Na Itália essa nova música ao que parece iniciou com Willaert e seus discípulos, cuja elegante maniera significava a criação de peças com uma harmonia autônoma e uma dramatização do texto cantado no sentido de ilustrar musicalmente as suas nuanças de significado. Foi no terreno da música profana cortesã onde houve maior receptividade às sutilezas subjetivas do Maneirismo.
Teóricos da época estavam cientes de que a compreensão da "mirabil dolcezza" dos estilos enarmônicos e cromáticos era privilégio de poucos [61]. Esses traços são encontrados especialmente entre os compositores de madrigais, um gênero poético e musical polifônico que ressuscitara transformado depois de quase um século de esquecimento e conheceu larga difusão, mostrando grande expressividade e chegando a altos níveis de complexidade e refinamento. Essa nova associação tão íntima entre texto e música tinha raízes no Humanismo renascentista, e fora desenvolvida num entendimento de que a poesia e a música tinham naturezas semelhantes, mas se distinguiam em hierarquia. Para o madrigalista Luzzasco Luzzaschi, a poesia era irmã gêmea da música, mas esta devia ser-lhe subordinada, pois
"uma vez que a poesia foi a primeira a nascer, a música a venera e honra como se fosse sua senhora, numa extensão tal que a música, tendo-se tornado virtualmente uma sombra da poesia, não ousa mover seu pé se sua senhora não a tiver precedido. Então, se o poeta eleva sua voz, a música sobe seu tom; ele chora se o verso chora, ri se ele ri, se corre, se pára, implora, nega, grita, emudece, vive, morre, todos esses afetos e efeitos são tão vividamente expressos pela música que o que se deveria chamar propriamente de semelhança parece quase competição" [62].
Ele, mais Nicola Vicentino, Cipriano de Rore, Luca Marenzio e outros se tornaram célebres pelo seu experimentalismo harmônico no madrigal, embora não tenham chegado aos extremos de Carlo Gesualdo, o mais intensamente dramático dentre todos, cujos cromatismos avançados são um caso único em sua época e prefiguram em alguns momentos a música moderna [63].
O madrigalismo cromático e expressivo desses mestres empregava, porém, um sistema sonoro mais antigo, pois somente dentro de um contexto reconhecido seus experimentos poderiam ser julgados e apreciados, mas eles levam esse sistema ao seu limite.
Outro dado importante na formulação do Maneirismo musical foi uma mudança na teoria em favor do julgamento das consonâncias e dissonâncias através do ouvido e das necessidades expressivas, e não mais a partir de modelos matemáticos pré-estabelecidos, opinião que se inseriu na mesma polêmica que andava em curso entre os adeptos da prima prattica e da seconda prattica, ou seja, entre os seguidores do antigo contraponto rigoroso e os que advogavam a liberdade para a dramatização de uma vasta gama de afetos, realização que lhes parecia impossível dentro do arcabouço harmônico antigo [64].
Mas paralelamente às conquistas dessa vanguarda, compositores como Giovanni da Palestrina e Orlande de Lassus dominaram a cena no âmbito sacro ao longo de quase todo o século XVI e foram um padrão para todo o continente.
Seu estilo na maior parte das vezes em nada evidencia a agitação e instabilidade que tipificam o Maneirismo nas outras artes, ao contrário, revela uma harmonia, dignidade e contenção que têm paralelo muito mais nas obras plásticas da Alta Renascença. Mesmo assim Palestrina foi incluído entre os "modernos" por seus próprios contemporâneos por estabelecer um esquema baseado na simplificação dos antigos modos. No final do século o estilo descritivo dos madrigais encontraria um novo campo de expressão no desenvolvimento do proto-operismo monódico de Giulio Caccini, Jacopo Peri e outros, precursores de Monteverdi na ópera e na derradeira floração do madrigal [65][66][67].
