Facebook do Portal São Francisco Google+
+ circle
Home  Memórias De Um Sargento De Milícias - Página 5  Voltar

Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Antônio de Almeida

TOMO II

CAPÍTULO II

TRAMA

Como esta cena que acabamos de pintar tinha a comadre muitas outras todos os dias, porque era uma das parteiras mais procuradas da cidade; gozava grande reputação de muito entendida, e ainda nos casos mais graves era sempre a escolhida com os seus milagrosos bentinhos, a palma benta, a medida de Nossa Senhora, a garrafa soprada, e com a invocação de todas as legiões de santos, de serafins e de anjos livrava-se ela dos maiores apertos. E ninguém lhe fosse dar regras, que as não ouvia, nem do físico-mor, se nisso se metesse: era só olhar para uma mulher de esperanças, e dizia-lhe logo sem grande trabalho o sexo, o tamanho do filho que trazia nas entranhas, e com uma pontualidade miraculosa o dia e hora em que teria de ver-se desembaraçada; até às vezes, por certos sinais que só ela conhecia, chegava a dizer qual seria o gênio e as inclinações do ente que ia ver à luz. Já se vê que esta vida era trabalhosa e demandava sérios cuidados; porém a comadre dispunha de uma grande soma de atividade; e, apesar de gastar muito tempo nos deveres do ofício e na igreja, sempre lhe sobrara algum para empregar em outras coisas. Como dissemos, ela havia tomado a peito a causa dos amores de Leonardo com Luizinha, e jurara pôr José Manuel, o novo candidato, fora da chapa.

Começou pois a ocupar o seu tempo disponível nesse grave negócio, e movia uma intriga surdíssima e constante contra o rival de seu afilhado. Gozando da intimidade e do crédito de D. Maria, não perdia junto dela ocasião de desconceituar José Manuel, o que era-lhe tanto mais fácil quanto ele prestava-se a isso, e D. Maria, de espírito demandista e chicaneiro, dava o cavaco por um mexerico. Eis aqui uma das que ela armou ao adversário.

Todos sabem nesta cidade onde é o Oratório de Pedra; mas o que todos talvez não saibam é para que serviu ele em outros tempos. Sem dúvida naquele oratório havia a imagem de algum santo, e o povo devoto ia ali rezar? Exatamente. Mas por que é que hoje não continua essa prática, por que apenas se conserva sobre a parede aquela espécie de guarita de pedra, sem imagem alguma, sem luz à noite, e diante da qual passam todos irreverentemente sem tirar o chapéu e curvar o joelho? Primeiro que tudo extinguiu-se isso pela razão por que se extinguiram muitas coisas boas daquele bom tempo; começaram todos a aborrecer-se de achá-las boas, e acabaram com elas. Depois houve a respeito do Oratório de Pedra muito boas razões policiais para que ele deixasse de ser o que era.

O leitor, que sem dúvida sabe muito bem de quanto eram nossos pais crentes, devotos e tementes a Deus, se admirará talvez de ler que houve razões policiais para a extinção de um oratório. Entretanto é isso uma verdade, e se fosse ainda vivo o nosso amigo Vidigal, de quem já tivemos ocasião de falar em alguns capítulos desta historieta, poderia dizer quanto garoto pilhou em flagrante delito, ali mesmo aos pés do oratório, ajoelhado, contrito e beato.

Quando passava a via-sacra e que se acendia a lâmpada do oratório, o pai de família que morava ali pelas vizinhanças tomava o capote, chamava toda a gente de casa, filhos, filhas, escravos e crias, e iam fazer oração ajoelhando-se entre o povo diante do oratório. Mas se acontecia que o incauto devoto se esquecia da filha mais velha que se ajoelhava um pouco mais atrás e embebido em suas orações não estava alerta, sucedia-lhe às vezes voltar para casa com a família dizimada: a menina aproveitava-se do ensejo, e sorrateiramente escapava-se em companhia de um devoto que se ajoelhara ali perto, embrulhado no seu capote, e que ainda há dois minutos todos tinham visto entregue fervorosamente a suas súplicas a Deus.

