Mas a fraqueza humana, quando lança
os olhos no que corre, e não alcança
senão memória dos passados anos,
as águas que então bebo, e o pão que como,
lágrimas tristes são, que eu nunca domo
senão com fabricar na fantasia
fantásticas pinturas de alegria.
Que se possível fosse, que tornasse
o tempo para trás, como a memória,
pelos vestígios da primeira idade,
e de novo tecendo a antiga história
de meus doces errores, me levasse
pelas flores que vi da mocidade;
e a lembrança da longa saudade
então fosse maior contentamento,
vendo a conversação leda e suave,
onde üa e outra chave esteve
de meu novo pensamento,
os campos, as passadas, os sinais,
a fermosura, os olhos, a brandura,
a graça, a mansidão, a cortesia,
a sincera amizade, que desvia
toda a baixa tenção, terrena, impura,
como a qual outra algüa não vi mais...
Ah! vês memórias, onde me levais
o fraco coração, que ainda não posso
domar este tão vão desejo vosso?
Nô mais, Canção, nô mais; que irei falando,
sem o sentir, mil anos. E se acaso
te culparem de larga e de pesada,
não pode ser (lhe dize) limitada
a água do mar em tão pequeno vaso.
Nem eu delicadezas vou cantando
co gosto do louvor, mas explicando
puras verdades já por mim passadas.
Oxalá foram fábulas sonhadas!
O Poeta Simónides, falando
co capitão Temístocles, um dia,
em cusas de ciência praticando,
ü a arte singular lhe prometia,
que então compunha, com que lhe ensinasse
a se lembrar de tudo o que fazia;
onde tão sutis regras lhe mostrasse
que nunca lhe passasse da memória
em nenhum tempo as cousas que passasse.
Bem merecia, certo, fama e glória
quem dava regra contra o esquecimento
que enterra em si qualquer antiga história.
Mas o capitão claro, cujo intento
bem diferente estava, porque havia
as passadas lembranças por tormento;
ilustre Simónides! (dezia)
Pois tanto em teu engenho te confias
que mostras à memória nova via,
e me desses üa arte que em meus dias
me não lembrasse nada do passado,
oh! quanto milhor obra me farias!
Se este excelente dito ponderado
fosse por quem se visse estar ausente,
em longas esperanças degradado,
ah! como bradaria justamente:
Simónides, inventa novas artes;
não meças o passado co presente!
Que, se é forçado andar por várias partes
buscando à vida algum descanso honesto,
que tu, Fortuna injusta, mal repartes;
se o duro trabalho é manifesto
que por grave que seja, há-de passar-se
com animoso esprito e ledo gesto;
de que serve às pessoas alembrar-se
do que se passou já, pois tudo passa,
senão de entristecer-se e magoar-se?
Se noutro corpo üa alma se traspassa,
não, como quis Pitágoras, na morte
mas como manda Amor na vida escassa;
e se este Amor no mundo está de sorte
que na virtude só dum lindo objecto
tem um corpo sem alma, vivo e forte;
onde este objecto falta, que é defecto
tamanho para a vida, que já nela
me está chamando à pena a dura Alecto;
porque me não criara minha estrela
selvático no mundo, e habitante
na dura Cítia, ou na aspereza dela,
ou no Cáucaso horrendo? Fraco infante,
criado ao peito d'algüa tigre hircana,
homem fora formado de diamante,
porque a cerviz ferina e inumana
não sometera ao jugo e dura lei
daquele que dá vida quando engana.
Ou, em pago das águas qu'estilei,
as que do mar passei foram de Lete, p
ara que me esquecera o que passei.
Que o bem que a esperança vã promete,
ou a morte o estorva, ou a mudança,
que é mal que ua alma em lágrimas derrete.
Já, Senhor, cairá como a lembrança,
no mal, do bem passado é triste e dura,
pois nasce aonde morre a esperança.
E se quiser saber como se apura
nua alma saudosa, não se enfade
de ler tão longa e mísera escritura.
Soltava Eolo a rédea e liberdade
ao manso Favónio brandamente,
e eu já tinha solta a saudade.
Neptuno tinha posto o seu tridente;
a proa a branca escuma dividia,
co a gente marítima contente.
O coro das Nereidas nos seguia,
os ventos, namorada Galateia
consigo, sossegados, os movia.
Das argênteas conchinhas, Panopeia
andava pelo mar fazendo molhos,
Melanto, Dinamene, com Ligeia.
Eu, trazendo lembranças por antolhos,
trazia os olhos na água sossegada,
e a água sem sossego nos meus olhos.
