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Memórias de um Sargento de Milícias

Manuel Antônio de Almeida

TOMO II

CAPÍTULO VIII

NOVOS AMORES

Chegaram todos depois de longo caminhar, e quando já brilhava nos céus um desses luares magníficos que só fazem no Rio de Janeiro, a uma casa da rua da Vala. Naqueles tempos uma noite de luar era muito aproveitada, ninguém ficava em casa; os que não saíam a passeio sentavam-se em esteiras às portas, e ali passavam longas horas em descantes, em ceias, em conversas, muitos dormiam a noite inteira ao relento.

Como os nossos conhecidos já tinham dado um grande passeio, adotaram o expediente das esteiras à porta, e continuaram assim pela noite em diante a súcia em que haviam gasto o dia, pois aquilo que Leonardo vira nos Cajueiros, e em que também tomara parte, era o final de uma patuscada que havia começado ao amanhecer, de uma dessas romarias consagradas ao prazer, que eram então tão comuns e tão estimadas.

Agora devemos dar ao leitor conhecimento da nova gente, no meio da qual se acha o nosso Leonardo. Se nós pudéssemos socorrer aqui do amigo José Manuel, sem dúvida nos desfolharia ele toda a árvore genealógica dessa família a quem o amigo do Leonardo chamava a sua gente: porém contentem-se os leitores com o presente sem indagar o passado. Saibam pois que a família era composta de duas irmãs, ambas viúvas, ou que pelo menos diziam sê-lo, uma com três filhos e outra com três filhas; passando qualquer das duas dos seus quarenta e tantos; ambas gordas e excessivamente parecidas. Os três filhos da primeira eram três formidáveis rapagões de 20 anos para cima, empregados todos no Trem; as três filhas da segunda eram três raparigas desempenadas, orçando pela mesma idade dos primos, e bonitas cada uma no seu gênero. Uma delas já os leitores conhecem; é Vidinha, a cantora de modinhas; era solteira como uma de suas irmãs; a última era também solteira, porém não como estas duas. O amigo do Leonardo que explique o que isso quer dizer, e explicando dará também a conhecer o que era ele próprio na família. Os mais que se achavam presentes eram pela maior parte vizinhos que se reuniam para aquelas súcias, que eram tradicionais na família.

Quando chegaram à casa, o amigo do Leonardo tomou as duas velhas de parte, e começou a conversar com elas, sem dúvida a respeito do Leonardo, pois que o olhavam todos três durante a conversa; e mesmo quem tivesse o ouvido atilado teria escutado às velhas estas palavras:

— Coitado do moço!...

— Ora, vejam que pai de más entranhas!...

Outro qualquer que tivesse mais idade, ou antes, falando claro, mais juízo e outra educação, envergonhar-se-ia talvez muito de achar-se na posição em que se achava o Leonardo, porém ele nem nisso pensava, e o que é mais, nem mais pensava naquilo que até então lhe não saía da cabeça, isto é, em Luizinha de um lado e José Manuel do outro: agora não via senão os olhos negros e brilhantes, e os alvos dentes de Vidinha; não ouvia senão o eco da modinha que ela cantara. Estava pois embebido num êxtase contemplativo.

No mais pensaria quando lhe restasse tempo.

Mal se haviam todos sentado em uma larga esteira junto à soleira da porta sobre a calçada, o Leonardo propôs logo que se cantasse uma nova modinha.

— Qual... respondeu Vidinha acompanhando este qual da sua costumada risada; estou já tão cansada... que nem posso!

— Ora... ora... disseram umas poucas de vezes. Além do costume das risadas tinha Vidinha um outro, e era o de começar sempre tudo que tinha a dizer por um qual muito acentuado; respondeu ainda portanto:

— Qual... pois se eu também já cantei tudo que sabia. Qual, meu Deus! nem eu posso mais!

— Ainda não cantou a minha favorita, disse um dos presentes.

— Nem a minha, disse outro.

— Eu também, acrescentou outro, ainda não lhe pedi aquela cá do peito.

— Qual, meu Deus! onde é que isto vai parar!

— Ora, mana, não se faça de boa.

— Ai, criatura, disse uma das velhas, quereis que vos reze um responso para cantardes uma modinha?

Leonardo, vendo a sua causa advogada por tantas vozes, conservou-se calado. Tentados mais alguns meios, e feitas mais algumas negaças, Vidinha decidiu-se, e tomando a viola cantou, segundo a indicação de uma das velhas, o seguinte:

Duros ferros me prenderam

No momento de te ver;

Agora quero quebrá-los,

É tarde não pode ser.

