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Tanto maiores tormentos (1595)

Redondilhas de Luís Vaz de Camões

Glosas

ao moto que lhe enviou Dona
Francisca de Aragão para que Iho glosasse:

Mas porém a que cuidados ?

1ª.

Tanto maiores tormentos

foram sempre os que sofri,

daquilo que cabe em mi,

que não sei que pensamentos

são os para que nasci.

Quando vejo este meu peito

a perigos arriscados

inclinado, bem suspeito

que a cuidados sou sujeito;

Mas porém a que cuidados ?

2ª.

Que vindes em mim buscar,

cuidados, que sou cativo,

e não tenho que vos dar?

Se vindes a me matar,

já há muito que não vivo;

se vindes, porque me dais

tormentos desesperados,

eu, que sempre sofri mais,

não digo que não venhais;

Mas porém a quê, cuidados?

3ª.

Se as penas que Amor me deu

vêm por tão suaves meios,

não há que temer receios,

que val um cuidado meu

por mil descansos alheios.

Ter nuns olhos tão fermosos

os sentidos enlevados,

bem sei que em baixos estados

são cuidados perigosos;

Mas porém, ah! que cuidados!

Carta

que Luís de Camões mandou

a Dona Francisca de Aragão,

com as glosas acima:

Senhora

Deixei-me enterrar no esquecimento de v. m., crendo me

seria assi mais seguro: mas agora que é servida de me

tornar a ressuscitar, por mostrar seus poderes, lembro-lhe

que üa vida trabalhosa é menos de agradecer que üa

morte descansada. Mas se esta vida, que agora de novo

me dá, for para ma tornar a tomar, servindo-se dela, não

me fica mais que desejar, que poder acertar com este

moto de v. m., ao qual dei três entendimentos, segundo as

palavras dele puderam sofrer: se forem bons, é o moto de

v. m.; se maus, são as glosas minhas

Fonte: www.bibvirt.futuro.usp.br

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