o perdido.

Rengueando , chorando e gemendo, o Negrinho pensou em sua madrinha Nossa Senhora e foi ao oratório da casa , tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo. Por coxilhas e canhadas, nas beira dos lagoões , nos paradeiros e nas restingas , por onde o Negrinho ia passando , a vela benta ia pingando cera no chão: e de cada pingo nascia uma nova luz , e já eram tantas que clareava tudo. O gado ficou deitado , os touros não escarvaram a terra e as manadas xucras não dispararam... Quando os galos estavam cantando , como na véspera, os cavalos relincharam todos juntos. O Negrinho montou no baio e seguiu por diante a tropilha, até a coxilha que o senhor lhe marcara

E assim o Negrinho achou o pastoreio e se riu ... Gemendo , gemendo , o Negrinho deitou-se encostado ao cupim e no mesmo instante a pagaram-se as luzes todas; e sonhando com a Virgem, sua madrinha, o Negrinho dormiu.

E não apareceram nem as matitaspereira nem os guaraxains ladrões; porém pior do que os bichos maus, ao clarear o dia veio o menino, filho do estancieiro e enxotou os cavalos, que se dispersaram, disparando campo afora , retouçando e desguaritando-se nas canhadas. O tropel acordou o Negrinho e o menino maleva foi dizer ao seu pai que os cavalos não estavam lá...

E assim o Negrinho perdeu o pastoreio. E chorou... O estancieiro mandou outra vez amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe uma surra de relho... dar-lhe então até ele não mais chorar nem bulir , com as carnes recortadas , o sangue vivo escorrendo do corpo... O Negrinho chamou pela Virgem sua madrinha e Senhora Nossa, deu um suspiro triste, que chorou no ar como uma música, e pareceu que morreu...

E como já era de noite e para não gastar a enxada em fazer uma cova, o fazendeiro mandou atiraro corpo do Negrinho na panela de um formigueiro, que era para as formigas devorarem-lhe a carne e o sangue e os ossos...

E assanhou bem as formigas; e quando elas, raivosas, cobriram todo o corpo do Negrinho e começaram a trincá-lo , é que então ele se foi embora , sem olhar para trás. Nessa noite o estancieiro sonhou que ele era ele mesmo mil vezes e que tinha mil filhos e mil negrinhos , mil cavalos baios e mil vezes mil onças de ouro... e que tudo isto cabia folgado dentro de um formigueiro pequeno. Caiu a serenada silenciosa e molhou os pastos, as asas dos pássaros e casca das frutas.

Passou a noite de Deus e veio a manhã e o sol encoberto. E três dias houve cerração forte , e três noite o estancieiro teve o mesmo sonho. A peonada bateu o campo , porém, ninguém achou a tropilha e nem rastro.

Então o senhor foi ao formigueiro , para ver o que restava do corpo do escravo. Qual não foi o seu grande espanto, quando chegado perto viu na boca do formigueiro o Negrinho de pé , com a pele lisa , perfeita, sacudindo de si e as formigas que o cobriam ainda!... O Negrinho de pé, e ali ao lado , o cavalo baio e ali junto, a tropilha dos trinta tordilhos... e fazendo-lhe frente, de guarda ao mesquinho, o estancieiro viu a madrinha dos que não atêm, viu a Virgem, Nossa Senhora, tão serena, pousada na terra, mas mostrando que estava no céu... Quando tal viu , o senhor caiu de joelhos diante do escravo. E o Negrinho sarado e risonho, pulando de em pêlo e sem rédeas, no baio, chupou o beiço e tocou a tropilha a galope. E assim o Negrinho pela última vez achou o pastoreio.

E não chorou, e nem se riu. Correu no vizindário a nova do fadário e da triste morte do Negrinho , devorado na panela do formigueiro. Porém logo, de perto e de longe , de todos os rumos do vento, começaram a vir notícias de um caso que parecia um milagre novo... E era, que os posteiros e os andantes, e os que dormiam sobre as palhas dos ranchos e os que dormiam na cama das macegas, os chasques que cortavam por atalhos e os tropeiros que vinham pela estrada , mascates e carreteiros , todos davam notícia - da mesma hora - de ter visto passar , como levada em pastoreio, uma tropilha de tordilhos, tocada por um Negrinho, gineteando de me pêlo, em um cavalo baio!...

Então , muitos acenderam velas e rezaram um Padre-nosso pela alma do judiado. Daí por diante , quando qualquer cristão perdia uma cousa , o que fosse , pela noite velha o Negrinho campeava e achava , mas só entregava a quem acendesse uma vela , cuja luz ele levava para pagar a do altar da sua madrinha , a Virgem , Nossa Senhora , que o remiu e salvou e deu-lhe uma tropilha, que ele conduz e pastoreia, sem ninguém ver. Todos os anos , durante três dias , o Negrinho desaparece: está metido em algum formigueiro grande , fazendo visita as formigas , suas amigas; a sua tropilha esparrama-se ; e um aqui , outro por lá , os seus cavalos retoucam nas manadas das estâncias. Mas ao nascer do sol do terceiro dia , o baio relincha perto de seu ginete; o Negrinho monta-o e vai fazer sua recolhida; é quando nas estâncias acontece a disparada das cavalhadas e a gente olha , olha , e não vê ninguém , nem na ponta, nem na culatra.

Desde então e ainda hoje, conduzindo o seu pastoreio, o Negrinho, sarado e risonho , cruza os campos , corta os macegais , bandeia as restingas, desponta os banhados , vara os arroios , sobe as coxilhas e desce às canhadas. O Negrinho anda sempre à procura dos objetos perdidos, podo-os de jeito a serem achados pelos seus donos, quando estes acendemum coto de vela , cuja luz ele leva ao altar da Virgem Senhora Nossa, madrinha dos que não a têm. Quem perder suas prendas no campo, guarde esperança: junto de algum moirão ou sob os ramos das árvores, acenda uma vela para o Negrinho do pastoreio e vá lhe dizendo.

- Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi... Foi por aí que eu perdi !

Fonte: www.ufsc.br

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