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Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Antônio de Almeida

TOMO II

CAPÍTULO VI

PIOR TRANSTORNO

Um dia o Leonardo recolhera-se para casa muito mortificado, pois que tendo ido visitar D. Maria estivera com ela longo tempo sem que Luizinha lhe tivesse aparecido; de maneira que lhe fora forçoso no fim de algumas horas retirar-se sem vê-la. Quem já teve um namoro, por menos sério que seja, e que levou um logro destes; quem se viu obrigado a aturar por muito tempo a conversação de uma velha, tendo de concordar com ela em tudo e por tudo para não incorrer-lhe no desagrado, só com o fim de trocar com alguém um olhar rápido, um sorriso disfarçado ou outra coisa assim, e que por fim de contas nem isso mesmo conseguiu, há de concordar que o Leonardo tinha toda a razão de estar ardendo com o que lhe sucedera, e o desculparia de qualquer arrebatamento que na ocasião o acometesse. Há espíritos porém de tal maneira serrazinas, que se divertem em aumentar a irritação alheia, e que quanto mais enfiado pilham um infeliz, tanto mais gostam de atirar-lhe alfinetadas.

Chiquinha, a amante de Leonardo-Pataca, era de um gênio assim; e depois que moravam todos juntos, não perdia uma só dessas ocasiões em virtude da antipatia que tinha ao rapaz, para fustigar de língua ao pobre Leonardo. Este, de um gênio colérico e pouco acostumado a ser contrariado, ia às nuvens com semelhante coisa; e, se em ocasiões ordinárias em que estava de bom humor eram constantes as brigas em casa, calcule-se o que não faria nas ocasiões como naquela a que nos referimos, que estivesse cheio de razões, e então por que motivo! Vendo Chiquinha entrar o Leonardo pela porta adentro de cara amarrada e sem dar — Deus te salve — a ninguém, sorriu-se com malignidade e concertou a garganta, dizendo entre dentes:

— Melhor cara traga o dia de amanhã.

Leonardo, que percebera o que aquilo queria dizer, fez um gesto arrebatado sentando-se em uma cadeira, porém com tanta infelicidade, que atirou ao chão uma almofada de renda que se achava junto dele: com a queda rebentaram-se os fios, e uma porção de bilros rolou pela casa. Por maior infelicidade ainda a almofada era de Chiquinha, e Chiquinha tinha grandes ciúmes pela sua almofada. Levantou-se ela do seu lugar já fervendo de raiva; pôs as mãos nas cadeiras, e, balançando a cabeça à medida que falava, exclamou:

— Ora, dá-se um desaforo de tamanha grandeza?... vir da rua com os seus azeites, todo esfogueteado, e de propósito, e muito de propósito, fazer-me o que estão vendo, só para me desfeitear, como se fosse aqui um dono de casa que pudesse desfeitear a qualquer sem quê nem para quê!...

Leonardo ouviu tudo sem interromper, procurando sopear a raiva; e enquanto Chiquinha tomava fôlego, respondeu com voz trêmula e entrecortada:

— Não se meta com a minha vida, porque eu também não me importo com a sua; se estou com os azeites...

— Ah! bom côvado e meio! atalhou Chiquinha, ah! bordo da nau!... ah! major Vidigal!...

— Já lhe disse...

— Qual já lhe disse, nem meio já lhe disse!... namorado sem ventura...

Estas palavras fizeram o efeito de uma faísca em um barril de pólvora. Avançou o Leonardo para Chiquinha com os punhos cerrados e espumando de cólera.

— Se me diz mais meia palavra... perco-lhe o respeito... eu nunca lhe dei confiança; e apesar de ser a senhora lá o quer que é de meu pai... perco-lhe o respeito...

— Você sempre mostra que tem raça de saloio, disse Chiquinha empertigando-se e sem recuar um passo.

O Leonardo-Pataca, que estava no interior da casa, acudiu apressado ao barulho, e veio achar os dois ainda em atitude hostil; vendo o filho quase não quase a desfeitear o adorado objeto de seus derradeiros afetos, não trepidou em desbaratar com ele.

— Pedaço de mariola... pensas que isto aqui é como a casa de teu padrinho donde saíste... quero aqui muito respeito a todos... do contrário... se já uma vez te dei um pontapé que te fiz andar muitos anos por fora, dou-te agora outro que te ponha longe daqui para sempre...

— Nunca pensei, interrompeu Chiquinha dirigindo-se ao Leonardo-Pataca, querendo afear mais o caso; nunca pensei que na sua companhia se viesse a sofrer semelhante coisa...

— Não faças caso, menina, isto é um pedaço de mariola a quem hei de ensinar; por causa de ninguém dou-lhe eu uma rodada, se não por tua causa...

— Por causa dela!... atalhou o rapaz; tinha que ver! há de lhe dar bom pago; tão bom como a cigana...

