"O circo é como o trem: uma coisa romântica, de uma grande ternura, do passado. É uma coisa prática para o povo. Você vai à vontade. O circo tem de ser preservado. É uma dessas coisas que jamais deveriam terminar."
Dercy Gonçalves

Capa do livro Circo Nerino. Editado pelo SESC, São Paulo.
Há registros, segundo o autor Antonio Torres, em seu livro O circo no Brasil, de que a arte circense remonta a antes da era Cristã, e que suas raízes estão nos hipódromos da Grécia antiga e no grande Império Egípcio. No Egito, os primeiros sinais da arte circense estão gravados nas pirâmides, com desenhos de domadores, equilibristas, malabaristas e contorcionistas.
Os espetáculos desse período eram como as procissões, que tinham o objetivo de saudar os generais vitoriosos. Nesses cortejos, havia a doma, o desfile de animais exóticos e soldados conduzindo os novos escravos, além de apresentações em argolas e barras, que lembravam números da moderna ginástica olímpica. No início, a arte circense tinha uma forte relação com esse esporte, com números baseados em saltos e acrobacias.
Também há registros, com mais de 4 mil anos, do desenvolvimento da arte circense na China, onde a acrobacia era bastante popular. Relatos dão conta que no ano 108 a.C., já havia um festival anual de arte circense com novas atrações a cada ano. Foi aí que apareceram os números da corda bamba e do equilíbrio sobre as mãos.
Oleg PopovMas foi na Europa que o circo ganhou força e se desenvolveu. Os espetáculos tomaram impulso ainda no Império Romano, quando seus anfiteatros recebiam apresentações de habilidades (mais tarde classificadas como circenses). A importância e a grandiosidade desse espetáculo pode ser atestada pelo Circo Máximo de Roma, construído onde hoje estão as ruínas do Coliseu Romano.

Capa do livro El Circo Soviético.
Com a decadência do Império Romano, os artistas circenses ganham espaço nas praças públicas, nos adros das igrejas e, sobretudo, nas feiras. "... ela (a feira) foi o lugar onde a arte circense permaneceu, de Roma a Philip Astley."(CASTRO,1998:p.17). Esses circos, agrupados em pequenas companhias, rodavam vilas, cidades e castelos, em busca de público e de sustento. Nessa época os circos não tinham a mesma organização dos nossos dias, com cobertura de lona, arquibancadas e picadeiro, Mas já apresentavam números que permanecem até hoje, como engolidores de fogo, truques mágicos e malabarismos. " Já o circo, como nós o conhecemos - um picadeiro, lonas, mastros, trapézios, desfiles de animais - é a forma moderna de antiquíssimos entretenimentos de diversos povos e culturas."(CASTRO,1998: p.16).
Para melhor compreensão, deve-se fazer separação entre o circo e a arte circense. A arte circense é o resultado de performances artísticas desenvolvidas em diversos países ao longo do tempo. Essas performances incluem: habilidades físicas, equilíbrio na corda bamba, saltos mortais, contorcionismo; elementos de teatro e dança; e habilidades em geral: andar em monociclo, domar animais, etc.
Já o circo, o local físico, onde são feitas as apresentações de arte circense, sofreu várias modificações. O seu conjunto, com formato arredondado, picadeiro, cobertura de lona e cercado de arquibancadas, só foi criado em 1770, dando origem ao circo moderno, que é o que conhecemos hoje em dia.

Platéia: Circo Nerino
Segundo a pesquisadora Alice Viveiros de Castro, é consenso entre os historiadores reconhecer que o pai do circo moderno foi Philip Astley, suboficial inglês que comandava apresentações da cavalaria. Em seu circo, além das atrações com cavalos, Astley colocou saltimbancos, saltadores e palhaços. Entretanto, este circo tinha uma estrutura fixa, diferente dos circos modernos atuais.
Astley começou a difundir o circo moderno e abriu uma filial em Paris, após convite para apresentar-se para o rei da França. Só mais tarde, alguns países da Europa como Suécia, Espanha, Alemanha e Rússia, começaram a desenvolver sua arte circense. Em apenas cinqüenta anos o circo moderno já tinha se espalhado por todo o mundo.