Na literatura o Maneirismo se caracteriza, como nas artes visuais, principalmente pela perda da unidade clássica, que reflete a consciência dramática de que todo um ciclo cultural e civilizatório, que deixara uma impressão de grandeza e estabilidade, estava encerrando. Tornam-se comuns na produção dos autores da época sentimentos de dúvida, fracasso, ambigüidade, duplicidade e ironia, e o fantasioso surge como uma fuga dos tumultos da realidade concreta, elementos que denunciam um desejo intenso de ordem e paz, ou atestam que sua conquista é inexeqüível [68]. A crise espiritual ocasionada pela ruptura da unidade religiosa na Europa do século XVI repercute na literatura também através da profusão de traduções da Bíblia do latim para os vernáculos, estabelecendo novos padrões para a escrita em prosa [69].
Ilustração de Gustave Doré para o Dom Quixote, na cena em que o Cavaleiro da Triste Figura embate contra moinhos de vento imaginando que são gigantes
Reconstrução moderna do teatro The Globe, onde atuou Shakespeare, com a representação da peça A Comédia dos Erros.
Alguns nomes ligados às letras que trabalharam em formas maneiristas foram John Donne, os poetas da Pléiade francesa, Giovanni della Casa e Giambattista Marino, mas comentar a obra de apenas três autores, na poesia, prosa e teatro, será suficiente para conhecermos as linhas gerais do estilo: Tasso, Cervantes e Shakespeare.

Ilustração de Gustave Doré para o Dom Quixote, na cena em que o Cavaleiro
da Triste Figura embate contra moinhos de vento imaginando que são gigantes.
Torquato Tasso, em sua Gerusalemme Liberata (1575) longo poema épico de grande difusão, mostra seu herói Godofredo de Bulhões enfrentando a nulidade de seus ideais diante do testemunho dos fatos, e sofre grande pesar vendo que seu desejo de construir uma comunidade de homens valorosos e leais se torna impossibilitado pela mesquinhez, ambição e hedonismo das pessoas, que são levadas mais pelas pulsões da paixão e do materialismo do que pelos princípios éticos [70].
O paradoxo temático e moral que o poema traz à luz, além de refletir os sentimentos gerais da época, também espelhava as dúvidas que cercavam a própria noção de poesia - sua função, natureza e suas normas - foco de um veemente debate entre os teóricos da época, uns defendendo para ela uma natureza funcional e pedagógica, outros seu caráter eminentemente sensual, no sentido de existir para agradar aos sentidos somente. Mas a luta entre os moralistas e os hedonistas foi resolvida por outros que consideravam-na passível tanto de agradar quanto de instruir, dizendo que ela pode ensinar um bom modo de viver, acendendo os sentidos através da ilustração de situações variadas, e os educando por relatar com engenho e arte as consequências daquelas situações, conduzindo o espírito em direção a uma condição de paz e tranquilidade que também é fonte de prazer [71].
O protagonista de Cervantes em Dom Quixote (1605-15), passa a maior parte do tempo num mundo ilusório só seu, que, embora possua altos e belos ideais e uma ética cavaleiresca imaculada, não corresponde à verdade de sua época, e disso deriva o efeito ora burlesco, ora patético, ora onírico, ora sublime e poético, e ora trágico, do romance.
Uma diferença essencial entre a literatura clássica e a maneirista é que aquela tinha personagens com caracteres claramente definidos, eram bons ou maus, eram ladrões ou heróis, e se resumiam basicamente a tipos relativamente impessoais, com feições imutáveis e cujo comportamento era até certo ponto previsível. Mas agora um único personagem podia incorporar os opostos em si, e todos os estados intermédios. Além da personalidade dos personagens ter sofrido uma complexificação inédita, a própria forma e estrutura da narrativa se modifica.
O Quixote é cheio de cortes abruptos, desfechos imprevistos, distrações do foco principal, tem uma estrutura frouxa e informal, e faz extenso uso do linguajar cotidiano ao lado de alusões eruditas, num resultado cuja variedade e falta de uma uniformidade, que já são modernas, também concorrem para ele permanecer atual e vivo até os dias de hoje [72][73].
A outra grande figura da literatura maneirista, que nos auxilia a compreender o estilo, é o polimorfo e prolífico Shakespeare, cuja obra sofre uma transformação ao longo do tempo que ilustra bem a passagem da atmosfera renascentista humanista, idílica e classicista, para o maneirismo e sua melancolia, desencanto, complexidade e pathos, e já apontando para os contrastes do Barroco.