A bem-aventurança já passada
diante mim tinha tão presente
como se não mudasse o tempo nada.
E com o gesto imoto e descontente,
cum suspiro profundo, e mal ouvido,
por não mostrar meu mal a toda a gente,
dezia: Ó claras Ninfas! Se o sentido
em puro amor tivestes, e inda agora
da memória o não tendes esquecido;
se, porventura, fordes algüa hora
aonde entra o grão Tejo a dar tributo
a Tétis, que vós tendes por Senhora;
ou por verdes o prado verde enxuto,
ou por colherdes ouro rutilante,
das tágicas areias rico fruto;
nelas em verso heróico e elegante,
escrevei cüa concha o que em mim vistes:
pode ser que algum peito se quebrante.
E contando de mim memórias tristes,
os pastores do Tejo, que me ouviam,
ouçam de vós as mágoas que me ouvistes.
Elas, que já no gesto me entendiam,
nos meneios das ondas me mostravam
que em quanto lhe pedia consentiam.
Estas lembranças, que me acompanhavam
pola tranquilidade da bonança,
nem na tormenta grave me deixavam.
Porque, chegado ao Cabo da Esperança,
começo da saudade que renova,
lembrando a longa e áspera mudança;
debaixo estando já da Estrela nova,
que no novo Hemisfério resplandece,
dando do segundo axe certa prova;
eis a noite com nuvens escurece,
do ar supitamente foge o dia,
e o largo oceano se embravece.
A máquina do Mundo parecia
que em tormenta se vinha desfazendo,
em serras todo o mar se convertia.
Lutando Bóreas fero e Noto horrendo,
sonoras tempestades levantavam,
das naus as velas côncavas rompendo.
As cordas, ao ruído, associavam,
os marinheiros, já desesperados,
com gritos para o Céu o ar coalhavam.
Os raios por Vulcano fabricados
vibrava o fero e áspero Tonante,
tremendo os Pólos ambos, de assombrados!
Ali Amor mostrando-se possante
e que por nenhum modo não fugia,
mas quanto mais trabalho, mais constante;
vendo a morte diante, em mim dezia:
Se algüa hora, Senhora, vos lembrasse,
nada do que passei me lembraria.
Enfim, nunca houve cousa que mudasse
o firme Amor do intrínseco daquele
em cujo peito üa vez de siso entrasse.
üa cousa, Senhor, por certo assele;
que nunca Amor se afina, nem se apura,
enquanto está presente a causa dele.
Dest'arte me chegou minha ventura
a esta desejada e longa terra,
de todo o pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaïdade em nós se encerra,
e dos próprios quão pouca; contra quem
foi logo necessário termos guerra.
Que üa ilha que o rei de Porcá tem,
que o rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.
Com üa armada grossa, que ajuntara
o vizo-rei de Goa, nos partimos
com toda a gente d'armas que se achara,
e com pouco trabalho destruímos
a gente no curvo arco exercitada;
com mortes, com incêndios, os punimos.
Era a ilha com águas alagada,
de modo que se andava em almadias;
enfim, outra Veneza trasladada.
Nela nos detivemos sós dous dias,
que foram para alguns os derradeiros,
que passaram de Estige as águas frias.
Que estes são os remédios verdadeiros
que para a vida estão aparelhados
aos que a querem ter por cavaleiros.
Oh, lavradores bem-aventurados!
Se conhecessem seu contentamento,
como vivem no campo sossegados!
Dá-lhes a justa terra o mantimento,
dá-lhes a fonte clara a água pura,
mungem suas ovelhas cento a cento.
Não vêm o mar irado, a noite escura,
por ir buscar a pedra do Oriente;
não temem o furor da guerra dura.
Vive um com suas árvores contente,
sem lhe quebrar o sono sossegado
o cuidado do ouro reluzente.
Se lhe falta o vestido perfumado,
e da fermosa cor assíria tinto,
e dos torçais atálicos lavrado;
se não tem as delicias de Corinto,
e se de Pário os mármores lhe faltam,
o piropo, a esmeralda, e o jacinto;
se suas casas d'ouro não se esmaltam,
esmalta-se-lhe o campo de mil flores,
onde os cabritos seus, comendo, saltam.
Ali amostra o campo várias cores,
vêm-se os ramos pender co fruto ameno,
ali se afina o canto dos pastores:
ali cantara Títiro e Sileno.
Enfim, por estas partes caminhou
a sã justiça para o Céu sereno.
Ditoso seja aquele que alcançou
poder viver na doce companhia
das mansas ovelhinhas que criou!