Antes de falar do circo no Brasil, vale destacar a chegada do circo aos Estados Unidos, primeiro país das Américas a receber esta atração. Foi lá que o circo moderno tornou-se móvel. A idéia foi de um homem chamado Barnum, que passou a viajar de trem com seu circo, parando nas cidades para fazer apresentações. Também nos Estado Unidos, o espetáculo ganhou números esdrúxulos, como a famosa mulher barbada.
Documentos apontam que no século XVIII, antes mesmo da criação do circo moderno, já haviam grupos circenses no Brasil. Normalmente, essas companhias eram formadas por ciganos, expulsos da Península Ibérica. Em suas apresentações eles faziam de tudo: doma de animais, números de ilusionismo e até teatro de bonecos. O circo moderno só chegou ao Brasil a partir de 1830. Incentivadas pelos ciclos econômicos do café, borracha e cana-de-açúcar, grandes companhias européias vinham apresentar-se nas cidades brasileiras. Foram essas companhias que ajudaram a formar as primeiras famílias de circo, que passaram a ser as responsáveis pelo desenvolvimento do circo moderno no Brasil.
Eram realmente famílias, com laços consangüíneos, que sustentavam esta atividade. Pai, avô, filho, sobrinhos e netos eram responsáveis por tudo, desde a infra-estrutura e montagem do circo, até o espetáculo. Sempre foram mantidos os números clássicos, como o do engolidor de fogo ou o da corda bamba, mas foram criadas também novas atrações, já enquadradas à cultura do povo brasileiro.
Até a pouco tempo, esta era a situação dos circos no Brasil. Mas diversos fatores levaram a uma mudança na sua organização e administração. Com o surgimento dos grandes centros urbanos e o desenvolvimento tecnológico, apareceram também novas formas de entretenimento, como a televisão, cinema, teatro e parques de diversão. Com isso, o circo foi perdendo espaço e público. "Na verdade, o circo adaptou-se aos novos tempos da mass media. Tornou-se performático. Mas sem esquecer a maioria das atrações de antigamente."(TORRES,1998: p.45).
A primeira mudança foi na relação familiar. Agora, os pais preferem que seus filhos se dediquem aos estudos, ao invés de se dedicarem apenas à arte circense. Os pais passaram a perceber que, com estudo, seus filhos continuariam trabalhando no circo, mas agora como proprietários de uma empresa, e não apenas como artistas. Esta atitude acabou trazendo duas conseqüências: a primeira, diz respeito à visão que estes "novos empresários" têm do circo. Menos sentimentais, para eles o circo é um negócio que tem que dar lucro. A segunda é que, para suprir a demanda de artistas, já que as famílias circenses agora cuidavam da administração, surgiram as escolas de circo, que formam novos artistas. Eles não fazem parte da família. A relação é apenas de patrão e empregado. Igual a um funcionário, que trabalha em troca de salário.
Hoje, estas mudanças se refletem em vários circos brasileiros, como Beto Carrero, Circo Garcia, Orlando Orfei, Circo Vostok e outros. As velhas famílias, que faziam de tudo, ainda continuam nos circos, mas agora na administração de verdadeiras empresas.
As mudanças ocorridas na administração do circo moderno ajudaram a criar também uma nova categoria de circo. Conhecidas como "novo circo", estas companhias não têm picadeiro, nem lona, nem arquibancadas e se apresentam, na maioria das vezes, em teatros ou casas de espetáculo. Nas apresentações, há inovações na linguagem, com a incorporação de elementos de dança, teatro e música. Um exemplo desse tipo de circo é o Cirque du Soleil, do Canadá. No Brasil, há vários grupos desse gênero, como o Intrépida Trupe, Fratellis, Teatro de Anônimos e Nau de Ícaros.
Porém, à margem de todas estas grandes transformações, ainda há os pequenos circos, que não conseguiram se "modernizar", mas que resistem, fazendo apresentações nas pequenas cidades do interior e bairros da periferia das grandes cidades. Nesses circos, com pequenas estruturas, as famílias ainda trabalham como antigamente, fazendo de tudo. Os espetáculos são simples. São raras as apresentações com animais, que custam caro, ou com equipamentos grandes e sofisticados. Esses pequenos circos, ainda com sentimentalismo e, certamente, um pouco de saudosismo, continuam no picadeiro, com a certeza de que fazer sorrir ainda é o melhor remédio pra não deixar a tradição acabar.
