Na praia sangrenta a gelatina verde das algas - horizontes!
Os olhos do afogado à tona e o sexo no fundo (a contemplação
na desagregação da forma... )
O mar... A música que sobe ao espírito, a poesia do mar, a cantata
soturna dos três movimentos
O mar! (Não a superfície calma, mas o abismo povoado de peixes
fantásticos e sábios... )
É o navio grego, é o navio grego desaparecido nas floras submarinas
- Deus balança por um fio invisível a ossada do timoneiro sob
o grande mastro
São as medusas, são as medusas dançando a dança
erótica dos mucos vermelhos se abrindo ao beijo das águas
É a carne que o amor não mais ilumina, é o rito que o
fervor não mais acende
É o amor um molusco gigantesco vagando pela revelação
das luzes árticas.
O que se encontrará no abismo mesmo de sabedoria e de compreensão
infinita
Ó pobre narciso nu que te deixaste ficar sobre a certeza de tua plenitude?
Nos peixes que da própria substância acendem o espesso líquido
que vão atravessando
Terás conhecido a verdadeira luz da miséria humana que quer
se ultrapassar
É preciso morrer, a face repousada contra a água como um grande
nenúfar partido
Na espera da decomposição que virá para os olhos cegos
de tanta serenidade
Na visão do amor que estenderá as suas antenas altas e fosforescentes
Todo o teu corpo há de deliqüescer e mergulhar como um destroço
ao apelo do fundo.
Será a viagem e a destinação. Há correntes que
te levarão insensivelmente e sem dor para cavernas de coral
Lá conhecerás os segredos da vida misteriosa dos peixes eternos
Verás crescerem olhos ardentes do volume glauco que te incendiarão
de pureza
E assistirás a seres distantes que se fecundam à simples emoção
do amor.
Encontrar, eis o destino. Aves brancas que desceis aos lagos e fugis! Oh,
a covardia das vossas asas!
É preciso ir e se perder no elemento de onde surge a vida.
Mais vale a árvore da fonte que a árvore do rio plantada segundo
a corrente e que dá seus frutos a seu tempo...
Deixai morrer o desespero nas sombras da idéia de que o amor pode não
vir.
Na praia sangrenta a velha embarcação negra e desfeita - o
mar a lançou talvez na tempestade!
Eu - e casebres de pescadores eternamente ausentes...
O mar! o vento tangendo as águas e cantando, cantando, cantando
Na praia sangrenta entre brancas espumas e horizontes...
Rio de Janeiro, 1938
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