Aquilo era a execução do plano concertado na véspera ao cair de ave-marias, através dos postigos da rótula. Outras vezes, quando estavam todos os circunstantes entregues à devoção, e que a ladainha entoada a compasso enchia aquele circuito de contrição, ouvia-se um grito agudo e doloroso que interrompia o hino; corriam todos para o lugar donde partira, e achavam um homem estendido no chão com uma ou duas facadas.

Não levamos ainda em conta as inocentes caçoadas que a todo o instante faziam os gaiatos. Eis aqui pois por que, além de outros motivos, dissemos que tinham havido razões policiais para que se acabasse com as piedosas práticas do Oratório de Pedra.

No tempo em que se passavam as cenas que temos narrado, ainda o Oratório de Pedra estava no galarim. Um ou dois dias depois do nascimento do segundo filho de Leonardo-Pataca correu pela cidade a notícia de um grande escândalo que se passara nesse lugar clássico dos escândalos: uma moça, que vivia em companhia de sua mãe, velha, rica e devota, indo com ela rezar junto ao Oratório, na ocasião da passagem da via-sacra, fugira, tendo levado consigo um pé de meia preta contendo uma boa porção de peças de ouro. Falava-se muito no caso, não porque fosse naquele tempo coisa de estranhar-se, mas porque havia um mistério no sucesso: ninguém sabia com quem tinha fugido a moça.

D. Maria, como todos, estava ansiosa por ver deslindada a questão, quando lhe apareceu em casa a comadre que a vinha visitar.

D. Maria estava sentada na sua banquinha, tendo diante de si uma enorme almofada de renda carregada com seis ou sete dúzias de bilros, e esmerava-se em fazer um largo pegamento. A seu lado, sentada em uma esteira, cercada por uma porção de negrinhas, crias de D. Maria, estava Luizinha também ocupada em fazer renda.

Quando a comadre entrou, D. Maria largou imediatamente a almofada do colo, tirou do nariz e pôs na testa um par de óculos de aros de prata com que trabalhava, e começou logo por tocar no caso que a preocupava. A comadre fez sinal que mandasse retirar Luizinha e as mais crianças; e a conversa caminhou livremente.

— Então que me diz, senhora, da desgraça da pobre velha? Criar a gente uma rapariga com todo o carinho, e no fim ter aquela recompensa!... no meu tempo não se viam coisas destas...

— Que quer, senhora? respondeu a comadre; pois foi ali, nas barbas de todos. Não havia um instante que ela havia chegado com a velha, e que se tinham todas duas ajoelhado ao pé de mim...

— Ao pé da comadre? Pois a comadre estava lá?...

— Estava... que antes não estivesse...

— Mas o diabo, senhora, acrescentou D. Maria, é ninguém saber quem foi o maldito que fugiu com ela...

A comadre interrompeu, dando uma risadinha sardônica.

— Tenho perguntado a todos, e ninguém sabe dizer-me.

— É porque todos estavam cegos...

— Como?

— Mas não o estava eu, por mal de meus pecados, que antes estivesse...

— Pois viu e sabe com quem foi... disse D. Maria, remexendo-se de prazer em cima da banquinha.

A idéia de poder saber de uma novidade que todos ignoravam encheu-a de contentamento.

— Mas então quem foi, vamos; quero saber quem foi o ladrão da moça e do dinheiro...

— Só lhe direi, respondeu a comadre depois de alguma hesitação, se me prometerdes guardar todo o segredo, que o caso é muito sério.

— Ora, bem sabe que eu... é o mesmo que cair num poço.

