Olho e vejo através dos óculos
A escura face com óculos
Desse teu retrato antigo:
Fato de brim, engomado
Gravata preta apertada
Só te falta o capacete
De cortiça, todo branco
Para seres o mesmo ser
Prolongado pela vida
Que o Seminário marcou.
Face tocada do rito
Da revelação vivida
(Face dos padres que foram
Flores escuras da Igreja)
Olhar aberto ao mistério
Certo que as chaves do mundo
Sempre às mãos nos vêm dar
Era no tempo em que a vida
Se entretinha e prometia
Nas longas conversas cheias
(Sem verdes) de impossibilidades.
Lembro alguns dos teus amigos
(Fato de brim, capacete)
Os longos passeios dados
Pelos domingos à tarde
Conversa larga e pausada
Repouso nos sítios ermos
Prolongáveis pela vida
Os tempos do Seminário
Com suas marchas ordeiras
Suas falas sussurradas.
Alguns amigos mudaram
(Mal se vê o fato de brim
Ninguém usa capacete)
Tu permaneces o mesmo:
Quando a morte te levou
Havia o mesmo rito
Na tua face parada.
E assim tu ficaste, Pai:
Com teu sorriso incompleto
Na certeza entressonhada.
Olho e vejo através dos óculos
A escura face com óculos
Desse teu retrato antigo:
Sou eu que me vejo ao espelho.
Teu sorriso anda comigo
Na ânsia de completar-se.
Comigo o teu acanhamento
Teu sonho e vida e solidão
E, prolongada na minha,
A tua poesia.
Fonte: betogomes.sites.uol.com.br