— Mas nunca lhe hei de dar, acudiu Chiquinha enfurecida com este insulto; nunca lhe hei de dar o que lhe deu tua mãe...

Com isto o Leonardo-Pataca desacoroçoou completamente; que dilúvio de amargas recordações não fizeram tão poucas palavras cair sobre sua cabeça!

— Espera, maltrapilho, espera que te ensino, exclamou vermelho de cólera; espera que te ensino...

E entrando repentinamente no quarto da sala, saiu de lá armado com o espadim do uniforme, e investiu para o filho. Convém dizer que o espadim ia embainhado.

— Não se ponha a perder por minha causa, exclamou Chiquinha agarrando-o pela camisola de chita com que ele estava vestido.

Era inútil porém o medo de Chiquinha, porque o rapaz, vendo que o negócio ia-se tornando feio, tendo-lhe ficado um terror instintivo do pai depois daquele pontapé que nunca lhe saíra da memória, tinha-se posto ao fresco na rua, fechando a rótula sobre si.

— Ah! maroto, disse ainda o Leonardo-Pataca, que te havia desancar...

O Leonardo que fugia por um lado e a comadre que entrava por outro, pois estivera ausente durante toda a cena. Apenas foi largando a mantilha e viu os dois atores que tinham ficado em cena ainda nas posições do último quadro, tratou de indagar qual fora o drama que se acabava de representar.

— Ora, foi uma das costumadas do afilhado dos seus amores, respondeu Chiquinha, ainda não sossegada.

— Porém ia-lhe saindo caro desta vez, acudiu Leonardo-Pataca.

— Pois deveras, atalhou a comadre indignada; pois deveras o compadre estava armado de espada para dar no rapaz?

— Olá! que levava tão duro como osso!

— Mas então por quê? quantas mortes fez ele de uma vez? onde é que pôs fogo na casa? Triste coisa é um filho sem mãe!... Aposto que se eu cá estivesse nada havia de suceder?...

— Sim, respondeu Chiquinha, porque logo havia de tomar as dores por ele, segundo é seu costume. Aí está; muitos filhos têm mãe, e entretanto elas servem-lhes para isto: tomam as dores por outros, e deixam-nos de banda.

— Qual! histórias! é que tudo leva seu bocado de mau caminho.

— Oh! senhora! atalhou Leonardo-Pataca, se isto vai assim, não há um momento de sossego nesta casa; acabada uma, começa outra; o que não há de dizer esta vizinhança? Olhem que isto aqui é casa de um Oficial de Justiça.

— Mas enfim, disse a comadre, onde está o rapaz? onde é que o enterraram?

— Saiu por ali desencabrestado, e tomara que cá não volte.

— Ora, está bonito! Oh! mas isto não pode ser assim; correrem com o rapaz de casa para fora!... Ele não é nenhum desgraçado, pois sempre tem o que lhe deixou seu padrinho.

— Essas e outras é que o puseram a perder.

— Sim, metam-lhe fumaça de rico na cabeça, e hão de ver no que dá.

— Coitado, disse lamentando a comadre, aquele nasceu com má sina.

E, tomando de novo a mantilha, saiu com as lágrimas nos olhos em procura de Leonardo.

Ao sair escoravam-na à janela três ou quatro vizinhas.

— Então, o que é que fizeram ao moço?

— Que foi isso, Sra. comadre?

— Ele passou por aqui pondo dez léguas por hora.

— Deixe-me, deixe-me, respondeu a comadre, que isto não acaba bem.

TOMO II

CAPÍTULO VII

REMÉDIO AOS MALES

O pobre rapaz saíra, como dissemos, pela porta fora, e caminhando apressadamente olhava de vez em quando para trás, pois julgava ver ainda enristado contra si o espadim com que o pai o ameaçara, que parecia com ele querer acabar a obra que com um pontapé começara. Andou a bom andar por largo tempo, e foi dar consigo lá para as bandas dos Cajueiros: cansado, ofegante, sentou-se sobre umas pedras, e quem o visse com ar tristonho e pensativo julgaria talvez que ele cismava na sua posição e no caminho que havia tomar. Pois enganava-se redondamente quem tal julgasse: pensava em coisa muito mais agradável; pensava em Luizinha. Pensando nela não podia, é verdade, abster-se de ver surgir diante dos olhos o terrível José Manuel; e isto explicava certos movimentos de impaciência que de vez em quando se lhe podiam observar. Tinha gasto largo tempo nesta meditação, quando foi repentinamente acordado por umas poucas de gargalhadas partidas detrás de umas moitas vizinhas. Estremeceu da cabeça aos pés; pareceu-lhe que lhe tinham lido os pensamentos que lhe passavam pela mente e que se riam dele. Voltou-se, nada viu; guiado por um rumor que ouvia, começou a procurar, e sem grande trabalho viu, atrás de umas moitas um pouco altas, uns poucos de rapazes e raparigas, que, assentados em uma esteira entre os restos de um jantar, debruçavam-se curiosos sobre dois parceiros, que, com um baralho de cartas amarrotado e sujo, desencabeçavam uma intrincada partida de bisca! As gargalhadas que ouvira há pouco tinham sido a conseqüência de um capote que um deles acabava de levar. À vista daqueles restos de um jantar, que, se não parecia ter sido abundante, fez-lhe lembrar que saíra de casa na ocasião de pôr-se a mesa, deu-lhe então o estômago umas formidáveis badaladas. Tentou entretanto voltar, porque não se queria meter em festa alheia, quando, levantando um dos jogadores a cabeça, conheceu nele um seu antigo camarada, o menino que fora sacristão da Sé. Ainda que apesar disso se quisesse retirar, já era tarde, porque com o movimento que fizera, o jogador, dando com ele, o havia também conhecido.

