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Balada Feroz

Vinícius de Moraes

Canta uma esperança desatinada para que enfureçam silenciosamente
os cadáveres dos afogados
Canta para que grasne sarcasticamente o corvo que tens pousado [sobre tua omoplata
atlética
Canta como um louco enquanto teus pés vão penetrando a massa sequiosa de lesmas
Canta! para esse formoso pássaro azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu êxtase.

Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a sobre o corpo felpudo [das aranhas
Ri dos touros selvagens carregando nos chifres virgens nuas para o [estupro nas montanhas
Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos histéricos, dos masturbados e [dança!
Dança para a lua que está escorrendo lentamente pelo ventre das [menstruadas.

Lança teu poema inocente sobre o rio venéreo engolindo as cidades
Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à visão dos amores [miseráveis
Deita a tua alma sobre a podridão das latrinas e das fossas
Por onde passou a miséria da condição dos escravos e dos gênios.

Dança, ó desvairado! Dança pelos campos aos rinchos dolorosos das [éguas parindo
Mergulha a algidez deste lago onde os nenúfares apodrecem
e onde a água floresce em miasmas
Fende o fundo viscoso e espreme com tuas fortes mãos a carne flácida [das medusas
E com teu sorriso inexcedível surge como um deus amarelo da imunda [pomada.

Amarra-te aos pés das garças e solta-as para que te levem
E quando a decomposição dos campos de guerra te ferir as narinas, [lança-te sobre a cidade
mortuária
Cava a terra por entre as tumefações e se encontrares um velho [canhão soterrado, volta
E vem atirar sobre as borboletas cintilando cores que comem as fezes [verdes das estradas.

Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro por entre os raios [do sol frenético
Faz rugir com o teu calão o eco dos vales e das montanhas
Mija sobre o lugar dos mendigos nas escadarias sórdidas dos templos
E escarra sobre todos os que se proclamarem miseráveis.

Canta! canta demais! Nada há como o amor para matar a vida
Amor que é bem o amor da inocência primeira!
Canta! — o coração da donzela ficará queimando eternamente a cinza [morta
Para o horror dos monges, dos cortesãos, das prostitutas e dos [pederastas.

Transforma-te por um segundo num mosquito gigante e passeias de [noite
sobre as grandes cidades
Espalhando o terror por onde quer que pousem tuas antenas [impalpáveis.
Suga aos cínicos o cinismo, aos covardes o medo, aos avaros o ouro
E para que apodreçam como porcos, injeta-os de pureza!

E com todo esse pus, faz um poema puro
E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida
E ri e canta dos que pasmados o abrigarem
E dos que por medo dele te derem em troca a mulher e o pão.


Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta
E dança, porque dançar é o destino da pureza
Faz para os cemitérios e para os lares o teu grande gesto obsceno
Carne morta ou carne viva — toma! Agora falo eu que sou um!

Fonte: www.secrel.com.br

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