No céu um dia eu vi - quando? era na tarde roxa
As nuvens brancas e ligeiras do levante contarem a história estranha
e desconhecida
De um cordeiro de luz que pastava no poente distante num grande espaço
aberto.
A visão clara e imóvel fascinava os meus olhos...
Mas eis que um lobo feroz sobe de trás de uma montanha longínqua
E avança sobre o animal sagrado que apavorado se adelgaça em
mulher nua
E escraviza o lobo que já agora é um enforcado que balança
lentamente ao vento.
A mulher nua baila para um chefe árabe mas este corta-lhe a cabeça
com uma espada
E atira-a sobre o colo de Jesus entre os pequeninos.
Eu vejo o olhar de piedade sobre a triste oferenda mas nesse momento saem
da cabeça chifres que lhe ferem o rosto
E eis que é a cabeça de Satã cujo corpo são os
pequeninos
E que ergue um braço apontando a Jesus uma luta de cavalos enfurecidos
Eu sigo o drama e vejo saírem de todos os lados mulheres e homens
Que eram como faunos e sereias e outros que eram como centauros
Se misturarem numa impossível confusão de braços e de
pernas
E se unirem depois num grande gigante descomposto e ébrio de garras
abertas.
O outro braço de Satã se ergue e sustém a queda de uma
criança
Que se despenhou do seio da mãe e que se fragmenta na sua mão
alçada
Eu olho apavorado a luxúria de todo o céu cheio de corpos enlaçados
E que vai desaparecer na noite mais próxima
Mas eis que Jesus abre os braços e se agiganta numa cruz que se abaixa
lentamente
E que absorve todos os seres imobilizados no frio da noite.
Eu chorei e caminhei para a grande cruz pousada no céu
Mas a escuridão veio e - ai de mim! - a primeira estrela fecundou os
meus olhos de poesia terrena!...
Rio de Janeiro, 1935
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