— Olá Leonardo! por que cargas-d’água vieste parar a estas alturas? Pensei que te tinha já o diabo lambido os ossos, pois depois daquele maldito dia em que nos vimos em pancas por causa do mestre-de-cerimônias, nunca mais te pus a vista em cima.

Leonardo chegou-se ao rancho, e trocados os cumprimentos com o seu antigo camarada foi convidado a servir-se de alguma coisa do que ainda havia. Quis fazer cerimônia, mas não estava em circunstâncias disso: uma das moças serviu-o, e, enquanto continuava a bisca, comeu ele a barrete fora.

— Escorropicha essa garrafa que aí resta, disse-lhe o amigo, e vê se o vinho tem o mesmo gosto daquele que em outro tempo escorropichávamos juntos das galhetas da Sé, com desespero de meu pai e furor do mestre-de-cerimônias .

Quando Leonardo acabou de comer, acabaram também os dois parceiros de jogar; chamou então o amigo à parte, e perguntou-lhe:

— Então que gente é esta com que te achas aqui de súcia?

— É minha gente.

— Tua gente?

— Sim, pois não vês aquela moça morena que ali está?

— Sim, e então?

— Ora!...

— Pois tu casaste?

— Não... mas que tem isso?

— Ah!... estás de moça!

— E tu?

— Eu... ora, nem te digo... morreu meu padrinho.

— Sim, ouvi dizer.

— Fui para a casa de meu pai... e, de repente, hoje mesmo, brigo lá com a cuja dele; ele corre de espada atrás de mim, e eu safo-me. Parei ali adiante, e as gargalhadas que vocês aqui davam...

— Sei do resto... E agora tu não tens para onde ir?

— Homem, eu ia ver...

— Ver o quê?

— Ver por aí...

— Por aí, por onde?

— Nem mesmo eu sei...

E desataram os dois a rir. Quando temos apenas 18 a 20 anos sobre os ombros, o que é um peso ainda muito leve, desprezamos o passado, rimo-nos do presente, e entregamo-nos descuidados a essa confiança cega no dia de amanhã, que é o melhor apanágio da mocidade.

— Sabes que mais? continuou o amigo do Leonardo, vem conosco, e não te hás de arrepender.

— Mas com vocês, para onde?

— Para onde? Sem dúvida algum partido melhor tens a escolher? queres fazer cerimônias?

Começava a cair a noite.

— Vamos levantar a súcia, minha gente, disse um dos convivas.

— Sim, vamos.

— Nada, inda não: Vidinha vai cantar uma modinha.

— Sim, sim, uma modinha primeiro; aquela: Se os meus suspiros pudessem.

— Não, essa não, cante antes aquela: Quando as glórias que eu gozei.

— Vamos lá, decidam, respondeu uma voz de moça aflautada e lânguida.

Vidinha era uma mulatinha de 18 a 20 anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco descansada, doce e afinada.

Cada frase que proferia era interrompida com uma risada prolongada e sonora, e com um certo caído de cabeça para trás, talvez gracioso se não tivesse muito de afetado.

Assentou-se finalmente que ela cantaria a modinha: Se os meus suspiros pudessem.

Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:

Se os meus suspiros pudessem

Aos teus ouvidos chegar,

Verias que uma paixão

Tem poder de assassinar.

Não são de zelos

Os meus queixumes,

Nem de ciúme

Abrasador;

São das saudades

Que me atormentam

Na dura ausência

De meu amor.

O Leonardo, que talvez hereditariamente tinha queda para aquelas coisas, ouviu boquiaberto a modinha, e tal impressão lhe causou, que depois disso nunca mais tirou os olhos de cima da cantora. A modinha foi aplaudida como cumpria. Levantaram-se então, arrumaram tudo o que tinham levado em cestos, e puseram-se a caminho, acompanhando o Leonardo o farrancho.

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