Este, bem facilmente alcançaria
as causas naturais de toda a cousa:
como se gera a chuva e neve fria;
os trabalhos do Sol, que não repousa;
e porque nos dá a Lua a luz alheia,
se tolher-nos de Febo os raios ousa;
e como tão depressa o Céu rodeia;
e como um só, os outros traz consigo;
e se é benina ou dura Citereia.
Bem mal pode entender isto que digo
quem há-de andar seguindo o fero Marte,
que traz os olhos sempre em seu perigo.
Porém seja, Senhor, de qualquer arte,
que, posto que a Fortuna possa tanto,
que tão longe de todo o bem me aparte,
não poderá apartar meu duro canto
desta obrigação sua, enquanto a morte
me não entrega ao duro Radamanto,
—se para tristes há tão leda sorte.
D. António de Noronha,
estando o Autor na India
Aquela que de amor descomedido
pelo fermoso moço se perdeu
que só por si de amores foi perdido,
despois que a deusa em pedra a converteu
de seu humano gesto verdadeiro,
a última vez só lhe concedeu.
assi meu mal do próprio ser primeiro
outra cousa nenhüa me consente
que este canto que escrevo derradeiro.
E se algüa pouca vida, estando ausente,
me deixa Amor, é porque o pensamento
sinta a perda do bem de estar presente.
Senhor, se vos espanta o sentimento
que tenho em tanto mal, para escrevê-lo
furto este breve tempo a meu tormento.
Porque quem tem poder para sofrê-lo,
sem se acabar a vida co cuidado,
também terá poder para dize-lo.
Nem eu escrevo mal tão costumado,
mas n'alma minha, triste e saudosa,
a saudade escreve, e eu traslado.
Ando gastando a vida trabalhosa,
espalhando a continua saudade
ao longo de ua praia saudoso.
Vejo do mar a instabilidade,
como com seu ruído impetuoso
retumba na maior concavidade.
E com sua branca escuma, furioso,
na terra, a seu pesar, lhe está tomando
lugar onde se estenda, cavernoso.
Ela, como mais fraca, lhe está dando
as côncavas entranhas, onde esteja
suas salgadas ondas espalhando.
A todas estas cousas tenho enveja
tamanha, que não sei determinar-me,
por mais determinado que me veja.
Se quero em tanto mal desesperar-me,
não posso, porque Amor e Saudade,
nem licença me dão para matar-me.
As vezes cuido em mim se a novidade
e estranheza das cousas, co a mudança
se poderão mudar üa vontade.
E com isto afiguro na lembrança
a nova terra, o novo trato humano,
a estrangeira gente e estranha usança.
Subo-me ao monte que Hércules tebano
do altíssimo Calpe dividiu,
dando caminho ao mar Mediterrano.
Dali estou tenteando aonde viu
o pomar das Hespéridas, matando
a serpe que a seu passo resistiu.
Em outra parte estou afigurando
o poderoso Anteu que, derrubado,
mais força se lhe estava acrescentando;
mas do hercúleo braço sojugado, n
o ar deixou a vida, não podendo
da madre terra já ser ajudado.
Nem com isto, enfim, que estou dizendo,
nem com as armas tão continuadas,
de lembranças passadas me defendo.
Todas as cousas vejo remudadas,
porque o tempo ligeiro não consente
que estejam de firmeza acompanhadas.
Vi já que a Primavera, de contente,
de mil cores alegres revestia
o monte, o rio, o campo alegremente.
Vi já das altas aves a harmonia,
que até aos montes duros convidava
a um modo suave de alegria.
Vi já que tudo, enfim, me contentava,
e que, de muito cheio de firmeza,
um mal por mil prazeres não trocava.
Tal me tem a mudança e estranheza
que, se vou pelos campos, a verdura,
parece que se seca, de tristeza.
Mas isto é já costume da ventura;
que os olhos que vivem descontentes,
descontente o prazer se lhe afigura.
Ó graves e insofríveis acidentes
de Fortuna e de Amor que a penitência
tão grave dais aos peitos inocentes!
Não basta exprimentar-me a paciência,
com temores e falsas esperanças,
sem que também me atente o mel de ausência?
Trazeis um brando animo em mudanças,
para que nunca possa ser mudado
de lágrimas, suspiros e lembranças.
E se estiver ao mal acostumado,
também no mal não consentis firmeza,
para que nunca viva descansado.
Vivia eu sossegado na tristeza,
e ali não me faltava um brando engano,
que tirasse os desejos da fraqueza.
E vendo-me enganado estar ufano,
deu à roda Fortuna, e deu comigo
onde de novo choro o novo dano.
Já deve de bastar o que aqui digo
para dar a entender o mais que calo,
a quem já viu tão áspero perigo.