Apesar de estarem sós, a comadre inclinou-se ao ouvido de D. Maria, e disse-lhe o mais baixinho que pôde:

— Foi o nosso grande camarada... a boa peça do José Manuel...

— O que é que diz, comadre?

— Vi, respondeu esta, arregalando com dois dedos os olhos, com estes que a terra há de comer... Se eles estavam ao pé de mim...

D. Maria ficou por algum tempo muda de estupefação.

TOMO II

CAPÍTULO III

DERROTA

Aquelas últimas palavras da comadre produziram sobre D. Maria o efeito de um raio: a velha remexeu-se na banquinha, tomada do maior desapontamento.

— Ora, comadre, exclamou depois da primeira emoção, esta não lembra ao diabo... por isso eu sigo a regra antiga de me não fiar em coisa que traz calções... Safa... que esta pôs-me sal na moleira.

A comadre, vendo estas boas disposições, aproveitava-se delas para fazer melhor o seu papel, e respondeu:

— Pois também o que se havia de esperar de um sujeito como aquele?... um homem que não abre a boca que não minta... que tem uma língua de Lúcifer?... Quem contasse com aquilo era mesmo para se perder.

— É verdade, senhora; nunca vi mentiroso, nem maldizente maior...

Nunca D. Maria até então tinha encontrado em José Manuel as qualidades que agora descobria tanto em relevo.

— Se eu fosse parente da rapariga havia pôr uma demanda ao tal diabo que o havia ensinar... Por isso é que ele me não aparecia por cá há tanto tempo... andava cuidando nos seus arranjos.

Mal tinha D. Maria acabado de pronunciar estas últimas palavras quando se ouviu bater à porta, e a voz de José Manuel pedir licença.

— Aí está ele... segredo... não quero que se saiba que fui eu, disse a comadre apressada.

— Ora, respondeu D. Maria, eu cá para isso sou boa.

José Manuel entrou. D. Maria, que não costumava guardar o que sentia, recebeu-o friamente; a comadre porém fez-lhe um rasgado cumprimento.

— Seja bem aparecido, disse, bons olhos o vejam.

— Tenho andado aí ocupado com alguns arranjos...

— Arranjos... disse D. Maria trocando com a comadre um olhar significativo.

José Manuel, inocente em tudo, ficou pasmo, sem entender o que queria aquilo dizer; entretanto, segundo o costume, não perdeu ocasião de armar uma peta.

— Sim, uns arranjos, acrescentou; houve um negócio muito sério em que estive metido, e que me ia dando bem que fazer; sinto não lhe poder contar, porque é segredo.

A comadre fez um gesto, como quem queria dizer — aí vem uma peta; D. Maria, porém, que estava preocupada pela conversa que há pouco tivera, entendeu que José Manuel se referia ao roubo da moça; e abanando a cabeça, disse por entre os dentes:

— Hum... entendo...

A comadre estremeceu temendo que D. Maria não desse com a língua nos dentes, e que a questão do roubo da moça tivesse de ser averiguada em sua presença; porque nesse caso seria ela apanhada em flagrante mentira, e estava tudo perdido. Começou portanto a provocar a José Manuel a que declarasse qual era o negócio sério em que estivera metido; contava com algumas das petas continuadas, e assim se desviaria a conversa do ponto que ela não queria ver tratado em sua presença.

Deixemo-la nesse empenho lutar com as negaças e fingidos mistérios de José Manuel.

Desde o dia em que Leonardo fizera a sua declaração amorosa, uma mudança notável se começou a operar em Luizinha, a cada hora se tornava mais sensível a diferença tanto do seu físico como do seu moral. Seus contornos começavam a arredondar-se; seus braços, até ali finos e sempre caídos, engrossavam-se e tornavam-se mais ágeis; suas faces magras e pálidas, enchiam-se e tomavam essa cor que só sabe ter o rosto da mulher em certa época da vida; a cabeça, que trazia habitualmente baixa, erguia-se agora graciosamente; os olhos, até aqui amortecidos, começavam a despedir lampejos brilhantes; falava, movia-se, agitava-se.

