Uma vez um vaqueiro por nome de Pedro se empregou num convento
de irmãos. De tanto lidar com os frades, Pedro foi ficando muito amigo
deles.
De todos os irmãos, Pedro gostava mais era de frei Damião, o mais
sábio de quantos sábios havia no convento.
Frei Damião sabia da chuva e sabia do sol.
Sabia das colheitas e das semeaduras.
Sabia de histórias de reis e de rainhas, de cavaleiros e damas, de castelos
e de dragões. Frei Damião sabia de tudo!
A fama do frade acabou chegando no palácio do rei.
E o rei ficou curioso para conhecer frei Damião.
E mandou chamá-lo, porque queria lhe fazer três perguntas.
Os reis, antigamente, parece que não tinham nada para fazer.
Então eles gostavam muito dessas histórias de fazer perguntas
pra ver se as pessoas sabiam as respostas. Perguntavam umas perguntas muito
sem jeito, que ninguém entendia direito. E se as pobres vítimas
não sabiam responder, tome castigo!
Frei Damião foi se preparando para ir falar com
o rei.
Mas Pedro estava com muito medo:
- Frei Damião – ele disse – o senhor não devia de
ir, não. Eu sou um roceiro, muito do ignorante, mas eu conheço
esses reis. Eles querem perguntar umas bobagens pro senhor. E se o senhor não
responder do jeitinho que eles gostam, o senhor está perdido!
- Que é isso, meu filho? – o frei espantou-se. - Eu só posso
responder ao rei as coisas que eu sei. E quem diz a verdade não merece
castigo! Todo mundo sabe!
- Todo mundo, menos o rei! Essa gente poderosa não quer ouvir a verdade,
não! O que eles querem é uma mentirinha bonitinha, engraçadinha,
que agrade a eles. Sabe de uma coisa, frei? Eu é que vou no seu lugar!
O rei não conhece o senhor. Ninguém na corte conhece o senhor.
Eu me disfarço de frade e vou. Garanto que vou saber as respostas que
o rei quer.
Frei Damião não permitiu de jeito nenhum que Pedro fosse. Mas, de madrugada, Pedro saiu bem de mansinho, sem que ninguém visse, e foi para a corte vestido de frade.
O rei recebeu Pedro muito bem e nem desconfiou de nada:
- Muito bem, frei Damião, está pronto para responder às
minhas perguntas?
Pedro fez que sim com a cabeça.
Então o rei começou:
- Está vendo aquele morro, detrás do meu palácio?
Pedro olhou pela janela e viu.
- Pois me diga, meu bom frade, quantos cestos são precisos para carregar
toda aquela terra para o outro lado do palácio?
Pedro fingiu que estava pensando, mas por dentro ele estava era rindo:
- Depende, Majestade!
- Depende de quê, frei Damião?
- Pois depende do tamanho do cesto, Majestade. Se o cesto for do tamanho do
morro, basta um. Se for a metade do morro, é preciso dois.
O rei ficou embasbacado. Nunca ninguém tinha conseguido responder àquela
pergunta. Mas ele não podia responder que estava errado. Então
pensou, e tornou a perguntar:
- Pois me diga lá, meu bom irmão, onde é que fica o centro
do universo?
Pedro sabia muito bem que ninguém tinha idéia de que tamanho era
o universo, quanto mais onde era o centro...
Mas ele sabia, também, que os reis são muito convencidos e acham
que são a coisa mais importante do mundo.
Então Pedro, muito sem-vergonha, respondeu:
- Ora, meu rei, essa pergunta é fácil! Todo mundo sabe que o centro
do universo é onde está sua Majestade...
O rei ficou todo prosa pela resposta de Pedro e começou a achar que aquele
fradinho era muito sabido, mesmo. E ele veio com a pergunta mais difícil
de todas:
- Vamos lá, me responda, frei Damião, o que é que eu estou
pensando?
No que o rei perguntou, Pedro coçou a cabeça, olhou de lado pro
rei e mandou:
- Vossa Majestade está pensando que eu sou o frei Damião, mas
sou é o vaqueiro dele.
Foi uma risada só. Todos na corte acharam tanta
graça que o rei não teve outro remédio senão rir
também.
E deu a Pedro uma porção de presentes e mandou que ele fosse em
paz.
Quando Pedro chegou ao convento, encontrou todo mundo muito
preocupado.
Frei Damião já estava se preparando para ir atrás dele.
- Que é que houve, homem? Eu já estava ficando assustado com a
sua demora.
Pedro sorriu, passou a mão na sua violinha e começou a cantar:
“Quem possui muito poder
Abusa de toda gente.
Por isso, a gente que é fraco,
Tem de ser inteligente...
Não adianta ter razão,
Não adianta estar certo.
Pra vencer certas pessoas
É preciso ser esperto!”