E se nos bravos peitos faz abalo
um peito magoado e descontente,
que obriga a quem o ouve a consolá-lo;
não quero mais senso que largamente,
Senhor, me mandeis novas dessa terra:
ao menos poderei viver contente.
Porque se o duro Fado me desterra,
tanto tempo do bem que o fraco esprito
desampare a prisão onde se encerra,
ao som das negras águas de Cocito,
ao pé dos carregados arvoredos
cantarei o que na alma tenho escrito.
E, por entre esses hórridos penedos,
a quem negou Natura o claro dia,
entre tormentos ásperos e medos,
com a trémula voz, cansada e fria,
celebrarei o gesto claro e puro
que nunca perderei da fantasia.
E o músico de Trácia, já seguro
de perder sua Eurídice, tangendo
me ajudará, ferindo o ar escuro.
As namoradas sombras, revolvendo
memórias do passado, me ouvirão;
e com seu choro, o rio irá crescendo.
Em Salmoneu as penas faltarão,
e das filhas de Belo, juntamente,
de lágrimas os vasos se encherão.
Que se o amor não se perde em vida ausente,
menos se perderá por morte escura;
porque, enfim, a alma vive eternamente,
e amor é afeito d'alma, e sempre dura.
O sulmonense Ovídio, desterrado
na aspereza do Ponto, imaginando
ver-se de seus parentes apartado;
sua cara mulher desamparando,
seus doces filhos, seu contentamento,
de sua pátria os olhos apartando;
não podendo encobrir o sentimento,
aos montes e às águas se queixava
de seu escuro e triste nacimento.
O curso das estrelas contemplava,
e como por sua ordem discorria
o céu, o ar e a terra adonde estava.
Os peixes pelo mar nadando via,
as feras pelo monte, procedendo
como seu natural lhes permitia.
De suas fontes via estar nascendo
os saudosos rios de cristal,
a sua natureza obedecendo.
Assi só, de seu próprio natural
apartado, se via em terra estranha,
a cuja triste dor não acha igual.
Só sua doce Musa o acompanha,
nos versas saudosos que escrevia,
e lágrimas com que ali o campo banha.
Dest'arte me afigura a fantasia a vida
com que vivo, desterrado do bem
que noutro tempo possuia.
Ali contemplo o gosto já passado,
que nunca passará pola memória
de quem o tem na mente debuxado.
Ali vejo a caduca e débil glória
desenganar meu erro, co a mudança
que faz a frágil vida transitória.
Ali me representa esta lembrança
quão pouca culpa tenho; e me entristece
ver sem razão a pena que me alcança.
Que a pena que com causa se padece,
a causa tira o sentimento dela;
mas muito dói a que se não merece.
Quando a roxa manhã, formosa
e bela, abre as portas ao sol, e cai o orvalho,
e torna a seus queixumes filomela;
este cuidado que co sono atalho
em sonhos me parece; que o que a gente
para descanso tem, me dá trabalho.
E despois de acordado, cegamente
(ou, por milhor dizer, desacordado,
que pouco acordo tem um descontente)
dali me vou com passo carregado,
a um outeiro erguido, e ali me assento,
soltando a rédea toda a meu cuidado.
Despois de farto já de meu tormento,
dali estendo os olhos saudosos
à parte aonde tenho o pensamento.
Não vejo senão montes pedregosos;
e os campos sem graça e secos vejo
que já floridos vira e graciosos.
Vejo o puro, suave e brando Tejo,
com as côncovas barcas, que, nadando,
vão pondo em doce efeito seu desejo.
as co brando vento navegando, o
utras cos leves remos, brandamente
as cristalinas águas apartando.
Dali falo co a água, que não sente
com cujo sentimento a alma sai
em lágrimas desfeita claramente.
Ó fugitivas ondas, esperai!
que, pois me não levais em companhia
ao menos estas lágrimas levai,
até que venha aquele alegre dia
que eu vá onde vós is, contente e ledo.
Mas tanto tempo quem o passaria?
Não pode tanto bem chegar tão cedo,
porque primeiro a vida acabará
que se acabe tão áspero degredo.
Mas esta triste morte que virá,
se em tão contrário estado me acabasse,
a alma impaciente adonde irá?
Que, se às portas tartáreas chegasse,
temo que tanto mal pola memória
nem ao passar de Lete lhe passasse.
Que, se a Tântalo e Tício for notória
a pena com que vai que a atormenta,
a pena que lá tem terão por glória.
Esta imaginação me acrescenta
mil mágoas no sentido, porque a vida
de imaginações tristes se sustenta.
