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Dia dos Vidreiros

Tradição brasileira

Mário Seguso não foi o único italiano a deixar o país em busca de novos horizontes e formar profissionais no Brasil. Também na década de 1950, Aldo Bonora, recém-casado, após aprender o ofício em Murano, transferiu- se para o Brasil e, utilizando a estrutura de uma fábrica de vidro desativada, em Poços de Caldas, começou a produzir peças em estilo murano.

Angela Cristina Molinari, responsável pelas vendas, levou seus pequenos irmãos Antonio Carlos e Paulo Molinari para conhecer a produção do vidro, em 1957. Encantados, os meninos passaram por todos os setores da fábrica e logo estavam produzindo pequenos bichinhos e peças de colares, absorvendo o conhecimento do mestre italiano.

Aldo Bonora percebeu o talento da dupla e investiu em seu trabalho, permitindo- lhes liberdade para criar e fazer coisas novas.

Em 1962, quando Bonora afastou-se do trabalho, os irmãos, então com 17 e 14 anos de idade, fundaram sua própria empresa de vidros, a Antonio Molinari e Filhos, que com o aumento progressivo da produção e crescimento dos negócios mudou-se para uma instalação maior e assumiu a razão social de Cristais São Marcos, como é até hoje conhecida.

A exemplo dos italianos, os brasileiros Molinari também transferem o conhecimento e a habilidade na arte vidreira de geração para geração – hoje, filhos, sobrinhos e até netos já estão envolvidos e seduzidos pela magia do vidro. “O meu objetivo pessoal é conseguir transmitir aos meus filhos, sobrinhos e genros, a continuidade de nossos negócios com a mesma seriedade e com o mesmo sucesso que conseguimos atingir”, afirma Antonio Carlos Molinari.

“As perspectivas para nossa empresa é que consigamos consolidar o nome e a qualidade dos produtos da Cristais São Marcos no mercado externo com a mesma força que hoje temos no mercado nacional”.

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Técnica preservada

Mesmo as mais antigas peças produzidas em Murano apresentam-se atuais, uma façanha que se deve à sensibilidade dos mestres em acompanhar a evolução dos estilos de decoração. Ao entardecer, prepara-se a fornace (o forno) para operar no dia seguinte, colocando-se nela os elementos químicos que formam o vidro, que passarão a noite fundindo-se a uma temperatura entre 1.400 e 1.500°C, para que os mestres tenham uma pasta líquida para modelar pela manhã. Durante o dia, a temperatura da fornace baixa 1.150°C, para que a massa seja mantida adequada para a modelagem. O carvão e a lenha foram substituídos por gás metano.

A produção de vidros e cristais numa fornace utiliza, principalmente, a técnica do soffiato, ou trabalho a sopro, empregada na execução de garrafas, lustres, taças, pratos e vasos, por exemplo, e a técnica manual das esculturas e demais objetos sólidos em seu interior.

Da adição de óxidos metálicos à massa de sílica, carbonato de sódio, carbonato de cálcio, nitrato e arsênico obtém-se as variações de cores dos vidros: cobalto para azul, cromo para verde, cádmio para amarelo, selênio para vermelho e manganês para o lilás. Uma das mais típicas e nobres cores utilizadas no trabalho de Murano, o rubino, é obtida com a adição do selênio e micros de ouro à massa vítrea.

Finda a modelagem, as peças são levadas para um forno de resfriamento, com temperatura em torno de 400°C, onde permanecem de 12 a 24 horas até se obter a queda gradual da temperatura. A etapa seguinte à retirada das peças desse forno é a de catalogação para venda.

Formação in loco

O processo inverso – aprender a técnica de soprar vidro (soffiato) em Murano, com mestres como Giuliano Tosi, Valentino Dolcemascolo, Gianpaolo Seguso e Lino Tagliapietra, entre outros – foi a opção da artista plástica Elvira Schuartz, autora do livro “Através do Vidro – objetos e poemas”, no qual cada página é uma verdadeira declaração de amor pela arte vidreira. “A técnica do sopro permite moldar realmente o vidro, já que se trabalha com o material no estado de um líquido viscoso, semelhante a um mel”, explica Elvira. “Como dizia meu mestre muranese Gianpaolo Seguso, ‘moldar vidro é brincar com a arte da luz’”.

