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Lygia Fagundes Telles

A ficção de Lygia Fagundes Telles possui características do período conhecido como Pós-45. Alguns estudiosos defendem que sua obra pertence à Geração de 45 – denominação dada a um grupo de escritores, especialmente poetas, que surgiram na literatura brasileira na década de 1940, cuja atitude estética foi a de reagir contra o clima da primeira fase modernista. Contudo, o caráter ficcional de sua obra sintoniza com o existencialismo - vertente cultural da época - além de correntes literárias como o expressionismo e o surrealismo. A escritora, porém, sempre acompanhou as mudanças existenciais, políticas e sociais que ocorreram ao longo de sua carreira.

Lygia Fagundes Telles. Foto: Liliana Giusti Serra. São Paulo, 1993.
Lygia Fagundes Telles. Foto: Liliana Giusti Serra. São Paulo, 1993.

Sua obra versa sobre as experiências humanas, sobretudo as experiências interiores.

É através da solidão – drama particular da maioria de seus personagens – que ela nos apresenta, através da análise dos sentimentos e das percepções de suas personagens, o conflito entre o mundo objetivo e o subjetivo, o real e o ideal. A autora utiliza monólogos interiores – recurso estilístico paraliterário, também chamado fluxo de consciência - como fonte de conhecimento das personagens. O desenrolar das tramas é estruturado em detalhes calculados, deixando em cada gesto marcas de uma personalidade ou de uma situação. A configuração física do ambiente nos enredos é secundária, o foco é a posição interna assumida pelas personagens diante dos episódios.

É assim em Ciranda de pedra, primeiro romance da autora. Virginia, personagem principal, é uma garota solitária, filha de pais separados. Após a separação dos pais, vai morar com sua mãe, que logo adoece. Virgínia passa a morar com os pais e as duas irmãs, num ambiente movimentado e hostil. O nome que dá título ao livro refere-se a uma roda de anões de pedra que ornamenta o jardim da casa, ciranda da qual Virgínia não pode participar. A ciranda de pedra representa simbolicamente o mundo interior da personagem e encerra o núcleo do tema: o sentimento de rejeição.

O tema da rejeição está presente também em O verão no aquário, segundo romance da autora, onde o centro das tensões também é a família. O foco dessa análise psicológica profunda está sempre nas personagens femininas. As personagens masculinas da literatura de Lygia Fagundes Telles são, geralmente, representantes simbólicos de funções sociais ou de poder, riqueza e status, não possuindo contornos marcantes como as femininas.

Engajada politicamente, a escritora sempre deixou clara a sua preocupação em relação às questões políticas e sociais e ao papel do escritor enquanto formador de opinião. Sobre o ato do escritor de escrever sobre seu tempo, Lygia Fagundes Telles, em entrevista à revista Cult, de junho de 1999, diz:

“Antes de mais nada, eu queria dizer que acho intolerável conviver com estas estatísticas que dizem que há três milhões de crianças sem escola, cavando, plantando para levar uma miserável contribuição para a família (...).
Acho isso intolerável. Assim, espero que se faça justiça ao grupo de escritores – alguns, da minha geração – que participou de verdadeiras cruzadas em favor da educação e da cultura. (...)

Sim, existe um certo silêncio de perplexidade, como se nos faltasse o chão. Mas e o silêncio dos políticos que falam, falam e não dizem?

Que se faça justiça a esse grupo do qual participei, foi um alerta. Era como se estivéssemos adivinhando o que iria acontecer, a violência e a boçalidade desse país nascem da ignorância. (...)

Machado de Assis, aquele gênio mestiço que veio do morro, costumava dizer que o nosso povo, o povo real, o povo verdadeiro, esse era bom. Perigoso era o chamado oficial... Creio que sempre tive essa preocupação ética, a difícil condição humana num planeta enfermo.”


Em As meninas, seu terceiro romance, escrito no final da década de 1960 – período mais violento da ditadura militar – e publicado em 1973, Lygia Fagundes Telles nos apresenta a história de três moças que se conhecem num pensionato, Lorena, Lia e Ana Clara. Em meio às vivências, objetivas e subjetivas das personagens, a autora apresenta relatos de tortura física e de violenta repressão, retratos fiéis da época. As meninas foi premiado com o prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e na categoria 'Ficção' da Associação Paulista de Críticos de Arte, sendo posteriormente adaptado para o cinema e o teatro. Dirigido por Emiliano Ribeiro, o filme baseado em As meninas estreou em 1996.

Tema de numerosos artigos, ensaios e trabalhos acadêmicos, Lygia Fagundes Telles configurou-se como um grande sucesso de público e de crítica, tendo suas obras traduzidas para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco e adaptadas no Brasil para o cinema, teatro e TV. Teve suas obras publicadas também em Portugal, onde é correspondente desde 1987 da Academia de Ciências de Lisboa.
Em 2001, a escritora recebeu o Prêmio Jabuti, o prêmio Golfinho de Ouro e o Grande Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte pelo livro Invenção e memória, publicado em 2000. No mesmo ano, a autora é agraciada com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB).