Que, pois de todo vive consumido,
porque o mal que possui se resuma,
imagina na glória possuida,
até que a noite eterna me consuma,
ou veja aquele dia desejado,
em que Fortuna faça o que costuma;
—se nela há i mudar um triste estado.
(CAPÍTULO)
Aquele mover d'olhos excelente,
aquele vivo espírito inflamado
do cristalino rosto transparente;
aquele gesto imoto e repousado,
que estando n'alma propriamente escrito,
não pode ser em verso trasladado;
aquele parecer que é infinito
para se compreender de engenho humano,
o qual ofendo em quanto tenho dito,
me inflama o coração dum doce engano,
m'enleva e engrandece a fantasia,
que não vi maior glória que meu dano.
Oh bem-aventurado seja o dia
em que tomei tão doce pensamento,
que de todos os outros me desvia!
E bem-aventurado o sofrimento
que soube ser capaz de tanta pena,
vendo que o foi da causa o entendimento!
Faça-me, quem me mata, o mel que ordena;
trate-me com enganos, desamores;
que então me salva, quando me condena.
E se de tão suaves disfavores
penando vive üa alma consumida,
oh! que doce penar! que doces dores!
E se üa condição endurecida
também me nega a morte por meu dano,
oh! que doce morrer! que doce vida!
E se me mostra um gesto brando e humano,
como que de meu mal culpada se acha,
oh! que doce mentir! que doce engano!
E se em querer-lhe tanto ponho tacha,
mostrando refrear o pensamento,
oh! que doce fingir! que doce cacha!
Assi que ponho já no sofrimento
a parte principal de minha glória,
tomando por milhor todo o tormento.
Se sinto tanto bem só na memória
de vos ver, linda Dama, vencedora,
que quero eu mais que ser vossa a vitória?
Se tanto vossa vista mais namora
quanto eu sou menos para merecer-vos,
que quero eu mais que ter-vos por Senhora ?
Se procede este bem de conhecer-vos
e consiste o vencerem ser vencido,
que quero eu mais, Senhora, que querer-vos?
Se em meu proveito faz qualquer partido,
só; na vista duns olhos tão serenos,
que quero eu mais ganhar que ser perdido?
Se meus baixos espritos de pequenos,
ainda não merecem seu tormento,
que quero eu mais, que o mais não seja menos?
A causa, enfi, m'esforça o sofrimento,
porque, apesar do mal, que me resiste,
de todos os trabalhos me contento;
que a razão faz a pena alegre ou triste.
Se quando contemplamos as secretas
Causas, por que o mundo se sustenta,
o revolver dos céus e dos planetas;
e se quando à memória se apresent a
este curso do Sol, que é tão medido
que um ponto só não mingua nem se aumenta;
aquele efeito, tarde conhecido,
da Lua, em ser mudável tão constant e
que minguar e crecer é seu partido;
aquela natureza tão possant e
dos Céus, que tão conforme se contrários
caminham, sem parar um breve instante ;
aqueles movimentos ordinários,
a que responde o tempo, que não mente,
cos efei os da Terra necessáros;
se quando, enfim, revolve sutilmen te
tantas cousas a leve fantasia,
sagaz, escrutadora e diligente;
vê bem, se da razão se não desvia,
o altíssimo Ser, puro e divino,
que tudo pode, manda, move e cria ;
sem fim e sem começo: um ser contino;
um Padre grande, a quem tudo é possível,
por mais árduo que seja ao homem indino;
um saber infinito, incompreensível;
üa verdade que nas cousas anda,
que mora no visível e no invisível.
Esta Potência, enfim, que tudo manda,
esta Causa das causas, revestida
foi desta nossa carne miseranda.
Do amor e da justiça compelida,
polos erros da gente, em mãos da gente
(como se Deus não fosse!) perde a vida.
Ó cristão descuidado e negligente
pondera isto, que digo, repousado,
não passes por aqui tão levemente.
Não, que aquele Deus alto incriado,
Senhor das cousas todas, que fundou
o Céu, a Terra, o fogo e o mar irado,
não do confuso Caos, como cuidou
a falsa teologia e povo escuro,
que nesta só verdade tanto errou;
não dos átomos falsos de Epicuro;
não do largo Oceano, como Tales,
mas só do pensamento casto e puro.
Olha, animal humano, quanto vales,
que por ti este grande Deus padece,
novo modo de morte, novos males.
Olha que o Sol no Olimpo se escurece,
não por oposição doutro planeta,
mas só porque virtude lhe falece.
Não vês que a grande máquina inquieta
do mundo se desfaz toda em tristeza,
e não por natural causa secreta?