Este último passo acabou de desorientar completamente o Leonardo: ainda bem não tinham expirado as últimas notas do canto, e já, passando-lhe rápido pela mente um turbilhão de idéias, admirava-se ele de como é que havia podido inclinar-se por um só instante a Luizinha, menina sensaborona e esquisita, quando haviam no mundo mulheres como Vidinha.

Decididamente estava apaixonado por esta última.

O leitor não se deve admirar disto, pois não temos cessado de repetir-lhe que o Leonardo herdara de seu pai aquela grande cópia de fluido amoroso que era a sua principal característica. Com esta herança parece porém que tinha ele tido também uma outra, e era a de lhe sobrevir sempre uma contrariedade em casos semelhantes. José Manuel fora o primeiro; vejamos agora qual era, ou antes quem era a segunda.

Se o leitor pensou no que há pouco dissemos, isto é, que naquela família haviam três primos e três primas, e se agora acrescentarmos que moravam todos juntos, deve ter cismado alguma coisa a respeito. Três primos e três primas, morando na mesma casa, todos moços... não há nada mais natural; um primo para cada prima, e está tudo arranjado. Cumpre porém ainda observar que o amigo do Leonardo tomara conta de uma das primas, e que deste modo vinha a haver três primos para duas primas, isto é, o excesso de um primo. À vista disto o negócio já se torna mais complicado. Pois para encurtar razão, saiba-se que haviam dois primos pretendentes a uma só prima, e essa era Vidinha, a mais bonita de todas; saiba-se mais que um era atendido e outro desprezado: logo, o amigo Leonardo terá desta vez de lutar com duas contrariedades em vez de uma.

Mas por ora de nada sabia ele, e entregava-se tranqüilo às suas emoções sem se lembrar do que qualquer se lembraria, que entre primos e primas há assim um certo direito mútuo em negócio de amor, que muito prejudica a qualquer pretendente externo.

Gastaram grande parte da noite ali sentados, e trataram de recolher-se já muito tarde.

O amigo do Leonardo, a quem daqui em diante trataremos pelo seu próprio nome de Tomaz com o apelido — da Sé — ambos herdados de seu pai, declarou que o seu amigo ficava ali por aquela noite, por já ser muito tarde; quis assim poupar-lhe um vexame, e mostrou nisto ser bom amigo.

Agora que o nosso Leonardo está instalado em quartel seguro, vamos ocupar-nos de alguma coisa de importante que havíamos deixado suspensa.

TOMO II

CAPÍTULO IX

JOSÉ MANUEL TRIUNFA

A comadre correra toda a cidade, e em parte alguma encontrara o Leonardo; enquanto cansava-se assim a procurá-lo, estava ele tranqüilo e descansado mirando-se nos olhos de Vidinha, regalando-se a ouvir modinhas, como sabem os leitores, sem se lembrar do que ia pelo mundo.

A pobre mulher, depois de muito cansada, foi ter à casa de D. Maria. Era já noite fechada.

Quando ela entrava saía o mestre-de-reza que acabava de dar a sua lição às crias de casa. A comadre há algum tempo que andava desconfiada do mestre-de-reza; combinando o que por aí se dizia do seu crédito com certas coisas que tivera ocasião de presenciar, estava quase a concluir que era ele emissário de José Manuel junto à corte de D. Maria. Não gostou portanto do encontro, e doeu-lhe o cabelo vê-lo sair àquela hora, pois que de ordinário as lições não se demoravam até tão tarde; e para metê-lo à bulha disse-lhe:

— A lição hoje foi comprida, devoto... as raparigas parece que gostam mais da cambetice do que da reza.

— Não, respondeu o velho com sua voz fanhosa, elas não vão mal, empacam em alguns lugares, mas sempre vão indo; bem sabe também que sempre trago comigo o santo remédio.

E afagou o cabo da palmatória com que sempre andava armado.

— Ah! então esteve o devoto de conversa; gosta também de dar à língua...

— Não desgosto; mas também não digo senão aquilo que sei, isto é, aquilo que ouço; os outros gastam o seu tempo a ver e a ouvir; eu, como não posso senão ouvir, emprego a falar o que os mais empregam a ver; falo, e falo muito; mas que quer se me sobra tempo para isso; e demais, bem sabe que não é trabalho que canse. Meus pais eram Algarves, e eu não quero desmentir a minha paternidade.