Fonte: www.facom.ufba.br
Quando e onde começa a história do Circo
Mais do que um divertimento, procurar a resposta para essa pergunta tem sido um exercício de imaginação para pesquisadores e historiadores do Brasil e do mundo. Imprecisos, os antecedentes históricos do circo estão envoltos em lendas e versões desencontradas.
“ A rigor é muito difícil, de fato, precisar a data de origem dos espetáculos, em recintos abertos ou fechados, que marcam o surgimento do gênero”.
Escreve Roberto Ruiz em seu livro “Hoje tem espetáculo?”, no qual, com muita graça, levanta uma hipótese curiosa: o remoto ancestral do artista de circo deve ter sido aquele troglodita que, num dia de caça surpreendentemente farta, entrou na caverna dando pulos de alegria e despertando, com suas caretas, o riso dos seus companheiros de dificuldades.
Uma versão que leva a outra: tudo pode ter começado mesmo com o primeiro homem a fazer uma brincadeira engraçada, o que hoje chamamos de palhaçada. Não é a toa que o palhaço é a alma do circo.
Há registros de que o circo tem suas raízes nos hipódromos da Grécia antiga e no grande Império egípicio, onde já havia a doma de animais. Os espetáculos começavam com uma procissão solene e apresentavam cortejos que celebravam as voltas das guerras, com o desfile de homens fortes conduzindo os vencidos como escravos e animais exóticos que demonstravam o quão longe os generais vencedores tinham ido.
Diversos números circenses faziam parte das Olimpíadas , justificando a relação forte que tem o circo com o esporte, a ginástica olímpica e as suas categorias, como barras, argolas, solo, solo, etc.
No Coliseu de Roma eram apresentadas muitas excentricidades. Homens louros nórdicos, animais exóticos, engolidores de fogo, gladiadores, etc. O Império Romano entrava no primado do pão e circo. Ao tempo de Nero (imperador de Roma de 54 á 68 dc), as arenas passam a ser ocupadas por espetáculos sangrentos, com a perseguição aos cristãos, que são atirados às feras. Isso provocou uma queda no interesse pelas artes circenses que se prolongou por muito tempo. Os artistas passaram a improvisar suas apresentações em praças públicas, feiras e entradas das igrejas.
Os chineses porém tem outra versão: “foi na China que tudo começou”. e com a arte acrobática, tão antiga quanto a sua música, a sua dança e o seu teatro. A acrobacia chinesa já existia na sociedade primitiva, quando se celebrava um torneio chamado “ A batalha contra Chi-hu” (Chi-hu era o nome de um chefe de tribo).
Tratava-se de um exercício de batalha, com os participantes portando chifres nas cabeças, arremetendo uns contra os outros em grupo de dois ou três. Conhecido como o “jogo das cabeçadas” na era do imperador Wu, da dinastia Han (220-206 AC), transformou-se e passou a homenagem a visitantes estrangeiros. Eles foram brindados com apresentações acrobáticas tão surpreendentes que o imperador decidiu que a partir dali, todos os anos, seriam realizados espetáculos do gênero durante o Festival da Primeira Lua.
O primeiro circo europeu moderno, o Astley’s Amphiletheatre, foi inaugurado em Londres por volta de 1770 por Philip Astley, um oficial inglês da Calavaria Britânica. O circo de Astley tinha um picadeiro com uma espécie de arquibancada perto. Construiu um anfiteatro suntuoso e fixo, pois ficaria permanentemente no mesmo lugar. Organizou um espetáculo eqüestre , com rigor e estrutura militares, mas percebeu que para segurar o público, teria que reunir outras trações e juntou saltimbancos, equilibristas, saltadores e palhaço. O palhaço do batalhão era um soldado campônio, que acaba sendo o clown e que inglês, origina de caipira. O palhaço não sabia montar, entrava no picadeiro montado ao contrário, caía do cavalo, subia de um lado, caía do outro, passava por baixo do cavalo. Como fazia muito sucesso, começaram a se desenvolver novas situações. Ao longo dos anos, Astley acrescentou saltos acrobáticos, dança com laços e malabarismo.
Este primeiro circo funcionava como um quartel: Os uniformes, o rufar dos tambores, as vozes de comando para a execução dos números de risco. O próprio Astley dirigia e apresentava o espetáculo, criando assim, a figura do mestre de cerimônias.
Fonte: www.petecaecia.com