Não vês como se perde a natureza?
O ar se turba? o mar, batendo, geme,
desfazendo das pedras a dureza?
Não vês que os montes caem? a terra treme?
E que até na remota e grande Atenas,
o sábio Dionísio sente e teme?
O sumo Deus! tu mesmo te condenas
pelo mal em que eu só sou tão culpado,
a Amanhas afrontas, tantas penas.
Por mim, Senhor, no mundo reputado
por falso e por quebrantados da lei
a fama de ti se põe do meu pecado.
Eu, Senhor, sou ladrão; tu, justo Rei;
eu, só furtei; tu, com ladrões padeces;
a pena a-ti se dá do que eu pequei.
Eu, servo sem valor; tu, sumo preço,
em preço vil te pões, por me tirares
do cativeiro eterno, que mereço.
Eu, por perder-te; e tu, por me ganhares,
te dás aos homens baixos, que te vendem,
só para os homens presos resgatares.
A ti, que as almas soltas, a ti prendem;
a ti, sumo Juiz, ante juízes te acusam,
polo error dos que te ofendem.
Chamem-te malfeitor, não contradizes;
sendo tu dos Profetas a certeza,
dizem que quem te fere profetizes.
Rim-se de ti; tu choras a crueza
que sobre eles virá. A gente dura,
por quem tu vens ao mundo, te despreza.
O teu rosto, de cuja fermosura
se veste o Céu e o Sol resplandecente,
diante de que muda está a Natura,
com cruas bofetadas da vil gente,
de precioso sangue está banhado,
cuspido, arrepelado cruelmente.
Aquele corpo tenro e delicado,
sobre todos os Santos sacrossanto,
de açoutes rigorosos flagelado;
despois, coberto mal de um pobre manto,
que se pegava às carnes magoadas,
para dobrar-lhe as dores outro tanto.
Magoavam-no as chagas não curadas,
um tormento causando-lhe, excessivo,
ao despir pelas mãos cruéis e iradas.
As santíssimas barbas de Deus vivo,
de resplandor ornadas lhe arrancavam,
para desempenhar Adão cativo.
Com cordas pelas ruas o levavam,
levando sobre os ombros o trofeu
das vitórias que as almas alcançavam.
O tu que passas, homem Cireneu,
ajuda um pouco este Homem verdadeiro,
que agora como humano enfraqueceu!
Olha que o corpo, aflito do marteiro
e dos longos jejuns debilitado,
não pode já co peso do madeiro.
Oh não enfraqueçais, Deus encarnado!
Essas quedas, que tanto vos magoam,
suportai, Cavaleiro sublimado!
Que aquelas altas vozes que lá soam,
Padres são que estão no Limbo escuro,
que já de louro e palma vos coroam.
Todos vos bradam, que subais ao muro
da cidade infernal, e que arvoreis
em cima essa bandeira, mui seguro.
Oh Santos Padres, não vos apresseis,
que muito mais a Deus que a vós custaram
essas duras prisões em que jazeis!
quelas mãos, que o mundo edificaram,
aqueles pés, que pisam as estrelas,
com duríssimos pregos se encravaram.
Mas qual será a pessoa que as querelas
da angustiada Virgem contemplasse
que não se mova à dor e à mágoa delas?
E que dos olhos seus não estilasse
tanta cópia de lágrimas ardentes
que carreiras no rosto assinalasse?
Oh quem lhe vira os olhos refulgentes
desfazendo-se em lágrimas, regando
aquelas belas faces excelentes!
Quem a vira cos gritos ir tocando
as estrelas, a quem responde o Céu,
cos acentos dos Anjos retumbando!
Quem vira quando o claro rosto ergueu
a ver o Filho, que na Cruz pendia,
donde a nossa saúde descendeu!
Que mágoas tão chorosas que diria!
Que palavras tão míseras e tristes
para o Céu, para a gente espalharia!
Pois que seria, Virgem, quando vistes
com fel nojoso e com vinagre amaro
matar a sede ao Filho que paristes?
Não era este o licor suave e claro
que, para o confortar, então daríeis
a quem vos era, mais que a vida, caro.
Como, Virgem Senhora, não corríeis
a dar as tetas puras ao Cordeiro
que padecer na Cruz com sede víeis?
Não só era esse, Senhora, o verdadeiro
poto, que vosso Filho desejava
morrendo polo mundo num madeiro;
mas [era] a salvação, que ali ganhava
para o mísero Adão, que ali bebia
na fonte, que do peito lhe manava.