— Então já sei que hoje desenterraram-se mortos e enterraram-se vivos; pois eu não posso fazer outro tanto, porque vou aqui muito e muito zangada de minha vida. Se o devoto, como é homem que muito gira por toda esta cidade, souber por aí notícias de meu afilhado Leonardo, queira vir dar-me parte, pois saiu-nos ele hoje de casa lá por causa de umas histórias, e não sei por onde andará dando com os ossos.

— Ora, isto fica por minha conta; não há nada mais fácil do que dar com ele.

E aqui terminou esta conversa que tinha lugar na porta da rua, e com a qual não ficara a comadre muito contente. D. Maria, que ouvira tudo, veio ao encontro da comadre, e foi-lhe logo dizendo antes de lhe dar tempo de tirar a mantilha:

— Então já o rapaz não está em casa? Senhora, aquilo é gênio, nasceu com ele, e com ele há de ir à sepultura. Bem me diziam o que ele era, e apesar do seu ar sonso nunca lhe fiz fé.

— Adeus, que me está a senhora a pôr culpas em quem não as tem; o rapaz desta vez tem toda a razão...

— Ora, histórias da vida; isso diz você porque o estima como se fosse sua mãe; mas vá com esta que eu lhe digo: os rapazes de agora andam de cabeça levantada... Mas o defunto padrinho — Deus lhe fale n’alma — foi o próprio que teve culpa de tudo isso com aquelas fumaças de Coimbra que lhe meteu na cabeça...

— Mas, senhora de Deus, se o bruto do pai até chegou a corrê-lo de espada na mão...

— Que tal não faria ele! mas que tinha isso? o pai não o havia esquartejar... por certo, que eu bem lhe conheço o gênio; aquilo era raiva, e havia de passar; devia ele sujeitar-se... sempre é seu pai.

— Com a Virgem Santa! pois se tudo isso foi por uma coisa de nada, por causa de uma almofada de renda... Isto é coisa em que se creia?!... E agora para onde é que há de ir aquele coitado?...

— Há de estar por aí metido em algum fado de ciganos; não se lembra do que ele fez quando o padrinho era vivo?

— Ora, criançadas... para que falar nisso?

Este diálogo ia continuando interminável sobre o mesmo assunto, quando D. Maria, mudando repentinamente de conversa, disse à comadre:

— Ora, é verdade, sente-se para cá que temos contas que ajustar...

— Contas!...

— E muito compridas, começo por dizer, acrescentou D. Maria, que não parecia estar nesta ocasião de muito bom humor; começo por dizer-lhe mesmo na bochecha que quando for à confissão este ano trate de desobrigar-se de um grande pecado que cometeu.

— E eu que já não tenho poucos: mas então o que é?

— É um aleive, senhora, um aleive muito grande que levantou a pessoa que tal não merecia.

A comadre não precisou de mais nada para conhecer onde é que tudo aquilo ia parar; o aleive mais moderno de que a acusava a sua consciência bem sabia ela qual era. Começou a ver tudo claro como o dia; viu José Manuel justificado completamente aos olhos de D. Maria a respeito da história do roubo da moça no Oratório de Pedra, e viu também como medianeiro dessa justificação o cego mestre-de-reza. Ficou pois visivelmente incomodada; volvia-se de um para outro lado, como se estivesse cheia de espinhos a banquinha em que estava sentada, e teve um forte acesso de tosse quando D. Maria acabou de pronunciar aquelas últimas palavras.

— Tudo quanto me disse a respeito de José Manuel naquela história do roubo da moça, continuou D. Maria fazendo-se vermelha, o que era nela mau sinal, é falso, e muito falso. Sei isto de parte muito certa...

Novo acesso de tosse acometeu a comadre.

— Pois olhe, prosseguiu D. Maria, tinha eu dado todo o crédito, tanto que havia rompido por um excesso com o pobre do homem, mas não caio noutra; esta me serviu de emenda.

A comadre viu que o vento se lhe ia tornando absolutamente contrário; compreendeu que D. Maria estava muito bem informada, e que inútil seria qualquer sustentação que pretendesse fazer de tudo quanto havia avançado; isso só serviria para agravar-lhe a posição.

Forjou pois repentinamente um novo plano e disse:

— Não me dá nada de novo, senhora; sei muito bem de tudo; o homem está nesse negócio como Pilatos no Credo.

— Mas lembre-se que me havia dito que tinha visto com seus próprios olhos.

— Ah! senhora, era o diabo por ele; nunca vi coisa assim tão parecida. Outro dia porém soube de tudo, e agora estou arrependida.

— Mandei por isso chamar o pobre homem, continuou D. Maria, que, de ofendido que estava com o modo por que eu o tratava, custou muito a vir, e abri-me aqui com ele.

