A noite viu a criança que subia a escada cheia de risos e de sombras
E pousou como um pássaro ferido sobre as árvores que choravam.
A criança era o príncipe-poeta que a música ardente fizera
subir à última torre
E a noite era a camponesa que amava o príncipe e o adormecia no seu
canto.
Quando a criança chegou ao ponto mais alto viu que a música
era o riso embriagado
E que o riso embriagado era das estátuas mortas que tinham no ventre
aberto entranhas murchas.
A criança lembrou-se da noite cheia de entranhas e cujo riso era a
poesia eterna
E a angústia cresceu no seu coração como o mar alto nos
penhascos.
O olhar cego das estátuas levou o herdeiro do reino ao fosso negro
- ó príncipe, onde estás? - a voz dizia
E a água subia, nos braços, no peito, na boca, nos olhos do
amado da noite.
Depois saiu do fosso um homem que era o poeta-amaldiçoado
E que possuiu a noite chorando, adormecida.
A noite que nada viu continua chamando o príncipe-poeta
Enquanto o poeta-amaldiçoado chora nos braços das estátuas
mortas...
Rio de Janeiro, 1935
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