Lygia Fagundes Telles foi tema da série O escritor por ele mesmo, de 1997, e do quinto número dos CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA em 1998, publicações do Instituto Moreira Salles. Sua coleção particular foi incorporada ao IMS em outubro de 2004 e é formada por mais de mil itens, entre livros, periódicos, artigos e vídeos, além de prêmios, medalhas, placas comemorativas e a máquina de escrever da autora.

A escritora foi eleita em 2004 pela Revista Forbes Brasil a mulher mais influente do Brasil na área literária. Em 2005, recebeu o Prêmio Camões, o mais importante prêmio da literatura em língua portuguesa.

Bibliografia

INSTITUTO MOREIRA SALLES. CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA, n. 5: Lygia Fagundes Telles. São Paulo: IMS, 1998.
INSTITUTO MOREIRA SALLES. O escritor por ele mesmo: Lygia Fagundes Telles. São Paulo: IMS, 1997.
MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1974.
OLIVEIRA, Kátia. A técnica narrativa em Lygia Fagundes Telles. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1972.
Revista Cult, n. 23, jun., 1999.
Revista Forbes Brasil, 03.12.2004.

Pesquisa: Maria Inês Rivaben Ricci e Maria Paula Galdino Miyashiro
Texto: Maria Paula Galdino Miyashiro

Fonte: acervos.ims.uol.com.br

Lygia Fagundes Telles

Lygia Fagundes Telles (São Paulo, 19 de abril de 1923) é uma escritora brasileira, galardoada com o Prémio Camões em 2005.

É membro da Academia Paulista de Letras, desde 1982, e da Academia das Ciências de Lisboa, desde 1987.

Biografia

Seu nome de solteira é Lygia de Azevedo Fagundes. Foi a quarta filha de Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, tendo nascido na rua Barão de Tatuí.

Em 1938, dois anos depois da separação dos pais, Lygia publicou o seu primeiro livro de contos, Porão e sobrado com a ajuda de seu pai, assinando como Lygia Fagundes. Em 1939 terminou o curso fundamental no Instituto de Educação Caetano de Campos. No ano seguinte, ingressou na Escola Superior de Educação Física, também em São Paulo, ao mesmo tempo que freqüentou um curso pré-jurídico, preparatório para a Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Em 1941 iniciou o curso de Direito e começou a participar activamente nos debates literários, onde conheceria Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros nomes da cena literária brasileira. Foi na faculdade que conheceu a poeta que veio a ser a sua melhor amiga, Hilda Hilst. Fez, então, parte da Academia de Letras da Faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Ao mesmo tempo, trabalhou no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo para pagar os estudos e a sua própria subsistência. Foi também em 1941 que terminou o curso de Educação Física.

Em 1944 publicou Praia Viva.

Em 1950 casou-se com o jurista Gofredo da Silva Teles Jr. (filho de Gofredo da Silva Teles), que era seu professor na Faculdade de Direito e deputado federal, o que a levou a mudar-se para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal. Em 1952, de volta à sua cidade natal, escreveu o seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, do qual se faria mais tarde uma telenovela, que é editado no ano seguinte, já depois da morte da sua mãe.

Em 1960 separou-se de Gofredo e, no ano seguinte, começou a trabalhar como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Em 1962 passou a viver com Paulo Emílio Salles Gomes. Inspirada pelo contexto político brasileiro, escreveu As Meninas.

Em parceria com Paulo Emílio, fez uma adaptação para o cinema do romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, para o cineasta Paulo César Sarraceni - adaptação que adotaria a alcunha da personagem principal: "Capitu".

Em 1970 recebeu o Grande Prémio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, pelo seu livro de contos Antes do baile. Em 1973, o seu romance As Meninas arrebatou os principais prémios literários brasileiros: o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o prémio de "Ficção" da Associação Paulista de Críticos de Arte. Em 1977, foi galardoada pelo Pen Club do Brasil na categoria de contos, pela sua colectânea Seminário dos Ratos.

Em sequência da morte do seu companheiro, Paulo Emílio Salles Gomes, assumiu a presidência da Cinemateca Brasileira, fundada por este. Em 1982 foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, por 32 votos a 7, foi eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon, tomando posse em 12 de Maio de 1987.

Em 1995, Emiliano Ribeiro apresentou o filme As Meninas, baseado no romance da escritora. Em 2001 voltou a receber o Prémio Jabuti, na categoria de ficção, pelo seu livro Invenção e Memória. Em março de 2001 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília.

A 13 de Maio de 2005 recebe o Prémio Camões, distinguida pelo júri composto por Antônio Carlos Sussekind (Brasil), Ivan Junqueira (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Vasco Graça Moura (Portugal), Germano de Almeida (Cabo Verde) e José Eduardo Agualusa (Angola).

Fonte: pt.wikipedia.org

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