E uma coisa lhe digo, é que a comadre não está bem no negócio; ele expôs-me certas coisas... a que eu enfim não quis dar crédito.

— Pois então a senhora lhe disse que eu é que...

— Não fui eu quem lhe disse; ele já o sabia, e não era possível negar-lho. Foi então que ele me quis abrir os olhos sobre outros pontos...

A comadre, que via todo o caldo entornado naqueles outros pontos, tratava de desviar a conversação, fazendo que não dera atenção a essas últimas palavras.

— Mas então, perguntou, por quem foi que soube como tinha sido o negócio? quero ver se combina cá com o que sei.

— Ainda há pouco acabou de sair daqui quem me pôs o negócio todo em pratos limpos.

— Ah! disse a comadre.

E mordeu os beiços, fazendo um gesto que queria dizer: "nunca me enganei"!

D. Maria prosseguiu contando à comadre, que, tendo falado em semelhante negócio ao mestre-de-reza, ele lhe havia negado tudo quanto esta lhe dissera a respeito de José Manuel; que muito tempo lutara com o velho para que lhe dissesse o que sabia a respeito e em que fundava a denegação que fazia; que, finalmente, depois de grande resistência, lhe tinha ele trazido à casa, mesmo no dia antecedente, o pai da moça, que tudo confessara, declarando até o nome da pessoa com quem se achava sua filha, que ele já conhecia, e com quem tinha feito as pazes.

— É exatamente o que eu sabia, disse a comadre no fim da narração; foi tudo assim mesmo. Veja, senhora, a que está sujeita a gente nesta vida: a levantar falsos aos mais.

Agora informemos ao leitor que tudo que se acabava de passar tinha sido com efeito obra do mestre-de-reza. Pouco a pouco se tinha instruído do que se passava em casa de D. Maria a respeito do seu cliente José Manuel; tinha conseguido saber quem havia armado a intriga; indagou também o que se passava em casa de Leonardo-Pataca; e como lá se falava um pouco alto a respeito das pretensões de Leonardo, combinando umas coisas com outras, chegaram à conclusão certíssima daquilo que com efeito se passara.

D. Maria pareceu dar crédito ao arrependimento da comadre, e começou-lhe a aplacar o humor um pouco desabrido em que se achava.

Voltaram à questão da saída do Leonardo de casa, e desta vez já D. Maria não se mostrou tão inflexível para com o rapaz. Entretanto à comadre não lhe saíram da cabeça aquelas palavras de D. Maria: abriu-me os olhos sobre outros pontos; e depois que viu D. Maria mais apaziguada, tentou chamar de novo a conversa para esse ponto, e como que pedir explicações. Ela previa a significação daquelas palavras, sem dúvida nenhuma que se referiam às suas pretensões ou às de seu afilhado sobre Luizinha, porém queria saber as cores com que esse negócio tinha sido pintado a D. Maria por José Manuel.

Isso foi-lhe porém fatal, porque soube (o que lhe não foi nada agradável) que o negócio estava muito mal parado a respeito do seu afilhado, e pelo contrário muito adiantado a favor do seu adversário. D. Maria, depois de declarar que José Manuel se tinha queixado da comadre, atribuindo-lhe tudo que se havia passado, que não era mais do que uma intriga urdida com o fim de o apartar de sua casa, porque tinham sobre ele caído suspeitas, que confessava justas, acrescentou finalmente que José Manuel, completamente justificado, graças à intervenção do mestre-de-reza, acabara por lhe dar a entender alguma coisa a respeito de Luizinha, o que D. Maria confessou não lhe ter sido totalmente desagradável, porque enfim, segundo alegava, José Manuel era um homem sisudo e de juízo, tinha corrido mundo, e não era nenhuma criançola (esta palavra doeu à comadre) que não fosse capaz de tratar bem de uma moça. A comadre descoroçoou completamente com estas últimas declarações; porém o que fazer na ocasião? Ela mesma tinha há pouco confessado o risco em que se está a cada momento de ser injusto com o próximo, e não podia sem risco aventurar, pelo menos naquela ocasião, alguma coisa contra José Manuel, tanto mais que tão mal se havia saído da primeira intriga que armara. Contentou-se pois com repetir uma observação que D. Maria mesma lhe havia feito há pouco tempo, e disse, referindo-se a Luizinha:

— Gente, pois aquela criança já está para essas!...

— Sim, respondeu D. Maria, está ainda verdezinha, mas também isso não é sangria desatada.

A comadre respirou, pois viu que ainda havia tempo a ganhar.

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