Pois, ó pura e Santíssima Maria,
que, enfim, sentistes esta magoa, quanto
a gravidade dela o requeria;
dessa Fonte sagrada e peito santo
me alcançai üa gata, com que lave
a culpa, que me agrava e pesa tanto.
Do licor salutífero e suave
me abrangei, com que mate a sede dura
deste mundo tão cego, torpe e grave.
Assi, Senhora, toda a criatura
que vive e viverá, que não conhece
a Lei do vosso Filho, santa e pura;
o falsíssimo herege, que carece
da graça, e com danado e falso esprito
perturba a Santa Igreja, que florece;
O povo pertinaz, no antigo rito,
que só o desterro seu, que tanto dura,
lhe diz que é pena igual ao seu delito;
o torpe Ismaelita, que mistura
as leis, e com preceitos viciosos
na terra estende a seita falsa, impura;
os idólatras maus, supersticiosos,
vários de opiniões e de costume,
levados de conceitos fabulosos;
as mais remotas gentes, onde o lume
da nossa fé não chega, nem que tenham
religião algüa se presume;
assi todos, enfim, Senhora, venham
confessar um só Deus crucificado,
e por nenhum respeito se detenham.
Mas de todos o vicio já passado,
o Seu nome co vosso, neste dia
seja por todo mundo celebrado
E respondam os Céus: JESUS, MARIA.
À morte de D. Miguel de Meneses,
filho de D. Henrique de Meneses,
governador da casa do Cível, que
morreu na Índia
Que novas tristes são, que novo dano,
que mal inopinado incerto dano,
tingindo de temor o vulto humano?
Que vejo as praias húmidas de Goa
ferver de gente atónita e torvada
do rumor que de boca em boca soa.
É morto D. Miguel (ah! crua espada!)
e parte da lustrosa companhia
que se embarcou na alegre e triste armada;
de espingarda ardente e lança fria
passado pelo torpe e inico braço
que nossas altas famas injuria.
Não lhe valeu rodela ou peito de aço,
nem animo de Avós altos herdado,
com que se defendeu tamanho espaço;
não ter-se em derredor todo cercado
de corpos de inimigos, que exalavam
a negra alma do corpo traspassado;
não com palavras fortes, que voavam
a animar os incertos companheiros,
que fortes caem e tímidos viravam.
Mas já postos nos termos derradeiros,
passados por mil partes e cortados
os membros, só do nobre esforço inteiros,
os olhos, de furor acompanhados,
que inda na morte as vidas amedrontam
dos fracos inimigos espantados,
postos no Céu, parece que apresentam
a pura alma à suprema Eternidade,
por quem os Céus e Terra se sustentam.
E, pedindo dos erros que na idade
verde e quase inocente já fazia,
perdão à pia e justa Majestade,
as rosas apartou da nove fria;
e, como flama fraca, a quem falece
seu húmido licor, de que vivia,
nas mãos do Coro Angélico, que dece,
se entrega; e vai gozar da vida eterna
que com tão justa morte se merece.
Vai-te, alma, em paz à glória sempiterna!
Vai, que quem pela Lei santa e divina
morre, a dá a Deus, que os Céus governa.
Quando pela razão devida e dina
do Rei, da Pátria, e honra dos passados
sacrificar a vida nos ensina,
nos assentos de estrelas esmaltados
lhe dá lugar a altíssima Clemência
entre os heróis à glória destinados.
Mas, ah! quem sofrerá perpétua ausência
e tão caro Senhor, tão fido amigo!
Quem porá contra mágoas resistência?
Aquele animo grande, que do antigo
de seus maiores era alto retrato,
desprezador de todo o vil perigo;
misturado com doce e brando trato
cos iguais Juntamente' e cos menores
a todos amoroso, a todos grato;
aquele esprito nobre, onde maiores
esperanças cresciam, se o tão duro
caso, as não cortara em novas flores;
em verde idade, siso já maduro,
alegre riso, ledo e aberto peito, e
m repousado espírito seguro;
não soberbo e por arte contrafeito,
mas todo puro e, enfim, da natureza
mais para o Céu que para a terra feito;
também do corpo a humana gentileza
o bem talhado gesto, que mostrava
forças iguais e manhas com destreza;
a cor, que o fresco rosto matizava,
as rosas, flores novas de alegria,
com que o Verão as faces adornava;
tudo os fios da Morte, que desvia
dos propósitos nossos e salteia,
cortaram cruamente, quando abria.
Deixa pois tu, fermosa Citereia,
do gentil filho e neto de Ciniras
o pranto pela morte horrenda e feia.