Sua dramaturgia reflete sua experiência de que "a idéia pura não pode se realizar na terra, e que ou a pureza da idéia tem de ser sacrificada à realidade, ou se deve manter a realidade não afetada pela idéia", um conceito que em si não era novo, mas acrescentando uma dimensão trágica nova a esse casamento impossível, pelo fato de que a vitória moral do herói se dá muitas vezes em virtude de sua derrocada, numa visão sobre o destino que diverge da clássica.
Em termos de forma suas peças se realizam, como em Cervantes na prosa, com quebras de continuidade, com um tratamento livre e desigual do espaço e do tempo, na recusa da economia, ordem e linearidade clássicas, na contínua e extravagante expansão e variação do seu material, na caracterização psicológica inconsistente, ambígua e imprevisível dos seus personagens, na justaposição de recursos altamente formalistas e convencionais com outros tirados do prosaico, do improvisado e do vulgar.
É também um típico maneirista quando se vale de metáforas obscuras e sobrecarregadas, do mágico e do fantástico, de antíteses, assonâncias e trocadilhos, do intrincado e do enigmático, e quando põe em crua evidência os pontos fracos dos heróis, que podem ser muitos e profundos, e que por isso mesmo os tornam aos olhos modernos tão reais, vivos e verdadeiros [74][75].
Legado

Parmigianino: Auto-retrato, c. 1523/1524. Kunsthistorisches Museum
Depois de longo período em descrédito, considerado uma deplorável degeneração do classicismo, o Maneirismo nos aparece agora como um estilo possuidor de uma dignidade própria, que deixou um grande acervo de realizações do mais alto quilate. Também ele vem sendo visto como a primeira escola de arte moderna, principalmente por sua valorização das visões individuais num mundo que até então era regido por valores ditados pelas estruturas políticas e religiosas e pelas convenções genéricas da sociedade. Os maneiristas foram os primeiros criadores que procuraram se evadir do controle de normas apriorísticas impostas a partir de fora, mesmo que essa evasão fosse cerceada por muitos lados e só pudesse se expressar muitas vezes de formas veladas. Ao mesmo tempo, preservaram e revitalizaram um grande repertório de temas e formas clássicas que herdaram dos renascentistas, e os transmitiram à geração barroca.
Incentivaram o espírito de pesquisa formal e teórica, e uma nova maneira de observar e descrever a Natureza, ao mesmo tempo mantendo vivo um traço de ceticismo sobre ela que mantinha livre um canal para a expressão da originalidade, da fantasia e da genuína criatividade, e questionava a primazia absoluta do racionalismo e do equilíbrio idealista e da própria noção de beleza [76][77].
O Maneirismo também foi importante porque, pela sua própria natureza ambivalente e contraditória, representou um momento de universalismo e de abertura para a diversidade depois das delimitações nacionalistas e da ortodoxia estética do Renascimento; foi assim a primeira linguagem pan-européia desde o Gótico.
Sendo em essência cortesão, pelo menos em sua origem, foi o início de uma nova forma de desfrutar a arte apenas como prazer privado, e não necessariamente como afirmação pública de poder e de ideologia. De outra parte, rompeu definitivamente com a longuíssima tradição que atribuía ao artista o papel de intérprete e servo da sociedade em que vivia, e de um membro anônimo a mais numa confraria de simples operários especializados, mas agora, tendo experimentado todas as formas de sublimação, formulação e comunicação de valores coletivos, conhecia sua própria subjetividade interna e doravante jamais a perderia de vista. Não que a consciência da subjetividade fosse uma descoberta nova, mas se tornaria para o futuro um valor por si mesma numa personalidade artística individualizada e única. Esse processo retirou a base de segurança que as estruturas e instituições coletivas proporcionavam para o criador, mas lançou o artista na aventura da liberdade, com todos os riscos e glórias que ela possa acarretar [78].
Referências
Fonte: pt.wikipedia.org