A ordem de suas idéias alterava-se também; o seu mundo interior, até então acanhado, estreito, escuro, despovoado, começava a alargar os horizontes, a iluminar-se, a povoar-se de milhões de imagens, ora amenas, ora melancólicas, sempre porém belas.

Até então indiferente ao que se passava em torno de si, parecia agora participar da vida, de tudo que a cercava; gastava horas inteiras a contemplar o céu, como se só agora tivesse reparado que ele era azul e belo, que o sol o iluminava de dia, que se recamava de estrelas à noite.

Tudo isto dava em resultado, pelo que diz respeito ao nosso amigo Leonardo, um aumento considerável de amor; também ele foi o primeiro que deu fé daquelas mudanças em Luizinha. Entretanto, apesar de lhe crescer o amor nem por isso lhe nasciam mais esperanças.

Depois da declaração não se tinha adiantado nem mais uma polegada, e a única coisa talvez que o alentava era um certo rubor que súbito subia às faces de Luizinha quando acontecia (raras vezes) que se encontrassem os olhos dela com os seus. A soma total destas adições era uma raiva que lhe crescia n’alma, aumentando todos os dias de intensidade contra José Manuel, a quem em seus cálculos atribuía todo o seu atraso.

Dadas estas explicações, voltemos a dar conta do resto da cena que deixamos suspensa.

À força de instâncias a comadre conseguiu que José Manuel referisse qual o negócio de alto segredo em que se tinha achado envolvido.

— Pois bem, disse ele finalmente, se prometem toda a discrição, contarei.

— Ora, nem tem que recomendar isso.

Com as negaças e mistérios que tinha guardado até então, José Manuel não fizera mais do que ganhar tempo para imaginar a mentira que havia de pregar: a comadre contava com isso.

Ele começou:

— Saibam vm.cês que fui um destes dias chamado a palácio...

— Ui! exclamou a comadre.

— Aí está o resultado, disse D. Maria; mas não se pagam na outra vida, é mesmo nesta.

— Resultado de quê? perguntou José Manuel surpreendido.

— De nada; continue.

José Manuel enfiou então tomando por tema aquelas primeiras palavras que lhe tinham vindo à boca, uma mentira muito sem sabor, que nós poupamos aos leitores. Não foram porém satisfeitas as vistas da comadre, que queria desviar a conversa do furto da moça.

Terminada a história, José Manuel começou a instar com D. Maria para que lhe desse explicação das palavras duvidosas que há pouco havia dito a seu respeito. A comadre, assim que viu o negócio neste pé, foi tratando de retirar-se, depois de trocar com D. Maria um olhar que queria dizer: — não me comprometa.

D. Maria a princípio quis sustentar o segredo; afinal não se pôde conter, e soltou contra José Manuel uma grande alicantina, dizendo que toda a cidade estava cheia do horroroso escândalo que ele acabava de cometer roubando uma filha-família.

O homem foi às nuvens, e jurou e trejurou que estava inocente em tudo aquilo. Nada porém lhe valeu.

D. Maria foi inflexível.

Protestou de novo que se ela fosse parenta da moça o Sr. José Manuel se havia de ver em calças pardas com o negócio; e terminou por dar-lhe a entender que ele era um homem muito perigoso para ser admitido em uma casa de família.

José Manuel saiu completamente corrido e cismando em quem poderia ter sido o autor de semelhante intriga.

Quanto a D. Maria, ficou muito satisfeita, pois, tendo no seu caráter um grande fundo de honestidade, julgava ter feito uma boa ação rompendo com José Manuel, que ficara com efeito, como o calculara a comadre, perdendo muito no seu conceito.

voltar 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 avançar
Sobre o Portal | Política de Privacidade | Fale Conosco | Anuncie | Indique o Portal