E tu, dourado Apolo, que suspiras
pelo crespo Hiacinto, moço caro,
por quem a clara luz ao mundo tiras;
vinde e chorai um moço ao mundo raro,
não de ferino dente vulnerado,
nem de animal algum que haja reparo,
mas só do fero imigo traspassado;
que, sem dúvida incerta ou pio medo,
a vida pôs nas mãos de Marte irado.
Está tu também, moço Idálio, quedo,
deixa de dar o venenoso mel a beber
pelos olhos triste e ledo,
que já os fermosos olhos de Miguel
cobertos são do negro e escuro manto
da lei geral, a todos mais cruel.
E vós, filhas de Téspis, que do canto
podeis bem mitigar a lei imensa
dos irmãos generosos e alto pranto,
não consintais que façam larga ofensa
à grande integridade, que, se devem,
não são águas do dano recompensa.
Que já, diante, os olhos me descrevem,
quando as bocas da fama voadora
ao pátrio e claro Tejo as novas levem,
a profunda tristeza, que em üa hora
tal posse tomará dos altos peitos,
que a razão quase quase deite fora.
Ali, de dor, os corações sujeitos
pesadas lhe serão consolações
e pesados exemplos e respeitos.
Pequena é certo a dor, que com razões
se pôde refrear, nem com memória
de outros antigos e integros varões.
Mas porém se igualais a vida à glória,
meu grande Dom Filipe, e pretendeis d
eixar de vossas obras larga história,
eu não vos admoesto, que estreiteis
o coração na estóica disciplina,
onde livre de efeitos vos mostreis,
que mal natura nossa determina
medo, esperanças, dores e alegria,
como o Cínico velho nos ensina.
lmanidade estúpida (diria
o sulmonense canto) e vil rudeza
é não sentir afeitos, que a alma cria.
Porém, se não sentir nada é bruteza,
e se paixão de vida se consente,
também o sentir muito é já fraqueza.
Se dói a opinião do mal presente,
e medo e opinião do mal futuro,
são, enfim, tudo opiniões da gente.
O verdadeiro sábio está seguro
de leves alegrias e de espanto de dor,
que turba da alma o licor puro.
Inda antes que aconteça o riso e o pranto
os tem já no sentido meditados,
livre está de alvoroço e de quebranto.
E como de alta torre vê cuidados
humanos vãos, e aquela indiferença
de ambições e cobiças e Recados;
todo caso acha nele só presença,
que, como as febres são da carne humana,
assi os afeitos d'alma são doença.
Se esta doutrina credes, que é profana,
ponde os olhos na nossa, que é divina,
e sobre todas santa e soberana.
Vereis Arão, que não se contamina
sobre os montes seus, que defendida
a dor lhe foi da santa disciplina.
Não chega a ver parentes, que da vida
partidos são, que n'alma a Deus agrada
que nenhüa aflição do mundo impida.
Nós somos geração a Deus dicada
sacerdotal, que em tempo nenhum deve
do gentílico culto ser tocada.
Se dos antigos Padres já se escreve,
que, chorando, aos mortos enterraram
com dor e pranto público, e não leve,
era porque ainda as portas não quebraram
do Céu sereno aquelas mãos cravadas
que os antigos contágios alimparam.
E também por ornar as sempre usadas
pompas do funeral enterramento
com públicas exéquias costumadas.
Esta alta fortaleza e sofrimento
como a forte Varão vos é devido,
e como lei do santo documento.
Bem conheço que o corpo assi perdido,
que do sepulcro nobre aqui carece
será de aves ou feras consumido.
Mortos os Espartanos valerosos,
da fera multidão fazendo estremos
tais epitáfios tinham gloriosos:
Dirás, hóspede, tu, que aqui jazemos
passado do inimigo fero, enqnanto
às santas leis da Pátria obedecemos.
Fugindo os Persas vão com frio espanto,
mas acham as mulheres no caminho
amostrando-lhe o ventre sem ter manto:
—Pois fugis do perigo, que é vizinho,
fracos! vinde esconder-vos (lhe diziam)
outra vez no materno, escuro ninho.
Vedes quais com mais glória ficariam
se aqueles que enfim morreram pelo Estado,
se os outros, que as mulheres injuriam.
Mas tu, claro Miguel! que já acordado
deste sonho tão breve, estás naquela
torre do Céu, seguro e repousado,
onde, com Deus unida a forte e bela
alma, com teus maiores reluzindo,
por cada chaga tens üa clara estrela;
os pés o cristalino Céu medindo,
pisando essas lucíferas Esferas,
já da terrena os olhos encobrindo;
agora um curso e outro consideras,
agora a vaidade dos mortais,
que tu tam bem passaras, se viveras.
Mais a pena cantara, a poder mais.