O maior desafio para quem quer aprender a soprar vidros, segundo a artista, é equilibrar o vidro na ponta da cana, como se equilibra um mel na ponta de um bastão. A técnica mais popular e mais simples para fazer vidros é a de fusing, (que significa fusão, em português, embora o nome seja pouco usado), na qual se moldam lâminas de vidro que podem ser pintadas em fornos de baixa temperatura.

Hoje, além das peças maravilhosas que cria, Elvira Schuartz ensina a técnica de sopro e moldagem em seu Espaço Zero – Centro de Arte em Vidro, em São Paulo.

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Elvira Schuartz, que aprendeu o ofício em Murano e declara-se uma apaixonada pelo vidro, traduz seu amor em peças e versos: “O vidro é feito de ar, ar que sai do peito, peito onde mora o coração, coração que é o território da alma, alma que é o sopro do homem, do homem que sopra o vidro.” Nas fotos, peças de algumas de suas coleções temáticas:

1- Camaleão, trio de vasos da coleção Metamorfose;

2 - Zebra Bowl e Zebra Vaso, de vidro leitoso preto e branco da coleção Kalahari, inspirada no deserto africano de mesmo nome;

3 - a escultura Ninho, de Suricato, da coleção Kalahari é de cristal soprado;

4 - Dunas Centro, Dunas Lamparina e Dunas Vaso, cristal soprado e vidro âmbar, da coleção Kalahari.

Expressão independente

Lu Barros iniciou sua trajetória com o vidro em 1987, como designer em uma fábrica de vitrais, onde os vidreiros produziam as peças com a técnica de sopro. Também designer de jóias, mas encantada com a alquimia do vidro e fascinada com o brilho do fogo que faz nascer uma matéria tão cristalina, retomou a criação vidreira por suas próprias mãos.

“O que mais me atrai na criação de peças de vidro nesse estilo é a sobreposição de camadas, que criam efeitos gráficos fantásticos com a combinação de cores e transparência, podendo assim ser explorada com muita criatividade e acima de tudo com muita paixão por todo o processo.”

Para Lu Barros é preciso respeitar a matéria, que parece ter vida própria. “Por mais que tentemos controlar seu caminho, ela se expressa da forma que tem de se expressar e as coisas simplesmente acontecem”, afirma. “Mas isso para mim é uma qualidade e não uma dificuldade. Tento aproveitar esta ‘vida’ da melhor maneira possível, e cada trabalho sempre é um aprendizado. Nunca vamos dominar essa matéria por completo e isso é muito estimulante e desafiador”.

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Conhecimento socializado

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Talvez há séculos, em Veneza, a artista plástica Debora Muszkat fosse condenada pela Arti. Hoje, seu projeto de socialização do conhecimento – a Oficina do Vidro - e possibilidade de oferecer uma nova carreira e trabalho para uma população com dificuldade de acesso aos estudos, bem como a portadores de necessidades especiais, só pode ser aplaudido e apoiado.

“Fiz minha primeira experiência de reciclagem de vidro aos 18 anos”, relembra. “Ingressei na área do design, fazendo luminárias e mesas de vidro reciclado e, após cursos na Inglaterra e pesquisas durante anos aqui no Brasil, comecei a produzir peças de design para o mercado vidreiro. O negócio deu tão certo que não havia gente qualificada para atender a demanda. Assim nasceu o projeto de formação, que a Secretaria de Cultura abraçou por um período e me permitiu ensinar e produzir peças com os meninos”.

Debora também acredita que esse material com características específicas deve ser respeitado. “O vidro é delicado e com singularidades próprias de tempo e resfriamento, que se não soubermos lidar com elas a peça trinca ou entorta. Quando bem trabalhado, o vidro pode ser bastante resistente e passar gerações e gerações intacto”.

Fonte: revistadcasa.uol.com.br

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